PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA SOCIAL
Alciene Alves Ferreira
Concepções de adolescência e trabalho em dissertações
de psicologia social (2001-2011)
MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
Alciene Alves Ferreira
Concepções de adolescência e trabalho em dissertações
de psicologia social (2001-2011)
MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Psicologia Social, sob a orientação da Profa. Dra. Fúlvia Rosemberg.
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
F383a Ferreira, Alciene Alves.
Concepções de adolescência e trabalho em dissertações de psicologia social (2001-2011) [manuscrito] / Alciene Alves Ferreira. – São Paulo.
2014. 128 f.: il.
Orientadora: Profa. Dra. Fúlvia Rosemberg.
Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social,
São Paulo, 2014.
1 adolescência. 2 Trabalho. 3 Estudos sociais da infância. 4 Dissertações. 5 Psicologia Social. I. Rosemberg, Fúlvia. II. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. III. Título.
Banca Examinadora
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Autorizo, exclusivamente, para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação.
São Paulo, 27 de janeiro de 2014.
A Joaquim Ferreira da Silva (in memoriam), para quem não havia limites nem fronteiras, no incentivo para a busca pela educação e pelo esclarecimento. Foi ele o fundador da primeira escola em que estudei. Homem do campo, que extraiu das experiências de vida, sua sabedoria e o sentido da educação como valor. Em certa ocasião afirmou que o dia em que o papel valesse mais do que a palavra, a vida perderia o sentido. Registro aqui minhas saudades, na plena certeza, de que o fio invisível que teceu esse trabalho, foi guiado também pelas suas mãos.
À Maria Luiza, que cresceu em tamanho e sabedoria, durante este tempo. Com paciência e delicadeza, soube partilhar os momentos de agonia e de êxtase que envolveu a realização do presente estudo. Seus questionamentos radicais são muitas vezes desconcertantes: Mamãe! Quem criou Deus se antes dele não existia nada? Mamãe por que a Fúlvia precisa arrumar seu trabalho? Ele está estragado?
Ao meu amor, Luiz, pelo apoio incondicional e pelo afeto, que faz minha vida mais intensa e mais bonita.
À Omari Ludovico Martins e Jonas Martins Borges, pelos valores que defendem, e pelos anos de aprendizado partilhados em nosso cotidiano. A convivência com ela e ele permite identificar, em momentos cruciais, esses mesmos valores revelados no agir e existir de ambos.
AGRADECIMENTOS
À Omari Ludovico Martins, pelo apoio genuíno, tanto no plano acadêmico quanto no plano pessoal-afetivo e material. Sem esse apoio múltiplo e incondicional, talvez este trabalho não tivesse chegado a seu termo. Esta mulher tem sido um porto seguro em momentos em que o trabalho de Sísifo ameaça exceder minhas forças. Seu cuidado e sua dedicação, nas leituras dos manuscritos, aumentou minha convicção de que seria possível concluí-lo. A ela toda minha gratidão.
À Maria Luiza, filha querida, pela paciência e pela compreensão. Seu sorriso diminuía o cansaço e iluminava os momentos de penumbra. Esteve presente e acompanhou cada momento de construção desta dissertação.
À minha mãe, Maria Neri Alves da Silva. Seu apoio nos vários momentos de minha formação foi fundamental. Pessoa de garra, acolhedora e companheira. Disse-me, no leito da UTI: “estou rezando para você concluir o seu trabalho com sucesso!”.
À Profa. Dra. Fúlvia Rosemberg, orientadora deste trabalho, pelos diálogos atentos, pela solidariedade, pelo apoio e contribuição com meu processo de formação.
À amiga e companheira, Ms. Maria Silvia Ribeiro, pela leitura atenta da última versão. Foram várias madrugadas adentro para conseguirmos dar o tom final deste texto. Sil é uma pessoa metódica e exigente com quem muito aprendi nestes dias de intensivo trabalho.
Ao companheiro Luiz do Nascimento Carvalho pela solidariedade e prontidão durante essa travessia.
À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pela posição social que ocupa e pela minha acolhida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social.
À Banca que participou do Exame de Qualificação, Profa. Dra. Fúlvia Rosemberg, Profa. Dra. Rosangela Ramos de Freitas e Profa. Dra. Ana Mercês Bahia Bock.
À Profa. Dra. Darci Roldão Carvalho Sousa, pelas leituras atentas e pela presença de corpo e alma em momentos cruciais deste percurso. Essa presença fortaleceu-me e mostrou quão importante se faz a solidariedade em um momento de formação como este.
À Profa. Dra. Darci Costa, pelas contribuições no processo de revisão textual desta dissertação.
Aos professores da PUC-SP, pelos ensinamentos brilhantes, especialmente: Bader Sawaia, Maria do Carmo Guedes, Odair Furtado, Maria Cristina Vicentin, Salvador Sandoval, Mary Jane, Antônio Ciampa e Fúlvia Rosemberg.
