PROPAGAÇÃO,
PROPHYLLAXIA
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Dissertação Inaugural
APRESENTADA Á '
ESCOLA MEDICOCIRURGICA DO PORTO
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POR
SEVERIANO JQSE DA SILVA
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TYP, DE ARTHUR JOSÉ DE SOUS3 í IRMÃO 74, Largo de S. Domingos, 76
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DIRECTOR
CONSELHEIRO MANOEL MARIA DA COSTA LEITE
(VISCONDE DE OLIVEIRA)
SECRETARIO
RICARDO D'ALMEIDA JORGE
CORPO C Â T H E D R A T I C O
LENTES CATHEDRATICOS
i J Cadeira—Anatomia descriptiva e geral João Pereira Dias L e b r e .
2.'A Cadeira—Physiologia Vicente Urbino de Freitas.
3 .a Cadeira—Historia natural dos
medi-camentos. Materia medica D r . José Carlos Lopes.
4.a Cadeira—Pathologia externa e
thera-peutica externa Antonio Joaquim de Moraes Caldas.
5.a Cadeira—Medicina operatória . . . . Pedro Augusto Dias.
6.a Cadeira—Partos, doenças das
mulhe-res de parto e dos recem-nascidos . D r . Agostinho Antonio do Souto.
j . 'A Cadeira—Pathologia interna e
The-rapeutica interna Antonio.d'Oliveira Monteiro.
8.a Cadeira—Clinica medica Antonio d'Azevedo M a i a .
Q.a Cadeira—Clinica cirúrgica Eduardo Pereira Pimenta.
io.i l Cadeira—Anatomia pathologica . . . Augusto Henrique d'Almeida Brandão^
i i .a Cadeira—Medicina legal, hygiene
pri-vada e publica e toxicologia Manoel Rodrigues da Silva Pinto.
i 2 .a Cadeira—Pathologia geral,
semeíolo-gïa e historia medica . . , Ulidio Ayres Pereira do Valle. Pharmacia Isidoro da Fonseca M o u r a .
LENTES JUBILADOS
i J o ã o Xavier d'Olïveîra Barros.
Secção medica . . , j J M. d.A„ d r a d e Qramacho.
Secção cirúrgica 1 Visconde d'Oliveira. LENTES SUBSTITUTOS
| Antonio Placido da Costa.
Secção medica j M a x i m i a n o A - d'Oliveira Lemos J u n i o r .
] Cândido Augusto Correia de Pinho.
Secção cirúrgica . . . , KiclLrio d'Almeida J o r g e .
i ' LENTE DEMONSTRADOR
Secção cirúrgica 1 Roberto Belarmino do Rosário F r i a s .
A Escíila não response pelas doutrinas expendidas nas disserta-ções e enunciadas nas proposidisserta-ções.
MEUS PAES
A
UWMA V AMELIA
—o^sm-o
AOS MEUS CONTEMPORÂNEOS
João Gonçalves Costa
Hntonio F. Pereira Ramos
.
<?>homaz Leão
Hntonio J. Gonçalves de Figueiredo
=-<33«AOS MEUS AMIGOS
Hntonio Julio Saldado
Hntonio Hu|usto Renr
Ligues
Vidal Oudinot
José Luiz P. Hlves Basto
Duarte de Bijito Vidal
Carlos Fernandes Hlves
ÍRanoel Joaquim da Silva Costa
»
AO MEU PROFESSOU
Antonio d'Azevedo Maia
»
Escolhemos para assumpto da nossa these
os capítulos que mais importantes nos
parece-ram sobre o cholera-morbus. Entre elles
mere-ceu-nos mais demorada attenção a
prophyl-laxia.
,
A coroa da medicina na doença é a cura;
mas na epidemia é a perservação ; por isso lhe
demos a preferencia.
Não temos a pretenção de ver no que
fize-mos uma obra de grande valor.
A lei exige que, ao terminar a nossa
car-reira, façamos um trabalho escripto ; mas a
ne-cessidade, mais imperiosa, obriga a que se faça
depressa e por isso incompleto e mal
alinha-vado.
NEstudamos o cholera que por tamanhos
motivos interessa hoje Portugal e n'este estudo
luctamos com a carência de publicações
mo-dernas, tendo grande trabalho em as pesquizar
aqui ou além, n'uma ou n'outra revista.
Animou-nos porém em nosso labor a
des-ordem e o encontrado d'ideias que por toda a
parte explodiram á nova da epidemia em
Es-panha.
Uns diziam improfícuo o serviço que se
está fazendo na fronteira, outros achavam-n'o
perfeitamente racional e de garantia. Uns
pro-clamavam elixires anti-cholericos, outros
des-criam de suas virtudes. Emfim cada qual, que
se achava entendido na materia, emittia o seu
voto tirado de base bem ou mal estabelecida.
Para as medidas que indicamos foram-nos
sempre criticos os factos da clinica e os dados
experimentaes e, quando a medida o exigia, as
condições do nosso paiz. ,
Sobre este triangulo assenta o que o nosso
trabalho poderá ter d'util.
IODO DE PROPAGAÇÃO DO CHOLERA
A bactereologia é um producto do século pre-sente e são tão seguras as suas bases que não ha hoje, no mundo medico, quem não admitta os mi-cróbios como causa de doença.
O que hoje se sabe do cholera morbus permitte affirmai' que é uma doença microbiana e que a sua bacteria especifica é o bacillo virgula descoberto por Koch em 1883.
Estabeleceu a sciencia medica que, para um or-ganismo contrair doenças de tal ordem, duas condi-ções se devem dar : a presença do micróbio e a pre-disposição que torne o organismo favorável á sua pululação.
A segunda condição, para a doença que nos oc-cupa, é quasi completamente desconhecida ;
theses variadas se tem ernittirlo a seu respeito, po-rem nenhuma logrou estabelecer-se como definitiva.
Não é intento nem feição nossa fazermos um trabalho ou entrarmos n'uma discussão cujas hases mais solidas assentem no campo movediço das hy-potheses.
Não é também o que, nas circmnstancias actuaes se deve exigir de quem escreve sobre esta doença. Prophyllaxia e tratamento estabelecido em bases so-lidas, eis o que deve occupai' quem toma tal incum-bência.
A primeira condição — a presença do micróbio é bem mais esclarecida. E\ ella lambem, que nos íica como base no campo d'acçâo, na perservaeão e cura d'esta doença.
0 bacillo não é gerado inicialmenle no interior do organismo, provem-lhe do inundo exterior; e como este é, em tudo, sujeito e sacrificado até á vida e felicidade humana, qualquer meio (que os ha) pôde ser aproveitado para conseguir a sua destrui-ção.
Por isso, emquanto o bacillo está fora do or-ganismo, é materialmente possivcl destruil-o ou evi-tal-o ; é questão de sabermos a sua séde. E' esta im-prescindível para a pratica da prophyllaxia do cho-lera. Também por ella iniciamos o nosso trabalho, como primeira base ou indicação do que nos ha de devidamente occupai'.
(3 cholera é oriundo das margens e bocas do Ganges. Alii se manifesta todos os annos ou quasi
19
todos, sem que, para isso, grasse em qualquer
ou-tro ponto do-mundo. N'estes, ao contrario, não
ap-parece sem que lá tenha primeiro rebentado. Uma
epidemia extra-gangetica, uma vez suffocada, não
reapparece sem que haja nova importação directa
ou indirecta do foco inicial.
São factos estes, attestados por todos os que de
perto tem seguido as epidemias cholericas ; e se a
que reina actualmente em Espanha, começada
se-gundo parece em Puebla de Paigat, não pôde ainda
incluir-se n'estas proposições geraes, é devido a que
tireumstancias, por certo, especiaes se deram no
seu modo d'appariçao.
Uma causa, talvez, a mais importante das que
concorreram a projectar sombra sobre o caso, foi
que o diagnostico, só um mez e tanto depois de a
doença fazer victimas, foi decidido.
Os primeiros casos foram portanto ignorados e
o erro de diagnostico, difficil senão impossível de
remediar, falseará quem seja encarregado de
estu-dar o modo como a epidemia explodiu.
