REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologiawww.sba.com.br
REVISÃO
Lesão
dentária
na
anestesiologia
José
Miguel
Brandão
Ribeiro
de
Sousa
∗e
Joana
Irene
de
Barros
Mourão
FaculdadedeMedicina,UniversidadedoPorto,Porto,Portugal
Recebidoem14demarçode2013;aceitoem15deabrilde2013 DisponívelnaInternetem14demarçode2014
PALAVRAS-CHAVE
Traumatismo dentário; Anestesiageral; Medic¸ãoderisco; Diagnósticobucal
Resumo
Justificativaeobjetivos: Alesãodentáriaéacomplicac¸ãomaiscomumdaanestesiagerale apresenta importantesconsequênciasfísicas, econômicasemédico-legais. Oobjetivodeste estudoéfazerumarevisãosobreascaracterísticasdalesãodentáriaassociadaaanestesiologia eosmétodosdeprevenc¸ãoexistentes.
Conteúdo: Nestarevisãosãoabordadosomomentodaanestesiaemquealesãodentáriaocorre, osdentes acometidos,otipodelesão maisfrequente,osfatoresderiscoestabelecidos, as estratégiasdeprevenc¸ão,osdispositivosdeprotec¸ãoeasimplicac¸õesmédico-legaisinerentes àsuaocorrência.
Conclusões: Antesdeiniciarqualquerprocedimentomédicoqueexijaorecursoàlaringoscopia clássicaéimperativaumaavaliac¸ãopré-anestésicaminuciosaedetalhadadoestadodentário dodoente,deformaaidentificarosdentesemrisco,analisarapresenc¸adefatoresassociados adificuldadesdeintubac¸ãoedelinearumaestratégiadeprevenc¸ãoquesejaadaptadaaorisco delesãodentáriadecadadoente.
©2014SociedadeBrasileira deAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
KEYWORDS
Dentaltrauma; Dental
injury/anaesthesiology; General anaesthe-sia/complications
Toothinjuryinanaesthesiology
Abstract
Backgroundandobjectives: Dental injuryis themostcommoncomplication ofgeneral ana-esthesia andhas significantphysical, economic andforensic consequences.The aim ofthis studyistoreviewonthecharacteristicsofdentalinjuryassociatedwithanaesthesiologyand existingmethodsofprevention.
Contents:Inthisreview,thetimeofanaesthesiainwhichthedentalinjuryoccurs,the affec-ted teeth,themostfrequenttype ofinjury, establishedrisk factors,prevention strategies, protectiondevicesandmedico-legalimplicationsinherenttoitsoccurrenceareapproached.
∗Autorpatracorrespondência.
E-mail:[email protected](J.M.BrandãoRibeirodeSousa).
Conclusions:Beforeinitiatinganymedicalprocedurethatrequirestheuseofclassic laryngos-copy,athoroughanddetailedpre-aestheticevaluationofthedentalstatusofthepatientis imperative,inordertoidentifyteethatrisk,analyzethepresenceoffactorsassociatedwith difficultintubationandoutlineapreventionstrategythatistailoredtotheriskofdentalinjury ofeachpatient.
©2014SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevier EditoraLtda.Allrights reserved.
