A pressão estética, atualmente, proporciona a exclusão não só de negros, mas também de pessoas com elevada massa corporal.
A cor do indivíduo é apenas uma demonstração de que ninguém é igual a ninguém, o mais importante vem sendo abandonado (o caráter). Então, não julgue pela cor e sim pelo caráter de cada um.17
Consideramos que a leitura poderá estimular atitudes positivas e autodeterminação nesses sujeitos, que, a partir deste exercício apreciativo e interpretativo, poderão então revelar em suas escritas o seu entendimento sobre o contexto social em que vivem e o lugar que ocupam neste, bem como também revelar e contemplar suas histórias que perpassam por outras histórias.
Figura 15 - Falar, pensar, escrever
Fonte: FERREIRA, 2018.
Tal tema também é abordado por Frantz Fanon (2008), que sublinha a importância de se aprofundar na linguagem, sobretudo em relação ao negro. Segundo o autor, a linguagem possui duas dimensões: um com o seu semelhante e outra com o branco (FANON, 2008, p.
33). Essa diferenciação se dá pelo processo colonizador que estabeleceu uma diferença hierárquica como meio de sobreposição do saber do colonizador sobre o saber do colonizado.
Isso tornava inexistente o conhecimento e o saber que não fosse eurocentrado, logo monopolizando esse conhecimento e excluindo tudo o que não pertence a esse cânone. A linguagem é uma dessas formas de o colonizador impor a sua força.
Essa imposição gera um pensamento de inferioridade e de não serem dignos de qualquer tipo de produção intelectual. O contrário está em poder do colonizador, que gera mecanismos para que se torne inviável esses conhecimentos. O colonizado sempre é estigmatizado e descaracterizado de suas propriedades intelectuais.
Os colonizados jamais poderiam ser vistos e perfilados pelos colonizadores como povos cultos, capazes, inteligentes, imaginativos, dignos de sua liberdade, produtores de uma linguagem que, por se linguagem, marcha e muda e cresce histórico-socialmente. Pelo contrário, os colonizados são bárbaros, incultos, ‘a- históricos’, até a chegada dos colonizadores que lhes ‘trazem’ a história. Falam
dialetos fadados a jamais expressar a ‘verdade da ciência’, ‘os mistérios da transcendência’ e a ‘boniteza do mundo’. (FREIRE, 1992, p. 153)
Essa sobreposição também ocorre pela linguagem escrita. Amparado por uma gramática normativa, muitas vezes sujeitos não se sentem habilitados a escrever e produzir literatura, uma vez, que no pensamento coletivo, isso é fruto de uma formação clássica e de leituras de autores clássicos.
Figura 16 - O que dizer
Fonte: FERREIRA, 2018.
A consequência gera um não lugar, um espaço no qual sujeitos não se sentem envolvidos nem parte do local. A consequência disso se destina ao silêncio: silêncio de sua identidade, sua etnia, seus pares. A linguagem é um signo de potencial representação. Os significados por ela produzidos estabelecerão diálogos, visões e interpretações. Quando há o impedimento dessa fala, que aqui entende-se por escrita, o silêncio é uma corrente para o impedimento de expressão, fomentando um paradigma globalizante único.
As interferências que ocorrem constantemente na vida de uma pessoa também corroboram para que a linguagem seja modificada. Essa relação linguagem versus escrita pode ser um processo de apreciação para perceber o quanto o racismo está presente nos
corpos dos sujeitos analisados e na sua cosmovisão, ocasionando, muitas vezes, uma compreensão de incapacidade de transformação desses estudantes negros e negras.
De acordo com Hall (2011), existe uma relação entre língua e identidade. O autor tem uma preocupação com as identidades, sobretudo periféricas e como elas se relacionam. Para entender identidade, é preciso ter em mente a relação entre língua, cultura e identidade. A língua que nos faz sujeitos afeta a nossa produção de sentidos e consequentemente nossa identidade.
A língua é um sistema social e não um sistema individual [...]. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais, significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais. (HALL, 2011, p. 40)
As célebres frases brasileiras “em nosso país não existe racismo” e “o nosso problema não é racial, mas financeiro” atuam como afirmações soberanas e inquestionáveis dentro desses espaços. Aliadas à insinuação de que alunos/as negros/as, sobretudo oriundos do ensino público, não sabem ler ou escrever, geram uma barreira que impede esses sujeitos de se expressarem e denunciarem esse processo. Como argumenta Martinho, participante da pesquisa, em seu caderno de escritas:
Atualmente, as pessoas negras são as mais desprivilegiadas na sociedade, por conta da sua origem. Além da falta de oportunidades, educação de qualidade e moradia segura.
