(Re)lendo "História de Campina Grande" de Elpídio de Almeida: uma construção histórica da "grande" campina

Texto

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(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA

CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – MESTRADO

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: HISTÓRIA E ESPAÇOS

LINHA DE PESQUISA: CULTURA, PODER E REPRESENTAÇÕES ESPACIAIS

(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA

CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA

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REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA

(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA

CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre no Curso de Pós-graduação em História, Área de Concentração em História e Espaços, Linha de Pesquisa cultura, poder e representações espaciais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob a orientação da Profa. Dra. Margarida Maria Dias de Oliveira.

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REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA

(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA

CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre no Curso de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pela comissão formada pelos professores:

_________________________________________ Profa. Dra. Margarida Maria Dias de Oliveira

Orientadora

_________________________________________ Prof. Dr. Luciano Mendonça de Lima

Avaliador Externo

_________________________________________ Prof. Dr. Francisco das Chagas Fernandes Santiago Junior

Avaliador Interno

_________________________________________ Prof. Dr. Helder do Nascimento Viana

Avaliador Interno

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AGRADECIMENTOS

Essa dissertação marca o fim de mais um ciclo que fecho em minha vida e durante esses dois anos tenho muito a agradecer. Em primeiro lugar, agradeço aos meus pais, cuja dedicação e amor foram fundamentais para eu tornar-me o que sou hoje. Minha mãe moveu “mundos e fundos” para me dar o melhor que ela pôde, por isso não tenho palavras para agradecê-la, e mesmo que tivesse não seria o bastante. Meu pai, com sua sabedoria, me ensinou muito sobre a vida e também fez o que pôde para que eu realizasse os meus sonhos. Obrigada por tudo!

Agradeço ao apoio dos familiares, Rossana e Walisson, muito obrigada pelo apoio e pela acolhida que vocês me deram, sem vocês os primeiros meses em Natal seriam bem mais difíceis; minhas primas/irmãs Lúcia, Sandra, Elisabete e Adriana, que sempre estiveram presentes em minha vida; minha tia/mãe Luiza, por ter me criado com tanto amor e dedicação; minha avó Regina (in memoriam); e meu tio Geraldo (in memoriam); esses últimos, onde estiverem, estão

felizes, tenho certeza, por essa minha conquista.

Tarciano, meu companheiro e amigo, que está ao meu lado todos os dias, me incentivando, e que nos momentos mais difíceis não me deixou desistir. Obrigada pela dedicação, compreensão, confiança, paciência. Sem ele eu não teria forças para acreditar em mim e lutar pelos meus sonhos.

Alisson, meu nego lindo amigo/irmão de todas as horas, obrigada por fazer parte da minha vida e ajudar a deixar ela mais colorida e feliz.

A todos que fizeram parte da turma 2012.1 do PPGH-UFRN. A melhor turma que alguém pode ter. Obrigada pelos incentivos, pelas palavras de conforto e pelas muitas risadas que demos juntos.

Agradeço também a CAPES que patrocinou essa pesquisa, o que foi fundamental para eu me manter no curso.

Aos professores Santiago e Juliana, pelas pertinentes colocações que me ajudaram a encontrar o rumo deste trabalho.

Ao senhor Mário Araújo, pela generosidade de me receber em sua casa e me ajudar a entender melhor quem foi Elpídio de Almeida.

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agradecer toda a sua generosidade. Apesar da distância, continuo admirando, respeitando e seguindo seus valiosos ensinamentos.

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RESUMO

Elpídio de Almeida (1893-1971) foi um intelectual que participou ativamente da sociedade campinense no século XX. Foi médico, político e membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP). Às vésperas do primeiro centenário de Campina Grande, escreveu “História de Campina Grande”, que se tornou um clássico da historiografia da Paraíba. Nessa obra, o autor volta sua escrita para a construção de uma história de enaltecimento da cidade. Esta dissertação

tem como objetivo analisar o livro “História de Campina Grande” para compreender como o IHGP e o lugar social de Elpídio de Almeida influenciaram sua escrita, além de investigar qual a noção de história que norteia a referida obra a qual Campina Grande foi construída a partir de sua representação da cidade. Para tanto, utilizamos as contribuições teórico-metodológicas de Michel de Certeau, que em “A escrita da História” mostra que a escrita histórica é uma prática que surge a partir do lugar social e da instituição de saber aos quais pertence o historiador.

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LISTA DE IMAGENS

Imagem 1 - Projeto do monumento em homenagem aos 150 anos de Campina Grande. Imagem 2 – Banner alusivo às comemorações de 150 anos de Campina Grande.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

CAPÍTULO 1:CAMPINA GRANDE, O IHGP E OS IDEAIS DE ELPÍDIO DE ALMEIDA ... 15

1.1 A instituição de saber: o papel IHGP na construção de uma história para Paraíba ... 17

1.2 A Campina Grande que Almeida viveu... 23

CAPÍTULO 2:A ESCRITA DE ELPÍDIO DE ALMEIDA ... 39

2.1 - Ensaios para “História de Campina Grande”: os artigos que Almeida escreveu...42

2.1.1 – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (décadas de 30 a 50)...43

2.1.2 - Gazeta Campinense, Revista do IHGP e Revista Campinense de Cultura (década de 60)...44

CAPÍTULO 3: ELPÍDIO DE ALMEIDA E SUA “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” ... 59

3.1 Os métodos de escrita de Elpídio de Almeida ... 63

3.1.1 Tratamento dado às fontes ... 68

3.2 O fazer da Campina “grande” ... 75

3.2.1 Os grandes personagens da história de Almeida ... 75

3.2.2 Movimentos sociais na história de Campina Grande ... 93

3.2.3 Os espaços da cidade ...101

CONCLUSÃO: A UTOPIA DE UMA CIDADE: “CAMPINA GRANDE 150 ANOS À FRENTE”? ...110

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Introdução

Escrever a história significa atribuir aos anos a sua fisionomia (Walter Benjamim).

Em 1964, Campina Grande, cidade do interior paraibano, completava seus primeiros cem anos de emancipação política. Durante a década de 1960, vários setores da sociedade campinense se engajaram para organizar a festa do centenário, que tinha uma dupla intenção: fazer homenagens à cidade e (re)afirmar o discurso de que ela era grandiosa. Para tanto, as elites locais, através do poder público, de memorialistas, de intelectuais e da imprensa, começaram (ou continuaram) a mostrar, em livros, pronunciamentos oficiais, em matérias de jornais, em músicas e em versos, a grandiosidade da cidade.

Um dos meios mais eficientes que esses grupos encontraram para demonstrar essa grandiosidade foi a história, pois a partir dela se podia mostrar que, desde sua fundação, Campina Grande estava destinada a ser grande. Para isso, uma produção historiográfica e memorialística foi produzida, a fim de construir uma identidade histórica que justificasse essa grandiosidade.

O livro “História de Campina Grande”, de Elpídio de Almeida, surge nesse contexto. A obra foi lançada em 1962 e nela o autor representa uma Campina Grande ideal, grandiosa desde sua fundação e fadada ao sucesso. Almeida se insere no campo da historiografia tradicional que foi produzida, principalmente via o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP), uma das instituições de saber mais antigas da Paraíba e da qual o autor era membro.

Grande parte dos intelectuais do IHGP escreviam história com o interesse de construir um discurso que possibilitasse mostrar a importância da Paraíba para o Brasil e para região que hoje denominamos Nordeste. Nesse sentido, era necessário ressaltar a especificidade do lugar ao escrever sobre os fatos e os personagens que esses homens julgavam ser importantes de sua história, criando, assim, uma identidade para o povo paraibano e um passado para o estado.

