121 Educação e Pesquisa, São Paulo, v.36, n. especial, p. 123-132, 2010
Te x t o e d ia lo g is m o n o e s t u d o d a m e m ó r ia c o le t iv a *
James V. Wertsch
Washington UniversityR e s u m o
As ideias bakht inianas sobre t ext o e dialogismo of erecem f erra-ment as import ant es para t razer ordem ao caót ico e f ragerra-ment ado campo dos est udos da memória colet iva. Embora a def inição de memória colet iva nest e moment o ainda est eja por ser resolvida, é possível obt er alguma compreensão do espect ro de opções, sit u-ando- se as discussões em t ermos do cont rast e ent re versões f ort es e dist ribuídas da memória colet iva. Tendo por base a noção de mediação semiót ica e as af irmações a ela relacionadas sobre uma versão d i st ri b u íd a d a m em ó ri a co l et i va, i n vo ca- se a n o ção bakht iniana de t ext o dialogicament e organizado. O f at o de que o ‘sist ema da linguagem’ concebido por Bakht in inclui as orient a-ções dialógicas do diálogo colet ivo, generalizado assim como os element os gramat icais padrão, signif ica que ele int roduz um ele-ment o essencial de dinamismo na memória colet iva.
P a la v r a s - c h a v e
Dialogismo — Memória coletica — Mediação semiótica — Bakhtin — Text o.
Correspondência: James V. Wertsch
Departamento de Antropologia Washington University in St. Louis St. Louis, MO 63130, USA e- mail: [email protected]
Te x t a n d d ia lo g is m in t h e s t u d y o f c o lle c t iv e
m e m o r y *
James V. Wertsch
Washington UniversityContact: James V. Wertsch
Departamento de Antropologia Washington University in St. Louis St. Louis, MO 63130, USA e- mail: [email protected]
A b s t r a c t
Bakht i n i an i deas abou t t ext an d di al ogism provi de i m port an t t ools f or bringing order t o t he ot herwise chaot ic and f ragment ed f i el d o f co l l ect i ve m em o r y st u d i es. Wh i l e t h e d ef i n i t i o n o f collect ive remembering may remain unset t led at t his point , some appreciat ion of t he range of opt ions can be derived by sit uat ing d i scu ssi o n s i n t er m s o f t h e co n t rast b et w een st ro n g an d dist ribut ed versions of collect ive remembering. Building on t he n o t i o n o f sem i o t i c m ed i at i o n an d asso ci at ed cl ai ms ab o u t a dist ribut ed version of collect ive remembering, Bakht in’s not ion of d i al o g i cal l y o rg an i zed t ex t i s i n vo k ed . Th e f act t h at t h e “ language syst em” envisioned by Bakht in includes t he dialogical orient at ions of generalized collect ive dialogue as well as st andard g ram m at i cal el em en t s m ean s t h at i t i n t ro d u ces an essen t i al element of dynamism int o collect ive remembering.
K e y w o r d s
Dialogic — Collect ive memory — Semiot ic mediat ion — Bakht in — Text .
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O est udo da memória colet iva recent e-ment e ganhou nova vida graças aos esf orços de est udiosos de várias disciplinas. Ela f oi exami-nada por sociólogos (por exemplo, Schudson, 1992), ant ropólogos (por exemplo, Cole, 2001), psicólogos (por exemplo, Pennebaker; Gonzalez, 2009; Schact er; Gu t chess; Kensi n ger, 2009), hist oriadores (por exemplo, Blight , 2009; Wint er, 2009) e out ros, mas a escassez de colaboração int erdisciplinar cont inua impressionant e. As pu-blicações de psicólogos que se propõem a abor-dar o t ópico geral da memória humana f requen-t em en requen-t e d ei xam d e m en ci o n ar Hal b w achs (1980; 1992) ou qualquer out ra f igura da psi-cologia ou neurociência que t enha est udado as f ormas colet ivas de memória. Inversament e, não é dif ícil encont rar t rat ament os da memória co-let iva por hist oriadores ou sociólogos que de-monst ram t er pouco conheciment o da psicolo-gia da memória individual. Em alguns casos, realment e os aut ores f izeram um esf orço para usar ideias e achados de vários campos, mas os limit es impost os pelo discurso da disciplina ain-da são impressionant es.