Koch consultado sobre o facto responde da
se-guinte forma :
«De todos os trabalhos que conheço sobre o
choiera, não consta um só caso sequer no qual esta
doença, depois de ter desapparecido d'uma
locali-dade durante vários annos ahi tenha reapparecido
sem de novo ter sido importada. Da mesma maneira
nunca se constatou com certeza a apparição do
cho-lera em seguida a uma exhumação, passado um.
certo tempo, de cadáveres de eholericos, como se
pretendeu na epidemia actual da Espanha.
Eu creio, pois, que antes de fazer um juizo
de-finitivo sobre a origem do choiera em Puebla de
Rugat, é preciso esperar que, investigações dignas
.de fé, sejam feitas no próprio local e que se
te-nha presente, não somente o que dizem os
jor-naes políticos, mas também coinmunicações
scien-tilicas.
Seja como fôr, a hypothèse d'uma nova
impor-tação do cholera não é inadmissível, como o
mos-tram já os últimos telegrammas, segundo os quaes
a doença teria sido importada por eholericos vindos
de Gibraltar ou das ilhas Philipinas.
É preciso esperar que o futuro nos traga uma
explicação satisfatória d'esté facto singular, a saber
que as doenças infecciosas, sendo subordinadas a
certas leis determinadas, affectam, muitas vezes, na
sua expansão, modalidades caprichosas muito
bizar-ras.»
Podemos d'aqui concluir que o bacillo
chole-rico é gerado inicialmente na índia (talvez no solo
por condições telluricas especiaes) ; de lá sae elle
em emigração dando causa a epidemias que se
es-tendem por toda a face da terra.
D'esta forma o que temos a temer, em todos
os tempos, é a importação por mar ã" bordo das
em-barcações procedentes da Índia quando lá rebente o
cholera.
Mas por outro lado pôde elle tembem invadir o
,
21
nosso reino. Uma vez estabelecido no solo europeu,
pode propagar-se por terra, lenta ou rapidamente
violando-nos a raia secca.
É o que hoje, mais seriamente nos préoccupa
com a epidemia que desvasta a Espanha.
Todos e por toda a parte perguntam se o
chole-ra virá a Portugal ? Qual o agente que nol-o tchole-rará ?
Uma e mesma pergunta que se traduz pela
forma seguinte : Como se propaga o cholera por via
terrestre ?
É esta, sem duvida, nas condições em que nos
achamos a indicação capital.
0 cholera lavra além da fronteira e bate á nossa
porta como já suecedeu nas demais epidemias.
A Espanha está hoje convertida n'um foco
cho-lerico, que nos ameaça a cada momento e contra
o qual temos dè nos precaver tão seriamente como
contra a índia. D'esta é importada, geralmente,
pe-las embarcações.
Da Espanha qual será o agente que nol-o trará?
0 solo é egual e une-nos intimamente ; os
mesmos rios cortam os dois reinos estabelecendo o
contacto pela agua ; o ar é commura ; a fronteira ó
rota na sua maior extensão á viação do homem e seus
produetos.
Eis os meios que põem em contacto os dois
povos da peninsula.
Qual d'elles é o agente propagante do bacillo
virgula ?
duas coisas é preciso distinguir : a propagação a distancia e a propagação aos togares próximos.
N'este segundo caso qualquer agente pôde ser o transportador d'um micróbio, ao passo que no primeiro exige uma das duas condições seguintes : ou offerocer-lhc'^condições de vida, ou não m'ás oííerecendo conserval-o n'um estado de morte appa-rente protegendo-o contra as causas de destruição. A primeira condição é sem duvida a mais impor-tante porque transforma o meio n'um foco de pulu-lação e este é sempre o melhor e o mais temivel agente na propagação dos micróbios.
É n'este sentido também que nós vamos estudar os meios de transporte do bacillo. Para isso, duas fontes nos são recurso: a experimentação e a clinica. E como esta é o facto, d'onde bavemos tirar nossas deducções, isto é, a base de que a experi-mentação .não é mais que a contra prova, é por ella também que começamos.
A observação clinica pelo que respeita ao cho-lera no seu modo de propagação resume-se na mar-cha das epidemias; isto 6, na successão dos casos.
Não traremos para aqui as epidemias estran-geiras, porque infelizmente não são precisas. Tive-mol-as de sobra e oxalá as não tivéssemos.
Epidemias. — Três vezes o cholera visitou
Portugal.
A primeira, em 1833; a segunda, em 1855 para 56; e a terceira em 1865.
23 Epidemia de 1883."
Grassava o cholera em Inglaterra e" Trança," quando em o nosso paiz começou a guerra civil.
0 governo portuguez, attentas as circumstan-cias politicas, não podia pôr diques ao flagello que pela primeira vez o ameaçava.
Á Inglaterra chegara ella trazida por embar-cações (! já no anno anterior, da mesma forma importada, dizimara, só em Londres, 6:729 pessoas.
Aos portuguczes estava lambem reservada a sorte de a ver entrar a bordo d'uni navio.
De facto, no dia 1 de janeiro, entrou a Foz do Douro o vapor London Marchant, a bordo do qual vinha o general Soulignac acompanhado de duzen-tos belgas.
Entre estes vinham seis atacados de cholera, o que era de prever, attenta a circumstancia de que a maior parte procedia de paizes, onde a epidemia grassava.
Como disse, o vapor chegou á Foz no dia 1 de janeiro, procedendo-se ao desembarque e sendo os seis doentes transportados para os hospitaes mili-tares do Porto ! sitos então na freguezia da Victoria. •Bem depressa porém se fez sentir o mal avisado
dos que tomaram tal medida, e nova remoção de cholericos foi ordenada para a Foz. Mas infeliz-mente o mal tomara raiz e a medida já pouco ou nada aproveitou.
soldadesca, pela communieação com os belgas e hospitaes, o que obrigou a abrir uma enfermaria unicamente para cholericos.
A epidemia alastrou-se então por quasi todas as freguezias do Porto e uma vez bem estabelecida em breve os pontos do paiz que com elle mais con-tacto de pessoas mantinham, começaram a sentir o terrível cffeito da doença.
Aveiro era dos pontos mais distantes, o que mais sujeito estava em virtude das estreitas e
cons-tantes relações com o Porto.
Também nos fins de fevereiro lá estava deíini-tivamente estabelecida.
D'Aveiro passou a Mira, logar que estava para Aveiro como este para o Porto.
D'abi se foi propagando para o sul seguindo sempre o caminho mais frequentado pelo homem. Ao passo que ao norte do reino a epidemia assim se comportava espalhando-se pela corrente humana, ao sul, era isto mais manifesto ainda.
A divisão liberal, destacada do Porto e comman-dada pelo duque da Terceira para dominar o sul de Portugal e por este lado se avisiuhar de Lisboa, desembarcou na praia de Cacei la no dia 24 de ju-nho, dirigindo-se logo para Tavira, onde pernoitou. Foi também n'esta cidade onde primeiro se mani-festou a doença.
Alguns soldados, já na viagem, tinham apresen-tado signaes não duvidosos do cholera, os quaes
fo-25
ram os seus introductores no Algarve, grangeando, este facto para a doença, o nome de doença dos ma-| íhados.
D'ahi por diante a epidemia seguia sempre'o j trajecto da divisão, derramando-se a direita e á es- ! querda, atravez do Alemtejo até Lisboa onde já a \ via terrestre, qwe descia do Porto, a tinte condu- 1 zido.
0 exercito foi na epidemia de 183.1 o vehiculo essencial do cholera. A remoção de tropas d'mn para outro ponto do paiz, era assignalada por um rasto de victimas que a doença fazia^.—-— -~~- J
Esta epidemia é um d'aquelles exemplos frisan-tes em que o contagio não pôde ser de nenhuma maneira negado. A corrente humana sulcou no solo, por toda a parte, o trajecto da epidemia. E, uas cir-cumstancias tristíssimas de miséria económica e so-cial, em que se achava o nosso malfadado paiz, precedido por uma era de revoluções, talado pela guerra civil e sob um governo inepto e fraco, não encontraria o cholera, se o vehiculo do bacillo fora o solo, o ar ou a agua, condições mais favoráveis para se abater sobre uma nação, atacando-a' em massa.
