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Precisamos aprender a conviver com os fantasmas

No documento Marcelo Jose Derzi Moraes.pdf (páginas 42-52)

Sendo assim, Derrida vai procurar ficar atento a um certo tipo de crise, de um discurso acerca da crise, que tem como base, no tempo de Husserl e de Heidegger, mas também de Valery, uma crise do espírito, que corresponderia, para além do problema da técnica, à chegada dos estrangeiros, da cultura estrangeira, ou seja, à chegada do outro. Essa crise, portanto, pode ter sido determinante para os grandes conflitos e violências cometidas no século anterior. Em suma, se percebemos cada vez mais discursos radicais em relação ao estrangeiro, aos diferentes, e, ao mesmo tempo, a associados a palavra crise, que está em voga nos cenários políticos e midiáticos, não é de se espantar ver ao mesmo tempo, retornar um espectro fascista, racista e xenofóbico (DERRIDA, 1995(a)).

A convivência, nem sempre pacífica, com os espectros, com os quais no mais das vezes nos habituamos, significa aquilo que herdamos de nossa cultura, dos pensamentos sobre o mundo, dos sistemas de conhecimento filosófico, científico, político, das práticas político-sociais que repetimos tantas vezes. Somos todos herdeiros, neste sentido, de todas as produções da humanidade. Nossa herança do mundo reveste-se da dificuldade de aprender a viver, enfim (SOLIS; MORAES, 2014, p. 103).

Antes de adentrarmos ao palco fantasmagórico, devemos lembrar das aulas de física, e compreender que, entre o espectro e a luz, há uma relação de extrema importância. Porém, devemos destacar, antes de falarmos de espectros, a importância de falarmos da luz, a luz que ilumina o palco da história e que, ao focarmos para onde a luz aponta, esquecemos de quem são os responsáveis pelo sistema de luzes e, também, o que deixa de ser iluminado.

Os filósofos sempre voaram em direção à luz, tal como os aleluias, aqueles bichinho da luz da família dos cupins. Esses insetos procuram sempre um lugar para se reproduzir, fazer do seu lugar um lugar de colônia de reprodução. Os filósofos sempre precisaram mirar a luz, para, então, abandonarem as suas asas e não mais voar, não mais criar. Do solo, os filósofos só procuraram reproduzir suas ideias. À vista disso, essas já tinham passado pela purificação da luz.

Na crença de estar iluminado pela luz da sabedoria, de carregá-la para onde for, o filósofo corre o risco de cair na escuridão do dogmatismo, uma vez que a luz ofusca, pois, pode confundir a visão e ver o que não vê (DERRIDA, 2016). A esse respeito, por exemplo, pensemos com Davi Kopenawa, que nos apresenta o espírito do homem branco ocidental, como obscuro, escurecido pela ganância e pelo consumo oriundo de um modo de vida capitalista. Consequentemente, dirá o líder Yanomami, esse modo de ver, o mantém na escuridão, impedindo-lhe de pensar direito.

Há muito barulho e gente por toda parte. O espírito se torna obscuro e emaranhado, não se pode mais pensar direito. É por isso que o pensamento dos brancos está cheio de vertigem e eles não compreendem nossas palavras. O pensamento desses brancos está obstruído, é por isso que eles maltratam a terra, desbravando-a por toda a parte, e a cavam até debaixo de suas cassa. Eles não pensam que ela vai acabar por desmoronar (...) A terra dos brancos está contaminadas, estão cobertas de uma fumaça-epidemia xawara que se estendeu muito alto no peito do céu (KOPENAWA, 1999, p. 20-21).

Em Violência e Metafísica, Derrida nos apresenta a história da filosofia como uma história daluz, mas também, da violência da luz18. Se estamos pensando sob a lógica da

18 Como nossa questão aqui é o espectro, vale observar, que, por outro lado, negar a luz, não colocar a luz por cima, em cima, pode caracterizar uma outra violência. Ressaltamos essa observação devido à falta de luz que a filosofia deixou de lançar sob muitos elementos e realidades marginalizadas, como, por exemplo, a África e o Egito Antigo, pois é também a luz que faz o espectro se tornar espírito.

repetição, já arriscamos a demonstrar, como na história grega da filosofia, ou até antes, no Egito, a metáfora da luz, da resolução da luz, do brilho, do ouro, do sol, sempre comandou a filosofia, acreditando estar iluminando alguma coisa. Como nos explica, por exemplo Descartes, ao dizer que a razão, ou seja, o espírito, é único, tal como o sol que tudo ilumina19. Não é por menos que Platão, em A República, deixará evidente ao mostrar como o Sol se assemelha à ideia do Bem e a Luz à da verdade. Porém, ainda não vimos esses autores desconfiaremque a luz também ofusca.