As possibilidades de colaboração int er-disciplinar para os est udos da memória colet iva permanecerão exat ament e assim — possibilida-des — at é que alguma f orma poderosa de sín-t ese seja usín-t ilizada, e essa é uma razão para in-vo car as i d ei as d e M i k h ai l M i k h ai l ovi ch Bakht in. Conf orme eu esboçarei abaixo, sua vi-são int elect ual of erece um modelo t eórico po-deroso sobre o qual pode ocorrer colaboração int erdisciplinar. A segunda razão para t razê- lo à cena diz respeit o a uma quest ão que inf es-t a m u i es-t as d i scu ssõ es d e m em ó r i a co l ees-t i va, not a- dament e a t endência a considerá- la como alguma sort e de presença vaga que paira “ logo ali” no mundo cult ural et éreo. Isso é o que eu t enho chamado uma versão “ f ort e” de memó-ri a col et i va, u m a abordagem qu e se opõe a uma versão “ dist ribuída” , mais realist a e t eo-r i cam en t e m ai s f u n d am en t ad a. Co n f o eo-r m e Frederic Bart let t (1932) — o pai dos est udos psicológicos modernos da memória — apont ou, as versões f ort es comet em o erro de se
concen-t rar na memória do grupo ao invés de se res-t ringiram à memória no grupo. Essas versões pressupõem que algum t ipo de ment e ou cons-ciência colet iva exist e acima e para além das ment es dos indivíduos num grupo.
Conf orme eu argument ei nout ra oport u-nidade (Wert sch, 1998; 2002), exist em várias ver-t enver-t es da versão disver-t ribuída de memória colever-t i-va, mas elas são similares quant o aos seguint es aspect os: a) a represent ação do passado é vist a como compart ilhada pelos membros de um gru-po, embora b) nenhum compromisso seja assu-mido com uma ment e colet iva do t ipo concebi-do numa versão f ort e de memória colet iva.
A chave para evit ar as ciladas de uma versão f ort e de memória colet iva é a mediação, especialmen t e a mediação semiót ica, n oções cuja genealogia remont am a várias origens. A seg u i r, eu m e ap o i arei p r i n ci p al m en t e n as i d ei as d e Lev Sem ën ovi ch Vyg o t sky (1 9 81; 1987) e Bakht in (1986). Nessa perspect iva, os seres humanos são basicament e animais que ut ilizam signos, e as f ormas de ação que de-sen vo l vem o s, esp eci al m en t e f al ar e p en sar, en vol vem u m a com bi n ação n ão redu t ível de u m agen t e at i vo e u m a f erram en t a cu l t u ral (Wer t sch , 2 0 0 2 ). Na l i n gu agem da ci ên ci a cognit iva cont emporânea, a ação humana, inclu-indo f alar, pensar e lembrar, est á “ dist ribuída” ent re agent e e f errament a cult ural e, port ant o, não pode ser at ribuída a qualquer um dos dois isoladament e.
