Costurando as experiências que são esses fragmentos escolhidos pensados da minha prática, da minha história, os chamarei em cena, mesmo que seja para serem contraditos, questionados. Assim minha experiência aparecerá, mas tecida com o trabalho todo do inicio ao fim.
Escolhi como campo inicial da pesquisa estar em contato com a prática orgânica do mercado popular da Uruguaiana, o conhecido camelódromo do centro do Rio de Janeiro. Acreditava que ali parearia minha vivência pessoal com essa prática. Antes, porém, decidi tirar 5 dias para descansar depois da qualificação. Mas os pensamentos efervesciam e num eterno sentir, como um software que ficava sendo executado em background em minha mente. Estava sempre a observar, procurando as burlas pertinentes na lida diária.
cidade e em seus meios (THRIFT, 2004) são feitos em função de uma dinâmica de mercado.
Começo minhas impressões, de uma forma narrativa descritiva, no momento que desço no aeroporto internacional de foz do Iguaçu.
À saída do aeroporto já se nota uma diferença no clima e no comportamento das pessoas. Por ser cidade de fronteira, a presença dos agentes federais se faz muito mais presente (tanto em aduana, quanto em polícia). Diga-se que para embarcar de volta, existe fiscalização com raio-x de bagagem antes mesmo de se chegar ao balcão da companhia aérea e não é possível fazer check in sem antes ter a bagagem inspecionada, algo que não existe em aeroportos domésticos, normalmente.
A cidade possui mecanismos de funcionamento em função da proximidade fronteiriça com a zona de livre comércio paraguaia. O leito do rio Paraná define a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Grande parte da população de Foz trabalha do outro lado da fronteira, logo há linhas de ônibus internacionais. Essa é uma das formas de ir ao outro lado. As outras formas oficiais são: a pé, de moto-taxi, de carro ou de vans que fazem um serviço para turistas.
Para ir a primeira vez escolhi o ônibus da linha internacional, com o intuito de percorrer os caminhos mais coloquiais da experiência. Ao me aproximar da fronteira, dentro do coletivo, olhei pela janela e ali se desenhou para mim o cenário geográfico que poderia ser a capa dessa dissertação. Um outdoor gigante, muito maior do que os convencionais que conhecemos propagandeando sobre um dos modelos existentes de caixa conversora de sinal de TV à cabo. Esse outdoor fica a poucos metros da aduana brasileira.
Era um desenho do paradoxo, quase um sarcasmo comercial. Oficialmente pode-se ir ao Paraguai e comprar com nota uma dessas caixas, passar oficialmente pela aduana, declarar a importação, e levar pra casa uma dessas caixas. Ligando-a no cabo da TV por assinatura esse dispositivo desbloqueia todos os canais bloqueados fora do pacote assinado. Onde está o crime aqui?
É errado esse movimento que a própria conduta oficial oferece como possível?
Como é preciso repensar toda a visão que devemos ter sobre o que é oficial e o que não é. Elas coexistem de forma natural e produzida, engendrando caminhos que produzem a utilização da tecnologia da forma contemporânea.
Pisar em terras paraguaias foi para mim uma experiência que também me remeteu a memórias emocionais profundas. Nutria uma curiosidade decana de conhecer in loco o eldorado das peças de informática nos anos 90. Tudo que narro a partir daqui é um relato carregado de expectativa e emoções, uma entrega total a experiência de campo, dentro do olho do furacão da burla comercial.
Homenageando os criadores da teoria ator-rede, a melhor metáfora descritiva do comércio praticado ali é a de milhares de formigas em meio a prédios - formigueiro. O comércio se faz desde o camelo sem licença e com produto fresco na mão, passando por barracas oficiais ou não, literalmente no meio das ruas principais e subjacentes, até prédios de galerias de lojas e lojas de departamentos que vendem de tudo. Quero enfatizar: de tudo mesmo. E em quase todo lugar você encontra o produto original, o genérico e o falsificado.
