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A obesidade como objeto complexo: uma abordagem filosófico-conceitual.

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Academic year: 2017

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A obesidade como objeto complexo:

uma abordagem filosófico-conceitual

Obesity as a com plex object:

a philosophical and conceptual approach

1 Instituto de Nutrição da UERJ.

Rua Pinheiro Guimarães, 115/407 bloco II, 22280-080, Rio de Janeiro RJ. [email protected] .com.br

2 Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC), UFRJ.

Maria Cláudia Car valho 1

André Martins 2

Abstract This article looks into the construction

of concepts in the health area and their use as a m ethodological instrum ent in the dissolution of lim iting dichotom ies such as the one between body and m ind. This work starts from a philo-sophical perspective, in the attempt to look closer into the com plex reality of collective health, ap-plied to the problem s related to obesity. We dis-cuss how to overcome opposing issues such as “to eat because I want and not to eat because it makes m e fat”, understanding the eating conflicts and the nutritional aggravations from an ethical point-of-view, so as to bring together theory and practice within contemporaneity. To exercise this conceptualization, we have formulated two defin-itions of obesity: first, taking into account the sin-gular capacity of each individual to be active and powerful in life; second, considering the current standards of normality for the human bodies. To sum up, we describe some possible uses of this in-strument in the areas of nutrition and health, so as to prevent the reduction of hum an beings to halves, body or soul, and to understand them in their integrality.

Key words Obesity, Conceptualization in health,

Philosophy, Complexity

Resumo O artigo examina a construção de

con-ceitos na área da saúde e sua utilização como um instrumento metodológico na dissolução de dico-tomias limitantes como a de corpo/mente. O tra-balho parte de um a perspectiva da filosofia em busca de uma aproximação com a realidade com-plexa da saúde coletiva, aplicada à problemática da obesidade. Discute a superação de oposições como a do “comer porque quero e não comer por-que engorda” numa compreensão ética dos confli-tos alimentares e agravos nutricionais, de modo a articular teoria e prática na contemporaneidade. Foram elaboradas, como exercício de conceitua-ção, duas definições de obesidade. Um a levando em conta a capacidade singular de as pessoas estarem ativas e potentes na vida, e outra consi-derando os padrões atuais de norm alidade para os corpos. Concluímos descrevendo algumas pos-sibilidades de utilização desse recurso na área de alimentação e saúde de forma que o ser humano não seja reduzido a um a m etade, seja ela corpo ou alm a, m as que seja com preendido em sua integralidade.

Palavras-chave Obesidade, Conceituação em

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Introdução

Neste início do século 21, a saúde coletiva en-frenta uma questionável, senão falsa, oposição entre obesidade e desnutrição na transição epi-demiológica que ocorre no Brasil. Uma obser-vação apressada pode reduzir a diversidade de uma questão alimentar a uma simples oposição entre desnutrição/obesidade, criando dicotomi-as com o a dicotomi-associação de desnutrição à baixa renda e de obesidade ao seu oposto, assim co-mo da obesidade a um alto valor energético da dieta e da desnutrição a uma dieta de baixo va-lor energético. No entanto, como observa Mon-teiro (2000), a obesidade também está associa-da à baixa renassocia-da, mostrando que o universo dos agravos nutricionais é com plexo. Da m esm a form a, tam bém é com plexa a construção dos sentidos atribuídos a esses agravos em nossa cultura contemporânea. E esses sentidos atribu-ídos influem decisivamente nos próprios agra-vos.

O ato de se alim en tar con stitui-se n a di-mensão ampla do humano e não se limita a um aspecto m ecânico e m ensurável. A com preen-são do perfil nutricion al da população n ão pode se reduzir, por con seguin te, a variáveis an tropom étricas. Obesidade n ão represen ta uma simples questão de balanço energético po-sitivo (Monteiro, 2001). A definição de obesi-dade com o um balan ço en ergético tem um a orientação determinista, que traria em si como solução ingerir menos ou gastar mais energia. En tretan to, o aum en to progressivo da preva-lência de obesidade na população im põe um a reflexão, além dessa orientação. A objetividade e o pragm atism o da m odern idade trouxeram algum as possibilidades de se m odelar corpos com cirurgias, implantes ou anabolizantes, em form as e estilos diversos. Isto tende a nos dis-tanciar de nossa capacidade criativa, humana e singular, na medida em que submete a mobili-dade da vida a formas estáticas como a de uma estampa de revista.