Fica sabendo que o que transmite a verdade aos objetos cognoscíveis e dá ao sujeito que conhece esse poder, é a ideia do bem. (...) Reconheceras que o Sol proporciona às coisas visíveis, não só, segundo julgo, a faculdade de serem vistas, mas também sua génese, crescimento, sem que ele seja ele mesmo a gênese (PLATÃO, 2001, 509ab).

Além disso, a luz, segundo demonstra Cheike Anta Diop, pode se referir ao predomínio do patriarcado, em sua centralização fálica, ocupando um lugar central tal como o sol que emana sua luz ou, até mesmo, do farol que ilumina. Eque, também, de forma fálica, é aquele que ocupa o centro e o lugar que irradia a luz. Enquanto o feminino ocuparia as trevas, as profundezas, lugar onde precisa ser penetrado pela força fálica da luz. Diop, inclusive, percebe a relação entre luz e espírito, o que será determinante para a constituição do Ocidente, enquanto uma sociedade completamente violenta em relação à mulher e ao feminino.

O patriarcado é superior ao matriarcado: é antes de mais espiritualidade, luz, razão, delicadeza. É simbolizado pelo sol, pelas elevações celestiais onde reina uma espécie de espiritualidade etérea. Em contrapartida, o matriarcado estaria ligado às profundezas cavernosas da terra, à noite, à luz, à matéria, à esquerda que pertence à feminilidade passiva, por oposição à direita, relacionada com a atividade masculina (DIOP, 2014, p. 14).

Se pensarmos que o Ocidente teve seus primeiros rastros constituídos no Egito, podemos alegar que, desde o faraó como o deus-sol, ao sol como deus, da saída da caverna em direção à luz, do abandono das trevas ao renascimento, do rei-sol no absolutismo, das luzes da racionalidade ao Estado absoluto e a democracia como o grande farol, temos aí uma história da repetição, que não é dialética nem teleológica, mas acontecimento, espectralidade.

E essa história assombrou a história nos moldes clássicos, ou seja, a história no sentido logocêntrico, linear, positivista, na qual a luz sempre se fez presente: a luz enquanto razão,

19 Regras para a direção do espírito (DESCARTES, 1985).

enquanto brilho, enquanto revelação, enquanto iluminação, enquanto superioridade, enquanto dia, enquanto democracia, enquanto fenômeno20.

Faz-se a luz. E o dia. (...) A luz (phós), por toda parte onde essa arché comanda e começa o discurso, e da iniciativa em geral (phós, phaínesthai, phántasma, portanto espectro, etc.), tanto nos discursos filosóficos quanto nos discursos de uma revelação (Offenbarung) – ou da revelabilidade (Offenbarkeit), de uma possibilidade mais originária de manifestação. Mais originária, isto é, mais próxima da fonte, da única e mesma fonte. Por toda parte, a luz dita o que, ainda ontem, se acreditava ingenuamente ser possível subtrair e, até mesmo, opor à religião, e cujo futuro deverá ser pensado hoje (Aufklärung, luzes, Enlighttenment, Iluminismo) (DERRIDA, 2000(a), p. 16-17).

Sob a luz que brilha, sobre o brilho do ouro, Shakespeare já anunciava o perigo da ganância, da perdição pela luz. Dito de outra maneira, a luz, o brilho também é aquilo que nos pode desviar, pois, segundo o poeta inglês, o sol é um ladrão que rouba o vasto oceano (Ato V cena III). Ainda em Timeu de Atenas, Shakespeare diz:

Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (...) Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente. Ó deuses!, por que isso? O que é isso, ó deuses? (...) [O ouro]

arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros. Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados;

abençoa o amaldiçoado; torna adorável a lepra repugnante; nomeia ladrões e confere-lhes títulos, genuflexões e a aprovação na bancada dos senadores. É isso que faz a viúva anciã casar-se de novo (...). Venha, mineral execrável, prostituta vil da humanidade (...) eu o farei executar o que é próprio da sua natureza (SHAKESPEARE,Ato V cena III).