Ao programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social, na pessoa do prof. Odair Furtado, por ter acolhido minhas demandas. Registro meus agradecimentos pela escuta cautelosa e motivadora deste professor.
À Marlene Camargo, secretária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social, pelo pronto atendimento e orientação, em relação às demandas do programa.
A todas(os) colegas do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI) pela troca de saberes e pela amizade.
Aos colegas da PUC-SP, de outros núcleos de pesquisa. Especialmente, Dilson Wrasse, Jamila, Nayara, Raquel Franchito, Renata Leatriz, Rael Bispo, Samanta, Ivonete, pela convivência e troca de experiência nesse tempo de mestrado.
Ao Jonas Martins Borges, pelo suporte que ele proporciona. Amigo de todas as horas, sempre solidário com nossos projetos de formação.
Ao meu irmão Hildes Alves Ferreira, que esteve sempre disponível nos momentos em que precisei de seu auxílio. Sua solidariedade com o caminho que tenho percorrido na formação foi muito importante: mais do que ele possa imaginar.
Às minhas irmãs Eliene, Hilda e Maria Madalena, que me apoiaram de uma forma ou de outra.
À Luiza dos Santos Carvalho, pelos ensinamentos compartilhados em cada encontro.
Às minhas cunhadas, Maria dos Anjos e Antônia Ayres, pelas orações e torcidas.
À Dina e ao Ary, pelo apoio logístico e afetivo, em São Paulo, amizades que permanecerão vida a fora.
À Bernadete e ao Daniel, pelos cuidados com a Maria Luiza. Acompanhá-la no trajeto casa-escoAcompanhá-la, e vice-versa, virou uma rotina no período do mestrado.
À Andréa e Micheline, amizades que se teceram durante o tempo de mestrado em São Paulo e perduram até os dias atuais.
Ao Pe. Geraldo Marcos L. Nascimento. Diretor espiritual e amigo de todas as horas. Ensinou-me que a vida só tem sentido pelas causas que abraçamos. Defensor catedrático da juventude, se indigna e vai à luta contra qualquer tipo de injustiça. Sua força e tenacidade são capazes de arrastar pelo exemplo.
À casa da Juventude Pe. Burnier (Caju) pelo que ela foi, e pelo que ela representa para a juventude brasileira.
A todos os amigos e amigas de militância em especial: Mário Cabral, Sandra, Maria Helena Coelho, Valtercí, Shirley, Divino, Rosângela, Divina, Gercilene, Eliane Nascimento, Carol, Eliane Porto, Elaine, Pe. Itamar Gremon, SJ, Pe. Geraldo Labarrére, SJ, Pe Sebastião Bezerra, Pe. Milton, Aurisberg, Carmem Lúcia, Lourival, Resende, Graça, Cícero, Antônio Baiano, Arilene, Ana Maria da Trindade, Ir. Iolanda, pessoas que amo e de quem fiquei privada de encontros cotidianos nos últimos três anos.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pela concessão da bolsa de estudos.
Os que se encantam com a prática sem a ciência são como timoneiros que entram no navio sem timão nem bússola, nunca tendo certeza do seu destino.
RESUMO
Esta pesquisa se integra ao Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na busca pela apreensão das concepções de criança/infância no Brasil, temos desenvolvido pesquisas que analisam discursos proferidos por adultos sobre crianças e adolescentes, cujo tema se refere à infância em diversos veículos de comunicação. Neste estudo analisamos, à luz dos estudos sociais da infância, concepções de adolescência e trabalho captadas em quatro dissertações de mestrado contemporâneas em psicologia social que tratam do tema. O estudo propôs entrever caminhos (e descaminhos) na articulação entre os estudos sociais da infância, aquela que é aprofundada pelo NEGRI, e a perspectiva da psicologia sócio-histórica brasileira de inspiração em autores russos. Embora as dissertações analisadas tratem do tema adolescência e trabalho, notamos reduzida presença de documentos oficiais, de referências às instituições de pesquisa e de coleta e sistematização de dados sobre adolescência/juventude, trabalho, educação, temas que receberam grande destaque nos textos aqui analisados. Constatamos, na análise das referências bibliográficas, ausências notáveis, tanto da literatura sobre adolescência – seja da clássica ou atual – seja bibliografia sobre juventude ou dos recentes estudos sociais da infância. A não ser a afirmação de que a adolescência é uma construção sócio-histórica, as concepções explicitadas e o vocabulário usado indicam um campo de estudos bastante fluido nos aspectos assinalados. O trabalho parece constituir o foco principal das dissertações sobrepujando mesmo o tema adolescência. Uma particularidade convergente quanto às concepções de trabalho apreendidas nas dissertações, se refere à perspectiva analítica de que essa etapa da vida, a adolescência, constitui momento de preparação para a inserção no mercado de trabalho. Diferente do que ocorre quando se associa trabalho à criança, infância ou de quando se usa a expressão infanto-juvenil – uma associação à proibição ou abolição, aqui o foco é, sobretudo, o futuro, a análise de expectativas,
apesar de o “trabalho precoce” ser tratado em perspectiva abolicionista. Observamos as interpretações apreendidas no texto, sobre as vozes dos (as) entrevistados (as). Neste foco da análise, notamos em todas as dissertações uma interpretação sistemática de que as falas dos adolescentes ou eram definidas como equivocadas, ou como expressões ideológicas, ou como ilusões, dentre outros adjetivos qualificativos, quando destoavam da posição defendida no texto. O movimento pareceu-nos mais do confronto entre a “voz” dos (as) adolescentes sobre trabalho, escola, expectativas para o futuro e a grande teoria como estalão, como norma.