Par tin do de um a perspectiva da filosofia, buscamos reconstruir uma concepção de corpo capaz de in cluir suas in ter-relações com o am biente no sentido de absor ver a com plexi-dade da alim entação hum ana. O corpo gordo n ão é com o um a m áquin a m en surável que in gere e excreta substân cias in depen den te do ambiente. O corpo é parte do ambiente em que vive e, como tal, se apropria do ambiente a ca-da m om en to, in teragin do e m odifican do os processos de transdução de energia. A

concei-tuação de obesidade se coloca justamente nessa inter-relação e, desse modo, é preciso debruçar o olhar sobre o próprio con hecim en to, sobre nossa form a de construir conceitos, para m e-lhor entendermos o que está em jogo na cons-trução do conceito de obesidade no que ele traz dessas dicotomias hegemônicas.

O m ecanicism o que aposta em relações li-neares de causa e efeito está destinado a fazer de um con ceito som en te um a defin ição, sem ação tran sform adora n a práxis. O paradigm a clássico-moderno, com sua estrutura determi-nista e mecanicista, não se constitui um instru-mental teórico-conceitual capaz de enfrentar a com plexidade in trín seca ao cam po da saúde coletiva. Quando se baseia numa representati-vidade num érica e esvaziada de sen tidos (su-postamente neutra), não permite um aprofun-damento nos significados e sentidos que cons-tituem as várias facetas de um objeto com ple-xo. Mas se, por um lado, o paradigma clássico-m oderno não é suficiente coclássico-m o fundaclássico-m enta-ção teórica para a com plexidade, por outro, é preciso ainda definir os fundamentos teóricos capazes de superar as dicotomias clássicas cor-po/mente, quantitativo/qualitativo, sem que is-so represente uma forma de transcender à rea-lidade, mas uma forma de alargar as possibili-dades de transformação inerentes ao ser huma-no e à esfera do social.

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Um ponto de partida: a filosofia de Espinosa

Para a conceituação de nosso objeto partim os da contraposição de duas racionalidades dife-ren tes estabelecidas por dois pen sadores do século 17, Descartes e Espinosa. Os princípios do car tesian ism o in auguraram o determ in is-m o clássico-foris-m al. As verdades car tesian as, visando constituir leis universais, representam as raízes da ciên cia m odern a com o n ós a co-nhecemos na área da saúde – em particular, na medicina moderna que emergiu como um ins-trum en to técn ico-cien tífico de dom in ação e con trole sobre a n atureza dos hom en s (Luz, 1988). As verdades car tesian as se fun dam em pressupostos que buscavam a essência das coi-sas fora delas, a partir de cálculos e de medidas, seguindo uma lógica formal, baseada no méto-do cartesiano (Descartes, 1999).

Na con cepção espin osian a, a essên cia das coisas está n a existên cia delas. Não há com o separar corpo e alma ou corpo e ambiente, por exem plo. Diferen te da con cepção car tesian a que acreditava em duas substâncias diferentes, a do corpo e a da mente (Descartes, 1991b), se-gundo Espinosa todas as coisas são constituí-das por um a só substân cia e tom am form as diferentes em seus modos de existência. A idéia de univocidade espinosiana é que somos todos (diferen cialm en te) iguais num a origem im a-nente, a substância, e somos diferentes porque som os, cada um , um m odo ún ico de ser da substância (Martins, 1997; 1999; 2000). Assim um ser hum an o é um ser un o e m últiplo ao mesmo tempo. Na realidade é a substância que nos une, mas em modos diferentes de existir.

Tanto a razão quanto as sensações são cons-tituídas da mesma substância. Racional é o que corresponde à realidade de modo formal como, por exemplo, a matemática e as leis da física. A razão é uma etapa no conhecimento, que pode ser ultrapassada na busca de um a dim ensão humana do conhecimento, que conjuga razão e afetos, na vivência da racionalidade. Nos termos espinosianos, o humano não corresponde a um ideal, a uma idealização ou projeção, e, portan-to, não é passível de escala, uma vez que não há um critério transcendente ou transcendental para medir “graus” de humanidade. Nestes ter-m os, não soter-m os ter-m ais ou ter-m enos huter-m anos, as-sim com o tam bém o ser hum ano não vem se tornando evolutivamente mais humano.

Compreender requer, observa Espinosa,ser afetado de diversos modos (...), [e assim] é útil ao

hom em ; e é-lhe tanto m ais útil, (...) ser afetado de mais maneiras ou a afetar os outros corpos. E pelo contrário, é-lhe prejudicial aquilo que torna o corpo m enos apto para isto (Espinosa, 1992). Nesse sentido, é num a conduta ética que nos aproximamos da realidade complexa. A ética a que estamos nos referindo é da ordem do sin-gular, que não se submete a valores externos co-mo o certo e o errado, ou coco-mo o bem e o mal, que nada m ais são do que m odos de im aginar, nos quais a im aginação é afetada diversam ente (Espinosa, 1992). O bem no sentido ético não é um a qualidade física ou m etafísica, nem um a espécie de ente à parte: o bem é apenas o esforço para perseverar no ser (Carvalho, 1992).