Mas assim não succedcu ; o cholera só tinha uma predilecção : ia para onde ia o cholerico ou para onde seguia o homem procedente dos logares atacados. As tropas eram as que mais soffriam ; eram também o vehiculo principal do micróbio o qual disseminavam nos logares por onde passavam. Serve
de confirmação ao que digo o seguinte trecho de Antonio M. Barbosa referente a esta epidemia :
«Os districtos de Gaste]lo Branco, da Guarda e quasi toda a província da Beira Alta, para os lados da serra da Estreita, não foram atacados. Apenas um ou outro caso se apontava, mas esses quasi sem-pre em pessoas vindas de fora, já doentes da mo-léstia. 0 mesmo aconteceu na província do Minho e Traz-os-Montes, em todas aquellas povoações emfim que ficavam arredadas do centro do movimento das
tropas.»
Em 1855 tornou o cholera a visitar o nosso reino, accedendo-o pelo ponto exactamente opposto ao da invasão precedente. N'esta, como vimos, foi o Porto o ponto d'eutrada e na do anno a que nos referimos foram S. João da Pesqueira e Barca d'Alva os primeiros togares invadidos. Não entraremos aqui nos detalhes da epidemia que assolou n'este anno e no seguinte Portugal ; encontram-se proficiente e minuciosamente relatados no competente relatório do conselho de saúde publica, dado á luz em 1858.
Apenas descrevel-a-lienios em seus traços ge-raes!
Em 1855 reinava o choiera em Espanha com grande intensidade, assediando por todos os lados e de perto o nosso paiz, desde o Minho ao Guadiana. De março que a epidemia grassava junto da mar-gem esquerda do rio Douro n'aquella porção em que elle serve de limite aos dois reinos ; e, em ma-nifesto prejuízo da llieoria que considera a agua
27 »
como principal vehiculo do bacillo cholerico, só, proximamente dois mezes depois é que eila foi constatada em S. João da Pesqueira e Barca d'Alva, sendo dos primeiros atacados, tripulantes de barcos procedentes da Veiga do Torrão, povoação espanho-la, a esse tempo violentamente atacada pela epidemia.
D'aqui por diante segue a epidemia rio abaixo com incrível rapidez chegando ao Porto no dia A de maio «attento a que os barcos de carregamento se-guem sem interrupção da villa do Torrão e Barca yFAlva para o Porto.» A primeira victima foi de
fa-cto um barqueiro natural do Gandal ; a esta segui-ram-se duas outras na mesma casa e uma na casa fronteira; d'alii por diante começaram a entrar no hospital cholericos procedentes do rio Douro.
Seria a agua ou os barcos que trouxeram o ba-cillo?
Na hypothèse de ser a agua não é possível ex-plicar como logares importantes e que mantém constante e intimo contacto com o rio, não foram primeiro atacados. A Regoa, por exemplo, só pelos meados de maio foi invadida e por um varino eme veio da Pesqueira ja atacado. Mesão-Frio concellio marginal do Douro, foi também invadido posterior-mente á Regoa, por pessoas procedentes directa-mente da Barca d'Alva. 0 districto de Vizeu foi, é verdade, invadido pelo mesmo tempo que o Porto, mas em todas as povoações penetrou o cholera com indivíduos directamente vindos da Barca d'Alva, dos quaes alguns chegaram já mortos a suas casas.
E se percorrêssemos no relatório já rncneionado todos os outros concelhos invadidos encontraríamos, com raríssimas excepções, posterioridade na invasão e mais que agua, o passo do homem, sulcando o trajecto da epidemia.
Do Porto foi o cholera levado :
A Espozende por um marinheiro convalescente d'um ataque que soffrera dias antes ; o primeiro ha-bitante d'esta villa atacado foi a mãe do dito mari-nheiro no dia '10 de julho.
A 14 do mesmo me/, a Barcellos, transportada por um homem que n'esse mesmo dia viera d'Es-pozende.
A Vianna, sendo a primeira victima, a mulher d'uni individuo quo chegara dias antes d'aquella cidade; os casos que immediatamente se lhe segui-ram fosegui-ram de visinhos e parentes d'ella.
A Aveiro, levada directamente por marinheiros. D'aqui passou a Ílhavo d'onde seguiu para o districto de Coimbra c Santarém, levada directa-mente, ao primeiro, pelos romeiros que concorre-ram á festa da Senhora da Saúde a qual se celebra no mez de setembro com grande arraial; ao se-gundo por 40 pescadores que fizeram escala pela aldéa da Marmelleira de caminho para Lisboa.
Ao passo que ao norte do reino o cholera se-guia esta trajectória, cujo extremo inicial fora a Barca d'Alva, ao sul progredia d'mm maneira in-versa tendo por ponto de partida o concelho de Campo Maior.
2!)
0 cholera epidemieo lavrava cora grande
inten-sidade na Estremadura espanhola. Estava-se então
no tempo em que milhares de ceifeiros vão do nosso
ao reino visiuho para o trabalho agricola; razão
sufficiente para se recear a invasão da doença por
este lado.
De facto nos princípios de julho penetrava ella
a fronteira sendo as primeiras victimas um
almo-creve procedente do Montijo, e, pouco depois, uma
mulher que lavara a roupa a dois ceifeiros
proce-dentes do mesmo lugar onde a epidemia dominava
com grande violência.
Por esta occasião fazia-se em Barbacena uma
feira onde concorriam espanhoes e portuguezes
em grande numero. 0 cholera appareceu n'esta
po-voação no mesmo dia da feira chegando-se a
obser-var casos fulminantes.
D'esté ponto irradiou a epidemia para
différen-tes povoações seguindo sempre as pisadas humanas :
Para Santa Eulália, levada por uns feirantes ; para
Monforte, por um ferreiro que a transmittiu a sua
mulher ; para Valle de Maceiras, por um lavrador
que a communicou a sua irmã ; para Arronches por
outro lavrador.
No districto de Portalegre succedeu um caso
tão interessante, que não podemos deixar de o
transcrever. «Um homem de Montalvão foi ao povo
de Ferreira, em Espanha, onde um mez antes
ha-via grassado a epidemia cholerica, afim de fazer
•condusir trigo para Montalvão. A casa onde estava
armazenado o trigo e onde morrera alguém cholerico estava fechada havia mais d'um mez ; pouco depois d'alli ter entrado foi fulminado de cholera e morreu dentro em poucas horas. 0 cadaver foi trasido para sua casa de Montalvão.
Em seguida foram atacadas mulher e sogra d'esté infeliz, fallecendo ambas em menos de 60 horas. Os parentes e ainda alguns visiuhos, que as-sistiram á chegada do cadaver e ao funeral, foram também atacados pela doença..»
0 alto Alemtejo onde agora relatamos a invasão da epidemia entretém, por entermedio d'almocreves, constantes relações com o districto de Santarém, principalmente com a capital, e muito provavelmente foi a epidemia por elles, ahi levada.
D'esta forma encontrou-se, n'este districto, a linha ascendente do sul com a linha descendente do norte.
D'esté ponto do paiz desce a epidemia ao Car-taxo com os pescadores procedentes de Ílhavo. Em seguida entra em Azambuja trazida pelos trabalha-res do caminho de ferro, na sua maior parte do norte do paiz; e caminhando n'esta marcha descendente appareceu em Lisbpa nos meados d'outubro onde se conservou até ao anno seguinte.
Nos últimos mezes do armo de 1855 e primei-ros de 1856, tinha decrescido a epidemia animando-se as populações em suas lides hábituaes e creiido-se, por assim dizer, livres d'eila. Porem, no armo que entrava, devia o cholera ser mais terrível nas suas
3!
invasões. Vindo terminar a sua marcha em Lisboa, d'esta agora, seguia em sentido inverso para os pon-tos que UTa tinham dado. Facto notável que mostrava claramente que o cholera obedecia a uma trajectória determinada por alguma condição importante. Esta condição estava como já temos dito nas vias da cir-culação humana.
Era seguindo as vias mais frequentadas pelo homem que ella se tinha propagado até Lisboa, pois era agora d'esta que, seguindo o mesmo trajecto, se estendia em sentido inverso. De facto nem o ar nem a agua satisfazem a este modo de propagação ; somente o solo e o homem podem servir-lhe d'ex-plicação ; porem o solo como mais abaixo veremos não é o propagador da epidemia.