com o t ext os escri t os, regist ros f i n an cei ros e assim por diant e. Ao mesmo t empo, cont udo, Donald enf at iza que a t ransição não deixa os processos psicológicos ou neurais inalt erados no indivíduo:
[ ...] o sist em a si m ból i co ext ern o i m põe ao cérebro mais de uma est rut ura de int erf ace. Ele impõe est rat égias de busca, novas est ra-t ég i as d e arm azen am en ra-t o , n ovas ro ra-t as d e acesso à m em óri a, n ovas opções t an t o n o cont role quant o na análise do próprio pensa-ment o de cada um. (p. 19)
Uma razão import ant e para int roduzir a noção de mediação semiót ica, ent ão, é que ela nos permit e f alar de memória colet iva sem nos compromet ermos com uma explicação da ver-são f ort e. A esse respeit o, cabe ressalt ar que, em bora Hal bw achs (1980; 1992) n ão t en ha dado à mediação t ext ual o grau de import ân-cia que ela t eria numa análise f undament ada em ação mediada, ele clarament e a reconheceu sim como uma part e legít ima da hist ória. Num paralelo not ável com Donald, ele argument ou qu e “ n ão f az… sen t i do procu rar on de... [ as memórias] são preservadas no cérebro ou em algum recant o da minha ment e à qual apenas eu t enho acesso: porque elas são relembradas por mim ext ernament e, e os grupos dos quais eu f aço part e em qualquer dado moment o me dão os meios para reconst ruí- las” (Halbwachs, 1992, p. 38). Ao descrever a memória colet iva de m ú si cos, Hal bw achs (1980) expressou - se nos seguint es t ermos:
Com a prát ica, os músicos podem lembrar- se dos comandos element ares [de anot ações es-crit as que orient am sua at uação]. No ent ant o, a maioria deles não consegue memorizar os co m an d o s co m p l exo s q u e co m p reen d em sequências muit o ext ensas de sons. Port ant o, el es precisam t er à su a f ren t e as f ol has de papel nas quais t odos os sinais, numa suces-são apropriada, est ão mat erialment e f ixados. Uma vast a part e de suas lembranças é
conser-vada dessa f orma – ou seja, f ora de si própri-os na sociedade daqueles que, como eles pró-prios, est ão int eressados exclusivament e em música. (p. 183)
Ao analisar t ais f enômenos, Halbwachs (1980; 1992) concent rou- se essencialment e no papel dos gru pos soci ais n a organ i zação da memória e dos est ímulos da memória e disse relat ivament e pouco sobre os meios semiót icos em pregados. A segu i r, eu t rago esses m ei os semiót icos para o cent ro da discussão. É pre-cisament e esse passo que nos encoraja a f alar sobre m em óri a col et i va sem pressu por u m a versão f ort e del a. Ao i n vés de post u l ar u m a agência mnemônica vaga que é um f io corren-do ent re os membros de um grupo, a af irma-ção é que a memória colet iva é colet iva por-q u e o s m em b ro s d e u m a “ co m u n i d ad e mnemônica” (Zerubavel, 2003) compart ilham o mesmo conjunt o básico de recursos semiót icos.
A e x p lic a ç ã o b a k h t in ia n a d e t e x t o
A ab o rd ag em d e m em ó r i a co l et i va esboçada não explica sat isf at oriament e quais f ormas de mediação semiót ica podem est ar en-volvidas. A esse respeit o, eu proponho a noção de “ t ext o” de Bakht in. No art igo int it ulado “ O problema do t ext o em Linguíst ica, Filologia e Ciências Humanas: um experiment o em análise f ilosóf ica” , Bakht in (1986) propôs “ dois polos” de t ext o.
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g em . No en t an t o , ao m esm o t em p o , cad a t ext o (com o u m a en u n ci ação) é i n di vi du al , único e não repet ível, e aqui reside sua int ei-ra signif icação (seu plano, o propósit o, paei-ra o qual ele f oi criado)... Com respeit o a esse aspect o, t udo que é repet ível ou reproduzível prova ser mat erial, um meio para um f im. O segundo aspect o (polo) é inerent e ao próprio t ext o, mas é revelado soment e numa sit ua-ção part i cu l ar e n u m a cadei a de t ext os (n a comunicação oral de uma det erminada área). (p. 105)
Bakht in é bast ant e conhecido por sua t e-oria da enunciação, uma preocupação que est á ref let ida na af irmação de que a “ signif icação in-t eira [de um in-t exin-t o] (seu plano, o propósiin-t o para o qual ele f oi criado)” remont a a seu polo “ in-dividual, único e não repet ível”. A seguir, con-t udo, eu me concencon-t rarei em grande medida no out ro polo do t ext o, aquele preocupado com os element os “ repet íveis e reproduzíveis” of erecidos por um “ sist ema de linguagem” que é “ conven-cional dent ro de um det erminado colet ivo”.