Um a conduta ética se dá na existência; é a conduta humana diante da vida, e representa a busca de um a form a de estarm os ativos no mundo.A Ética é a confirmação plena da corre-lação, senão da subordinação, do pensam ento puram ente teórico à finalidade prática (Carva-lho, 1992). Assim, uma concepção ética articula teoria e prática e im plica um a reflexão sobre nossas ações de forma que nos seja possível vi-ver um máximo de momentos ativos e criativos, com um m áxim o do que Espinosa cham a de afetos alegres. A conduta ética parte do conhe-cimento, da capacidade de sermos causa efici-ente de nossa própria força de ação, e não ser-mos causa de outros (alienus), ou seguir passi-vamente causas externas. Sermos os causadores, os responsáveis por uma ação que surge na sin-gularidade, não im plica desobediência de re-gras, pois estas são necessárias à nossa vida, mas implica não deixar que outros ou as regras, iso-ladamente, determinem nossas ações.

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nossa potência e nos im pulsiona a um círculo vicioso de dependência, m uitas vezes, depen-dência daquele ou daquilo que nos domina.A marca da servidão é levar o apetite-desejo à for-ma limite: a carência insaciável que busca inter-minavelmente a satisfação fora de si, num outro que só existe im aginariam ente. (...) A servidão (...) do lado do indivíduo, (...) coloca-o em con-tradição consigo m esm o, levando-o a confundir interior e exterior, perdendo a referência de seu conatus e, justamente por isso provocando a pró-pria destruição (...), do lado da vida intersubje-tiva, torna cada um contrário a todos os outros, em luta contra todos os outros, temendo e odian-do toodian-dos os outros, cada qual imaginanodian-do satis-fazer seu desejo com a destruição do outro, per-cebido com o obstáculo aos apetites e desejos de cada um e de todos os outros (Chauí, 2000).

O conhecim ento, que associa a razão à vi-vência, constitui um caminho para a liberdade. Não podemos ser totalmente livres, mas pode-m os ser otipode-m apode-m ente livres se estiverpode-m os pode-m ais ativos na vida. Seremos mais livres quanto mais compreendermos nossas necessidades singula-res quando se apsingula-resentam na vida, na corporei-dade, atravessadas inevitavelmente pelas regras de cada época. Esse conhecimento tende a au-mentar nossa potência de agir. No Tratado polí-tico (1979b), Espinosa escreve que (...) nada do que atesta impotência no homem pode se relacio-nar com a sua liberdade. Quanto mais considera-mos que um homem é livre, menos podeconsidera-mos dizer que ele não pode usar da razão e preferir o mal a um bem . Nesse sentido a liberdade não é um livre-arbítrio nosso em relação às leis divinas ou à natureza, ou ao nosso próprio corpo, não é um a questão de “com er ou não com er a m açã do conhecimento”.Em primeiro lugar, a liberda-de não se confunliberda-de com um poliberda-der voluntário para escolher entre alternativas, ou para fazer ou deixar de fazer algum a coisa; em segundo, se a impotência não pode ter a potência da liberdade como causa, então não podemos atribuir a esta o pecado original ou a culpa originária do homem (Chauí, 2000).

Quan to m ais in tuitivam en te cien tes das causas que nos afetam , m ais poderem os estar ativos; quanto m enos cientes delas, m ais esta-rem os ao sabor do acaso no am biente em que vivem os (um m ar de acasos). A racionalidade espin osian a se aproxim a da com plexidade n a vivên cia da razão, que pode aum en tar n ossa potência na realidade, aumentar a possibilida-de possibilida-de estarmos ativos e possibilida-de estarmos mais livres no mundo.

A obesidade e a conduta ética no conflito

Segun do o m odelo car tesian o, a obesidade é hoje geralmente tratada segundo uma mecâni-ca, com o se o corpo fosse um a m áquin a de entrada e saída de energia, e como se a “vonta-de” da pessoa gorda, seu “livre-arbítrio”, deves-se m oralm ente determ inar sua adesão à dieta prescrita. Segun do a dicotom ia en tre corpo e mente, a mente ditaria ao corpo o que este deve fazer, caben do a esta par te da pessoa, sua res extensa, portanto, submeter-se à sua outra par-te,res cogitans, usan do para isso sua força de vontade, disciplina e arbítrio. Caso o obeso não siga a dieta, estaria como que no lugar do peca-do, na servidão da alma perante a compulsivi-dade do corpo. Em n en hum m om en to, n este modelo, a pessoa é vista como una, vivencian-do um a dissociação e um con flito de fatores simbólicos, muitas vezes contraditórios e para-doxais, cuja complexidade não se reduz a uma luta dicotômica entre corpo e razão.