ABSTRACT
This research integrates the Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI), Program of Postgraduate Studies in Social Psychology at the Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. In the search for grasp the concepts of child/chidhood in Brazil, we have developed research that analyze discourses by adults on children and adolescents, whose theme relates to childhood in various media. In the light of social studies of childhood, this study analyzed conceptions of adolescence and work captured in four contemporary masters dissertations in social psychology about that topic. The study proposed a glimpse paths (and detours) in the interaction between the social studies of childhood deepened by NEGRI, and the perspective of Brazilian social-historical psychology reasoned in Russian authors. Although dissertations analyzed address the topic adolescence and work, we see reduced presence of official document, references to research institutions and collection and systematization of data about adolescent/youth work, education, subjects that received great prominence in the texts analyzed here. Found in the analysis of the references, notable absences, about the literature on adolescence - classical or current – references on youth or about the recent social studies of childhood. Unless the claim that adolescence is a socio-historical construction, the explicit concepts and vocabulary indicate a field of very fluid studies in the aspects mentioned. Work seems to be the main focus of dissertations even surpassing the theme adolescence. A converged particularity as to work conceptions captured in that dissertations, refers to the analytical perspective that this stage of life, adolescence as time of life to preparation for entering the job market. Unlike what occurs when combining work
with child, childhood or when using the expression “infanto-juvenil” - (prohibition or abolition association) the focus here is, primarily, the future and the expectations
analysis, although the “trabalho precoce” be treated in abolitionist perspective. We
observed the interpretations seized in the text on the voices of the respondents. In this focus of analysis, we note, in all dissertations, one systematic interpretation of the adolescents speech were either defined as mistakes, or like ideological expressions, or like illusions, among other qualifying adjectives, when they clashed with the view expressed in the text. The movement seems more confrontation between the "voice" of the adolescents about work, school, and expectation of the future and great theory as the standard, the norm.
LISTA DE FIGURAS, QUADROS E TABELAS
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Ferramenta de localização no Acrobat Reader...60
LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Distribuição de grupos de pesquisa cadastrados pelo CNPq por descritor e áreas de conhecimento. Brasil, dezembro 2013...49
Quadro 2 - Idade mínima em anos ou maioridade para ter direitos ou autonomia por dimensão da vida. Brasil, 2013...50
Quadro 3 - Dissertações de mestrado que compõem o corpus da pesquisa...58
Quadro 4 - Termos que foram localizados nas dissertações analisadas...60
Quadro 5 - Categorias e sub-categorias da grade de análise...61
Quadro 6 - Contexto de produção das dissertações analisadas...65
Quadro 7 - Síntese dos currículos de autores(as) das dissertações analisadas...65
Quadro 8 - Síntese de currículos de orientadores(as) das dissertações analisadas.66 Quadro 9 - Quantidade de orientações concluídas de orientadores(as) das dissertações analisadas ... 67
Quadro 10 - Palavras-chave indicadas nas dissertações analisadas...68
Quadro 11 - Características dos sumários publicados nas dissertações analisadas.70 Quadro 12 - Posição ordinal dos tópicos/capítulos indicados nos sumários das dissertações analisadas ... 71
Quadro 13 - Informações seletas sobre referências bibliográficas nas dissertações analisadas ... 72
Quadro 14 - Distribuição de frequência de referências bibliográficas por idioma de publicação e autoria das dissertações aqui analisadas...74
Quadro 15 - Rol de autores(as) que tiveram pelo menos duas obras referidas por número de títulos mencionados e dissertações analisadas que mencionam...74
Quadro 16 - Quantidade de citações dos autores(as) mais referenciados nas dissertações analisadas...79
Quadro 17 - Informações sobre o perfil dos/as entrevistados/as nas dissertações analisadas...81
