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Princípios que regem a Lei 12.305/2010

No documento universidade do vale do itajai – univali (páginas 51-59)

A Política Nacional de Resíduos Sólidos possui inúmeros princípios que a

norteiam, sendo necessário destacar os principais que estruturam tal lei. Dessa

forma, serão conceituados os princípios da prevenção e da precaução, do poluidor-

pagador, da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, do

desenvolvimento sustentável, do protetor-recebedor e o da ecoeficiência.

Primeiramente, será abordado o princípio da prevenção e da precaução.

Conforme Martins e Murari (2013), não existe consenso sobre tal princípio, pois há quem entenda que os dois vocábulos são sinônimos e outros que entendem que possuem significativas diferenças.

Nesse sentido, esclarecem que a prevenção aborda perigos, impactos já determinados pela ciência; no caso da precaução, são riscos, impactos desconhecidos e incertos pela área científica.

Para Sampaio, ―o princípio da precaução deve ser aplicado quando houver incerteza científica sobre a plausibilidade da ocorrência de danos ambientais graves‖

(2003, p. 17).

Tal princípio possui grande carga valorativa, e, para Fiorillo e Rodrigues,

―esta é e deve ser a palavra de ordem, já que os danos ambientais tecnicamente falando, são irreversíveis e irreparáveis. Por exemplo, como recuperar uma espécie extinta? Como erradicar os efeitos de Chernobyl?‖ (1999, p. 140).

Esse se encontra na Declaração de Estocolmo de 1972, e, desde então, tem sido de extrema relevância para todos os ordenamentos que tenham como objetivo proteção ao meio ambiente, estando presente também na legislação ambiental nacional, refletindo na Lei 6.938/81, artigo 9º, inciso IV, onde obriga a licença-prévia para todas atividades de potencial poluidor.

A Declaração de Estocolmo de 1972 é o principal documento de fundação do Direito Ambiental, tendo proclamado o direito ao desfrute de condições de vida adequada em um meio de qualidade que possibilite levar uma vida digna a gozar de bem-estar, assim como a obrigação de proteger e melhorar o meio para as gerações futuras (COELHO, 2010, p. 29).

Também está na Constituição Federal de 1988, no caput do artigo 225, obrigando o Poder Público e toda a coletividade a protegerem e a preservarem o meio ambiente para as presentes e futuras gerações.

Da mesma forma, em 1992, no Rio de Janeiro, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, tal princípio foi inserido na Declaração de Princípios, em seu item 15:

Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o

adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental (ONU, 1992).

Dessa forma, com esse aumento populacional nas últimas décadas, muito alimento tem sido produzindo, fazendo com que a agricultura trabalhe em ritmo acelerado, e também mercadorias de consumo, ocorrendo interferências no equilíbrio do meio ambiente, sendo de extrema importância esse princípio da precaução, o qual impõe limites à atividade de exploração e de degradação da natureza.

Nesse contexto, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos traz como primordiais a não geração, a redução, a reutilização, a reciclagem de rejeitos e a correta destinação destes, procurando minimizar os danos ambientais. A prevenção e precaução estão no ordenamento não de forma explícita e taxativa, mas sim implícita. Também, constata-se a preocupação com o excesso de consumo, pois tal política pública trata a educação ambiental como uma das medidas para combater as agressões ao meio ambiente.

Outro princípio que a Política Nacional de Resíduos Sólidos trouxe em seu ordenamento foi o do poluidor-pagador, o qual determina que aquele que degrada tem a obrigação de recuperar e de indenizar o meio ambiente.

O princípio do poluidor pagador pode ser compreendido como um mecanismo de alocação da responsabilidade pelos custos ambientais associados à atividade econômica. Em essência, portanto, este princípio fornece o fundamento dos instrumentos de política ambiental de que os Estados lançam mão para promover a internalização dos custos ambientais vinculados à produção e comercialização de bens e serviços (SAMPAIO, 2003, p. 23).

Muito raramente, um produto colocado no mercado tem o valor real de todo custo para sua confecção, pois os impactos ocasionados na natureza para a extração da matéria-prima não são contabilizados no preço final. Assim, tal princípio procura minimizar esse tipo de atividade danosa.

Para Martins e Murari (2013), esse princípio possui duas faces, uma com o

objetivo de prevenir, que procura evitar a ocorrência de danos ambientais, e outra,

de objetivo repressivo, que busca reparação quando da ocorrência do dano

ambiental.

Demonstram os autores que, primeiramente, busca-se internalizar os gastos da prevenção, fazendo com que o poluidor tenha a obrigação de pagar as despesas com a prevenção. Tal medida é possível com incentivo à introdução de tecnologias que diminuam o despejo de poluição ao meio ambiente, reduzindo também os custos da administração na aplicação de multas, tendo como consequência diminuição, ou neutralização dos danos.

A internalização das externalidades ‗representadas pelos custos, benefícios ou implicações que as atividades de um determinado ente impõe a outrem ou à coletividade‘, requer a aplicação jurídico-contábil, criando o denominado passivo-econômico-ambiental, uma vez que o usuário-pagador utiliza-se dos recursos ambientais como insumo (MARTINS; MURARI, 2013, p. 9).