Este conflito, no entanto, pode representar um m ovim en to de vida capaz de aum en tar a potência de agir. Um embate comum na reali-dade do corpo gordo – comer porque gosta, ou n ão com er porque en gorda – é capaz de se agravar com a n orm alização nutricion al, n a forma racionalizada de uma ingestão recomen-dada, se esta não se articular com a realização pessoal do in divíduo em questão. Tan to um a normalização nutricional como uma realização pessoal, isoladas uma da outra, escamoteiam a in teração real do corpo com o am bien te em que vive. As recomendações de ingestão diária de nutrien tes represen tam um a alim en tação saudável se e somente se possibilitam transfor-mações, inerentes à sua corporeidade, em prol do aumento de sua potência de agir.

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nem sem pre coincidem com a necessidade da corporeidade. Um a obediência rígida às reco-m endações nutricionais certareco-m ente restringi-ria as possibilidades de integrar o conhecimen-to racional à realidade complexa do indivíduo, e reforçaria o m ito de que a problem ática da obesidade se resolve simplesmente na elabora-ção de um a dieta que cum pra as recom en da-ções nutricionais.

A nutrição moderna racionalizou as dietas na necessidade urgente de salvar vidas e garan-tir braços fortes para o trabalho (Rosen, 1994). A fome no mundo excede os limites da compre-ensão, constituindo um estado de emergência. No entanto, para elaborar políticas de alimtação é preciso compreender que a relação en-tre alimentação, saúde e corpo vai além da ca-pacidade que o alimento tem de fornecer ener-gia e nutrientes, e vai além do direito constitu-cional que tem os ao alim ento nosso de cada dia. A alimentação possui também um signifi-cado vital de fraternidade e confiança no ambi-ente em que vivem os. O sufocam ento desse aspecto vitalizador do alimento é o que preten-dem os evitar quando aplicam os os princípios éticos no aparente impasse “comer porque que-ro ou não comer porque engorda”. Uma condu-ta ética pode sustencondu-tar, em um sistema nutricio-nal racionutricio-nalizado, a abertura de um espaço para a imprevisibilidade da vida. Um espaço de aco-lhimento da tensão gerada na contraposição do prazer de alim entar-se e a obediência às reco-m endações nutricionais. Esse conflito pode positivamente envolver o início desordenado de uma nova reapropriação criativa do ambiente. Já a interdição, ao contrário, pode adoecer um corpo, pois pode representar um impedimento da expansão do movimento intrínseco do sujei-to, o conatus, causando uma diminuição de sua potência de agir, na forma da culpa, da depres-são, da angústia, no sentim ento de que se está aquém de um ideal não só de corpo como tam-bém de conduta e de força de vontade.

As normas nutricionais, culturalmente im-postas, quando agregadas à pessoa como causas externas fragmentam-na, enfraquecendo-a. Se as regras impostas nas determinações nutricio-nais não se constituírem eticam ente, não pro-moverão a expansão de seu movimento e assim não promoverão corpos potentes e ativos, mas corpos obedientes e passivos. Num a conduta ética, o desafio da nutrição é a transform ação das regras racionais, concebidas genericamente, num bem para aquele corpo singular, daquela pessoa singular em seus aspectos fisiológicos e

psíquicos, tanto objetiva quanto subjetivamen-te. Daí a im portância em se conhecer aquele corpo bio-psicossocial na realidade, pois regras nutricionais quando isoladas da vida serão impotentes em si. Quando as causas são inter-nas, quando o indivíduo participa da determi-nação de sua dieta singularizada, constituída sem idealizações, geram um sentimento de apro-vação da vida, uma aceitação dos problemas co-mo ponto de partida para uma transformação real. Na ambivalência do comer ou não comer, estar ativo implica uma decisão em prol de uma realização, seja ela com er ou não com er, com ciência que a vida traz em si inevitavelm ente prazer e desprazer. Uma decisão saudável envol-ve o maior prazer e o menor desprazer, dentro da realidade atual da pessoa.

Fronteiras conceituais da obesidade

Assumir que um indivíduo está saudável não é o m esm o que dizer que ele é norm al. Com a construção de padrões de normalidade, a medi-cina assum iu a definição de saúde com o um a norm alidade, e a de doença, com o um a anor-m alidade, estabelecendo coanor-m a fisiologia uanor-m a polaridade entre o norm al e o patológico, na qual o indivíduo é ou não norm al de acordo com um padrão ideal de saúde (Canguilhem , 1995). Como observa Elias (1994),grande parte do que chamamos de razões de “moralidade” ou “m oral” preenche as m esm as funções que as razões “higiene” ou “higiênicas” para condicionar as crianças a aceitar determinado padrão social. A m odelagem por esses m eios objetiva a tornar automático o comportamento socialmente dese-jável, uma questão de autocontrole, fazendo com que o mesmo pareça à mente do indivíduo resul-tar de seu livre-arbítrio e ser de interesse de sua própria saúde ou dignidade humana.