Quadro 19 - Atividades desempenhadas pelos(as) entrevistados nas dissertações analisadas...87 Quadro 20 - Setores da economia dos(as) entrevistados(as) nas dissertações analisadas...89 Quadro 21 - Frequência das palavras e caracteres, por parte, das dissertações analisadas...96 Quadro 22 - Frequência de termos localizados nas dissertações analisadas...106 Quadro 23 - Informações seletas sobre idades e distribuição de frequência de termos localizados para se referir à etapa da vida "adolescência" nas dissertações analisadas...107 Quadro 24 - Frequência dos termos adolescência e trabalho nas dissertações analisadas...110 Quadro 25 - Informações seletas relacionadas a trabalho nas dissertações analisadas...110
LISTA DE TABELAS
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
BTC Banco de Teses da Capes
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CDC Convenção Internacional dos Direitos da Criança
DIEESE Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico DIEESE Departamento Intersindical de Estudos Econômicos
ECA Estatuto da Criança e do Adolescente FUFSE Fundação Universidade Federal de Sergipe
FUMDEC Fundação Municipal de Desenvolvimento Comunitário IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDH Índice de Desenvolvimento Humano
INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
MEC Ministério da Educação
NEGRI Núcleo de Estudos Gênero, Raça e Idade
NUPEDIA Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre Desenvolvimento da Infância e Adolescência
OIT Organização Internacional do Trabalho ONU Organização das Nações Unidas
ONGs Organizações Não Governamentais PDF Formato de Documento Portável PEA População Economicamente Ativa
PETI Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio PNADs Pesquisas Nacionais por Amostras de Domicílios PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PUC-SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
SEADE Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados SENAC Serviço Nacional do Comércio
TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TIS Trabalho Imanente ao Sistema
UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro UFMT Universidade Federal do Mato Grosso
UFMS Universidade Federal do Mato Grosso do Sul UFPB Universidade Federal da Paraíba
UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UNESCO Organização das Nações Unidas Para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICEF Fundo das Nações Unidas para Infância
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...17
1 A CONSTRUÇÃO DO OBJETO... 22
1.1 Síntese de pesquisas do NEGRI sobre discursos referentes a crianças/adolescentes pobre...27
1.2 O tema "trabalho infanto-juvenil... 28
2 APORTES TEÓRICOS: INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA COMO CONSTRUÇÃO SOCIAL ... 37
2.1 Estudos sociais da infância ... 37
2.2 Psicologia sócio-histórica e os estudos da adolescência ... 48
3 ANÁLISE DAS DISSERTAÇÕES ... 57
3.1 Descrição dos procedimentos ... 57
3.1.1 Descrição do corpus ... 57
3.1.2 Estratégia de análise ... 58
3.2 Resultados ... 61
3.2.1 Caracterização geral das dissertações analisadas... ... 62
3.2.2 Apresentação geral das dissertações, de seus(suas) autores(as) e dos(as) orientadores(as) ... 62
3.2.3 Componentes estruturais das dissertações...68
3.2.4 As pesquisas: caracterização dos sujeitos e de suas atividades...80
3.2.4.1 A escuta dos sujeitos e cuidados éticos...91
3.2.5 Análise referente a concepções de adolescência e adolescentes apreendidas nas dissertações...99
3.2.6. Concepções de trabalho apreendidas nas dissertações analisadas...109
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 117
REFERÊNCIAS ... 122
INTRODUÇÃO
O presente estudo tem como objeto analisar as concepções de adolescência e trabalho captadas em quatro dissertações defendidas em programas de pós-graduação brasileiros em psicologia social no período compreendido entre 2001 e 2011, à luz dos estudos sociais da infância, campo de estudo contemporâneo que vem propondo uma revisão dos paradigmas na produção de conhecimentos sobre a etapa da vida que antecede a idade adulta. Para tanto, a dissertação propôs entrever caminhos (e descaminhos) na articulação entre os estudos sociais da infância –
particularmente a perspectiva estrutural – aquela que é adotada pelo Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (Negri) – e a perspectiva da psicologia sócio-histórica brasileira de inspiração em autores russos, no estudo da adolescência.
No plano político, esta dissertação, ao procurar aprofundar o conhecimento sobre infância pobre brasileira, visa a contribuir para redução das desigualdades sociais.
Esta dissertação compartilha da perspectiva do Negri de que as relações de idade constituem categoria de análise útil para se compreender as desigualdades sociais (ROSEMBERG, 2013). Assim, ao lado das relações de classe social, raça e gênero consideramos que as relações de idade também participam da estruturação das sociedades modernas e, em decorrência, das contemporâneas.