A primeira inclinação daqueles inf luencia-dos pelas ideias da linguística contemporânea seria compreender o que Bakht in chamou de um “ sis-t ema de linguagem” em sis-t ermos de morf ologia, sintaxe e semântica. Isso, no entanto, reflete uma perspectiva muito mais limitada do que aquela que Bakht in t inha em ment e. De f at o, sua explicação do polo repetível e reproduzível do texto reconhe-ce esses element os, mas ela t ambém inclui um segundo nível de organização no “ sist ema de lin-guagem” e um segundo nível de análise. Nessa visão, o primeiro nível tem a ver com a análise es-t rues-t ural de senes-t enças descones-t exes-t ualizadas e o se-gundo se f oca em “ linguagens sociais” , “ gêneros do discurso” e a “cadeia de t ext os” na qual um t ext o ou uma enunciação aparece.
Formulando as ideias de Bakht in nos t er-mos de uma perspect iva mais f amiliar para os lei-t ores ocidenlei-t ais, Michael Holquislei-t (1986) escreve:
A “comunicação” , conf orme Bakht in usa o t er-mo de f at o, recobre muit os dos aspect os da
parole em Saussure, porque ela diz respeit o ao que acont ece quando pessoas reais em t odas as cont ingências de suas mult if acet adas vidas realment e f alam umas com as out ras. Ent re-t anre-t o, Saussure concebeu o usuário individual de linguagem como um agent e absolut ament e livre com a habilidade para escolher quaisquer palavras para implement ar uma int enção part i-cular. Saussure concluiu, não por acaso, que a linguagem usada por milhões de t ais sujeit os het erogêneos e donos de sua vont ade não era passível de est udo, e era uma selva caót ica que a ciência não consegue domest icar. (p. xvi)
Aceit ar essa oposição saussureana est an-que signif ica an-que aprender uma linguagem é um processo de dominar um conjunt o de re-gras da langue. Além disso, pressupõe que o uso apropriado das f ormas de linguagem en-volve alguma combinação de escolha individual e cont ext o cult ural. Em sínt ese, as quest ões de uso da linguagem e de como enunciações são f ormat adas por seu posicionament o numa “ ca-deia de t ext os” são excluídas do escopo do que se considera propriament e linguagem.
Hol qu ist (1986) en f at i za qu e u m dos insight s de Bakht in f oi que o mundo semiót ico não precisa ser dividido de modo t ão est anque qu an t o a dist i n ção l an gu e- parol e su gere. A esse respeit o, Bakht in (1986) escreveu que
[...] a enunciação, com toda a sua individualida-de e criatividaindividualida-de, não poindividualida-de individualida-de modo algum ser vista como uma combinação completamente li-vre de f ormas de linguagem, como pressupõe, por exemplo, Saussure (e por muit os out ros l i n gu ist as depois del e), o qu al j ust apôs a enunciação (la parole), como um ato puramente individual, ao sist ema de linguagem como um fenômeno que é puramente social e obrigatório para o indivíduo. (p. 81)
Ao invés disso, Holquist (1986) observa:
a parole pressupõe que eles t êm. O problema aq u i é q u e o g ran d e l i n g u i st a su íço desconsidera o f at o de que “ além das f ormas de linguagens há t ambém f orma de combi-nações dessas f ormas”. (p. xvi)
O que Bakht in t em a dizer sobre essas f orm as de com bi n ações de f orm as apon t a a n ecessidade de u m segu n do n ível de an álise relacionado com o polo do t ext o que t em a ver co m o q u e é “ rep et i d o e rep ro d u zi d o ”. El e amplia t ambém o qu e precisa ser levado em consideração quando se f ala sobre o “ sist ema de linguagem” ou “ um sist ema de signos ge-ralment e compreendido (ist o é, convencional dent ro de um det erminado colet ivo)”. Levando-se esLevando-ses coment ários em consideração, somos n at u ral m en t e i nst ados a f azer u m con j u n t o d i f er en t e d e p erg u n t as so b r e a m ed i ação semiót ica da memória colet iva. Em part icular, somos levados a reconhecer uma f orma de di-n am ism o di-n as f orm as de m edi ação sem i ót i ca envolvidas e, port ant o, na própria memória.