Ao ler as obras dos intelectuais que fizeram parte do IHGP, como Elpídio de Almeida–

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Na Paraíba, essa ainda é a história mais difundida na sociedade. Ainda existem muitos textos que estão sendo produzidos atualmente e que têm esse traço tradicional, memorialístico. Além disso, essa história com a ausência de crítica é a mais reproduzida na imprensa, nos Institutos Históricos, nos discursos políticos, chegando até as escolas. Logo, ela tem uma grande circulação e alcança um grande público, estando na memória da maior parte da população.

Ademais, são poucas as pesquisas acadêmicas sobre a temática. Ao realizarmos uma investigação sobre trabalhos que tratassem da historiografia paraibana, encontramos duas dissertações na UFPB: uma sobre Maximiano Machado e Irineu Pinto1 e outra sobre Horácio de Almeida2. Além dessas dissertações, conhecemos dois livros que tratam da historiografia Paraibana. Um deles é “Intrepida Ab Origine: o IHGP e a produção da História local (1905-

1930)”, de Margarida Maria Dias de Oliveira, e “Histórias da Paraíba: autores e análises

historiográficas sobre o século XIX”, organizado por Ariane Norma M. Sá e Serioja R. C. Mariano, o que mostra uma grande lacuna em estudos sobre a historiografia do estado.

Foi a partir das discussões empreendidas nas aulas da disciplina História de Campina Grande, ministrada pelo professor Dr. Luciano Mendonça de Lima, na Universidade Federal de Campina Grande, durante a graduação, pelos idos de 2010, e a partir de algumas conversas

informais em que o professor apontou a inexistência de estudos sobre o livro “História de Campina Grande”, que nasceu o gosto pela história do município e esta pesquisa.

Nosso estudo busca diminuir essa lacuna na historiografia paraibana. Com este trabalho, buscaremos também analisar melhor o discurso de grandiosidade de Campina Grande construído por Almeida e pelas elites locais. Não negamos a importância da cidade para a Paraíba e região, nem tampouco afirmamos que ela não teve um considerável desenvolvimento durante o século XX, mas precisamos relativizar esse discurso de grandiosidade, pois ele parece atingir toda a população campinense, e sabemos que isso é impossível.

Dessa forma, temos como principal fonte o livro “História de Campina Grande”. Diante desse objeto de estudo, encontramos algumas problemáticas: Qual a noção de história que norteia a escrita de Elpídio de Almeida? Qual Campina Grande foi construída a partir de sua representação da cidade? Qual o contexto em que Almeida escrevia seus textos?

1 A dissertação, que foi defendida em 2009, tem como título “As Contribuições de Maximiano Machado e Irineu

Pinto para a construção da cultura histórica sobre o período holandês na Paraíba (1634-1654)” e foi escrita por

Hérick Dayann Morais de Meneses.

2 Esta dissertação foi defendida por George Silva do Nascimento em 2010 e tem como título “Pátrio-Biografia:

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Analisar o livro de Almeida nos leva a necessidade de entender o seu vínculo com o IHGP a instituição de saber que fomentou o à Campina Grande que o autor viveu, logo, é preciso entender a Campina das décadas de trinta, quarenta, cinquenta e sessenta, pois, além de Elpídio de Almeida ser uma figura atuante na sociedade nessa época (fora um médico muito conhecido em Campina Grande, além de ter sido prefeito por dois mandatos da cidade), esse também foi o tempo no qual ele começou a escrever história, o que culminou com a publicação de seu livro. Essa análise também nos faz buscar como fontes outros textos do autor que foram publicados na

“Revista do IHGP”, no jornal “Gazeta Campinense” e na “Revista Campinense de Cultura”.

Entendemos que o discurso construído por Elpídio de Almeida em seus escritos construiu uma história para a cidade que mostrava que Campina Grande não era apenas grande, mas que essa sua grandiosidade já podia ser vista em sua história, criando assim um destino manifesto para a cidade. Esse discurso servia para diversos fins, principalmente para fins políticos.

Nossa pesquisa está inserida na área de História e Espaços. Estas categorias são fundamentais para nosso trabalho, uma vez que temos o propósito de analisar como um espaço, no caso uma cidade, é produzido pela escrita da história. Concordamos com Certeau quando ele diz que os discursos, os relatos e a escrita da história organizam lugares, constroem formas de ver, sentir e praticar o espaço (1998, p. 199), logo, a escrita produz espaços, que são resultados de práticas.

Cada vez que se produz um espaço, seja física ou simbolicamente, como em uma escrita, o produtor desse espaço carrega-o de subjetividades e de marcas próprias, para que os consumidores o utilizem da forma que o produtor pensou. Para tanto, o produtor precisa criar

“estratégias”, pois segundo Certeau esse é o dispositivo capaz de produzir e impor um

determinado modo de apreender o espaço, pois a “estratégia” é:

o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um

sujeito de querer e poder é isolável de um “ambiente”. Ela postula um lugar capaz de ser

circunscrito como um próprio e portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas relações como uma exterioridade distinta (CERTEAU, 1988, p.46).

No entanto, a partir do momento em que os sujeitos praticam o espaço eles criam “táticas”

que recriam esse espaço. Essa “tática” necessita do tempo, pois só é realizada quando se tem a

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consumidores burlam essa ordem e inscrevem um novo espaço, da maneira que mais lhes convêm.

Assim, vemos que Elpídio de Almeida criou em seu livro estratégias para pôr ordem na história da cidade. Por meio dessa estratégia, o autor estava buscando construir uma forma de direcionar o olhar dos leitores para o que ele quer que esses sujeitos vejam. No entanto, a recepção dessa escrita é recriada pelos consumidores, que se apropriam dela e a recriam, uma vez que a partir do momento em que o autor lança o livro, o que está escrito não é mais só dele. Nós, consumidores do livro/espaço que ele criou, desenvolvemos estratégias para entender e praticar esse espaço, retirando dele interpretações que nem sempre eram aquelas que Almeida pensou quando escreveu.

A partir da utilização de táticas e estratégias, é que se transforma o espaço em lugar, uma vez que o lugar é o espaço praticado. O lugar é a ordem. É ele que determina os elementos de coexistência, define posições e indica estabilidades. Elpídio de Almeida, em sua obra, criou um lugar para Campina Grande a partir do momento em que instituiu uma ordem para a história da cidade.

Vale salientar também que essas formas de praticar o espaço vão variar conforme a época de cada consumidor. Assim, a nossa interpretação da obra de Almeida é o nosso olhar sobre a obra, e esse olhar só foi possível de ser formado graças às condições de nossa época, como também do nosso lugar social e da instituição de saber na qual estamos inseridos (CERTEAU, 2011).

Entendemos também que Elpídio de Almeida construiu sua obra a partir de dois pilares: a

instituição social da qual fazia parte e o lugar social ao qual pertencia. Pensar “História de Campina Grande” como uma prática que está baseada nestes pilares só foi possível a partir das contribuições de Certeau em “A escrita da história”. Nessa obra, Certeau faz um estudo sobre a operação historiográfica e se pergunta o que é essa profissão e aponta que a história enquanto

operação é a “combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita”

(CERTEAU, 2011, p. 47).

A proposta de Certeau é fundamental para nossa pesquisa, pois nos faz perceber que a escrita da história é um produto do lugar social do autor. Desse modo, “História de Campina Grande” tem relação direta e uma grande influência de seu “lugar” social, já que em sua obra

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Campina Grande, uma vez que era formado em medicina, era membro do IHGP, se envolveu com a política e construiu uma estreita relação com importantes políticos do estado e do Brasil.

“História de Campina Grande” também está entranhada de marcas da instituição de saber da qual

está vinculada, o IHGP, pois foi nessa instituição que Elpídio de Almeida aprendeu o métier da

história.

Metodologicamente, para realizarmos nossa escrita, realizamos uma leitura verticalizada de

“História de Campina Grande”, mapeamos o livro para perceber quais os temas que mais Elpídio

tratava em sua obra, quais os nomes que ele mais citou, quais os acontecimentos que ele privilegiou. Realizamos essa mesma leitura nos artigos que ele escreveu e os cruzamos com a obra para entender o que permaneceu e o que mudou na escrita de Elpídio de Almeida ao longo dos anos de sua carreira como escritor. A partir dessas leituras e do cruzamento das fontes, chegamos a alguns nomes, temas, lugares que consideramos pertinentes na obra e foi a partir dessas chaves de leitura que organizamos nossa análise.

