EDER
SAMUEL
OLIVEIRA
DANTAS
SUICÍDIO DE MULHERES EM UM CONTEXTO
PSICOSSOCIAL
NATAL/RN 2018
www.posgraduacao.ufrn.br/ppgscol [email protected] 55-84-3342-2338
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
EDER
SAMUEL
OLIVEIRA
DANTAS
SUICÍDIO DE MULHERES EM UM CONTEXTO
PSICOSSOCIAL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Saúde Coletiva.
Orientadora: Profª. Drª. Jacileide Guimarães
Natal/RN 2018
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Prof. Alberto Moreira Campos - -Departamento de Odontologia
Dantas, Eder Samuel Oliveira.
Suicídio de Mulheres em um Contexto Psicossocial / Eder Samuel Oliveira Dantas. - Natal, 2019.
78 f.: il.
Orientador: Jacileide Guimarães.
Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Natal, 2018.
1. Suicídio - Dissertação. 2. Mulheres - Dissertação. 3. Gênero e Saúde - Dissertação. I. Guimarães, Jacileide. II. Título. RN/UF/BSO BLACK D585
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho, a todos os familiares de mulheres caicoenses que cometeram suicídio, pois mesmo em suas dores da perda de um ente querido, se dispuseram a contribuir com a ciência, corroborando a intenção do pesquisador em lançar luzes sobre um fenômeno complexo no intuito de preveni-lo.
AGRADECIMENTOS
Ao Pai de tudo e todos, que com sua grandeza me levou para os lugares onde não imaginei que conseguiria chegar.
Aos meus pais, Maria das Graças e Ednaldo Cândido pelos ensinamentos da vida no qual sempre galguei minha humanidade.
À minha orientadora, Profª Drª Jacileide Guimarães por ter me acolhido em um momento difícil e por ter caminhado junto comigo nos percalços da estrada acadêmica.
À Glauber Weder, amigo de uma vida e companheiro de trincheiras, sempre generoso.
À Afonso Henrique, pelo apoio incondicional e companheirismo.
À Janilson Cézar, pela disponibilidade e abertura do ITEP/RN para este estudo.
À Marcela Fernandes, por tornar o campo de pesquisa acessível.
Às professoras: Drª. Elizabethe Fagundes, Drª. Soraya Medeiros, Drª. Nadja Botti por aceitarem o convite de participar da banca de qualificação e defesa e pelas contribuições advindas.
RESUMO
Introdução: O suicídio é um ato intencional e deliberado de pôr fim a própria vida. Diversos fatores estão relacionados a este tipo de morte autoprovocada, incluindo os fatores biológicos, psicológicos e sociais, configurando-se como grave problema de saúde pública, no Brasil e no mundo, destacando-se o suicídio feminino como interface ainda pouco explorada. Objetivo: conhecer o contexto psicossocial de mulheres que cometeram suicídio na cidade de Caicó estado do Rio Grande do Norte (RN). Método: Tratou-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, ancorada no método da autópsia psicossocial, buscando singularidades das dimensões femininas frente ao suicídio. Para tanto, foram entrevistados seis familiares de mulheres que cometeram suicídio no período de 2011 a 2016. Utilizou-se como técnica de coleta de dados a entrevista em profundidade com roteiro semiestruturado. A análise do material coletado se deu através da análise temática de conteúdo. Resultados: a análise dos dados resultou em três categorias temáticas: 1) Comportamento suicida na trajetória de vida das mulheres; 2) Transtornos mentais e suas relações sociais com o suicídio; 3) Conflitos familiares e questões de gênero instituídas. Considerações finais: Na trajetória de vida das mulheres que se suicidaram, identificou-se presença de ideação suicida e tentativa prévia ao ato, transtorno mental como depressão e esquizofrenia, além de situações conflitantes no seio familiar aliados a desigualdades de gênero e violência intrafamiliar. Evidenciou-se a necessidade de repensar políticas públicas de prevenção do suicídio em um plano coletivo e abrangente que possa atender especificidades de mulheres inclusive em áreas interioranas, bem como potencializar os dispositivos de saúde já existentes, ampliando à Atenção Básica em Saúde como norteadora de ações nos planos de identificação do risco suicida e de intervenções planejadas.
ABSTRACT
Introduction: Suicide is an intentional and deliberate act of putting an end to own life. Several factors are related to this type of self-inflicted death, including biological, psychological and social factors, becoming a serious public health problem in Brazil and in the world, highlighting female suicide as an interface that has not yet been explored. Objective: to know the psychosocial context of women who committed suicide in the city of Caicó state of Rio Grande do Norte (RN). Method: This was a research with a qualitative approach, anchored in the psychosocial autopsy method, searching for singularities of the female dimensions in the face of suicide. For this purpose, six relatives of women who committed suicide during the period from 2011 to 2016 were interviewed. The interview in depth was used as a technique of collection of data, based in a semi-structured script interview format. The analysis of the collected material took place through the thematic content analysis. Results: data analysis resulted in three thematic categories: 1) Suicidal behavior in the life trajectory of women; 2) Mental disorders and their social relations with suicide; 3) Family conflicts and gender issues instituted. Final considerations: In the life trajectory of women who committed suicide, suicidal ideation and attempted suicide were identified, as well as mental disorders such as depression and schizophrenia, as well as conflicting situations within the family, allied to gender inequalities and intrafamily violence. The need to rethink public suicide prevention policies was considered in a collective and comprehensive plan that could meet the specific needs of women, including in the interior areas, as well as to enhance the existing health devices, thus expanding Basic Health Care as a guide to actions in plans for suicide risk identification and planned interventions.
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Caracterização sociodemográfica e de perpetração do suicídio das mulheres que compuseram este estudo.
Quadro 2 – Caracterização das informantes que foram entrevistadas neste estudo, e o núcleo central que emergiu das entrevistas.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ...10
2 REFERENCIAL TEÓRICO ...12
2.1 O SUICÍDIO NA PERSPECTIVA SOCIAL ...12
2.2 O SUICÍDIO NA PERSPECTIVA PSICOLÓGICA ...16
2.3 O SUICÍDIO NA PERSPECTIVA PSICOSSOCIAL...18
2.4 PERSPECTIVA DO SUICÍDIO EM MULHERES ...19
3 OBJETIVOS ...22 3.1 OBJETIVO GERAL ...22 3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ...22 4 MÉTODO ...23 4.1 CARACTERÍSTICAS DO ESTUDO ...23 4.2 AUTÓPSIA PSICOSSOCIAL...23 4.3 CENÁRIO DO ESTUDO ...24 4.4 SUJEITOS DA PESQUISA ...25
4.5 COLETA DOS DADOS ...26
4.6 ANÁLISE DOS DADOS ...27
4.7 ASPECTOS ÉTICOS...28
4.8 VIVÊNCIAS NO CAMPO DE PESQUISA ...29
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ...31
5.1. COMPORTAMENTO SUICIDA NA TRAJETÓRIA DE VIDA DAS MULHERES... 33
5.1.1 DA ENUNCIAÇÃO DO DESEJO DE MORRER: IDEAÇÃO E PLANEJAMENTO SUICIDA...34
5.1.2 NAS PELEJAS DA VIDA: TENTATIVAS DE SUICÍDIO...38
5.2 TRANSTORNO MENTAL E SUAS RELAÇÕES SOCIAIS COM O SUICÍDIO...41
5.2.1 RELAÇÕES INSTITUÍDAS ENTRE AS MULHERES E O SERVIÇO DE SAÚDE...47
5.3 CONFLITOS FAMILIARES E QUESTÕES DE GÊNERO INSTITUÍDAS...50
5.3.1 ENTRE AS MARCAS E A VERGONHA: VIOLÊNCIA DE GÊNERO...54
6 CONCLUSÕES ...61
REFERÊNCIAS ...63
APÊNDICES...69
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 11 1 INTRODUÇÃO
O suicídio é considerado como um ato deliberado e intencional com o objetivo de infligir a morte a si. Para cada grupo social há uma tendência específica ao suicídio que somente a constituição orgânico-psíquica dos indivíduos e/ou a natureza do ambiente natural explicam, ou seja, são invariavelmente complexos (DURKHEIM, 1982). Cassorla (2004) enfatiza que o suicídio é um evento ocorrente pela culminância de uma série de fatores que o indivíduo vivencia durante sua trajetória de vida, sendo frequentemente observados fatores constitucionais até ambientes, culturais, sociais, biológicos e psicológicos.