É necessário, de início, atentar para as especificidades do vocabulário aqui adotado com respeito às etapas da vida entendidas como demarcações sociais de idades. Usaremos, como já o fizemos, o termo infância, como ocorre nos trabalhos do Negri, em consonância com a Organização das Nações Unidas (ONU), para nomear o período da vida humana após o nascimento que antecede a maioridade legal que, no Brasil (apesar das diferenciações, conforme a dimensão social considerada), ocorre a partir dos 18 anos. Isto não nos impede de empregar o termo adolescência em consonância com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e juventude, em consonância com o Estatuto da Juventude, conforme vem sendo usado no Brasil.
Esta dissertação, além de participar da produção de conhecimentos do Negri sobre infância, se articula ao sub-grupo de pesquisas que tem focalizado temas associados à adolescência ou a uma etapa da vida subsumida na expressão
grávidas das camadas populares (MENEZES, 1993); Adolescentes trabalhadoras na rua: distribuidoras de folhetos (FREITAS, 1996); Distribuidoras de folhetos: um outro olhar sobre adolescentes em situação de rua (OLIVEIRA, 1996); Paternidade adolescente: uma proposta de intervenção (FONSECA, 1997); O olhar e a escuta psicológica desvendando possibilidades: o vínculo saudável entre a adolescente mãe e seu filho (PAULA, 1999); Prostituição infanto-juvenil na mídia: estigmatização e ideologia (ANDRADE, L., 2001); O discurso da mídia sobre a adolescente grávida: uma análise da ideologia (NAZARETH, 2004); A categoria “meninos de rua” na mídia:
uma interpretação ideológica (ANDRADE, M., 2005); Infância associada ao tema aborto voluntário em peças jornalísticas publicadas no jornal online da Folha de S. Paulo (1997-2005) (BIZZO, 2008); Direitos da criança e do adolescente: marcos legais e mídia (MARIANO, 2010); Relações de gênero e de idade em discursos sobre sexualidade veiculados em livros didáticos brasileiros de Ciências Naturais (RIBEIRO, 2013).
Em boa parte dessas pesquisas do Negri temos analisado discursos proferidos por adultos sobre crianças/adolescentes ou para público infanto-juvenil. E, dentre essas pesquisas, destacamos maior afinidade desta dissertação com aquelas que vêm discutindo discursos sobre crianças/adolescentes associadas ao trabalho, tais como: O tema trabalho infanto-juvenil na mídia: uma interpretação ideológica (FREITAS, 2004); O tema trabalho infanto-juvenil em artigos acadêmicos de psicólogos(as): uma interpretação ideológica (PRADO, 2009).
Por outro lado, é necessário realçar, ainda, uma afinidade desta dissertação com as do Negri que focalizam discursos adultos veiculados na mídia acadêmica. Destacamos: O discurso acadêmico sobre a gravidez na adolescência: uma produção ideológica? (CALAZANS, 2000); O trabalho infanto-juvenil em artigos acadêmicos de psicólogos(as): uma interpretação ideológica (PRADO, 2009); Concepção de creche em revistas brasileiras de pediatria: uma interpretação a partir da ideologia (URRA, 2011).
Social pública. Essa experiência profissional1 foi um trabalho desenvolvido no Programa de Prevenção ao Trabalho Infantil (PETI) e, posteriormente, nessa mesma política, trabalhei com adolescentes/jovens trabalhadores aprendizes, de 14 a 24 anos de idade2, admitidos no mercado formal por meio do Projeto Primeiro Emprego. Nesses espaços de trabalho, observava as condições de vida da população das camadas populares e o significado do trabalho para adolescentes/jovens como meio de independência e de construção de um lugar social. A experiência no PETI possibilitou, ainda, apreender contradições nas instituições oficiais que desenvolviam a Política de Assistência Social pública no atendimento a crianças, na
perspectiva de “erradicação” do trabalho infantil: este programa oferecia uma bolsa
de R$ 15,00/mês, quando crianças trabalhando no setor informal, recebiam até R$ 100,00 por dia, prestando serviços, geralmente, de carregadores de compras em feiras livres ou guardadores de carros em vias públicas (FERREIRA, 2008).
Esta dissertação previu aportar uma experiência a mais à produção do Negri: apreender caminhos (e descaminhos eventuais) de articulação entre os estudos sociais da infância e a produção acadêmica sobre adolescência com enfoque na psicologia sócio-histórica apoiada em autores russos/soviéticos, como Leontiev, Vigotski e Luria. Estamos nos referindo, particularmente, à produção de autores como Ana Bock (1999; 2001; 2002; 2007), Bock e Liebesny (2003), Sergio Ozella (2003), Ozella e Aguiar (2008).
Assim, esta pesquisa objetiva apreender e discutir concepções de adolescência e trabalho em quatro dissertações de mestrado, defendidas no Brasil, em programas de pós-graduação em psicologia social, à luz dos enfoques teóricos dos estudos sociais da infância e enfoques sócio-históricos sobre adolescência.
Antes de finalizar esta introdução é necessário explicitar porque quatro dissertações e qual a estrutura deste texto a partir de inspiração de autores russos.