Além disso, em outra obra, O mercador de Veneza, Shakespeare dirá: nem tudo que reluz é ouro. Sendo assim, nem todo amarelo é ouro, brilho e riqueza, o amarelo é também, de acordo com o poeta pernambucano Renato Carneiro Campos, em seu poema Tempo Amarelo:

Amarelo é a cor das mesas,dos bancos, dos tambores, dos cabos, das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos. Da charque! Amarelo das doenças, das remelas, dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarreias, dos dentes apodrecidos... Tempo interior amarelo. Velho, desbotado, doente (CAMPOS, 1980).

A luz, portanto, possibilita a aparição do espectro, é como aprendemos nas aulas iniciais de física. Nesse sentido, a relação entre luz e espectro é inevitável. Toda a produção luminosa promovida pela e em nome da filosofia possibilita que a aparição tomasse forma e o espectro torna-se uma ameaça. Distante disso, um deslocamento é produzido, e, se o espectro é aquilo que tem e que pode ou não ser visto, é o órgão ocular que então iluminará com a tentativa de apreender o espectro, pois, considerando o homem iluminado, o cristão carrega

20 Podemos pensar aqui toda as histórias dos excluídos, dos subalternos, dos negros e das mulheres, indígenas e tantos outros que podem ser contados para além do modelo logocêntrico. Sobre essa possibilidade, falaremos no quarto e sexto capítulo.

em seu corpo as luzes, ou o moderno, que carrega em si a maioridade devido a sua racionalidade (as luzes da razão). Eles podem, assim, lançar a luz sobre a coisa.

O órgão da visão começa por ser a fonte da luz. O olho é uma lâmpada. Não recebe a luz, antes a dá. Não é o que recebe ou olha o bem de fora ou para fora como fonte solar de visibilidade – dá a luz de dentro. É portanto o bem tornado bondade, o devir-bom do bem, uma vez que ilumina do interior, a partir do interior do corpo, a saber, a alma (DERRIDA, 2013(a), p. 123).

Para tentar explicar ou demonstrar a estrutura do espectro, Derrida começa por elucidar que antes de tudo o espectr0o possui, nele mesmo, uma força desconstrutora. A estrutura do espectro resiste em primeiro lugar às oposições metafísicas binárias. O espectro é aquilo que não é sensível, nem inteligível, é sem substância e sem essência, nem vivo, nem morto. É aquilo que transita entre o mundo dos vivos e dos mortos, entre o presente e o ausente, ou seja, não possui existência (DERRIDA, 1994(b)).

A espectralidade, viéis estratégico da desconstrução, afirmará Derrida, resiste, tal como o pharmakon e outros quase-conceitos derridianos, às categorias clássicas da filosofia ocidental. Segundo ele, o espectro, no entanto, sempre esteve assombrando, fazendo-se, de uma certa maneira, uma forma de presença-ausente.

Sob a lógica do ver sem ser visto, Derrida nos mostra uma prática estratégica do fantasma que ele denomina como efeito de viseira, fazendo referência ao encontro de Hamlet com o espectro do seu pai no alto da torre, no qual Hamlet vê o corpo do espectro, mas não o espírito, não o que está por trás da viseira. Para além do cálculo, por uma outra temporalidade, o fantasma é aquele que começa pela repetição, sua estrutura é a da iterabilidade, desde sua aparição em Hamlet, outrossim, toda a sua aparição surge em uma dobra da temporalidade (DERRIDA, 1994(b)).

O espectro sempre foi vítima do recalque, declara Derrida. Ele propõe, então, pensar o espectro contra a filosofia, a fim de desconstruir diversos axiomas filosóficos. Marx, por exemplo, foi um filósofo que tentou exorcizar a todo custoa filosofia e os espectros que obsidiavam o seu contemporâneo, o filósofo Max Stirner. Entretanto, Marx era constantemente assombrado e perseguido por fantasmas, por um exército de fantasmas declara Derrida, igualmente como Stirner. Todavia, os dois se declaravam como caçadores de espectros. Porém, observa Derrida, apesar da crítica de Marx a Stirner, o autor de O capitalera envolvido com espectros, de espectros tais como o fetichismo, a ideologia, valor de troca, valor de compra entre outros, como, por exemplo, a própria ontologia.

O que Stirner e Marx parecem ter em comum é a crítica do fantasmal. Todos dois querem pôr um fim à aparição, todos dois esperam consegui-lo. Todos dois visam a alguma reapropriação da vida em um corpo próprio. (DERRIDA, 1994(a), p. 173).