Todos coabitando tranqüilamente o espaço urbano caótico de trânsito de carros, ônibus, caminhões e pessoas. Para se ter uma espécie de garantia de procedência no lugar somente nas grandes lojas, sem dúvida. A parte da cidade que estão concentradas as lojas de peças de informática funciona quase como um organismo independente. Pois é enorme, com prédios dedicados quase 100% à área. Ir a uma dessas lojas, já conhecida por mim desde o inicio da década de 90 me trouxe impressões muito interessantes.
A loja não fica em um lugar só. Ela ocupa vários andares inteiros com balcões de atendimento de um desses prédios comerciais. Na entrada desses prédios os camelôs de “mão” oferecem tudo que é portátil e vendido rápido.
Aceitam dólar, Guarani e o Real, como moedas, cartão de crédito só nas grandes lojas de departamento, numa clara relação de distanciamento fiscal.
Senti minha percepção temporal ali alterada: às dezessete horas quase todas as lojas são fechadas e todo o fervor dá lugar a um lugar ermo, com cara e cheiro de risco.
Ao contrário do trajeto de ida, onde o coletivo passa direto para o lado paraguaio, na volta há fiscalização aduaneira brasileira. Ao entrar no ônibus, primeiro eles se apresentam educadamente e explicam que se tem alguém que fez compras como turista deve descer e declarar a mercadoria. Depois disso, passam em revista, olhando e escolhendo alguns passageiros para descerem e verificar bolsas e sacolas. Os que desceram espontaneamente ou a pedido,
recebem um ticket para embarcar no próximo ônibus que passar, depois de ter seus pertences averiguados.
Fui um desses contemplados com um convite a descer. Embora não tivesse com nada de errado fui questionado sobre as vitaminas que comprei com cartão de crédito internacional e nota fiscal em uma das lojas de departamentos oficiais e legalizadas que existem em Ciudad Del Leste.
Poderia começar toda uma discussão sobre a falta de preparo e estrutura.
Desde a regulamentação do que é proibido ou não, sobre o conhecimento técnico da fiscalização, sobre vitaminas serem consideradas remédios, etc.
Opto pela descrição do fato ocorrido e permito, em caráter jocoso, ao leitor decidir, se o processo foi de burla praticada por mim perante o sistema oficial ou se são apenas mecanismos sociotécnicos materializados em situações interpessoais que se produzem na prática experiencial, recheados de ressalvas descritivas para debates.
A fiscal que me atendia queria apreender o que comprei. Argumentei que além de ser psicólogo, fiz pós-graduação em terapias naturais em uma faculdade oficial brasileira e ajudei a fundar o sindicato dos terapeutas do Rio de Janeiro, sendo diretor de ensino desse sindicato. Mostrando a ela meu documento emitido pelo sindicato.
Ela chamou um fiscal da agência de vigilância sanitária brasileira me disse que aqueles medicamentos8 não poderiam entrar no Brasil, pois eram proibidos (?!). Atento em manter uma fala mais sofisticada e técnica, mostrei ciência sobre todos os produtos por mim adquiridos, contra argumentando a fala da agente de aduana. Por sugestão do fiscal da vigilância sanitária, para solucionar o impasse, fomos redigir uma prescrição daqueles “medicamentos”
dada por mim, como terapeuta natural, para minha namorada que me acompanhava. Dessa forma, com esse documento poderíamos passar pela fiscalização já que existia um pedido “oficial” para aqueles produtos. Expliquei ao fiscal que como terapeuta natural não poderia escrever uma prescrição, pois elas são prerrogativas de formados em medicina. Poderia apoiado na letra da
8Termo e definição errados. Todos os produtos comprados legalmente são caracterizados como suplementos alimentares.
lei, passar uma orientação terapêutica9. Essa orientação foi redigida por mim, à mão e rubricada (apesar de explicar a ele que tinha uma disgrafia diagnosticada e atestada), carimbada e assinada por ele em seu gabinete, que a essa altura me perguntava o que era bom pra colesterol, me contando que estava com problemas de pressão sanguínea elevada. Entreguei esse documento ao fiscal da aduana para que pudéssemos seguir em viagem no próximo ônibus. Ele ainda me recomendou deixar o documento dentro da bagagem onde levaria as vitaminas, pois se houvesse outra fiscalização (no aeroporto, por exemplo) eles veriam autorização e não teria o mesmo problema.
