Gostaria de agradecer à Dirce Solis por ser, acima de tudo, não apenas uma amiga, mas também uma verdadeira professora. Diante dessa observação, que se dá pela lógica da repetição e da iterabilidade, podemos abrir movimentos que coincidem com a proposta do filósofo Jacques Derrida de uma democracia por vir.
Repetir, repetir até ficar diferente
Nesse sentido, o clássico é também a estrutura de uma repetição, de uma cena familiar que repete sempre o mesmo, às vezes o mesmo. Este outro tem uma singularidade própria que não se refere a nada, é diferente em si mesmo.
Do espírito ao espectro
Após revelar Heidegger e mostrar seu carinho pela mente, Derrida relembra a apoteose de Heidegger ao definir a mente como a glorificação de um povo e de uma cultura. Derrida mostra o quanto esse conceito de espírito em Heidegger visa glorificar o poder de um povo, de uma raça, o poder do Ocidente, que acima de tudo tem um poder espiritual (geistige Kraft).
Precisamos aprender a conviver com os fantasmas
É aquilo que se move entre o mundo dos vivos e dos mortos, entre o presente e o ausente, ou seja: não existe (DERRIDA, 1994(b)). Porém, segundo ele, o fantasma sempre assombrou e, de certa forma, tornou-se uma forma de ausência.
Soberanias espectrais
Assim:1 – Não estamos a dizer que não houve democracia na Grécia.2 – Não estamos a dizer que houve democracia no Egipto.3 – O que queremos fazer é trazer à tona outras vozes, isto é, fantasmas que foram evocado na história da filosofia. Mas Romilly nunca afirmará que a democracia é grega, ou que não houve democracia fora do mundo grego, muito menos que foi uma invenção grega.
O mito da democracia ateniense
Além de todas as mutações históricas que desde então afectaram o conceito de democracia e que devem ser rigorosamente tidas em conta, Platão anuncia que “democracia” não é essencialmente nem o nome de um regime nem o nome de uma constituição. Canfora demonstrará em seu livro O Mundo de Atenas (2015) que a democracia nasce da violência e é sustentada pela violência.
O espectro do Ocidente
Durante mais de um século, o Egipto esteve à mercê de convulsões sociais e de anarquia provincial, talvez exacerbadas por invasões estrangeiras; É este momento agitado que é chamado de Primeiro Período Intermediário. Estas palavras remetem à ideia de exclusividade real contrária aos costumes funerários populares, como se o privado tivesse assumido um destino real após um enfraquecimento do poder real. Contudo, foi no final deste período que se iniciou o surgimento de uma intensa produção de literatura antimonarquista, que seria decisiva para o surgimento do Primeiro Período Intermediário (VERCOUTTER, 1980, p. 58).
Além disso, acreditamos que certa crença nos textos sagrados também influenciou a criação de um Egito ditatorial (CARDOSO, 1992). É interessante lembrar que no Egito houve o caso de uma mulher, segundo Heródoto, que ascendeu ao poder estatal. Explicando de outra forma, há sempre a duração da tentativa de dar conta e através da representação, representação por parte de um sujeito falante que fala por e em nome de outro.
Segundo Carreira, os egípcios chamavam o tempo apropriado de Tp, que seria semelhante ao kairós grego. Podemos ver aí a Constituição do Ocidente e um espírito que apontava para o futuro e a formação do mundo europeu. Veremos então que a história do Ocidente, que é a história de um fantasma, também é assombrada por fantasmas.
Embora não se tratasse apenas de educar as pessoas, mas de forjar o espírito das pessoas.
Como se criam fantasmas
Além disso, a ideia de um grego que fomos moldados pelos modernos é, segundo Detienne de Os Gregos e Nós, muito mais uma invenção moderna, perpetuada até hoje por um certo helenomista, alerta ele, do que uma invenção grega , que, quando chega ao fim, com a ideia de um nós grego. Ressaltamos essa ambivalência, ou seja, esse duplo caráter farmacológico da palavra forja, de pensar no momento em que algo se forma, o espírito de um povo, o espírito de uma época ou de uma cultura, ele também cria o seu outro, um dobra, que forma o seu ser. É importante enfatizar e deixar claro que quando falamos de um espírito que lançou o seu futuro, retiramos qualquer sentido dialético ou histórico em relação à abordagem espiritual do Ocidente.
111 A declaração para a criação de uma instituição, de uma constituição ou de um Estado exige a assinatura de um signatário envolvido. Para o filósofo do Estado, a criação dos Estados ocorre pela força da razão absoluta, e não de acordo com os desejos individuais de uma sociedade ou de um grupo de pessoas. Portanto, os indivíduos seriam os únicos que comporiam o Estado, e este estaria nas mãos do monarca e com o apoio, mas sem interferência, de um parlamento “fraco”, a direção do Estado.
Não há, segundo Foucault, centralização ou domínio do poder por parte de um indivíduo ou do Estado. Agora, além das concepções idealistas do Estado, um Estado político, toda a filosofia é assombrada pela realização de um Estado perfeito.
Os devires bestiais
Leviatã é o nome de uma máquina animal produtora de medo ou de um órgão protético e estatal, um Estado como prótese, o órgão de uma prótese estatal, que chamo de prótese estatal (foto), que anda no medo e que governa através do medo (DERRIDA, 2016, p. 69). Pois toda decisão tomada com base na crença em um cálculo, na consciência de um eu ou de um sujeito definido, determinará os acontecimentos futuros (BORRADORI, 2004, p. 124). Tanto um como outro implicam a eliminação de outros, aumentam a possibilidade de um julgamento final, de uma solução final134.