A ontologia de Marx, de acordo com Derrida, precisa ser desconstruída, pois ainda mostra aspectos logocêntricos na sua relação com os fantasmas. Uma vez que, apesar do deslocamento ocasionado pela alienação, a natureza do homem seria o trabalho, natureza perdida pelo homem burguês, no momento em que este se libera do trabalho e passa a explorar o trabalhador. Nesse sentido, Marx combatia os fantasmas, mas também convivia e nos legou uma falange de espectros.

É em O capital que Marx deixará evidente o caráter espectral, com a mística do fetiche, “o devir-fetiche da mercadoria” (1994,199), um caráter irredutivelmente específico do espectro e que não devemos olhar simplesmente uma figura de retórica, dirá Derrida (1994(a), 1999); e onde Marx se pergunta “como descrever em seu surgimento o caráter místico da mercadoria, a mistificação da coisa mesma – e a forma-dinheiro de que a forma simples da mercadoria é o germe (DERRIDA, 1994, 1999) (SOLIS, 2011, p. 170).

A respeito de Marx, dos discursos acerca do fim do comunismo, ou da morte de Marx, Derrida alerta, em sua obra Espectros de Marx, que ele não está promovendo um retorno a Marx, mas um retorno espectral de Marx. Nesse sentido, a lógica espectral (logique spectrale) atua como retorno e não como busca do espectro no recalque, ou seja, retirar do recalque ou do rebaixamento, mas abrir para um acontecimento que libera a vinda do espectro. Não se trata, portanto, de fazer uma psicanálise ou uma genealogia do espectro, observa Derrida. O que está em jogo é como lidar quando o espectro retorna, isto é, como pensar com/o retorno do recalcado. (DERRIDA, 1994(b)). O que não quer dizer fazer uma ontologização dos restos, como observaDerrida (1994(a)), p. 24-25).

A ideia de espectralidade surge com o intuito de abalar a crença e a segurança no conceito de presença. Entretanto, observa-se que o espectro é uma espécie de presença, dirá Derrida, mas que, perpassando o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, transita entre o presente e o ausente. Possui uma estrutura corpórea de devir-corpo do fantasma. Sua temporalidade está para além do presente e de uma anacronia. Sua estrutura permite não ser capturado pela presença presentificada, não se constituindo enquanto identidade e ser, o que impede que seu devir carne se materialize enquanto soberaniedade. É o caso do caráter espectral do Estado.

Espectro é uma forma de presença e o virtual é também uma espécie de presença.

Simplesmente percebe-se que a oposição presença/ausência não funciona mais de maneira tranquilizadora quando se trata do virtual e do espectral. (...) Portanto, o valor de espectralidade é por si próprio desconstrutor, uma força que atrapalha o crer na presença. (...) Quanto mais o espectral e o virtual invadem o campo da

experiência, tanto mais se tem necessidade de reconstituir forças estáveis de identidade, de presença, de consciência, de subjetividade etc. Noutras palavras, não creio que os efeitos de espectralidade vão suprimir o desejo de condições estáveis para a subjetividade, a presença, a identidade (DERRIDA, 2001(a)).

O espectro, dirá Derrida (2001(a)), por estar sempre em trânsito, entre o mundo dos vivos e dos mortos, é o que permite hoje inferir que o espectro de Marx, ou a questão marxiana, retorne dos mortos enquanto espectro. Ou, como veremos mais a frente, nunca, talvez Heidegger tenha tentando, se exorcizou o espírito ou o espectro grego na história da filosofia. Nesse sentido, já que o espectro é da ordem da repetição, pois é sempre um retornante, e já que ele começa por retornar, então não podemos controlar ou prever sua chegada ou sua ida. Cabendo lembrarque para Derrida levantar a questão da espectralidade e do retornante, aponta nesse tema uma primeira dimensão: uma afirmação política, pois, para ele, todas as tentativas de censura, de exclusão e de recalque do espectro se dão porque existe uma realidade inquietante por trás disso (DERRIDA, 1998).

Um espectro, observa Derrida, é sempre animado por um espírito. Entretanto, é necessário distinguir o espírito do espectro. Mas, o devir-corpo, o devir-matéria, o devir-carne do espectro realiza-se quando o espírito encarna no espectro, diz Derrida. Em outras palavras, o espírito depende de ser obsidiado pelo espectro, para, então, aparecer. Por esse motivo Derrida, em seu livro Do espírito, vai argumentar que essa obra trata da aparição, a saber, o espírito obsidiado pelo espectro, que possibilitará a aparição, a revelação do fantasma.