A chave para compreender as implica-ções das ideias de Bakht in (1986) é seu con-ceit o de “ dialogismo” e as noções relacionadas de “ voz” e “ mult ivocalidade”. Em seus t ext os, ele enf at izou que uma propriedade def inidora das enunciações é que elas exist em apenas no con t at o dialógico com ou t ras en u n ciações e est ão, port an t o, “ preen chi das com n u an ces1
dialógicas” (p. 102). É esse cont at o dialógico que of erece a chave para compreender o gundo nível de f enômenos envolvidos no se-gundo polo de t ext o de Bakht in.
Para compreender essa quest ão, é f unda-ment al a pressuposição de Bakht in (1981) de que a palavra nunca pert ence soment e ao f alant e, ao cont rário, “ met ade dela pert ence ao out ro” (p. 293) sempre, o que tem como resultado a inerente mult ivocalidade das enunciações.
[ A pal avra] t orn a- se “ su a própri a” som en t e qu an do o f al an t e a povoa com su a própri a int enção, seu sot aque, quando ele se apropria da palavra, adapt ando- a a sua própria int
en-ção semânt ica e expressiva. Ant es desse mo-men t o de apropriação, a palavra n ão exist e numa linguagem neut ra e impessoal (af inal de cont as, não é do dicionário que o f alant e pega su as palavras! ), mas, ao con t rário, ela exist e nas bocas de out ras pessoas, nos con-t excon-t os concrecon-t os de oucon-t ras pessoas, servindo às int enções de out ras pessoas: é dali que a pessoa deve pegar a palavra e f azê- la sua. (p. 293- 294)
Ao lidar com enunciações da perspect iva do primeiro polo de t ext o de Bakht in, as aná-lises sociolinguíst icas cont emporâneas não t êm grandes problemas para compreender os f enô-menos envolvidos. Por exemplo, as af irmações bakht inianas são consist ent es com as análises de como as enunciações podem ser coconst ruídas ou de como elas podem ser respost as abrevia-das a uma quest ão (Falant e 1: “ Que horas são?” Falant e 2: “ Duas e quarent a e cinco.” ).
O qu e é si gn i f i cat i vo, con t u do, é qu e Bakht in viu que a af irmação de que pelo me-n os met ade da palavra pert eme-n ce ao ou t ro se ap l i cava à l i n g u ag em – n ão ao t ext o o u à enunciação. E isso levant a a quest ão mais uma vez de um nível de análise que vai além das cat egorias de langue e parole. Especif icamen-t e, ele envolve um nível de f enômenos de lin-guagem que exist em, por um lado, como f a-t os sociais compara-t ilhados colea-t ivamena-t e sobre a organização de enunciações, mas que, por out ro lado, não são reduzíveis às explicações padrões de cat egorias gramat icais.
Para t ent ar compreender o que Bakht in t inha em ment e a esse respeit o, é út il int rodu-zir uma dist inção ent re “ diálogo local” e “ di-álogo colet ivo generalizado” (Wert sch, 2002). Diálogo local é o que Bakht in (1981) às vezes chamou de “ dialogismo primordial do discur-so ” (p . 2 7 5 ) e en vo l ve o s m o d o s co m o as enun- ciações concret as de um f alant e ent ram em cont at o com – ou “ int eranimam,” inf
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ciam mut uament e – as enunciações de out ro. Essa f orma de int eranimação dialógica envol-ve a “ com u n i cação envol-verbal vocal i zada di ret a, f ace a f ace, ent re pessoas” (Voloshinov, 1973, p. 95) e é o que normalment e nos vem à men-t e quando enconmen-t ramos o men-t ermo “ diálogo”.