Tento pensar numa política que, afinal, não seja a de um Estado ou de uma cidadania. Nesse sentido, podemos entender que a democracia é um espectro, por isso é difícil falar em um estado ou regime completamente laico. A besta sendo soberana, o soberano sendo besta, um e outro engajando-se, de fato, transformados, em uma besta feita do soberano ou um soberano feito da besta, a transição de um para o outro, analogia, similitude, aliança, o hímen que se deve ao fato de ambos compartilharem essa posição tão especial de estar fora da lei (..) O soberano não é um anjo, mas, no mínimo, em outras palavras, o que faz o soberano faz o fera (DERRIDA, 2016, p. 60).
É preciso descobrir”, lemos mais adiante em “Normas de tratamento”, “que o desejo do homem, feito dos animais como presa da linguagem, é o desejo do outro”. Como devemos pensar o direito do ponto de vista do soberano que decide sobre as leis, sobre o direito que estabelece as leis de acordo com a sua vontade.
Máquinas de vadiar
Contudo, Derrida aponta todos os problemas, da ordem do condicionamento, na relação de filia como amizade e não como amor, e na construção de uma política de amizade que deixa de lado o não-amigo, condicionando assim uma relação política que é Baseia-se no raciocínio aristotélico de que poucos amigos são melhores que muitos amigos. Para Derrida, o uso retórico destas expressões esconde toda uma história de estratégias e acordos políticos, além de uma invenção inimiga sustentada pela lógica compulsiva da repetição. Aqui enfrentamos um dilema contemporâneo, o inimigo como um terrorista que é combatido num plano de guerra.
Assim, a proposta de Derrida para uma democracia futura é que possam surgir e ser promovidas aberturas nas quais o pensamento não esteja confinado ao espaço do conceito, para que a solidariedade global possa tomar o lugar do direito internacional, do cosmopolitismo global ou da política cidadã. Assim, a noção de democracia por vir encorajaria uma ruptura com as restrições impostas pelo cosmopolitismo e pela ideia de cidadania global. Contra os efeitos do espectro, é necessária a construção da identidade e do poder para mantê-lo dominante (SAID, 2007).
É em nome da democracia e da não crueldade que podemos falar, por exemplo, da Revolução Francesa, que qualquer pessoa condenada à morte na guilhotina terá a cabeça decepada sem sofrimento, um castigo que é portanto doce e é igualitário. Um “sujeito”, seja ele qual for (indivíduo, cidadão, Estado), só se estabelece a partir desse “medo”, que tem sempre a força ou a forma protetora de uma barragem.
Políticas espectrais
Cada vez que a democracia está presente, é o seu outro que se estabelece como modelo e como exemplo para afirmar o seu ideal. Perante a instalação de um novo dogmatismo, diria Derrida, mas que também não é apenas teórico, devemos pensar nos interesses económicos capitalistas, na violência que ocorre. Sobre o que se entende e se repete diariamente sobre a globalização, Derrida afirma categoricamente que ela não existe e não ocorre, e estamos mentindo ao dizer que ela muda a ordem do mundo (2004(a) , p. 311).
Segundo Derrida, a ideia de democracia não é um engano, mas o que podemos constatar é que o que se apresenta como democracia não se enquadra no princípio da democracia. É preciso pensar numa hospitalidade que não seja mais dirigida apenas aos cidadãos, mas dirigida a todos (DERRIDA, 2001(a)). Essas questões, somadas às questões de como perdoar o imperdoável, questão profunda e essencial colocada por Derrida, nos levam a aporias que se multiplicam a tantas outras, como perguntar: como pensar um político além do jurídico, mas que não cai, como em Schmitt, nas mãos de um soberano.
Por outras palavras, por mais que pensemos num Estado secular, num poder judicial fora da esfera humana, o direito ainda funciona de acordo com uma agência transcendental que regressa sempre a um ideal de justiça que não está presente. É aqui que a responsabilidade política e ética é difícil de assumir, e é precisamente porque é difícil que é uma responsabilidade a assumir.
Tempo de violência
Contudo, a relação entre o político e o Estado, a aliança entre estas duas forças, para Derrida, deve ser questionada e transformada sem proclamar o fim de uma ou de outra. A questão de saber se tudo é violência nos coloca diante de uma aporia, respondê-la pode limitar o futuro da questão e impossibilitar-nos de pensar em novas produções. Contudo, não podemos descartar que exista violência e que a negação da violência possa implicar precisamente a produção de violência.
Por esta razão, acreditamos que esta atmosfera de violência ou este tempo de violência existe163. Por fim, entendemos que a violência inclui todas as formas, e não apenas o movimento de um corpo de um lugar para outro, como disse Aristóteles. Entendendo que a violência é cultural e humana, Derrida reconhece que o campo da violência é diverso e se reproduz de diferentes formas, modos e práticas, em maior ou menor grau.
Da violência discursiva à simbólica, da violência identitária à violência de exclusão e opressão, da violência sangrenta à violência silenciosa: Derrida entende que o fim da violência significaria o fim da cultura. Em termos de violência, dirá Derrida, é a violência que impede a chegada do outro, que o outro pode ser ele mesmo, ou seja, a violência que destrói toda a identidade e singularidade dos outros, violência que é criada por o próprio homem causa.
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