A medicina tem se baseado muito mais em padrões universais de idealização do ser huma-n o do que huma-n a cohuma-n dição hum ahuma-n a de vida dos corpos na sua relação com um ambiente parti-cular. Segun do Foucault (1998), a m edicin a simula uma pseudo inovação na qual o pensa-mento contemporâneo, acreditando ter escapado a ele [ao positivismo] desde o final do século 19, nada mais fez do que redescobrir, pouco a pouco, o que o tornara possível. Na realidade, doen ça algum a está isolada n o sujeito, m as é depen -dente do ambiente.

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padrão universal de corpo hum ano instituído com o o m elhor para a espécie. Um padrão, porém , n ão é o corpo n a realidade, m as um a reprodução deste num suposto outro corpo un iversalm en te idealizado, on de o un iversal passa a servir de parâm etro de julgam ento da essência dos particulares, podendo passar assim a desqualificá-los em sua existência presente, que, no entanto, é a única realidade concreta (...) [e] o faz na forma de mistificação, crença, ideologia e poder em nom e de um a “verdade” transcen-dente ao real imanente (Martins, 1999).

A medicina social surgiu ao traçar regras de com portam ento im postas pelo policiam ento m édico; depois, com a m edicina científica, a construção de um tipo de corpo ideal/normal, em condições experimentais, de laboratório, in-cutiu nos corpos uma forma de controle da vida (Rosen, 1980).Atualmente, o círculo de preceitos e normas é traçado com tanta nitidez em volta das pessoas, a censura e a pressão da vida social que lhes modela os hábitos são tão fortes, que os jovens têm apenas um a alternativa: subm eter-se ao padrão de comportamento exigido pela sociedade, ou ser excluídos da vida num “ambiente decente”. A criança que não atinge o nível de controle das emoções exigido pela sociedade é considerada co-mo “doente”, “anormal”, “criminosa” ou simples-mente “insuportável” (Elias, 1994).

Hoje podem os questionar essa construção de uma normalidade, pois na realidade, o corpo normal não é necessariamente o corpo saudá-vel, m as um estado ideal dos órgãos segundo um padrão ideal de vida da espécie, que a medi-cina deseja estabelecer. Enquanto o conceito de norm alidade designa tanto o estado habitual dos órgãos, quanto seu estado ideal, a normati-vidade, segundo uma conceituação canguilhe-m iana (1995), designa a auto-produção dos corpos na realidade complexa. A capacidade de um corpo para agir é tam bém sua capacidade norm ativa, isto é, sua capacidade para criar normas interativas com o ambiente. Assim sen-do, um indivíduo é doente não por ausência de norma, mas por dificuldade de variar as normas para perseverar o seu ser. O indivíduo doente segue normas também, mas normas pouco ou nada flexíveis, num corpo passivo e impotente para fazer variar suas próprias norm as. Na impotência a pessoa se torna incapaz de variar suas normas quando se expõe ao ambiente.

No contexto atual, a obesidade recebe duas definições: uma como um estado desviante dos padrões de n orm alidade n a cultura, e n esse sen tido o corpo gordo é defin ido com o algo

an orm al, porque difere da idéia de in divíduo normal construída em um contexto social onde se atribui normalidade a um modelo de corpo com um a silhueta m agra e/ou m usculosa; e outra, a obesidade pode ser compreendida co-mo uma doença, se ela representa um fator ge-rador de impotência do corpo e reduz as possi-bilidades de vida de um indivíduo no ambiente que lhe é próprio.

Um corpo gordo, n a realidade, pode estar num m ovim en to saudável e aum en tan do sua potência de agir. Se por um lado o corpo gordo se desvia dos padrões vigen tes de beleza, ele não se desvia, contudo, de sua própria natureza humana, de sentir e perceber o ambiente à sua volta, afetando-se com as impressões do mun-do. É nesse sentido que um a classificação an-tropom étrica n ão avalia a saúde n os corpos. Prim eiram ente pelo caráter estático e pontual da an tropom etria, que perde a percepção do movimento; e depois porque reduz o corpo ao visível e m ensurável, ign orando o psíquico, o dinâmico, o vivencial, isto é, a condição efetiva daquele corpo com a vida e com as suas ativi-dades e projetos. O corpo não é somente aqui-lo que se pode ver, e aquiaqui-lo que se vê nem sem-pre admite medidas. Segundo Santana (1997), José Gil define o espaço do corpo através de uma passagem :Espaço do corpo é isto: se você está im erso num a grande banheira tom ando banho, cai uma aranha sobre a superfície da água perto de seus pés e você se arrepia! Aquela aranha não lhe tocou, mas tocou. Ora, a cada instante, nesse instante você tem um espaço do corpo: o seu cor-po vai além do corcor-po próprio, para além dos limites do seu corpo.

