Pedro: protótipo do discípulo de Jesus: uma análise narrativa do personagem Pedro no Evangelho de Mateus / Flávio Antônio Gomes Ferreira. Deve-se notar que a intenção aqui não é elaborar todas as possibilidades do método de análise narrativa.
Narrativa
Depois de explicados estes pontos de partida básicos, será justificado utilizar esta nova abordagem exegética para o estudo da personagem de Pedro no Evangelho de Mateus, que é também o tema desta dissertação.
Narrativas bíblicas
A análise narrativa é, assim, a aplicação do novo aparato crítico da literatura contemporânea aos textos bíblicos, respeitando as suas especificidades e tendo em conta uma resposta eficaz que o texto espera do seu leitor. 25 Segundo Ska, o estudo da estrutura verbal da narração é relevante para a análise narrativa porque os verbos a impulsionam.
Narrador
Ficção e história nas narrativas bíblicas
Os aspectos históricos e ficcionais das narrativas bíblicas são articulados em função da transmissão de uma mensagem. Espera-se que o leitor dos relatos bíblicos aceite a crença proposta e se deixe guiar por ela.
Texto, leitor e interpretação
Autor real e implícito, leitor real e implícito
Da mesma forma, não temos acesso aos primeiros leitores do texto, mas podemos tentar descobrir o leitor implícito na obra. De qualquer forma, o verdadeiro leitor é todo aquele que lê a obra, mas, como diz Eco47, para efetivamente se perceber como leitor implícito (modelo), o verdadeiro leitor deve ser capaz de se apropriar dos códigos implícitos do autor.
Construção do leitor implícito
Nas histórias, o verdadeiro autor é aquele que realmente compôs as histórias, mas isso se perdeu no tempo histórico. As características idealizadas dos leitores podem ser derivadas das habilidades de que necessitam para compreender o texto.
Clausuras dos textos bíblicos
Enredo
Um enredo pode ser articulado para persuadir o leitor a um novo ponto de vista, ou para convencê-lo a adotar um novo conjunto de valores, crenças, ou para evocar deleite, deleite ou repulsa66. É o ponto de referência para as demais partes da trama, que se organizam para chegar ao clímax do conflito que exige resolução. 4.) desenlace: é a resolução do conflito, seja de forma boa ou ruim, que descreve as consequências da ação transformadora sobre os personagens. 5.) situação final: quando a dificuldade é resolvida, uma nova realidade é explicada aqui, oposta à situação original.
O personagem
- Classificação dos personagens
- Caraterização das personagens
- O personagem Deus
- A descoberta da identidade do personagem
89 “Nomes próprios podem ser um meio de dar autoridade e conectar algo específico com a mesma história. Personagens marginalizados são aqueles que não participam das estruturas de poder e domínio da sociedade.
O ponto de vista
O terceiro é o foco externo, o ponto de vista de um observador ou leitor externo, como se o leitor estivesse próximo da cena e ouvindo o diálogo dos heróis (Mt 11,28-30). O ponto de vista é importante para a exegese porque enfatiza a natureza intencional do narrador ao encorajar a leitura do leitor.
Enquadramento (ou ambientação)
Essa sequência de pontos de vista na história nos permite entender melhor como o narrador os organiza para expressar seu ponto de vista preferido. O ponto de vista nada mais é do que uma visão da realidade; tudo depende da confiança que o leitor deposita neste olhar”107.
Tempo
O narrador pode contar várias vezes o que aconteceu apenas uma vez (narrativa repetitiva) ou pode contar uma vez o que aconteceu várias vezes (narrativa iterativa). Quando contada com anacronia, pode retornar ao passado (analepse) ou saltar para o futuro (prolepse)119.
Conclusão
Neste capítulo eles serão usados para analisar as características dos discípulos e da multidão no Evangelho de Mateus. Por fim, é realizada a análise narrativa de duas tramas episódicas: Mt, pois essas perícopes exemplificam a identidade dos discípulos e da multidão na obra de Mateus.
Contextualização externa do Evangelho de Mateus
Por exemplo, nota-se que a comunidade judaico-cristã de Mateus estava “envolvida numa luta local dentro de uma sinagoga pelo seu lugar numa tradição comum. Na época em que o Evangelho foi escrito, o Judaísmo formativo estava ganhando terreno sobre a comunidade judaico-cristã de Mateus. Porque ele levou a sua comunidade para a missão entre os gentios, o Evangelho de Mateus foi amplamente aceite na grande Igreja, em grande parte de origem pagã, e tornou-se o seu Evangelho principal151.