Nos princípios d'outubro de 1865 novamente o cholera vein visitar Portugal.
Grassava então a epidemia em Espanha com mediana intensidade. Do sul da peninsula, no reino visinho, passou ella a Madrid d'onde prestes irra-diou para as différentes provincias em duas das quaes se approximou da raia portugueza, Badajoz e Leão.
O primeiro ponto invadido foi a cidade d'Elvas pouco depois da feira de S. Matheus a qual se faz n'esta cidade e onde concorreram um grande nu-mero d'espanhoes.
N'ella demorou-se a epidemia 2 mezes e tanto fazendo 62 victimas. Casos de contagio foram em grande numero observados, taes como ataques
sue-cessivos na mesma casa e em pessoas que d'algum modo tinham communicado com cholericos.
D'Elvas saltou a epidemia ao Porto onde em breve se ia abrir a exposição internacional.
Foi o cholera trazido a esta cidade por uma se nhora procedente d'Elvas e d'uma casa onde adoe cera urn individuo do choleramorbus.
Foi a casa d'esta senhora, no Porto o foco d'irradiaçôes, pouco intenso, felizmente.
Em seguida a esta victima, adoeceram dons funileiros, moradores na casa visinha e tendo com ■ella communicação por um quintal commum ás duas casas. Estes dous funileiros foram transportados para o hospital.
A criada da dita senhora adoecia também do cholera pouco tempo depois.
Alguns empregados da fazenda e administração do segundo bairro foram também atacados. Estas repartições estavam estabelecidas na mesma casa onde morrera o primeiro cholerico.
Um caso foi observado no hospital em um doente collocado entre as duas camas dos funileiros que já dissemos atacados e que para alli foram tra tarse.
Mas a epidemia d'este anno devia em breve ex pirar ; o foco era único ; o inverno approximavase e o Porto estava rasoavelmente provido de medidas internas para a provável invasão durante à exposi ção. A pequena epidemia foi avassalada e a exposi ção fezse sem nova importação.
33
Dissemos acima que o cholera grassava também em Leão junto da raia portugueza e que ameaçava por este lado invadir o nosso paiz como o fizera em Elvas. Effectivamente nos princípios de dezembro tocou a epidemia a Villa do Freixo onde felizmente pouco se demorou. Foi trazida d'esta villa muito provavelmente por pessoas que foram á feira de Vil-vestre, proximo de Zamora onde andava a epidemia. A cidade de Zamora é situada na margem d'um dos melhores braços do rio Douro e nem por isso a epidemia teve predilecção por esta via de commu-nicação.
0 primeiro caso averiguado succedeu no dia 8 de dezembro; o segundo, pouco depois, n'um in-dividuo que vivia na mesma casa.
Por aqui terminam as epidemias do cholera que o nosso paiz sofreu.
Os factos n'elles contidos são a base das con-siderações e conclusões que vão seguir-se.
0 maior numero d'elles mostram-nos que o vebiculo mais temível é o cholerico e os objectos procedentes d'elle ; o caminho do homem tinha d'antemão traçado no solo o curso da epidemia.
Os factos succedidos em 1855, pelo que toca à marcha invasora da epidemia, fazem pensar no transporte do bacillo pela agua; ao par que as des-crevemos mencionamos alguns outros factos que ..inlirmam esta hypothèse.
Mas deixemol-a de remissa até que mais
cialmente a analysemos quando tratarmos da agua
como meio véhiculante do cholera.
Dissemos ao iniciar esta parte do nosso
traba-lho que os meios que entretinham a distancia e por
toda a parte as relações entre os homens eram
o-solo, o ar e agua alem de si próprio e os agentes
postos por elle em circulação.
0 micróbio, ninguém o duvida, é a semente
que germinando dá por toda a parte o, cholera
epi-demico.
Qual d'aquelles agentes o transportará?
Analysemos cada um d'elles em separado.
Ar —o ar não transporta o bacillo a não ser a
distancias mínimas c isso nem sempre.
Se o micróbio se disseminasse pela atmosphera,
esta, pela sua agitação constante, leval-o-hia, no
rumo dos ventos.
Nas epidemias precedentemente relatadas não
falíamos da influencia do ar; como também não
fal-tamos do solo : obrigou-nos a isso o não querermos
tornar enfadonhas essas paginas porque d'outro
modo sel-o-hiam pela extensão que exigia o
assum-pto em suas minúcias; n'ellas percorremos com
passo breve o que nos pareceu mais importante.
Nem por isso faltará elucidação para o que agora se
desenvolve, pois bastar-nos-ha dizer d'uma maneira
geral, para todas ellas, que raríssimos foram os
ca-sos em que, a propagação do cholera teve logar no
sentido das correntes aéreas. A maioria dos casos
35
mostrou uma propagação indifférente e não raras
ve-zes contraria.
Mas ,ao lado da observação clinica está também
a experimentação.
0 ar não é meio próprio ao bacillo ; bem longe
d'isso altenua-o e destroe.
0 ar é antiseptico por muitos dos seus agentes.
0 oxygenic) é um anti-microbiano de primeira
ordem para as bactérias anaeróbias e ainda para as
aeróbias em determinadas circumstancias. Ora, se é
certo que o bacillo-virgula pullula admiravelmente
em vida aerobia as experiências de Hueppe feitas
este anno provam, que n'estas condições perde a
sua virulência.
0 calor que atravessa o ar durante o dia, do sol
para a terra e de noite, d'esta para o espaço,
auxi-liado pelas correntes atmosphericas, mantem-n'o
n'um estado mais ou menos secco ; e nós sabemos
quanto a seccura influe na vida microbiana.
Basta-ria, para afflrmação do que dizemos, lembrar o meio
d'attenuaçao do virus rábico; mas temos mesmo a
prova directa, que nos mostra, que as culturas dos
bacillos-virgulas seccas, cessam de pullulai' e quasi
sempre se esterilisam passado pouco tempo.
A luz do sol é também um agente atténuante
da vida bacteriana. Mostraram-no á evidencia as
ex-periências d'Arloing sobre micrococcus e esporos.
Mais uma ultima prova para terminar com o ar.
Provetas collocadas ao ar livre em tempo
d'epide-mia não fornecem culturas de bacillos-virgulas.
Solo. Não é também o solo o grande vehiculo
do choiera ; se o fora, uma vez iniciada a epidemia
n'um dado ponto, dever-se-hia espalhar como uma
mancha d'oleo, isto é, de casa em casa, de logar
em logar e assim successivarnente. Em nenhuma das
epidemias precedentes se observou este facto, nem
ainda nas epidemias que visitaram a Europa.
0 solo é, na verdade, o receptáculo commum
onde vão parar todos os micróbios pathogenicos
pro-venientes dos vómitos, das matérias fecaes, dos
es-carros e das urinas. Mas a maior parte é lá digirida
pela vida potente da terra.
Á maneira d'uni grande organismo, ella é
cons-tituída por milhares d'unidades anatómicas que
ope-ram em grande parte uma das transformações mais
importantes na corrente circulatória da materia;
mineralisa as partículas vitaes para de novo as
tor-nar a vida. Ondas d'oxygenio penetram em seu
am-plo seio e lá vão produzir a cremação natural que
é um poderozo antiseptico.
Mas como sabemos, o solo não é por toda a parte
egual. Se elle d'uma maneira geral é o que acima
deixamos dito não quer dizer que em certas
condi-ções se torne um agente de cultura e conservação
de certos agentes vivos pathogenicos. Não vive lá
por exemplo o bacillô anthracis, o tetânico e o
rá-bico ?
Não é, no solo indiano, gerado o bacillo
vir-gula ? A theoria que Pettenkoffer emitte para a índia
não e por ventura-aplicável ao solo europeu? Sim;
37
tudo isto forma um grau de probabilidade para que
o bacillo seja cultivado no solo mas não o
estabe-lece d'uma maneira segura. Demais, não é assente,
que sejam unicamente as condições estabelecidas pelo
sábio de Munich que são causa do apparecimento e
de-senvolvimento do bacillo. Não haverá um elemento
próprio ao solo gangetico que seja a causa
predis-ponente, sendo as outras occasionaes? Não vemos
nós por ventura a influencia que o solo tem sobre
a vegetação e sobre a animalidade nas différentes
partes do globo? São porventura os seres, vivos
eguaes nas différentes regiões da terra? E não é
certa a mudança n'elles, quando variam de região ?
