apreendidas 40 toneladas de material. Será que depois de 40 toneladas de materiais, a feira, que ocorre todo domingo, iria funcionar?
Não sei se as balanças da prefeitura estavam marcando errado ou se esses “choques” são apenas para manter uma ordem estabelecida na materialidade das circunstâncias, que funciona como um agente apenas regulador de tamanho e proporção de fatos sociais. O que afirmo e o que pode ser visto nas fotos abaixo é que se não tivesse lido sobre operação da polícia nunca saberia que ela tinha ocorrido. Observando um vendedor de material de escritório, o vi respondendo a uma senhora quanto a um determinado produto.
Dirigiu-se à freguesa e disse tinha, mas havia sido levado na semana passada.
Tentei uma pergunta, sobre o que ele perdeu, tentando a empatia como veículo de conduta, mas ele não se estendeu sobre como havia sido ou o quanto ele perdeu, ele só falava que – “tá tudo lá no depósito de Bonsucesso”15. Pelo que vi na prática o impacto da operação foi muito menor que o propagandeado na imprensa.
examinei bem e realmente constatei que era um produto original. Ele sorriu e disse que tinha caído do caminhão16. Um outro vendedor, quando questionei a estória da queda do caminhão, disse que ele conseguia pegar com um cara que pega direto na fábrica, no que sobra do excessivo da produção. Produtos perecíveis são produzidos dentro de uma expectativa de saída, mesmo com todo o controle de produtividade, há sempre uma sobra ao final de uma produção, que para não ser descartada é conduzida a algum fim. Um exemplo de fim “oficial” desse encadeamento é a loja da fábrica de uma panificadora localizada em Inhaúma, subúrbio do Rio de Janeiro. Lá se vendem pães de forma, bolos, torradas por preços até 80% mais baratos do que no comércio normal, que só podem ser pagos em dinheiro ou cartão de débito imediato.
Essa mistura de situações mostra a como o ato de burlar o comércio está intrínseco na prática comercial, sempre produzindo uma forma oficial de burlar o sistema. Há além da loja da fábrica que vende a sobra da produção a preços módicos, um mecanismo de articulação dos responsáveis pela conduta da fabricação (que logisticamente já espera pelo excedente). Eles repassam (doando, vendendo ou desviando), sem nota fiscal parte dessa produção para esses vendedores ambulantes, que também existem aos montes (em grande número?) pelas ruas, no meio das calçadas do centro do Rio de Janeiro,
“queimando” rapidamente a mercadoria em barracas improvisadas e às vezes na própria mão.
São originais também mercadorias nitidamente de procedência de furto, como celulares sem carregadores vendidos por no máximo 30% do seu valor de mercado. Esses pararam de aparecer na Uruguaiana, mas aparecem facilmente no grande paredão da feira de Acari. E há também o comércio de mercadorias originais oriundas do Paraguai (sim, é possível vir do Paraguai e ser original). Vendidas com garantia dada pelo vendedor e assistência técnica oficial do fabricante. Fica difícil para separar dentro de uma lógica explicativa a burla do oficial. Ponto que corrobora com minha questão fundamental dessa dissertação.
Réplicas: Numa distância mínima dos originais de procedência não oficial, as réplicas, por muitas vezes são confundidas naturalmente com o
16 Descrição fantasiosa e humorística usada para denotar a origem de mercadorias originais vendidas a preço muito abaixo do custo.
original, tamanha a perfeição em sua fabricação. Cabem aqui dois “causos”
que me permito descrever sobre minha experiência cuja burla insiste e persiste em permear:
Tenho uma tia, irmã do meu pai, que tem uma rede de três óticas. Há alguns anos atrás, vi em suas vitrines modelos exatamente iguais, em todos os detalhes de alguns modelos de óculos vendidos nos quiosques da Uruguaiana.
Cheguei a voltar ao camelódromo para verificar, comprei um e fui usando-o na loja da minha tia para comparar. Mostrei a funcionária da ótica, dizendo ter comprado numa ótica de outro bairro. Ela brincou comigo – “nossa, por que você não comprou aqui, sua tia te daria 30% de desconto.”- Era o próprio, original reconhecido por quem trabalha diariamente vendendo óculos (a própria figura da especialista!). Soube depois que os lucros das óticas são estratosféricos em todos os óculos vendidos.