Decidi ir no outro dia de carro alugado até a fronteira e atravessar a ponte à pé, parando o carro numa das dezenas de estacionamento de diária que se localizam ao lado da ponte da amizade. Foi também uma experiência muito interessante, pois descobri que não preciso ir ao outro lado para comprar o que quisesse de informática (no maior indício de que o que capitaneia o comércio ali ainda é a tecnologia da informação). O dono do estacionamento se ofereceu para me fornecer o que quisesse de peças de computadores e eletrônicos. Eles inclusive me entregariam no hotel que estivesse sem cobrar nada a mais.
Declinei da proposta, pois queria viver e sentir na pele, no caminhar o que era atravessar o caminho.
Do estacionamento até a ponte passei por lojinhas simétricas às que existiam do outro lado, vendendo um pouco mais caro, mas muito pouco mesmo, produtos dos mais variados. (o comércio de tecidos e roupas, principalmente de frio, também é muito forte)
Com mochila nas costas e o coração ansioso, comecei a travessia. Na própria ponte há camelôs vendendo brinquedos simples e refrigerantes. Na conversa com o dono do estacionamento, recebi dicas de não parar na ponte, andar mesmo como formiguinha até o outro lado e não aceitar as abordagens para transporte. Ao passar pela aduana, o fluxo é o mesmo dos veículos: na ida direto sem nenhuma abordagem, na volta pode-se escolher parar para declarar, ou passar direto, sem parar de caminhar. Caminhamos direto no fluxo dos pedestres até o Brasil ser sermos importunados ou interrompidos.
9 Termo usado por terapeutas naturais de qualquer espécie para recomendar a ingestão de qualquer substância que a formação o permita passar. Exemplos: fitoterápicos, florais, homeopatias, suplementos alimentares.
Foz do Iguaçu também faz fronteira com a Argentina. De forma muito menos badalada que a que se estabelece com o Paraguai, essa possui uma característica interessante. A facilitação oficial à burla se traduz aqui no interesse comercial. Na fronteira Brasil-Argentina, após passar pela aduana brasileira e antes de chegar à aduana Argentina, no meio do caminho, no limbo fronteiriço, existe um super free-shopping argentino que vende de tudo um pouco. Essa localização estratégica é claramente intencional. Não é preciso nem chegar ao território argentino pleno, para comprar produtos importados isentos de impostos.
O que ficou muito forte para mim nessa experiência é que é muito fácil entrar no Brasil, com insumos para uso pessoal. Em minha premissa aqui, defendo a ideia que fazer-se valer do método não convencional para uso próprio sem fins de comercializar e obter lucro não deveria ser visto como algo passível de punição. O que existe é uma acomodação, um equilíbrio tênue entre as duas forças, os dois lados, sem bem nem mal dicotomizados. Essa harmonia às vezes se altera com a prática de crime intencional. Vivenciei um exemplo disso numa perseguição policial digna dos filmes hollywoodianos dentro da cidade de Foz do Iguaçu. Em frente ao ponto de ônibus em que estava, um carro passou em alta velocidade, sendo perseguido e interceptado por policiais. Um morador da cidade, que estava no ponto no mesmo momento, disse que isso é comum na cidade. São veículos que transportam “alguma coisa errada” e tentam furar as barreiras policiais.
A experiência no epicentro da burla comercial da tecnologia foi um grande aprendizado e me ajudou a perceber a amplitude do tema que resolvi pesquisar. São muitos os desdobramentos que esse universo paralelo produz junto ao oficial e dentro dele mesmo. A maneira já naturalmente burlante da zona de comércio paraguaia foi fundamental para a informatização do país na década de 90. Por vias legais, seria financeiramente impraticável, por conta das leis protecionistas da época (lei de reserva de mercado), a entrada do hardware necessário para o estabelecimento do parque equipamental. Assim se produz um fato que talvez jamais seja admitido como intencional, mas denota claramente outra premissa: O método oficial faz uso da burla para atingir objetivos maiores.