Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, 2018.
Sinta-se em casa, eu sou Carolina
Carolina Maria de Jesus está preocupada em não se mostrar apenas como diarista. Carolina Maria de Jesus dá continuidade a este património imaterial e transporta-o para o mundo escrito através dos seus livros.
A porta de entrada
Carolina Maria de Jesus entendeu que a literatura era uma forma de chegar ao casarão para questionar o sistema, denunciar e tornar visível a violência cotidiana vivida pelos moradores das favelas. Na última década, o Brasil (re)descobriu a riqueza que Carolina Maria de Jesus traz para a literatura brasileira.
Literatura negro-brasileira
Sendo um dos últimos países a abolir a escravatura, foi necessário fornecer feedback a outros países sobre o que está a acontecer à nossa população negra, e a resposta fornecida é a harmonia racial. Se os negros representam metade da população brasileira, por que ainda há pouca representação no cânone literário de autores e protagonistas negros que se declaram negros? E as respostas mais simples, como a de que a literatura negra é escrita por um autor autorreferencial ou identificado, ou mesmo por um eu/narrador lírico que quer ser negro, o mesmo vale para a questão marginal ou periférica, e também há diferenças significativas .
Aos negros foi negada a alfabetização e a leitura, pois o ato de escrever e gerar literatura produz pensamento crítico, questionando o que está ao seu redor e compreendendo o poder de sua voz. A transmissão, que ocorreu tanto na mídia escrita quanto na televisiva, reforçou o imaginário coletivo de um escritor que, para grande parte da população, sempre foi branco; porém, graças à pressão dos movimentos negros, o debate revelou à sociedade a verdadeira identidade étnica do autor, pressionando a Caixa para que retirasse a propaganda (G1, 2011). A negação da existência da literatura negra também reforça o apagamento da história, da cultura e da civilização africana, que sempre fez parte da história brasileira.
Compreender o espaço em que se encontra e a opressão que existe, como o racismo, é um passo importante para alcançar lugares de condenação e de fala que permitam aos indivíduos se expressarem e ressignificarem sua história. Neste capítulo discutiremos os conceitos de memória e destacaremos alguns dos autores que se debruçaram sobre este tema.
Tecendo memórias, costurando palavras
A partir do momento em que você trabalha essa identidade, você ganha uma compreensão mais profunda do grupo, percebendo que o outro faz parte de você e da sua história. Achamos que tarde é o tempo que demora a passar, mas já é tarde quando vemos que não fizemos o que queríamos até termos tempo. Uma sala de aula está cheia de vozes que se misturam e criam um ruído que frustra muitos professores quando precisam explicar a matéria que acabaram de ministrar.
A memória faz parte da construção desse “eu”, da identidade e da história de cada pessoa. A comunicação entre os idosos e as crianças foi essencial para que a relação do homem com o próximo, a natureza e os seus antepassados se tornasse conhecida. Como professora, via a escola não apenas como um espaço de aprendizagem, mas também como um lugar que inconscientemente faz parte de suas vidas.
A diferença entre um relato e outro diferia em pequenos detalhes que não alteravam o contexto do que era dito, se o fossem, outros imediatamente os apontavam. Através de autores que se debruçam sobre o tema da tradição oral, aprendemos que a oralidade dá conteúdo à palavra, dá-lhe vida.
Oralidade e escrita: desdobramentos
A falta de oferta fez com que movimentos e coletivos negros lutassem por meio de políticas públicas para que os negros tivessem acesso aos estudos para que pudessem ter um currículo que considerasse positivamente a cultura, a religião e a história negra dentro do currículo escolar. Focamos no papel de homens, mulheres, grupos e associações que lutaram arduamente para tornar a educação acessível a todos, garantindo o acesso a reivindicações que buscavam beneficiar os negros. Pretendemos realizar um estudo histórico para observar como os negros se articularam para que pudessem ter acesso à educação à luz dos mecanismos utilizados pelo Estado, sem que isso excluísse os negros do acesso à alfabetização.
A disponibilidade dos professores foi essencial para o seu ingresso nas escolas. Para que uma pessoa fizesse parte de tal classe, era essencial que ela dominasse a cultura escrita. Percebemos então que oferecer condições para que os negros tivessem acesso à alfabetização desde a época da escravidão abriu espaço para questionar o racismo estrutural que se enraizou, além de movê-los da condição de objeto para a condição de sujeito, pois era um dos os sinais que distinguiam um escravo de um homem livre.
Porém, havia um mecanismo para evitar que isso fosse possível, pois resultava em imobilidade, impedindo que os escravos pudessem se movimentar, entre outras coisas. Era conveniente aprisioná-los em seus espaços de trabalho para que não pudesse ocorrer uma comunicação eficaz.
Periódicos como meios de resistência
Os jornais funcionavam como publicitários das escolas, principalmente daquelas ligadas a entidades negras, que eram mantidas por professores negros. Isso funcionou como uma estratégia que tentava mostrar aos negros que a educação era possível para todos, pois muitos, ao ingressarem na escola, eram ignorados pelo corpo docente por causa da cor. Outro aspecto na escolha de uma escola voltada para os negros foi não se afastar da educação tradicional africana (GONÇALVES; SILVA, 2000, p. 143).