Nossa dissertação está organizada em três capítulos. No primeiro, buscamos entender o

“lugar” social e a instituição de saber que fomenta a escrita de Elpídio de Almeida. Para tanto, fizemos uma contextualização dos fatos que ocorreram em Campina Grande entre as décadas de 1930 e 1960, as quais acreditamos foram decisivas na construção de ideal de cidade para o autor. Não poderíamos deixar de analisar a atuação social e política de Elpídio de Almeida no município durante esses anos. Além disso, também fizemos uma análise da influência do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano para a historiografia da Paraíba.

No segundo capítulo, nos concentramos na análise da escrita de Elpídio de Almeida. O primeiro ponto abordado foi analisar os artigos publicados por Almeida no jornal “Gazeta Campinense”, na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano” e na “Revista Campinense de Cultura”, a fim de buscar entender quais eram as preocupações de Almeida em seus escritos antes de lançar seu livro, como também compreender qual a relação desses artigos com a obra.

No terceiro capítulo, nos alongamos mais no número de páginas por nele estar a análise

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por fim, empreendemos um estudo sobre qual a Campina Grande que Elpídio de Almeida constrói em seu livro, quais os personagens, fatos e lugares que entram para sua história.

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Capitulo I:

CAMPINA GRANDE, O IHGP E OS IDEAIS DE ELPÍDIO DE

ALMEIDA

O historiador é sempre de um tempo, aquele em que o acaso o fez nascer e do qual ele abraça, às vezes sem o saber, as curiosidades as inclinações, os

pressupostos, em suma, a “ideologia dominante”, e

mesmo quando se opõe, ele ainda se determina por referências aos postulados de sua época (René Rémond).

“O que fabrica o historiador quando ‘faz história’? Para quem trabalha? Que produz?”

(CERTEAU, 2011, p. 45). Com esses questionamentos, Michel de Certeau inicia sua reflexão sobre a operação historiográfica, na qual mostra que um texto de história não é apenas uma narrativa dos acontecimentos passados, mas, sim, um procedimento estratégico e político, pois implica a tomada de posicionamentos, uma vez que a escrita da história se faz a partir da articulação de um lugar socioeconômico, político e cultural.

Essas colocações são válidas para o nosso trabalho, pois pretendemos entender qual a

Campina Grande que Elpídio de Almeida constrói em seu livro. Não podemos entender “História de Campina Grande” sem compreender os métodos de escrita, as questões que se encontram no

texto, a documentação utilizada, o “lugar social” e a “instituição de saber” do autor. Isso é necessário porque entendemos a história como uma narrativa e para interpretá-la não basta encontrar um sentido, mas também avaliar sua estrutura, as relações que a obra mantém com o ambiente em que foi gestado e as escolhas do autor.

Certeau (2011) alerta para o fato de que essas escolhas não nascem do vazio, elas constituem uma intrínseca relação com o lugar e as relações estabelecidas pelo autor. Na medida

em que Elpídio de Almeida escolheu os elementos e os argumentos para compor “História de Campina Grande” ele fez um ato político, pois deu voz a alguns personagens e silenciou outros, escolhendo quem entra para a história e quem fica esquecido nela. Essas escolhas se deram graças às suas vivências, aos seus postulados, às suas preferências, etc.

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escritas criam lugares a partir do desejo de um autor, para Elpídio de Almeida a necessidade de escrever um livro sobre a história de Campina Grande se deu pelo fato de que na época aproximava-se o aniversário de cem anos da cidade e por ele ser membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, Almeida sentiu que era seu dever escrever o livro e assim o fez.

Para escrever história é preciso antes aprender o métier e isso acontece por meio de uma

instituição de saber. No entanto, essa associação nem sempre é revelada pelos autores, o “não

-dito”, como chama Certeau, faz referência às práticas científicas feitas na obra. A instituição pesa tanto na escrita dos historiadores que os autores sabem que vão ser submetidos às regras da instituição para que seu trabalho seja tomado como válido. Como coloca Certeau: “A instituição não dá apenas uma estabilidade social a uma ‘doutrina’. Ela a torna possível e, sub-repticiamente, a determina” (2001, p.53). Assim, entender a instituição de saber a qual o autor faz parte é imprescindível em um trabalho de análise de uma obra de história.

Elpídio Josué de Almeida foi um intelectual3 paraibano que nasceu em 1° de setembro de

1893, na Casa Grande do Engenho da Várzea, nos arredores da cidade de Areia, brejo paraibano. Era o primogênito de Rufino Augusto de Almeida e de Adalgisa Jacunda de Almeida, família que viveu a glória e o declínio da sociedade açucareira na Paraíba. Apesar de ter nascido no engenho, viveu a maior parte da sua vida na cidade, pois quando tinha um ano seu pai se mudou com toda a família para Areia, onde abriu uma casa comercial (ALMEIDA, 1995, p.85).

Após fazer o ensino primário no estado4, Elpídio de Almeida foi estudar medicina no Rio de Janeiro, onde se formou em 1918. A Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro foi uma das primeiras instituições de ensino superior do país. Fundada em 5 de novembro de 1808, tinha como principal foco de atuação o estudo da higiene pública, uma atenção necessária pois nesse período praticamente todo o país estava enfrentando epidemias diversas. (SCHWARCZ, 1993, p. 226).

A preocupação com essas epidemias influenciou muito Almeida, pois seus estudos na Faculdade de Medicina se voltaram para uma das epidemias que assolava o Brasil,

3Entendemos intelectual como uma categoria social e profissional que produz e interpreta a realidade e que possui

grande valor político. A noção de intelectual tanto pode estar ligada aos mediadores culturais (jornalistas, escritores, professores e eruditos), como à noção de engajamento na vida da cidade, defendendo ideias, elaborando manifestos etc. Os intelectuais, por serem reconhecidos na sociedade, são considerados como especialistas, logo as ideias que defendem são vistas com legitimidade (SIRINELI, 2003).

4 Elpídio de Almeida fez suas primeiras letras nas escolas particulares de Areia e posteriormente foi para a capital do

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principalmente a região Nordeste, a “Barriga d’água”5. Em 1919, defendeu a tese “Contribuição ao estudo da Eschistossomose Mansônica” para obtenção do título de Doutor em medicina.

Voltou para Areia em 1920 e após dois anos clinicando em sua cidade natal, Almeida foi para a cidade de Parahyba6, onde assumiu o cargo de médico da saúde pública. Em 1923, foi

indicado pelo diretor da saúde pública para organizar o “Centro de Saúde de Campina Grande”.

Dessa forma, Dr. Elpídio, como era mais conhecido, chegou à cidade na qual ele criou laços fortes e que foi a inspiração de seu livro.

Desde a década de 1920, Almeida escrevia em jornais e revistas, como é o caso da “Revista Campinense”. Escreveu também artigos sobre saúde para periódicos especializados em medicina

e para os jornais do estado, como é o caso do artigo publicado em 1925 no jornal “A União” intitulado de “A lepra na Paraíba”. Desse modo, Almeida começou a ser conhecido como

escritor, o que lhe rendeu o convite, em meados da década de 1930, para ser membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, onde ocupou e se tornou o patrono da cadeira número cinco.

Concordamos com Michel de Certeau quando ele afirma “é, pois, impossível analisar o

discurso histórico independente da instituição em função do qual ele se organiza” (2011, p. 63), dessa forma, vamos discutir no tópico seguinte a influência do IHGP na historiografia paraibana, uma vez que foi no Instituto que Elpídio de Almeida teve a base do metier da história.

