3.3 Estratégias de referenciação: a construção de referentes textuais
3.3.1 Reativação Referencial
3.3.1.1 Formas remissivas – o papel da anáfora
Koch e Marcuschi (1998) reconhecem que embora a retomada anafórica seja a estratégia de progressão discursiva mais estudada e conhecida, esse mecanismo nem sempre é bem compreendido. Os autores propõem que levemos em consideração o fato de que a “expressão retomada nem sempre designa uma retomada referencial em sentido estrito, mas é apenas uma espécie de remissão que estabelece o contínuo tópico”
(KOCH; MARCUSCHI, 1998) e também que entendamos que a noção de anáfora não diz respeito apenas a relações estabelecidas por pronomes, mas por nomes e outras categorias.
Os autores seguem o estudo de Apothéloz (1994), que indica a possibilidade de existência de uma pluralidade de estratégias de designação anafórica, nem todas cos- significativas. “Isto sugere claramente que não se deve continuar a observar a anáfora sob o aspecto referencial apenas (e muito menos como uma atividade desenvolvida apenas pelo pronome de terceira pessoa)” (KOCH; MARCUSCHI 1998). Se antes tínhamos uma visão linear da anáfora, que atribuía uma congruência morfossintática entre a anáfora e seu antecedente, hoje, sabemos que a anáfora nem sempre significa uma mera retomada, pois pode haver acréscimos e ajustes de significados na relação dos elementos do texto.
Vejamos os exemplos em (3.4), a seguir:
(3.4a)
REBOLATION é um single lançado pelo grupo brasileiro de axé Parangolé no final de 2009 pela gravadora Universal Music. Já alcançou as paradas da Billboard Brasil, a 5ª posição no Brasil Hot 100 Airplay, entre outras, com destaque para a parada de Salvador, Bahia, ficando na 4ª posição no Salvador Hot Songs. a canção ganhou repercussão nacional, principalmente nas mídias televisivas.
(Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/rebolation(can%C3%A7C3A3odeParangol%
C3%A9). Acesso em: 4 maio 2010. Texto adaptado) Apud (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO e BRITO, 2014, p. 29)
(3.4b)
REBOLATION INVADE A TELINHA
LAST_UPDATED2 DOM, 28 DE FEVEREIRO DE 2010 19:48 DOM, 28 DE FEVEREIRO DE 2010 14:04
Hoje, domingo, 28, a banda Parangolé mostra que está com tudo e estará no programa do Faustão com o sucesso do carnaval, o Rebolation, escolhida por muitos como a música do carnaval 2010, Léo Santana e o parangolé estarão mais uma vez no cenário nacional.
Parangolé, que estará no Alafolia 2010 (Micareta de Alagoinhas), é a banda de pagode que está em maior evidência na mídia. Ao lançar o sucesso Rebolation, o grupo que se consagrou como uma das maiores [bandas] do Brasil.
Disponível em: http://www.alagoinhasnoticias.com.br/festas-a-eventos/1820-rebolation- invade-a-telinha. html. Acesso em: 4 maio 2010. Texto adaptado) Apud (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO e BRITO, 2014, p. 29-30)
(3.4c) 1 comentário:
Marcelo Pereira disse...
Rebolation fazendo sucesso na Europa e EUA? É ruim, hein? Deve ser uns três brasileiros pingados, que de tanta saudade do país, acaba inclusive tendo que aderir ao cocô pátrio.
Os estrangeiros, que tem a mente mais evoluída que a nossa, sabem muito bem que o
"rebolation" é uma bobagem sem nexo e mesmo gostando, nunca levam a sério. para eles não é cultura nem arte, é uma brincadeira tola mesmo. Por isso que as tentativas de exportar o popularesco como "cultura séria" fracassam.
Aqui no Brasil ainda tem a insistente ideia de transformar qualquer bobagem em
"cultura" e "arte", para que se perpetue no (mau) gosto popular e gere lucros perpétuos. Mas só otários caem nessa. E não são poucos, os otários.
23 de março de 2010 08:56
(Comentário dum internauta sobre a notícia “Rebolation conta com apoio do PIG”, postada em “O Kylocyclo: o blog que faz a diferença”. Disponível em:
http://okylocyclo.blogspot.com.br/2010/03/rebolation-conta-com-apoio-do-pig.html.
Acesso em: 4 maio 2010. Texto adaptado) Apud (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO e BRITO, 2014, p. 29)
Cada texto, em (3.4a) a (3.4c), possui intenções argumentativas distintas e embora apresente o mesmo referente – Rebolation – as representações para esse objeto de discurso serão diferentes, pois as escolhas lexicais feitas para a construção do objeto do discurso é motivada por diversos fatores (intenção/percepção do enunciador, momento histórico, intencionalidade, aceitabilidade entre outros). Isso mostra que não há uma relação unívoca entre palavras e coisas, o que existe são representações do referente por meio de um sistema simbólico, que é a língua.
Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014, p. 31) mostram que no exemplo (3.4a) como temos um texto pertencente ao gênero verbete de enciclopédia digital (a Wikipédia), torna-se mais evidente a função informativa e a busca de expressões referenciais que se apresentem como “supostamente imparciais, como se esvaziadas de avaliação por parte do enunciador”. Temos assim o ‘Rebolation’ como ‘um single’, ‘a canção’.
Já no exemplo (3.4b), temos o gênero notícia, disposto no suporte virtual, com o intuito não somente de falar da música Rebolation, como também de divulgar o Alafolia 2010 (Micareta de Alagoinhas); neste caso, há a intenção explícita de valorizar o grupo musical Parangolé que participará do evento, para isso tecem elogios à música mais conhecida do grupo. Desta forma, focalizam a música como ‘o sucesso do carnaval’ e
‘a música do carnaval 2010’.
No exemplo (3.4c), temos o gênero comentário em blog, no qual o enunciador expõe seu ponto de vista e “critica o alarde em torno de um suposto sucesso do
‘Rebolation’ na Europa” (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO E BRITO, 2014, p.
31). Nesse contexto, a música é menosprezada e caracterizada de forma desprestigiada como ‘cocô pátrio’, ‘uma bobagem sem nexo’, ‘uma brincadeira tola’.
De tal modo, há marcas, não somente do modo de perceber o referente, mas também do modo de dizer, ou seja, as escolhas também estão relacionadas e determinadas ao gênero utilizado, ou melhor, às práticas sociais e às situações
comunicativas. Assim, o mesmo referente pode ser transformado, recategorizado de diversas maneiras por meio de diferentes escolhas de propriedades e atributos que lhe vão sendo atribuídos conforme as escolhas do autor e também de acordo com o gênero utilizado. Não há uma unívoca e perfeita equivalência entre as palavras e as coisas, para os referentes não há designações prontas ou predeterminadas, mas construídas no discurso. Os processos de (re) categorização lexical dependem tanto da multiplicidade de pontos de vista que os sujeitos possuem, quanto das restrições impostas pela vida em sociedade.
Torna-se importante ressaltar também os casos em que não existe no cotexto um antecedente explícito, mas sim um elemento de relação que permite uma inferência.
Nessas situações, a construção do sentido não depende somente de relações explícitas ou implícitas no texto, pois, a construção pragmática depende do uso, ou seja, algumas relações de inferências são utilizadas para modificar os sentidos dos discursos, em que os falantes fazem uso de diferentes estratégias para atender determinada necessidade comunicativa.
Observemos este exemplo, (3.5), de Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014, p.
40-41):
(3.5)
Minha esposa estava dando dicas sobre o que ela queria para seu aniversário que estava próximo.
Ela disse: “Quero algo que vá de 0 a 100 em 3 segundos”.
Eu comprei uma balança para ela.
Aí a briga começou.
Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014) mostram que, para a piada fazer sentido, é necessário o reconhecimento e o compartilhamento de recategorizações referenciais implícitas. Os autores dizem que ao comprar uma balança, o marido alude à recategorização “mulher gorda” para a esposa. Como houve a briga, o presente desejado era outro, por exemplo, um carro potente. Os autores alertam para o seguinte fato:
As recategorizações ‘carro potente’ e ‘mulher gorda’ não estão presentes no texto, mas podem ser recuperadas. Isso só ocorre porque nós trabalhamos mentamente para interpretar os textos, de modo que aquilo que falta para completar os sentidos é captado a partir dos conhecimentos prévios (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO, BRITO 2014, p. 40-41).
Observamos que as recategorizações nem sempre são reconstruídas no nível linguístico, não se trata apenas de um mecanismo de remissão ou retomada, pois não há relação direta com um elemento antecedente, nesse caso a reconstrução ocorre pela evocação de elementos presentes no nível cognitivo e ancoram-se no universo textual, garantindo a construção de sentido e a progressão textual.
Lembrando que embora sejam práticas imputáveis a um sujeito cognitivo, cujos conhecimentos prévios são originados em sua mente, são também conhecimentos partilhados, ancoradas nas práticas sociais e provenientes de modelos culturais (frames), pois são adquiridos a partir da imersão do sujeito no mundo. Os sentidos do texto se constroem a partir desses conhecimentos que são relacionados, direta ou indiretamente, com o que é proferido.
A anáfora passa a ser vista, portanto, como resultado de uma construção social associada a capacidades cognitivas. Percebemos uma experiência cultural compartilhada por meio de modos estereotípicos, constituindo o processo de referenciação. Não temos apenas o texto ou a ativação do conhecimento prévio, mas também os aspectos cognitivos, intersubjetivos e contextuais.
