Tese (Doutorado em Ciência Política) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Estudos Sociais e Políticos. Esta tese trata de um uso particular que os cidadãos do Rio de Janeiro fazem das páginas do Facebook.
O conceito de esfera pública e sua crítica
- Mudança estrutural da esfera pública
- Os contrapúblicos subalternos
- Público e contrapúblico
- Esfera pública e imprensa
A ideia de contrapúblicos subalternos, desenvolvida por Fraser (1992), trouxe para o debate o problema teórico de que grandes parcelas da população foram deixadas de fora do quadro conceitual da teorização de Habermas (2014) sobre a esfera pública burguesa. Este “público”, tal como expresso na teoria habermasiana da esfera pública e combatido pelos contrapúblicos, é uma “idealização” do “público”.
Jornalismos e imprensa
Agenda-setting e enquadramento
O estudo seminal de McCombs e Shaw (1972), que se baseia na ideia de definição de agenda, analisa o efeito da mídia no resultado das eleições. As críticas centrais a esta nova forma de compreender o papel dos meios de comunicação social devem-se sobretudo à dificuldade de comprovar empiricamente os efeitos da cobertura mediática na opinião pública.
A violência enquanto notícia
Alguns estudos, que analisam basicamente a cobertura da imprensa europeia e americana no século XX, demonstram que os agressores e as vítimas são apresentados nas notícias com uma idade e um estatuto social significativamente mais elevados do que aqueles que habitualmente passam pelo sistema de justiça criminal (REINER; LIVINGSTONE; ALLEN , 2003; ROSHIER, 1973). Quando se trata de supervisão externa, os meios de comunicação social podem retratar o sistema de justiça criminal como ineficaz e corrupto, minando a sua legitimidade na sociedade.
Outros jornalismos
No caso brasileiro, o surgimento desse tipo de jornalismo remonta ao final da década de 1990, quando surgiram os jornais Extra, do Rio de Janeiro, Agora São Paulo, Primeira Hora, do Mato Grosso do Sul, Folha de Pernambuco, etc. . O site da Knight Community News Network cataloga mais de mil projetos de jornalismo cidadão desenvolvidos entre 2005 e 201021.
Interesse público, perspectivas sociais e presença
A inclusão de grupos fora do perfil tradicional23 no espaço público acrescenta novas perspectivas sociais ao debate. Estas perspectivas sociais apresentam-se no debate público através da presença de novos atores.
Conclusão
O progresso da Internet e as mudanças que ela traz ao consumo de notícias afetam todas as formas de jornalismo, seja ele de referência, popular ou cidadão. A maior heterogeneidade do público proporcionada pela democratização e liberalização da Internet incluiu novas presenças e perspectivas que alteram não só o conteúdo do que circula na esfera pública, mas também as formas como a informação é produzida, circulada, editada, e consumido.
Internet e mudanças na esfera pública
A #República
- Cascatas
- Filtros e algoritmos
- Bolhas e polarização
Na medida em que as redes sociais nos permitem criar os nossos recursos e essencialmente viver deles, elas criam sérios problemas. O fato é que, ao contrário de Sunstein (2017), pensamos que as mídias sociais são fatores que nos aproximam desse ideal e não nos afastam. Barbera (2019) argumenta que as pessoas se comportam online de maneira muito semelhante ao ambiente offline, ou seja, as mídias sociais não teriam grande efeito na polarização e na criação de bolhas.
Pós-Habermas
- Neodemocracias
- Esfera pública digital alternativa
Bohman (2004) acredita que a expansão do público e da esfera pública é inevitável com a inclusão de novos atores devido à massificação da Internet. A esfera pública habermasiana se desenvolve na interação dos atores envolvidos, ou seja, eles são o seu ambiente. Ao contrário da esfera pública habermasiana e das não democracias, os EPDAs não funcionam dentro da lógica da inclusão, uma vez que os três grupos envolvidos (afectados pela crise, ajuda humanitária e especialistas em concepção de crises) são muito específicos.
