PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
PAULO CAPPELLETTI
CONVERSÃO E JUSTIÇA SOCIAL EM JOSÉ COMBLIN
CONVERSÃO E JUSTIÇA SOCIAL EM JOSÉ COMBLIN
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre.
Orientação: Prof. Dr. Jung Mo Sung
CONVERSÃO E JUSTIÇA SOCIAL EM JOSÉ COMBLIN
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre.
Orientação: Prof. Dr. Jung Mo Sung
Data da Defesa:___/___/____ Resultado:
Banca Examinadora:
Prof. Dr. Jung Mo Sung Orientador
Universidade Metodista de São Paulo
Prof. Dr. Lauri Emílio Wirth Membro Interno
Universidade Metodista de São Paulo
Prof. Dr. Ricardo Bitum Membro Externo
FICHA CATALOGRÁFICA
C 1 7 3 c
Cappelletti, Paulo
Conversão e Justiça Social no pensamento de José Comblin / Paulo Cappelletti -- São Bernardo do Campo, 2012.
146 fl.
Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Faculdade de Humanidades e Direito, Programa de Pós Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo Bibliografia
Orientação de: Jung Mo Sung
1. Teologia social 2. Comblin, José, 1923 – Crítica e interpretação
I. Título
Ao Deus da minha vida, pela sua bondade e misericórdia, que durante estes dois anos me animou para continuar e vivenciar uma experiência maravilhosa de voltar para academia.
Ao Professor Dr. Jung Mo Sung, pela sua paciência, amizade e pela forma que me conduziu nesta pesquisa se tornando mais que um mestre, um amigo para todas as horas.
Ao professor e amigo Dr. Geoval Jacinto da Silva pela motivação e apoio nos estágios para Docência.
Ao professor Dr. Lauri E. Wirth que com clareza ajudou-me na banca de qualificação, bem como na defesa de desta dissertação.
Ao Prof. Dr. Ricardo Bitun que com carinho aceitou estar na banca de defesa desta dissertação.
Aos professores da Pós-Graduação da UMESP que me entrevistaram no processo seletivo e me auxiliaram no desenvolvimento do projeto.
À minha família, Silvia esposa sempre auxiliadora em todos os momentos, Giovani filho amigo e professor, Maressa filha animadora, piedosa e mulher de oração, Fernanda filha sempre disposta a dividir as tarefas da casa para eu poder estudar, e ao meu filho Estêvão que já está nos braços de Jesus me aguardando, agradeço a família maior da minha casa pela motivação, ajuda e presença sempre marcante na minha vida.
À Keyth minha filha de longe, professora, disponível sempre que precisei, principalmente neste momento final ficou muito mais próxima. Às funcionárias da UMESP Regiane, (Secretária da Pós-Graduação) e Damares, (Secretária de meu orientador).
Aos amigos que deram sua colaboração lendo, questionando e ouvindo minhas reclamações, tais como: Fabio, Alex, Edna, Juliana, Sara e Rubens.
No presente estudo sobre o tema ―Conceito de Conversão e Justiça Social no
pensamento de José Comblin‖, procurei desenvolver o conceito do tema proposto. Esta
dissertação desenvolvida no Programa da Pós-Graduação em Ciências da Religião pertence
à linha de pesquisa ―Religião, Sociedade e Cultura‖. A metodologia adotada na coleta de dados foi de uma pesquisa bibliográfica. O questionamento que norteou a pesquisa foi: qual o conceito de conversão e justiça social no pensamento de José Comblin? Com as respostas obtidas foi possível desenvolver o primeiro capítulo com a biografia de José Julles Comblin juntamente com as pessoas que de alguma forma inspiraram e influenciaram sua carreira no Brasil e na América Latina. No segundo capítulo foi apresentado o conceito de Conversão para Comblin chegando a uma conclusão que a conversão é para o Reino de Deus e não para qualquer instituição religiosa. Já no terceiro capítulo foi apresentado o conceito de Justiça Social chegando a uma conclusão que justiça social acontece quando a sociedade se converte ao pobre com amor prático e não somente de palavras.
ABSTRACT
In the present study on the topic ―Concept of Conversion and Social Justice in the
thoughts of Joseph Comblin‖ I attempted to develop the concept of the theme proposed
above. This thesis, developed in the Graduate Program in Science of Religion belongs to
the ―Religion, Society and Culture‖ line of research. The methodology for data collection
was a bibliographical research. The question that guided the research was: what is the concept of conversion and social justice in the thought of Joseph Comblin? With the responses we developed the first chapter with Joseph Julles Comblin's biography along with people who somehow inspired and influenced his career in Brazil and in Latin America. In the second chapter Comblin's concept of conversion was presented; coming to a conclusion that a conversion is for the Kingdom of God and not for any religions institution. In the third chapter the concept of Social Justice was presented; coming to a conclusion that social justice happens when society becomes homeless with a practical love and not just words.
CAPÍTULO 1 - VIDA, OBRA E TEOLOGIA DE JOSÉ COMBLIN ... 17
1.1 Vida de José Julles Comblin ... 18
1.1.1 Obedecendo à vocação missionária ... 21
1.1.2 Ditadura Militar, CELAM e o caso Comblin ... 29
1.1.3 Vida no Chile, Ditadura e o ―Estado de segurança nacional‖ ... 32
1.1.4 Retorno ao Brasil, porém com restrições ... 37
1.2 Inspirado pelo Padre Ibiapina e ao lado de Dom Hélder Câmara ... 39
1.2.1 Padre José Antônio de Maria Ibiapina ... 40
1.2.2 Dom Hélder Pessoa Câmara ... 46
1.3 A Teologia da Enxada ... 51
CAPÍTULO 2 - CONVERSÃO AO REINO DE DEUS E NÃO À IGREJA ... 59
2.1 Definição de “Igreja” ... 59
2.1.1 Equívoco sobre a Igreja ... 60
2.1.2 O conceito de Igreja sob o ponto de vista da Cristologia ... 65
2.1.3 Definição de Igreja segundo Comblin ... 70
2.2 Reino de Deus ... 74
2.2.1 Vida como uma nova terminologia para o Reino ... 82
2.2.2 As características dos cidadãos do Reino de Deus ... 84
2.2.3 Os beneficiários do Reino (Vida) ... 87
2.3 A conversão como um processo para o Reino de Deus ... 89
2.3.1 Metodologia de Conversão ... 96
CAPÍTULO 3 - CONVERSÃO E A JUSTIÇA SOCIAL ... 98
3.1 Justiça: do Pecado para a Santidade ... 100
3.1.1 Pecado produz Injustiça ... 100
3.1.2 Violência ... 102
3.1.3 Insensibilidade humana ... 108
3.2 Santidade produz Justiça ... 111
3.2.1 A prática da Justiça através do amor ao próximo ... 113
3.2.2 Religião e Amor ... 116
3.2.3 Conversão, amor e justiça ... 119
3.2.4 O dizer não a Violência como fator de Justiça... 122
3.2.5 Paz como resultado da Justiça ... 128
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 132
INTRODUÇÃO
Na minha caminhada cristã e de ministério, a evangelização sempre teve um lugar importante nas minhas reflexões e práticas pastorais durante muito tempo. Porém, quando comecei um envolvimento pequeno com os excluídos da sociedade pude perceber através destes encontros, que os problemas dessas pessoas sobrepujavam ao Deus da minha
concepção ―cristã‖ pela qual tinha o maior zelo.
Assim, comecei a indagar-me sobre a possibilidade de existir algum pensamento diferente da aprendida no seminário e nas comunidades onde frequentei, mas os resultados dessas indagações foram indignação e incômodo, e isto despertou a necessidade de uma solução para esta crise de fé. Assim, essa jornada resultou na emancipação dos meus pensamentos. O início do processo ocorreu num encontro com uma jovem que estava acompanhando durante quatro anos. Quando a vi traficando pela primeira vez pensava em
algumas afirmações tais como: ―ela irá para o inferno; não tem ou nunca teve Jesus Cristo como Senhor e Salvador; não entendeu nada do que eu estava ensinando sobre a Bíblia; estava tirando vantagem de mim; uma completa perda de tempo; ela precisa se converter e sair dessa
vida fácil‖. Mediante a estas questões fui confrontá-la.