Introduc
¸ão
Alesãodentáriatemsidoassociadaàanestesiageraldesde hámuitos anos,1 especialmenteàintubac¸ão endotraqueal
comrecursoàlaringoscopiaclássica.2Essaéacomplicac¸ão
maiscomum.1---11 Aincidênciaglobaldalesãodentáriaestá
estimada entre 0,06% e 12%3,11---17 e esses valores podem
estarsubestimados.2 É,portanto, umalesão frequentena
anestesiologia,naqualasconsequênciasestéticase funcio-naiseoimpactosocialsãoimportantes.4,6,7,10,11,18
A lesão dentária é também a mais comum das quei-xas médico-legais relacionadas com a anestesia1,5,19---22 e
o evento responsável pelo maior número de queixas por mápráticamédicacontraosanestesiologistas.2,4---7,23 Asua
correc¸ãoapresentacustosrelevantes,que setêmtornado cadavezmaissignificativoscomaevoluc¸ãoeasofisticac¸ão datecnologia.6,7,24
Tendoem considerac¸ão amagnitude doproblema e as consequênciasfísicas,econômicaselegaisdalesãodentária naanestesiologia,éimportantecorresponderànecessidade deeducac¸ãoeformac¸ãodosanestesiologistassobrea anato-miadosdentes,asestruturasqueossuportam,apatologia dentáriae astécnicasusadasna reabilitac¸ão dentária.9 É
tambémnecessárioestabelecerestratégiaspadronizadasde documentac¸ãoeprevenc¸ão, umavez queoconhecimento ea compreensãodosfatoresderisco é fundamentalpara evitarfuturaslesões.1,2,4,7,24
Atoanestésicoelesãodentária
Osdentes saudáveissãobastante fortese estão desenha-dos para suportar as enormes pressões geradas durante a mastigac¸ão. No entanto, a inserc¸ão, manipulac¸ão ou remoc¸ãodequalquer aparelhode via aéreaou desucc¸ão podeoriginarlesõesnacavidadeoral.
Ocorrênciadelesãodentária
As lesões dentárias ocorrem sobretudo durante a laringoscopia,2,5,12maspodemocorrercommenor
frequên-cia durante a manutenc¸ão anestésica ou na fase de emergência da anestesia.2,18 Apesar de o risco de lesão
dentáriatambémestar presenteduranteaextubac¸ão,19,25
émenosimportanteesignificativodoqueoriscodurantea intubac¸ão.2
A maioria dos estudos demonstra que a maior parte das lesõesocorre durante a intubac¸ão paracirurgias ele-tivas e apenas uma minoria ocorre num contexto de emergência,2,11,16 o que indica que o cuidado ao intubar
seráomesmoquandonãoseconheceoestadodentáriodo doente.Pelocontrário,algunsestudosreferemqueos pro-cedimentoscirúrgicosdeemergênciaestãoassociadosaum maiorriscodelesãodentária.5,12,17,26
Adolphset al. reportam que a lesãodentária periope-ratória ocorresobretudonoservic¸o decirurgia gerale no trauma, muito provavelmente por serem os servic¸os que executam um maior número de procedimentos cirúrgicos comrecursoàintubac¸ãoendotraquealcomlaringoscópio.11
Dentesacometidos
Geralmenteapenasumdenteésujeitoalesão,5,6,11 maso
trauma simultâneoa dois,três e atéquatrodentes já foi descrito.5,6,27Osdentesincisivossuperiores(maxilares)são
osqueapresentammaiorriscodelesão,3---7,10---12,16,28---32
parti-cularmenteoincisivocentralsuperioresquerdo,6,11---13,19,28,33
masosdentesinferiores5eosposteriores31tambémpodem
serlesados.
Tipodelesãodentária
O tipo de lesão dentária maisfrequente nãoé constante entreosestudos,oquepoderádever-seàadoc¸ãode diferen-tesmetodologiasparaadetec¸ãoeaclassificac¸ãodaslesões. Noentanto,aexplanac¸ãodessescritériosnãoéreferidapor eles. Aslesõesmaisreportadas naliteratura são:fratura, avulsãoe luxac¸ão dedentes naturaisoudereconstruc¸ões protéticas.3---6,10,11,16,34---36
Fatoresderisco
Osprincipaisfatoresderiscodetraumadentárioassociado à laringoscopia são intubac¸ão difícil3,12,15,37 e mau estado
dentáriopreexistente.1,4---7,11,16---18,26,31,32,38,39
Chenetal.reportamqueemdentescompatologia pre-existentealesãoécercadecincovezesmaisprovável12,28
eNewlandetal.referemqueosdoentesquesãodifíceisde intubartêmumrisco20vezesmaiordelesãodentária.15
osfatorespreditoresdedificuldadesdeintubac¸ãopredizem tambémoriscodetraumadentário.40
Pelo contrário, Gaudio et al.16 reportam que nenhum
tipodelesãodentáriafoirelacionadodeformasignificativa comumaintubac¸ãodifícil,querantecipadaquerimprevista. Avulsões,fraturaseluxac¸õesocorremmaisfrequentemente durantelaringoscopiasdescritas comoprocedimentos nor-mais,talcomoVogeletal.tambémdescreveram.