O preconceito racial é um problema de alto índice. Nesse sentido, vivemos numa sociedade conservadora onde esses cidadãos não têm voz ativa. Um dos pensamentos das pessoas ricas é que “todo negro é traficante” e que as cotas raciais não devem existir. A desigualdade social torna tudo mais difícil por falta de renda e recursos. (Autonarrativa, 2018, Belford Roxo-RJ)
Tendo em vista uma referência linguística, a gramática normativa, alunos/as negros/as são levados a entender desde a mais tenra idade escolar que só domina a linguagem quem domina a língua culta. A presente dissertação não propõe desestimular o ensino da língua portuguesa, porém questionamos o fato de só quem pode escrever, falar e debater é quem domina.
Na verdade, em matéria de linguagem há algo mais a que gostaria de referir-me.
Algo que jamais aceitei, pelo contrário, que sempre recusei – a afirmação ou pura insinuação de que escrever difícil, não bonito. O momento estético da linguagem, me pareceu sempre, deve ser perseguido por todos nós não importa se cientistas rigorosos ou não. Não há incompatibilidade nenhuma entre a rigorosidade na busca da compreensão e do conhecimento do mundo e a beleza da forma na expressão dos achados. (FREIRE, 1992, p. 72)
A possibilidade de uma aula de literatura ser dominada somente com a leitura das obras clássicas pode levar a uma padronização estética da linguagem. A abertura de outras possibilidades de escrita direciona uma identificação desses alunos/as negros/as, gerando expressões a partir de suas próprias linguagens. Abdias expressa isso ao declarar em suas escrevivências:
Hoje o preconceito social na sociedade está se tornando cada vez mais frequente e está tomando cada vez mais força. Se não tivermos voz ativa para pararmos com esse preconceito, isso vai continuar constantemente no nosso país. Ser um cidadão branco, rico que mora num lugar bacana as coisas serão bem mais fáceis para essa pessoa que tem uma condição financeira melhor.
A partir do que foi abordado até o momento sobre a questão do não acesso dos alunos/as negros/as à literatura negro-brasileira, sendo delegados apenas à leitura de clássicos da literatura brasileira, tivemos o cuidado de elaborar uma pesquisa que pudesse identificar a sua realidade educacional e a produção de textos elaborados por eles/as próprios/as.
Trazer o entendimento do racismo dentro do ambiente escolar traz a conscientização do quanto ele está presente e deve ser combatido. Traz a compreensão por parte desses atores e a percepção de que eles são alvos. Esse debate gera possibilidade de mudança por meio da linguagem.
Após um hiato de quase 4 meses, foi tempo de retornar aos nossos encontros. Essa demora se deu pois, o início do ano letivo é, em geral, muito conturbado com diversas mudança entre os docentes e os alunos. É um tempo em que no estado nos chamamos de adaptação uma vez que nossa lista de chamada vem com um número de alunos/as e esse número pode ser alterado para mais ou para menos. Causa disso se dá pelos pedidos de transferência como os de matricula. Geralmente o número de saídas é sempre um pouco maior que os de entrada.
Algo bom que aconteceu esse ano para mim foi que eu voltei a trabalhar com o ensino médio, uma vez que nos dois últimos anos eu estava no ensino fundamental II, com o sexto e nono ano. Melhor surpresa que estou agora como docente de todos os alunos que iniciei no ano passado. Na verdade, essa mudança me ocasionou isso, uma vez que eles estavam em outra turma, porém houve um remanejamento para a turma que estou.
Achei importante acrescentar novos integrantes ao grupo para que pudesse ter uma dinâmica melhor e ter uma visão mais ampla do projeto já que o número de alunos será mais extenso. O convite foi feito a dois alunos: Abdias e Lecy.
Para os antigos alunos que já estavam comigo desde o ano passado eu os entreguei um questionário que elaborei para ter uma ideia macro de como foi a acepção da obra literária, se haviam tido contato com alguma obra escrita ou protagonizada por negro/a antes da leitura de quarto de despejo e, também, como eles se identificavam:
se como negro/a ou branco/a ou pardo.