Todavia, depois de ter conversado com ela e apresentado um pensamento reducionista e opressor, a mesma me disse que havia entendido quem era Jesus e que desejava muito segui-lo, porém, não possuía condições de fazer isso naquele momento e disse-me que enquanto eu chegava ao meu lar e descansava, ela se abrigava debaixo de uma marquise; enquanto eu comia o meu jantar, ela esperava as sobras do restaurante que nem sempre chegavam; enquanto eu deitava na cama, ela se acomodava num papelão; enquanto eu comprava as roupas em qualquer loja, ela aguardava a oportunidade de roubar uma ou duas peças dos camelôs, comerciantes das ruas, do centro da cidade de São Paulo.
almas, resolvendo o problema do futuro, sem vínculo algum com as necessidades básicas das pessoas excluídas.
Logo procurei uma resposta para as minhas indagações. Posso dizer que se tratava de uma grande angustia, até que fui apresentado pelo Professor Dr. Jung Mo Sung aos pensamentos e escritos de José Julles Comblin, os quais me fizeram e fazem aprender
constantemente e me desafiaram a pesquisar sobre o assunto ―Conversão e Justiça Social‖.
Acredito que esse tema abrange infindas discussões, contudo, o autor propõe uma concepção de conversão vinculada à luta pela justiça social e com isso nos revela um conceito novo sobre conversão, que é aquela que nos introduz ao Reino de Deus, ou seja, conversão é para o Reino de Deus e não para eternidade, nem para Igreja ou para qualquer outra instituição religiosa.
O estudo nesta pesquisa procura abordar os conceitos de conversão e de justiça social segundo o pensamento de José Comblin.
Ele não escreveu nenhum livro específico sobre os assuntos abordados nesta dissertação e não definiu explicitamente nenhum desses conceitos, porém, perpassando por todos os seus pensamentos expostos em seus livros foi identificado o que ele entendia por esses conceitos, e, assim, esta pesquisa intenciona também fundamentar uma prática socialmente construída, visando contribuir para uma releitura da conversão e da vida humana para além do proselitismo.
No primeiro momento, esta pesquisa tem como objetivo escrever uma pequena biografia de José Comblin. Ele faleceu recentemente e ainda não há muitos estudos sistemáticos sobre sua obra, seus escritos e sua vida. Por isso, a parte sobre a sua biografia tem um caráter mais exploratório. A pesquisa sobre a vida do autor tem como finalidade identificar pistas de interpretação que nos mostrem como a sua biografia e seus conceitos de conversão e justiça social são interpenetráveis e perpassaram toda a sua vida.
enfatizará somente a dois gigantes da fé: José de Maria Ibiapina e Dom Hélder Câmara, os quais também morreram lutando pela conversão da sociedade para que esta pudesse ser fraterna, igualitária e justa.
O conceito de ―conversão‖ será trabalhado nesta dissertação partindo do pressuposto
de que há diversas noções sobre conversão, e o foco será na compreensão proposta por Comblin. Para ele na conversão o convertido não pode permanecer entre os muros de uma instituição religiosa, mas sim, deve introduzir-se no Reino de Deus, sabendo que o agir em prol do outro é de suma importância para a visualização e o desenvolvimento de uma sociedade diferente e alternativa, sendo mais justa e igualitária.
Assim, pode-se dizer que para Comblin conversão e proselitismo são pólos opostos e confundi-los é um ato de degradação do conceito de conversão, uma vez que o conceito de proselitismo baseia-se na mudança de um grupo para outro sem necessariamente significar uma mudança de comportamento e de valores morais. Ao confundirmos o convertido com o frequentador de instituições religiosas e o não convertido com aquele que está fora destas mesmas instituições, cometemos um grande erro, pois, desviamos o sentido de
―transformação existencial‖ e o empobrecemos a mera adesão de uma nova religião.
No entanto, pode-se afirmar que a conversão não é o processo que leva o homem a se tornar um frequentador da Igreja, mas o processo que o leva a pertencer ao Reino de Deus.
Em nossa cultura a palavra ―Reino‖ geralmente está atrelada a um sentido pejorativo, faz-se necessário então o uso de um novo termo, de acordo com o tipo de cultura dos interlocutores, como propõe Comblin:
―O quarto Evangelho substitui o reino pela vida, não deve dar a impressão de que se trata de uma doutrina mais ou menos secreta com palavras desconhecidas. Muito pelo contrário, o anúncio do Reino de Deus deve ser feito da maneira mais natural possível, com as palavras usadas na conversa habitual. Assim fez Jesus usando as palavras mais comuns no meio do seu
povo‖ 1.
No discurso dominante das igrejas cristãs, notou-se um reducionismo no conceito de conversão, que é visto somente um ato isolado na vida das pessoas, um negócio lucrativo, uma mudança de cunho somente moral, emocional, espiritual e separatista no mundo de hoje. Pode-se perceber em algumas instituições a forte ênfase nos cultos para levar a uma conversão superficial que leva a uma vida ―cristã‖ sem sentido e irreal, resumida à Igreja, ao
trabalho e ao isolamento familiar, levando o cristão à inércia, sem objetivos claros, sem exercício da justiça através de ações de auxílio aos desprivilegiados da sociedade. A conversão em algumas teologias protestantes, tal como, no pensamento de John Stott, leva-nos a um conceito traduzido em um ato imediato sem necessariamente mudanças profundas.
Etimologicamente, o termo conversão vem do grego ―metánoia‖, (meta+noe), tem o
significado de mudança, ser diferente, mudar de rumo, agir de maneira diversa. Implica em mudança de mentalidade, em assumir uma cosmovisão diferente, valores novos, postura ética de outro feitio e vertente. Postula mudança de rumo e de perspectiva feita de imediato.
Percebe-se que em John Stott a conversão é uma experiência imediata. Diz ele,
―O verbo grego, com frequência em contextos seculares e não teológicos do
NT, é utilizado para descrever a ação de alguém voltar-se de uma direção para outra ou voltar-se de um lugar para outro. Quando utilizado em
passagens mais técnicas e teológicas, o verbo tem o mesmo significado ―... e como se voltaram para Deus, deixando os ídolos...‖(1 Ts. 1.9), ―pois vocês
eram como ovelhas desgarradas, mas agora se converteram ao pastor e bispo
de suas almas‖ (I Pe. 2.25)2.
Segundo Wayne Grudem conversão é:
―nossa resposta espontânea ao chamado do evangelho, pela qual
sinceramente nos arrependemos dos nossos pecados e colocamos a confiança em Cristo para receber a salvação. A palavra conversão significa ―volta‖- aqui ela representa uma volta espiritual, voltar se do pecado para Cristo. O
voltar-se do pecado é chamado ao arrependimento e o voltar-se para Cristo é
chamado fé‖3.
Para os autores acima pode-se notar que a conversão está no âmbito somente espiritual e moral para a salvação eterna e definitiva, pois é uma ação que acontece de uma vez por todas na vida da pessoa, mostrando assim uma transformação imediata.
Tais fatos foram mencionados somente para deixar claro o pensamento de algumas vertentes, reduzindo a conversão em um ato e não em um início de processo com atuações para o reino de Deus e somente no âmbito espiritual e moral sem atuação na sociedade.
No pensamento de Comblin percebe-se outra proposta que vai além das apresentadas e exemplificadas por meio das citações de Grudem e Stott. Quando Comblin trata da Igreja na sociedade e do ser humano, leva-nos a pensar em uma conversão processual que se dá no amor e no conhecer a Deus, sendo este conhecer um processo que acontece no agir em relação ao outro.
Na medida em que a pessoa ama a Deus e o conhece, agirá concretamente pelo amor ao outro e particularmente com o pobre, o marginalizado e o rejeitado através do serviço, ou seja, a conversão necessariamente nos leva à luta contra injustiça.
―De acordo com o evangelho, o encontro com Deus realiza-se no encontro com o homem, de modo particular no encontro com o outro, com o pobre, com o marginalizado, com o rejeitado. Se é verdade que o cristianismo, como todas as religiões, inclui uma caminhada de reconhecimento de Deus pela interioridade ou pela experiência da natureza, é mais verdade o fato de que é mais específico do evangelho a experiência de Deus na aproximação com o outro. O que Jesus ensina é o encontro com Deus não pela mente ou
por atitudes interiores, e sim pelo agir concreto, pelo amor que é serviço‖4.