No mundo, estima-se que haja um total de 800.000 mortes de suicídio por ano, figurando como a 13ª principal causa de morte. Estima-se que, para cada ato consumado, pelo menos vinte tentativas são registradas em atendimentos nos serviços de saúde. As taxas mais elevadas são observadas entre homens e mulheres acima de 70 anos de idade nas mais distintas regiões, com exceção de alguns países em que o grupo jovem lidera as estatísticas. A situação dos países com média e baixa renda é ainda mais grave, pois 75% dos suicídios registrados no mundo situam-se nestas áreas (BOTEGA, 2014, WHO, 2014 ).
O coeficiente de mortalidade por suicídio representa o número de suicídios para cada 100.000 habitantes ao longo de um ano. No Brasil, este coeficiente médio no período entre 2011-2015 foi de 5,5% (8,7% no sexo masculino e 2,4% no feminino) (BRASIL, 2017).
Apesar de se considerar que o Brasil possua um coeficiente relativamente baixo de suicídio, por ser um país populoso, figura entre os dez países que registram os maiores números absolutos de suicídios, denotando a magnitude e a complexidade desse fenômeno no território brasileiro.
Nestes contextos já citados sobre o suicídio, destaca-se que a pluralidade da população brasileira e a enorme extensão territorial do país é fator preponderante para que os índices de coeficiente de morte por suicídio sejam distintos nas suas regiões e localidades. Os índices mais elevados concentram-se nas regiões sul e sudeste, e os povos indígenas e agricultores são as populações mais propensas a se suicidarem (MINAYO; CAVALCANTE, 2012).
Na maior parte do mundo, homens tendem a cometer mais suicídio do que as mulheres, uma proporção em média de 4/1, trazendo o foco dos estudos e das intervenções para a população masculina (MENEGHEL, et al. 2012). No entanto, se levado em consideração a totalidade dos comportamentos autoagressivos, incluindo as tentativas e os suicídios consumados, acontece uma transformação de prisma nessa esfera: o fenômeno do suicídio se
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 12 torna mais grave para a população feminina, pois há inevitavelmente uma sobrecarga emocional maior para as mulheres, pois é nelas que as tentativas de suicídio são mais presentes, em uma relação em torno de 3/1 em relação aos homens (BEAUTRAIS, 2006).
Destaca-se no cenário internacional, a China é um dos únicos países do mundo que apresenta mortalidade feminina por autoagressão maior que a masculina. Na China, as mulheres que cometem suicídio são predominantemente jovens, empobrecidas, com baixo nível de escolaridade, sem oportunidades de trabalho e em situação de submissão cultural e social (YIP; LIU; LAW, 2008).
Ressalta-se que, apesar de homens se suicidarem três vezes mais que as mulheres, nas últimas décadas há um maior crescimento de suicídio feminino em comparação ao masculino, tornando relevante o ato de conceber estudos sobre o suicídio em perspectivas ainda pouco exploradas (MACHADO; SANTOS, 2015).
Nota-se que, a região Nordeste do Brasil tem sido estudada principalmente por nuances de seu modo particular de vida regional, que podem influenciar o surgimento do comportamento suicida, que inclui a ideação, tentativas de suicídio e o suicídio consumado (SOUSA, 2012). Uma publicação apresentou a cidade de Caicó, estado do Rio Grande do Norte, como a terceira colocada no ranking com maiores índices de suicídio no país em cidades com pelo menos 50.000 habitantes (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA, 2010), além de estudo de base populacional que alerta sobre altos índices de suicídio em cidades circunvizinhas, trazendo um alerta significativo em relação à epidemiologia do suicídio na cidade supracitada (SANTOS; BARBOSA, 2017).
Meneghel et. al (2013), afirmam que a temática do suicídio vem sendo estudada com maior frequência nas últimas décadas, porém o suicídio feminino e as perspectivas de gênero ainda são pouco estudados, sendo necessários estudos adicionais para entender os fatores determinantes do suicídio em mulheres, principalmente, pelo fator multidimensional desta temática.
Além de identificar uma lacuna histórica nos estudos sobre suicídio, (BEAUTRAIS, 2006; HESLER, 2013), estudar esse fenômeno é relevante por tudo que os autores já identificaram como preditores de casos de suicídios que envolvem a vida de mulheres e as formas de se relacionarem socialmente (MINAYO; CAVALCANTE, 2013; MENEGHEL et al., 2015).
Outro ponto que reitera a relevância de se estudar o suicídio é o estigma que rodeia essa temática. O silenciamento, o constrangimento e os não ditos da sociedade em relação a morte
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 13 autoinfligida, tornam-se um desafio para a área da saúde coletiva, tornando-se instigante a busca por maior conhecimento no momento em que se vislumbra os resultados que podem advir de uma pesquisa científica.
Destaca-se ainda que a inserção do pesquisador no campo da saúde mental coletiva, na atuação profissional e acadêmica, e ainda pelo interesse no tema suicídio, são motivadores para realização deste trabalho. Deve-se considerar também a motivação pessoal, cuja principal razão está no fato de ter nascido e vivido a maior parte da vida no Seridó do RN, e desde muito jovem ouvir o apelo social em relação ao suicídio nesta região.
Sendo assim, mesmo que este estudo não tenha a intenção de buscar generalizações acerca de uma temática tão abrangente e complexa, questiona-se: quais os principais fatores psicossociais que levaram mulheres a cometerem suicídio na cidade de Caicó/RN? Que elementos circunstanciais em suas vidas levaram-na em direção ao suicídio? Quais condições de vida antecederam suas mortes autoinflingidas?
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 14 2 REFERENCIAL TEÓRICO
Neste capítulo será apresentado o arcabouço teórico do estudo. Para tal, são apresentados conceitos sobre o suicídio através de uma perspectiva sociológica, com grande expressão através do sociólogo Émile Durkheim; uma visão psicológica, protagonizada por Edwin Shneidman; questões relacionadas a abordagem psicossocial do suicídio; e o suicídio de mulheres.
2.1 O SUICÍDIO NA PERSPECTIVA SOCIAL
Data-se em 1897 a publicação do livro intitulado O Suicídio de autoria de Durkheim. Émile Durkheim foi um sociólogo francês, baluarte da sociologia e apresentou, através da publicação de sua obra, uma discussão basilar para o suicídio em um contexto social. O suicídio é descrito por este autor como “todo o caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo, praticado pela própria vítima, sabedora de que devia produzir esse resultado” (DURKHEIM, 1982, p. 16).
O pensamento de Durkheim está inserido em um contexto europeu, no qual a concepção do suicídio no século XVIII era voltada para uma questão moral, para, no século XIX, ser visto como um problema social, aceitando dessa forma, a ideia de que o suicídio passou a ser encarado inicialmente de uma forma tradicional, e no século subsequente estando atrelado a uma nova ordem junto ao crescimento do industrialismo. Então, através de estatísticas, puderam correlacionar as taxas diferenciais de suicídio a questões sociais e sociodemográficas (NUNES, 1998).
Durkheim, com sua obra sobre o suicídio, aliou a epidemiologia aos estudos das ciências sociais. Dessa forma, os dados estatísticos deram condições de determinar a natureza das causas sociais que acompanham os diferentes tipos de suicídio e para definir uma tendência coletiva para o suicídio. A afirmação abaixo deixa clara a ideia do sociólogo:
Com efeito, se em lugar de apenas vermos os suicídios como acontecimentos particulares, isolados uns dos outros e que demandam ser examinados cada um separadamente, nós considerássemos o conjunto dos suicídios cometidos numa sociedade dada, durante uma unidade de tempo dada, constata-se que o total assim obtido não é uma simples soma de unidades independentes, um todo de coleção, mas que ele constitui por si só um fato novo e sui generis, que possui sua unidade e sua individualidade, consequentemente sua natureza própria, e que, ademais, é uma natureza eminentemente social. (Durkheim, 1982, p.8)
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 15 Ao proceder assim, Durkheim traz à luz, na Sociologia francesa, o modelo que integrasse a teoria e os dados, não se refere somente a uma tomada de posição filosófica, mas principalmente à forma pela qual o conhecimento sociológico se produz, situando o objeto de estudo numa perspectiva que ressalta a sua maneira de interpretar a sociedade dentro de um referencial que tinha a dissolução social como questão básica (DURKHEIM, 1982; NUNES, 1998).