Um conhecido viajou a trabalho a Pequim e fui conversar com ele sobre essa experiência. Ele me contou que esteve na fábrica de bolsas femininas de alto luxo de uma marca francesa muito famosa. Ele, querendo comprar presentes conseguiu junto a um funcionário da fábrica, comprar bolsas da produção original da marca por um valor que representava 10% do valor de mercado da bolsa. A única diferença era um detalhe em metal dourado que, segundo o vendedor, não poderia ser colocado na bolsa, pois aí o produto estaria completo e seria violação legal. Mas que ele daria o detalhe a ele para que ele mesmo colocasse depois.
Ocorrem-me as seguintes percepções e uma indagação: É por isso que óticas vivem vazias, mas nunca fecham por falta de movimento. O camelô cobra um preço mais justo. Talvez seja esse o motivo que a repressão sobre vendas das réplicas na Uruguaiana tenha sido tão intensificada a ponto de não ter conseguido mais encontrar óculos-réplica lá. Como definir em alguns casos o que é original e o que é réplica?
A réplica é um híbrido, um actante sem identidade que pode ser em sua alma original e ser tratada como cópia ou uma cópia de sorte que é alçada a condição de original. Parece não haver hoje uma fábrica de réplicas e sim um desvio na produção dos originais. O que a torna diferente do próximo item é a qualidade e o acabamento do produto.
Falsificação: Cópia, geralmente mal acabada, produzida em material de pior qualidade, ou no caso de aparelhos eletrônicos com software genérico e muito limitado. É nesse universo que há um sem números de produtos que são vendidos a preços irrisórios. Porém merece destaque aqui, a indústria dos aparelhos celulares que conseguiu produzir, com a conivência dos sistemas abertos de marca registrada17, aparelhos que só não podem ser alçados a condição de réplica, pois ou criaram características próprias, se tornando assim originais (mesmo com o “ar” do modelo de inspiração) ou procuram manter-se fiéis ao modelo de inspiração continuando assim sendo falsos.
Aonde começa e termina nesses casos o oficial e o caminho alternativo?
Sempre existe uma permissividade, uma brecha em qualquer sistema de produção para produzir um efeito desviante, um realmente não parece existir sem o outro.
Após esses desdobramentos que continuam produzindo articulações constantes minha narrativa do campo chega ao fim. A Burla permanece, se perfazendo se construindo, híbrida, livre, escorregadia. Se adaptando como um camaleão recorrente. Todo campo efetivo foi para mim sempre afetivo. A experiência que vivenciei foi amadurecedora em minhas emoções, gestáltica em minha existência e profunda em contaminação das práticas que se perfazem no tecido sociotécnico. Muitas surpresas e resgates foram costurados nos caminhos que percorri. A experiência no campo sempre esteve presente, mesmo antes da minha prática como profissional de TI. Na convivência com meu pai e seu estilo de sempre fazer diferente, buscando melhora de performance ou facilitação processual. Nas idas à feira de Acari onde ele comprava sempre algo que iria servir para adaptar a outro algo, produzindo uma terceira coisa, subvertendo as funções dos equipamentos e se orgulhando (sempre) disso. Me desenvolvi com essas premissas que se internalizaram e foram performadas com meu contato com o “mundo lá fora”. A experiência de estar no inicio da informatização do país, de ver acontecer como método possível justamente a forma que herdei de produção de articulações,
17 Sistemas operacionais de celulares são baseados em Unix, linguagem de programação aberta, em sua mais famosa representação: O Linux que dá origem ao sistema para celulares do Google, o Android. Há uma grande permissividade e conivência por parte do Google em licenciar o uso do Android para aparelhos falsificados.
acompanhar todo o “caminhar da carruagem” até os dias de hoje e retornar ao inicio de tudo, na ciclotimia quase sarcástica da minha experiência.
Saí de uma prática acadêmica, semanas de reuniões com textos que sempre exaltavam a materialidade como boa prática, onde as questões interessantes se manifestam. O campo me percorreu, eu percorri o campo. Ele me passou, me perpassou, me atravessou, para lá e pra cá. Como uma linha grossa a costurar a beirada de um travesseiro. Dormi um teórico-praticante, acordei numa prática que surpreendia a cada instante. Suspeitas confirmadas, surpresas causadas, experiência vivida, atravessamentos percebidos, o campo valeu, muito.
