Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020. Em seguida reflito criticamente sobre o momento atual do Rio de Janeiro, em meio à crise sanitária, e à operação necropolítica.
Considero como esse processo se estabelece em uma norma bionecropolítica que alcança sua radicalização por meio da ruptura da rede de atenção primária à saúde no Rio de Janeiro.
Percursos
Em um dos capítulos do livro “Ensinar para Transgredir: A educação como prática de liberdade”, de bell hooks, quando a autora trata do processo de ensino-aprendizagem, que se estende desde a educação básica até os centros de formação especializada de pós-graduação, ela descreve algumas cenas de posicionamento dos professores com os alunos que dá muito sentido às minhas preocupações (hooks, 2017). Há algo muito sensível e importante nos escritos dos colchetes e que incluo como diálogo para minha tese: aquilo que é institucionalizado e significado dentro. Isso me faz pensar nos colchetes no contexto americano no fim do apartheid, numa época em que o multiculturalismo estava em foco.
Para o efeito, de uma forma muito sensível aos processos de mudança, bell hooks entende que o receio dos professores em mudar os seus paradigmas deve ser tido em conta e acrescenta que foi "necessário estabelecer locais de formação onde os professores tenham oportunidade de expressar as suas medos e ao mesmo tempo aprender a criar estratégias de aproximação com a sala de aula e o currículo multicultural” (hooks, 2017, p.52).
O encontro decolonial
Continuamos com pesquisas voltadas para o distante, protegido pelo saber-poder da branquitude, que não dialoga, embora o faça. Ao mesmo tempo, como fazer isso a partir de um corpo tão afetado e imerso neste campo. O autor refuta a ideia de que exista uma perspectiva neutra e distanciada, ou uma posição holística e total diante do objeto: vem de uma posição crítica e do reconhecimento de uma visão parcial e localizada (num sujeito que está pronto) que faz com que Ciência.
Reconheço e encontro o que marca a minha constituição, na matriz colonial, a partir de um caminho ético que é falar pelo meu lugar de fala a partir da discussão da branquitude.
Um relato de si- a escolha do registro da experiência em
A escrita de si- o ponto de chegada e partida
Aqui explicarei os caminhos que me levam a compreender o meu lugar na matriz colonial que tem a raça como quadro estruturante, e fá-lo-ei sobretudo a partir da minha relação com a família do meu pai, porque dela surgiu a minha família. preto, que eu cresci. O conceito de raça e racismo é uma parte íntima da minha história (assim como da história de todas as questões deste país). Vivi profundamente a história da minha família, a história da minha avó, e mesmo aquelas que não vivi, senti, ouvi, ouvi e nelas me constituí.
O racismo é muito importante para a minha história porque está intimamente relacionado ao meu crescimento, no sentido de desenvolvimento, mas sobretudo no sentido de ascensão e possibilidades da minha existência. Retomar minha história, principalmente após a perda de meu pai, é como pedir sua bênção, pedir permissão para reflexões que não poderia ter com ele, mas que são baseadas nele, pois faz parte da minha história que minhas questões sobre raça foram afetivamente decididos. Embora as discussões sobre racismo fizessem parte da história da minha família, não falávamos abertamente sobre o sofrimento do meu pai ou como a história familiar dele e da minha mãe, mesmo vindos da pobreza, teve lugares tão diferentes, socialmente e também na nossa vida. .
Se tento dar conta de mim mesmo e se tento me tornar reconhecível e compreensível, tenho que começar com uma descrição narrativa da minha vida” (BUTLER, 2017, p. 52). Como não ver hoje a história de vida da minha família como uma expressão do que sustentou o colonialismo na sociedade brasileira. O corpo negro da minha avó apoiou o colonialismo brasileiro, meu estudo para “não pegar enxada”.
Minhas palavras são levadas ao dizê-las, interrompidas pelo tempo de um discurso que não é o mesmo da minha vida. Devo falar da minha história para não negar as verdades que são suprimidas, mantidas e guardadas em segredo na constituição deste país.
Registros de experiência (na APS) em processo
Nesse sentido, este último estado é o ato de reparar os danos causados pelo racismo, alterando estruturas, agendas, espaços, posições, dinâmicas, relações subjetivas, vocabulário, ou seja, abrindo mão de privilégios [...] vários passos revelam consciência do racismo não como uma questão moral, mas sim como um processo psicológico que requer trabalho. Neste sentido, em vez de fazer a clássica questão moral “Sou racista?” e esperar uma resposta confortável, o sujeito branco deveria perguntar-se: “Como posso desmantelar o meu próprio racismo?” Tal questão é em si uma questão. inicia esse processo (KILOMBA, 2019, p. 46). Tento então avançar em um processo de reflexão e escrita que seja autoritário e caminhe em direção à recuperação, não elucidando os mecanismos do ego para restaurar a branquitude, mas acreditando na ética de uma escrita em que intersecções da minha vida com a matriz colonial. (de uma perspectiva interseccional), permitam-me avançar na reflexão sobre as minhas experiências em direcção a perspectivas de recuperação estrutural.
O caminho já iniciado é o da escrita que critica permanentemente os postulados e a acção política, na crença de que o conhecimento é acção e reflexão, mas é também emoção e racionalidade, é o corpo, é intelecto, é um vir e saída de tensão e retrabalho (CARIÑO et al, 2017). Questionar-se é um movimento feminista na virada colonial e produz um estilo de escrita que entende que escrever é uma forma de registrar processos e pensamentos. Devemos apontar as diferenças entre nós e reconhecê-las num processo em que a opressão não é silenciada, mas sim colocada numa perspectiva analítica.