É relevante ressaltar que ao longo da história da humanidade, o suicídio sempre foi considerado como uma questão inquietante, decorrente principalmente pelos significados indissociáveis atribuídos a vida e a morte. Estas questões emergem nos discursos religiosos, filosóficos, legais, psicológicos e aos fatores individuais. Dessa maneira, através do estudo sociológico sobre o suicídio, Durkheim traz às luzes que não é prudente restringir o suicídio somente ao viés individual.
No plano teórico, Durkheim propõe a categorização de três principais tipos de suicídios: egoísta, altruísta e anômico; baseado no grau de desequilíbrio de duas forças sociais: integração social e regulação moral. No que denomina de suicídio egoísta, estabelecendo três pressupostos: O suicídio varia na razão inversa do grau de integração da sociedade religiosa. O suicídio varia na razão inversa do grau de integração da sociedade doméstica. O suicídio varia na razão inversa do grau de integração da sociedade política (NUNES, 1998; TEIXEIRA, 2002).
Ao suicídio egoísta, cujas altas taxas estariam relacionadas aos fenômenos ligados a uma diminuição da integração social (por exemplo: maiores taxas entre homens solteiros do que entre casados). Caracterizando o papel do egoísmo como origem do suicídio, declara:
Quanto mais se enfraqueçam os grupos sociais a que ele (indivíduo) pertence, menos ele dependerá deles, e cada vez mais, por conseguinte, dependerá apenas de si mesmo para reconhecer como regras de conduta tão somente as que se calquem nos seus interesses particulares. Se, pois, concordarmos em chamar de egoísmo essa situação em que o eu individual se afirma com excesso diante do eu social e em detrimento deste último, podemos designar de egoísta o tipo particular de suicídio que resulta de uma individualização descomedida (Durkheim, 1982, p. 162).
Quando trata do suicídio altruísta, Durkheim (1982, p. 168) afirma inicialmente: “Se, quando desligado da sociedade, o homem se mata facilmente, se mata também quando está por demais integrado nela”. Neste tipo de suicídio, Durkheim explicita que quando a individualidade inexiste ou é fraca, pessoas pertencentes a determinados grupos tendem a se suicidar com maior frequência. Portanto, não podem ser explicados como pertencentes ao tipo
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 16 egoísta, e sim do tipo caracterizado por “uma fraca individuação ou do que designamos por altruísmo” (DURKHEIM, 1982, p. 183).
Em relação ao suicídio anômico, Durkheim situa a anomia como sendo um fator regular e específico de suicídios nas sociedades modernas, sendo diferente dos outros tipos, pois “depende não do modo como os indivíduos estão presos à sociedade, mas da maneira como esta os rege” (DURKHEIM, 1982, p. 204).
Quando ocorre desintegração de normas sociais e sendo esta um processo não imediato, leva os indivíduos a não se ajustarem às novas condições. O mesmo se aplica, por exemplo, se uma crise é motivada por um brusco aumento de poder e riqueza, despertando todo tipo de cobiça, no exato momento em que as normas tradicionais perderam a sua autoridade. O estado de desregramento ou de anomia é pois reforçado pelo fato de que no momento que se necessitam de disciplinas sociais mais rígidas não há adaptação a estas (DURKHEIM, 1982; NUNES, 1998).
Ainda sim, Durkheim apresenta o que se denomina “Formas individuais dos diferentes tipos de suicídios” (Durkheim, 1982, p. 222). Coloca em evidência que os tipos sociais que propõe correspondem aproximadamente a tipos psicológicos. Assim, ao suicídio egoísta corresponde apatia e secundariamente melancolia; ao altruísta, energia passional ou voluntária e sentimento do dever; ao anômico, corresponde irritação, desgosto e como variedade secundária, queixas contra a vida (NUNES, 1998).
Por fim, o cerne da questão sobre o suicídio como fenômeno social é evidenciado por Durkheim na seguinte afirmação:
Concluímos, de fato, que existe, para cada grupo social, uma tendência específica ao suicídio que nem a constituição orgânico-psíquica dos indivíduos nem a natureza do ambiente natural explicam. Resulta disso, por eliminação, que essa tendência deve depender de causas sociais e constituir por si mesma um fenômeno coletivo; inclusive, certos fatos que examinamos, sobretudo as variações geográficas e periódicas do suicídio, nos levaram expressamente a essa conclusão (DURKHEIM, 1982, p. 106).
Minayo (1998) relata que de maneira geral, o trabalho de Durkheim é clássico no sentido a que se propõe metodologicamente: fazer as indicações das regularidades, recorrências e tendências”. Por outro lado, aponta para necessidade emergente de trabalhos empíricos atuais, para que sejam consideradas questões históricas específicas, diferenciações de sociedades, culturas, grupos e condições.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 17 2.2 O SUICIDIO NO CONTEXTO PSICOLÓGICO
Edwin Shneidman, psicólogo estadunidense e grande estudioso do suicídio, e também criador da nova disciplina e do termo “suicidologia”, salientou que ela pertence à Psicologia, reconhecendo que o suicídio é uma crise psicológica. A “suicidologia” é a ciência dos comportamentos, pensamentos e sentimentos autodestrutivos, da mesma forma que a Psicologia é a ciência relativa à mente e seus processos, sentimentos e desejos (SHNEIDMAN, 1994).
Para Shneidman, os indivíduos que cometem suicídio, assim o fazem por não encontrarem outra solução possível para escapar de uma dor psicológica tida como insuportável. No percurso natural da vida, os indivíduos criam padrões psicológicos para reagirem aos problemas encontrados, e nesse contexto, o ser suicida passa por um estado de dor psíquica aumentada, estimulada ainda por certas necessidades psicológicas bloqueadas e frustradas (SHNEIDMAN, 1994).
Neste modelo conceitual, o suicídio estaria inserido em três dimensões principais - dor, perturbação e pressão - que ao atingir a intensidade máxima, para o indivíduo não sobrariam muitos escapes, e o suicídio passaria a ser encarado como única saída para tais situações.
Partindo do pressuposto que a dor psíquica é central na tríade supracitada, Shneidman (1994) afirma que ela está ligada, principalmente, a experiências negativas com necessidades psicológicas básicas que cada ser humano possui, como o conforto, segurança e autonomia, e dessa maneira a dor psíquica ocorre justamente pela dificuldade em lidar com o sofrimento, com a raiva e com a hostilidade geradas por tais frustrações.
Shneidman (1994) e Lenaars (2010), afirmam que a intenção do ato suicida se caracteriza quando se demonstra que a vítima quando realizou a ação autodestrutiva tinha um entendimento de sua natureza física e de suas consequências, trazendo à tona a questão da intencionalidade, a intenção é ter em mente algo a ser realizado, ter um objetivo, um propósito, um plano. Neste caso ao suicidar-se, a premissa não seria propriamente o desejo de morrer, mas a vontade de livrar-se daquilo que está causando a angústia, dor ou perturbação.
No entendimento de Shneidman, o suicídio, no mundo ocidental, é um ato de autoaniquilamento consciente, mais bem compreendido como um mal-estar multidimensional num indivíduo vulnerável, que ao definir um ou mais temas-problemas, enxerga o autoextermínio como melhor solução (SHNEIDMAN, 1994).
Ainda no plano teórico-conceitual de Shneidman, e na perspectiva do ato suicida, foi descrito uma associação entre as palavras e o seu verdadeiro sentido no campo da suicidologia,
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 18 da seguinte maneira: Ato – Ação Letal que conduz a morte; Cessação – Interrupção do fluxo de angústia insuportável; Autoinfligido – Ocasionado por si mesmo; Intencional – Vontade consciente de terminar com a vida (SHNEIDMAN, 1994).