4 A BURLA, O BURLAR E OUTRAS BURLAS
Tá rebocado meu compadre.
Como os donos do mundo piraram.
Eles já são carrascos e vítimas.
Do próprio mecanismo que criaram Raul Seixas
Essa é última parte da dissertação onde a burla será analisada como um todo. Seus métodos, seus caminhos, sua permeabilidade. Por se tratar de uma prática sempre colocada à sombra dentro de toda a historicidade humana e ser o tema propriamente dito desse trabalho resolvi dar a ela um lugar de destaque. Sem tomar partido ou criar julgamentos sobre o que é certo ou errado, apenas praticando o método escolhido para essa escrita, sempre seguir os atores e suas interações.
Por possuir inúmeros sentidos, burlar não pode ter apenas a conotação subversiva inerente ao senso comum da palavra. Burlar pode ser fazer diferente do estabelecido. A burla se performa em suas relações como agente modificadora de uma realidade até então estabilizada em um processo determinado. É a prática para solução de questões que aparecem em meio à própria experiência cotidiana. Podemos perceber que a técnica da informática burla a dificuldade de controle da informação, tornando automático seu processamento. Um moinho burla o curso do rio, tirando dele a força para suas pás se moverem. Burlar tem como definição em qualquer dicionário um aspecto negativo: despojar, enganar, esbulhar, espoliar, falsificar, fraudar, lesar, trampolinar, trapacear e usurpar. Burlar pode ser também fazer de outro jeito, produzir caminhos não convencionais, alterar o método pré-definido, conceber alternativas em função do possível momentâneo. Quero usar como definição- padrão para a burla o sentido de fazer diferente, independente da intenção.
Não excluo, por obstante, a burla da definição. Aquela que tem sentido negativo, que sobrepuja e desrespeita o método apenas para obter vantagem material ou financeira. A grande reflexão proposta nesse trabalho é entender a inerência da burla enquanto parte integrante de todos os processos da tecnologia da informação, independente das motivações que a levaram a
acontecer. O burlar, enquanto postura de não seguir regras flui através da prática, de um empirismo produzido no lidar diário contra pré-determinações metodológicas que estabelecem regras prontas, fechadas.
A tecnologia da informação é perpassada multifacetadamente à experiência prática dos usuários que produzem técnicas diferentes que se fazem na interação deles com os dispositivos padronizados. E raros são os protocolos obedecidos à risca. Não que eles tenham o intuito maquiavélico de distorcer a práxis oficial, mas simplesmente porque cada experiência cotidiana constrói sua própria particularidade. Não é possível seguir sempre rigorosamente o manual. Peças dadas como defeituosas podem funcionar perfeitamente em outro conjunto, pois quase infinitas variáveis existem. O usuário é sempre um testador, precisa sempre ver se funciona, se atende ao anseio pela funcionalidade. O burlar se torna quase necessário, quando o cotidiano se choca com a expectativa teórica do que foi definido por quem produziu a técnica. Tudo é feito nas cercanias do saber cotidiano. A riqueza de possibilidades e a necessidade de fazer funcionar os dispositivos incitam a burlados caminhos para se chegar à afirmativa: está funcionando!
As regras limitam e restringem a prática. O que o método oficial institui é tomado como verdade como em uma caixa preta (LATOUR, 2000). Mexer nisso desarruma, burla o instituído, pois esse instituído às vezes não dá conta da prática. Não se trata de dizer que a regra não é importante, mas se não for adequada a novas institucionalizações, a novos princípios essas regras acabam ultrapassadas ou alteradas na sua letra. A burla é quase sempre o caminho para instituir coisas novas que geram pontos de abertura que desarrumam o método oficial. Como gerenciar tantas regras em meio à dinâmica dos movimentos transformadores do cotidiano. As regras são necessárias para se entender os parâmetros que estabelecem o que foi implementado. Mas no momento da experimentação dessa prática há o encontro com o instante da experiência cotidiana. As regras assim precisam ser repensadas dentro dessa materialidade através dos elementos que as constituem, tem que de certa forma burlar a regra antiga e estabelecer a nova.
Assim a tecnologia da informação evoluiu ao longo da sua história, nas experiências dos usuários, na adaptação de programas e dispositivos e outras
dinâmicas sócio – técnicas, dentro de suas necessidades, dentro de sua prática.