Mas deixemos a discussão sobre hypothèse e
passemos ao que a experimentação directa fornece.
Quando enterramos nas condições as mais
ap-proximadas da natureza culturas de bacillos
virgu-las, no solo, este passados poucos dias, examinado
cuidadosamente não fornece em geral vestígios
se-quer dos bacillos.
Demais, ha muito já, que a observação
denun-ciara este facto que a experiência veiu confirmar.
Se o solo conservasse ou cultivasse os bacillos,
de-veriam os cemitérios serem ps focos principaes do
cholera. Ora é o que a observação não mostra.
Podemos portanto concluir que o solo europeu
não é o agente essencial na propagação do cholera.
Agua —De ha muito que a agua foi imputada
de vehicular o bacillo. De 87 para cá esta
accusa-ção não augmentou e foi até em .parte levantada.
Era Espanha porém parece que a primeira in-criminação é ainda hoje bem acceite pelo facto de que vão proceder ao corte das aguas do Tejo que abastece uma de suas cidadãs atacadas.
Parece-me comtudo que as duas opiniões se podem conciliar ; mais abaixo veremos como.
A questão que por agora nos propuzemos es-tudar, é ver se a agua é ou não, o grande vehiculo do cholera.
Os factos precedentemente narrados em qual-quer das epidemias não trazem apoio seguro aos que pretendem que ella o véhicule.
Mas em favor dos factos d'observaçao clinica vem também os dados experimentaes.
Kraus approximando-se tanto quanto possível das condições naturaes, e n'isto está a virtude de suas experiências, cultivou o bacillo cholerico em différentes aguas e, longe de encontrar a pulua-ção, foi surprehendido pela rapidez de sua destrui-ção ; a media d'existencia que elle lhe dá em tal meio é de 24 horas ; notando-se que o enfraqueci-mento das culturas começa para a maioria das aguas logo desde o principio.
Koch experimentando por seu lado notou de-pois de varias experiências que quanto menos rica ó a agua em microorganismos, maior era o tempo que os bacillos cholericos resistiam. Ora a agua of-ferece em profusão a vida microscópica e entre esta nem a menor parcella se demonstrou pathogenica, a não ser accidentalmente.
1
39
Comprehende-se com facilidade que qualquer agente novo, concorrente a este meio, seja atacado e vencido pelos já adaptados, como se deduz da conclusão de Koch.
Os factos clínicos mais recentes e que dizem respeito directamente a Portugal mostram também, que a agua não é o vehiculo, a distancia do bacillo. Em '1885 andou o cholera nas margens do Guadiana, Tejo e Douro e comludo não se chegou a manifestar em Portugal.
Este anno anda nas margens do Tejo e, alem de não seguir rio abaixo, ainda cá se não manifes-tou.
Devemos nós em vista do exposto persistir na incriminação da agua como sendo o grande vehiculo do cholera ?
Resta-nos, para analysar os meios de propaga-rão, o homem ou antes o cholerico e suas
proce-dências.
A quasi totalidade dos factos narrados a pro-pósito das epidemias condemnam o homem como principal propagador do bacillo.
Que elle é um esfcellente meio de cultura, quando atacado é que não ha duvida nenhuma.
E aqui está o ponto capital para a propagação. Quando ha um meio favorável ao seu desenvolvi-mento è esse meio é susceptível de se pôr em con-tacto com outras pessoas ou de contaminar o am-biente d'ellas, esse sim, é que deve ser incriminado da propagação.
Foi o que vimos, ao relatarmos as epidemias ; que o individuo doente transportado a um outro lugar lá ia fazer a sementeira da doença.
De facto, o que é permittido affirmar é que O' cholerico é um foco de producção ; fora d'elle, pelo que temos dito, é o bacillo com intensidade varia-r vel destruído.
No cholerico o ponto onde elle reside é o in-testino; o vehiculo parado exterior são as fezes; estas contaminam tudo que com ella se põe em contacto. A superfície externa do corpo do cholerico é contaminada, este contagio transmitte-se ás roupas e estas cedem-no ao meio ambiente.
D'uma maneira análoga succède com o maior numero d'outras doenças parasitarias melhor conhe-cidas.
D'esté modo todos os corpos, excepção feita dos antisepticos próprios, podem ser vectores do bacillo em pequena escala. Pode o solo transmittil-o, recen-temente sujo pelas dejecções ; a agua que serviu ou se contaminou, ha pouco, pelo contacto directo ou in-directo com o cholerico ; uma inspiração d'ar to-mado proximo do -doente, fas roupas"qualquer obje-cto que lhe serviu ; é tudo questão de tempo ou. proximidade.
De maneira que á volta do doente e n'um pe-queno raio tudo pode transportar o bacillo. 0 gran-de vehiculo, o que o leva a grangran-des distancias é o homem.
proceden-41
tes do cholerico, tendo uma viação rápida possam substituir o logar que assignamos só ao cholerico.
N'estes objectos é de notar que o perigo é tanto maior quanto elles oferecem ao micróbio uma vida anaeróbia. Já mais atraz vimos que esta era con-dição de virulência.
E' também o que provam os factos d'observa-ção e que servem de indicad'observa-ção ao preceito tantas vezes recommendado pelos medicos encarregados da proplryllaxia nacional : o máximo cuidado na desin-fecção dos objectos empacotados.
Sabemos agora, d'uma maneira geral, onde está o bacillo e d'onde elle pôde, portanto, assaltar o nosso organismo.
As dejecções do cholerico são o ponto de par-tida de toda a contaminação.
Vejamos agora que conclusões podemos tirar do que temos dito.
Quando a epidemia anda n'um logar distante, escusado é temer o solo, o ar e a agua como meio de infecção. 0 que se tem a evitar é o contacto com pessoas procedentes de tal logar, ou com objectos que vehiculam com uma certa rapidez. D'esta indi-cação nasce o isolamento das localidades infesta-das; o corte de relações ou a regularisação d'ellas; e que hoje se réalisa por meio dos lazaretos e cordões sanitários.
Quando porem a epidemia lavra n'um logar bastante proximo ou na mesma localidade onde re-sidimos tudo que provem do doente ou elle
mes-.mo pôde servir de ponto d'accesso ao nosso orga-nismo. D'esta indicação nasce o isolamento do doente e a desinfecção à volta d'elle.
E' n'estes dous meios convenientemente empre* gados e manejados que está a verdadeira prophilla-xia do cholerano estado actual dos nossos conheci-mentos.
w
PROPHYLAXIA
Ao começar o nosso trabalho dissemos que, para o cholera se manifestar, duas condições eram necessárias —' a predisposição orgânica e a presença do micróbio.
Esta predisposição não está completamente elu-cidada.
Emitte-se com grande probabilidade que o meio intestinal, no estado hygido, é favorável ao desen-volvimento do micróbio ; que a porta d'entrada é a bocca e que o sueco gástrico destroe o bacillo.
Mas desde que o estômago se altera em sua funcçâo secretora o micróbio passa ao intestino e entra em vida activa pathogenica.
Parece portanto que a predisposição está no mau funecionamento do estômago. Não é, comtudo, absolutamente certo; e ainda que o fosse devería-mos estar d'atalaya vigiando incessantemente o es-tômago?
M
Quanto a mim não me parece proíicua esta pra tica ; alem de que causas variadíssimas actuam so bre o estômago, as suas indisposições não se obje ctivam tão rapidamente que tenhamos a certeza d'ir, â tempo,' remediar o mal que, n'uni momento, d'ellas pode advir.
Mas á falta d'esté meio, poderemos nós tornar o conteúdo intestinal impróprio á sua pululação? Mais adiante veremos, ao tratar da prophylaxia in terna, a pouca exequibilidade dos meios attinentes a este lim.
Por isso um só recurso nos resta; é o ataque di recto ao bacillo — a desinfecção.
É este o melhor agente na prophyllaxia do cho lera, acompanhado bem entendido, do competente isolamento.
Dado portanto um caso o que temos a fazer é isolalo e rodealo de bons meios desinfectantes. O bacillo não atravessa as barreiras d'uma rigorosa desinfecção.