1.1A instituição de saber: o papel IHGP na construção de uma história para Paraíba

Em 1905 nasce o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, que vai se tornar um importante espaço intelectual da primeira metade do século XX, e que nasceu com o objetivo de

escrever uma história da Paraíba escrita pelos paraibanos, como está descrito no livro “A história do IHGP”:

O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano é a mais antiga instituição cultural da Paraíba em funcionamento. São 92 anos [...]. Antes do Instituto – esclareceu o

historiador Celso Mariz [...] “o que se dizia sobre a nossa terra estava espalhado em

Rocha Pita, em Frei Vicente Salvador, em Jaboatão, em Aires Casal, em Southey, em Leopoldo Vieira, em Varnhagen. Tudo disperso e pouco. (GUIMARÃES, 1998, p.20).

5 É o nome popular para Eschistossomose Mansônica.

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O Instituto lançou as bases da historiografia do estado, estabelecendo como deveria ser contada a história local, ressaltando, sempre, a grandeza do estado e do seu povo. Com um claro sentimento de vanguarda, iniciou-se a elaboração da história da Paraíba de forma mais abrangente e sistemática do que vinha sendo feito. Era preciso construir um passado com características, fatos e personagens particulares do local. Para isso, nos primeiros anos do IHGP, seus membros fizeram um enorme esforço para mapear e coligir documentos sobre o estado, os quais dessem evidência a essas peculiaridades, criando uma identidade paraibana.

Essa historiografia tradicional do estado começou a ser criticada a partir de 1976 com a implantação do Núcleo de Documentação e Informação Histórica e Regional (NDIHR) – ligado à UFPB–, que tinha como um de seus objetivos contrapor a história produzida pelo IHGP. A partir de então, se iniciou uma nova fase na historiografia paraibana, a qual buscava produzir um conhecimento mais crítico sobre a história do estado. Foram realizadas várias pesquisas sobre a história da Paraíba, trazendo novas abordagens a temas já trabalhados pelo IHGP, como também pesquisas que mostraram novos fatos da história local. No entanto, como já mencionamos anteriormente, são poucos os trabalhos, até hoje, que tratam da historiografia paraibana em profundidade, que analisam mais detidamente as instituições de saber do estado.

O único trabalho de referência que estuda o IHGP é “Intrepida Ab Origine: O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e a produção da história local”, escrito pela professora

Margarida Maria Dias de Oliveira, fruto de sua pesquisa de mestrado em Ciências Sociais pela UFPB e publicado em 1996. A autora analisa a escrita do IHGP nos seus primeiros anos de fundação. Em um de seus artigos, ela escreve que se interessou em escrever sobre o Instituto Histórico quando foi em busca de entender o porquê dos silêncios da historiografia paraibana. A partir disso, se deparou com o IHGP e viu que não tem como entender a historiografia do estado sem analisar a produção do Instituto (DIAS, 2003, p. 1). A autora constatou ainda a inexistência de obras que realizassem esse tipo de análise (OLIVEIRA, 1996, p.15).

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para o estado, a paraibanidade, e como está vincula-se a concepções políticas e ideológicas, ou seja, falam de um lugar, como a autora chama nossa atenção:

Reconhecer que a História da Paraíba, descrita pelas Revistas, arraigada em nosso imaginário, simbolizada pelos monumentos e documentos, não é a História da Paraíba, trata-se de uma História da Paraíba. Tem sua historicidade, seu lugar social, é portadora de interesses, vinculações políticas, organizada por ideias estabelecidas sobre História, educação, política e papel do historiador (DIAS, 2003, p.2).

Foi desse lugar social que se construiu um passado para a Paraíba, que está enraizado até hoje no imaginário das pessoas e que está diretamente ligado à conjuntura política, econômica e social do estado. A criação de uma identidade paraibana mostra a necessidade de se criar uma especificidade para o estado, ressaltando sua importância para a história da nação e, principalmente, colocando a Paraíba em igualdade com Pernambuco, revelando a forte submissão econômica e política do estado em relação a seu vizinho, e por isso mesmo buscando apartar a historiografia dos dois (DIAS, 2011, p. 47).

A paraibanidade forja um tipo específico de homem, valoroso, que foi modelado pelo espaço e que tem inclinação para a paz, para a bravura e para o republicanismo. Não é por acaso

que a autora intitula o seu livro de “Intrepida Ab origine”. Esse é o lema que está na bandeira da capital paraibana e significa “heróica desde os primórdios”. Essa frase casa muito bem com a

ideia construída pelo Instituto. Também não é à toa que o lema está na bandeira de João Pessoa, já que essa historiografia é majoritariamente pessoense (DIAS, 1996, p.17). Ainda segundo Dias,

isso mostra uma “ideia explícita de utilização do conhecimento histórico para justificar o domínio

de um determinado espaço” (1996, p.47).

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conferências, em teatros, clubes ou associações de imprensa. O jornal “A União”, periódico

vinculado ao governo do estado, era o meio que mais divulgava esses textos.

A história produzida pelo IHGP não se filiava a uma linha teórico-metodológica definida, mas incorporava algumas vezes os preceitos positivistas, como nos mostra Dias (1996, p. 49):

Sem uma linha teórica definida, essa publicação atendia, como dito anteriormente, ao objetivo maior do IHGP que era a escrita da história da Paraíba, pelos paraibanos. Se podemos apontar preocupações em alguns conferencistas e/ou escritores ligados à escola positivista, em outros, é a crônica ou a reminiscência que podemos detectar. A união proporcionada em torno do IHGP se dava por interesses bem locais e de ação e não de caráter teórico-metodológico, ou, pelo menos, não era por esse caminho que se davam as divergências.

Assim percebemos que a produção historiográfica proveniente do IHGP estava mais ligada à conjuntura política, econômica e social do estado, que tinha a necessidade de construir uma história edificada em fatos e personagens que ressaltasse a República. Para tanto, eles definiram

um calendário cívico “que inclui as datas de 05 de agosto de 1585, as lutas de resistências às invasões holandesas, a Revolução de 1817 e a proclamação da República, como se todas as datas

anteriores fossem um caminho para a última” (OLIVEIRA, 2011, p.45).

Apesar do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano ter sua marca própria, buscar seus objetivos específicos, ele nasce a partir da inspiração do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), inaugurado em 28 de fevereiro 1838, com sede no Rio de Janeiro, cujo dever era criar uma história para o Brasil. Esse foi um exemplo pioneiro e, a partir dele, para garantir as especificidades de cada região brasileira, foram sendo criados Institutos Históricos em cada estado.

Segundo Manoel Salgado Guimarães, o IHGB nasceu na consolidação do Estado Nacional brasileiro e buscou para si a tarefa de construir um perfil da “Nação Brasileira” que desse conta

de construir uma identidade própria do país. Essa Nação brasileira se via como continuadora do processo civilizador que os portugueses começaram, logo ela não fez oposição a sua antiga

metrópole. “Nação, Estado e Coroa aparecem enquanto uma unidade no interior da discussão historiográfica relativa ao problema nacional” (1988, p. 6).

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marca elitista, que se aproximava da tradição iluminista7. Assim, a história do Brasil foi criada a partir do lugar social dos membros do IHGB.

Projeto intelectual claramente centralista. Projeto esse bem articulado a um conjunto de interesses e questões de natureza política, econômica, e social, que explicam o porquê de certas tematizações de uma historiografia nacional em elaboração, visando a uma soma de

conhecimentos, e por que não a produção de um saber sobre o “Brasil” capaz de viabilizar

uma nova ordem (GUIMARÃES, 1988, p.24).

Desse modo, a história que foi criada pelos primeiros membros do IHGB tem como característica ser uma história elitista e conservadora, que refletia os interesses de seus membros

e da política vigente, que buscava mostrar a Nação brasileira como a “civilização nos trópicos”.