3 GRUDEM Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, pg. 592.
No que diz respeito à Justiça Social pretendemos ampliar a nossa visão sobre o conceito. Entendemos que não se trata apenas da representação de uma função das políticas públicas, mas sim, de um termo amplo e complexo que sempre esteve sujeito ao jogo de poder e das influências sociais historicamente determinadas por diversas ideologias. Tal justiça na contemporaneidade é muito influenciada pelo Neoliberalismo, dividindo a sociedade em dois blocos distintos: consumidores e sobrantes (pobres). Apesar de Comblin não definir a palavra justiça social, percebe-se que o conceito perpassa pelos seus escritos e, assim, propõe que a Justiça Social seja implantada nas micro-sociedades para alcançar a totalidade, vinculando-se aos pobres, que segundo o autor são os articuladores das mudanças sociais necessárias para uma sociedade mais igualitária.
Compreendemos juntamente com Comblin, portanto, que uma vez que os cristãos fazem parte da sociedade podem se tornar capazes de contribuir com a justiça social de forma ativa e comprometida, a partir de uma compreensão clara da implicação da conversão em suas vidas.
Comblin declara que: ―a igreja está a serviço do mundo e não pode sair dele5.” Os cristãos não deveriam se alienar e simplesmente fechar os olhos para a realidade que lhes está patente, como a injustiça social.
Conversão e Justiça Social no pensamento de Comblin devem levar-nos a compreender que a missão da igreja de Jesus Cristo e de cada indivíduo que a proclama e vive não é falar para si, contemplar a si e nem ouvir a si mesmo, mas participar na transformação das realidades sociais e históricas das pessoas que sofrem, principalmente das excluídas da sociedade.
5 COMBLIN, José. Cristãos Rumo ao século XXI. Nova Caminhada de Libertação. São Paulo: Paulus Editora
Além de desenvolver um novo meio de anunciar o evangelho, precisamos viver nesta sociedade trazendo vida, ou seja, o Reino de Deus. Isto consiste em comprometer-se na luta pela justiça social.
Percebe-se juntamente com Comblin que por mais que seja discutido o conceito de Justiça Social acaba não sendo compreendido e a prática de Justiça nas instituições religiosas se configura através da departamentalização e resumida aos bazares beneficentes, às organizações assistencialistas, o que não viabiliza mudanças significativas nas situações sociais e econômicas das pessoas. Resume-se a apelos intermináveis para ―uma ajuda às pessoas carentes‖, que não proporciona uma emancipação de vida caso não haja envolvimento do público chamado ―cristão‖. Com isso, a noção de Justiça Social é colocada para fora dos muros das igrejas.
Portanto, os conceitos de conversão e Justiça Social propostas por esta dissertação, através do estudo do pensamento de Comblin, indicarão uma direção diferente da compreensão das igrejas que reduzem a conversão a uma experiência imediata, individual e de encerramento dentro dos muros da instituição religiosa. O estudo do pensamento de Comblin tem a finalidade de obter outro modo de refletir/dialogar com a vida cristã e com as práticas pastorais, missionais e educacionais das instituições religiosas.
A pesquisa bibliográfica foi adotada como metodologia para a realização desta
pesquisa. Dentre as obras de José Comblin, as seguintes são destacadas: ―A vida: Em busca de liberdade‖, ―Vive a esperança dos pobres‖ e ―O Caminho um ensaio para o seguimento de Jesus‖. Outros autores serão citados nesta pesquisa em diálogo com José Comblin,
objetivando questionar, afirmar e concretizar os conceitos apontados.
CAPÍTULO 1
VIDA, OBRA E TEOLOGIA DE JOSÉ COMBLIN
Este capítulo tem como objetivo apresentar uma visão geral da vida e do pensamento de José Comblin, dando prioridade ao período posterior aos anos 60, pois foi o tempo em que sua influência tomou lugar na história da igreja do hemisfério sul. Comblin participou do desenvolvimento de uma teologia especificamente latino-americana conhecida como Teologia da Libertação, mas sempre o fez a sua maneira. Trabalhou por anos, principalmente em dioceses rurais com o arcebispo Dom Hélder Câmara, de Recife, com o arcebispo Dom José Maria Pires6, da Paraíba, Manuel Gonzalez, no Chile, e Leônidas Proaño7, no Equador. Nestes trabalhos, surgiu uma teologia chamada Teologia da Enxada. A vida deste profeta foi lutar pelos pobres e uma das ferramentas para sua profecia foi a escrita, que resultou na publicação de mais de 60 livros e 300 artigos de vários gêneros.
Este capítulo está dividido em três partes: na primeira apresentar-se-á rapidamente uma visão geral da vida de Comblin. Na segunda parte abordar-se-á suscintamente a vida e obra do Padre Ibiapina e de Dom Hélder Câmara, duas pessoas que inspiraram e influenciaram profundamente a vida de Comblin. Veremos alguns dos pensamentos destes
6Dom José Maria Pires, Arcebispo católico brasileiro,nasceu em Córrego, estado de Minas Gerais, em 1919.
Ordenou-se presbítero em Diamantina, MG, em 1941, e Bispo em 1957. Cursou Filosofia e Teologia também em Diamantina, foi professor, pároco, diretor de colégio. Atuou como missionário de 1942 a 1957, como Bispo diocesano de Araçai de 1957 a 1965. Atualmente Arcebispo metropolitano da Paraíba desde 1966. Uma das
obras mais conhecidas de Pires é ―Do centro para a margem‖.
7Leônidas Proãno Villalba Eduardo nasceu em 1910, em San Antonio de Ibarra, no Equador. Foi sacerdote e
autores, seu modo de viver o ministério, e ocasionalmente algumas de suas obras. Na terceira e última parte, tratar-se-á da chamada Teologia da Enxada, sua caracterização e as ideias que a norteiam. Com a construção da biografia de Comblin e a discussão de algumas de suas obras e sua teologia próxima da população carente e rural quer abordar a relação entre sua vida e as noções de conversão e Justiça Social.
1.1 Vida de José Julles Comblin
Nascido em Bruxelas, em 1923, Joseph Julles Comblin, conhecido como padre José, cresceu em uma família de classe média. Mais velho de três irmãos e duas irmãs, seus pais, Alice e Firmino criaram os cinco filhos com os tradicionais valores da religião, da austeridade da época valorizando sempre o trabalho. Desde muito jovem seus talentos intelectuais chamaram a atenção de familiares e educadores. Quando provavelmente com a idade de 16 ou 17 anos, ele disse a um tio, que era padre, que queria ser missionário, este respondeu
prontamente: ―Missionário não, você é inteligente demais‖. Professor, isso sim, professor na universidade de Lovaina!8‖. Porém, o tio não sabia que o sobrinho extrapolaria seus
pensamentos como mestre e missionário. Após o Ensino Médio, Comblin entrou no Seminário Leão XIII, em Lovaina (Bélgica), e fez estudos de Ciências Biológicas, Filosofia e Teologia para ser padre diocesano. Estudou de 1940 a 1950, tornando-se Doutor em Teologia. Teve professores, como Lucien Cerfaux9, Roger Aubert10, historiador da igreja, e teólogos
8 HOORNAERT, Eduardo, O que José Comblin nos contou em 2007.
http://www.adital.com.br/hotsite_ecumenismo/noticia.asp?lang=PT&cod=55274, acessado em 25.01.2012.
9Lucien Cerfaux (1883-1968), Teólogo e biblicista católico fracês, Professor na Universidade de Lovaina e
autor de Le Christ dans la theologie de saint Paul, Le Chrétien dans la theologie paulinienne, la théologie de peglise suivant Sanit Paul, além de comentários e artigos sobre tema bíblicos em publicações especializadas.
10Roger Aubert, teólogo católico nascido em 1914, em Ixelles-Bruxelas. Foi ordenado em 1938. Frequentou a
Universidade de Lovaina. Tem os títulos de Doutor em Histórico-filosóficas, (1933), Doutor em teologia, (1942); é também doutor honoris causas pela Universidade de Nimega e pela Universidade do Sagrado Coração, de Milão. É professor de História Eclesiástica na Universidade de Lovaina desde 1952, e diretor da Revue
d‘histoire Ecclésiastique e do Dictionaire d‘historie el de Géographie Ecclésiastiques. As principais publicações de Aubert são: Le pontificat de pie IX, nova. Ed, aumentada, tomo XXI da Historie de I‘Eglise des origenes jusqu‘è nos jours Paris 1964, e Vatican I, Vol XII da Historie des Conciles nas revistas: Revue belge de
philologie et d‘historie, Catholic Historical Review; Rivista di Storia della Chiesa in Italia e no Lexikon für
como Gustave Thils11, que propôs a necessidade de uma teologia de ―realidades terrenas‖, e
Dom Gerard Phillips12, todos os quais desempenharam papéis significativos na vida acadêmica de Comblin e no Concílio Vaticano II13. Com a sua divisão francófonos da Valónia14, a Bélgica é um ponto de encontro entre o norte e o sul da Europa, o que pode ajudar a explicar porque Comblin aborda questões a partir de uma variedade de perspectivas, sem absolutizar qualquer uma das questões.