A escolha do Abdias foi feita porque ele é amigo dos alunos que trabalhei ano passado. Ele foi selecionado pela professora regente de português do ano passado
mas por conta do seu horário ele não pode participar. Abdias sempre tem em suas mãos um livro de matemática e enquanto a aula não começa ele se dedica a fazer cálculos de álgebra. Seu objetivo é fazer prova para entrar nas forças armadas e para isso ele se dedica exclusivamente ao estudo da prova. Pela manhã cursa o 3º ano do ensino médio e à tarde ele faz pré-militar.
Já Lecy é aluna nova na escola. Esse foi o seu primeiro ano já que veio transferida de uma outra escola por conta de mudança de bairro. Ela me chamou a atenção desde o início das aulas pois sempre fez questão de utilizar cabelo afro e de vez em quando um grande turbante na cabeça. À proposito esse turbante foi tema no grupo de Whatsapp dos professores por conta de uma professora que questionou o uso do pano já que a escola tem como norma proibir alunos de boné. O debate se iniciou com ela perguntando o porquê da proibição do boné e se era proibido para os homens por qual motivo ela não estava sendo proibida de utilizar turbante.
Como são de turmas diferentes eu entreguei trechos do quarto de despejo para os dois em momentos diferentes. Athirson foi o primeiro a receber. Pegou a sua cópia, guardou no caderno e permaneceu em suas atividades normais (detalhe: com o livro de álgebra do seu lado). Eu pedi para que me contasse as suas impressões ao final da leitura e que se tivesse mais interesse em ler o livro todo que ele falasse comigo que eu passava o PDF do livro.
Os livros de Carolina são difíceis de encontrar, com exceção de Quarto de despejo- diário de uma favelada e diário de Bitita que foram relançadas. Todavia, não é qualquer livraria que se encontra. Quem tem os outros livros da autora, tem um tesouro valioso já que alguns exemplares podem chegar a 500 reais (Pedaços de fome).
Quando chegou a vez de entregar a Lecy ela foi logo me avisando que não gostava de ler e nem tinha hábitos de leitura de livros. Porém, como eu dei para o livro, ela começou a ler ferozmente, ao ponto de ter que entregar o livro original pois em poucos minutos. E aos poucos foram surgindo perguntas como: “Quem são os pais do seu filho?”, “Ninguém sabe se foi estrupo?” “Professor, por que ela usa palavras tão diferentes?”
Por perceber um maior engajamento nas atitudes eu fiz diretamente a seguinte pergunta: - Você percebe que existe racismo?
-Claro, professor.
-E dentro da escola?
-Eu sempre ouço alguém falando uma piadinha para mim.
(Autonarrativa sobre encontro do dia 09/04/2018, Belford Roxo, RJ)
A escolha das obras de Carolina Maria de Jesus quebra o conceito hegemônico na literatura. No momento do lançamento do seu primeiro livro, a sua escrita incentiva outras mulheres a começarem a escrever e enviar as suas histórias a editores para que também fossem publicados. Figueiredo (2013 p. 37-38) relata que a mãe da escritora Conceição Evaristo foi uma dessas mulheres que passaram a escrever suas vidas em um diário.
A práxis de uma educação libertadora (FREIRE, 1989; HOOKS, 2013) acontece na construção do diálogo entre quem educa, quem é educado e o mundo. É uma reação não estática que envolve a relação entre essas realidades.
O que se pretende investigar, realmente, não são os homens, como se fossem peças anatômicas, mas o seu pensamento-linguagem referido à realidade, os níveis de sua percepção desta realidade, a sua visão de mundo em que se encontram envolvidos em seus “temas geradores”. (FREIRE, 1987, p. 103)
A palavra é o elo entre esses sujeitos e, quando unidas, as palavras trazem significação.
A utilização das duas obras como objeto de estudo age como conteúdo do diálogo a partir das inquietações provocadas a partir da leitura dos livros.
Figura 17 - Diálogos
Fonte: FERREIRA, 2018.