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potência do corpo ao comer menos ou aumen-tar a potên cia do corpo assum in do-se com o tendo um corpo potente mesmo que gordo. O estetism o, n o sen tido que lhe dá Maffesolli (1996), atravessa a corporeidade porque o sen-sível é irreprimível, embora, no caso do corpo gordo, o caráter sensível do corpo e da existên-cia seja em geral marginalizado, como se fosse um privilégio dos corpos adaptados aos pa-drões; como se o pecado da existência na carne fosse um privilégio dos que não pecam pela gu-la. As emoções e sensações são um assentimen-to de vida, seja por um corpo gordo ou magro, enquanto o medo das aparências, ao contrário, constitui uma forma de desprezo ao mundo.

A estética dos corpos pode ser causa ade-quada e aumentar a potência de agir de um cor-po, pois suscita um a diversidade de em oções, que constituem seu ambiente afetivo. O estetis-mo, no sentido que estamos utilizando, denun-cia a m oralização que torna os corpos – tanto os que se incluem no padrão quanto os que dele se excluem – im perm eáveis às em oções, um a moralidade que limita o gesto espontâneo (Mar-tins, 2000). O desejo de reconhecim ento pelo outro pode sim representar uma potencialidade capaz de criar uma possibilidade de realização na busca de afetos e de convivência com outras pessoas. É preciso afetar-se para estar ativo. Blo-quear os afetos é também bloBlo-quear a percepção de nossas necessidades. Os diálogos que se dão, no que diz respeito à corporeidade, entre saúde, norm alidade e estética são um m odo de reco-nhecermos as múltiplas exigências de um corpo em sua afirmação no ambiente. A desenvoltura social e m esm o a sedução são construídas na relação corpórea com o ambiente, e guardam a im previsibilidade característica do hum ano. Cada indivíduo tem um modo próprio de rea-gir às im pressões e às agressões do am biente, diferente em cada momento de sua vida. A cor-poreidade pode m anter com o am biente um a plasticidade que gere novas configurações e no-vas expressões na reapropriação que o ambien-te oferece. A enfermidade representa o sufoca-mento e a impossibilidade de o corpo se reapro-priar de seu ambiente, independentemente das medidas do corpo.

A questão da obesidade: considerações finais

A contemporaneidade traz novas exigências de transdisciplinaridade e de aproximação com a

realidade com plexa, n a qual um a con cepção dicotômica do corpo separado da mente se tor-na um obstáculo. O entendimento da obesida-de como um excesso obesida-de gordura, que positiva-mente se localiza na metade material do corpo humano, tem se mostrado cada vez mais limi-tan te n o en fren tam en to dessa problem ática. Reduzir o problem a a um a questão física res-tringe as possibilidades terapêuticas no campo da nutrição. A desconstrução de uma definição determ inística de obesidade expressa na idéia de um balan ço de en ergia positivo, e sua reconstrução no âm bito da com plexidade po-dem contribuir para operacionalizar terapêuti-cas e polítiterapêuti-cas de nutrição na área da saúde sob um novo olhar.

A razão espinosiana pode contribuir nessa con strução porque propõe um a form a de conhecim ento racional que não se destaca do corpóreo, do vivencial e do sensível, nem tam-pouco dita verdades ao corpo, como ocorre no cartesianismo. É nesta racionalidade vivencia-da que somos capazes de nos conhecermos sem idealizações. Esse conhecimento não se dá iso-lado das variáveis do mundo dos sentidos, nem distan te da desorgan ização do real im an en te. Não compreendemos o corpo humano afasta-do dele, m as quan afasta-do racion alizam os aquilo que vivenciam os. A corporeidade se constitui n a cultura in corporan do subjetividades e se atualizando nas transformações do mundo. O ambiente tem um papel decisivo na problemá-tica da obesidade, na qual o corpo transforma e é transformado pelo ambiente a partir de sua existência. Conhecer, nesse sentido, representa um a possibilidade, por exem plo, de discern ir entre as supostas necessidades que são criadas e im postas pela m ídia na venda de produtos e fetiches, e as n ecessidades sin gulares de cada in divíduo. Esse con hecim en to, poderia dizer, n o sen tido ético, se con stitui hoje com o um in strum en to capaz de denun ciar os fetiches e os im plan tes que ten tam anular a n atureza humana singular, denunciando um aprisiona-mento do sujeito em ideais de saúde distancia-dos de um corpo singular efetivamente potente e portanto saudável a seu modo.