Aintensidadedasforc¸asexercidasdurantea laringosco-pia está igualmente relacionada com o risco potencial de traumadentário,particularmentenapresenc¸adeuma téc-nica de intubac¸ão inadequada oude uma intubac¸ão mais prolongada.Apresenc¸adeincisivossuperiores proeminen-tes, com umaaltura superior a1,5cm,está associada ao aumentodasforc¸asdetrac¸ãoe dadurac¸ãoda laringosco-piaecontribuiparaoaumentodoriscodelesãodentária. A durac¸ão da laringoscopia é particularmente prolongada quando o excessode peso está associado a umaprotusão limitadadalíngua,aaberturabucalinferiora5cmeauma extensãolimitadadopescoc¸o,oqueaumentaa probabili-dadedeocorreremlesõesdosdentesduranteaintubac¸ão.2
Outros fatores têm sido descritos na literatura como potenciadoresdalesãodentária:oimpactonaarcada den-táriadurante alaringoscopia associado a umamátécnica deintubac¸ão5,16,17,41efatoresanatômicosdodoente
(den-tesproeminentes e degrandetamanho, aberturadaboca pequena,excessodedentesnaparteanteriordaarcada16,
dentesisolados28,ventilac¸ão commáscaradifícil,doenc¸as
daboca,presenc¸adepróteses,históriapréviadeintubac¸ão difícil,cirurgiacervicalprévia,quimioterapiaou radiotera-pia préviadacavidadeoral, neoplasiasda língua,trauma oraledoentedeficiente).17Existemtambémdefeitos
gené-ticos efármacosqueafetama estruturadodentee asua fixac¸ãoeaumentam,porisso,oriscodelesãodentária.1,25
O nível de treino doanestesiologista parece não influ-enciar aprobabilidade/risco de lesãodentária,11,16,32 pelo
quealesãodentáriapodeocorrertantocomo anestesiolo-gistaexperientecomocomomenosexperienteeemambos oscenáriosdeintubac¸ão(fáciloudifícil).Noentanto,em algunsestudosafaltadeexperiênciafoidadacomoumfator causalimportante.17,26,31
Prevenc¸ãodotrauma
A lesão dentária perioperatória não parece ser com-pletamente evitável e tem de ser aceita, pelo anes-tesiologista e pelo doente, como um risco inerente ao procedimento.17,26,31 Contudo, segundo Adolphs et al.,
existeumconjuntodemedidaseatitudesquesãocapazes dereduzirasuafrequênciaeminimizarosdanos,acomec¸ar pelaponderac¸ãoentreosbenefíciosdacirurgiaeoriscode lesãodentáriarelacionadocomaanestesiageral.11
Avaliac¸ãopré-operatória
Avisitapré-operatória éfundamental paraaavaliac¸ãode duassituac¸õesestabelecidasporváriosautorescomo predi-torasdelesãodentária:intubac¸ãodifícileestadodentário préviododoente,comoobjetivodeelaborarumplanocom vistaàprevenc¸ãodessedano.