Por meio do diálogo, elaboramos um processo baseado na construção, na qual ocorre uma junção de experiências que levam à assimilação do conteúdo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Iniciar um projeto de dissertação não é algo fácil. Exige leitura, competências, coragem. Chegar até ao grupo com o qual escolhi trabalhar não foi um caminho fácil de se encontrar. O sentimento de fracasso é real, mas lá no fundo existia a esperança de que a pesquisa fosse concluída. O processo se fez na construção do saber, nas constantes trocas que são feitas entre mim e os participantes desse projeto, que nos levou ao conhecimento e ao entendimento que o ensinar sempre será uma descoberta e ao mesmo tempo um longo caminho o qual todo ser humano precisa percorrer para reconhecer que a alteridade é possível e que ela pode nos levar a espaços mais democráticos onde o diálogo seja base para as relações. Recordo-me de uma afirmação de Freire (1987, p. 220): “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”
Quando comecei a pesquisa, o meu entendimento era que eu necessitaria ensinar o processo da escrita ou mesmo que seria um árduo trabalho. Isso foi algo que não estava na planta de construção dessa casa. Eles e elas já tinham dentro de si um mundo de palavras, visões de mundo, poesias, sonhos, que foram ocultados por um sistema engessado em que o educando é visto apenas como um sujeito receptor que ao final do ano será mais um número que entrará para as estatísticas das agências de educação que regulam esse processo.
Estimular. Esse foi um dos verbos e das ações por nós praticados. Estimular a leitura em um país onde se lê pouco e se torna mais escasso o apego aos livros, todavia em um outro viés cada vez tem surgido e publicado livros onde os negros e negras são autores/as. Há uma necessidade de se ler para compreensão da nossa história, politica e sociedade sob uma outra ótica.
Praticar a escrita e fazê-la um estandarte para que na frente desse cortejo se possa enxergar de longe quem somos e para onde vamos. A escrita como comunicação, comunicar e agir construindo o nosso próprio falar e a arte de ouvir o outro também.
Cada um tem sonhos, necessidades, e todos precisam de um lugar onde possam se sentir confortáveis para falar e para ser ouvidos e respeitados. Tornou-se mais latente para mim e para eles/as que o racismo está presente, ao lado. As estatísticas gritam isso a todo momento ao revelarem que, nos números de assassinatos, a maioria é negra, e que a maior população carcerária está concentrada no Brasil. Quem ocupa esses lugares são pessoas negras, e o mais duro é o silenciamento que está presente.
Um indivíduo afrodescendente possui probabilidade significativamente maior de sofrer homicídio no Brasil, quando comparado a outros indivíduos. [...] diferenças são maiores no período da juventude (entre 15 e 29 anos). Aos 21 anos de idade, quando há o pico das chances de uma pessoa sofrer homicídio no Brasil, pretos e pardos possuem 147% a mais de chances de ser vitimados por homicídios, em relação a indivíduos brancos, amarelos e indígenas. (IPEA, 2016, p. 22)
Chegou o tempo de resistir, o tempo de falar e não se calar, de ecoar a fala de todas as pessoas negras que tiveram suas palavras aprisionadas. É tempo de produzir e entender que, quando nos unirmos em uma só voz, impediremos as constantes barreiras que são levantadas para impedir que a população negra requeira os seus direitos.
A dissertação me fez pensar no meu papel como professor, na responsabilidade que tenho diante de um país que tem sofrido constantes desmontes da educação pública. Percebo que isso provocou um despertar mútuo para a necessidade de falarmos sobre nós mesmos, sobre nossos sonhos, sobre a violência, sobre a injustiça, sobre o futuro, o passado, as nossas forças e nossas conquistas.
Ressignifico a palavra “empoderar”, tão em voga na sociedade contemporânea, e que tem o sentido de “dar poder a alguém”, mas para mim é revelar o poder que há em alguém: o poder de transformar. É despertar a força que está escondida e que precisa de um canal aberto para que ela possa atuar.
Queria poder ter mais participantes, queria que professores pudessem contemplar essa pesquisa. Talvez aconteça. Mas eu e cada um dos que estiveram comigo entendemos que precisamos dar lugar uns aos outros. Como educador e professor, entendi que preciso deixar que eles e elas falem, os alunos e alunas que precisam falar.
O desenvolvimento da escrevivência é, portanto, um canal para combater a homogeneidade que está presente em diversas áreas do saber. A escrevivência é um ato de sobreviver, viver e escrever, nos revelando como indivíduos que tecem histórias na História.
Entendo que esse é um processo colaborativo que perpassa pela escola, corpo docente, comunidade escolar e os estudantes. Procuramos, ao máximo, trabalhar com os pesquisados/as questões que estão no seu cotidiano e presente na vida de outros alunos/as negros/as. Me apoio em Candau (2013) ao se posicionar a partir da interculturalidade.