Se as condições hygienicas sociaes permittissem, a prompta e segura execução d'estas duas medidas, podíamos, dizer atfoitamente que as epidemias se riam suffocadas desde o seu começo. Isto é, as epi demias deixavam d'existir.
Mas estes meios que tão brilhantes resultados têm já dado estão na infância para nós, no tocante á sua pratica.
Producto essencial da microbiologia, satisfação de suas incontestadas exigências, hão de ainda
15
volver muitos annos para que, n'ura paiz moroso como o nosso, se façam, não digo já com a perfei-ção da certeza, mas pelo menos, com a virtude de grande probabilidade.
Em Portugal poucos se tem preoccupàdo com ,estas medidas.
Quando recordo o que por ahi vae e o que vi pelo hospital relativamente a educação medica e na parte que toca a este ponto sae-me sempre a se-guinte conclusão :
— Um foco d'infecçào n'uma só cama tem tempo de, em menos d'um dia, contaminar todas as enfer-marias do hospital.—
Tal é a circulação, tal é a communicação e lim-peza dos diferentes empregados.
Felizmente que a natureza dotou os homens d'immunidade e ao Porto de poucas epidemias.
Mas quando, por infelicidade nossa, se desen-volva entre nós uma doença que, como o choiera, se alastra e dissemina facilmente, por este panno d'à--mostra, já se vê com que elementos devemos contar. E quando isto succède dentro das paredes d'um hospital Onde tudo se deveria prestar a uma boa manutenção dos preceitos medicos e hygienicos, o que será cá fora, na clinica urbana, onde o medico ha de persuadir e não impor?
Mas o que succède no hospital é pai lido reflexo do que vai, pela cidade, na execução das medidas
h so quando o inimigo bate á porta, que se pensa em tudo mas pouco se faz.
A cabeça alvorota-se um pouco, mas as pernas não se mexem. Tndo continua no rodar pezado dos. dias d'hontem.
De facto, que se tem feito portas a dentro tão« imminentemente ameaçados ?
, Umas visitas sanitárias que dão vontade de rir.. Correu aqui, já lá vão mezes, que chegaram ao hospital dois ou três casos suspeitos.
Onde os haviam de receber?
Não encontro termo que traduza o logar onde elles foram mettidos. 0 que é certo é que era um aposento acanhadíssimo e velho construído de ta-boas sobrepostas, denegridas e maltratadas pela acção do tempo.
Vinha também de molde o caso do passageiro de Malaga ; mas não é tempo de estar com recri-minações, nem com ridículos. Em tempo de socego •são boas armas; para agora não servem.
0 que fica tristemente certo para nós todos é que estamos horrivelmente atrazados ; que quando a epidemia nos accéder por qualquer lado o que fizermos ha-de ser mal e á pressa.
Não temos,, em conclusão, áquem da fronteira, armas para combater qualquer doença epidemico-contagiosa que a fatalidade interne em o nosso paiz.
Se estivéssemos bem munidos com bons meios de desinfecção e policia sanitaria, em todos os pon-tos da nação, podíamos descançar, deixar correr
M
normal a nossa vida. Vias não succède infelizmente
assim ; e n'estas condições vejamos o que se deve
fazer.
Preparar internamente, por toda a parte, os
meios de desinfecção e isolamento para de proiupto
rodear os atacados é impossível d'um momento
para o outro. A conseguir alguma coisa n'este
sen-tido seria para poucos e limitados casos porque a
aquisição que fizéssemos seria sempre limitada.
A grande medida para nós e para todas as
na-ções em egualdade de circumstancias é, por todos
os meios e apezar de tudo, cortar na fronteira o
caminho da epidemia.
Cortar este, para o choiera, é interromper a
cor-rente centrípeta dos homens e suas procedências, ou
regularisal-a de tal modo que a torne inoífensiva.
Os meios que entre nós se tem posto em acção
já o dissemos : são os lazaretos marítimos e
terres-tres auxiliados estes pelo cordão sanitário.
Lazaretos e cordões sanitários. — Tenho
visto condemnar esta medida quasi geralmente,
op-pondo-lhe as mais auctorisados em tal materia os
deffeitos seguintes: imperfeição da pratica, grande
dispêndio e estacionamento do commercio.
A ninguém a tenho visto condemnar em
theo-ria a não serem aquelles que propondo medidas de
outra ordem as aholem como substituíveis.
Analysemos successivamente estes différentes
pontos.
A imperfeição da pratica deriva do mau ser-viço, feito pelo exercito e pelos lazaretos. Em 1884, nasceu entre nós a ideia dos lazaretos terrestres a qual se poz cm pratica no mesmo anno 6 no se-guinte e «para os quaes nada havia preparado nem disposto, nem sequer o conselho do precedente a invocar ou a lição e exemplo extranho para seguir.» Não admira, por tanto, que a imperfeição cu-nhasse aqui e além esta obrajf e/isto até o normal em todo o producto humano.
E se nós fossemos a condemnar todas as medi-das por este lado, creio, posso desafrontadamente affirmai' que nada se faria n'este mundo. Mas o que é mais, o que nos causa immenso pezar é vôr, por vezes, gente aliaz tida como illustrada e respeitada, metter a ridículo estas-medidas apoiando-se quasi exclusivamente n'este defeito.
E' grande, é enorme, mas a imperfeição não impõe fatalmente a abolição. 0 que ella impõe pri-meiro que tudo é a reforma.
E se se 1er com attenção o relatório que dos lazaretos terrestres fizeram Cunha Belém e Gui-lherme Ennes, ver-se-ha que os erros de principio foram no decorrer do tempo em grande parte reme-diados. Votados d'alma e coração á obra para que foram escolhidos, os dois distinctos medicos portu-guezes, luctaram e venceram. A luctafoi encarni-çada e sem tréguas ; umas vezes a disposição do lo-cal, outras a falta de material e casa apropriada, e outras ainda a má vontade dos povos.
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A estas difficuldades de principio, novas vinham de continuo juntar-se as quaes foram sempre reme-diadas e, Portugal podia dizer afoitamente que o serviço da fronteira garantia' grandemente contra a invasão cholerica.
Os postos de desinfecção eram melhorados com instrumentos adequados e com as lavanderias ; os hospitaes offereciam condições seguras de isolamen-to, o serviço e os aposentos de quarentena eram por todos os respeitos soffriveis.
As malhas que a má fé, o desleixo ou o inte-resse rompiam no cordão, eram na sua maior parte remediados pelos attestados sanitários e pelos pos-tos internos de isolamento com a respectiva fiscali-sação medica.
0 segundo argumento é o dispêndio.
De facto, para uma nação como a nossa que lucta constantemente com difficuldades financeiras, o argumento não é para, desprezar.
Escusado é aqui fazer a somma das verbas a que orça a despeza. Todos sabem que não íica barato e que o nosso paiz está pouco abonado.
Os dois elementos de felicidade d'uma nação são : a Economia e a Saúde
Mas esta é a base essencial da primeira. A actividade humana é o elemento primordial da riqueza.
Se a epidemia entra em nossa casa, não é só .a somma de vidas que se extinguem, é a interrupção
de todas as relações; é a paralysia de toda a acti-vidade.
Não me parece que o argumento colha, provada que seja a utilidade dá medida.
O terceiro argumento é o estacionamento do-commercio internacional. Este argumento tem em grande parte a defeza do precedente ; mas seja-nos licito acrescentar o seguinte : Se a alguém, quem quer que seja, perguntarmos qual é melhor — se a epidemia, se a interrupção por certo tempo das re-lações internacionaes com os paizes infeccionados, respondem-nos logo sem hesitacção, optando .pela segunda.
E nem outra resposta era de esperar pois logo que a epidemia se installasse em o nosso reino, a maior parte dos paizes cortariam comnosco as suas relações. Mas os lazaretos não impõem corte abso-luto ; não significam estacionamento mas retardação. E muito menos tem de se queixar o commercio desde que a regulamentação dos lazaretos se esten-deu em especial a este ponto. De facto, passado os. primeiros tempos, as relações commerciaes, foram estabelecidas e regularisadas, fazendo-se a distinc-ção de géneros e proveniências.
Quanto ao modo de propagação da doença te-mos dito o sufficiente para admittir a medida pre-ventiva que nos occupa.