Os estudos de Shneidman tiveram repercussões sociais significativas.Através deles, criou-se o primeiro Centro de Prevenção de Suicídio em Los Angeles, que tinha como propósito atender por telefone demanda de pessoas com risco suicida e pela capacitação de pessoas voluntárias, que não eram profissionais da saúde necessariamente para atuarem neste serviço, sendo impulsionador de outras estratégias parecidas, como o Centro de Valorização da Vida (CVV) aqui no Brasil.
Tendo em vista outros aspectos, além dos psicopatológicos, e com os anos de estudo da suicidologia, Shneidman criou o método de Autópsia Psicológica, instrumento que permite reconstituir de forma retrospectiva fatores relacionados às circunstâncias da saúde física, mental e alguns aspectos sociais, das pessoas que morreram por suicídio.
Para tal feito, se faz necessário uma análise criteriosa das informações sobre o sujeito, que são obtidas através de entrevistas com pessoas que conviveram com o indivíduo (familiares, amigos,vizinhos), além de entrevistas, podem ser acessados prontuários médicos, laudos periciais e registros policiais e depoimentos de equipes de saúde que conheceram a pessoa e tiveram acesso ao contexto sociocultural e das possíveis causas de seu ato (SHNEIDMAN, 1994; ISOMETSÃ, 2001; MINAYO; CAVALCANTE, 2012; CAVALCANTE et al., 2012).
Vale ressaltar que essa avaliação psicológica cunhada, na década de 1960, como autópsia psicológica, tem mostrado sua eficácia em diversos contextos: na clínica, na avaliação forense e no contexto de pesquisa sobre o suicídio, nesta última, por se tratar de uma estratégia de investigação qualitativa, estuda pequenos grupos, para que os resultados obtidos nas narrativas dos entrevistados possam ser substanciais para que sejam traçados ideias de sofrimento e dor que levaram as pessoas a cometerem suicídio (ISOMETSÄ, 2001; SHNEIDMAN, 1994; MINAYO; CAVALCANTE, 2012).
2.3 SUICÍDIO NA PERSPECTIVA PSICOSSOCIAL
De acordo com Cassorla (2004) na abordagem psicossocial dos estudos sobre suicídio, reconhece-se que a conjuntura mental clássica dos indivíduos não é por si só a causa dos suicídios, mas a dimensão da dinâmica psicológica, atrelada a diversos fatores determinantes, buscando assim enxergar o fenômeno na sua complexidade e nas suas diversas interfaces.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 19 No entanto, apesar de na perspectiva da Autópsia Psicológica já haver a integração de fatores históricos, psicológicos e sociais, Maria Cecília de Souza Minayo e Fátima Maria de Cavalcante, estudiosas brasileiras sobre violências, propuseram analisar o suicídio como fenômeno psicossocial, que se constitui como processo construído e potencializado no decorrer da vida de cada indivíduo (CAVALCANTE; MINAYO, 2010).
Dessa forma, intitularam de Autópsia Psicossocial um modelo teórico de estudos sobre o suicídio que pudesse integrar de forma interativa ao que já havia sido proposto por Shneidman a uma perspectiva psicossociológica que de acordo com Cavalcante e Minayo (2010) aprofunda a relação entre biografia e vida em sociedade à clássica visão de Durkheim que define o suicídio como um evento que se presentifica em contextos sociais específicos; e às recomendações de Lester e Thomas que sugerem o uso de estudos contextualizados para se estabelecer nexos causais entre aspectos sociais, contextos e subjetividade (MINAYO; CAVALCANTE, 2012; CAVALCANTE et al., 2012).
De acordo com Minayo, Cavalcante e Souza (2006), pensar triangulando as teorias supracitadas é reconhecer, na compreensão e análise das narrativas dos familiares, alguns elementos imprescindíveis, como os contextos em que os fatos, como fenômenos ocorrem; as interações e relações dos vários aspectos, psíquicos, sociais, culturais, presentes nos contextos; a quebra de uma visão linear e reducionista de causa-efeito; e a abertura para a complexidade de significados dos fenômenos psicossociais.
Inicialmente, o método das pesquisadoras brasileiras foi desenvolvido para a utilização em idosos, notadamente a faixa etária da população que mais se suicida no mundo, no entanto, pelo rigor que a abordagem psicossocial traz, pode ser utilizada para diferentes grupos, desde que se organizem da forma original pela técnica de entrevista semiestruturada e que contemple os seguintes aspectos: a caracterização psicossocial da pessoa que morreu por suicídio e de seus familiares com base em dados da história e do modo de vida, avaliação dos antecedentes e do ambiente que antecedeu a morte, impacto do suicídio na família, o estado mental da pessoa antes da morte, até ressaltar os fatores mais relevantes e concatená-los de forma circunstanciada (MINAYO; CAVALCANTE, 2012; CAVALCANTE et al., 2012).
Reconhecendo que para cada padrão interativo prediz o suicídio como multifatorial, particular e singular, dá-se a importância das abordagens teóricas descritas principalmente no que diz respeito ao aprofundamento necessário para entender este fenômeno complexo e ser capaz de refletir em possibilidades de prevenção.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 20 2.4 O SUICÍDIO NA PERSPECTIVA DO GÊNERO FEMININO
Os estudos do suicídio que tem o propósito de aproximar este objeto de estudo ao universo de mulheres são escassos (MENEGHEL et. al, 2013; MINAYO; CAVALCANTE, 2012). Este fato geralmente tem relação com a epidemiologia do suicídio, que expressa ao longo do tempo uma aproximação bastante estreita entre o ato suicida com a população masculina, haja vista que os homens compreendem o maior número de casos consumados (BOTEGA, 2014).
De acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde (2017) o Brasil registrou entre os anos de 2011 e 2015 um total de 55.640 óbitos por suicídio, destes, 43.382 (77,96%) eram do sexo masculino, enquanto 12.258 (22,03%) eram mulheres. Quando o registro diz respeito a tentativas de suicídio, os dados praticamente se invertem, entre os anos de 2011 a 2015 foram registrados 48.204 casos de tentativa de suicídio, sendo 33.269 (69,0%) em mulheres e 14.931 (31,0%) em homens.Pontua-se que as diferenças são dirimidas na Ásia, onde as taxas de suicídio são similares entre homens e mulheres e em âmbito mundial, apenas a China e a Índia apresentam mortalidade feminina maior que a masculina (YIP; LIW; LAW, 2008; MELO, BERTOLETE, WANG, 2011).
Beautrais (2006) que se empenhou em estudos sobre suicídio de mulheres, considera que essa relação entre suicídio masculino e feminino é o paradoxo de gênero da suicidologia, pois o comportamento suicida, expresso em ideação e tentativas é um fenômeno muito atrelado as mulheres enquanto o suicídio consumado é maior na população masculina.
Minayo e Cavalcante (p. 2406, 2013) em estudo sobre suicídio de mulheres idosas, explicitaram alguns pontos de vista machistas e discriminatórios de autores sobre o fato da menor ocorrência da consumação do suicídio em mulheres:
Durkheim, em seu clássico trabalho sobre suicídio ao final do século XIX, comenta que essa diferença entre os sexos se deve ao fato de a mulher ter uma sensibilidade mais rudimentar e uma vida mental menos desenvolvida, ter menos aspirações e necessidades e de se satisfazer com mais facilidade. Em pleno século XX, Lester adotou a mesma explicação, dizendo que a pouca força física da mulher a impediria de utilizar uma arma de fogo ou qualquer outro meio mais agressivo para se matar. É também o pensamento de Neuringer para quem a mulher escapa da morte autoinfligida porque é mais passiva, inepta, e não tem pensamento lógico para realizar tal ato de forma eficiente.