Contextualização interna do Evangelho de Mateus
A teologia mateana
Mateus não se preocupa com o aspecto institucional da sua própria comunidade, mas sublinha a necessária fidelidade ao ensinamento de Jesus no exercício dos serviços na Igreja (Mt 20,25-28). Todo o ministério de Jesus baseou-se no anúncio do Reino dos Céus176, difícil de definir, pois se refere a uma realidade divina e humana, no presente e no futuro. Contudo, a comunidade formada pelos discípulos de Jesus deve promover o acesso ao Reino, que, por sua vez, só se realizará plenamente no futuro com o regresso de Jesus (Mt 25,31-46).
Estrutura do evangelho de Mateus
Em conformidade com o que se esperava de uma “biografia” de sua época, o Evangelho de Mateus traz a descendência de Jesus, o nascimento e algo sobre a infância de Jesus nos capítulos 1 a 2. O terceiro bloco (Mt indica a necessidade de estabelecer a identidade para distinguir Jesus das suas ações e palavras, e responder com compromisso ou rejeição». 188 Enquanto os adversários de Jesus continuam a rejeitá-lo, os discípulos do Ressuscitado são instruídos a ir às nações.
O discípulo e a multidão no Evangelho de Mateus
Embora sejam claramente distintos dos discípulos e não comprometidos com Jesus, a multidão geralmente não é hostil a ele, nem é condenada por Mateus. Embora se beneficiem dos milagres do Mestre e o considerem um profeta, outras vezes são hostis a terceiros (Mt 20,31). Mateus apresenta os discípulos como modelos, ainda que imperfeitos, do que deveria ser um seguidor de Jesus.
Da multidão ao discipulado
Jesus chama ao seu seguimento (Mt 4,17-25)
Os dois irmãos aceitaram a sugestão de Jesus de segui-lo e tornaram-se “pescadores de homens” (Mt 4,19). O sucesso das atividades de Jesus na Galiléia fez com que sua fama crescesse e se espalhasse por toda a Síria, e todos aqueles que sofriam de diversas doenças foram trazidos a ele (Mt 4:24). Por outro lado, as multidões224 não apresentam nenhuma resposta diferenciada às atividades de Jesus.
As migalhas que caem da mesa (Mt 15,21-28)
O encontro de Jesus com a mulher cananéia expressa o objetivo maior de Mateus de anunciar o Reino e levar a salvação a todas as nações (Mt 28,19-20). Jesus assume o papel de membro judaizante da comunidade mateana e a mulher cananéia é o protótipo de alguém que tem uma fé capaz de mover montanhas242. No seu diálogo com Deus, a mulher cananeia demonstrou sistematicamente a sua grande fé em Jesus, o Messias, filho de David.
Conclusão
Da mesma forma, o evangelista oferece uma mensagem de conforto aos convertidos do paganismo: é a vontade de YHWH, e de Jesus, que eles sejam membros da comunidade de Mateus. Nesta perícope pode-se identificar a descrição de um personagem com as características de um discípulo de Jesus. Com base nestes dois capítulos, Pedro, o discípulo de Jesus mais relevante na catequese de Mateus, será analisado no terceiro capítulo.
A vocação de Pedro (Mt 4,18-20)
Jesus na casa de Pedro (Mt 8,14-15)
Mateus deseja que seus narradores tenham a mesma atitude de Pedro (que abandonou as redes) e de sua sogra, que, uma vez curada (reconstruída), passou a servir Jesus. Esta breve narrativa demonstra uma das obras messiânicas de Jesus que indica a proximidade do Reino276. Mas é a sua resposta positiva ao chamado de Jesus que leva o Reino à sua casa (Mt 4,18-20).
O envio dos doze (Mt 10,1-4)
Ele teve fé para sair do barco e atravessar o mar até Jesus, mas sua fé não foi suficiente para cumprir seu objetivo. Contudo, depois de Pedro ter demonstrado tanta confiança na ordem de Jesus de caminhar até ele pelo mar, ele teve dúvidas. Os discípulos não conseguiram identificá-lo a princípio quando o viram caminhando sobre o mar.
A incompreensão de Pedro (Mt 15,15)
Em Mt 16,13-20, como mensageiro dos discípulos, ele responde corretamente à pergunta de Jesus sobre a sua verdadeira identidade (Mt 16,16)313. Terceiro, a comunidade dos discípulos do Reino deve continuar a missão de Jesus sendo “a luz do mundo”. Ele quer partilhar o glorioso messianismo de Jesus (com Moisés e Elias)372 e permanecer no topo da montanha373.