Para Guimarães (1988), essa historiografia produzida no IHGB define quem entra e quem fica excluído da história nacional. O conceito de Nação criado pelo Instituto é restrito as classes dominantes escravistas, que privilegiam o elemento branco. Nesse sentido, ela traz uma forte marca excludente, carregada de imagens depreciativas do “outro”, que vão sendo reproduzidas por muito tempo na sociedade brasileira (GUIMARÃES, 1988,p.7).

O início do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano se assemelha mais às ideias do IHGB após a proclamação da República. Contudo, claro, sem menosprezar os feitos da

Monarquia. Segundo Ângela de Castro Gomes, a época da chamada primeira República é “um momento dos mais ricos para o debate de ideias políticas e culturais do Brasil” (GOMES, 2009,

p. 21). Essa é uma época em que o IHGB já fez seus primeiros trabalhos, os quais pretendiam forjar a Nação brasileira. Após a República, era necessário criar um passado republicano para o país, se tornando esse espaço rico de ideias que Gomes falava.

Nesse debate, os intelectuais e políticos brasileiros buscavam entender e resolver o problema do atraso do país. Uma das formas foi encontrar as causas de sua origem, para então realizar um projeto que modernizasse o país. Essa foi uma época de intensos debates sobre modernização. Vários foram os projetos que surgiram para esse entento, mas apesar da

pluralidade, existia um ponto em comum: “o Brasil não seria moderno, não se tornaria um país

7 Vele lembrar aqui que o Iluminismo foi um conjunto de ideias filosóficas políticas, científicas e econômicas que

nasceram na Europa no século XVII e defendia que a Razão era a única forma de o homem chegar ao conhecimento. No IHGB as características do iluminismo são claramente vistas pelo tratamento linear dado ao

desenvolvimento da história, quanto por sua instrumentalização como “mestra da vida”.O Instituto se baseia

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civilizado. Sem o auxílio da ciência” (GOMES, 2009, p. 21-22). Coube ao IHGB então criar um passado para o Brasil, embasado na história científica.

Gomes (2009) chama a atenção para o fato de que, apesar de as primeiras décadas da República terem tido tanta efervescência de ideias, elas são vistas pejorativamente como uma época obscura de nossa história. Segundo a autora, essa visão foi criada pelo Estado Novo:

A Primeira República (só então “primeira”) recebeu essa designação (“velha”), por obra

e graça dos políticos e intelectuais do pós-1930, especialmente daqueles vinculados à proposta autoritária estado-novista, com a nítida intenção de acentuar sua força transformadora; na verdade, sua forma revolucionária (GOMES, 2009, p. 22).

A autora mostra então que a ideia de que a primeira república foi um fracasso político, repleto de erros como foi fomentada pelos intelectuais do Estado Novo. A partir desse olhar, só após 1930 é que o Brasil conseguiu efetivar de vez a República e sair do atraso. Dessa forma,

1937 é visto como um marco cronológico que enterrou de vez a República “Velha”, uma visão

teleológica, mas que dura até hoje (GOMES, 2009, p. 23). A autora ressalta a importância das ideias fomentadas durante a Primeira República, justamente para contrapor com esse conceito de atraso forjada no pós-1930.

Após a proclamação da República¸ como já mencionamos, o IHGB precisou escrever uma história que justificasse a República brasileira, mas também era preciso que, nesse passado forjado, fosse projetado um futuro que se pudesse acreditar. Esse ideal era pautado na ideia de modernização do Brasil.

Devido o IHGB ter nascido durante a Monarquia brasileira e, durante esse tempo, ter tido a proteção direta do Imperador, a entidade sofreu muito com o fim da Monarquia, principalmente no aspecto financeiro. Embora muitos de seus membros fossem contrários ao sistema republicano, o IHGB percebeu que para sobreviver precisava se adaptar aos novos tempos e fez uma reorganização de sua prática e de seu discurso (GOMES, 2009, p. 30).

Assim, o IHGB começou a desenvolver materiais que inventassem uma tradição política republicana para a história do Brasil. Esse empreendimento, segundo Gomes (2009), era delicado, uma vez que o Instituto não podia desvalorizar o passado imperial, nem deslegitimar o

presente republicano; “nesse sentido, o desafio dos historiadores do IHGB era de tornar palatável uma articulação entre Colônia, Império e República, sem obscurecer as tradições dos primeiros,

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Dessa forma, foi criado o ideal republicano brasileiro, que antes de tudo era oligárquico e conservador, mas que se escondia por trás das bandeiras de abolição e de modernização do país. O IHGP nasce após essa discussão e adaptação do IHGB, logo o Instituto Paraibano surge já com a ideia consolidada do republicanismo, causa que vai se tornar uma de suas principais bandeiras.

Elpídio de Almeida, como membro do IHGP, assimila esses ideais, junta-as com as suas

experiências vividas em Campina Grande e escreve “História de Campina Grande”. Dessa forma,

para entendermos a obra de Almeida ainda precisamos compreender como estava organizado o lugar social do autor. Para isso, precisamos entender como estava Campina Grande na época da escrita do livro.

1.2A Campina Grande que Almeida viveu

Elpídio de Almeida chegou a Campina Grande em 1921 e viveu nela até 1971, ano de seu falecimento. Foram cinquenta anos em que Almeida vivenciou as principais mudanças que ocorreram na cidade, como aquelas na estrutura física. Presenciou também o auge e o declínio do comércio de algodão, o crescimento populacional, o início da industrialização, além do declínio econômico e muitas mudanças sociais e políticas.

Elpídio de Almeida viveu o que as elites locais chamam de “época áurea” da cidade, tempo

que esses grupos acreditam ser o auge da grandiosidade de Campina Grande. Ter vivido tudo isso

é um dos fatores que o levou a escrever “História de Campina Grande”.

Vamos então fazer uma breve apresentação de como se encontrava, em alguns aspectos, Campina Grande entre as décadas de 1920 e o início de 19608. Não temos a pretensão de fazer um estudo detalhado sobre esse longo período, apenas alguns apontamentos do que acreditamos ser crucial para entender os posicionamentos de Elpídio de Almeida em seu livro.

Quando Almeida chegou a Campina Grande, entre as décadas de 1920 e 1930, a cidade ainda era um burgo que estava dando início a seu desenvolvimento. Alguns aparatos ditos modernos9 já haviam sido instalados na cidade, essas conquistas materiais geraram impactos que

8 Para fazer essa incursão na História da cidade utilizamos as contribuições de diversos autores. Temos ciência que

esses lêem Campina Grande de formas distintas, mas os utilizamos em conjunto porque queremos reconstruir o contexto e o lugar social em que Elpídio de Almeida estava inserido e esses trabalhos são os de referência na área sobre cada período que abordaremos aqui.

9 Como o trem, o telégrafo, o telefone residencial, o cinema, o automóvel, a luz elétrica, dentre outros (AGRA, 2010,

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criaram no imaginário urbano a ideia de que tendo contato com esses símbolos do moderno o desenvolvimento iria chegar à Campina e seus benefícios iriam atingir a todos.

Segundo Aranha (2005) esses símbolos modernos tomaram valores universais, desse modo, qualquer cidade, independentemente do tamanho, que tivesse contato com eles era considerada moderna ou em sintonia com o mundo civilizado ( p.67). Assim aconteceu em Campina Grande. Mesmo sendo uma cidade relativamente pequena, os aparatos modernos que nela foram instalados fizeram com que fosse criado um discurso de que a cidade estava moderna e grandiosa. Giscard Farias Agra (2010, p. 24) afirma:

E a Campina Grande da década de 1930 parecia querer ser moderna. Pelos discursos dos diversos grupos que detinham certo tipo de poder na cidade – político, econômico, intelectual, religioso, dentre outros –, entrou em contato com aspirações e desejos de modernizar a cidade, tanto no tocante à sua infraestrutura, às suas ruas, às suas moradias, quanto no tocante aos costumes de seu povo. A palavra de ordem para esses grupos –

administradores, políticos, comerciantes, jornalistas, médicos, engenheiros, advogados, juízes, clérigos –, parecia ser construir Campina como uma cidade grande, moderna civilizada, europeizada – ou, na impossibilidade, ao menos forjá-la moderna, tendo como modelo o Rio de Janeiro, a capital federal, ou ainda, o Recife, a capital regional do que então nascia como Nordeste.