Após completar seus estudos, Comblin desenvolveu uma dissertação com o título:
―A liturgia no livro do Apocalipse‖. Começou a trabalhar como vigário cooperador em uma paróquia chamada Sagrado Coração de Jesus, em Bruxelas. Seus deveres eram relativamente rotineiros e exigia-se pouco do pensador que iria nascer, de maneira que logo Comblin
11 Gustave Thils estudou em Mechelen, em 1928, Lovaina, em 1929, em 1931 recebeu a sagrada
ordenação. Em 1935 terminou seu doutorado em teologia e foi habilitado em 1937; foi professor no seminário de Malines e Louvain em 1945. A partir de 1947 lecionou como professor de teologia fundamental e recebeu o ensino sobre ascetismo. Thils trabalhou particularmente ascético sobre eclesiologia questões e ecumenismo. Desde 1960, foi membro do Secretariado. Quando surge o Vaticano I, ele foi considerado Peritus.
12Gerard Philps Nasceu em 1899 e morreu em 1972. Teólogo católico francês. Nasceu em Suit Truiden. Foi
ordenado em 1922, em Liège. Frequentou a Universidade Gregoria, em Roma. Philps obteve o diploma de Professor agregado de Teologia, em 1925. Exerceu as seguintes funções: professor de Filosofia no Seminário Menor S. Erond, em 1925; professor de teologia dogmática no Seminário Maior de Liège, em 1927; professor de
Dogmática Especial, na Universidade de Lovaina, em 1942, Publicações: La Raison d‘être du mal d‘aprês St.
Augustin, 1926, De Heilige Kirk, 1946; DeLeik in de Kirk, 1951. Sua obra mais importante é o tratado em dois
volumes intitulado ―L‘Eglesie el son mystère au II Concile du Vatican‖, onde ele apresenta uma síntese da
eclesiologia da comissão teológica Internacional. Philps atuou ainda como membro no Sínodo Extraordinário de Bispos, em 1969.
13 O
Concílio Vaticano II foi anunciado por João XXIII, em 25 de janeiro de 1959. Ele Comportou quatro sessões, com duração de dois a três meses cada uma. Inaugurado em 11 de outubro de 1962, por João XXIII, o Concílio foi concluído em 8 de dezembro de 1965, sob o pontificado de Paulo VI. No discurso de abertura, João XXIII advertiu contra a tentação integrista e contra as condenações, convidando, antes, para a união e para uma ótica pastoral. Em face ao ritmo acelerado das mudanças sociais e da necessidade de reconstituir a unidade entre os cristãos, João XXIII tomou a decisão irreversível de um grande concílio ecumênico. Era preciso agir com rapidez. Era hora de a Igreja sair do seu mutismo de velha dama, para poder falar aos homens de nosso tempo, com objetivo de servi-los e conduzi-los a Cristo. O Vaticano II é inquestionavelmente a mais ampla obra de reforma jamais realizada na igreja, não somente pelo número de padres conciliares e pela unanimidade das votações, que muitas vezes bateu todos os recordes, mas sobre tudo devido à amplitude dos temas tratados.
14 A Bélgica divide-se entre os falantes de língua neerlandesa, no Flandres, no norte do país, e os francófonos, na
começou a ensinar teologia no Centro de Formação para Seminaristas, em Serviço Militar (CIBI), de 1950 a 195815.
Após o doutorado, Comblin levou um tempo para publicar seu primeiro livro, ―A
Ressurreição16‖. Este período foi um prenúncio do pensador e escritor que estava por vir, porém o livro somente foi publicado quando Comblin estava no Brasil, em 1959. Como outros escritores da época, incluindo Durrwell17, a quem cita, Comblin procurava expor a centralidade da ressurreição nas escrituras, depois de séculos de ênfase na paixão. No entanto, vai além de uma sistematização dos dados bíblicos, e reflete as implicações da ressurreição à sociedade humana de uma maneira que não era comum entre os teólogos da época.
Comblin sentia-se cada vez mais sufocado pela atmosfera extremamente ―católica‖ da Bélgica, com suas próprias instituições, escolas, hospitais, jornais, sindicatos, partidos políticos, destinadas a proteger as pessoas do mundo moderno. A igreja não percebeu que estava sem contato com a vida moderna. Comblin desabafava as suas frustações a respeito da instituição: ―Cheguei à conclusão de que na Europa a igreja não tem mais futuro‖;―Não quero perder a minha vida assistindo a uma decadência impotente sem remédio18.‖ Assim, quando o Vaticano, na voz do papa Pio XII19 - que tinha um grande temor do comunismo porque estava
15 FRANÇA, de Tiago. Padre José Comblin: profeta da Igreja.
http://teologiaelibertacao.blogspot.com/2011/03/padre-jose-comblin-profeta-da-igreja.html acessado em 15.01.2012.
16 Este livro foi traduzido em diversos idiomas. Eis algumas referências bibliográficas desta obra traduzida para
diferentes idiomas: La Résurrection de Jesús-Christ. Paris: Ed. Universitaires, 1959, pg. 216; Hij is verrezen. La Haye: Pax, 1961, pg. 204; La risurrezione di Gesucristo. Roma: Ed. Paoline, 1961, pg. 253; Der Auferstandene. Graz: Styria, 1962, pg.253; La resurrección de Jesucristo. Buenos Aires: Carlos Lohle, 1962, pg.196; Ressurreição. São Paulo: Herder, 1965, pg. 159; The Resurrection in the Plan of Salvation. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1966, pg.176.
17François-Xavier Durrwell nasceu em 26 de Janeiro de 1912, na França, e morreu em 15 de outubro de 2005
no mesmo país. Foi redentorista, autor de vários livros e lecionou em várias escolas de renome internacional, tais como: Sousceyrac, Echternach, Instituto Lumen Vitae de Bruxelas e Centro de Pedagogia Religiosa da Universidade de Metz, em Lorena, França.
18 BAZAGLIA, Paulo (Org.). A esperança dos pobres vive. São Paulo: Paulus Editora, 2003, pg. 722.
19Papa Pio XII: Papa da Igreja, nasceu em Roma. Seu nome era Eugênio Maria José Pacelli, e desde a idade
convencido de que esse regime iria invadir toda a América Latina e governava a igreja como um monarca do antigo regime20- fez um apelo aos padres e irmãs para deixarem a Europa em direção à Africa ou América Latina e Comblin aceito o desafio. Acredita-se que Comblin teve uma decisão genuína: a de entrar no seminário e sacerdócio.Parece que foi a primeira decisão que fez em sua vida. Posteriormente, após completar 60 anos de idade Comblin traz à tona as suas impressões sobre como entendia o poder da igreja na Europa, em uma entrevista em 2011:
―Eu estava muito consciente do movimento de descristianização da Europa, que hoje já está quase completo. Os sinais já eram claros naquele tempo. A Igreja estava no governo da maioria dos países, havia uma democracia cristã,
escolas poderosas, organizações, sindicatos… Mas faltava fé! Como passar a
vida toda assistindo uma decadência?21‖
Aos 35 anos de idade se nota a inquietação de Comblin para servir em outro país que tivesse sinais claros da fé cristã, além do discernimento em relação ao futuro da Europa, fato que apenas um profeta seria capaz de constatar.
1.1.1 Obedecendo à vocação missionária
Em 1958, Comblin chegou ao Brasil acompanhado por mais dois colegas belgas22, a pedido do arcebispo de Campinas, Dom Paulo de Tarso23, ao Vaticano, por três sacerdotes
louvores dos mestres e excedeu em brilho todos os condiscíplulos. Conhecendo por inspiração de Deus que era chamado ao sacerdócio, foi nomeado para a Sagrada Congregação dos Negócios Extraordinários, distinguiu-se tão rapidamente no desempenho das funções, que poucos anos depois se tornou secretário da mesma congregação. Após a morte de Pio XI, Pacelli assumiu às alturas do Sumo Pontíficado; e assim morreu em 1958.
20 BAZAGLIA, Paulo (Org.). A esperança dos pobres vive. São Paulo: Paulus Editora, 2003, pg. 721.
21 Entrevista para Unisinos: Pe. Comblin e a Teologia da Enxada,
http://mais.uol.com.br/view/77gsd7cnudte/pe-comblin-e-a-teologia-da-enxada-entrevista-04024D9B3668C0810326?types=A&, acessado em 18.01.2012.
