Para restaurar a paixão pela sala de aula ou para estimulá-la na sala de aula, onde ela nunca esteve, nós, professores e professoras, devemos descobrir novamente o lugar, o Eros dentro de nós próprios e, juntos, permitir que a mente e o corpo sintam e conheçam o desejo.
bell hooks Mesmo com a democratização do ensino público e a população brasileira tendo mais acesso ao letramento e à leitura, ainda encontramos escolas que não atendem às necessidades de grupos minoritários. Faz-se necessário debatermos mais o conceito de multiculturalismo. O multiculturalismo não se ata somente à educação, mas se estende a outras áreas de conhecimento. Todavia, nosso foco será na escola, sobretudo na sala de aula.
Nesse estudo, trabalhamos também com a perspectiva multiculturalista da autora Vera Candau (2013), que argumenta que a sociedade e, em especial, a escola devem levar em consideração a inserção da cultura no currículo escolar, abrindo espaço para pensar a pluralidade cultural presente na sociedade brasileira. A autora atrai atenção para o fato de que não é o bastante reconhecer a existência da diversidade, é preciso criar oportunidades e estratégias que possibilitem o diálogo entre culturas e grupos diferentes.
Essa discussão é importante para este estudo, uma vez que as abordagens multiculturalistas vão problematizar as diferenças e a diversidade no campo da cultura e das relações étnico-raciais, desvelando processos de subordinação e hierarquização de culturas, grupos e indivíduos.
Por fim, no centro desses debates o tema do preconceito e da discriminação contra grupos denominados de minorias étnico-raciais produzidos e perpetuados dentro da escola emerge como prioritário e necessário, alavancado pelos movimentos negros e indígenas, sendo também discutido na academia, em particular nos cursos de educação. Adicionalmente, este debate trouxe para o interior das instituições educacionais a necessidade de promover uma educação antirracista.
Candau (2013) entende que educação é baseada na diferença e, para tanto, é necessária uma educação intercultural no ambiente escolar, a saber:
A nossa formação histórica está marcada pela eliminação física do “outro” ou por sua escravidão, que também é uma forma violenta de negação de sua alteridade. Os processos de negação do “outro” também se dão no plano das representações e no imaginário social. Neste sentido, o debate multicultural na América Latina nos coloca diante da nossa própria formação histórica, da pergunta sobre como nos construímos socioculturalmente, o que negamos e silenciamos, o que afirmamos, valorizamos e integramos na cultura hegemônica. A problemática multicultural nos coloca de modo privilegiado diante dos sujeitos históricos que foram massacrados, que souberam resistir e continuam hoje afirmando suas identidades e lutando por seus direitos de cidadania plena na nossa sociedade, enfrentando relações de poder assimétricas, de subordinação e exclusão. (CANDAU, 2013, p. 17)
Multiculturalismo implica o reconhecimento da diferença, a presença e a influência que ela exerce sobre um determinado espaço, questionando o cenário escolar que se fundamenta e permanece com uma educação exclusivamente eurocentrada. Gonçalves e Silva (2006) consideram que:
O multiculturalismo é o jogo das diferenças, cujas regras são definidas nas lutas sociais por atores que, por uma razão ou outra, experimentam o gosto amargo da discriminação e do preconceito no interior das sociedades em que vivem [...]. Isto significa dizer que é muito difícil, se não impossível, compreender as regras desse jogo sem explicitar os contextos socio-históricos nos quais os sujeitos agem, no sentido de interferir na política de significados em torno da qual dão inteligibilidade a suas próprias experiências, construindo-se enquanto atores. (GONÇALVES;
SILVA, 2006, p. 09)
O nascimento do termo “multiculturalismo” nasce das reivindicações de grupos minoritários que exigem a demarcação de suas diferenças perante uma sociedade homogênea.
O racismo e a intolerância foram alguns motivos que fizeram esses grupos lutarem contra o colonialismo europeu.
Os negros estadunidenses foram pioneiros ao trazerem o tema como debate nacional ao exigirem o reconhecimento das diversidades, do direito à diferença e da existência do racismo. A luta por direitos civis que levantou líderes como Martin Luther King Jr. e Malcolm X procurava integrar socialmente e educacionalmente o negro à sociedade norte-
americana. Segundo Gonçalves e Silva (2006), graças “os primeiros manifestos multiculturalistas dos anos 60 na costa oeste, os partidários desse movimento encontram assento nas universidades da elite branca, espalhando-se, posteriormente, para o resto daquele país” (GONÇALVES; SILVA, 2006, p. 35).
