Deste modo é certo afirmar que o poder de direção que detém o empregador, originado pelo contrato de trabalho deve ser exercido, mas nos limites para que não fira os direitos não só dos empregados, mas sim de todos os seres humanos.267
3.7 PRINCÍPIOS QUE PROTEGEM O EMPREGADO CONTRA ABUSOS DO
integridade física do empregado, a integridade intelectual e ainda a integridade moral.
Os princípios e direitos de proteção aos empregados que se relacionam mais especificamente a pesquisa desenvolvida, serão abordados a seguir.
3.7.1 Princípio da dignidade da pessoa humana
O princípio da dignidade da pessoa humana está estabelecido no artigo 1° inciso III, da Constituição Federal que assim preceitua:
A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...]
A dignidade da pessoa humana.271
A dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito, instituído pela Constituição de 1988, onde a dignidade é um direito e garantia de todo cidadão.272
Tanto a carta das Nações Unidas, quanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem, trazem a dignidade, a todos os seres humanos, sendo a dignidade intangível, e ainda um fundamento de liberdade, justiça e paz mundial.273
A dignidade é um valor subjacente a numerosas regras de direitos. A proibição de toda ofensa a dignidade da pessoa é uma questão de respeito ao ser humano, o que leva o direito positivo a protegê-la, a garanti-la e a vedar atos que podem de algum modo levar a sua violação, inclusive na esfera dos diretos sociais.274
271 CARRION, Valentin. Comentários a consolidação das leis do trabalho. 34. ed. São Paulo:
Saraiva, 2009. p. 819.
272 SUSSEKIND, Arnaldo. Curso de direito do trabalho. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2010. p.
113, 114.
273 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
p. 409.
274 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
p. 410.
A dignidade da pessoa humana é uma garantia fundamental, não podendo ser relativa, pois nasce com a pessoa, e esta é também uma forma de justiça, buscando sempre um bem comum.275
Como nota-se a dignidade da pessoa humana é uma garantia fundamental conferida a todos os seres humanos, ela já nasce com o ser humano e deve ser respeitada por todos.
O Tribunal Regional da 12ª Região276 aplica o princípio da dignidade da pessoa humana para conter abusos do poder de fiscalização:
PODER DIRETIVO PATRONAL. LIMITES. DANO MORAL. Ainda que o poder diretivo permita ao empregador estabelecer e fiscalizar como o serviço deve ser prestado, o abuso de direito caracteriza ato ilícito. Além disso, seja qual for a profissão do empregado ou o comportamento por ele adotado durante o transcurso do contrato de trabalho, todo e qualquer poder patronal também encontra limite no respeito à dignidade da pessoa humana, fundamento da República e cláusula geral que informa todo o ordenamento jurídico. Assim, sob pena de configurar-se dano moral, se algo deve ser dito ao prestador, que o seja de forma respeitosa e, na medida do necessário, com o cuidado de não expô-lo à situação constrangedora na presença de outras pessoas.
Para Arnaldo Sussekind277 “[...] é inadmissível que a política econômica substitua o direito constitucional como centro das relações humanas e da vida publica.”
Assim sendo a dignidade da pessoa humana é um direito e deve ser respeitada por todos.
275 VALVERDE, Thiago Pellegrini; ROSSETTI, Adriana. Poder de direção do empregador como cláusula restritiva de direitos fundamentais do trabalhador. Jus Navigandi, abr. 2006. Disponível em http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9053. Acesso em 15 mai. 2010.
276 BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região. Recurso Ordinário 01983-2008-002-12- 00-4. 1ª C. Relª Juíza Viviane Colucci – TRTSC/DOE em 04-03-2010.
277 SUSSEKIND, Arnaldo. Curso de direito do trabalho. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2010. p.
Desta forma mesmo que o poder diretivo confira ao empregador o direito de fiscalizar as atividades de seus empregados, não deve extrapolar os limites, pois o abuso de direito caracteriza ato ilícito.
3.7.2 Princípio da lealdade e boa-fé
O princípio da boa-fé não é um princípio exclusivo do direito do trabalho, na verdade este princípio é o que rege as relações contratuais, a boa-fé imerge do preceito da intenção de que deve-se agir com boa-fé, onde a má-fé é que deve ser provada.278
O princípio da lealdade e boa-fé trata-se de limites impostos a uma parte, quando em confronto com a outra parte.279
A boa-fé é a intenção moralmente reta no agir, que se supõe na conduta normal da pessoa. É o equivalente, no Direito Civil, ao princípio da inocência até prova em contrário, do Direito Penal (CF, art. 5°, LVII).280 (itálico do autor)
O princípio da boa-fé é usado no contrato de trabalho, porém este não é um princípio específico do direito do trabalho, é aplicável para que empregado e empregador cumpram as regras estabelecidas pelo contrato de trabalho, na verdade o princípio da boa-fé determina o cumprimento de direitos e obrigações do contrato de trabalho.281
A boa-fé representa um princípio jurídico de origem moral fundamental a todo o complexo das relações privadas e com maior razão nas relações laborais. O Novo Código Civil reanima este princípio citando-o mais de 100 vezes.282
O princípio da boa-fé consiste na idéia de que as partes na relação de emprego devem agir com lealdade, e honestidade, onde empregado e
278 MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual de direito e processo do trabalho. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 49.
279 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 9. ed. São Paulo: Ltr, 2010. p 178.
280 MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual de direito e processo do trabalho. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 49.