22 Pe. Michel Schooyans e o Pe. Laga.
23 Dom Paulo de Tarso Campos: Nasceu em 24 de Setembro de 1895, em Jaú. Formou-se sacerdote no
com doutorado devido à necessidade do Brasil. No entanto, ao chegarem descobriram que o arcebispo não tinha atribuições claras para os sacerdotes recem chegados. Somente depois de 30 anos Comblin descobriu o intento do arcebispo, como declara em uma entrevista para Unisinos:
―Eu só soube a explicação 30 anos depois. O bispo não estava satisfeito com o reitor da Universidade Católica. O reitor administrava a universidade como um negócio e não tinha lá nenhuma pessoa para substituí-lo e aí foi pedir lá fora. O reitor logo entendeu e criou todo um movimento de resistência e queria defender sua posição. Então, o bispo viu que o reitor tinha uma força
social muito grande‖24.
Comblin acabou dando aulas de Física e Química para o ensino médio e preparando semináristas no Seminário Menor25. Foi também assistente diocesano da JOC, (Juventude Operária Católica). Sua assessoria e seu apoio trouxeram resultados fundamentais para o futuro da organização, a ponto de ser uma resistência para o Regime Militar. Segundo Kenneth Serbin26, ―a JOC tornou-se uma das mais radicais organizações na Igreja brasileira27‖. Uma de suas canções, composta em 1967, intitulada ―Meu Brasil analfabeto‖,
Marcondes Homem de Mello. De 1923 a 1928, exerceu o magistério no Seminário Provincial de São Paulo, seguindo depois para Lovaina na Bélgica. No dia 1 de junho de 1935 foi nomeado pelo Papa Pio XI como Bispo da Diocese de Santos, recebendo a ordenação em 14 de junho de 1935, na Igreja Santa Cecília, em São Paulo. De Dom Duarte Leopoldo e Silva. Em 17 de dezembro de 1941, após a morte de Dom Francisco de Campos Barreto, foi nomeado Bispo de Campinas, tomando posse no dia 1 de março de 1942. Trabalhou pela criação da Diocese de Piracicaba, reajustando seus limites territoriais; construiu novos prédios para a Residência Episcopal, Curia, Centro de Pastoral Pio XII e reformou a Catedral. Incentivou a ampliação de Faculdades na Universidade Católica, incorporou o Colégio Pio XII à Universidade, reorganizou as Vigararias e a Imprensa, organizou a Cruzada das Senhoras Católicas com várias obras assistenciais e criou o Museu Arquidiocesano, em 1964. Em 27 de setembro de 1968 renunciou ao bispado por motivos de saúde, muito embora mantivesse a lucidez. Faleceu em 2 de março de 1970. Foi sepultado na cripta da Catedral Metropolitana de Campinas.
24 Entrevista para Unisinos, Pe Comblin e a teologia da enxada,
http://mais.uol.com.br/view/77gsd7cnudte/pe-comblin-e-a-teologia-da-enxada-entrevista-04024D9B3668C0810326?types=A&, acessado 15.01.2012 .
25 É o lugar onde os seminaristas católicos que irão ser ordenados sacerdotes para a Igreja Católica fazem os
primeiros anos de formação. Normalmente o seminarista passa entre dois e quatro anos no Seminário Menor depois, entra na segunda etapa da formação que é o Seminário Maior, onde conclui os estudos de filosofia e teologia.
26
SERBIN, Kenneth. Diálogos na Sombra. Bispos e Militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo: Cia. das Letras, 2001, pg. 155.
convoca ―toda a gente para fazer revolução‖.No ano seguinte, alguns jocistas participaram de importantes greves contra o regime em Contagem, MG, e Osasco, SP.
Em 1960, no Governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira28com o Slogan ―Crescer cinquenta anos em cinco‖, o Brasil estava em um período de crescimento e otimismo para o futuro, simbolizado pela construção da capital futurista, Brasília. Mesmo morando em Campinas Comblin tornou-se professor da Escola Teológica dos Dominicanos, em São Paulo, tendo como alunosfrades notáveis na história brasileira como Frei Betto29 e Frei Tito Alencar Lima30, este torturado barbaramente nos cárceres da ditadura militar brasileira, o que o levou à depressão e ao suicídio na França31. Na história desses homens pode-se ver a influência e a persistência dos ensinos de Comblin. O incansável Padre José permaneceu nessas viagens Campinas/São Paulo/Campinas até 1962, na época em que tomava medidas para sair de
28Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu em Diamantina, MG, em 12 de setembro de 1902. Estudou no
seminário de Diamantina, cursou medicina em Belo Horizonte e custeou os estudos, concluídos em 1927, com os vencimentos de telegrafista do serviço público, cargo no qual ingressou por concurso em 1921. Frequentou em Paris o curso de cirurgia, fez estágio em Berlim em 1930. De regresso a Minas Gerais, casou-se com Sara Lemos, em 1931. Nomeado capitão-médico da polícia mineira, chefiou o hospital de sangue de Passa Quatro, e distinguiu-se como cirurgião durante a revolução de 1932. Em 1940 foi nomeado prefeito de Belo Horizonte, deputado federal em 1946, governador de Minas Gerais em 1950, em novembro de 1955, assumiu a presidência da República, com o propósito de realizar um vasto programa de desenvolvimento. Morre em um acidente de carro, em 1976.
29 Carlos Alberto Libânio Christo
, conhecido como Frei Beto, nasceu no ano de 1944, em Belo Horizonte, MG. Atuou como líder da oposição contra o regime militar, e organizador das comunidades de base e de programa de educação popular. Autor de mais de 13 livros, é conhecido principalmente por suas conferências e o livro Fidel e a Religião que mostraram uma perspectiva nova sobre a relação cristã e a teologia da libertação desde meados da década dos anos 70 até finais da próxima. Algumas obras de Frei Beto, em português: Entre todos os homens, Batismo de sangue e o desafio ético.
30 Tito de Alencar Lima, também conhecido como Frei Tito, nasceu em Fortaleza e estudou no Liceu do
Ceará. Assumiu a direção da juventude Estudantil Católica em 1963 e foi morar em Recife. Ingressou no noviciado dos dominicanos em Belo Horizonte em 1966 e fez a profissão dos votos no ano seguinte, mudando-se então para São Paulo para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo. Em outubro de 1968, Frei Tito foi preso por participar de um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna. Foi fichado pela polícia e tornou-se alvo de perseguição da repressão militar. No dia 4 de novembro de 1969, foi preso juntamente com outros dominicanos pelo Delegado Fleury, do DOPS. Durante cerca de trinta dias sofreu torturas nas dependências deste órgão, de onde foi levado para o Presídio Tiradentes.
31BINGEMER, Maria Clara. José Comblin: o legado de um profeta.
Campinas, quando Marcos McGrath32, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica no Chile convidou-o para ser professor. Ao chegar a Santiago, McGrath foi nomeado bispo em seu país, Panamá. Neste momento, Comblin estava isolado em um ambiente conservador ainda não afetado pela fermentação teológica. Seus anos no Chile coincidiram com os do Concílio Vaticano II.
Durante estes primeiros anos no Brasil e no Chile, Comblin encontrou sua voz teológica e profética voltada para os pobres e injustiçados. Começou a publicar mais, em alguns casos, completar o trabalho que tinha começado na Bélgica. Em resposta a um pedido do Arcebispo Suenens33, no contexto da Guerra Fria dos anos 50, começou a reunir materiais, artigos e desenvolveu um estudo relevante em dois volumes para uma teologia da paz34. Em outro trabalho, entre 1960 a 1963, examinou e escreveu sobre as contradições da Ação Católica35. Seus escritos publicados quase sempre são respostas à alguma pergunta pastoral, e muitas vezes, trata-se de respostas dadas a seus companheiros,sem perder, no entanto, eficácia, contundência e a similaridade com os dias atuais. Sua metodologia consistia em forjar a teologia a partir da vida concreta e prática para com os pobres, seu trabalho, mística, alegria e bom humor.
32
Arcebispo católico romano, McGrath serviu como arcebispo do Panamá a partir de 05 de fevereiro de 1969 até sua aposentadoria, em 18 de abril de 1994. Nasceu no Panamá, em 1964; fez seus estudos superiores no Chile e Estados Unidos. Recebeu a ordenação presbiterial em 1949. Como membro da Congregação de Santa Cruz, foi eleito bispo titular de Ceciri, em 1961. Ocupou a sede diocesana de Santiago de Veraguas em 1964. Foi promovido a arcebispo em 1969, ocupando a sede metropolitana do Panamá. Foi presidente da Conferência Episcopal do Panamá. Em 1966, foi vice-presidente do CELAM. Participou da Comissão Teológica do Concílio Vaticano II.