Desçamos agora até aos seus-resultados práti-cos.
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0 cholera passou, nas três epidemias de que
falíamos, d'Espanha a Portugal e em 1885 teria
feito o mesmo se não foram os lazaretos.
Diga-se ó que se disser da epidemia espanhola
de 84- para 85, favoreça-se Portugal com todas as
condições possíveis o que é certo, o que se não
pôde negar, é que os lazaretos com o cordão foram
elemento poderoso de perservação.
Todas as provindas espanholas soffreram do
cholera desde o norte "ao sul de Portugal e este
geographicamente bem pode ser considerado uma
província d'Espanha. Só elle, porém, foi poupado
em toda a peninsfda.
No lazareto de Santa Luzia foi recebida uma
senhora a quem tinha morrido em Madrid um filho
adulto com o choiera. Esta senhora que se
apresen-tou mais ou menos doente foi transportada para o
hospital do lazareto e tratada com todos os
cuida-dos de isolamento e desinfecção. Os symptoinas
ca-racterísticos da doença, que em breve se
manifesta-ram, só vieram animar este procedimento e a que
as medidas continuassem tão rigorosas quanto
pos-sível.
Passado tempo a senhora restabeleceu-se,
sof-freu a quarentena e seguiu viagem.
Ora este caso pelo seu quadro symptomatico e
procedência, era um caso de cholera-morbus, que
devia fatalmente ter lugar no interior do paiz onde
viria fazer sementeira como o caso de 65 no Porto.
hos-pitai quarentenario de Villa Real de Santo Antonio, os quaes como o precedente alli foram sufocados.
Em vista d'isto poder-se-ha dizer que os laza-retos não tem vantagens reaes para Portugal?
Mas considerações ainda de pezo, tiradas dos factos que então se fez, podemos adduzir aos factos precedentes.
A desinfecção a que se procedeu em todos os objectos e rigorosamente aos que eram mais sus-peitos, durante todo o tempo que durava a quaren-tena, era segura garantia de perservação por este lado um dos mais perigosos.
Alem d'isso o cordão sanitffrio tinha ainda a grande virtude de evitar a emigração em massa que tão prejudicial se torna em tempos d'epidemia. Haja vista ao que succedeu em 1833 com o movimento das tropas; se bem estão gravados os factos que então se deram ao sul e ao norte do Tejo não é dif-ficil acceitar o que acabamos de dizer. De mais de continuo estão provando, isto mesmo, as peregrina-ções mussulmanas.
0 cordão foi portanto util. Embora por suas malhas passasse alguma coisa contaminada, devemos crer que ella não teria a viabilidade rápida, nem uma via recta e fácil onde as segundas linhas do cordão exerciam vigilância; e que portanto como que se quarentenava pelo tempo e desinfectava ao con-tacto do ar puro das serranias c dos campos.
Os lazarestos terrestres funccionam hoje de novo.
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Os encarregados de sua abertura foram os
mesmos que em 1884 os installaraui.
E apezar de por vezes termos visto nos jornaes
políticos algumas incriminações, aguardemos as
no-ticias ofíiciaes que em breve serão relatadas.
A obra foi grandiosa pelos elementos com que
contávamos nos annos pretéritos em que o nosso
paiz foi tão deveras ameaçado.
Devemos crer que este aimo serão antes um
progresso, que uma estação ou retrogradação do que
então se fez.
De duas sabemos nós que foram de primeira
ordem : uma para o cordão, outra para os lazaretos.
A primeira foi o augmenta de soldo que tornando o
soldado mais independente lbe levanta o caracter,
desprezando espórtulas, a troco das quaes, relaxava o
serviço em que toda a vigilância é pouca. A segunda
foi a aquisição de estufas de desinfecção Geneste e
Jlerscher.
Estas estufas são de facto as que mais convém
pois que não só empregam um desinfectante que
alem de ser mais poderoso, tem ainda a virtude de
não alterar os tecidos que lhes são submettidos.
Mas não se julgue pelo que venho dizendo que
tenho para mim que os lazaretos com seu cordão
sanitário hoje installados na fronteira são uma
me-dida de absoluta garantia contra a invasão do
cho-lera.
aquel-les que nos condeumaram julgando que era isso o que queríamos demonstrar.
O que nós quizemos provar foi que estas medi-das tinham utilidade para nós atravez de tudo que em contrario se lhe oppõe, porque limitam im-mensamenle a accersibilidade do nosso paiz tão min-guado em recursos internos.
Bem sabemos que os lazaretos estão condemna-dos e n'um futuro mais ou menos proximo hão de ser abolidos.
A sciencia caminha activamente para esse fim, e oxalá o consiga em breve, generalizando-o.
A sciencia propõe mas o governo, as corpora-ções e por vezes a vontade dos povos, dispõem. Da falta d'alliança entre o principio e a determinação
pratica resulta o atrazo.
A sciencia deve em tudo sor soberana e muito mais quando fornece a contra-prova experimental. E. n'este ponto muito ha já realisado na pratica n'um ou outro paiz.
A Inglaterra tem quasi por completo abolidos os lazaretos mas á custa de muita reforma ; a
regu-lamentação sanitaria interna e externa, a inflexibili-dade na sua execução ou melhor as condições geo-graphicas junto ás condições hygienicas de Seus na-vios e o rigor da sua policia sanitaria, permitem-lhe a abolição d'esta medida.
A França está em via de igual reforma, mas fora como nós cias condições geographicas da
In-55
glaterra, é obrigada na raia secca a executar
medi-das de rigorosa policia, em razão do atrazo em que
se acha a sua visinha Espanha.
Mais forte que nós, em meios internos, liberta
também mais a circulação de pessoas e de coisas.
Nos limites fronteiricios das linhas férreas ella
estabelece sem auxilio de cordão sanitário, porque os
Pyreneus lhe servem de natural defeza, um posto de
policia sanitaria com posto de desinfecção e hospital
exigindo a procedência e incidência passando
attes-tados respectivos, os quaes serão apresenattes-tados ás
auctoridades dos logares para onde se dirigem, sob
penas especiaes, e impondo a visita sanitária durante
cinco dias successivos.
Na raia húmida não tardará também a abolição
dos lazaretos, pela reforma de desinfecção e outras
condições hygienicas que vão introduzindo a bordo.
E' de facto junto de todas as coisas e por toda
a parte, que o remédio deve estar prompto para
acu-dir ao mal nascente.
A regulamentação sanitaria, pelo que respeita á
doença que nos occupa ou melhor a todas as
doen-ças epidemo-contagiosas, deve ter em mira a
desin-fecção e isolamento.
A Europa unida por estreitos laços
geographi-cos e de viação e de commercio, forma como uma
nação única, em que o mal d'um paiz é ameaça
di-recta e quasi perigo certo d'outro ; obriga isto a que
cada um estabeleça na fronteira por adeantado que
esteja, medidas de defeza para obstar pelo menos
á grande emigração, para que elle não estará de certo preparada.
É preciso, portanto, que todas îi'um consenso commum, animadas pelo desejo de ver realisado um progresso real de tantas vantagens para cada um, caminhem activamente, começando pela reforma dos hospitaes, acquisiçâo d'apparelhos próprios, regu-, laudo o serviço sanitário e educando o pessoal te-chnico.
N'este ponto está-nos a lembrar a recusa que a meza da Santa Casa fez á Gamara do Porto quando esta lhe propoz a substituição do hospital em acção, por outro novo em condições d'hygiène.
Que o que para ahi está no largo dos Martyres-da Pátria, será uma boa construcção de granito, mas hospital...
Dão-lhe este nome porque mettem para lá os doentes.
Ha muitos annos, é possível, devia mesmo ser um bom,hospital. Hoje é péssimo. Serve para acoi-tar a doença, mesmo até para a alimenacoi-tar ; n'isso não temos duvida. Para dar saúde é que muito pouco ou nada.
0 medico lá dentro tem de luclar com dois. inimigos : a doença e as condições da casa. Já em outro ponto falíamos d'outros defeitos do hospital ; mas a meza não acceitou a proposta...
E é com esta vontade de progredir que nós ha-vemos de vencer na conquista do progresso. Mas vamos adiante. Tratemos do que na conjectura
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sente é exequível e se deve fazer já que o que era preciso não está feito.