Dessa forma, diversos atributos relacionados à fragilidade, a passividade e sobre uma incapacidade de concluir o ato suicida foram permeando os achados epidemiológicos sobre as
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 21 mortes por suicídio no mundo, fato este que ainda está em desconstrução, visto que o modelo biomédico ainda trabalha com determinadas intencionalidades, que diferem o suicídio por sexo, e não a partir do gênero, que por sua vez tem uma conotação com as relações sociais instituídas com as mulheres e homens, e que ainda assim não determinam o complexo universo do suicídio. Beautrais (2006) contraria esse pensamento e entende que a mulher é mais propensa ao suicídio, ele associa uma série de fatores que contribuem para o comportamento suicida feminino: maior propensão à ideação e tentativas de autoextermínio; maior prevalência de depressão e distúrbios alimentares; psicose pós-parto; grande ocorrência de ideação suicida após aborto induzido e nas situações de baixos níveis de estrogênio e serotonina; grande vulnerabilidade após perda de filhos; violência doméstica contra elas e os filhos.
De outro lado há diversos autores que de forma positiva têm ajudado a explicar através da própria antropologia feminina, um menor número de suicídios se explicaria, mostrando que elas, em geral, tem uma expectativa maior de vida, são menos envolvidas com estilos de vida autodestrutivos como abuso de drogas ilícitas e lícitas, direção perigosa, brigas e homicídios; agem menos por impulso; constroem laços afetivos e redes sociais mais facilmente; têm um pensamento mais inclusivo e complexo; aliam razão e emoção; cultivam várias prioridades na vida e não são movidas apenas por objetivos profissionais; são mais envolvidas com a família e a comunidade (CANETTO, 2008; MINAYO; CAVALCANTE, 2010; MINAYO; MENEGHEL; CAVALCANTE, 2012).
Minayo e Cavalcante (2010) afirmam ainda que os fatores protetores acima relacionados, obviamente não seria fruto da natureza feminina e, sim, da socialização que historicamente a mulher está inserida, que por sua vez gera uma ética de cuidado, de interação, de convívio e de afeto, baseada em um pensamento concreto que passa pelo corpo, é complexo e holístico.
Quanto às condições socioeconômicas, foram encontrados estudos que mostram maiores prevalências para o suicídio entre donas de casa, estudantes, aposentadas e pessoas com pouca escolaridade (BERNARDES; TURINI; MATSUO, 2010; BOTEGA et al., 2009; WERNECK et al., 2006; PONCE et al., 2008). Concebe-se que não são fatores isolados para o suicídio, porém os fatores socioeconômicos relacionam-se diretamente com organização social, que de forma geral assume disparidades negativas para às mulheres.
O trabalho e boas condições para exercê-lo, podem ser considerados fortes fatores de proteção para mulheres, já que de maneira geral as taxas mais elevadas de suicídio são
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 22 encontradas em pessoas desempregadas. E de outro lado, aquelas que estão inseridas em sub-empregos também estariam mais propensas a violência autodirigida (KPOSOWA, 2001).
Diferenças entre os métodos utilizados por mulheres e homens para cometer o ato suicida indicam contextos e situações marcadas pelo gênero feminino. As mulheres utilizam mais medicamentos, seguido de auto envenenamento por pesticidas (BERNARDES; TURINI; MATSUO, 2010; WERNECK et al., 2006) enquanto os homens usam meios mais agressivos, como armas de fogo e enforcamento (STACK, 2000), indicando concepções de masculinidade onde se destaca a virilidade e a força.
Dessa forma, há uma compreensão de interpretação sobre o suicídio de mulheres, tendo em vista o contexto psicossocial que essa população está inserida e como este ato de violência autoinfligida se relaciona com fatores biológicos, sociais e culturais.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 23 3 OBJETIVOS
3.1 OBJETIVO GERAL
Conhecer o contexto psicossocial de mulheres que cometeram suicídio na cidade de Caicó/RN.
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
a) Discutir influências do modo de vida de mulheres de Caicó/RN em relação a morte autoinfligida;
b) Identificar fatores singulares que antecederam o ato suicida no contexto de vida de mulheres de Caicó/RN;
c) Identificar aspectos da saúde mental e física e suas relações com o suicídio de mulheres suicidas de Caicó/RN.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 24 4 METODOLOGIA
4.1 CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa que, de acordo com Minayo (2010), presta um aporte metodológico para pesquisas que se preocupam com o estudo das relações humanas de forma aproximada dos sujeitos. Contempla-se através desta abordagem a análise subjetiva relacionada aos atores sociais e à cotidianidade de suas relações com os objetos estudados, tornando-se um tipo de abordagem indispensável a temas com grande impacto social, como é o suicídio, objeto deste relatório de pesquisa.
A presente pesquisa caracteriza-se também como exploratória e descritiva, que tem como principais objetivos proporcionar uma visão que gere aproximação acerca do fato estudado, colaborando para modificar conceitos e ideias existentes e estudar as características de um grupo. Comumente essas pesquisas envolvem pessoas que viveram na prática as situações e problemas propostos, sendo cruciais para determinação de hipóteses para estudos posteriores (GIL, 2008).
4.2 AUTÓPSIA PSICOSSOCIAL
Este estudo adotou a abordagem qualitativa por meio do método das autópsias psicossociais, conceito já bastante estudado por Maria Cecília de Souza Minayo e Fátima Gonçalves Cavalcante, difundido no Brasil, principalmente, após estudo multicêntrico coordenado por essas pesquisadoras que compõem o grupo de estudos sobre violência da Fundação Oswaldo Cruz (CAVALCANTE; MINAYO, 2012; CAVALCANTE et., al, 2012).
Por meio da autópsia psicossocial, procura-se conhecer e compreender, entre outros aspectos, as questões microssociais que envolvem o âmbito familiar e comunitário do suicida, sobretudo após o ato fatal. Dessa forma este método tem a real intenção de sobressair-se das questões epidemiológicas e avançar no estado da arte do suicídio onde são aplicados.
Através deste método, é possível reconstituir os momentos que antecederam mortes autoinfligidas, através dos procedimentos técnicos utilizados (coleta de dados secundários, roteiro de entrevista, análise dos dados) compreenda-se o fenômeno do suicídio na população estudada, englobando uma visão psicossociológica, e para tal a aproximação com o cenário e
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 25 busca por singularidades são indispensáveis (CAVALCANTE E MINAYO, 2012; SOUSA, 2012).
Busca-se, através do método das autópsias psicossociais, atribuir significados ao suicídio por aqueles que diretamente conviveram com pessoas que cometeram suicídio, configurando-se como importante estratégia para se compreender os sentidos socioculturais e emocionais dos indivíduos, nas mais diversas relações e nos mais variados espaços, físicos e simbólicos.
4.3 CENÁRIO DO ESTUDO
De acordo com Minayo (2001), o campo de pesquisa é um recorte espacial que representa uma realidade a ser investigada, e este espaço é ocupado por indivíduos e coletividades que convivem de diferentes formas mediante a interação social. Tornando-se objeto de estudo, o campo de pesquisa propicia criação de novos conhecimentos com base na interação do pesquisador com os grupos estudados.
Assim, o cenário dessa pesquisa se concentra nos casos de suicídio de mulheres que ocorreram na cidade de Caicó, estado do Rio Grande do Norte (RN). A cidade de Caicó faz parte da região do Seridó/RN, que engloba 25 municípios de pequeno e médio porte, sendo o principal deles em termos econômicos, culturais e de atenção à saúde. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2018, a cidade de Caicó possui aproximadamente 67.554 pessoas, sendo a maior e mais populosa cidade da região do Seridó do estado do Rio Grande do Norte e a sétima maior cidade do estado em termos populacionais (IBGE, 2018).
Com formação vegetal conhecida como Caatinga Subdesértica do Seridó, vegetação mais seca do estado com arbustos e árvores baixas e ralas. Segundo o Plano Nacional de Combate à Desertificação, Caicó está inserida em área susceptível à desertificação em categoria muito grave. O clima é semiárido com temperatura média de 27,5ºC (IBGE, 2010).
Entre as atividades econômicas que existem na cidade e que também consubstanciam como marcas culturais, estão a produção de artefatos de tecidos e bordados, fabricação de gêneros alimentícios como carne de sol, queijo de coalho e manteiga, linguiça do sertão e a manteiga da terra. Destacam-se entre essas atividades, os conhecidos bordados de Caicó, que representam uma marca da cidade, conhecida nacionalmente e internacionalmente (MORAIS, 1999).
