Pestalozzi, e por suas obras no campo da educação –, a investigar, em Paris, as ditas mesas que giravam.25
Seus estudos – que, em geral, partiam da observação desses fenômenos e da análise das respostas, que se julgava como fornecidas pelos espíritos, para as questões que eram formuladas por ele – o levaram a publicar, em 1857, o volume intitulado de O Livro dos Espíritos, contando com 501 perguntas e respostas, tendo assinado a obra com o pseudônimo de Allan Kardec.26 O título fazia reverência ao que ele reconhecia como verdadeiros autores (os Espíritos), atribuindo-lhe apenas o mérito de organização da obra, compilação das respostas e disposição dos temas. O livro dava fundamento a uma nova doutrina, a Doutrina dos Espíritos ou o Espiritismo, e surgia com uma proposta de ser ao mesmo tempo ciência, filosofia e religião.
Outras publicações vieram em sequência, ampliando seu corpo doutrinário e compondo a chamada "codificação kardequiana"27. Em 1858, Allan Kardec lança ainda o primeiro número da Revue Spirite (Revista Espírita) e funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – primeira sociedade espírita registrada.
Os primeiros adeptos do Espiritismo surgem rapidamente em Paris, em outras cidades francesas e europeias, e também no Brasil, dando origem a vários grupos de estudo e experimentação.
Até meados da década de 1860 pouco se sabe sobre a entrada e o desenvolvimento do Espiritismo no Brasil. Segundo Machado (1996, p. 57), "a doutrina de Kardec seria apenas um exotismo perigoso, ensaiando seus primeiros passos e penetrando nas brechas abertas pelo magnetismo". O Espiritismo, dessa maneira, teria gozado – pelo menos na capital – de uma sobrevida à sombra não apenas dos seguidores de Mesmer, mas também entre os homeopatas e os socialistas utópicos, muitos dos quais se tornaram os primeiros espíritas.28 Também os franceses parecem ter figurado entre pioneiros do Espiritismo no país – em 1860, por exemplo, foi publicado o primeiro livro espírita no país por um francês radicado no país, Casimir Lieutaud, e em seu idioma nativo: Les temps sont arrivés (Os tempos são chegados)29 (MACHADO, 1996). Em contrapartida, o primeiro livro espírita publicado em português foi a tradução do livro de Allan Kardec O Espiritismo na sua expressão mais simples, lançado em Paris no mesmo ano da edição francesa, 1862, e realizada pelo português Alexandre Canu (WEGUELLIN, 2005). A obra teria sido bem recebida no Brasil.30
Na capital bahiana, no entanto, o Espiritismo surgia já antagonizado pelas autoridades eclesiásticas, empenhadas em combater a "heresia espírita". O principal nome da época era o do ex-militar e jornalista Luiz Olímpio Telles de Menezes (1828-1893), que em 1865 funda, na cidade de Salvador/BA, O Grupo Familiar de Espiritismo – primeiro centro espírita do país. Ele torna-se, ainda, o primeiro editor espírita brasileiro ao publicar traduções em português de alguns textos de Allan Kardec, e ao lançar, em 1869, o Echo d’Além-Túmulo – primeiro jornal espírita, dedicado à propaganda e defesa do Espiritismo.31
Apesar do pioneirismo de Telles de Menezes, é no Rio de Janeiro, a partir da década de 1870, que o movimento surge com mais intensidade e maior visibilidade. Vários são os centros espíritas que começam a surgir – o primeiro da capital foi a Sociedade de Estudos Espiríticos "Grupo Confúcio", em 1973 –, e os espíritas passam a se dividir em duas diferentes ênfases doutrinárias: a dos "científicos" e a dos "místicos". Os "científicos"
28 A esse respeito podem ser consultados os trabalhos de Damazio (1994), Machado (1996), Colombo (1998) e Aubrée e Laplantine (2009).
29 Cassimir Lietaud era diretor do Colégio Francês, um dos mais conceituados da capital do império, e também autor de livro sobre o ensino de língua francesa (MACHADO, 1996).