Fica assente que hoje Portugal precisa dos la-zaretos quer terrestres quer marítimos e como tal ps está adoptando o governo no que só temos a lou-val-o, fazendo votos que de futuro nos mereça igual confiança em alguma coisa mais.
E' uma medida util mas incompleta, apezar de todo o rigor da pratica, porque esta por mais perT feita que seja nunca pôde ser a traducção fiel, da ideia que a concebeu.
Por isso, empregando Portugal toda a vigilância na fronteira, porque assim Ih'o exige o estado d'atrazo em que se acha, não deve de nenhuma maneira descurar as medidas internas, porque a epi-demia n'utn momento de violência, com uma pe-quena transgressão pôde explodir no seu território.
Para satisfazer a esta indicação duas ordens de medidas convém adoptar.
Umas tendentes a levantar a saúde publica, ou-tras a atacar e circumscrever de prompto os pri-meiros casos de maneira a salvar os atacados e a garantir do contagio, os que por força de circum-stancias e ignorância estivesse em logar de o re-reber.
No tocante a levantar á tara de resistência phy-siologica, muito se tem proposto e ha de propor. Uns vem com o regimen dietético, outros com me-dicamentosj^erservativos, espécies de vaccinas chi-maSj outros com as proprias vaccinas e finalmente
•outros, olhando mais para as causas exteriores de-primentes do organismo aconselham por todos osv
meios a suá destruição.
Quanto ao regimen dietético é controversa a opinião. Querem uns que os hábitos d'alimentaçao não sejam alterados ; outros ao contrario poem em relevo o resguardo da bocca prohibindo certas sub-stancias e aconselhando outras.
Quanto a mim entendo que não é possível es-tabelecer leis sobre este ponto sem cair em erro. Mo ha dois organismos eguaes muito principal-mente pelo que respeita a funcções digestivas. Cada qual na vida normal que leva sabe o que lhe faz bem ou mal. E cada um conselheiro de si mesmo. Apenas uma cousa se pode aconselhar d'uma ma-neira geral : é a supresão do abuso.
Quanto aos medicamentos preservativos é esta uma questão muito seria.
As substancias tidas ou aconselhadas como taes, actuam de dois modos diversos no interior do orga-nismo ; ou criam directamente um meio interno chimicamente nocivo ao bacillo do choiera e n'este caso tem de ser tomados constantemente durante todo o tempo que dura a epidemia, ou educam os elementos normaes do organismo, a luctarem .com o mesmo bacillo e n'este caso algumas doses bastam. Estes últimos são os verdadeiros preservativos.
Dos medicamentos até hoje apparecidos no ar-senal therapeutico com este íim destacam-se dois: o bichloreto de mercúrio e o salol.
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O primeiro proclamado principalmente por
Yvert não se funda n'uma base solida
d'experimen-tação. Em todos os casos em que elle o aplicou se
não pôde dizer se os individuos eram já atacados
ou se não o sendo ainda o viriam a ser fatalmente.
Parece-ine que a sua acção é antes curativa que
prophylatica. Analysaremos este ponto na 3.
aparte
éo nosso trabalho.
Em quasi idênticas cireumstancias está também
o saio). E sendo assim, para terem effeito, devem
ser tomados constantemente.
Mas suppondo mesmo, como levam a crer
al-guns factos, que elles destroem o bacillo virgula no
interior do organismo devemos tomal-os durante
uma epidemia inteira que por vezes dura annos ?
Eu não sou apologista d'esté systema.
Por mais innocente que seja uma substancia,
devemos lembrar que quando ella é extranha aos
hábitos do organismo e muito mais quando é
to-mada em grande doze como o caso presente, traz
comsigo em geral perturbações orgânicas.
Mas nem o bichloreto nem o salol são
innof-fensivos. 0 bichloreto produz ou pode produzir
to-mado na doze de 10 grammas sob a forma de Lior
de Van Swtein «que é a doze que Yvert aconselha»
uma diarrhea que exige a paragem do medicamento.
Ora parar de tomar o especifico com uma alteração
intestinal d'esta ordem, parece-me que é gravíssimo.
0 salol arrasta frequentemente perturbações do
lado da bexiga, resultantes do acido phenico. Desde
que essas perturbações appareçam. somos obrigados a parar.
Creio ser isto a razão sufficiente, para não o empregarmos com este fim.
Quanto á vaccina muito se tem feito n'estes úl-timos annos. Mas bem sabemos quanta é a difíicul-dade da introduçeão na pratica d'uni methodo d'es-tes. Creio descoberta a vaccina da cholera. Gama-leia acaba de fazer nos dois annos precedentes expe-riências que levam a convicção ao seio do mundo scientifico ; mas d'aqui até que desça e se diffunda pela pratica, muito tempo ha-de volver se porven-tura os povos a requisitarem.
Varias experiências feitas por Gamaleia podía-mos aqui traduzir mas basta-nos apenas dizer que todos os animaes vacinados, soffreram sem altera-ção apreciável de saúde a acaltera-ção do virus virulento, ao passo que todos as testemunhas morreram.
A vaccina é o verdadeiro edeal, meio perserva-tivo porque ficando inhérente ao organismo como qualidade physiologica d'elle, acompanha-o por toda a parte libertaiido-o de todos os embaraços e nada alterando na vida normal dos povos.
Mas falta-lhe infelizmente dois complementos essenciaes : a experimentação no homem e facilidade pratica.
Não é por isso medida que possamos adoptar, nem ainda nos próximos annos em que talvez este-jamos também ameaçados.
O!
os povos deprimindo o organismo, são de grande
im-portância não só em tempo d'epidemia, mas ainda
fora d'ella, embora, façam sentir mais o sen pezo
quando uma nova causa geral, tal como a epidemia,
se lhes vem juntar.
Essas causas traduzem-se por dois termos —
miséria social e económica.
A segunda pode-se remediar de prompto pela
caridade e pelo • thesouro publico, mas a primeira
ha de ficar sempre no estado de desideratum
quan-do se tente abulir d'um momento, para outro,
por-que resulta directamente da ignorância e talvez
tam-bém do desleixo dos povos. Para ella se remediar
ha de a lei vir de cima e a Jhstruccão descer até ás
camadas mais inferiores ; e isto não se faz no curto
prazo preepidemico.
A instrucção ha de vizar á facultação do meio
apropriado e a lei a esta e um pouco á coacção dos
povos ; e n'este intuito de prophyllaxia em três
pon-tos cardeaes hão de tocar o solo, a habitação e os
costumes. Ao solo suprimindo-lhe as causas
morbi-íicas aproveitaudo-o na desinfecção geral e
tornan-do-o fonte de riqueza, a habitação apropriando-a á
commodidade orgânica e os costumes tendentes a
le-vantar o nivel moral que por tanta miséria se
tra-duz.
A reforma de cada um d'estes não é coisa que
se faça d'um momento para outro, ha de ser lento
porque é demasiado grande.
podem visar senão n'uraa pequena parte a remediar alguns resultados d'cstes grandes defeitos.
Um dos principaes é a immundicie que se es-tende dentro e fora da habitação.
Como os meios de solo e casa, faltem para dar prompto e efficaz esgoto aos dejectos de toda a vida, da industria e commercio, a immundicie de toda a ordem apparece e accumula-se por toda a parte sendo uma fonte, e não pequena, d'insalubridade publica.
Também a limpeza tem sido preconisada em todos os tempos, em que a saúde dos povos é amea-çada por algum agente morbifico geral e poderoso. Não porque a immundicie seja d'uma maneira gené-rica, meio de cultura dos agentes morbiíicos contra' os quaes se levantam estes preceitos ; mas porque, sendo em regra, sede de fermentações variadas im-pregna o ar de substancias toxicas que alteram fun-damente' a saúde publica.
Se o ar tem meios para resistir aos agentes vi-vos, não os tem para as substancias chimicas por elles fabricados. E' por ellas também que elle se torna na maioria dos casos irrespirável e deletério. Demais a limpeza ensina e educa para a desin-fecção.
Porisso todos os focos immundos, serão remo-vidos e quando não possa ser, destruídos por meio de desinfectantes.
Uma outra também importante consequência d'estes defeitos é a mendicidade. São de facto os mendigos typos de miséria social que por toda a