Para Bakht in (1986), cont udo, as vozes de múlt iplos f alant es ent ram em cont at o num nível de diálogo colet ivo generalizado t ambém, e isso leva aos modos adicionais como as pa-l avras podem ser “ preen chi das com n u an ces dialógicas” (p. 102). A noção de diálogo cole-t ivo generalizado cole-t em a ver com modos como as enunciações podem ref let ir a voz de out ros, incluindo grupos int eiros, que não est ão f isi-cam en t e presen t es n a si t u ação i m edi at a de f ala.
Em seus t ext os, f ica claro que Bakht in (1986) t inha em ment e algo como essa dist in-ção. Ele via o diálogo como algo que vai des-de o diálogo primordial f ace a f ace do discur-so apresent ado acima, que se encaixa na cat e-goria de diálogo localizado, at é int ercâmbios cont ínuos, virt ualment e da sociedade t oda, que se encaixam na cat egoria de diálogo colet ivo generalizado. Um dest inat ário pode ser
[ ...] u m part i ci pan t e- i n t erl ocu t or i m edi at o em um diálogo cot idiano, um colet ivo dif e-renciado de especialist as em alguma área es-pecíf ica de comunicação cult ural, um público mais ou menos dif erenciado, um grupo ét ni-co, cont emporâneos, pessoas de mesma opi-nião, oposit ores e inimigos, um subordinado, um superior, alguém que est á abaixo, acima, que é f amiliar, est rangeiro e assim por dian-t e. E dian-t ambém pode ser um oudian-t ro indef inido, não concret izado. (Bakht in, 1986, p. 95)
R e c u r s o s t e x t u a is
d ia lo g ic a m e n t e o r g a n iz a d o s e m e m ó r ia c o le t iv a
A abordagem de memória colet iva aqui esboçada dá lugar cent ral à mediação semió-t ica. Ela dá imporsemió-t ância censemió-t ral especif
icamen-t e aos recursos icamen-t exicamen-t uais dialogicamenicamen-t e orga-nizados, conf orme concebidos por Bakht in. Por u m l ado, isso si gn i f i ca qu e a m em óri a n ão pode ser considerada equivalent e, ou reduzida, à mediação semiót ica isoladament e porque o p o l o d e t ex t o “ i n d i vi d u al , ú n i co e n ão repet ível” assegura um papel para um agent e at i vo em u m co n t ext o co n cret o . Po r o u t ro lado, porque “ met ade da palavra é do out ro” sempre, qualquer narrat iva do passado ref let e o s recu rso s o f ereci d o s p o r u m co n t ex t o sociocult ural mais amplo e, de acordo com a concepção dele, eles implicam a t endência à cont est ação, oposição e out ras f ormas de en-co n t r o d i al ó g i en-co . Den t re as f o r m as d e dialogismo sugeridas pela análise de Bakht in (1984), eu me f ocarei em uma em part icular e em suas implicações para a memória colet iva. Isso é o qu e el e den om i n ou “ di al ogi ci dade escondida”.
Imagine um diálogo de duas pessoas no qual as af i r m açõ es d o seg u n d o f al an t e sej am o m i t i d as, m as d e t al m o d o q u e o sen t i d o geral não seja nada violado. O segundo f a-lant e est á present e invisivelment e, suas pala-vras n ão est ão l á, m as os t raços prof u n dos deixados por essas palavras t êm uma inf lu-ência det erminant e em t odas as palavras pre-sen t es e vi sívei s d o p r i m ei ro f al an t e. Nó s sent imos que se t rat a de uma conversa, em-bora apenas uma pessoa est eja f alando, e é u ma con versa do t ipo mais in t enso, porqu e cada palavra enunciada, present e, responde e reage com t oda a sua f ibra ao f alant e invisí-vel, apont a para algo f ora de si própria, além de seus próprios limit es, para as palavras não dit as de out ra pessoa. (p. 197)
t ipo de dinâmica esboçada por Bakht in. Nesse caso, as duas vozes envolvidas f oram, de um l ado, as au t ori dades sovi ét i cas e a n arrat i va hist órica que elas produziram em inst it uições públicas t ais como escolas e, de out ro lado, as respost as produzidas pelos est onianos ét nicos em esf eras não públicas, t ais como as f amílias e os grupos de pares.