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conhecer as causas internas que nos afetam nos coloca vulneráveis e subm issos às causas dos outros e a padrões supostamente universais, o que diminui nossa potência de agir, nos tornan-do passivos diante da realidade. Essa passivida-de popassivida-de levar à ser vidão. Estaríam os assim escravos das dietas, na obediência de norm as que não são as nossas, que não são fruto de nos-sa normatividade própria, de nosnos-sa atividade e criatividade na interação com o mundo. Quan-do seguimos obedecenQuan-do às normas externas a nós, nutrimos a crença de que a satisfação está fora de nós, o que diminui nossa potência e nos enreda em um círculo de dependência. Na alie-nação de si, o controle social pode levar a cor-poreidade a vivenciar e alimentar contradições – comer ou não comer – e dissociações imagi-nárias.

Um a con duta ética é liber tadora, pois a liberdade de um corpo não está em poder esco-lher os alim entos, m as em aproxim ar as reco-m en dações nutricion ais às n ecessidades que desenvolvem os n a relação com o am bien te. Nesse sentido, o corpo não é livre quando co-me o que supostaco-mente quer, mas é livre quan-do con segue, con hecen quan-do suas n ecessidades, realizá-las e querê-las. Isto é, querer o que au-menta sua potência de agir. A necessidade não existe nem só no corpo, nem só na mente, mas n o corpo hum an o in teiro, n a un idade som a-topsíquica que somos. Entender a necessidade de um corpo humano como somente do corpo ou som en te da m en te é um cam in ho para a escravidão e para a reatividade.

Uma conduta ética não representa a substi-tuição de um modelo de corpo magro por ou-tro m odelo gordo. A im potência de um corpo gordo não está no reconhecimento dos mode-los padronizados de beleza, mas no desconhe-cimento das necessidades próprias de sua cor-poreidade sin gular. A n ecessidade em seguir um modelo ideal de corpo magro é já uma rea-ção a um a causa extern a que dim inui sua potência de agir.

O conflito entre com er (porque quero) ou não com er (porque engorda) representa um a ten são viven ciada por um corpo gordo, m as traz em si uma possibilidade de transformação. Exercitamos, na tensão existente entre as reco-m en dações nutricion ais reco-m odern as, ireco-m postas como um controle social, e a realização pesso-al, a utilidade da ética. O con flito represen ta um a possibilidade de tran sform ação; assim , entendemos que reprimir um conflito alimen-tar não é resolvê-lo, e que a repressão pode

ge-rar doenças. O corpo não decide pelo prazer ou pelo desprazer, mas por um máximo de prazer e um mínimo de desprazer. Deste modo, mui-tas vezes optar por não com er um a guloseim a n ão é n egar o prazer, m as optar pelo m ín im o de desprazer.

Numa tentativa de aproximação com a rea-lidade construímos duas definições para obesi-dade. Tanto uma como outra envolvem o cor-po com o ambiente. A obesidade cor-pode ser com-preen dida com o um a doen ça, quan do repre-senta um fator gerador de impotência do cor-po em relação ao am biente que lhe é próprio. Na impotência, a pessoa fica passiva quando se expõe ao seu ambiente, diminuindo sua potên-cia de agir. Nesse sen tido, defen dem os que mesmo um corpo gordo pode, na realidade, es-tar num movimento saudável, se não compro-m ete sua potên cia de agir. Nessa con cepção, uma classificação antropométrica isoladamen-te n ão é capaz de avaliar a saúde n os corpos, pois foraclui a interação do corpo com o ambi-ente. Por outro lado, a obesidade pode ser defi-n ida com o um desvio do padrão vigedefi-n te de normalidade, que se baseia em um modelo ma-gro e m usculoso de corpo. Um corpo gordo é defin ido com o algo an orm al em um a cultura con tem porân ea que in stitui um m odelo de corpo magro como uma imagem ideal de cor-po. A idéia de indivíduo normal está construí-da a partir de m édias construí-da espécie hum ana e do imaginário social, determinada em um contex-to social em que nossa cultura atribui normali-dade a um modelo idealizado social e cultural-m en te, cocultural-m cultural-m edidas an tropocultural-m étricas prede-term in adas. Em relação ao m odelo de corpo in titulado de n orm al, o corpo gordo se torn a na verdade desviante. No entanto, se ele se des-via dos padrões de beleza, ele n ão se desdes-via, contudo, de sua própria natureza e é capaz de sentir e perceber o ambiente a sua volta, afetan-do-se com as im pressões do m un do, e caso o faça de forma ativa e potente, seria, neste senti-do, saudável.