O poluidor deve arcar com todo custo do dano ambiental que causou, ou que, com a intenção de gastar menos, ele se preocupe com maneiras de diminuir a degradação do meio ambiente.

Quando se diz poluidor-pagador, temos uma órbita de alcance preventiva ou repressiva. No segundo caso, só há a incidência do princípio em sede de responsabilidade civil, já que a própria função do pagamento resultante da poluição não possui um caráter de pena, nem de sujeição a uma dada infração administrativa, o que em hipótese algum exclui a cumulatividade das mesmas como exige a própria Constituição Federal (FIORILLO;

RODRIGUES, 1999, p. 121).

Conforme os objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos, artigo 7º, incisos III, IV e VI, a adoção de práticas de desenvolvimento sustentável de produção e consumo de bens e serviços, a adoção de tecnologias limpas como forma de minimizar impactos ambientais, o incentivo à indústria da reciclagem, fica claro que o princípio do poluidor pagador insere-se nesse viés de buscar internalizar os custos abrangendo todos os responsáveis pela geração de resíduos.

No mesmo sentido, outro princípio que norteia tal política pública é o da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, o qual está elencado no artigo 3º, inciso XVII, da Lei 12.305/2010, no qual consta:

Art. 3º. [...], XVII - responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos: conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares do serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos

resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados , bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes dos ciclos de vida dos produtos, nos termos dessa Lei.

Juras e Araújo (2012) mencionam que a Assembleia Geral das Nações Unidas demonstrou preocupação como modelo de produção e de consumo serem os principais causadores dos danos ambientais. Dessa forma, essa questão foi incluída na pauta da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, no Rio de Janeiro, em 1992.

Nesse viés, a Agenda 21 tratou especificadamente em seu capítulo 21, do manejo ambientalmente saudável dos resíduos sólidos e questões relacionadas com os esgotos.

Art. 21.1 O presente capítulo foi incorporado à Agenda 21 em cumprimento ao disposto no parágrafo 3º da seção I da resolução 44/228 da Assembléia Geral, no qual a Assembléia afirmou que a Conferência devia elaborar estratégias e medidas para deter e inverter os efeitos da degradação do meio ambiente no contexto da intensificação dos esforços nacionais e internacionais para promover um desenvolvimento sustentável e ambientalmente saudável em todos os países (ONU, 1992).

Destaca-se na Agenda 21 que deve ser resolvida a causa principal, indo além do correto descarte e reutilização de resíduos, agindo sobre os padrões não sustentáveis de produção e consumo.

Nesse sentido, é possível observar que o consumo tem-se intensificado ao longo dos anos, e também os materiais que acabam sendo despejados no meio ambiente, são diferentes.

Segundo a EPA, quase três quartos dos resíduos sólidos urbanos nos Estados Unidos é composto de Coisas que são projetadas, produzidas e comercializadas, onde se incluem recipientes e embalagens, bens não duráveis (com uma vida útil de menos de três anos) e bens duráveis. Mas nem sempre foi assim. Há cem anos, ou mesmo sessenta, a maior parte do lixo municipal era composto de sobras de comida e cinzas de carvão, usado em calefação e na preparação de alimentos. Ao longo do século XX, a quantidade de lixo aumentou mais de dez vezes, de 42Kg a 563Kg por pessoa ao ano (LEONARD, 2011, p. 200).

Ocorre que para o Brasil, segundo Juras e Araújo (2012), não há dados concretos sobre a quantidade total de resíduos gerados, tendo apenas uma noção vaga da realidade, pois os dados são obtidos por autodeclarações dos municípios.

Dessa forma, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos não poderia deixar de abranger tal ponto de extrema importância, pois a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos alcança todos os responsáveis pela geração de resíduos.

Também a lei traz a logística reversa, artigo 3º, XII:

Art. 3º. [...] XII - logística reversa: instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada;

Nesse sentido, o artigo 33 da referida lei determina que os fabricantes, importadores ou distribuidores de agrotóxicos, pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas fluorescentes, produtos eletrônicos e suas embalagens sejam responsáveis pelo correto manejo dos resíduos desses produtos, e, assim, reaproveitando-os após o uso quando possível, ou dirigindo-os ao correto descarte.

A logística reversa já existe no Brasil, e são as resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) que a disciplinam como, por exemplo, a CONAMA n. 258, de 26/08/99, que estabelece que as empresas fabricantes e as importadoras de pneus ficam obrigadas a coletar e a dar destinação final, ambientalmente adequada, aos pneus inservíveis, proporcionalmente às quantidades fabricadas e importadas definidas nesta Resolução, o que praticamente obriga as empresas desse segmento a sustentarem políticas de logística reversa (MARTINS; MURARI, 2013, p.

13).

A logística reversa determina que os responsáveis, seja o fabricante, o distribuidor, o importador ou o comerciante, por colocarem o produto no mercado continuem responsáveis no momento do descarte, colocando uma cadeia de obrigações aos envolvidos.