Em síntese, este ensaio apresenta narrativas que questionam a matriz colonial subjacente às práticas nos cuidados de saúde primários, baseadas na afirmação da experiência como produção de conhecimento e no reconhecimento de que a experiência é um processo. Inspirado pelo desenrolar das experiências em pleno andamento, acredito que os processos que me afetam podem ser tão importantes quanto as conclusões da reflexão. É um processo porque está acontecendo, porque é uma temporalidade concreta e, portanto, intensamente vivenciada; mas é também um processo de levantamento de questões que são trabalhadas de forma coletiva durante o processo de escrita.
Neste capítulo, a resposta à questão ‘como isso acontece e quais as possíveis leituras das relações de poder, da violência de gênero, do assédio moral/sexual na saúde?’. Nesse sentido, a heterossexualidade normativa, ou “heteronación” conforme definida por Ochy Curiel (2013), institui a violência de gênero assumida naturalmente pelo Estado.
A lida diária com o assédio(a dor)
Era uma tarde comum na unidade de saúde quando um trabalhador saiu repentinamente do grupo de Whatsapp. Desde 2009, a cidade do Rio de Janeiro investe na expansão da Atenção Básica/APS por meio da implantação do modelo de unidade denominado ‘Clínica da Família’, orientado pela Estratégia Saúde da Família. A Reforma Assistencial na Atenção Primária à Saúde (RCAPS) contou com as Organizações Sociais de Saúde (OSS) que, dividindo-se em áreas programáticas do município (os antigos distritos sanitários), administraram as unidades de saúde da região (que também se expandiram para a rede de saúde mental , urgência e necessidade, etc.).
Percebemos que essa lógica de indicadores gerou muita competição entre as equipes de saúde da família, nas quais os profissionais trabalham para atingir metas, em detrimento de uma assistência qualificada. Destaco minhas dificuldades, obstáculos, atitudes e deslocamentos no trabalho com outros profissionais de saúde a partir do apoio matricial. Um exemplo claro disto é não ter em conta a divisão do trabalho dentro das unidades de saúde.
Os faxineiros e os zeladores geralmente não são considerados profissionais de saúde, nem mesmo para festas em estabelecimentos de saúde. Num fórum sobre saúde mental na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, discutimos a política de internação compulsória de moradores de rua com problemas de saúde mental. A atual prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, como também relatei, está trabalhando para reduzir a estratégia de saúde da família após os ataques aos trabalhadores do SUS.
Artigo apresentado na Conferência Regional sobre Reforma dos Serviços de Saúde Mental: 15 anos depois de Caracas. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão das diretrizes para organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Redefine o cadastramento das equipes de atenção básica e de saúde mental no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Básica à Saúde, 2020.
Práticas de saúde em contextos de vulnerabilidade e negligência de doenças, sujeitos e territórios: oportunidades e contradições na atenção à saúde da população em situação de rua.
Gestão e “banalidade do mal”
Assédio moral em meio ao caos
ESF no Rio de Janeiro- caminhos da necropolítica
Se antes da ampliação a baixa cobertura gerava vínculos empregatícios precários, a partir de 2009 o emprego CLT por meio do OSS não garantiu necessariamente melhores condições de trabalho aos profissionais de saúde. Deve-se levar em conta que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LK nº101/2000) foi um instrumento importante para a insegurança no emprego dos profissionais de saúde. Em novembro de 2019, foi lançado o programa Previne Brasil (Despacho nº 2.979, de 12 de novembro de 2019), que altera o modelo de financiamento da atenção básica, vinculando-o, entre outros critérios, ao número de cadastros realizados pelas equipes de saúde da família. .
Contudo, pergunto-me porque é que isso foi possível com os trabalhadores desta unidade de saúde e não com os meus pares da cidade. Continuando a pensar neste “diálogo/monólogo”, abordarei um espaço de construção coletiva, entre os colaboradores do KSHP e das redes de saúde mental. Voltando ao nosso trabalho como FSKSH, como saúde da família, falamos do atendimento dessa população nas unidades de saúde da família, como um esforço para garantir o acesso e ser um espaço de proteção para essa população (cogitou-se até, fazer um cartão com o nome da unidade de referência do sujeito para servir de elemento na negociação da internação com a polícia - como se isso necessariamente resolvesse ou ajudasse).
A tradição sanitária para nós, profissionais de saúde, é uma tradição racista que opera com os poderes da bionecropolítica (LIMA, 2018). Porém, numa dessas situações, este agressor, num acesso de raiva, ameaçou uma profissional de saúde porque entendeu que durante a consulta sugeriu à companheira que ela o abandonasse. Este caso é emblemático para pensarmos como um mesmo sujeito, um profissional de saúde com papel decisório na unidade, personalizado na política de saúde, pode atuar no mecanismo da bionecropolítica (LIMA, 2018).
No caso de um sistema mundial capitalista que emprega e produz cientificamente mecanismos de distinção e separatividade, as políticas de saúde deste sistema produzem e evocam modelos de cuidados que correspondem a um avanço neoliberal que é necropolítico. Na narrativa neoliberal, o valor é o mercado, e a criação de agências internacionais que, por exemplo, induzam sistemas de saúde seletivos é uma forma de mantê-lo. As indicações internacionais e a política de ultrapassar as fronteiras dos interesses dos países e das agências internacionais são um tema importante na análise histórica da política de saúde.
Naquele momento, a organização dos trabalhadores do coletivo Sem Serviço de Saúde Menos10 foi crucial para pressionar pelo não fechamento das unidades e pela demissão dos trabalhadores da saúde.
Retomando: Assédio moral em meio ao caos - caminhos de resistência