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em oções, sensações e sentim entos que consti-tuem um ambiente afetivo real e não imaginá-rio. A sen sibilidade da corporeidade que se coloca no estetism o prom ove encontros entre as pessoas, com par tilha afetos e celebra isso numa vida social ativa. O estetismo nessa pers-pectiva é am oral, pois perm eia um a vivên cia cotidiana dos corpos, sendo assim contrário à m argin alização que a sociedade e os padrões difun didos pela m ídia im põem sobretudo ao corpo gordo, com o se este fosse in capaz de emoções e sensações.

Conhecendo a nós mesmos, nossas necessi-dades, somos livres para buscar os ambientes e as formas mais adequadas para realizá-las. As-sim con tinuam os receptivos ao m un do, m as selecionamos os ambientes que nos afetam. Na realidade, tan to um a atitude otim ista com o pessim ista no que diz respeito às transform a-ções da corporeidade não são muito m ais que perspectivas consoladoras, recalcadoras da rea-lidade do corpo diante do poder da normalização e da padron izanormalização. A corporeidade m an -tém com o ambiente uma plasticidade que traz n ovas con figurações e n ovas expressões so-mente quando há uma reapropriação do ambi-en te, um processam ambi-en to sin gular do que o mundo nos traz.

Um a conduta ética deve levar em conta as singularidades e a participação dos envolvidos nas mudanças de um comportamento alimen-tar. No caso da terapêutica, tratar-se-á de ela-borar um esquem a alim en tar que respeite as singularidades do indivíduo e que seja elabora-do de form a con jun ta, com sua par ticipação. Uma dieta imposta cerceia a liberdade das pes-soas, escravizan do-as. Um a vez passivas, é com preen sível que, ain da que in con scien te-m ente, rejeitete-m a dieta que lhes fora ite-m posta. Ademais, a própria passividade já implica uma diminuição de sua potência de agir, constituin-do-se, portanto, em uma forma de adoecimen-to – imperceptível aos procedimenadoecimen-tos conven-cionais da nutrição que utilizam a antropome-tria com o instrum ento fundam ental no trata-mento da obesidade.

No caso do plan ejam en to de políticas de alim entação, tratar-se-ia tam bém de respeitar as singularidades, inclusive culturais e locais, e, a par tir de estudos das vivên cias alim en tares dos grupos, planejar ações futuras e estratégias de adaptação dessas vivên cias às recom en da-ções nutricion ais, de m odo a aum en tar a po-tência das pessoas tornando-as mais ativas em seu am bien te. Não é possível, por exem plo,

considerarmos ético criar estratégias para nor-m alizar a alinor-m en tação dos grupos de acordo com um padrão global de alim entos suposta-m en te n ecessários, pois en ten desuposta-m os que usuposta-m modelo de assistência nutricional também es-cravizaria e dim inuiria as poten cialidades da comunidade se não contar com uma participa-ção ativa dos in divíduos e da cultura que a compõe. Por exemplo, a diversidade alimentar presente em cada região constitui um recurso nutricional que nem sempre é considerado pe-los planejadores que privilegiam uma alimen-tação globalizada, m uitas vezes por falta de informações nutricionais a respeito de frutas e hortaliças cultivadas e nativas da própria regi-ão. O mesmo podemos dizer de práticas e ser-viços. O que querem os frisar é que o planeja-mento em saúde precisa considerar os recursos nutricionais locais, assim como também novas práticas em saúde, con hecen do, n estes, suas poten cialidades que, m uitas vezes, já fazem parte da cultura alimentar da região e não de-vem ser pacificadas pela automatização e gene-ralização de alguns programas em saúde.

O con ceito de obesidade que procuram os reconstruir nesse trabalho, assim como o enfo-que conceitual utilizado para isto têm diante de si um vasto campo de aplicação na elaboração de terapêuticas par ticulares, m as tam bém de práticas de saúde e políticas de alim en tação para as com un idades, on de a recuperação da história da comunidade pode ser uma estraté-gia para propostas criativas, capaz de destacar as singularidades das populações no campo da alim en tação. A racion alidade n esses term os espin osian os perm ite um a com preen são de problem as com plexos, com o a obesidade, de uma forma ética, que leve em conta ao mesmo tempo as recomendações nutricionais e a reali-dade dos indivíduos e populações.

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Colaboradores

A Martins trabalhou na discussão teórica e MC Carvalho, no levantam ento e análise de dados, na redação e dis-cussão teórica.

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Artigo apresentado em 3/3/2004 Aprovado em 14/6/2004

Versão final apresentada em 15/7/2004

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