30 Sobre isso Weguellin sublinha comentários de Allan Kardec na Revue Spirite de 1864: "Verificamos com satisfação que a ideia espírita faz sensíveis progressos no Rio de Janeiro, onde ela conta com numerosos representantes, fervorosos e devotados. A pequena brochura Le Spiritisme à sa plus Simple Expression, publicada em língua portuguesa, contribuiu, não pouco, para ali espalhar os verdadeiros princípios da Doutrina." (apud WEGUELIN, 2005, p. 77-85).
31 Para saber sobre a importância e a atuação de Telles de Menezes para o Espiritismo, assim como os embates com a Igreja Católica, pode-se consultar os trabalhos de Fernandes (1993) e Machado (1996).
estavam mais interessados na experimentação e nos desdobramentos científicos dos fenômenos espirituais, e os "místicos" mais voltados para os aspectos ético-religiosos e sociais da nova doutrina – embora, como sugere Giumbelli (1997), nenhum dos dois estava disposto a assumir posturas absolutas, de serem apenas espíritas científicos ou espíritas místicos.
As traduções das principais obras de Allan Kardec para o português começaram a ser publicadas apenas em 1875 – limitando-se, até então, o seu alcance a alguns setores da elite brasileira. Essas traduções foram realizadas pelo médico e político Joaquim Carlos Travassos (1839-1915), sob o pseudônimo de "Fortúnio", e publicadas pela Editora B. L. Garnier. O trabalho de Travassos também teria influenciado a conversão do também político e médico Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900) que se tornou, na época, um dos espíritas mais influentes do país.
Os médiuns brasileiros, mais do que se submeterem às experimentações, com finalidade de provar ou desmentir os fenômenos ditos espirituais – como ocorreu nos EUA e em vários países da Europa –, estavam atuando como "médiuns receitistas", oferecendo diagnósticos e tratamentos de doenças para as pessoas que lhes procuravam – a clientela não se limitava aos pobres, sem condições de pagar um tratamento médico, mas também entre os mais abastados que atribuía maior eficácia nessa modalidade de medicina.
A grande procura por essas receitas causou embates com a classe médica, que logo se organizou e procurou influenciar para que fossem inseridos no primeiro Código Penal republicano, de 1890, artigos que tornassem ilegais e punissem as práticas espíritas.32 Com a efetivação do novo Código – por força artigos 157, 158 e 159, que considerava crime, entre outros, a prática do Espiritismo – alguns médiuns chegaram a ser presos e alguns centros espíritas fechados. Isto fez com que a prática do receituário mediúnico fosse reduzida e extinta em muitos centros espíritas do país (GIUMBELLI, 1997).33
32 Parte da procura por consultas mediúnicas e receitas pode ser estimada pelos dados indicados por Giumbelli (1997, p. 295, 296) quanto aos números que a FEB teria praticado. Segundo ele, entre 1902 e 1940, o número de consultas foi superior aos 100 mil por ano, chegando a ser maior que 200mil entre 1908 e 1923, chegando a um máximo de 394,5mil em 1923. O número de receitas aviadas chegou a ser superior a 500mil entre 1912 e 1917, até um máximo de 624,8mil.
33 Em verdade, a dimensão da cura no Espiritismo nunca irá desaparecer, ganhando atualizações, por exemplo, nos diversos médiuns que realizavam cirurgias espirituais e as atribuíam ao espírito Dr. Fritz. Entre os médiuns, Zé Arigó (José Pedro de Freitas), foi o mais conhecido. De modo mais discreto, mas não menos procurado se encontram as práticas recorrentes de cura pela imposição de mãos (chamado de "passe") e também das "cirurgias espirituais".