33
Leo-Jozef Suenens, cardeal belga da Igreja Romana, nasceu em Ixelles, em 1904. Foi ordenado presbítero em
1927 e bispo em 1945. A partir de 1961 ocupou a sede metropolitana de Michelen-Brussel, a que renunciou em 1979. Foi feito cardeal por João XXIII em 1962. Suenens tentou implementar reformas e influenciar a Igreja a aceitar a sua interpretação liberal do chamado "espírito conciliar", tornando-se assim num crítico da Cúria Romana e da encíclica papal Humanae Vitae, que proibiu a contracepção por meios artificiais (ex: a pílula). Além das críticas, ele foi um grande defensor do Ecumenismo e do diálogo e adaptação da Igreja ao mundo moderno. Os seus contributos para o desenvolvimento da Renovação Carismática Católica valeram-lhe o Prêmio Templeton, em 1976. É autor de várias obras, inclusive já traduzidas para o português, como A co-responsabilidade da Igreja de hoje, datada de 1970.
34Théologie de la Paix. Paris: Ed. Universitaires, vol. 1, 1960, vol. 2, 1963.
Comblin afirma que veio para a América Latina a uma igreja com um futuro, não pelas razões que normalmente foram dadas, ou seja, para ―salva-la‖ do comunismo ou do protestantismo. Em um ensaio notável sobre ―A vocação cristã do Brasil‖, de 1961, ele fez a afirmação contra-intuitiva de que o Brasil, longe de ser fraco e precisar de ajuda externa, fora chamado para assumir um papel de liderança na evangelização dos povos não europeus. A missão europeia para culturas não cristãs falhou, pois eles estavam dispostos a aceitar os avanços materiais do Ocidente, e não a sua espiritualidade. Apesar de o Brasil ser o maior país católico do mundo, possuíaalgo que a Europa havia perdido, ainda é um povo cristão e sua riqueza é a fé dos pobres. Infelizmente, as elites brasileiras, com seu senso de inferioridade, aceitaram uma definição europeia de seus próprios problemas, especialmente a
―escassez de clero36‖. Os brasileiros precisavam da ousadia para aceitar a sua vocação, independentemente dos méritos de seu argumento. É impressionante que há quase 50 anos sua análise tenha sido tão contrária à opinião de quea Igreja latino-americana é fraca e precisa de ajuda dos ―desenvolvidos‖, fato que afirmou corajosamente.
Em 1962, a fim de ajudar os bispos chilenos, superar seu isolamento e se preparar teológicamente para o Vaticano II, Comblin escreveu uma breve apresentação das três décadas anteriores da teologia europeia. Algumas das teologias estão mais relacionadas a um retorno às fontes, (teologia da pregação, a teologia querigmática, a teologia pastoral), enquanto outras tomam como ponto de partida as aspirações do homem contemporâneo, (teologia existencial, teologias da história, realidades terrenas, os leigos). Todas têm em comum mover-se por um ―despertarevangélico‖.
O tema escolhido por Comblin para este artigo da revisão teológica, intitulado ―Em direção a uma teologia da ação‖, era um tanto incomum e significativo. Entre os muitos tipos de teologia católica (bíblica, litúrgica e pastoral), em meados do século XX, discerniu algo que seria difícil de demonstrar a qualquer um dos teólogos, já que eles apontavam em direção
a uma teologia da ―ação humana37‖ total. Esta noção de ―ação‖, incipiente na época, é uma motivação na obra de Comblin, embora não esteja escrito de maneira sistemática. Para Comblin o papel dos teólogos não é simplesmente apresentar ou elaborar uma doutrina definida ou sistematizar os dados bíblicos, nem fornecer princípios a serem aplicados pastoralmente. Comblin assume que a ação humana tem uma prioridade sobre o trabalho intelectual, incluindo a teologia. Esta se tornou uma noção familiar, desde que foi articulada por Gustavo Gutiérrez38, alguns anos depois, e assim, a teologia foi considerada o ―segundo
ato‖ 39.
Comblin explica essa noção em dois sentidos. No sentido mais óbvio, a teologia se relaciona com a atividade pastoral para desenhar as suas questões a partir de situações pastorais e modestamente oferecer ajuda. Sua própria opção por fazer a maioria de seus
37
Ação humana porque é feita por um ser humano e orientada para o seu bem. Ela tem uma finalidade que só pode ser percebida pela inteligência humana. A ação de um animal pertence ao mundo dos instintos, dos mecanismos inconscientes, não inteligentes nem livres. Nisso difere da prática que é uma ação humana livre, consciente e, portanto, carregada de inteligência dentro dela. E a ciência, que, por excelência, no nível de racionalidade, oferece inteligência às práticas. E quando queremos ir mais longe e alcançar o significado transcendente de uma prática necessitamos da teologia.
38
Gustavo Gutiérrez Merino nasceu em Lima, Perú, em 8 de junho de 1928. Sacerdote católico, é considerado um dos pais da teologia da libertação. Autor do primeiro livro desse movimento: Teologia da Libertação, estudou medicina, psicologia, filosofia e teologia no Perú, Chile, Roma, Bélgica e França. Fez seu doutorado em teologia na Universidade de Lyon, na França. Nasceu em uma família pobre de operários urbanos, conheceu o sofrimento de uma prolongada doeça durante a sua adolecência, e o impacto social de ser mestiço. Desde seus dias de estudante e início do sacerdócio, Gutiérrez se identificou com as causas dos pobres. Sua reflexão teológica nasceu de um compromisso cristão com as lutas populares e as comunidades eclesiais de base ativas nos processos de libertação. Foi por muitos anos pároco de uma comunidade pobre em Lima, e foi também fundador e diretor do centro Pastoral Bartolomeu de Las Casas. Como um dos assessores teológicos do Conselho Episcopal Latino Americana, sua contribuição foi decisiva na formulação de alguns documentos na Conferência de Medelin, Colômbia, em 1968. Gutiérrez foi um dois educadores principais do CELAM que desenvolveu e promoveu no continente a nascente teologia da libertação. Suas produções teológicas têm sido cruscial no desenvolvimento deste movimento teológico, com especial destaque para suas contribuições aos temas clássicos da teologia como a doutrina de Deus, da salvação, da Igreja, do método teológico, da espiritualidade da libertação e da interpretação da obra e do significado de Bartolomeu de Las Casas. Mesmo que Gutiérrez tenha sido acusado por setores conservadores e também investigado pelo Vaticano sobre sua ortodoxia, não foi disciplinado pelo Vaticano. Sua produção literária teve um alcance mundial e a importância de sua teologia foi reconhecida ecumência e internacionalmente.
39
trabalhos pastorais em associação com bispos que eram voltados para as causas populares, ao invés de seminários ou universidades, exemplifica este aspecto, assim como o grande número de suas obras cujo ponto de partida é a situação pastoral da Igreja. No entanto, o sentido fundamental – que norteia o pensamento de Comblin – e talvez o mais importante da ―ação humana total‖, refere-se à ações de seres humanos livres que transformam a situação em torno deles, e, juntos, tornam-se profundamente humanos. A ação poderia ser mais modesta, como uma comunidade ou grupo de construção de casas, assim como esta ação poderia ser tão grande quanto uma campanha nacional para acabar com a fome. Já em 1962, estava dizendo que a teologia é orientada para a ação, e não simplesmente a ação pastoral da Igreja, mas as ações para tornar o mundo mais humano.
Em 1963, Ivan Illich40 convidou um pequeno grupo de teólogos latino-americanos, incluindo Comblin e Gutiérrez, para irem a Cuernavaca, no México. Este foi um exemplo precoce de teólogos católicos questionando se poderia desenvolver uma teologia especial voltada para as condições específicas da América Latina, pensamento que correspondesse à própria visão do que era considerado como ―teologia‖, (ambos católicos e protestantes), ou estava no fato da teologia ser ―europeia‖. Essas discussões continuaram por cerca de três anos, em Petrópolis, Montevidéu e Santiago, em meados dos anos 60. Estas reuniões foram precursoras para o que veio a ser chamada de ―Teologia da Libertação41‖.