A partir desse viés a autora propõe perspectivas, no qual acredito ser pertinente para a compreensão de todo o processo. Ela reforça que “está no chão, na base dos processos educativos, mas necessita ser identificada, revelada, valorizada” (CANDAU, 2013, p. 25). A autora traz algumas considerações de trabalho como proposta de práticas de pedagógica e eu as tomo como possibilidades de uma ação educativa visibilizando o outro e as diferenças.
a) Reconhecer nossas identidades culturais (CANDAU, 2013, p.25). Proporcionar aos alunos/as uma visão aprofundada sobre sua identidade cultura, percebendo os diversos contextos que estão à sua volta e reconhecendo as negações e silenciamentos e trabalhar para espaços igualitários. O processo de identificação possibilitará a anulação de uma visão homogeneizadora.
b) Desvelar o daltonismo cultural presente no cotidiano escolar (CANDAU, 2013, p.
28). A autoria destaca a importância de descontruir o daltonismo cultural que provoca uma cultura escolar monocultural, desconhecendo as “diferenças étnicas, de gênero, de diversas origens regionais e comunitárias” (p.32,33)
c) Identificar nossas representações dos “outros” (CANDAU, 2013, p. 28). E o entendimento de si e do outro pelo filtro do respeito, sem estereótipos. Perceber que o eu e o outro faz parte do nós para proporcionar um espaço educacional construído pela diferença.
d) Conceber a prática pedagógica como um processo de negociação cultural (CANDAU, 2013, p. 32). É refletir sobre o caráter histórico e a relação com os contextos sociais que são produzidos. Construir um currículo que dialogue com a realidade dos atores envolvidos e gere um conteúdo que possa envolver a todos/as no processo educativo.
As estratégias supracitadas potencializam o as diferentes linguagens e valoriza o diálogo seja na palavra falada ou na palavra escrita. A cada escrita dos/as alunos/as negros/as pesquisados/as, percebe-se a produção de Literatura, de narrativas que dialogam com a realidade vivida por cada negro/a que está dentro de uma escola pública e convive diariamente com a negação do seu eu, dos seus antepassados e da sua identidade.
Tais estratégias só podem ser traçadas quando percorremos o caminho da não formalidade, baseado nas relações que são produzidas entre alunos/as e professores/as. O cruzamento de histórias, experiências e memórias faz aflorar as muitas culturas que existem dentro do espaço escolar, permitindo, assim, uma estratégia pedagógica eficaz sem gerar estereótipos e uma linguagem que se comunique com todos esses sujeitos, possibilitando e facilitando o processo educativo eficaz.
O processo de escrita que está relacionado com os diários e as memórias produzidas pelos alunos/as abre as portas da compreensão para que os sujeitos envolvidos se sentissem
parte do projeto onde suas narrativas, histórias e memórias interferissem no processo pedagógico.
Esse processo gerou em mim o reforço de quem eu sou, a minha vocação, um facilitador da educação, sobretudo afirmou quem eles e elas são: aprendizes, um ser de muitas histórias, que reconhece o que é racismo o que ele causou no passado e ainda faz hoje mas que eles serão portadores de novas histórias: de superação, luta e resistência.
A literatura precisa ter referências que não estão somente no banco da Academia Brasileira de Letras, mas que convivam também na periferia e dialoguem com os seus pares.
Assim incentivaremos a fala de negros/as, estudantes ou não, que precisam expor as suas vivências. Trago à baila Amaral (2018), que sublinha:
A beleza da literatura não se resume ao objeto do livro. Tampouco a estilística ou determinada forma de escrita, A beleza da literatura reside na sua capacidade de diálogo atemporal entre seus seres diversos, entre pessoas de diferentes culturas, pontos de vista, pensamentos e desejos. Na sua possibilidade de gerar conhecimento e empatia, que são elementos fundamentais no combate a barbárie gerada pela ignorância humana. (AMARAL, 2018)
Reitero a fala da Ivone, que muito me impactou: “Parece que está demorando mas ele está colhendo as coisas boas para nos trazer. Veremos que foi a melhor escolha. Nada demora.
Tudo se aperfeiçoa para a melhor hora.” Chegou a hora. Esse é o tempo de alertarmos uns aos outros: “Deixa eles e elas falarem”.