Dos jornais de bairro à Favela.com
A Maré Estudos e Ações Solidárias (Ceasm) cria o jornal O Cidadão77 e em 2009 é lançada a Maré de Notícias78. Desde a década de 1980, iniciativas nas favelas e subúrbios do Rio de Janeiro buscam criar uma esfera pública local, baseada nas perspectivas e interesses presentes no cotidiano dos moradores e abordando as questões locais como centro das preocupações públicas. Mas também porque o cotidiano e as demandas dos moradores das favelas muitas vezes não são considerados questões públicas ou de interesse público, mas sim como algo específico daquela realidade, com menor importância do ponto de vista político.
A violência urbana nas redes como objeto de estudo
Não só os manifestantes e outros comunicadores começaram a utilizar as redes sociais para comunicar com os cidadãos. Não há notícias de que os diversos batalhões da Polícia Militar ou da Delegacia de Polícia Civil do Rio de Janeiro utilizem sistematicamente as informações que circulam nessas páginas e grupos do Facebook ou outras redes sociais. Todo o tipo de informações, alegadamente provenientes de polícias, moradores e “criminosos”, circularam nas redes sociais na Internet.
Conclusão
Como veremos nos capítulos seguintes, as páginas hiperlocais dedicadas aos acontecimentos diários dos bairros, favelas e subúrbios do Rio de Janeiro foram responsáveis por profundas mudanças na esfera pública do estado. São 120 páginas dedicadas a contextos maiores, como cidades e até regiões (por exemplo, Baixada Fluminense) e 116 páginas com foco em bairros específicos não só da cidade do Rio, mas também de outros municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ). . 82 Diferentemente do que acontece na cidade do Rio de Janeiro, outros municípios possuem um número menor de páginas dedicadas a bairros específicos, sendo mais comum encontrar páginas dedicadas ao município como um todo.
Conteúdo, alcance e preferências
No gráfico a seguir é possível analisar a participação de cada tipo de postagem realizada pelas páginas do Rio de Janeiro. Um dos incentivos para um moderador publicar determinado conteúdo é o engajamento dos leitores com o tipo de material. Compreender novas formas de expressão como legítimas dentro de uma consideração é crucial para ampliar a compreensão do público, como defende Young (2000), onde os sites hiperlocais são um exemplo desse tipo de expressão sendo imposto no debate público.
Crime e Segurança Pública nas páginas do Facebook
Roubo de veículos
Os dois estados lideram o ranking de registros de roubo de automóveis no Brasil91. Ao analisar os valores gama do tópico 46 juntamente com os dados de furtos de automóveis no Rio de Janeiro, verifica-se que os números apresentam comportamento semelhante ao longo do tempo, registrando aumentos e diminuições simultâneos. Ao analisar o número de registros anuais de furtos de automóveis, verifica-se que há uma correspondência entre os bairros que mais atenção dão ao tópico 46 no Facebook.
Os crimes contra a vida
Ao contrário do que aconteceu com os crimes relacionados com automóveis, a atenção aos sites hiperlocais não acompanhou as flutuações nos registos de mortes violentas. Com exceção de Padre Miguel, todos os outros bairros registaram elevados números de mortes violentas. O estado do Rio de Janeiro enfrenta há anos um elevado número de mortes violentas.
Operações policiais
Os municípios das páginas mais preocupados com o tema operações policiais foram São Gonçalo, Belford Roxo, Queimados, Tanguá e Nova Iguaçu. No mesmo mês, páginas da região dedicaram quase 10% de suas postagens ao tema operações policiais. As operações policiais fazem parte do cotidiano da cidade e do estado do Rio de Janeiro.
Roubos e arrastões
Para quem não mora nessas regiões, os relatos de operações veiculados pela imprensa ou mesmo por páginas hiperlocais e outras mídias sociais contribuem para a atualização da “cultura do medo” que muda a experiência territorial dos cidadãos do Rio de Janeiro e a sua solidariedade para com os concidadãos. No caso do município de Belford Roxo, foi constatado comportamento semelhante ao já apresentado nas seções anteriores: a gama de sites hiperlocais flutua de forma semelhante aos registros policiais. Assim, entre os mais mobilizados pelos sites hiperlocais estão dois temas que refletem preocupações sobre crimes contra a propriedade.