O debate sobre a multiculturalidade torna-se um tema necessário nas discussões da pós-modernidade para se compreender as sociedades contemporâneas; por conseguinte, tais análises se estendem à esfera educacional, onde os especialistas que adotam esta abordagem procuram ressaltar o pluralismo presente na escola reforçando que a diversidade é encontrada no mesmo território.
O termo “multiculturalismo” é utilizado como uma necessidade da pós-modernidade para se pensar sociedade e também é estendido à esfera educacional. Sempre vemos a história como algo linear, como se a humanidade apresentasse apenas um único caminho onde o que está no passado é algo obsoleto e o que virá será a conquista da evolução, como se essa caminhada fosse feita em um caminho único, por um único homem, para um único lugar. A história foi constituída por homens e mulheres de diferentes culturas que proporcionaram diferentes contribuições, porém o que é transmitido é algo linear, e o homem, europeu e branco está no pódio das conquistas. Tal pensamento cartesiano está também presente nas práticas escolares nas quais o único fato que diferencia os alunos são as séries e suas divisões:
educação infantil, ensino fundamental, médio e superior. O conteúdo programático é todo elaborado focando apenas um ensino meramente linear: pensando em um conteúdo universal para um público não universal. Assim, o que temos é o professor que precisa ensinar o que está no currículo e nos livros didáticos e educandos que recebem esses ensinamentos de modo a pensar de uma forma única.
Essa foi a experiência da escritora nigeriana Chimamanda Adichie (2009), conforme ela relata em sua palestra para o evento TED Global intitulada “O perigo da história única”.
Ela conta que desde pequena já soube detectar o quanto determinamos a identidade do outro quando olhamos apenas por um viés. Nas suas relações pueris, Chimamanda conhece e convive com um menino chamado Fide que sempre era marcado pela sua mãe pela sua pobreza. A única coisa que ela sabia da sua história era a forma miserável como ele e sua família viviam. Um dia, ao conhecer a sua aldeia, percebeu que a família de Fide tinha uma grande habilidade para trabalhos manuais. Nessa cena ela refletiu sobre o perigo de uma história única, a saber: “Sua pobreza era minha única história única sobre eles”. Já nos EUA, relata que constantemente era abordada por pessoas a questionando sobre a fome ou a guerra no continente africano ou até mesmo sobre sua capacidade de operar um fogão. Sua
identidade era apagada ou reduzida a uma pessoa necessitada, nunca uma mulher que tinha conhecimentos e era escritora.
Para a palestrante, o real perigo está em restringir em um só aspecto toda a complexidade de uma pessoa. O fato de se criar uma história única para um povo ou um grupo cria raízes para os estereótipos: “mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão”. Através do presente exemplo levamos essa indagação à sala de aula e questionamos: tal pensamento está presente no ambiente escolar e quais implicações este terá na formação de alunos e alunas?
Professores têm como missão serem os primeiros a incentivar um ensino que foque na diversidade e valorize um currículo multicultural, todavia, antes é necessário ressaltar a importância que se tem ao levar para sala de aula o valor de se refletir um conteúdo que seja multicultural, enxergando, como cita hooks (2013), os alunos como “sujeitos e não objetos”.
Para tanto, é indispensável mudar os conceitos pré-estabelecidos de se fazer. Como sublinha a autora: “Fazer da sala de aula um contexto democrático onde todos sintam a responsabilidade de contribuir é um objetivo central da pedagogia transformadora”. (HOOKS, 2013, p. 56)
Uma pedagogia transformadora tem como pauta a inclusão de diferentes saberes e culturas compreendendo as necessidades, as informações do outro, entendendo que não basta somente ler o mundo, é necessário compreender. Como descreve hooks (2013), a saber:
A aceitação da descentralização global do ocidente, a adoção do multiculturalismo obrigam os educadores a centrar sua atenção na questão da voz quem fala? Quem ouve? E por quê? Cuidar para que todos os alunos cumpram sua responsabilidade de contribuir para o aprendizado na sala de aula não é uma abordagem comum no sistema que Freire chamou de ‘educação bancária’, onde os alunos são encarados como meros consumidores passivos. (HOOKS, 2013, p. 57)
Quando discutimos a educação, sobretudo no Brasil, e o quanto ela é importante na formação do indivíduo, percebemos que ela não tem alcançado o seu pleno objetivo. A educação bancária, termo cunhado por Freire (1987) e até hoje perceptível no sistema educacional, é uma didática baseada na concepção de que o educando capta todo o conteúdo, porém não abre espaço para o questionamento. O Brasil foi formado através de uma violenta desigualdade social na qual a educação só era possível a um grupo: a classe média branca.