Mas foi na década de 1930 que o discurso de fazer Campina grandiosa começou a tomar força na cidade. As elites locais sedentas pela modernização e por um maior crescimento econômico e político da cidade uniram forças para mostrar em seus discursos que Campina não só era grande como possuía potencial para crescer ainda mais. A construção desses discursos não se davam em vão. Ao falar sobre a grandiosidade e o potencial de Campina, a cidade atraia ainda mais consumidores e investidores que dariam ainda mais lucro a algumas camadas dominantes. E esse discurso Elpídio de Almeida incorpora em sua obra.

Falavam que Campina Grande era moderna, civilizada, grande, mas os campinenses que pela cidade passavam ainda não haviam visto grandes mudanças na cidade. Nas ruas podiam ser vistos animais10, ruas estreitas e sem calçamento e casas simples, ou seja, Campina Grande

continuava, principalmente no centro da cidade, com o mesmo traçado urbano do século XIX. Para uma cidade que se pretendia grande, a sua fisionomia não estava adequada ao posto.

10Sobre a ideia de velho/novo e atraso que os animais traziam para Campina Grande ver: AGRA, G. F.

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Vergniaud Wanderley11 foi o homem que literalmente “botou abaixo” o velho centro da

cidade e construiu um novo a partir de padrões estéticos modernos, ele foi o prefeito que

empreendeu a reforma arquitetônica na cidade, o conhecido “bota-abaixo”12. Entre as décadas de

1930 e 1940 o prefeito desapropriou e deu ordens de “bota-abaixo” a centenas de casebres,

casarões, igrejas, armazéns, que ficavam situados no centro da cidade. Tudo que impedisse seu plano de deixar a cidade com ares de moderna foi ao chão13.

Nesse período, Elpídio de Almeida já estava totalmente envolvido nesses círculos sociais. Em 1929, ele já tinha sido eleito Conselheiro Municipal. Durante a década de 1930, começou a exercer cargos junto a influentes órgãos da sociedade campinense. Foi Inspetor Federal de Ensino junto às principais escolas particulares da cidade, o Colégio Pio XI e o Colégio das Damas, de 1930 a 1947. Dessa forma, vemos que Almeida já participava ativamente da sociedade Campinense, e sem dúvidas estava envolvido na criação do discurso de grandiosidade para a cidade.

Elpídio de Almeida, pelo seu envolvimento na sociedade campinense, se tornou uma figura conhecida na cidade, o que lhe rendeu a indicação para concorrer à prefeitura nas eleições de 1947. A disputa política se deu contra Veneziano Vital do Rêgo, político pernambucano, que foi indicado por Argemiro de Figueiredo, na época, ex-governador e chefe da UDN14. O ex-governador, visando voltar ao poder, impôs a candidatura de seu cunhado Veneziano Vital do Rêgo, pois esse era um homem de sua inteira confiança.

Essa imposição desagradou praticamente todos os membros do partido, inclusive José Américo de Almeida, que na época era o maior representante da política paraibana e também era

um dos líderes da UDN, ocasionando um racha no partido em duas frentes: “argemiristas” e

11 Vergniaud Wanderley nasceu em Campina Grande e era filho de uma tradicional família de proprietários de terra

da Paraíba. Formou-se bacharel em direito pela Faculdade de Direito do Recife, em 1929, e de lá foi para o Rio de Janeiro onde seguiu sua carreira. Voltou para Paraíba, quando, por convite do então governador e amigo Argemiro de Figueiredo, veio fazer parte do seu governo, primeiro como chefe da polícia e depois como secretário da agricultura (SOUSA, 2003, p. 68-69).

12 Mais sobre o assunto ver o artigo Campina Grande: cartografias de uma reforma urbana de Fábio Gutemberg

de Sousa.

13 Esse processo seguia as tendências das mudanças que já vinham acontecendo no Brasil (início do século XX) e no

mundo (desde o século XVIII). Um novo código estético e higienista tomavam conta das cidades.

14 A União Democrática Nacional, segundo Cittadino, formou-se em âmbito nacional a partir de opositores do regime

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“americistas”. Elpídio de Almeida resolveu se candidatar e formou a chapa de oposição de Vital

do Rêgo, com o apoio de José Américo de Almeida, seu primo.

O apoio de José Américo de Almeida foi importante para sua candidatura, uma vez que ter como apoiador um nome de peso como o dele era um trunfo nas mãos de Elpídio de Almeida. Além disso, ele se coligou a outros políticos locais membros do PDC e PSD, que juntos fundaram a Coligação Democrática Campinense, além de contar com o apoio dos comerciantes, funcionários públicos, profissionais liberais.

Felix Araújo coordenou a campanha de Almeida. Ele desenvolveu métodos diferentes para a época, tornando-a pioneira em fazer passeatas e comícios. Ela foi embalada por um jingle que

explorava o slogan de Elpídio de Almeida como candidato dos pobres e da religião. A imagem de

Almeida como doutor e homem instruído também foi usada. Essas estratégias de Felix Araújo tornaram a candidatura de Almeida muito popular.

Em seus discursos, Almeida se mostrava como o candidato dos pobres, usava bandas de músicas em passeatas para chamar mais a atenção do povo. As classes populares precisavam ser conquistadas porque o voto agora não era mais de cabresto15, os votos deveriam ser adquiridos através de promessas que a massa desejava ouvir (CITTADINO, 1998, p. 54-55).

Com as alianças e o apoio que teve unido a um discurso de renovação e de uma maior racionalização da administração pública Elpídio de Almeida venceu o pleito e se tornou prefeito da cidade. Sua gestão foi marcada por diversas obras públicas. A construção da maternidade pública foi a que mais teve destaque.

A popularidade de seu governo foi tanta que, em 1950, ele foi eleito Deputado Federal. E, em 1955, voltou a disputar, e ganhar, a eleição para prefeito Campina Grande. Dessa vez, a disputa foi contra Severino Cabral, que contou com o apoio de Argemiro de Figueiredo. Esse apoio se deu pelo casamento de um de seus filhos com a filha do ex-governador. Mais uma vez, Almeida teve o apoio de uma liderança forte na política do estado. A diferença é que nessa eleição seu nome como político já estava consolidado. Em 1959, termina seu mandato e sua atuação na vida política do estado.

15O voto de cabresto foi uma prática constante durante a “República Velha”, quando vigorava o Coronelismo.Trata

-se de uma forma de controle político através do voto para manipular as eleições. No início do século XX, a maior parte da população brasileira se encontrava na zona rural, área onde os grandes proprietários de terra, chamados coronéis, detinham grande poder.Eles usavam esse poder para garantir a eleição dos candidatos que apoiavam, assegurando o voto do povo através de “favores”. Quem se negasse a votar poderia ser vítima da violência dos

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Vemos então que, entre o final da década 1940 e durante toda a década de1950, Elpídio de Almeida estava totalmente envolvido nos assuntos da cidade e esse envolvimento foi crucial para

a construção de algumas posições que Almeida toma em “História de Campina Grande”.

No final dos anos de 1940, o comércio de algodão em Campina Grande já não tem mais a força de antes. Quando chega a década de 1950, a cidade procura um novo lugar para si. Campina

já não era mais a “Liverpool brasileira” 16, mas estava começando a se industrializar. Os letrados

da cidade a descreviam como um burgo que se tornava a cada dia mais próspera o que fazia jus à grandiosidade que aparecia em seu nome (AGRA DO Ó, 2006, p. 17).