Dentro do contexto de perseguições com setores da Igreja Católica, da classe médica e da polícia, os espíritas, ainda desarticulados como movimento, começam a se organizar. A Federação Espírita Brasileira (FEB), criada em 1884, passará a ocupar uma função de destaque, inicialmente defendendo o movimento, mas posteriormente organizando e dando diretrizes para a criação e modelamento das atividades dos centros espíritas, num esforço de atenuar as perseguições policiais e de propiciar a unificação do movimento que já se mesclava à religiosidade brasileira (GIUMBELLI, 1997), conformando um "espiritismo popular"
(MACHADO, 1996). Cabe registrar a criação do periódico O Reformador, pelo português Augusto Elias da Silva (1848-1903), em 1883 – passando esse periódico a ser, até hoje, seu principal veículo de propaganda e defesa.
Destaca-se, nesse período, a figura de Bezerra de Menezes, que assumindo a presidência da FEB, entre 1885-190034, sai em defesa dos espíritas e do Espiritismo nos jornais (com o pseudônimo Max) e junto às autoridades jurídicas e políticas de então. Apesar do seu esforço, nem a unificação do movimento nem a cessação das perseguições policiais ocorreram logo, mas sua atuação teria contribuído para a futura consolidação desse movimento.35
Até o Estado Novo, com o regime Vargas, os espíritas brasileiros continuaram a enfrentar a ação de diversos atores (católicos, médicos, juristas etc.) que procuravam deslegitimar seu discurso, principalmente acusando o Espiritismo (inclua-se também as religiões afro-brasileiras) de ser a terceira maior causa de loucura (GIUMBELLI, 1997).
Nesse período, o Espiritismo já contava com núcleos enraizados em várias partes do país, com lideranças importantes, e sua expansão, apesar das divergências internas36, ocorria principalmente em torno de trabalhos assistenciais e de caridade (SANTOS, 2004). Até a década de 1930, a maioria das capitais brasileiras e algumas cidades do interior, inclusive em
34 Em 1895 a direção da FEB é passada para Júlio César Leal, mas no mesmo ano renuncia, voltando Bezerra de Menezes a ocupar a função, tendo permanecido até sua morte, em 1900.
35 A atuação de Bezerra de Menezes e os conflitos com autoridades médicas, policiais e judiciais foram bem retratadas em Giumbelli (1997), mas também citadas por Damazio (1994). Para conhecimento da biografia sobre Bezerra de Menezes, pode-se consultar, entre outros, Soares (2006).
36 A principal divergência ocorria entre os que aceitavam ou rejeitavam as teses de Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879), segundo afirmam esses autores o grupo da FEB era francamente roustanguista, publicando até hoje a principal obra de Roustaing, Os Quatro Evangelhos – Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação, originalmente publicada em 1866. Um dos pontos de maior conflito era uma atualização da tese docetista, defendida por Roustaing – sobre Jesus não ter tido um corpo carnal, mas espiritual. Essa divergência é frequentemente destacada pelos autores que historiam o Espiritismo no Brasil.
zonas rurais – como em Santa Maria/MG e na fazenda de Palmela37, em Goiás –, contavam com grupos espíritas bem sedimentados. Seu crescimento, no entanto, foi maior no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul (SANTOS, 2004). A atuação de líderes como Antonio Gonçalves da Silva (1839-1909), o Batuíra, e Caibar Schutel (1868-1938) em São Paulo, e de Eurípedes de Barsanulfo (1880-1918), em Minas Gerais, estimularam o crescimento do Espiritismo em outras partes do país (SANTOS, 2004; AUBRÉE;
LAPLANTINE, 2009).
Retornando a Chico Xavier, recordamos que é nesse momento, ainda de turbulência para o movimento espírita, que a FEB, em 1932, publica seu livro, Parnaso de Além-Túmulo, tornando-o conhecido entre os espíritas e, logo depois, em 1935, vindo a ser mais conhecido pelos brasileiros, quando vira notícia de primeira página em O Globo.
Até Chico Xavier, a psicografia, desse modo, estava principalmente associada ao receituário mediúnico, com finalidade curativa, embora praticada também com finalidade doutrinária, para orientação e instrução do próprio movimento. Mas, de acordo com Rocha (2001), era a primeira vez que uma antologia era atribuída a espíritos de escritores nacionais.
Adiante, passo a destacar apenas mais alguns momentos em que Chico Xavier volta a ser objeto de destaque no cenário público do país.38