Esse direito foi negado e negligenciado aos grupos sociais, étnicos, dos quais destacamos os/as negros/as que foram marginalizados e impedidos de exercer a sua cidadania.
Logo, temos, nos dias atuais, uma educação focada em um determinado grupo e que nega a existência de realidades e conhecimentos que estão presentes no contexto escolar.
Existe um conteúdo que é imposto de forma linear sem considerar a subjetividade de cada estudante, consolidando, assim, essa passividade.
Multiculturalismo não é um conceito que ainda será descoberto. Ele já existe, ele é latente a partir do momento que cada estudante traz o seu mundo, sua realidade, sua voz.
Incumbe ao docente dar voz para que ele/a se torne visível, sobretudo os/as alunos/as negros/as, que têm dificuldade de expressarem sua subjetividade. O professor como mediador dessa relação tem a tarefa de trabalhar para compreender, abrangendo especificamente a questão racial e o quanto isso dificulta a exposição de sua fala.
Como salientou Fanon (2010), ninguém, sobretudo os brancos, tem de assumir a culpa pela desumanidade provocada por seus antepassados, no entanto, têm eles a responsabilidade moral e política de combater o racismo, os preconceitos, juntamente com os que vêm sendo mantidos à margem. Reconhecer que o racismo existe e que ele é um elemento que colabora para o impedimento de expressão é uma necessidade no âmbito escolar, sobretudo para professores, que são transmissores desse conteúdo e dos materiais didáticos que auxiliam na explanação do conteúdo.
Ora, se dentro dessa diversidade encontram-se negros/as, é necessário entender o seu contexto histórico e cultural, como sua conjuntura dentro da sociedade brasileira. Para atender a essa diversidade dentro do espaço escolar, é significativo compreender essa realidade.
Apesar de reconhecer um ambiente multicultural, assimilar e identificar enfrentam grande resistência tanto pelo professor quanto pelo aluno. Como afirma hooks (2013):
O multiculturalismo obriga os educadores a reconhecer as estritas fronteiras que moldaram o modo como o conhecimento é partilhado na sala de aula. Obriga todos nós a reconhecer nossa cumplicidade na aceitação e perpetuação de todos os tipos de parcialidades e preconceitos. (HOOKS, 2013, p. 63)
O crescente número de informações difundidas pelas mídias sociais, jornais, sites, televisão e outros meios de comunicação tem originado indivíduos mais participativos de outras culturas e realidades, estreitando povos, linguagens e culturas. Atualmente é extremamente fácil e rápido se conectar com alguém de outra região do país, estado ou saber a situação política nos EUA e seus desdobramentos. Essas relações, que antes eram distantes, cada vez mais se conectam e modificam a relação do homem com o conhecimento.
Assim, as interações reforçam o poder que a informação tem ao interferir dentro dos contextos sociais e revelam novas identidades como novas expressões culturais. Essas diferenças exigem uma sociedade mais heterogênea, que favoreça movimentos distintos, contudo os grupos dominantes procuram ignorar tais diversidades com o desígnio de
homogeneizar essa cultura para facilitar o processo de dominação e poder. Isso é oferecido a esses alunos, que passam a viver uma história única negando as suas histórias, vivências e concepções.
Freire (1996) diz que nenhum aluno é uma tábula rasa, ele tem história, relações e conhecimentos que moldam e interagem o tempo todo com o seu eu. Essas diferenças existentes na sociedade não dialogam e por vezes se conflitam, sobretudo em alguns grupos dominantes que procuram hierarquizar a relação “eu versus outro” se colocando no topo dessa pirâmide e designando o que é aceitável ou não, incluindo o que lhe interessa e excluindo o que para ele não tem nenhum valor. Nesse jogo de poder, a população negra encontra-se em ampla desigualdade.