1 Refere-se ao exercício profissional como psicóloga na Fundação Municipal de Desenvolvimento
Comunitário (Fumdec) (2001-2005) e na Sociedade Cidadão 2000 (2006-2009), uma Organização Não Governamental mantida (e vinculada) pela Prefeitura Municipal de Goiânia.
2 A Constituição Federal de 1988 estabelece a idade de 14 anos para ingresso no mercado de
trabalho, e 12 anos, apenas na condição de aprendiz. A figura jurídica do menor aprendiz passou a orientar políticas, programas e projetos que objetivam inserir adolescentes no mundo do trabalho, como no caso de Organizações Não-Governamentais (ONGs) que se especializam nessa tarefa e nela justificam sua razão de ser. A emenda constitucional nº 20, de dezembro de 1988, aumentou para 16 anos a idade mínima para ingresso no mercado de trabalho, e para 14 anos, na condição de menor aprendiz (BRASIL, 1998). O Decreto nº 5.598, de 02 de dezembro de 2005, define que aprendiz é “o maior de 14 anos e menor de 24 anos [...]”, para efeito de contrato de aprendizagem
Conforme será apresentado em detalhes no capítulo três, após longo e complexo procedimento de busca, de idas e vindas à construção desta dissertação, delimitamos que o corpus sob análise seriam todas as dissertações – cujos resumos constassem na base de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no período de 2000 - 20123, que explicitassem os descritores
“adolescência e trabalho” e que trabalho significasse, numa primeira leitura, atividade laboral. Feita a busca, foram localizadas as quatro dissertações de psicologia social que aqui serão analisadas, a saber: Debora Amaral Audi, A adolescência e suas expectativas quanto à inserção no mundo do trabalho, Universidade de São Paulo (USP), 2006; Maria Gabriela dos Santos Pereira, O olho do dono engorda o boi: a construção de sentido das relações de trabalho por adolescentes no mercado profissional, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), 2001; Orlando Júnior Viana Macêdo, O sentido da formação para o trabalho e as expectativas em relação ao futuro por parte dos adolescentes aprendizes, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), 2006; Poliana da Paz Bonfim, Os sentidos de Trabalho para jovens estudantes do Ensino Médio da cidade de Carapicuíba, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), 2011.
Para finalizar esta introdução informamos sua estrutura, composta por três capítulos: o primeiro focaliza a construção do objeto de investigação, quando se contempla uma revisão da produção do Negri sobre infância/adolescência e trabalho; o segundo capítulo foi destinado aos aportes teóricos, efetuando uma síntese de cada aporte e o esboço de uma discussão sobre eventuais convergências e divergências; o terceiro capítulo foi destinado à análise de corpus, descrevendo os procedimentos e apresentando os resultados. A dissertação termina com as considerações finais.
Nota sobre linguagem:
Procuramos manter, em toda dissertação, uma linguagem não sexista, evitando o genérico masculino;
adotamos, de preferência, o uso na primeira pessoa do plural (como, por exemplo, nas frases que iniciaram essas notas) para indicar a confecção do conjunto as pesquisas do Negri, porém, esta dissertação está sob responsabilidade primordial
3 Embora as buscas no Banco de Teses da Capes tenham coberto o período de 2000-2012, nenhuma
minha e de minha orientadora;
1 A CONSTRUÇÃO DO OBJETO
O processo para construir o objeto da pesquisa que sustenta esta dissertação foi longo e crivado de meandros.
O ponto de partida foi uma insurgência contra o texto de Marília Sposito (2009)
“Estado da Arte sobre Juventude na Pós-Graduação brasileira: Educação, Ciências Sociais e Serviço Social (1999-2006)”.
Ao apresentar os procedimentos da pesquisa, Sposito (2009) justifica a não inclusão da psicologia, da saúde coletiva e das ciências da comunicação, e sua concentração exclusiva na educação, ciências sociais (antropologia, ciência política e sociologia) e serviço social, como no trecho transcrito abaixo,
Certamente, outras áreas têm apresentado produção significativa sobre o tema, como a Psicologia, por sua tradição adquirida nos estudos sobre a adolescência, as Ciências da Comunicação e a Saúde Coletiva. No entanto, a investigação realizada privilegiou apenas a produção dessas três áreas, considerando como eixo delimitador os estudos que contemplem, na formulação de seus apoios teóricos, uma dominante social. A expressão dominante social é aqui utilizada apenas para delimitar as áreas investigadas no conjunto das disciplinas das Ciências Humanas (Educação e Ciências Sociais) e Ciências Sociais Aplicadas (Serviço Social). Neste caso, a ênfase recai sobre o que pode ser designado como produção de conhecimento fundamentada na teoria social, que compreende a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política e os domínios a elas correlatos como o Serviço Social (SPOSITO, 2009, p. 11, grifo da autora).