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 26 Caicó é também bastante conhecida pela religiosidade da sua população, cujo catolicismo sempre foi dominante nesta cidade, de sua fundação à atualidade (MORAIS, 1999). De acordo com o IBGE (2010) no ultimo censo realizado, das 62.709 pessoas que habitavam a cidade 53.657 pessoas afirmaram pertencer a religião católica, ou seja, 85,56 % da população, constituindo um forte traço do seu povo.
No campo da saúde pública, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde do RN, este município possui diversidade em relação aos serviços de saúde. A atenção básica à saúde está composta por 24 unidades de saúde, destas, 19 são Estratégias Saúde da Família (ESF) e 05 são Unidades Básicas de Saúde (UBS), acobertando 100% da população. No campo específico da saúde mental, existem 02 Centros de Atenção Psicossocial (01 tipo transtorno mental, categoria III e 01 Álcool e Drogas categoria II), 01 Residência Terapêutica, 06 leitos de Saúde Mental em Hospital Geral.
No que concerne ao suicídio, dados do Departamento de Informática do SUS (DATASUS) indica que foram registrados 23 óbitos com causa morte lesão autoprovocada no ano de 2017 na cidade de Caicó.
4.4 SUJEITOS DA PESQUISA
Para a fidedignidade na pesquisa qualitativa, é bastante relevante o uso da narrativa a fim de compreender experiências vivenciadas por outras pessoas, uma vez que não temos acesso direto às experiências vivenciadas por outras pessoas. No entanto, podem-se aprender novas formas de enxergar o objeto de estudo através da aproximação dos sujeitos (GOMES; MENDONÇA, 2002).
Minayo et al. (2011) relatam em seu estudo que uma característica do suicídio, como fenômeno social e psicológico, é o tabu que permeia a população que dificulta a aceitação de pessoas em falarem do suicídio, especialmente, se foi cometido por alguém próximo. Da mesma forma, a experiência internacional trazida por Shneidman (2001) relata dificuldades em diversos países de pessoas dispostas a falar sobre suicídio, tendo em vista que se trabalha com a reconstituição das memórias afetivas sobre o fenômeno.
Para alcançar os familiares de pessoas que cometeram suicídio, procedeu-se com o levantamento dos casos no Instituto Técnico de Perícia do Rio Grande do Norte - Subseção Caicó, após autorização do órgão para utilização dos laudos necropsiais e acesso ao sistema interno da instituição que dava acesso on-line a informações.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 27 Para tal utilizou-se dos seguintes critérios de inclusão: foram selecionados os laudos periciais através de leitura documental, cuja causa morte na investigação entregue ao ITEP/RN estivesse descrito como lesão autoprovocada independente da forma de perpetração (enforcamento, arma de fogo, afogamento, queda de altura) dentre outros.
Para serem elegíveis, os casos de suicídio deveriam ter ocorrido entre março de 2011 à março de 2016, buscando atender ao que alguns estudiosos pensam sobre o tempo adequado de aproximar-se do fenômeno com os comunicantes de pelo menos dois anos depois do ato, buscando minimizar impactos psíquicos (MINAYO; CAVALCANTE, 2012; CAVALCANTE et. al, 2012; SOUSA, 2012), optando-se por no máximo cinco anos para que as lembranças dos fatos estivessem bem elaboradas. Excluíram-se os casos de mulheres menores de 18 anos e de mulheres não residentes em Caicó no momento do suicídio. Aplicando-se esses critérios, 09 (nove) casos de suicídios foram elegíveis ao estudo.
De posse dos dados, contatou-se por telefone os familiares que por sua vez deveriam ser maiores de 18 anos, e terem convivido com a mulher suicida nos momentos que antecederam o fato por pelo menos 01 ano. Através da Estratégia de Saúde da Família, com auxílio do Agente Comunitário de Saúde, foi possível localizar a residência e fazer uma aproximação com os possíveis entrevistados, em 05 (cinco) casos não houve possibilidade de contato com os familiares, por não residirem mais no município e não haver possibilidade de encontro com o pesquisador, tornando foco deste estudo 04 casos de mulheres suicidas.
Dessa forma as autópsias psicossociais foram realizadas com 04 (quatro) famílias de mulheres, no total 06 (seis) informantes foram entrevistados. Os participantes da pesquisa eram irmãs, tias e filhas das vítimas de suicídio. A fim de respeitar o anonimato das participantes da pesquisa, elegeram-se pseudônimos para identificá-las, atrelando-as a nomes de flores (Violeta, Rosa, Margarida, Petúnia, Camélia e Tulipa).
4.5 COLETA DE DADOS
A produção do material de campo aconteceu nos meses de março e abril de 2018. Escolheu-se a entrevista semiestruturada como instrumento de recolhimento de informações sobre suicídio de mulheres. Essa abordagem metodológica faz uma reconstituição narrativa baseada em um roteiro de referência, para entrevista (CAVALCANTE et al., 2012) sobre a) caracterização social; b) retrato e modo de vida; c) avaliação da atmosfera do ato de suicídio; d) estado mental que antecedeu o suicídio; e) reflexão da família sobre o ato.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 28 Minayo (2010) retrata que a entrevista semiestruturada deve ser constituída de forma a permitir flexibilidade nas conversas e a absorver novos temas e questões trazidas pelo interlocutor, dando a devida importância a relatos não atribuídos no roteiro. A autora ressalta que deve fazer parte do roteiro semiestruturado de entrevista apenas algumas questões consideradas de extrema importância para que haja abertura, ampliação e aprofundamento da comunicação.
Após explicação da intenção da pesquisa, apresentação do pesquisador, checagem dos dados da pessoa que faleceu por suicídio, e das perguntas que iriam constar no roteiro de entrevista, realizou-se a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e posteriormente, as assinaturas dos familiares, bem como autorização para que a entrevista fosse gravada.
As entrevistas tiveram uma duração média de cinquenta e cinco minutos, foram realizadas em locais de escolha dos entrevistados, sala, varanda, cozinha e sala de costura na tentativa de preservar o sigilo e a confidencialidade, além de buscar um local com poucos ruídos para que o áudio gravado pudesse ser ouvido para posterior transcrição.
4.6 ANÁLISE DOS DADOS
Com posse dos áudios e registros escritos realizados após cada entrevista, realizou-se a transcrição na íntegra, realizando-se leituras e releituras de cada uma, no intuito de adentrar na atmosfera dos relatos. Após cada leitura, foi realizado um resumo de cada caso de suicídio e posteriormente foram aglomerando-se em categorias, reiterando que as mesmas foram se modificando e se moldando a partir da imersão na literatura e do aprofundamento do olhar sobre as falas.
A análise de dados se deu através da Análise de Conteúdo. Neste tipo de análise, o pesquisador precisa estar atento ao esforço da interpretação, pois, Análise de Conteúdo (AC) oscila entre os dois polos do rigor da objetividade e da fecundidade da subjetividade; absorve e cauciona o aparente; o potencial de inédito do não dito, retido por qualquer mensagem (MINAYO, 2010). Existem várias modalidades de análise de conteúdo, dentre elas: análise lexical, de expressão, de relações, temática e de enunciação. Neste estudo, adotou-se a análise temática de conteúdo por se considerá-la a mais adequada para as investigações qualitativas em saúde.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 29 A Análise Temática de Conteúdo possui três etapas: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados. A pré-análise é a fase em que se organiza o material a ser analisado com o objetivo de torná-lo operacional, sistematizando as ideias iniciais, realizou-se dessa forma leitura flutuante dos documentos, bem como sua retomada quando necessário (MINAYO, 2010).
A exploração do material constitui a segunda fase, que consiste na exploração do material com a definição de categorias. Essencialmente, é uma operação classificatória, onde o investigador busca encontrar categorias que são expressões ou palavras significativas em função das quais o conteúdo de uma fala será organizado (MINAYO, 2010). Desse modo, as falas foram organizadas de acordo com a expressão de seu conteúdo. Na categorização, os temas que cada categoria possuirá, deverá abranger de forma coerente e condensada o material que antes era considerado bruto.