281 MARTINS, Sérgio Pinto. Curso de direito do trabalho. 4. ed. São Paulo: Dialética, 2005. p. 42.
282 LIMA, Francisco Meton Marques de. Elementos de direito do trabalho e processo trabalhista.
11. ed. São Paulo: Ltr, 2005. p. 77.
empregador devem ser honestos, leais e sinceros tanto no ato de contratação, como também durante o desenrolar da relação pactuada.283
O princípio da boa-fé traz um sentido de respeito mútuo entre as partes, onde não existe a malícia, sendo fiel o cumprimento das obrigações legais expressas o tacitamente pactuadas pelas partes.284
3.7.3 O direito ao segredo da vida privada
A Constituição Federal em seu artigo 5° inciso X, garante a todos os seres humanos o direito ao segredo da vida privada.285
“[...] vida privada envolve todos os demais relacionamentos humanos, inclusive os objetivos, tais como relações comerciais, de trabalho, de estudo etc.”(grifo do autor)286
“Esquematicamente, temos que a vida social do indivíduo divide-se em duas esferas, a pública e a privada.”287
“O direito de privacidade é o direito de ocultar do conhecimento alheio relações marcadas pela confidencialidade, dentre eles a vida familiar, o lazer, os segredos dos negócios etc.”288
A Constituição Federal de 1988 garante no artigo 5° inciso X à inviolabilidade da vida privada:
[...]
283 JORGE NETO, Francisco Ferreira. CAVALCANTE, Jouberto de Quadros Pessoa. Curso de direito do trabalho. São Paulo: Atlas, 2009. p.18.
284 LIMA, Francisco Meton Marques de. Elementos de direito do trabalho e processo trabalhista.
11. ed. São Paulo: Ltr, 2005. p. 77.
285 BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra. Comentários a Constituição do Brasil. 3. ed.
São Paulo: Saraiva, 2004.p. 68.
286 RAMOS. Karina Oliveira Cardoso. Colisão de princípios no exercício do poder diretivo do
empregador. Jus Navigandi, dez. 2009. Disponível em
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=14324. Acesso em 15 mai. 2010.
287 RAMOS. Karina Oliveira Cardoso. Colisão de princípios no exercício do poder diretivo do
empregador. Jus Navigandi, dez. 2009. Disponível em
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=14324. Acesso em 15 mai. 2010.
288 VALVERDE, Thiago Pellegrini; ROSSETTI, Adriana. Poder de direção do empregador como cláusula restritiva de direitos fundamentais do trabalhador. Jus Navigandi, abr. 2006. Disponível
São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.289
O segredo a vida privada, garante a todos seres humanos uma proteção constitucional garantida pela Constituição de 1988, para assim proteger o espaço íntimo de todos os indivíduos, este que não pode ser afetado ilicitamente por ninguém.290
3.7.4 O direito ao respeito à honra e a liberdade dos empregados
A honra divide-se em dois grupos, a honra subjetiva, esta que se identifica pelo sentimento que a pessoa tem de sua dignidade, já a honra objetiva identifica-se pelo sentimento que a sociedade tem sobre a dignidade da pessoa.
Quando caracterizada a ofensa a honra da pessoa, esta poderá intentar pedido de indenização por dano moral.291
O artigo 5° inciso X da Constituição Federal assim determina sobre a honra:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade, nos termos seguintes:
[...]
São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;292
A violação da honra e da vida privada não se confundem, pois a honra protege o cidadão contra uma descrição inexata de sua vida privada, um
289 BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra. Comentários a Constituição do Brasil. 3. ed.
São Paulo: Saraiva, 2004.p. 68.
290 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2009. p. 53.
291 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de direito do trabalho. 5. ed. São Paulo: Ltr, 2009. p. 638, 639, 640.
292 CARRION, Valentin. Comentários a consolidação das leis do trabalho. 34. ed. São Paulo:
Saraiva, 2009. p. 819, 820.
exemplo é a difamação, enquanto intimidade é a proibição de fatos que tratem da esfera íntima da pessoa.293
3.7.5 Direito a integridade moral dos empregados
O artigo 5° inciso X da Constituição Federal assim determina sobre a integridade moral:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade, nos termos seguintes:
[...]
São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;294
A utilização da imagem, sem qualquer consentimento expresso do titular, é ato ilícito, pois está violando patrimônio personalíssimo do indivíduo, constante no artigo 5° inciso X da Constituição Federal.295
O Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região296 já se posicionou acerca do direito a intimidade dos empregados:
DANOS MORAIS. REVISTA ÍNTIMA. Demonstrada a violação à honra, dignidade, decoro, integridade moral, imagem, atributos relativos à personalidade humana e, por isso, juridicamente protegidos, por meio de revista íntima, tem-se configurada a ocorrência de dano ao patrimônio moral do empregado.
Deste modo serão utilizados princípios e regras para a descoberta do limite do poder de fiscalização que detém o empregador, pois as
293 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de direito do trabalho. 5. ed. São Paulo: Ltr, 2009. p. 641.
294 CARRION, Valentin. Comentários a consolidação das leis do trabalho. 34. ed. São Paulo:
Saraiva, 2009. p. 819, 820.
295 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de direito do trabalho. 5. ed. São Paulo: Ltr, 2009. p. 638.
296 BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região. Recurso Ordinário 01473-2009-031-12- 00-3. 5ª C. Rel Juiz Amarildo Carlos De Lima – TRTSC/DOE em 31-05-2010.
regras e princípios criam um meio de proteção ao exercício fiscalizatório do empregador, traçando como ilegais medidas que agridam ou cerceiam a dignidade do trabalhador e seus demais direitos.297
3.8 POSICIONAMENTO JURISPRUDENCIAL ACERCA DOS LIMITES DO PODER