Anamneseeconsentimentoinformado
Duranteaconsultadeanestesiadevemseridentificadosos antecedentesmédicos quesãoreconhecidos como fatores que aumentam a fragilidade dentária: traumatismo den-tário, radioterapia e quimioterapia na cabec¸a, bruxismo importante,diabetesmellitusedoenc¸asautoimunes,idade, tabacoecáriesprecocesduranteainfância,entreoutros.O doentedevetambémserperguntadosobreaexistênciade complicac¸õespréviasduranteumaanestesiaanterior,as cir-cunstânciasemqueaconteceram,osdentesenvolvidoseas medidasqueforamtomadasmedianteesseacontecimento. O anestesiologista deve informar ao doente o risco de traumadentárioeprovadessainformac¸ãodeveserobtida econstardoprocessoclínico,comopartedoconsentimento informado.1,9,16,32,34,41,42 Noentanto,o registodeque essa
informac¸ãofoitransmitidararamente é feito,oque pode terimplicac¸õesmédico-legaisimportantes.4,41
Examedacavidadeoral
Aavaliac¸ãopré-operatóriadevepermitiraoanestesiologista avaliar as condic¸ões de intubac¸ão e a condic¸ão odonto-lógicapré-operatória dodoente.4,7,9,11,16---18,34,43,44 Para tal,
éimportantequeanestesiologistatenhaumconhecimento abrangentedaanatomiadosdentes,dasestruturasqueos suportam,da patologiadentáriae das técnicasusadas na restaurac¸ãodentária,deformaaconseguiridentificar ade-quadamente os dentes que estão em risco e definir uma estratégiadeprevenc¸ão.
Anatomiadentária
Adentic¸ãoadulta(permanente)écompostapor32dentes, suportadapordoisarcosopostosdeosso:amandíbulaea maxila.A dentic¸ão é dividida em quatro quadrantes com oitodentes cada (umincisivocentral,umincisivolateral, umcanino,doispré-molaresetrêsmolares).
Adentic¸ão infantil (decíduaou primária)consistenum máximode20dentesecadaquadranteécompostoporcinco dentes(umincisivocentral,umincisivolateral,umcanino edoismolares).
O denteé divididoem duas porc¸ões:a raize a coroa, cadaumacomtrês camadas.Amaisexterna dacoroa éo esmalte,oqualsetornafrágilsenãotiverumbomsuporte peladentina,queéacamadaintermédia,decoramarelada equeproporcionaaarmac¸ãododente.Apolpaéacamada maisinternae éconstituídaporvasossanguíneosetecido nervoso.Araiztemcomocamadamaisexternaocimento easduascamadasmaisinternassãoasmesmasqueasda coroa.Operiodontoé otecidoqueenvolve odentee lhe dásuporteeécompostopelagengiva,peloossoalveolare peloligamentoperiodontal.Aanatomiadodentepodeser verificadanafigura1.
Patologiadentária
Qualquer doenc¸a que afete a coroa, a raiz ou o tecido ósseoalveolartornaodentemaisvulnerávelàlesãoemais suscetível deser fraturado ou luxado,quando lhe é apli-cadapressão.5,16,25Porisso,éimportanteoanestesiologista
Gengiva
Ossa alveolar
Esmalte
Dentina
Polpa
Coroa
Raiz Cimento
Ligamento periodontal
Figura1 Anatomiadentária.
Adoenc¸aquemaisfrequentementeafetaosdenteséa cáriedentária.Essaenvolveadescalcificac¸ãooudissoluc¸ão dascamadas maisexternas dos dentes pela ac¸ãode bac-térias produtoras de ácido, que leva a uma fragilizac¸ão da estrutura dentária. O tratamento de cáries envolve a remoc¸ãodaporc¸ãocomcáriee oseupreenchimentocom ummaterialderestauro,queoriginaumdentefisicamente maisfrágilemaispropícioalesão.
