2.1 Internet e mudanças na esfera pública
2.1.1 A #República
2.1.1.1 Cascatas
Sunstein (2017) expressa preocupação em relação às “cybercascades”, as cascatas de informação dentro do ambiente online. Elas são o comportamento social que leva um indivíduo a seguir um comportamento online de uma outra pessoa independente das suas crenças ou opiniões. Segundo González-Bailón (2017):
39 Original: “Social media often have nothing at all to do with politics or democracy (indeed, they are a kind of vacation from it), and to that extent, they do not trigger my principal concerns here. But even if they are wholly apolitical, they might create niches, and niches produce fragmentation.”
O endosso antecipado cria a vantagem inicial que é amplificada; o valor dos links, no entanto, torna-se progressivamente enviesado à medida que a dinâmica do “rico tornando-se mais rico” se desdobra. Essas são as dinâmicas que explicam por que alguns itens populares nas mídias sociais (memes, notícias, tweets) tendem a amontoar todos os outros, independentemente de como eles se comparam em qualidade (geralmente, apesar disso)40. (GONZÁLEZ-BAILÓN, 2017:37)
Muitos fenômenos na Internet se desdobram regidos por efeitos de acumulação: quanto mais cedo um post for compartilhado, maior será o número de compartilhamentos em um dado período de tempo. Sunstein (2017) dá o exemplo de uma experiência social envolvendo uma loja de discos. Nela, vários discos estão em exposição para os participantes da experiência, que podem ouví-los e ver a lista de músicas do álbum em uma tela. Para um dos grupos é exibido também o número de downloads de cada faixa, número incluído pelos pesquisadores e que não correspondia à realidade, e para o outro grupo não havia essa informação. Os pesquisadores descobriram que os indivíduos participantes tendiam a baixar as faixas com mais downloads do que as com baixas frequências e no caso do grupo sem essa informação, o download das faixas seguia um comportamento aleatório (SUNSTEIN, 2017:116). Segundo o autor:
Qualquer discussão sobre fragmentação social e comportamento on-line requer uma compreensão das cascatas sociais sobretudo porque elas se tornam mais prováveis quando as informações, incluindo informações falsas, podem se espalhar para centenas, milhares ou até milhões com o simples toque de um botão. As cascatas costumam ser difíceis ou mesmo impossíveis de prever, mas estão ao nosso redor e organizam nossa cultura e até nossas vidas. Cada vez mais, as cascatas são um produto das mídias sociais41. (SUNSTEIN, 2017:112)
De fato, as evidências contribuem com a constatação de Sunstein (2017) sobre a maior possibilidade de haver cascatas nas redes sociais. O questionamento que surge é: será que o comportamento de cascata é necessariamente ruim ou pode ser positivo? Quais são os seus impactos? Não há evidência que aponte para o fato de que as cascatas são em sua maioria mecanismos de espalhamento de informações falsas, rumores, ou mentiras. Elas podem servir, por exemplo, na proteção de um defensor de direitos humanos que é abordado por forças policiais e compartilha o relato pelo Twitter, ou uma pessoa que precisa de doação de sangue e seus amigos espalham o chamado pelo Facebook. Suntein (2003; 2017) sabe disso e pontua em
40 Original: “Early endorsement creates the initial advantage that gets amplified; the value of links, however, gets progressively biased as rich-get-richer dynamics unfold. These are the dynamics that explain why a few popular items in social media (memes, news, tweets) tend to crowd out all the others, irrespective of how they compare in quality (often, in spite of it).”
41 Original: Any discussion of social fragmentation and online behavior requires an understanding of social cascades—above all because they become more likely when information, including false information, can be spread to hundreds, thousands, or even millions by the simple press of a button. Cascades are often hard or even impossible to predict, but they are all around us, and they organize our culture and even our lives. Increasingly, cascades are a product of social media.
seus trabalhos, mas o seu foco nos efeitos negativos das cascatas deve ser assimilado como aviso das potencialidades negativas desse fenômeno na vida social.
Seguindo o argumento de Sunstein (2017), há dois tipos de cascatas: as informacionais e as reputacionais. A primeira descreve o tipo de comportamento que leva uma pessoa a descartar suas dúvidas e incertezas sobre determinado assunto para seguir a opinião numerosa de outros indivíduos expressa anteriormente. Esse último indivíduo acredita que cada uma destas pessoas tomou sua posição de forma independente (o que não necessariamente corresponde à realidade) e por isso deve ser muito improvável que todas essas pessoas estejam erradas. O segundo tipo de cascata é a de reputação, quando um indivíduo toma certa posição no debate só para não ser mal visto pelos outros. Trazendo a discussão para as mídias sociais, Sunstein (2017) aponta:
Eu tenho discutido o comportamento online em geral. E as mídias sociais? É tentador oferecer essas hipóteses sobre o Twitter em particular, consistente com minhas preocupações gerais aqui: os feeds das pessoas no Twitter consistem basicamente de indivíduos com a mesma opinião. Quando as pessoas retweetam, geralmente é porque elas concordam com o que estão retweetando. Como as pessoas geram seus próprios feeds, elas criam câmaras de eco.
Sem dúvida, algumas pessoas se preocupam em dizer que um retweet "não é um endosso", mas na maioria das vezes você retwita algo porque gosta e porque deseja que seus seguidores também o vejam42.
Neste ponto, é importante pontuar alguns trabalhos que demonstram que o retweet muita das vezes serve de plataforma para edição, contraposição ou mesmo desautorização do conteúdo retweetado (BOYD et al, 2010; MACSKASSY; MICHELSON, 2011). Nesse sentido, uma cascata que poderia se desenrolar em direção a concordância do tweet original, pode tomar outro rumo não esperado pelo usuário que tweetou o conteúdo.
As preocupações de Sunstein (2017) com o conformismo na sociedade conectada são relevantes uma vez que:
42 Original: I have been discussing online behavior in general. What about social media? It is tempting to offer these hypotheses about Twitter in particular, consistent with my general concerns here: people’s Twitter feeds consist largely of like-minded types. When people retweet, it is generally because they agree with what they are retweeting. Because people generate their own feeds, they create echo chambers. To be sure, some people are at pains to say that a retweet “is not an endorsement,” but most of the time you retweet something because you like it and because you want your followers to see it as well.
A esfera pública da Internet é interligada. Mas agrupamentos são, não obstante, comuns e, para a política, a polarização de grupo é um risco significativo, mesmo se apenas um pequeno número de pessoas opte por ouvir e falar com aqueles que têm a mesma opinião. Uma sociedade livre se beneficia de domínios públicos que oferecem uma ampla variedade de tópicos e posições43. (SUNSTEIN, 2017:277).
O trecho em questão aponta para a preocupação que tem sido objeto de análise nesse estudo, quer seja, a possibilidade de novas perspectivas e presenças estejam em circulação no espaço público, de forma horizontal e não subalterna, para se contrapor ou até mesmo concordar com outras visões expressas no debate público. O fato é que, diferente de Sunstein (2017), sustentamos que as mídias sociais são fatores que nos aproximam desse ideal, e não nos afastam.