Os letrados campinenses faziam questão de ressaltar a grandiosidade da cidade e os

números eram os seus maiores aliados e serviam para “provar” que Campina era grande. No final da década de 1950, Campina Grande era o mais populoso município do estado (numericamente a população de Campina Grande era maior do que a de João Pessoa). Era também a cidade mais importante economicamente do estado, pois cerca de 40% da arrecadação paraibana de tributos saiam de lá (AGRA DO Ó, 2006, p. 29). Esses números renderam à cidade diversos apelidos,

como a “Capital do Nordeste Brasileiro” e “Rainha da Borborema”.

Os empresários interessados em reforçar ainda mais a imagem de Campina Grande como polo econômico divulgaram junto a investidores do Sul do Brasil vários documentos que apontavam que cidade oferecia condições ideais para investimentos, uma vez que estava em pleno desenvolvimento e que havia matéria-prima, energia, mão de obra barata e incentivos do governo (AGRA DO Ó, 2006, p.30-33). Esse interesse dos empresários em chamar investidores para a cidade não era à toa, pois quanto mais empresas na cidade maior era a possibilidade de lucro.

Alguns estudiosos e jornalistas da região Sudeste também se interessaram por Campina Grande. Eles queriam entender como uma cidade do interior da Paraíba conseguiu se desenvolver tão rápido. Segundo Fábio Gutemberg de Sousa (2006, p. 183), em julho de 1962 uma equipe de pesquisadores, composta em sua maioria por geógrafos, veio a Campina Grande para explicar para o Brasil como o município obteve tamanha pujança comercial.

16Esse é um dos termos que a cidade ganhou na época do auge do comércio de algodão. O nome Liverpool brasileira

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Após realizar um detalhado estudo, a equipe concluiu que Campina Grande conseguiu sua importância principalmente pelo fato de ter grande influência nas cidades da região e comparou a cidade a São Paulo, devido à influência da metrópole sobre a região Sudeste e Sul. Essa comparação foi um júbilo para as elites locais. Campina estava sendo comparada a maior cidade do país, o que selava a ideia de sua grandiosidade (SOUSA, 2006, p.184). Mas, como mostra Alarcon Agra do Ó:

Paralelamente a isso, no entanto, silêncios eram produzidos para outras possibilidades de expressão ou de desenho da cidade e da vida urbana. Interessava a essas vozes que buscavam se fazer hegemônicas a existência de um sem-número de sujeitos calados, obedientes, produtivos no seu alheamento, na sua colocação à margem dos eventos realmente eficientes. A estratégia maior era fazer com que esse desejo de identificação com a modernidade passasse por ser o desejo de toda a cidade, como se fosse possível canalizar numa única conformação da paisagem a energia dos desejos (AGRA DO Ó, 2006, p. 19).

Concordamos plenamente com a afirmação acima. A ideia da grandiosidade de Campina Grande era difundida como se todos os cidadãos da cidade tivessem tido acesso às benesses que o comércio de algodão trouxe. Dentro desse discurso, era necessário também silenciar as vozes

dissonantes e “esquecer” todos os indicadores que se mostravam contrários à essa ideia. Isso é justamente o que Elpídio de Almeida fez em seu livro: deu voz aos que ele acreditava ser as pessoas e os acontecimentos que mostravam a grandiosidade da cidade e silenciou o que não casava com esse discurso.

O desenvolvimento econômico de Campina Grande trouxe muitos benefícios para a cidade, principalmente para as elites, mas trouxe consigo também as contradições que geralmente ocorrem em um processo de crescimento e modernização. Como o desenvolvimento da cidade atraiu muita gente, muitos tinham o sonho de uma vida melhor nesse lugar que parecia ser tão cheio de oportunidades, mas nem todos conseguiam realizar seus sonhos e ficaram à margem dos avanços.

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As elites, particularmente os comerciantes, junto com a administração local, acreditavam

que essas pessoas “enfeiavam” a cidade e era preciso resolver o problema. Decidiram então fazer uma “limpeza na casa” e retirar do seu centro essas pessoas que eram indesejáveis.

Segundo Silvera Vieira de Araújo (2010), essas medidas tomadas pelo poder público municipal e pelos comerciantes constituíram-se em um caso de higienização social. Na

impossibilidade de se conviver com o “desviante”, a estratégia adotada era retirá-los da vista, confinando-os em asilos, no caso dos mendigos, ou dispersando-os para os lugares distantes, como ocorreu com as prostitutas, mas, em ambos os casos o que prevaleceu foi a intolerância

diante do “outro”, do “diferente”, que não é compreendido nem muito menos aceito (p. 89).

Essas medidas sanitaristas de Campina Grande se deram a partir do processo de higiene social que era fundamentado nas teorias da Eugenia17, do Darwinismo Social18 e da Antropologia

Criminal19, que contribuíam na elaboração de tipos considerados desviantes da sociedade

moderna (ARAÚJO, 2010, p. 87-88). Assim, vemos que essa higiene social pretendia controlar

esses indivíduos justificada pelo argumento de que eles são “anormais” e “desviantes”, o que

mostra a intolerância das elites locais.

Essa intolerância se dava, entre outras coisas, pelo medo que as elites tinham dessas mudanças. Campina Grande seguia até então uma ordem que era controlada por esses grupos. A

partir da chegada de tantos “estranhos”, a dinâmica da cidade muda. Essas mudanças não

acompanham o gosto das elites. Mais uma vez concordamos com Alarcon Agra do Ó, quando afirma que:

Ter medo e ver perigo de desequilíbrio da ordem em todos os instantes não era fruto apenas de uma sensibilidade paranoica impressionada pelos delírios da Guerra Fria. A tensão social naqueles anos já era um dado presente no cotidiano das cidades brasileiras, e exemplos de invasões por camponeses famintos eram frequentes. Por exemplo, grande destaque foi dado pela imprensa aos eventos ocorridos em meados de janeiro de 1959, quando a cidade de Soledade foi invadida por dois mil flagelados exigindo comida e

17 O pensamento eugênista se solidificou em meados do século XIX quando o inglês Francis Galton, inspirado pela

teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, propôs uma melhoria da raça humana através da biologia. Nessa proposta,os indivíduos mais fortes deveriam ser selecionados e os mais fracos eliminados ou controlados (ARAÚJO, 2010, p. 88).

18 É baseado nas ideias de seleção natural de Charles Darwin que aplicada à sociedade afirma que a sua evolução

estaria assegurada a partir da eliminação de seres defeituosos, inferiores e mais fracos através das gerações. (ARAÚJO, 2010, p. 89).

19 Essa teoria foi desenvolvida pelo italiano Lombroso, que dizia que o criminoso era fruto de uma determinação

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trabalho. Os comerciantes deram comida aos invasores, a pedido do prefeito, em meio a grande pânico.

A cidade tinha suas fronteiras abertas e isso gerava sentimentos ambivalentes, na medida em que os recém-chegados eram entendidos como uma ameaça à tranquilidade se não eram incorporados de alguma forma ao cotidiano habitual, o que só ocorria por intermédio de sua inserção no mercado de trabalho – quando aí, esses novos habitantes recebiam uma carga de sentimento mais positiva para os da terra (2006, p. 47).

Vemos então que o pavor das elites se dá pela utópica ideia de que a cidade deve funcionar a partir de seus quereres, criando uma urbe idealizada, e nessa utopia de cidade não cabem

pessoas que a “enfeiam”, que fazem “badernas”, tirando o sossego dos “homens de bem”, que “manchem a reputação” das senhoras e senhoritas da cidade. Além disso, outro fator que gera

medo nas elites é o fato dos populares se organizarem e juntos reivindicarem seus direitos. O pavor de ver a massa unida se dá principalmente porque esses podem questionar e, se quisessem, tirar os privilégios e o poder desses grupos mais abastados.