Reconhece-se, portanto, que a anáfora não é necessariamente correferencial, ou seja, “ela pode dar-se como uma reconstrução fundada num contexto gerado no interior do próprio texto sem implicar retomada de referentes, mesmo que faça uso de repetição de itens lexicais” (KOCH e MARCUSCHI, 1998). Admite-se que “os referentes não se submetem, no caso da relação anafórica, a condições vericondicionais” (KLEIBER, 1994, p. 11 apud KOCH; MARCUSCHI, 1998). Verifica-se também que anáfora não implica retomada de referentes anteriormente expressos, pois o referente de uma expressão anafórica não é sempre explicitamente denotado por um termo anterior, uma vez que pode existir “um item referidor cujo referente é discursivo e cognitivamente construído, pois não há um antecedente cotextualmente explícito” (KOCH;
MARCUSCHI, 1998).
Entendemos que a anáfora que faz parte do domínio funcional da referenciação como um recurso que garante a construção/transformação de objetos de discurso, se reveste de grande complexidade. Sua manifestação em diferentes dimensões revela como as relações referenciais (retomadas, associações e rotulações) são fundamentais para a construção da coerência.
Dessa forma, destacamos o papel da anáfora, que aponta para a instabilidade da língua, ou seja, aponta para a possibilidade de construção de sentido – assim, um
referente, uma vez introduzido no universo do discurso, pode ser recategorizado. Esse mecanismo só é possível porque interlocutores operam escolhas passíveis de serem negociadas no ato enunciativo realizando a organização discursiva do mundo. Podemos dizer que a referenciação tem reflexos em todos os domínios da linguagem, tanto no nível discursivo quanto no sistema linguístico. A referenciação é, portanto, um ato fundamental na construção do discurso, por ser uma atividade linguística que consiste na (re) elaboração de um referente sobre o qual se quer referir.
Assinalamos, neste capítulo, que as expressões referenciais podem ser analisadas simplesmente como elos coesivos, enfatizando a obtenção da unidade formal do texto;
ou a partir da sua multifuncionalidade, colaborando na (re) elaboração dos sentidos do texto, indicando pontos de vista, apontando direções argumentativas, sinalizando dificuldades de acesso ao referente e recategorizando os objetos presentes na memória discursiva.
A forma como utilizamos e percebemos os referentes textuais pode revelar o modo que nos posicionamos sobre determinado assunto; pois a referenciação se relaciona às escolhas e à intencionalidade dos indivíduos. De tal modo, ao lermos um texto, ao observarmos as estratégias de referenciação utilizadas, podemos alcançar como os objetos de discurso foram elaborados na construção do texto. O entendimento e reconhecimento dessas estratégias tornam-se um valioso mecanismo no processo de leitura e compreensão de um texto.
A Referenciação permite uma nova perspectiva de reflexão sobre o sistema linguístico e sobre os usos da língua, com vistas ao tratamento escolar de fenômenos gramaticais, textuais e discursivos. As estratégias de referenciação solicitam reflexão não somente sobre o mundo extralinguístico e sua realidade concreta, mas principalmente sobre o mundo construído discursivamente. A relação entre linguagem e mundo ultrapassa a ideia estática de referência e alcança a percepção dinâmica do referente pragmático, já que os "objetos-de-discurso" são negociados pelos interlocutores, durante a interação sociodiscursiva.
Compreende-se, deste modo, a importância de atividades de leitura que utilizem estratégias de Referenciação como um trabalho de reflexão sobre a organização do texto, voltado para que o aluno perceba o texto como resultado de escolhas feitas pelo autor. Segundo Kleiman, “a leitura é um ato social, entre dois sujeitos – leitor e autor – que interagem entre si, obedecendo a objetivos e necessidades socialmente determinados” (KLEIMAN, 2004, p.10). Temos, portanto, uma construção de sentidos
dependente e motivada pelos interlocutores, contexto sociocomunicativo e também pelo gênero textual, uma vez que pode solicitar marcas linguísticas específicas.
Mondada e Dubois (1995, p.22) postulam que “as categorias são geralmente instáveis, variáveis e flexíveis”, assim, as atividades de leitura, tornam-se um espaço de negociação, no qual as categorias são determinadas, modificadas e ratificadas a partir de concepções individuais e públicas do mundo. Trabalhar com referenciação em sala de aula, portanto, permite ao professor criar caminhos para conduzir o aluno a uma atuação critico-reflexivo, promovendo um aprimoramento da compreensão textual, entendida como processo de construção inferencial. Os interlocutores atuam colaborativamente na construção discursiva do mundo e, cabe ao leitor, no processo discursivo da leitura, não somente elaborar suas versões públicas de mundo, mas também perceber a intencionalidade da versão pública do outro, por meio das pistas deixadas no texto e ativação de seus conhecimentos.
A referenciação exige que sejam considerados tanto a organização linguística, quanto os processos de funcionamento do texto – através dos quais os textos emergem (e pelos quais os gêneros são atualizados). Uma vez que o texto, objeto de ensino, é promovido a uma prática constitutiva da sociedade, reiteramos que um ensino produtivo de leitura deve ter a preocupação de associar gramática e análise linguística aos usos sociais que o aluno fará da língua.
4 ASPECTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
Ou o texto dá um sentido ao mundo, ou ele não tem sentido nenhum. E o mesmo se pode dizer de nossas aulas.
LAJOLO (1999)