Em 1965, Comblin retornou do Chile para o Brasil, que agora estava sob a ditadura militar. O regime militar foi anunciado em 1º de abril de 1964. Com o discurso de proteger o país do Comunismo, empresários, Igreja e militares se uniram para derrubar o Presidente João
40
Ivan Illich, nascido em Viena, em 4 de setembro de 1926 e falecido em Bremen, em 2 de dezembro
de 2002, foi ex-padre, psicólogo e pensador e polímata austríaco.. Fez estudos de cristologia histórica e filosofia em Florença, Salzburgo e Roma. Depois de ter trabalhado em Nova Iorque, dirigiu a Universidade Católica de Porto Rico. Foi ainda fundador, em Cuernavaca, do Centro de Pesquisa de iniciação à cultura latino-americana e de análise crítica à sociedade industrial. Entre seus livros destacam-se Nemesis Médicale Uexpropriation de la santê, de 1975.
41Entrevista com Comblin, julho de 2003. Outros presentes nas reuniões foram Juan-Luis Segundo, Lucio Gera,
Goulart em um golpe e tomaram o poder, seguindo-se diversos governos comandados por militares, por longos e tenebrosos 21 anos que levaram o Brasil ao caos: inflação galopante, perseguições, prisões, torturas, pessoas desaparecidas, mortes de brasileiros que
corajosamente enfrentavam o ―monstro‖ tentando derrotá-lo para fazer o país retornar ao caminho normal da democracia. Assim, estes homens não poderiam ser considerados católicos ou protestantes, mas sim testemunhas de Jesus Cristo. As terras estavam nas mãos de poucos, enquanto muitos agricultores íam sendo expulsos do campo para as periferias das grandes cidades42, sendo, os anos mais duros deste regime entre 1969 até 1974, com o governo do Presidente Emílio Garrastazu Médici43. Na prática, seu governo foi marcado como o mais repressor da fase ditatorial do Brasil de toda nossa história. Mas no Nordeste florescia uma Igreja comprometida com o mundo dos pobres e Comblin ouviu o chamado do grande pastor e profeta Dom Hélder Câmara e estabeleceu-se em Pernambuco como membro de uma equipe de sacerdotes que trabalhavam no Seminário Regional do Nordeste. Educação para o ministério tornava-se uma constante no seu trabalho na América Latina, e em seus escritos, mas especialmente em uma inovação experimental significativa.
Ao mesmo tempo, Comblin foi convidado a dar aulas no Equador e assim, de 1968 a 1972 foi professor de teologia no IPLA (Instituto Pastoral Latino Americano - Quito, Equador). Passou a dar assessoria à diocese de Riobamba, cujo bispo, Dom Leônidas Proaño, foi um símbolo do compromisso com a causa indígena no Equador. Até 1985 passava duas quinzenas por ano em Riobamba e continuou frequentando a diocese até a morte de Dom Leônidas Proaño, em 1988. Passou, ainda, a lecionar teologia pastoral na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lovaina (depois, Louvain-la–Neuve), cargo que exerceu de 1971 a 1988. Além disso, estava fortemente inserido na Igreja de Dom Hélder, que
42 RIBEIRO, Sampaio Geraldo (Org.). Dom José Maria Peres uma voz fiel à mudança social.São Paulo: Paulus
Editora, 2005, pg.07.
43Emílio Garrastazu Médici, (Bagé, 4 de dezembro de 1905 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1985), cursou o
marcava o cenário nordestino e nacional pelo seu compromisso com as causas populares. Dava assessoria a Dom Hélder na elaboração de posicionamentos, documentos e intervenções. As igrejas de Recife e Olinda se tornaram uma grande esperança para os pobres.
Em 1966, convidado por Dom Hélder, Comblin chegou ao ITER (Instituto de Teologia de Recife) para dar aula aos seminaristas, e lá encontrou um projeto para construir um seminário futurista e significativo para um número estimado em 600 alunos; projeto este sonhado por Hélder Câmara e pago com financiamento norte-americano. Se o problema da igreja latino-americana era ―escassez de clero‖, foi resolvido com dinheiro de pessoas do Atlântico Norte, mesmo assim foi questionado fortemente por Comblin. Quando o seminário foi inaugurado, em 1966, havia menos de uma centena de alunos. O pós-Vaticano II trouxe uma crise para os padres. Assim, os sacerdotes procuraram a laicização em massa. No Brasil, em alguns anos cerca de 4000-5000 sacerdotes (de 15.000) renunciaram. Os seminaristas não queriam viver no recinto do seminário, mas em pequenas comunidades em bairros comuns.
Na América Latina, a discussão do sacerdócio, em 1960, tomou uma direção diferente do que ocorreu em países do Atlântico Norte, nestes impulsionada pela questão do celibato. Na América Latina, Comblin e outros perceberam que a questão não era apenas o celibato, mas de cultura. O que a igreja precisava era de ministros que pudessem se comunicar com a grande maioria dos latino-americanos, que eram pobres e muitas vezes viviam em zonas rurais. Mas com o passar dos anos, em um seminário, Comblin também formulou a pergunta aos padres, se estes poderiam ou deveriam ser celibatários ou casados; esta era a questão cultural mais ampla.
1.1.2 Ditadura Militar, CELAM e o caso Comblin
CELAM44 (Conferência Episcopal Latino-americano), marcada para agosto daquele ano, na cidade de Medellin, Colômbia.
Comblin escreveu um conjunto de 27 páginas de observações em resposta ao documento de estudo divulgado pelo CELAM. Grande parte do trabalho foi dedicada ao desenvolvimento de fatores que impedem o modo de agir, incluindo a cultura da própria Igreja e os quatro séculos de cultura ibérica, o colonialismo e a estrutura de classes. A certa altura Comblin afirma que privilegiava tradicionalmente novas estruturas e estabeleceu um grupo capaz de tomar o poder com o devido apoio e impor as mudanças necessárias, mesmo sobre aqueles que não estavam dispostos a tomar o poder do Estado, pela força, se necessário. Ele disse explicitamente que não existia um modelo único, e que maneiras pacíficas de tomar e exercer o poder merecem ser estudadas.
Este documento interno vazou para as autoridades e o vereador Wandenkolk Wanderley denunciou, na Câmara Municipal de Recife, a existência de um manisfesto subversivo, a qual foi impressa em um jornal de Recife e depois em todos os jornais do país.
O texto da Folha de São Paulo de 13 de junho de 1968 com o título: ―D. Hélder explica o documento de Comblin‖ declara que o vereador pediu a cassação de D. Hélder e a expulsão de Comblin, pois acreditava que o escrito levaria à revolução armada dos camponeses e a dissolução das forças armadas do Brasil.
44CELAM: Em 1955, como resultado da primeira conferência geral dos bispos latino-americanos, realizada no
Este mesmo jornal trazia o resumo do documento elaborado por Comblin que tratava dos seguintes temas: posição da Igreja, poder legítimo, contra o fanatismo e ação da Igreja, dando uma posição cristã para o encontro que iria acontecer. O texto, porém, se tornou uma afronta para o regime da época. Aqueles que leram o documento acreditaram que era uma chamada à revolução por um estrangeiro. Ignoraram a possibilidade de ser um manifesto, simplesmente uma tentativa de esclarecer os assuntos conceitualmente do ponto de vista pastoral. O alarme entre os grupos conservadores e o governo militar, que estava prestes a se tornar muito mais brutal, pode ter sido alimentado pela atmosfera da ―revolução‖ mundial de
196845.
O objetivo real do ataque por parte de políticos e da imprensa parecia ter sido Dom Hélder Câmara que teria elaborado o documento. Comblin já tinha uma viagem programada ao Equador para dar um curso e permaneceu ali por várias semanas, neste meio tempo a organização de extrema-direita da Tradição, Família e Propriedade46 realizou um abaixo assinado nacional contra o padre, a fim de que Comblin se dirigisse a Roma. Entretanto, o furor terminou e ele pode voltar ao seu trabalho normal. Este episódio ficou conhecido como
45 Revolução mundial em 1968: Ainda que em geral se discuta quase obsessivamente as influências das
jornadas de 1968, sobretudo no que se refere às modificações culturais e comportamentais da sociedade contemporânea – liberdade sexual, crise do autoritarismo familiar etc. – o grande debate explícito ou implícito que organiza a reflexão em curso que poderíamos definir de mais fina centra-se na tentativa de explicação das razões e significados profundos daqueles acontecimentos, e, sobretudo agora, de sua validade programática ou superação, esgotamento e crise. Apresentam-se comumente em forma analógica os sucessos ocorridos há quatro décadas como o ápice de cataclismo geológico que, após forte acumulação de forças, iniciou o processo de liberação das fortes tensões anteriormente reprimidas, em 1967, seguindo-se a essa pré-convulsão fortes e variados abalos tectônicos, com um principal e grande epicentro em 1968, e movimentos secundários posteriores, nos meses seguintes àquele ao ano referencial. Ainda que essa comparação circunscreva a importante sucessão e ritmos dos acontecimentos ocorridos, com grande destaque, sobretudo nos USA, na Itália e na Alemanha Federal, na Espanha em 1967, e, a seguir, principalmente na França, México, Brasil, Polônia, Paquistão, em 1968, ela sequer esboça as razões e significados profundos dos fatos em discussão, já que não elucida minimamente as origens e singularidades das fortíssimas tensões e sucessivas distensões sociais vividas em importantes regiões da Europa, América e Ásia, e, sobretudo, as causas da extenuação, dissolução ou frustração daquele movimento.