Outro importante princípio desta política pública é o do desenvolvimento

sustentável, o qual é ―desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente

sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem as suas

próprias necessidades‖ (CAVALCANTI; BRÜSEKE, 1995, p. 33).

Esse princípio determina a necessidade de uma visão sistêmica sobre todas as dimensões, a qual precisa ser gerenciada a partir de um conjunto de questões de elevada importância, pois, para o desenvolvimento da sociedade, é preciso alinhar as esferas ambiental, econômica, social, política e ética, buscando um empenho de toda sociedade para a construção de um futuro para as próximas gerações, com os mesmos recursos ambientais presentes para a geração atual.

Do ponto de vista ambiental, a noção de desenvolvimento sustentável propõe a utilização parcimoniosa dos recursos naturais, de forma a garantir seu uso pelas gerações futuras. Propõe, ainda, a preservação de amostras significativas do ambiente natural, de forma a garantir a manutenção dos serviços ambientais que estas áreas propiciam e a qualidade de vida da população do entorno (IRVING; OLVEIRA, 2012, p. 24).

Na Lei 12.305/2010, em seu artigo 7º, XI, também se encontra presente tal princípio, determinando que todas as contratações e aquisições governamentais tenham como prioridade obras e bens que sejam sustentáveis. Também, no inciso XV, prevê-se que o consumo sustentável e a rotulagem ambiental sejam estimulados.

Em tais artigos, o desenvolvimento sustentável está presente, uma vez que, quando se priorizam medidas que visam à proteção ambiental além de crescimento econômico, tem-se esse princípio atuando.

A esse respeito, o artigo 3º, inciso XI, da referida lei, conceitua a gestão integrada de resíduos sólidos como o ―conjunto de ações voltadas para a busca de soluções para os resíduos sólidos, de forma a considerar as dimensões políticas, econômicas, ambiental e cultural e social, com controle social sob a premissa do desenvolvimento sustentável‖. Assim, corrobora a atuação desse princípio, na estrutura da lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

No mesmo viés, o princípio do protetor-recebedor também tem grande importância na Lei da Política Nacional dos Resíduos Sólidos. Conforme Martins e Murari (2013), esse princípio é positivado na Lei 12.305/2010, pois ele já existia no ordenamento jurídico anteriormente, inclusive alguns Municípios e Estados o utilizavam no Pagamento por Serviços Ambientais.

O artigo 44 da referida lei determina que o poder público poderá instituir

normas com o objetivo de conceder incentivos fiscais, financeiros para incentivar

medidas de proteção ambiental.

Pode-se ver, uma modalidade de aplicação do princípio protetor-recebedor no incentivo dado à instituição de microrregiões, na forma do art. 16, parágrafo 1, da Lei n. 12.305/2010. Determina o referido parágrafo que

‗serão priorizados no acesso aos recursos da União referidos no caput os Estados que instituírem microrregiões‘. Assim, os municípios que se organizarem de forma integrada para a gestão dos resíduos sólidos receberão prioritariamente os recursos da União (MACHADO, 2012, p. 46).

Para Ribeiro,

O Princípio Protetor-Recebedor postula que aquele agente público ou privado que proteger um bem natural em benefício da comunidade deve receber uma compensação financeira como incentivo pelo serviço de proteção ambiental prestado (apud MARTINS; MURARI, 2013, p. 15).

Dessa maneira, é visto que o princípio do protetor-recebedor possui semelhança com o princípio do não poluidor-recebedor, o qual irá receber incentivos financeiros se não poluir.

Corroborando a efetividade da Lei, outro princípio se faz presente, o da ecoeficiência, o qual está expresso no artigo 6º, inciso V:

Art. 6º. [...] V - a ecoeficiência, mediante a compatibilização entre o fornecimento, a preços competitivos, de bens e serviços qualificados que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida e a redução do impacto ambiental e do consumo de recursos naturais a um nível, no mínimo, equivalente à capacidade de sustentação estimada do planeta.

Conforme Martins e Murari (2013), esse princípio tem em seu cerne o objetivo de buscar a sustentabilidade das empresas, organizações e dos próprios cidadãos, sendo como um subprincípio do desenvolvimento sustentável.

Também os autores mencionam que tal princípio é semelhante, quase uma cópia, da definição de ecoeficiência, criado em 1992, pelo Word Business Council for Sustainable Development (WBCSD).

Na Lei 12.305/2010, o conceito desse princípio

desafia o mundo empresarial a obter mais valor para o negócio, reduzindo as quantidades de materiais, energia e emissões. As empresas têm de ser criativas e inovadoras com, por exemplo, novas tecnologias, práticas mais eficientes na cadeia de fornecimento e produtos melhorados podem contribuir para estimular a ecoeficiência (MARTINS; MURARI, 2013, p. 20).

Dessa maneira, é visto que a Política Nacional de Resíduos Sólidos, tem em

seu corpo princípios de extrema importância, os quais a tornam eficiente e eficaz do

ponto de vista teórico.

No documento universidade do vale do itajai – univali (páginas 51-59)