Com o fim da II Guerra Mundial, iniciou-se a Guerra Fria e o medo do comunismo intensificou-se. As ideias socialistas já tinham muita influência dentro da sociedade, principalmente por meio de partidos que congregavam os trabalhadores e os sindicatos. Essas organizações e partidos de esquerda influenciaram muitas movimentações populares.

Segundo Monique Cittadino (1998, p. 28), ao longo da década de 1950, as classes trabalhadoras paraibanas passavam por um panorama sombrio. O setor algodoeiro estava em um momento de regressão e, além disso, a penetração das relações capitalistas de trabalho fez com que a exploração do trabalhador rural aumentasse as tentativas de expulsão e expropriação dos camponeses da terra. Nas cidades, as coisas também não estavam fáceis a retração das atividades industriais aumentou o desemprego e a exploração da força de trabalho.

A década de 1950 marca na Paraíba a consolidação dos interesses econômicos burgueses, foram deixadas de lado as querelas oligárquicas em prol de assegurar o controle político e o processo desenvolvimentista que estava em processo. A economia desenvolvimentista, implantada no Brasil principalmente durante o governo de Juscelino Kubitschek, acentuou ainda mais as desigualdades no campo e na cidade (ARAÚJO, 1999, p. 101-102).

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basicamente as lembranças de seu auge e a necessidade latente de implantar uma nova forma de ganhar dinheiro, a industrialização.

Diante desse quadro de adversidade, os trabalhadores do campo e da cidade se organizaram e, efetivamente, começaram a lutar pelos seus direitos. Durante a década de 50, foram muitas as notícias em jornais paraibanos acerca de movimentos de diversas categorias de trabalhadores (CITTADINO, 1998, p. 75), mas foi o movimento das classes do Campo, as Ligas Camponesas, que mais teve destaque na época.

Questionando a estrutura agrária nordestina, responsável pelo estabelecimento de relações de poder que subjugavam e dominavam os camponeses, foram organizados, ao longo da década de 50, encontros e congressos que tiveram profunda repercussão na organização dos primeiros núcleos das Ligas Camponesas na Paraíba. Entre 1953 e 1958, a Paraíba participou e inclusive sediou vários desses encontros, onde a presença dos camponeses era predominante. Para a sua organização, a participação, mesmo na clandestinidade, do Partido Comunista era marcante e pautava-se, em geral, na perspectiva de incentivo à formação da aliança operário-camponesa com vistas à promoção da revolução anti-imperialista e democrático-burguesa (CITTADINO, 1998, p. 78).

Os proprietários rurais sabiam que só podiam ter de volta as terras que os camponeses moravam expropriando os moradores e arrendatários delas. No entanto, com a impossibilidade de uma imediata expulsão, passaram a usar outros mecanismos (proibição de atividades que complementassem a renda, destruição de roçados pelo gado, ameaça e invasões ou destruição de moradias), tornando a sobrevivência em suas terras quase impossível e forçando os moradores a saírem (CITTADINO, 1998, p. 82-83).

Diante disso, os camponeses não aguentaram e começaram a enfrentar os latifundiários, o que gerou inúmeras mortes e aumentou ainda mais a insatisfação dos campesinos, como afirma

Marta Lúcia Ribeiro Araújo: “foi com a conivência das autoridades constituídas que cometeram as mais cruéis arbitrariedades contra os camponeses e seus líderes” (1999, p. 107).

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atenção do Brasil e de outros países para a situação crítica em que se encontrava o Nordeste brasileiro (CITTADINO, 1998, p. 88).

A partir daí, o movimento estudantil e os trabalhadores da cidade se uniram à causa, realizando grandes protestos e manifestações. Contudo, isso não diminuiu a violência dos latifundiários. João Pedro Teixeira foi apenas um dos vários que morreram lutando. As Ligas Camponesas, os movimentos estudantis, as greves que aconteciam nessa época eram um sinal da profunda desigualdade social na qual o Brasil como um todo se encontrava.

Segundo Araújo (1999) as classes políticas do Estado consideravam a questão das Ligas Camponesas como caso de policia e de subversão, dessa forma intensificou-se a violência no estado como a forma encontrada para conter o movimento, a morte de João Pedro Teixeira e vários outros camponeses era um exemplo de como eram resolvidas as coisas. No entanto, essa violência gerou a possibilidade de um conflito armado, o que alarmou as classes no poder, que começaram a aceitar a ideia de uma Reforma Agrária que acalmasse os ânimos, mas não comprometesse a estrutura fundiária do Estado (p. 106).

A pesar da pressão popular, sabia-se que seria muito difícil a aceitação das elites agrária a ideia da Reforma Agrária, além disso, as elites comerciais e industriais ainda precisavam se adequar ao ideal desenvolvimentista. Assim vemos, que uma gama de conflitos econômicos, políticos e ideológicos estavam em jogo no início da década de 1960, e esses culminaram com o golpe militar de 1964.

Nessa década a Paraíba, como também o restante do Brasil, vivia as contradições da política populista, uma vez que essa já não atendia as demandas da política da época que tinham que lidar com as pressões dos conflitos populares e exigências das elites. O governador da Paraíba em 1964 era Pedro Gondim, típico político populista que foi eleito em 1960 através do

“Querenismo”: movimento popular que reivindicava a eleição de Gondim, além do apoio popular Pedro Gondim contou com o apoio político da UDN e de grupos oligárquicos (CITTADINO, 1999, p.111).

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reprimiu vigorosamente o processo de mobilização popular. Assim, quando o golpe eclodiu, o governo da Paraíba já estava em consonância com a política golpista e deu total apoio a ela (CITTADINO, 1999, p.111-112).

Ainda segundo Monique Cittadino o golpe militar foi organizado por vários por vários setores da sociedade paraibana que buscavam a todo custo controlar as manifestações populares, como mostra o trecho a seguir.

A conspiração golpista na Paraíba envolveu a participação conjunta de setores civis e militares interessados na repressão ao avanço popular. Proprietários rurais organizados na Associação dos proprietários da Paraíba (APRA), comerciantes, empresariado industrial, políticos não só da UDN mas também do PSD mantinham contado permanente com o 15 RI, comandante Ednardo D´Ávila Mello, que se tornou uma das figuras centrais no processo golpista na Paraíba segundo depoimentos de elementos vinculados às forças golpistas, o processo de conspiração incluiu a organização, encabeçada pelo Cel. Renato Ribeiro de Moraes, de falanges de sargentos, cabos e soldados reformados da Policia Militar e do Exército para uma possível luta armada se necessário fosse. A organização dessas falanges simultaneamente ao processo de constituição de exércitos privados indicam eu as forças conservadoras estavam prontas para conter qualquer resistência à implantação da nova ordem (CITTADINO, 1999, p. 112-113).

Vemos assim que o aparelho do Estado se organizou para manter a ordem da forma que fosse possível. Os movimentos populares como as Ligas Camponesas foram duramente abafadas, assim também aconteceu com qualquer voz que parecesse destoante nesse estado de ordem.

Para nosso trabalho é importante entender que as décadas de 1950 e 1960 foram importantes na consolidação do ideal político de Elpídio de Almeida, uma vez que, a década de 50 marca o fim do primeiro mandato dele como prefeito de Campina Grande e seu segundo mandato20. Almeida estava em consonância com esse movimento político que irá culminar com o golpe de 1964 e esse seu alinhamento com esses interesses burgueses e com sua forma de política é bastante elucidativo para entendermos alguns posicionamentos do autor em sua obra.

Em Campina Grande o golpe de 1964 coincidiu com a festa de centenário da cidade. Newton Rique tinha acabado de ser empossado como prefeito, assim como no restante da Paraíba, em Campina Grande o golpe de 1964 foi apoiado pelas classes conservadoras, pelo comércio e a indústria. Desde os primeiros dias da implantação do estado autoritário os militares começaram a perseguir seus opositores e cassar mandatos, Newton Rique tentou garantir o apoio dos militares, mas como havia sido eleito pelo PTB e possuía laços de amizade com o ex-prefeito

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Referências