Todas as ações buscaram difundir o conhecimento de que a educação deveria ser para pessoas negras. Segundo Cunha (2000 apud GONÇALVES; SILVA, 2000, p. 141), mesmo quem não sabia ler comprava jornais e pedia a quem sabia ler que os lesse para eles. Os negros são forçados à marginalização, pois se tornam reféns da sociedade por não terem acesso à educação, ao trabalho, à saúde pública ou a qualquer tipo de ajuda que o Estado possa oferecer.
13 A autora que usa o pseudônimo bell hooks, chamada Gloria Jean Watkins, prefere ter seu nome escrito em letras minúsculas para que a atenção se concentre em sua mensagem e não nela mesma. Há mensagens pedindo aos pais que mandem os filhos para a escola e aos adultos que completem ou iniciem cursos, especialmente cursos de alfabetização.
Multiculturalismo: uma janela para o horizonte
Garantir que todos os alunos cumpram a sua responsabilidade de contribuir para a aprendizagem na sala de aula não é uma abordagem comum no sistema que Freire chamou de “educação bancária”, no qual os alunos são vistos como meros consumidores passivos. Cabe ao professor dar voz para que ele se torne visível, principalmente os alunos negros, que têm dificuldade de expressar sua subjetividade. Porém, tem sido uma instituição que reforçou os princípios racistas, criando uma autoimagem negativa entre os estudantes negros.
Esse corredor foi percorrido por pessoas negras que lutaram coletivamente pelo acesso à educação e utilizaram recursos de diversas formas para ampliar o conhecimento de suas origens e o reconhecimento do racismo na sociedade brasileira. O ambiente em que os alunos negros produziram sua escrita – a escola pública onde leciono na comunidade de Belford Roxo – não é um espaço neutro. Na prática, porém, analisamos que a instituição em geral não disponibiliza espaço para debate, invisibilizando-a e silenciando reflexões importantes sobre a construção social dos estudantes negros.
A negação desse discurso faz parte do processo de racismo estrutural que se torna mais prevalente e poderoso nas instituições de ensino. Optamos por analisar e discutir a escrita como forma de resistência de estudantes negros e femininas, de 16 a 18 anos, matriculados no 2º e 3º anos do ensino médio de uma escola Belford-Roxense.
Travessia metodológica: escritas do (re)existir
Esta investigação buscou descobrir o quão intrínseco é esse processo de racismo a ponto de atingir o imaginário desses alunos onde eles não conseguem, em seu imaginário, ver o personagem como negro mesmo não expressando sua raça. Diante disso, procuro conversar com o grupo de estudantes negros sobre temas que abordarei no decorrer da dissertação e captar as emoções que vivenciei. No início do ano letivo selecionei, em sala de aula, alunos que atendiam ao perfil necessário para a pesquisa: alunos negros que tinham entre 13 e 17 anos.
Os professores citaram alguns alunos que se envolveram mais com a escrita e se destacaram na turma, alguns que eu já conhecia por serem meus alunos do 9º ano, como Martinho e Ivone16. Já falei que não eram amigos ou alunos da mesma escola. Quando perguntei quantos autores negros já haviam lido, houve silêncio por alguns segundos e todos disseram que não; nem personagens de literatura, nenhum identificado como negro.
Sua escrita, sua realidade, seus sonhos são um incentivo para estudantes que muitas vezes enfrentam as mesmas lutas que a escritora. Faz muito tempo que não tenho essa impressão, porque ensinar faz parte da minha rotina há muito tempo.
Lingua(gens)
Apoiados em uma gramática normativa, os sujeitos muitas vezes não se sentem habilitados para escrever e produzir literatura, pois, no pensamento coletivo, isso é resultado de formação clássica e de leituras de autores clássicos. As interferências que ocorrem constantemente na vida de uma pessoa também contribuem para a modificação da linguagem. A possibilidade de que uma hora de literatura só possa ser adquirida através da leitura de obras clássicas pode levar a uma padronização estética da linguagem.
Este foi seu primeiro ano após a transferência de outra escola devido a uma mudança de bairro. Aliás, esse turbante foi assunto no grupo de Whatsapp dos professores por causa de uma professora que questionou o uso do pano já que a regra da escola é proibir os alunos de usarem chapéu. Os livros de Carolina são difíceis de encontrar, com exceção de Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada e Diário de Bitita que foram reimpressos.
A práxis de uma educação libertadora (FREIRE, 1989; HOOKS, 2013) se dá na construção do diálogo entre quem educa, quem é educado e o mundo. A cada escrita dos estudantes negros que é examinada, é possível perceber a produção de literatura, de narrativas que entram em diálogo com a realidade que toda pessoa negra que frequenta uma escola pública e convive diariamente com a negação de si mesma, de seus antepassados e sua identidade, experiência. .