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assim, em vez do velho sistema telegráfico, a dispor de quatro formas alter- nativas para o envio de notícias: o telefone, o correio aéreo, o telex e o fax, entretanto introduzido nas redacções (Correia e Baptista, 2007).

Mais tarde, a composição tipográfica informatizada, a justificação dos textos, a facturação também informatizada e o controlo de dados foram apresenta- dos como inovações de primeira linha: «Os radicais avanços tecnológicos nos departamentos de produção e de composição deram uma ligeira ideia do que se avizinhava. Previa-se que o computador não ia ser utilizado apenas para funções de tratamento de dados, mas que viesse a afectar o ambiente do trabalho jornalístico tradicional: a redacção» (Faustino, 2004: 175).

No contexto dos média portugueses, os anos 80 foram marcados por algu- mas linhas de força, das quais se destacam, na imprensa, o sucesso de novos títulos de orientação popular-sensacionalista, a emergência e consolidação dos semanários como principais jornais de referência, o surto do jornalismo económico, e o declínio da imprensa vespertina. De todas as limitações que condicionavam a comunicação social, a mais grave, no entanto, tinha a ver com o reduzido mercado de leitura (Mesquita, 1994). A par disso, observava- -se algumas tendências inovadoras, visíveis na “redescoberta” das páginas e secções culturais, na valorização das edições dominicais e, note-se, no inte- resse pelas informações relacionadas com as novas tecnologias, em especial pela informática.

No sector da rádio, o panorama alterava-se com a multiplicação das chama- das “rádios livres”, locais ou regionais. Em 1986, coexistiam ainda estações licenciadas e estações de FM “piratas”. Sob o ponto de vista tecnológico, a rádio deu alguns saltos, sobretudo através da introdução de equipamen- to digital e de sistemas de gestão informática das emissões. As redacções informatizaram-se. A televisão mantinha-se nas mãos do Estado, mas, em meados da década de 80, recrudescia o debate sobre a necessidade de aber- tura a canais privados. A previsível abertura da televisão ao sector privado levaria a RTP, sobretudo a partir de 1986, a reforçar-se consideravelmente no domínio técnico e a diversificar a sua programação.

No período compreendido entre 1987 e 1994, Reis e Nunes (1994) resumem da seguinte forma as características gerais dos média portugueses: «A pri- vatização dos títulos de expansão nacional da imprensa do sector público, a redução do número de jornais diários, o boom das rádios locais com a consequente diminuição da audiência da rádio pública, que se vê privada entretanto da Rádio Comercial, e, sobretudo, o surgimento dos primeiros canais privados de televisão, acarretando a acentuação do fosso da audiên- cia entre a televisão e os jornais, o desenvolvimento de pequenas e médias empresas no sector audiovisual e a afirmação dos primeiros grupos em- presariais multimedia, são, sem dúvida, as principais dessas novidades.

Paralelamente, a criação da Alta Autoridade para a Comunicação Social, que veio substituir o Conselho da Comunicação Social e o Conselho de Imprensa, e a aceleração da formação a nível universitário de novas gera- ções de jornalistas constituem igualmente dois outros fenómenos a serem levados em conta no universo dos media» (Reis e Nunes, 1994: 396).

Na segunda metade dos anos 80 e na primeira da década de 90 assistiu- -se a «profundas alterações» no sistema dos média em Portugal. Nalguns aspectos, as mudanças convergiram com o processo de digitalização. São dados como exemplos o encerramento, entre 1987 e 1993, de quatro jornais;

a privatização de três jornais diários e de uma rádio nacional; o nascimen- to de uma imprensa especializada em economia; a aprovação da legislação que legalizou as rádios locais, que surgiram às centenas; a abertura do sub- sector televisivo à iniciativa privada. «O desaparecimento de órgãos, por sobredimensionamento e inviabilidade económica, a privatização de alguns de propriedade pública e a abertura da rádio e televisão ao sector privado são as variáveis duma mudança generalizada no sector, onde as tecnologias digitais têm um papel progressivamente importante pela elevada produtivi- dade que permitem» (Fernandes e Cascais, 2006: 6). A imprensa vespertina quase desaparece.

Desde os finais da década de 80, a evolução da comunicação social em Portugal alterou-se profundamente, em quase todos os aspectos, orientando- -se segundo três grandes linhas: reprivatização de quase todos os órgãos

que estavam no sector público, excepto RDP e RTP, e abertura ao capital pri- vado da rádio e da televisão; concentração da propriedade, com a formação de grandes grupos económicos desenvolvidos numa estratégia multimédia com o apoio de capital estrangeiro; comercialização das políticas editoriais, com a introdução em força da lógica do mercado, da concorrência, da luta pelas audiências (Correia, 2000). É de salientar, como realça Correia, que a concentração dos média se desenvolveu no quadro de uma estratégia mul- timédia, em que se procurava juntar num mesmo grupo de comunicação imprensa, rádio e TV. Mais tarde, viria a Internet para dar um impulso às lógicas de convergência, tão em voga no final da primeira década do século XXI.

De 1987 até ao início da década de 90, consolidaram-se os principais grupos de comunicação social portugueses, num contexto de crescimento económi- co e de estabilidade política. O forte crescimento económico verificado no país desde meados da década de 80 sustentou o aumento das receitas publi- citárias e tornou o mercado mais atractivo. Como resultado da privatização dos média nacionais, os grupos de comunicação definiram estratégias para adquirirem posições de relevo nos principais títulos de imprensa. No final dos anos 80, a configuração dos principais grupos como grupos multimédia coincidiu com o início da entrada de capitais estrangeiros nos média por- tugueses, o que fomentou sinergias nas estruturas internas dos grupos de comunicação e conduziu a novas práticas de gestão e de produtos jornalísti- cos estrangeiros na imprensa portuguesa. Em síntese, «nos últimos 20 anos viveu-se um dinamismo dificilmente comparável a qualquer outro período.

As grandes alterações observadas nos últimos anos na indústria dos media, fortemente dependente e alavancada pelas novas tecnologias, permitiram, de certa forma, “queimar” algumas etapas e aproximar a realidade portu- guesa da realidade das empresas de media dos países mais desenvolvidos»

(Faustino, 2004: 7).