Adoenc¸aperiodontaléumapatologiadentáriafrequente ecaracterizada porumprocesso inflamatórioindolor, que envolve a infec¸ão bacteriana do periodonto e se mani-festa habitualmente no adulto sob a forma de gengivas inflamadas, retrac¸ãogengivale acumulac¸ãodetártaro. O mecanismo patofisiológico envolve a dissoluc¸ão lenta do osso que suporta o dente e do ligamento periodontal e leva ao aumento da mobilidade dentária e consequente-menteadentesqueapresentamumamaiorvulnerabilidade àsubluxac¸ão ouavulsão,mesmo quando sujeitosa forc¸as ligeiras. A avaliac¸ãoda mobilidade dentária é umaspeto importantenaverificac¸ão doestadodoperiodontoe pode ser feita por palpac¸ão individual de cada dente. O uso sistemático de exames pré-operatórios de detec¸ão de doenc¸aperiodontal,comoo PeriotestTechnique,nãoestá indicado.31,35Napresenc¸adedoenc¸aperiodontalavanc¸ada,
a extrac¸ão do dente é habitualmente o tratamento de eleic¸ãoparapreveniraavulsão.45
Os doentes que se apresentam com dentes deteriora-dosoude alguma formarestaurados (preenchimentocom compósito,próteses,coroas,etc.),assimcomoosque apre-sentam doenc¸a periodontal significativa, são classificados comotendoalterac¸õesdentáriaspreexistentes.
Odontograma
O resultado da avaliac¸ão pré-operatória do estado da cavidadeoral deve ficar documentado de forma simples, objetivae defácilcompreensão. Emboraaindanãoexista métodopadronizado e universal para efetuá-lo, já vários
Direita
18 17 16 15 14 13 12 11
48 47 46 45 44 43 42 41 31 32 33 34 35 36 37 38 21 22 23 24 25 26 27 28 Esquerda
Figura2 SistemadeNumerac¸ãodaFederationDentaire Inter-nationale (FDI) - sistema mais utilizado na numerac¸ão dos dentesemPortugal.
Direita Esquerda
32
1 2 3 4 5 6 7 8 9
31 30 29 28 27 26 25 24 23 10
22 21 20 19 18 17 11 12 13 14 15 16
Figura3 SistemaUniversaldeNumerac¸ão.
autores propuseram um modelo de documentac¸ão.1,2,17,33
Um diagrama simples com uma breve descric¸ão escrita dos dentes alterados podeser suficiente.9 Ossistemas de
numerac¸ão ilustrados nas figuras 2 e 3 podem ser usados comobaseparaessadescric¸ão.EmPortugalosistemamais usado na numerac¸ão dos dentes é o da Fédération Den-taireInternationale(fig.2),noqualcadadenteédesignado por doisdígitos: o primeiro determina o quadrantea que odentepertenceeosegundocorrespondeaonúmero atri-buídoaodente.Osquadrantessãodeterminadosnosentido dos ponteiros do relógio e comec¸am pelo quadrante que correspondeàmetademaxilardireita.
NosEstadosUnidosdaAméricaéusadooSistema Univer-saldeNumerac¸ão(fig.3),noqualosdentessãonumerados de 1 a 32, contados sequencialmente quer estejam pre-sentes ou não. A numerac¸ão dos dentes é feitacomo se estivéssemosdefrenteparaopaciente,comec¸anoterceiro molarsuperior(maxilar)direito(quadrantedireito),segue nosentidodosponteirosdorelógiopeloquadrantemaxilar esquerdoeemseguidapelomandibularesquerdoetermina noterceiromolarinferiordireito.