A terceira fase diz respeito ao tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Esta etapa é destinada ao tratamento dos resultados; ocorre nela a condensação e o destaque das informações para análise, culminando nas interpretações inferenciais, é o momento da intuição, da análise reflexiva e crítica. Na última etapa, a categorização é uma operação classificatória de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e, seguidamente, por meio de reagrupamento segundo a analogia, com os critérios previamente definidos. As categorias são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registro) sob um título genérico, agrupamento esse em razão das características comuns destes elementos (MINAYO, 2010).
Minayo (2010) destaca que este processo analítico, tem o sentido de tornar possível a objetivação de um tipo de conhecimento que tem como matéria prima opiniões, crenças, valores, representações, relações e ações humanas e sociais sob a perspectiva dos atores em intersubjetividade. Desta forma, a análise qualitativa de um objeto de investigação concretiza a possibilidade de construção de conhecimento e possui todos os requisitos e instrumentos para ser considerada e valorizada como um construto científico.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 30 4.7 ASPECTOS ÉTICOS
A presente pesquisa seguiu os aspectos éticos da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde que regulamenta em âmbito nacional as pesquisas envolvendo seres humanos, onde se apresenta definições para pesquisadores que se propõem a contribuir com o desenvolvimento cientifico, social e intelectual de forma a gerar benefícios para toda a sociedade, visando assegurar os direitos e deveres a todos os envolvidos na investigação, principalmente, na proteção dos participantes (BRASIL, 2012).
Esta pesquisa foi realizada sob respaldo do parecer de aprovação ética com número CAAE nº 84229418.8.0000.5292, e parecer nº 2.527.285 de 06 de março de 2018 emitido pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CEP HUOL-UFRN).
As entrevistas só foram de fato realizadas, quando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado pelos participantes, e quando houve clareza dos objetivos propostos bem como da participação voluntária do sujeito na pesquisa, ressaltando que os entrevistados poderiam desistir a qualquer momento e em qualquer fase, sem haver nenhum dano ou penalidade aos mesmos, preservando o sigilo e anonimato das informações recolhidas.
Os dados colhidos através da entrevista semiestruturada foram gravados em áudio sob autorização dos entrevistados e depois transcritos na íntegra. Durante a coleta de dados foi dado intervalo, quando necessário. Além disso, colocou-se à disposição dos entrevistados, atendimento psicológico na rede de saúde do município, porém nenhum dos entrevistados julgou necessário, corroborando a avaliação do pesquisador.
4.8 VIVÊNCIAS NO CAMPO DE PESQUISA
Segundo Minayo, Grubits e Cavalcante (2012), o trabalho de campo possibilita uma maior aproximação do pesquisador com a realidade sobre a qual se propôs fazer a investigação, visando avaliar e aprofundar seu conhecimento. Nesse ínterim, destaco alguns pontos que marcaram a realização do projeto de pesquisa, do preparo, da inserção no campo e das marcas da saída.
Na concepção do estudo destaco a importância que estudos com autópsia psicossocial representam no campo da pesquisa qualitativa, pois, das coisas que não abriria mão de realizar no mestrado em saúde coletiva, uma delas seria trabalhar a temática do suicídio junto da
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 31 realidade social, então, apesar de a Universidade Federal do Rio Grande do Norte não ter tradição de estudos com este método, buscou-se apoio da pesquisadora Maria Cecília de Souza Minayo, que orientou quanto ao material de apoio para subsidiar a realização do estudo.
Uma questão importante que vale destaque, são os tabus que envolvem a temática do suicídio, por sua vez, também foi sentido na elaboração do estudo, o Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos em seu primeiro parecer, indeferiu a realização da pesquisa, reprovou o projeto por considerar que “abordar o tema do suicídio com familiares estimularia outros atos suicidas”, fato já refutado há anos pela literatura internacional e nacional.
Porém, através de sucessivos contatos da Profª Jacileide Guimarães, orientadora desta pesquisa, conseguimos explanar com maiores detalhes sobre o projeto de pesquisa, e após crivo de consultor ad hoc o projeto foi então aprovado pelo comitê de ética.
Superando essa primeira empreitada, começamos a coleta de dados secundários no ITEP/RN, cujo acolhimento foi bastante surpreendente, pois seria a primeira etapa de aproximação real na cidade do estudo, e seria por meio das informações ali colhidas que todo o trabalho com as famílias seria iniciado. Nessa etapa de imersão no campo, apareceram sentimentos como medo, ansiedade para iniciar as entrevistas e diversas leituras e preparo emocional para encarar com seriedade e humanização os desafios da pesquisa de campo.
Com as informações colhidas no ITEP/RN, iniciaram-se os contatos telefônicos com as famílias, e a marcação dos encontros. A primeira entrevista foi sem dúvida aquela que mais marcou a trajetória do estudo, pois a partir dela pude perceber que alguns receios criados antes de fazê-la foram desconstruídos, e percebi que trabalhar esta temática com familiares que conviveram de perto com o suicídio é uma experiência forte, exige bastante do entrevistador e é notadamente marcante para aquele que está no lugar de informante.
Talvez, tenha percebido que apesar de cerca de uma hora de entrevista, por pouco tempo cronológico que seja, é capaz de demonstrar muito de quem somos e do nosso propósito de pesquisador. O contato pessoal com as mulheres entrevistadas foi marcado também por empatia, nos momentos iniciais da conversa que antecediam os questionamentos da entrevista, sentimos que estavàvamos demarcando um espaço de confiança mútua que tinha de amadurecer com o desenrolar da entrevista.
E a cada término de encontro, quando me colocava a disposição para esclarecimentos e agradecia pela colaboração com a pesquisa, geralmente apareciam falas como: “só em poder desabafar foi muito bom”; “é importante quando vem alguém sem julgamentos para falar sobre isso”, fatos impulsionadores para a saída de campo.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 32 Na transcrição das entrevistas, estando longe da relação interpessoal, pude perceber que é justamente nesse momento que o equilíbrio do pesquisador é testado, ao ouvir cada frase relatada, se convive mais uma vez, mesmo que não presencialmente, com relatos carregados de emoções. Dessa forma, optei por realizar as transcrições de cada caso no decorrer de três dias, e dando este igual intervalo para nova transcrição.
Por fim, relato que nenhuma das etapas de realização da pesquisa foram fáceis, reconhecendo ainda fatores limitantes a sua realização como o financiamento próprio, necessidade de diversos deslocamentos para o interior do estado, bem como associar o tempo disponibilizado para o mestrado com a profundidade exigida pela pesquisa.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 33
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Neste capítulo, serão apresentados os resultados da análise de dados, em busca de uma melhor compreensão do fenômeno de forma localizada e singular. Em seguida, se discutirá os achados com a literatura convergente.
A seguir observam-se alguns dados sociodemográficos e dados relacionados à ocasião da morte por suicídio de mulheres caicoenses.
Quadro 1 – Caracterização sociodemográfica, meio de perpetração e local do suicídio de mulheres caicoenses, Natal/RN, 2018.
ID* Ano da Morte
Idade Estado Civil Escolaridade Religião Profissão/Ocupação Meio de Perpetração
Local de Perpetração
Ana 2012 58 anos Separada Ensino Médio Incompleto
Evangélica Auxiliar de Serviços Gerais
Enforcamento Quarto da Própria Residência
Beatriz 2012 30 anos União Estável Ensino Médio Católica Dona de Casa Enforcamento Quarto da Própria Residência
Cecília 2015 35 anos União Estável Ensino Médio Sem religião Dona de Casa Enforcamento Quarto da Própria Residência
Doralice 2016 29 anos Separada Ensino Médio Sem religião Costureira Enforcamento Varanda da própria Residência Fonte: Dados extraídos das entrevistas com familiares de mulheres que morreram por suicídio em Caicó/RN.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 34 Em relação à idade, todas as mulheres que cometeram suicídio eram adultas, variando entre 29-58 anos. Duas delas conviviam com parceiros e duas eram separadas. Todas as mulheres tinham filhos, independente da situação conjugal, Ana (quatro filhos) Beatriz (três filhos) Cecília e Doralice (dois filhos).
O fato das mulheres caicoenses que cometeram suicídio serem adultas e terem filhos traz para a cena social e comunitária uma importante problemática, ambas estavam na fase da vida feminina que menos se suicida, pois há geralmente tendência suicida em mulheres jovens e em idosas (MINAYO; CAVALCANTE, 2012; SILVA et. al, 2018).