Grande parte dos/as alunos/as passam um terço do seu dia na escola. Ela é um espaço que faz parte da construção do saber e das identidades. É um lugar que tem como objetivo encaminhar e mostrar os caminhos que se podem trilhar. Todavia, ela tem sido uma instituição que tem reforçado os princípios racistas, gerando em alunos/as negros/as uma autoimagem negativa de si mesmos. Neste sentido, a escola, em vez de ser um local para se desenvolver habilidades, tem provocado conflitos, racismo e discriminação racial. Avaliamos que a luta para tal mudança não está somente no âmbito das políticas públicas, mas no trabalho de conscientização dentro da própria escola e do corpo docente, que deve colaborar para a construção do saber que proporcione visibilidade, contribuindo particularmente na formação de alunos/as negros/as com o propósito de pensar e pôr em prática um ensino multicultural que respeite a individualidade de cada sujeito.
Nenhuma sociedade é constituída por apenas um grupo, etnia ou sexo. Ela é composta por pessoas de diversas faixas etárias, diferentes sexos e visões políticas. O poder pode até estar homogêneo, todavia a sociedade é constituída por esses diversos grupos. É essa organização e a forma como ela é vista e conduzida que leva a uma violenta desigualdade.
Trazer à tona esse tema, sobretudo no ambiente escolar, é constituir uma sociedade onde esses grupos tenham acesso às oportunidades e à integração.
Ao lançarmos o olhar para essa realidade, percebemos que tal distanciamento não é algo recente. Ela está no presente, entretanto se iniciou no passado com a escravização dos negros, que não somente eram violentados em seus corpos, como também em sua identidade, que era negada a ponto de não serem considerados humanos. Após o fim da escravatura, essa hostilidade se perpetua quando a sociedade não os reconhece como parte dela. Negros/as foram obrigados/as a se deslocarem para as áreas remotas das grandes metrópoles e a viverem em condições precárias, sem acesso à educação. Tais iniciativas reforçam o racismo quando,
mesmo dentro de uma escola, alunos/as negros/as não tem a promoção de um saber que dialogue com suas respectivas realidades. Nas palavras de Andrade (2009):
O que se defende no multiculturalismo é que numa sociedade desigual é preciso tratar com distinção – ou com diferença – aqueles que estão em situação de desvantagem social, para que possam de fato alcançar um patamar mais igualitário em relação aos outros grupos. Até porque, as desvantagens sociais foram historicamente construídas e deverão da mesma maneira, serem historicamente desconstruídas. (ANDRADE, 2009, p. 27)
A exclusão de tais grupos se dá através da ocultação da existência deles. O silenciamento é um instrumento eficaz para que esses indivíduos sejam rejeitados, passem a ser estrangeiros dentro da sua própria terra e não se sintam dignos de falar e exigir os seus direitos. Um poderoso instrumento dentro da sociedade tem sido a padronização do pensar, facilitando assim a exclusão desses sujeitos quando buscam por um olhar, a saber:
A escola pode dar acesso a importantes instrumentos de redistribuição de poder nesta sociedade, tais como o conhecimento sistematizado sobre direitos, o domínio sobre a língua nacional, o conhecimento sobre a própria história ou o controle sobre argumentos científicos. Por outro lado, como instrumento de sociabilidade, a escola poderia ajudar também a construir o prestígio social dos grupos socialmente marginalizados, valorizando as diferentes identidades, reconhecendo valores e riquezas em todos os grupos culturais, desconstruindo preconceitos, favorecendo a coexistência pacífica entre todos e reforçando uma convivência mais dialógica entre os diferentes. O lamentável é que a escola pode também ser um importante mecanismo de exclusão, sendo a alguns o acesso aos mecanismos de poder (direito, língua, história, ciência, etc.) e negligenciando a outros. A escola pode sociabilizar com ênfase no respeito à diferença, mas pode também uniformizar (uniforme, provas únicas, currículo único, a mesma maneira de ensinar para todos etc). (ANDRADE, 2009, p. 29)
Dentro dessa realidade que o ambiente escolar é pautado a muitas vezes negar a existência desses grupos e não dando o devido destaque a essas diversidades, ignorando o quanto elas são vivas e interagem todo o tempo. Essas diferenças não são veículos para uma educação efetiva, mas são vistas como uma barreira de impedimento para que a maneira de ensinar seja frustrada ao buscar a padronização desse aluno/a.