Apesardeterumpapelpreponderantenaprevenc¸ãodo trauma, os estudos revelam que a documentac¸ão escrita daavaliac¸ãopré-operatóriadoestado dentáriododoente époucoencontradanosdossiêsanestésicos.4,11,15,19,25
Alterac¸õesdentáriaspreexistentesetipodelesão resultante
As lesões dentárias podem ser provocadas por vários mecanismos.2 Dessa forma, as alterac¸ões dentárias
Numdoentecomosdentessaudáveisoriscodelesão den-táriaestásobretudoassociadoàsdificuldadesdeintubac¸ão. Aslesõesmaisfrequentementeobservadasnessescasossão asfraturas.Asfissurasdentáriaspassammuitasvezes des-percebidas ao exame clínico e a sua não detec¸ão expõe o doente ao risco de essasse transformarem em fraturas importantesdurantealaringoscopia.Quandoodoenteé por-tadordeprótesesoutemrestaurac¸õesdentárias,aslesões provocadaspelotraumasãogeralmenteoafrouxamentoda prótese ouuma deteriorac¸ãodo materialda restaurac¸ão, eventualmenteassociadosafraturadentária.2
Em caso de doenc¸a periodontal, as lesões decorrentes dalaringoscopiasãomaisprovavelmenteassubluxac¸õesou luxac¸õesdos dentes.Osestudosdemonstram quenocaso deadoenc¸aperiodontalafetarosdentesmaxilaresorisco estáassociadoàsdificuldadesdeintubac¸ãoenãohádoenc¸a. Nosdentesmandibularesadoenc¸aperiodontalassocia-sea lesõesdecorrentesdamordeduradacânulaorofaríngea,da sondatraquealoudeumdispositivosupraglótico, e nãoà laringoscopia.2
Protec¸ão
A avaliac¸ão pré-operatória inicial condiciona a estratégia aseguirna manipulac¸ãodavia aérea,desde aescolhada lâminae dotipodelaringoscópioaotipodeanestesiae à eventualexecuc¸ãodeumdispositivodeprotec¸ãodentária. DeacordocomNouette-Gaulain,essetipodeabordagemé importanteparaaprevenc¸ãodelesõesdentáriasereduzo númerodereclamac¸õeseocustodoprocessocontencioso.2
Peranteaconstatac¸ãodeumriscoelevadodelesão den-tária, é importante definir uma estratégia de prevenc¸ão que leve em considerac¸ão o tempoentre a consulta e o ato cirúrgico. Em casos não urgentes, o anestesiologista podesugerirumaconsultacomumestomatologista/médico dentista,1,9,13,41naqualpodemserprestadoscuidados
den-tários e periodontais ou pode ser feita uma goteira de protec¸ão. Acooperac¸ãoestreita entredentistase aneste-siologistastemsidodefendida,10,13,16aindaquenãoelimine
oriscodetraumadentário.
Goteirasdeprotec¸ão
As goteiras de protec¸ão dentária (fig. 4) são dispositivos feitos em diversosmateriais, que podemser de tamanho padrãooufeitossobmedida pormeiodeummoldeexato daarcadadentária.As goteiraspermitemdiminuir orisco de trauma dentário por diminuir as forc¸as exercidas nos incisivossuperioresdurantealaringoscopia.2,17Noentanto,
oseuusopareceserapenasviávelnaausênciadecritérios deintubac¸ão difícil, umavez que reduzem aabertura da boca,limitamavisualizac¸ãodalaringeeaumentama difi-culdadedeentubac¸ãotraqueal.36Alémdisso,ainstabilidade
dealgunsprotetoresduranteosprocedimentosdeintubac¸ão podesermotivo de distrac¸ão,de poucavisualizac¸ão e de um espac¸o reduzido para a introduc¸ão da lâmina. A sua fabricac¸ãorequerumperíododetempoquepodeser impor-tanteconsoanteaurgênciadoprocedimentocirúrgico.39 O
usodessesdispositivosnãoprolongademaneirasignificativa adurac¸ãodaintubac¸ão20earelac¸ãoentreaforc¸aaplicadae
aforc¸anecessáriaparaprovocarlesãodentáriapermanece
Figura4 GoteiradeProtec¸ão.
indefinida.39 Afeituradeumagoteirasobmedidapermite
uma protec¸ão dos dentes maxilares de melhor qualidade doqueasgoteiras padrão,39 semagravar ascondic¸õesde
intubac¸ão.20
Nãoexisteconsensoemrelac¸ãoàrecomendac¸ãodouso degoteirasdeprotec¸ão.Algunsestudosreservam-naspara situac¸õesespecíficasdemaiorrisco(dentesemmuitomau estado),7,14,31,34,36,39 enquanto outros defendem a tese de
queas goteiras devem serusadas por rotina em todosos doentes11,17 e até sugerem que o seu uso pode vir a ser
consideradocomoopadrãodeboapráticamédica.