46 Tradição, Família e Propriedade (TFP) ou Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e
o ―Caso Comblin‖ e repercutiu em todo o país. O documento defendia uma revolução social e
criticava claramente o funcionamento da Igreja.
No entanto, a repressão em geral aumentou. O Padre Antônio Henrique Pereira Neto foi sequestrado na noite de 26 de maio de 1969, no bairro de Parnamirim, em Recife, depois de participar de uma reunião com um grupo de jovens católicos. De acordo com uma testemunha, ele acabava de sair do local do encontro, quando foi abordado por três homens armados que o levaram em um veículo. Na manhã do dia seguinte, seu corpo seria encontrado num matagal da Cidade Universitária, mutilado e castrado pelo Comando de Caça aos Comunistas47, no Recife. Era obviamente uma mensagem dirigida à pessoa de Dom Hélder Câmara e seus padres, entre eles, com certeza visavam à pessoa de Comblin, além de partidos políticos e imprensa. Os sindicatos foram amordaçados, os ativistas foram presos, torturados e, em alguns casos, mortos. A imprensa foi proibida de relatar qualquer assunto sobre Dom Hélder Câmara.
Em 24 de março de 1972, quando Comblin estava retornando de uma viagem a Europa foi detido no aeroporto e não teve permissão para entrar no país, pois tinha se tornado
―persona non grata‖ para os militares.
1.1.3 Vida no Chile, Ditadura e o “Estado de segurança nacional”
Inesperadamente forçado a sair do Brasil, Comblin aceitou uma oferta do Bispo Carlos Gonzalez48 para trabalhar na cidade de Talca, uma diocese rural localizada a 241
47 Comando de Caça aos Comunistas (CCC, às vezes referido como Comando de Caça aos Estudantes
Comunistas) foi uma organização direitista anticomunista brasileira, composta por estudantes e intelectuais, os quais, durante o Regime Militar no Brasil, agiram em favor do mesmo, denunciando, atacando, sequestrando e assassinando pessoas contrárias ao regime então vigente.
48Carlos Gonzalez Nascido em 1921 em Santiago e ordenado sacerdote em 1944, desde o começo da ditadura
tomou a corajosa decisão de se colocar do lado dos oprimidos. Foi um dos que resistiram à ditadura no Chile contra Pinochet, por causa dos direitos humanos que estava sendo desrespeitado. Faleceu em 21 de Setembro de 2001 em Talca, junto aos seus camponeses, em decorrência de um câncer hepático que foi detectado em agosto do ano anterior. A presidenta do Chile, Michelle Bachelet, pouco antes de sua morte, lhe enviou uma carta
quilômetros ao sul de Santiago. Bispo Gonzalez não lhe deu atribuição oficial, mas o encorajou a fazer o trabalho pastoral.
Para muitos chilenos e outros, a adesão do governo da Unidade Popular, liderado por Salvador Allende49, parecia predizer a possibilidade de uma tomada de poder e trazer as mudanças necessárias de maneira pacífica. Pessoas de Igrejas Católica e Protestante formaram um Movimento Político com o nome: "Cristãos pelo Socialismo50‖. O movimento foi o
anfitrião de um encontro continental com delegados de vários países. Os bispos do Chile que refletiam sua própria sensibilidade cristã democrata, no entanto, haviam declarado suas oposições a estes sacerdotes, argumentando que os padres e a igreja deveriam estar acima da política partidária. A sociedade chilena e a Igreja foram se tornando cada vez mais polarizadas. Vindo da repressão militar do Brasil, no Chile, Comblin sentiu que estava indo para um golpe de Estado; ele se distanciou dos cristãos pelo socialismo. Quando o golpe veio, em setembro de 1973, ele foi capaz de permanecer no Chile, enquanto milhares foram obrigados a fugir.
Comblin logo escreveu sobre a nova prática pastoral da Igreja em uma situação de ditadura. Ao fazer isso, ele não focava apenas sobre os abusos dos militares (assassinato, tortura, repressão das organizações etc), mas sim na ideologia subjacente, particularmente
tudo de bom que você fez pelo Chile e seu povo‖. E o povo também lhe agradeceu, mas na rua: no dia de seu funeral, milhares de pessoas se despediram dele dentro e fora da catedral de Talca, onde foi sepultado.
49 Salvador Allende Gossens nasceu em Valparaíso em 1908, numa família abastada. Durante o curso de
medicina, na Universidade do Chile, conheceu um grupo de estudantes cujas ideias progressistas despertaram-lhe a paixão pela política. Concluindo o curso, regressou a Valparaiso, onde começou a exercer sua profissão. Em abril de 1933, participou da fundação do partido Socialista do Chile, no qual no início participou como secretário geral de sua zona. Em 1937, elegeu-se deputado; entre 1939 e 1942 foi ministro da saúde do primeiro governo da frente popular; foi eleito senador em 1945. Em 1970, Allende conseguiu se eleger presidente. Em 1973 foi morto no palácio presidencial durante o ataque desfechado pelos golpistas liderado por Pinochet;
50 Cristãos pelo Socialismo (CPS), surgiu em 1971 em Allende, no Chile, para apoiar, a partir das fileiras
articulada por intelectuais militares, como o general Golbery51, do Brasil. Em primeiro lugar, ele apresentou a ideologia e a criticou teologicamente. Em seguida, escreveu sobre o assunto em artigos e livros. Os articuladores da ideologia de segurança nacional falavam da geopolítica como uma ciência central, e imaginavam o mundo em um estado contínuo de guerra. O Estado estava sendo governado por um grupo de elites. Partindo do pressuposto de que a Igreja também compartilhava a sua inimizade com o comunismo, a ideologia da segurança nacional propôs uma parceria entre Igreja e Estado. Apesar de algumas organizações e algumas pessoas da Igreja aceitarem a proposta feita pelos militares, a maior parte a rejeitou por várias razões. Os militares queriam utilizar a religião na forma de cultura, não a fé evangélica. O mais importante para esse setor da Igreja foi entender que a evangelização não podia ser feita pela violência. Para Comblin:
―Evangelização é mais do que um apelo à liberdade: é um ato de despertar
liberdade. A evangelização não pode ser alcançada em um clima de força, pelo uso de violência ou por meio de pressão. Consequentemente, se o propósito da igreja é a evangelização, não pode juntar-se aos movimentos violentos ou submeter-se a eles‖52.
Para Comblin, a antropologia cristã é radicalmente oposta à visão hobbesiana53 do estado de segurança nacional, que divide as pessoas em amigos e inimigos. O ponto de vista
51Golbery do Couto e Silva nasceu no Rio Grande do Sul, em 1911. Cursou a Escola Militar do Realengo, a
escola das Armas, Escola de Estado Maior e a Escola Superior de Guerra. Em 1952, formulou a doutrina de segurança nacional que pregava o alinhamento do Brasil com o ocidente em confronto com o bloco soviético. Em 1962 assumiu o IPES; em 1967 assumiu o tribunal de contas da União e morreu em São Paulo em 1987. Personalidade importante no período da ditadura brasileira (1964-1977), Comblin o descreve como um homem culto, inteligente, da ala mais mansa do sistema militar, e diz que ele se dava muito bem com Castelo Branco, depois com Costa e Silva, ficando afastado com Emílio Garrastazu Médici, mas voltando posteriormente com o general Ernesto Geisel, todos militares e que ocuparam a presidência do Brasil no regime militar.
52 COMBLIN, José. A Ideologia da Segurança Nacional. O Poder Militar na América Latina. Rio de Janeiro:
Civilização brasileira, 1978, pg. 20.
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