Pedro, intermediário do ensino de Jesus (Mt 17,24-27)
Sempre perdoar (Mt 18,21-22)
A recompensa do discípulo (Mt 19,16-30)
Ele e os discípulos aparecem na cena como elemento de contraste389 para o jovem rico que se recusou a seguir e por isso lhe será muito difícil entrar no Reino dos Céus (Mt 19,23). Os bens futuros que todos os discípulos receberão em abundância (cem vezes mais) também fornecem um elemento de contraste com os bens dos quais o jovem rico não estava disposto a abrir mão para ganhar a vida eterna. Com a vinda do Reino, os discípulos rejeitados pela comunidade judaica serão os primeiros.
O anúncio da traição de Pedro (Mt 26,30-35)
Nota-se que o comportamento de Jesus contrasta fortemente com o de Pedro e dos filhos de Zebedeu404: ele reza três vezes ao Pai e três vezes percebe que os discípulos estão dormindo. Os seus olhos sem emoção são uma expressão da sua confusão diante das palavras de Jesus sobre a sua própria morte409. Esta dicotomia entre as ações de Jesus e as ações de Pedro se aprofunda ainda mais (Mt e o sono dos discípulos mostram que eles não estão preparados para enfrentar a cruz.
A traição de Pedro (Mt 26,58.69-75)
Ao contrário do ensinamento de Jesus (Mt jura que não conhece “este homem”, quando lhe bastava responder “não”, como ensina o Mestre415. A terceira declaração de que é discípulo de Jesus aumenta a tensão da narrativa e o medo de Pedro ( Mt 26,73) Trata-se de mulheres e de um grupo de pessoas que o identificam como discípulo de Jesus por motivos superficiais, como sair em sua companhia e ter sotaque galileu.
Conclusão
Mateus define as virtudes, os limites e a missão petrina como iguais aos da sua comunidade. Porém, sabe-se que as funções literárias do personagem só podem ser adequadamente compreendidas dentro da obra como um todo. Mateus constrói o caráter de Pedro cheio de contradições que fazem dele um modelo para os cristãos judeus de sua comunidade, ou uma imagem de sua realidade.
Pedro, fiador das tradições de Jesus e modelo real de discípulo
Por exemplo, em Mt 16,19 o evangelista reivindica para a sua comunidade, através de Pedro, a mesma autoridade que Jesus na interpretação das Escrituras. A crucificação e morte de Jesus é a maior dificuldade que os discípulos devem superar. A paixão de Jesus é, portanto, o grande obstáculo para o discipulado de Pedro e, portanto, para os discípulos da Igreja de Mateus (Mt 26,69-75).
A fé de Pedro como como fundamento da Igreja de Jesus
Pedro, fiador da halaká de Jesus
Embora judeus e judaico-cristãos acabem por partilhar as mesmas práticas, os seguidores de Jesus fazem-no apenas de acordo com a autoridade de Cristo, tal como transmitida por Pedro455. Neste sentido, o ensinamento de Jesus adquire maior significado para a comunidade porque foi transmitido pelo discípulo mais próximo dele. Neles, o narrador quer explicar através de Pedro a tradição de Jesus sobre questões práticas da vida dos discípulos.
Pedro, fiador da recompensa para os discípulos de Jesus
Pedro, resistente à cruz de Jesus
O tema da paixão juntamente com o da identidade messiânica de Jesus estão no centro da obra de Mateus456. A partir de agora, o personagem petrino se apresenta como o discípulo que nega a cruz, que todo seguidor de Jesus Cristo deve aceitar (Mt 16,24). O grito amargo – pois lembra as palavras de Jesus sobre a sua negação – representa o arrependimento dos seguidores de Jesus na comunidade de Mateus, que negaram o seu discipulado.
Conclusão
Progressivamente, Mateus constrói o personagem petrino repleto de palavras e ações que, paradoxalmente, refletem as contradições e congruências de um discípulo de Jesus na comunidade de Mateus. Ou seja, é uma das referências, marcadores ou códigos, utilizados pelo narrador para legitimar a sua catequese sobre os ensinamentos e práticas de Jesus. Para uma cultura religiosa que valoriza muito as suas antigas tradições, ele funciona como um elo entre o Jesus terreno e a Igreja de Mateus, para garantir que os discípulos no momento da composição do Evangelho de Mateus seguissem efetivamente as tradições de Jesus.