Tiroteios e disparos de armas de fogo
A partir da nuvem de palavras gerada pelas postagens em páginas hiperlocais relacionadas ao tópico 3, podemos perceber pelo menos duas dinâmicas relacionadas ao tema da violência armada. É interessante que no tópico diretamente ligado ao tema da violência armada, os bairros da Zona Norte do Rio são retirados e passam a incluir os bairros onde estão localizadas as favelas e complexos mais famosos e também aqueles que sofrem mais insegurança e violência armada. Todas essas dimensões da violência armada ajudam a compreender a realidade do Rio de Janeiro, tanto no nível individual em relação aos que vivem nas periferias, quanto em dinâmicas maiores e mais estruturais.
Patrulhamento e pequenas operações
Grande parte das atividades abertas realizadas pelos batalhões da Polícia Militar no Rio de Janeiro tem como objetivo o combate ao tráfico local de drogas. Esse tipo de produção de sites hiperlocais funciona como uma espécie de complemento à comunicação oficial dos batalhões da Polícia Militar e até mesmo dos canais corporativos oficiais. Essa forma rígida e frequente de veicular esse tipo de conteúdo pode explicar o baixo engajamento dos usuários com esse tipo de postagem.
Boletins de Ocorrência Digitais
As cidades que mais mobilizaram esse tipo de discurso foram São Gonçalo, Tanguá, Mesquita, Itaboraí e Nilópolis, e os bairros foram Jacarepaguá, Centro carioca, Realengo, Cascadura e Pavuna. Como apontado em outro trabalho (NUNES, 2017), os sites hiperlocais que mimetizam o discurso, a escolha do tema e a estética das redes policiais têm forte correspondência com a geografia do controle das milícias na cidade do Rio de Janeiro. Os sites hiperlocais contam com informações e com a participação de policiais como fontes de informação, como membros ativos comentando postagens publicadas, ou mesmo como moderadores e proprietários de páginas.
Comunidade das páginas hiperlocais
A análise combinou as 236 páginas hiperlocais e todas as páginas curtidas por cada uma delas, reunindo 4.295 nós interligados por 27.257 arestas. Quatro páginas hiperlocais e mais de 12% de todos os nós coletados no gráfico estão incluídos neste grupo. Por fim, o grupo dos cinco, que também tem 13 páginas hiperlocais e representa 10% de todos nós, com temas diversos destacando as páginas dos shoppings cariocas e outras marcas comerciais.
Conclusões
Efeito cascata na caixa de comentários
Essa diferença foi analisada juntamente com o número de comentários no momento da coleta de dados. A hipótese da cascata é assim: quanto mais rápido uma postagem recebe um comentário, maior será o número total de comentários. Percebe-se que no conjunto total de postagens existe uma correlação negativa entre os dois valores, ou seja, quanto menor a diferença de tempo entre o primeiro comentário e o horário da postagem, maior será o número de comentários registrados.
Apurando os fatos
Foram selecionadas as postagens com maior número de comentários de cada tópico analisado neste estudo. Os comentários referem-se a um vídeo publicado pela página do “Jornal de Belford Roxo”, que mostra um grupo de jovens em uma carreata empunhando armas de grosso calibre, como fuzis e fuzis, com os corpos saindo do carro. janelas entre gestos de armas levantadas. Nesse caso, a imagem acima foi publicada em diversas postagens sobre violência e criminalidade nas páginas do Conselho de Belford Roxo.
Os sentimentos dos “moradores” nos comentários
Vários casos já foram registrados no Rio de Janeiro, a partir de sites hiperlocais (NUNES, 2017). Como pode ser visto na apresentação e análise de postagens em sites hiperlocais, determinadas áreas do Rio de Janeiro enfrentam situações de violência que perduram há décadas. Medo do crime na cidade do Rio de Janeiro: uma análise sob a perspectiva das Crenças Perigosas.
Conclusões