O trecho provocou uma interpretação primeira no sentido de que o uso do
conceito de adolescência pela psicologia impediria uma “produção de conhecimento fundamentada na teoria social”, como se a autora estivesse associando toda
psicologia às chamadas vertentes “desenvolvimentistas”, baseadas em concepção
exclusivamente biológica do desenvolvimento humano.
A antiga preocupação com o tema do trabalho de crianças e adolescentes, bem como o compromisso de realizar um estado das artes em teses e dissertações da
psicologia, localizadas sobre o tema “adolescência e trabalho”, foram o ponto de
partida para submeter-me ao processo de seleção no mestrado no Programa de Estudos Pós Graduados em Psicologia Social e integrar-me ao Negri.
Alceste Educacional4. Essa primeira versão do projeto foi apresentada no exame de qualificação cuja banca, após ponderações, sugeriu sua alteração, o que redundou na pesquisa agora apresentada. De um lado, redução da abrangência, de outro, esperava-se maior solidez na leitura, análise e interpretações das dissertações. Apesar de reduzir o numérico do corpus (de 32 resumos para quatro dissertações) o trabalho não foi reduzido. Uma das lições aprendidas: a dificuldade para se analisar um texto longo como uma dissertação de mestrado.
Narrada a trajetória, é possível, agora, amarrar os fios das questões que permitiram construir o objeto desta investigação, ou seja: descrever e interpretar concepções de adolescência em quatro dissertações de psicologia social defendidas em programas de pós-graduação brasileiros à luz dos estudos sociais da infância, campo de estudo contemporâneo que vem propondo uma revisão dos paradigmas na produção de conhecimentos sobre a etapa da vida que antecede a idade adulta.
Vários estudos do Negri (FREITAS, 2004; PRADO, 2009) vêm identificando no
tratamento do tema “trabalho infanto-juvenil”, um processo denominado por
Thompson (2009) como objetificação (ou reificação). A objetificação, nessa
perspectiva, consiste na conversão de ideias abstratas sobre “trabalho infanto
-juvenil”, promovidas e propagadas por diversos atores sociais, nacionais e internacionais, pela mídia acadêmica, sobretudo nas últimas duas décadas, que têm sedimentado um amplo e difuso consenso relacionado à defesa da erradicação do
“trabalho infanto-juvenil” nos países do Sul, ou mais especificamente, erradicação do
“trabalho infantil” e erradicação/proteção do “trabalho adolescente”. Um discurso que,
interpretado como produção ideológica, segundo a perspectiva teórica deThompson (2009), sustenta relações assimétricas de poder vinculado a padrões de relações de idade, entre outros.
O consenso difuso que se instalou no Brasil das últimas duas décadas é conhecido na esfera da literatura especializada como perspectiva abolicionista do
“trabalho infanto-juvenil” (MYERS, 1999; 2001).
Para a construção do presente objeto de estudo, o trabalho de Prado (2009),
sobre o tema “trabalho infanto-juvenil” em artigos de psicólogas e psicólogos, foi de
4 Alceste Educacional (image-zafar
, 2010). “Conforme Kromberger e Wagner (2002, p. 426), o Alceste,
grande utilidade. Prado (2009) investigou o tema “trabalho infanto-juvenil”, do ponto de vista da construção de problemas sociais5.
Dada a fragmentação dos estudos e a dispersão empírica, teórica e conceitual
nas produções acadêmicas de psicólogas e psicólogos sobre o “trabalho infanto
-juvenil”, Prado (2009) coloca não se poder afirmar que se dispõe de um campo de
conhecimento consolidado sobre essa temática na esfera da psicologia. Destaca, ainda, observar como elementos comuns nos artigos por ela analisados a
condenação do “trabalho infantil” e a sustentação da bandeira de defesa de sua erradicação.
Prado (2009) observa ainda que os artigos de psicólogos(as) brasileiros(as) sobre o tema adotam a perspectiva abolicionista, sugerindo sua relação, implícita ou explícita, a uma perspectiva universalista que, por dedução desconsidera as especificidades estruturais e contextuais do trabalho realizado por crianças e adolescentes no mundo atual. A autora destaca que a concepção abolicionista penaliza as famílias de crianças pobres por sugerir que elas estariam, de certa forma, impondo-lhes a sua inserção no mercado de trabalho e situando crianças e adolescentes como um apêndice passivo dos núcleos familiares.
