3.5 Conclusões
4.1.1 Efeito cascata na caixa de comentários
Após análise dos “likes” e dos compartilhamentos, resta um último aspecto do engajamento para investigar. Os comentários, como postulam Kim e Yang (2017), são o tipo de engajamento calcados em interações mais racionais. Nos comentários, o indivíduo agrega informações, discorda ou concorda com o que já foi postado, inclui textos, imagens e vídeos que possam somar a discussão etc. É a forma mais interativa de engajamento, que reúne não só os mantenedores das páginas, mas também os usuários. A área de comentários é o lugar do debate público, onde as ideias são expostas quase117 livremente por qualquer usuário do Facebook e pode ser compreendido como a área de maior exposição de perspectivas diferentes sobre um mesmo assunto ou fato.
Como analisamos no capítulo dois, as “cascatas informacionais” se expressam em diferentes aspectos da vida social, incluídas as redes sociais. Em linhas gerais, um indivíduo tende a se engajar em determinado assunto, espaço ou ação que já foi comentado, ocupado ou realizado por outro indivíduo posteriormente (BIKHCHANDANDI, 1992). Cass Sunstein (2017) cita o experimento realizado por Salganik et al. (2006), abordado no capítulo dois. Em resumo, os pesquisadores verificaram que as faixas mais baixadas eram as mais escolhidas pelos participantes da pesquisa, aumentando assim o número de downloads. Ou seja, pouco importava a qualidade das músicas disponibilizadas, os participantes se sentiam mais seguros de ouvir as músicas já escolhidas por outras pessoas, evitando se expor ao que era desconhecido pelos outros.
Esse fenômeno é observado também nas redes sociais. Dotey, Rom e Vaca (2011) analisaram como as “cascatas virais” se desenvolvem no ambiente do Twitter, baseado em análises da estrutura dos grupos e no efeito do tempo em relação ao tamanho da cascata. Cha et. al (2008) examinaram o efeito no Flickr, encontrando evidências de que uma foto favoritada por um contato naquela rede social influencia a escolha do indivíduo em seguir o comportamento do seu contato. Bao et. al (2013) encontrou evidências de cascatas sociais no
117 É possível que os moderadores das páginas criem regras de conteúdo para os comentários. Muitas das vezes, a quebra dessas regras significa a exclusão do conteúdo postado pelo usuário na caixa de comentários. De toda forma, respeitando as regras estabelecidas por cada uma das páginas, é possível dizer que esse é o espaço onde o usuário pode se expressar de maneira livre e se colocar em uma discussão aberta.
microblog Sina Weibo118, uma espécie de Twitter da China. Burke et al. (2009) encontraram evidências de que novos usuários de uma rede social tendem a participar mais com conteúdo quando encontram uma rede mais ativa. Lampe e Resnick (2004), analisando a moderação da caixa de comentários de um site, e Velasquez (2012), analisando um site de discussão política, verificaram que a “meia-vida”, ou seja, a mediana do número de comentários, de um post é antecipado caso o primeiro comentário seja feito o mais próximo da data e hora da postagem.
Assim, para analisar o efeito de cascata nas páginas hiperlocais, foram coletadas as datas e horários do primeiro comentário119 em cada uma das mais de 90 mil postagens analisadas, calculando assim a diferença entre o horário do comentário e o da postagem. Essa diferença foi analisada em conjunto com o número de comentários à época da coleta dos dados. Dessa forma, a hipótese da cascata é: quanto mais cedo uma postagem receber um comentário, maior será o número total de comentários. Ou seja, quanto mais rápido uma postagem receber atenção de um indivíduo, maior será o engajamento dos outros indivíduos com a postagem, causando assim uma cascata. Em seguida será analisada a meia-vida dos comentários nas postagens, buscando confirmar a hipótese de que quanto mais cedo começam os comentários maior é o efeito de cascata, ou seja, mais rápido outros usuários se interessam e engajam-se na postagem.
A figura 38 apresenta gráficos de dispersão, cujo eixo horizontal (eixo x) baseia-se na diferença entre o tempo do primeiro comentário e o da postagem, e o eixo vertical (eixo y) apresenta a quantidade de comentários recebido pela postagem. Percebe-se que, no conjunto total das postagens, há uma correlação negativa entre os dois valores, ou seja, quanto menor a diferença de tempo entre o primeiro comentário e a hora da postagem maior será o número de comentários registrados. Como pode ser visto na figura, há muitos casos extremos cujo valor de engajamento não se explica somente pelo efeito cascata. Outras variáveis que explicam o engajamento, como já visto no capítulo três, são o tipo de conteúdo postado e o mês da postagem. Essas variáveis e seu efeito no engajamento das postagens serão investigadas em trabalhos futuros.