Posicionamentodacabec¸aedopescoc¸o
Osobstáculosteóricosparavisualizaragloteduranteuma laringoscopiadiretasãoatribuídosadoisgruposde elemen-tos:posterioresefixos, queincluemosdentesdomaxilar superior, e anteriores e móveis, que incluem a língua, a epiglote e a mandíbula. A mobilizac¸ão para cima e para a frenteda mandíbula e dabase dalíngua, por meio da simplesextensão do pescoc¸o executada por rotina ou da ‘‘posic¸ãodesnifador’’feitanopacienteobesooucom blo-queiodacoluna,aumenta adistância entreosobstáculos anterioreseosposterioreseoespac¸osubmandibulare faci-litaalaringoscopia.Asforc¸asdetrac¸ãonecessáriasparaa laringoscopianapresenc¸adeumaextensãopronunciadada cabec¸a sãomenosimportantes doque as da‘‘posic¸ãodo snifador’’,provavelmentepelareduc¸ãodovolumelinguala mobilizardurantealaringoscopia.2
De umamaneira geral, a grande variabilidade interin-dividualnograu deforc¸asdetrac¸ãoexperimentadas com determinadoposicionamentodacabec¸aincitao anestesio-logistaamodificaraposic¸ãodacabec¸aassimqueonívelde trac¸ãolheparec¸aexageradoouquetenhasidoconstatado umcontatodentáriocomalâmina.
Lâminasdisponíveisenovosdispositivos
dentário.Contudo,estádisponívelumapanópliadeoutras lâminasedenovosdispositivosdeintubac¸ão,quepelassuas características podem apresentar vantagens interessantes nareduc¸ãodotraumadentárioassociadoàlaringoscopia.
As lâminas sem colar (Bizzarri-Guiffidra) ou com colar reduzido(lâminadeCranwall)foramconcebidaspara mini-mizaro risco delesão dosincisivos superiores, masestão poucodifundidas. Umalâmina Macintoshmodificada,com um calcanhar mais reduzido na extremidade proximal, aumentaa distânciaentrealâmina eosdentes ediminui onúmerodecontatossemalteraravisãodalaringeepode, porisso,serumaboaopc¸ãoàlaminaMacintoshclássicaem casosselecionados.40
AslâminasMacintoshcomparativamenteàslâminas Mil-ler(retas)facilitamaintubac¸ão,poisfornecemumespac¸o maiorparaapassagemdotuboendotraquealnospacientes comcritériospreditivosdeintubac¸ãodifícil.Noentanto,as lâminasretaspossibilitamumamelhorlinhadevisãoglótica epodemapresentarvantagensemdeterminadassituac¸ões. Watanebeetal.referemousodalâminaBelscope(lâmina angulada)comoindicac¸ãoabsolutaempacientescom ape-nasumdente.47
Aslâminasdeplásticotêmumpotencialmaisbaixopara afraturadentáriaemrelac¸ãoàslâminasmetálicas.Apesar disso,nãosãoindicadasparaintubac¸õesdifíceis,porcausa domaiorgraudeforc¸aexigidonessassituac¸ões.48
Os dispositivos supraglóticos (máscara laríngea e tubo laríngeo) são de tamanho, forma e composic¸ão bastante diferentes,deacordocomofabricante.Amáscaralaríngea produz umaincidência de trauma dentário atéseis vezes inferioràlaringoscopia.1,10,31,49,50
Maisrecentementetemsidointroduzidonomercadoum grandenúmerodenovos dispositivosdeintubac¸ão.51 Uma
dasopc¸õessãoosvideolaringoscópios,entreosquaisestão oslaringoscópiosindiretos, como oGlidescope, o Truview EVO2 e o McGrath Series 5, que permitem a visualizac¸ão daglotesem alinhar o eixo oral com o eixo faríngeo e o eixotraquealeparecemapresentarvantagensem relac¸ão aosMacintosh.52,53Essesdispositivosrequeremousodeum
tuboendotraquealpré-moldadocomumestilete,ao contrá-riodosdispositivosAirtraqePentaxAWS,quesãotambém laringoscópios indiretos, disponíveis em vários tamanhos, mas que têm um canal que conduz o tubo endotraqueal paraaaberturaglótica.Existemaindaovideolaringoscópio StorzV-MAC/C-MACeoMacGrathMAC,quecombinam lâmi-nasidênticas ao Macintosh com videotecnologia e podem serusadosparalaringoscopiadiretaconvencionaloucomo videolaringoscópioindireto.