Tais respostas se fundamentaram em gran-de medida em observações signif icat ivas pessoais de indivíduos, mas elas foram moldadas por recur-sos t ext uais of erecidos pela cult ura de resist ência na qual eles viveram. Especificamente, os recursos textuais que eles compartilharam foram largamen-t e organizados em largamen-t orno de um esf orço para re-f ut ar a narrat iva soviét ica ore-f icial. Essa t endência f oi t ão cent ral que a memória colet iva não of ici-al consist iu de pouco mais que cont ranarrat ivas cuja f orça mot riz f oi a necessidade de ref ut ar as narrat ivas of iciais do passado.
Esse caso ilust ra vários dos pont os discu-t idos acima sobre memória colediscu-t iva. Primeiro, ele revela um t ipo de dinamismo, algo que é ainda mais impressionant e quando se conside-ra que ele exist iu num cont ext o em que as au-t oridades esau-t aau-t ais au-t enau-t avam eliminar a resisau-t ên-cia e a cont est ação. Segundo, esse dinamismo não é algo que pode ser reduzido a processos i n di vi du ais. Ao con t rári o, havi a consist ên ci a ent re os membros da comunidade mnemônica est oniana em sua narrat iva da hist ória não of i-cial, algo que apont a para os recursos t ext uais compart ilhados que ajudaram a const it uir essa comunidade de resist ência. E t erceiro, o dina-mismo envolvido no diálogo escondido ent re a hist ória of icial e a não of icial t ornou- se possí-vel, ou melhor, f oi quase const ruído com os re-cursos semiót icos empregados. O “ sist ema de lin-guagem” bakht iniano que f oi envolvido incluiu element os repet idos e reproduzíveis, mas eles f o-ram muit o além da organização go-ramat ical e in-troduziram vozes politicamente situadas que con-vidaram à resist ência, à ref ut ação e a out ras f or-mas de encont ro dialógico.
Uma caract eríst ica f inal das f ormas de mediação semiót ica envolvidas nesse episódio
de memória colet iva é que elas operaram de uma maneira largament e inconscient e. Em t al cont ext o, os indivíduos f requent ement e af ir-mam que eles est ão simplesment e relat ando “ o que realment e acont eceu.” Ou seja, eles presu-mem uma f orma de mediação semiót ica que reco n h ece a rel ação en t re o s si g n o s e u m mundo ref erencial de event os e objet os, mas desconsideram at é que grau os recursos t ext u-ais empregados são dialogicament e sit uados e moldados. O result ado é que nós f requent e-ment e deixamos de reconhecer at é que pont o a memória colet iva é f u n damen t almen t e u m processo polít ico que é moldado pelos recur-so s t ex t u ai s d i al ó g i co s em p reg ad o s. O di al ogism o escon di do é escon di do m esm o e pode l evar ao con f ron t o rígi do e i m pl acável quando ambas as part es apresent am o que elas honest ament e consideram ser as narrat ivas de “ o que realment e acont eceu”.
C o n c lu s ã o
Em resumo, as ideias bakht inianas sobre t ext o e dialogismo of erecem f errament as im-port ant es para t razer ordem ao caót ico e f rag-ment ado campo dos est udos da memória co-let iva. Embora a def inição de memória coco-let i-va nest e moment o ainda est eja por ser resol-vida, é possível obt er alguma compreensão do espect ro de opções, sit uando- se as discussões em t ermos do cont rast e ent re versões f ort es e dist ribuídas da memória colet iva.
129 Educação e Pesquisa, São Paulo, v.36, n. especial, p. 123-132, 2010
R e f e r ê n c ia s b ib lio g r á f ic a s
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Recebido em 27.08.09
Aprovado em 12.12.09