Percebe-se pela figura 38 que o tempo do primeiro comentário impacta o engajamento da postagem. Esse efeito é pequeno para as menores diferenças, mas incrementa ao passo que a
118 O Sina Weibo foi criado em 2009 e em 2013 já possuía mais de 600 milhões de usuários. A título de comparação, o Twitter registrou 326 milhões de usuários por mês em 2018. Fontes: http://bit.ly/33NNZUq e https://glo.bo/2KRFsIG. Acesso em: 23 ago. 2019.
119 Foram utilizados os comentários por motivos técnicos. O Facebook não disponibiliza os horários de cada um dos likes e compartilhamentos.
diferença entre a publicação do comentário e a data da postagem cresce um pouco e posteriormente vai reduzindo seu efeito gradativamente até ser quase nulo.
Figura 38 - Cascata social nas páginas hiperlocais do Facebook
Nota: Dados extraídos do Facebook.
Fonte: O autor, 2019.
O efeito de cascata é mais intenso nas postagens relacionadas à violência armada, tiroteios e disparos de arma de fogo. Esse tipo de postagem, que muitas das vezes funciona como um alerta, rápido, objetivo e sem muitas informações, abre espaço para que os usuários agreguem conteúdo e explicações para o relatado. Por exemplo:
Figura 39 - Post e comentários da página Voz das Comunidades
Fonte: Página do Facebook “Voz das Comunidades”, 17 de nov. 2018
A página Voz das Comunidades fez o alerta de que o “caveirão” (veículo blindado) da Polícia Militar estava circulando por uma região do Complexo do Alemão. Logo em seguida os moradores começaram a publicar comentários, dando mais informações (“Isso é na área 5…”), fazendo perguntas (“dar (sic) para passar no campo do seu zé ou na rua 2”) ou se lamentando pelo cotidiano de violência vivenciado (“o povo aqui não tem o direito de tomar café…”). Essa cascata de informações é parte de um processo de “investigação” realizado pelos próprios usuários com a utilização de diversas fontes. Essa forma de participação será abordado na próxima seção.
Outros tópicos como o 45 que trata dos crimes contra a vida, possuem vários comentários mais opiniosos quando comparados com o que ocorre no tópico 3. As pessoas expressam na caixa de comentários seu assombro com tal morte, justificam em alguns casos a morte de criminosos, refletem sobre as leis brasileiras que seria fonte de impunidade etc. Os casos que mais engajaram os usuários em relação a este tópico foram os feminicídios. O crime de feminicídio, a morte de mulheres “por razões da condição de sexo feminino”, foi regulamentado pela lei nº 13.104, de 9 de março de 2015, que alterou o artigo 121 do Código Penal. Desde então, o tema passou a ser debatido de maneira sistemática pelos meios de comunicação, pela academia, os poderes legislativo e executivo e organizações de defesa dos direitos humanos.
Figura 40 - Post da página Vila da Penha Notícias
Fonte: Página do Facebook “Vila da Penha Notícias”, 19 de nov. 2018.
Como visto acima, o caso da Fernanda Siqueira, morta pelo ex-marido com o uso de uma faca120, gerou comoção e revolta expressas pelos comentários. Alguns usuários relatam laços que possuíam com a vítima, demonstrando surpresa e indignação com o seu assassinato. Outros questionam o papel das leis brasileiras, alguns usuários expressam seu descontentamento pela forma como as mulheres agem, colocando a vítima como possível fonte da agressividade que levou o ex-marido a assassiná-la, entre outros. Esse tipo de cascata se explica mais pelos casos rumorosos, alguns com requintes de crueldade, que acabam mobilizando os indivíduos a discutir e dar sua opinião sobre.
Em todos os tópicos, essas duas formas de comportamento da cascata se conjugam. Cada forma de engajamento possui diferenças em seus conteúdos que são originados por características dos usuários participantes. Há o componente do local que leva a usuários moradores ou aqueles que estiveram nos locais onde crimes se desenrolaram a contribuir com informações e perspectivas sobre o ocorrido. Há o fator de conhecimento, quando alguns usuários expressam seus laços com as vítimas, comentando sobre seu temperamento, sobre casos anteriores ao crime etc., em um movimento que, para os casos de vítimas fatais, se
120 Fonte: https://glo.bo/32nuFvT. Acesso em: 28 ago. 2019.
assemelha à técnica de autópsias psicossociais121, quando pessoas próximas das vítimas são questionadas sobre suas características e sobre os seus últimos momentos em vida.
As cascatas informacionais, no caso das páginas analisadas neste estudo, ampliam as características deste fenômeno indicadas no capítulo dois, uma vez que operam como instrumentos de autoproteção (no caso de violência armada, quando “mapeiam” os locais com conflitos em determinado momento) e de “investigação” informal de crimes, agregando informações de diversas fontes ao caso publicado pela página.