OvideolaringoscópiodeBonfilséumdispositivoquepode serusadocomumaintroduc¸ãoretromolaremcasode aber-turadabocalimitadaedecolunaemrisco.
A informac¸ãodisponível sugere que os novos dispositi-vos podem vir a desempenhar um papel fundamental na manipulac¸ão da via aérea, notadamente como opc¸ão em casos de intubac¸ão difícil prevista ou imprevista ou em casodeintubac¸ão falhada.51 Sugere-se tambémqueesses
dispositivos serão capazes de reduzir do risco de trauma dentário associado à intubac¸ão endotraqueal.2,17,51,52 No
entanto, ainda são necessários estudos que estabelec¸am deforma clara e objetiva o papel exato desses dispositi-vos no trauma dentário, sobretudo quando comparados à
laringoscopiaclássicacomlâminaMacintosh.Aaquisic¸ãode competênciasedeexperiêncianoseumanuseamentoé fun-damentalparaqueoseuusosejabem-sucedidoemqualquer contextoclínico.51
Implicac¸õesmédico-legaisdalesãodentária
As lesões dentárias perioperatórias, assim como todas as lesõesiatrogênicas, levantamo problemada responsabili-dade médico-legal. Nesse caso com especial importância, uma vez que são a mais frequente de todas as queixas médico-legais relacionadas coma anestesia1,5,19---22 e
tam-bém o evento responsável pelo maiornúmero de queixas contraosanestesiologistaspormápráticamédica.2,4---7,23
Aindaquea incidência delesõesdentárias seja impor-tante,apenasumterc¸oresultaemqueixa4esomenteuma
minoriatemdireitoaindenizac¸ão,comumimpacto finan-ceiroreduzido.4,7Issocontrastacomaideiacomumdeque
essaslesõescustampoucodinheiroàunidadehospitalar,mas quepelasuafrequênciaocustoglobalseriaelevado.4
Adiscrepânciaentreaincidênciadelesõeseonúmerode queixaspodeestarligadaaofatodeosdoentesnãosaberem dapossibilidade deo fazerem, ouentão ser desencoraja-dospelacomplexidadeadministrativaejudicialassociadaà suafeitura.Poroutrolado,algunsdoentesestão conscien-tes doseumauestado dentárioprévioe acreditamque a ocorrênciadelesãoéumacontecimentoquenãoéde res-ponsabilidade direta daunidadede saúdee podemsentir quealesãodentáriaéapenasumdanocolateralno trata-mentodasuacondic¸ão, queémuitasvezescomplicada.A impossibilidadedeavaliaraqualidadedasexplicac¸õesdadas ao doente e o atendimento psicológico dado pela equipe deanestesiologiaapósoacidenteéumfatordifícilde ava-liarepotencialmenterelevantenadecisãodeefetuaruma contestac¸ão.4
A lesão dentária ocorre mesmo na ausência de negligência16,17eprovarqueoanestesiologistanãoprestou
oscuidadosdesaúdeconsideradoscomoelementarespode serdifíciledispendioso.1,41
Conclusão
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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