Contudo, o espectro é aquele nem vivo nem morto, vagueia aguardando ser possuído pelo espírito.

Desde que se deixa de distinguir o espírito do espectro, ele toma corpo, encarna-se, como espírito, no espectro. Ou antes, Marx mesmo o esclarece, chegaremos até aí, o espectro é uma incorporação paradoxal, o devir-corpo, uma certa forma fenomenal e carnal do espírito (DERRIDA, 1994(a), p. 21).

O espectro é uma coisa, this thing. Porém, uma coisa que é inominável, não identificável, pois devido à sua invisibilidade, àpossibilidade de identificação, não é, portanto, uma coisa no sentido daquilo que verificável e nominável. Essa coisa que é o espectro não possui corpo nem carne, não possui osso. O espectro é aquilo que embaralha a identificação e a compreensão do sentido diante da sua presença. Ele nos enxerga mas não conseguimos apreendê-lo pelos sentidos. Sendo assim, as tentativas constantes de conjurá-lo nunca são suficientes, porquanto, ele é incapturável.

Ele torna-se, de preferência, alguma “coisa” difícil de ser nomeada: nem alma nem corpo, e uma e outra. Pois a carne e a fenomenalidade, eis o que confere ao espírito sua aparição espectral (...) Esta Coisa que não é uma coisa, essa Coisa invisível entre

seus aparecimentos, não a veremos mais em carne e osso quando ela reaparecer. Esta Coisa olha para nós, no entanto, e vê-nos não vê-la mesmo quando ela está aí (DERRIDA, 1994(a), p. 21-22).

É por este motivo que Derrida opera com a compreensão de uma realidade fantasmática, que, sob a categoria da espectralidade, percebe em todos os campos da sociedade, uma lógica do espectral determinando muitas vezes as condições e os andamentos no que implica os discursos e as práticas políticas. Veremos, nos próximos capítulos, que é sobre uma certa espectralidade ou um jogo de fantasmas dos quais não apreendemos os efeitos espectrais na relação do político, do Estado, inclusive a própria distinção entre Estado e político (DERRIDA, 2001(f), p. 49-56).

A espectralidade decorre do fato de que um corpo nunca está presente para ele mesmo, para aquilo que ele é. Ele aparece desaparecendo, ou fazendo desaparecer aquilo que representa: um pelo outro. Nunca se sabe com quem estamos lidando (DERRIDA, 2007(a), p. 98).

O espectro é o por vir, afirma Derrida. Por esse motivo também, é uma ameaça, pois nunca sabemos quando e quem chega. É no risco, no entanto, que esse espectro tem a possibilidade de tomar corpo, de se corporificar e de se realizar, pois ganhando corpo, já que ele possui em sua estrutura um devir-carne do corpo, o espectro pode resgatar, trazer consigo um passado, algo que estava recalcado, reprimido, mas também, algo novo, uma vez que é sempre direcionado ao futuro. Esses riscos, na chegada do espectro, podem abalar asestruturas sólidas e agarantia do sono tranquilo do presente que espera relaxado o futuro.

A saber, um corpo! Uma carne (Leibe)! Pois não há fantasma, não há jamais devir- espectro do espírito sem, ao menos uma aparência de carne, num espaço de visibilidade invisível, como des-aparecer de uma aparição. Para que haja fantasma é preciso um retorno do corpo, mas a um corpo mais abstrato do que nunca (...) Uma vez a ideia ou o pensamento (Gedanke) destacados de seu substrato, engendra-se o fantasma dando-lhe corpo (DERRIDA, 1994(a), p. 170).

A presença, explica Derrida, é tranquilizante, confortante, apresenta-se como uma resposta à insegurança. Porém, adverte ele, essa suposta aparência de que tudo vai bem, que está tudo seguro e dentro dos eixos, é um sinal de que há uma espectralidade rondando. Essa é, portanto, uma das críticas à filosofia ocidental, que ele chama de metafísica da presença.

Um pensamento pautado na segurança da presença, um pensamento garantido na presença, acreditando dessa forma poder dar conta da realidade.

Por que o espectro é sentido, nos dois casos, como uma ameaça? (...) Se há alguma coisa como a espectralidade, há razões para duvidar dessa ordem tranquilizadora dos presentes, e sobretudo da fronteira entre o presente, a realidade atual ou presente do presente e tudo o que se lhe pode opor: a ausência, a não-presença, a inefetividade, a

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