Em vista dos argumentos apresentados, concluímos que a caminhada por esse corredor exige uma rememoração da ancestralidade africana que tem como conexão a memória. Ela se torna primordial para se compreender que toda sabedoria se inicia através da oralidade e se imprime na memória que é alimentada pelas gerações.
Trazer o debate da memória para a sala de aula, sobretudo as memórias dos/as alunos/as que estão no nosso trabalho, faz suscitar a importância da memória coletiva e individual como meio de construção de suas resistências.
Esse corredor foi percorrido por negros/as que coletivamente lutaram por acesso à educação e de forma multiforme se utilizaram de meios para que se pudesse ampliar o conhecimento de sua ancestralidade e o reconhecimento do racismo na sociedade brasileira.
Destacamos também a urgência em se buscar um ensino que integre e atenda às diferenças, visto que esse processo é um constante desafio à escola e ao corpo docente, que não deve se limitar somente às práticas pedagógicas, mas diagnosticar diariamente se há exclusões dentro do contexto escolar para que haja um permanente diálogo, compreendendo que o outro sempre pode acrescentar ao seu conhecimento. Cada vez mais a sociedade exige pessoas que entendam e questionem o seu mundo e as necessidades do próximo.
Compreendemos que o cenário social tem produzido uma profunda desigualdade entre os negros, e a presente configuração educacional tem lançado seus alicerces em cima desses preconceitos, porém ela pode ser um espaço para amenizar essas diferenças ao colaborar para o conhecimento e trabalhar no combate à intolerância e ao racismo.
A escola precisa ser um lugar que tenha planejamento pedagógico e equipe docente que entenda o currículo sob uma perspectiva multicultural, colaborando para uma compreensão que atenda tanto as bases curriculares como a localidade onde esses/as alunos/as estão inseridos e a subjetividade que cada um leva para o ambiente escolar.
3 A SALA (DE AULA): DA JANELA EU CONTEMPLO O MUNDO
Escolher escrever é rejeitar o silêncio.
Chimamanda Ngozi Adichie
Foi uma mulher negra e escritora de pele e alma como a minha que me ensinou sobre os vulcões e as rédeas e os freios sobre os tumultos dentro do peito e sobre a importância de ser protagonista nunca segundo plano se você encostar a mão entre os seios vai sentir os rastros de nossas ancestrais somos continuidade das que vieram antes de nós Ryane Leão (poema “Identidade”)
Quando comecei a pensar no projeto para a dissertação, planejei fazer uma escrita que fosse baseada em uma casa. Esse lugar, também chamado de lar, é uma necessidade de todas as pessoas e significa família, proteção, descanso. Geralmente, as fases da vida de uma pessoa ocorrem dentro de uma casa, e boa parte das pessoas, ao serem questionadas, dirão que essa palavra tem uma acepção importante. Então nos apropriamos do termo “casa” por entender que tal conceito nos remete à ideia de algo singular, construído sob as feições de quem a idealiza e a arquiteta. Essa morada foi negada, mas sempre foi almejada por negros e negras para criarem um local que fosse integralmente seu:
A casa, sob esse aspecto, converte-se num patrimônio relevante, pois ultrapassa o âmbito do valor material na medida em que demonstra, também a visão de mundo, as opções estéticas, os mecanismos de contestação ou submissão manifestados pelos seus construtores e habitantes. (PEREIRA, 2007, p. 29)
Esse lugar de habitação historicamente foi negado à população negra quando foi arrancada do seu local de origem e trazida escravizada ao Brasil, mas anteriormente o seu contato com a terra e com a moradia eram outros. O negro mantinha profundos laços afetivos com a sua comunidade e não via a terra como propriedade e com significação monetária, mas como parte do contexto social. Havia uma relação inerente entre o ser humano, a terra e a sua casa. Eram locais em que havia ensinamentos e faziam parte do processo de aprendizado. Ao chegarem aqui, os povos africanos depararam-se com a imposição violenta do senhor do