A literatura remete ao suicídio feminino uma associação muito forte com questões relacionais e familiares. No cenário estudado convergeu-se ao que se tem estudado, o casamento pode representar um fator de proteção, assim como os conflitos conjugais e separação tendem a somar-se a um componente predisponente ao suicídio.
Quanto à questão religiosa, dados atuais do IBGE (2010) confirmam que no Brasil continua a predominar o catolicismo, fato ainda mais forte na cidade de Caicó/RN, que tem fortes tradições religiosas. Não se observou, no entanto, a influência da vida religiosa no suicídio das mulheres estudadas. Apesar disso, Cassorla (2004) relata que as crenças religiosas são um dos pilares de resistência para que pessoas em situação de sofrimento suportem com maior serenidade suas dificuldades e não cometam suicídio.
No grupo estudado, chama atenção que a totalidade dos suicídios foram cometidos por enforcamento. O enforcamento é considerado um meio bastante letal e agressivo, e por essa razão as pessoas que optam por esse meio de perpetração estão convencidas do desfecho morte, mesmo que na dualidade e ambiguidade presente no comportamento suicida (SOUZA; MINAYO; CAVALCANTE, 2007; PINTO; SILVA; PIRES; ASSIS, 2012).
A totalidade dos suicídios ocorreram nas próprias residências das mulheres, fato marcante na literatura sobre o suicídio feminino, revelando que historicamente as mulheres foram restritas ao espaço domiciliar e por sua vez o suicídio também se daria principalmente nestes ambientes, diferentemente de homens que sempre tiveram lugar de destaque nos espaços públicos (MARQUETTI; MARQUETTI, 2017).
Em seu estudo sociológico, Durkheim (2011) descobriu que a maior parte dos suicídios nas regiões pesquisadas por ele ocorreu durante o dia, no momento em que os negócios estavam mais ativos e a vida social mais intensa a partir das relações humanas. Neste estudo, os suicídios ocorreram, respectivamente, Ana (quarta-feira, manhã), Beatriz (madrugada de domingo), Cecília (quinta-feira, tarde) e Doralice (noite de domingo). Neste trabalho não houve
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 35 unanimidade nos horários de morte. Observou-se, no entanto, que todos foram cometidos nas próprias residências, corroborando a ideia que o suicídio feminino é perpetrado majoritariamente no ambiente doméstico, lugar que socialmente e historicamente lhes foi concedido para chefiar no âmbito da vida privada (MARQUETTI; MARQUETTI, 2017).
Para uma boa compreensão acerca dos resultados deste estudo, bem como das categorias que emergiram na análise dos dados, o quadro a seguir (Quadro 2) mostra dados dos entrevistados, dividindo-os por caso e apresentando o núcleo central presente nas falas que deram origem as categorias temáticas prévias e suas respectivas sub-categorias: 1) Comportamento Suicida na vida das mulheres; a) Da enunciação do desejo de morrer: ideação e planejamento suicida, b) Nas pelejas da vida: tentativas de suicídio; 2) Transtornos mentais e suas relações sociais com o suicídio; a) Relações instituídas entre as mulheres e os serviços de saúde; 3) Conflitos familiares e relações de gênero instituídas; a) Entre as marcas e a vergonha: violência de gênero.
Quadro 2 – Caracterização das informantes que foram entrevistadas neste estudo, bem como o núcleo central que emergiu de cada entrevista, Natal/RN.
ID **Nome da
entrevistada Idade
Parentesco com a mulher
suicida
Núcleo central que permeou as entrevistas
em cada caso
Ana Violeta 32 anos Filha
Isolamento Social, Depressão, Enunciação do Suicídio, Conflitos Familiares (Cônjuge e filhos) Beatriz Rosa Camélia 62 anos 33 anos Tia Irmã Tentativas prévias de Suicídio, Conflitos Conjugais, Violência de Gênero Cecília Tulipa Petúnia 62 anos 33 anos Tia Irmã Transtorno Mental, Doença Física, Conflitos
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 36
Doralice Margarida 37 anos Irmã
Ideação e Pensamento Suicida, Intolerabilidade à
frustrações, Abandono da mãe, Conflitos Conjugais. FONTE: Informações extraídas das entrevistas com informantes sobre suicídio de suas familiares. LEGENDA: ** Nomes de flores atribuídas as familiares entrevistadas.
5.1 COMPORTAMENTO SUICIDA NA TRAJETÓRIA DE VIDA DAS MULHERES.
Nesta categoria, serão abordadas as falas relacionadas ao comportamento suicida, relatado pelas mulheres que cometeram suicídio a seus familiares, em momentos que antecederam suas mortes autoinfligidas.
No entendimento de Cassorla (1991) e Shneidman (1994), o comportamento suicida demonstra várias faces, ao longo do que pode denominar-se um continuum: a partir de pensamentos de autodestruição, na demonstração de ameaças, e através de gestos no cotidiano que podem culminar em tentativas de suicídio. Esse entendimento sobre o comportamento suicida costuma conter uma ideia central, mais evidente, ligada ao ato de acabar com a própria vida, aliado a questões tidas como periféricas, menos evidentes, relacionadas à motivação, à intencionalidade e à letalidade.
E neste entendimento, identificou-se em diversas falas das entrevistadas o desejo real e expresso das mulheres em acabar com a própria vida. Por vezes, a indicação desse desejo de morte também foi precedida de planos concretos para se autoaniquilar. A forma com que os familiares relataram cada uma dessas nuances e a importância da observância ao comportamento suicida forma o corpo analítico dessa categoria que traz consigo duas sub-categorias: a) Da enunciação do desejo de morrer: ideação e planejamento suicida; b) Nas pelejas da vida: tentativas de suicídio.
Suicídio de mulheres em um contexto psicossocial 37 5.1.1 DA ENUNCIAÇÃO DO DESEJO DE MORRER: IDEAÇÃO E
PLANEJAMENTO SUICIDA
Nas entrevistas realizadas nesta pesquisa, pode-se perceber uma forte relação entre a ideação suicida e a formulação de planos para concretização do ato. De forma geral, apresentou-se de forma aberta e não velada a apresentou-seus familiares. No entanto, mesmo preapresentou-sentificados no contexto da dinâmica social de cada uma delas, na maioria das vezes, os familiares não encaram esse desejo expresso de não existir como um preditor fatídico para o suicídio. Essa realidade pode ser verificada nas seguintes falas:
Quando ela tava meio perturbada, ela falava essas coisas: quando menos se esperar eu amanheço morta; mas a gente nunca espera que a pessoa vá se matar (Rosa).
Ela dizia que tava se sentindo assim, que tinha vontade de sumir, que nada estava prestando, dava a entender que ela tava desanimada, mas não que queria tirar a vida (Petúnia).
Em Shneidman (1994) o modelo teórico do suicídio é representado essencialmente por três dimensões: dor, perturbação e pressão, que ao atingir sua maior intensidade, restam-lhe poucos escapes, sendo o suicídio um desses. Diante disso, pode-se observar que na fala a seguir, houve um ápice desse tríduo descrito por Shneidman (1994), cuja reverberação da ideia suicida se deu, principalmente, pela falta de opções viáveis para a mulher, ou seja, nesse sentido, o ato suicida estaria mais relacionado a cessação do fluxo de angústia insuportável:
Ela disse: é tia, mas eu tô no fim do poço e com a tampa em cima, e eu disse: Deus tira essa tampa, Ele pode tirar essa tampa, deixe Deus tirar essa tampa. Ela respondeu: mas no meu caso não tem solução (Rosa).
Essa perda de sentido da vida, que frequentemente não é considerada no contexto social/familiar, por vezes está intimamente ligada a questões relativamente simples do cotidiano (MARQUES; LANDIM; COLLARES; MESQUITA, 2011). Para quem de fato não possui estratégias, do ponto de vista psíquico, social e cultural, de enfrentamento aos sofrimentos, pensar no suicídio e planejá-lo pode ser fatídico em diversas situações.
Há momentos do convívio social em que as ideias e o planejamento suicida ocorrem mais fortemente. Durkheim (1982) quando realizou seu estudo sobre suicídio, entendeu que era