Em relação aos recursos metodológicos das pesquisas que buscam dar voz a crianças e adolescentes, embora elas sejam ouvidas nos estudos, Prado (2009) constata que lhes são atribuídos adjetivos qualificativos que as definem, em alguns casos, como sendo equívocos ou expressões ideologizadas que impregnam suas falas, entendendo, muitas vezes, pelo termo ideologia, algo similar a um corpo estranho, uma espécie de vírus que se instala no corpo da criança ou adolescente e produz disfunções cujos sintomas seriam expressos verbalmente. Como resultado, a
5
“A tendência geral é considerar problemas sociais como situações desagradáveis que existem em si,
isto é, de forma independente da ação humana que provocam indignação e estimulam a solidariedade dos que se preocupam com a construção de um mundo melhor. Desta perspectiva, para que tais problemas sejam resolvidos, é necessário aprofundar estudos sobre suas causas – e implementar ações (entre elas, políticas públicas) direcionadas a resolvê-las. Essa perspectiva, que busca apreender a definição de problemas sociais em termos de características objetivamente definidas de determinadas condições, é denominada, por Best (2007), de objetivista. Relacionadas a ela, o autor identifica três dificuldades: a primeira é que condições consideradas prejudiciais nem sempre são reconhecidas como problema social, por exemplo, o sexismo em algumas sociedades. Outra dificuldade é que a mesma condição pode ser identificada como nociva por razões muito diferentes [...]. Uma terceira dificuldade é que o “rol de problemas sociais” inclui uma ampla
abertura para ouvir suas vozes é permeada pela escuta – ou atribuição de significado – que concebem suas falas como sendo meras reproduções e ressonâncias de algo que lhes seria totalmente estranho. Dessa forma, muitos estudos deslegitimam as afirmações de crianças e adolescentes que, ao serem entrevistadas, relatam suas experiências vinculadas a aspectos do trabalho, que em muitos casos, entendem serem benéficos. Trata-se de posições dos adolescentes que, muitas vezes, são opostas às perspectivas e posições abolicionistas defendidas por autores em seus artigos, o que gera um conflito de perspectivas que se resolve pela deslegitimação da fala de crianças e adolescentes.
Prado (2009) assinala, ainda, em suas conclusões, a adoção pelos artigos de
psicólogos e psicólogas, de uma “retórica dramática”, para sustentar posicionamento
contrário ao trabalho de crianças e adolescentes com apresentação da ideia de um
“ciclo vicioso”, pelo qual o trabalho de crianças e adolescentes aparece como motor de reprodução de ciclos geracionais da pobreza. Além disso, destaca a utilização de estatísticas para promover a adesão às teses abolicionistas defendidas nos artigos.
Ao apresentar a noção de “ciclo vicioso” da reprodução da pobreza, a família é
figurada como apoiadora do trabalho de seus filhos, ainda que isso envolva prejuízos para eles. É também apontada como responsável pela manutenção da
pobreza, “sendo a relação de dominação entre as classes sociais silenciadas”
(PRADO, 2009, p. 220). A autora destaca, finalmente, que os resultados de seus estudos convergem com outros trabalhos vinculados ao Negri (CALAZANS, 2000; ANDRADE, L. 2001; FREITAS, 2004; BIZZO, 2008) que tratam de temas associados à infância conformados como problemas sociais pela mídia, por exemplo. Uma dessas convergências refere-se ao fato de que as famílias pobres são apresentadas como incapazes de resolver o problema de subsistência de seus filhos. Apresenta situações focadas de trabalho penoso e degradante como justificativa para
erradicação do “trabalho infantil”, e não para erradicação das condições degradantes e prejudiciais de desrespeito à legislação trabalhista. A estigmatização de crianças e adolescentes ocorre por meio do discurso da defesa e da proteção, discurso esse que envolve essa estigmatização com o manto do altruísmo, da benemerência e da piedade.
Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Banco Mundial, que pautam o tema da erradicação do “trabalho infantil”, em um período, cronologicamente anterior
às produções dos artigos. A autora aponta a dificuldade na construção de um quadro
sobre o “trabalho infanto-juvenil” e o debate nacional a ele relacionado, a partir da
produção acadêmica da psicologia. A condenação ao “trabalho infantil” e a sua
erradicação são pontos comuns na maior parte dos discursos acadêmicos analisados, os quais enfatizam uma noção universal de infância e adolescência. A autora assinala que a ideia recorrente é que o trabalho implica a perda da infância e o prejuízo ao desenvolvimento da criança, tido como inevitável.
Para Prado (2009), evidenciar as contradições detectadas em discursos hegemônicos é uma forma de contribuir para a construção de uma agenda menos desigual de políticas públicas para a infância. E acrescenta: “por enquanto, ao que
parece, [os psicólogos] continuamos assimilando discursos midiáticos, dos governos,
do ativismo e dos especialistas internacionais” (PRADO, 2009, p. 222).
As análises da autora apresentam características que convergem com os eixos norteadores, do Negri, uma vez que concebe a criança como um ator social relevante na arena pública, implicando na defesa de sua relevância, também, no trato das pesquisas que a envolvem. Essa postura revela o paradigma, se for possível utilizar este termo, dos estudos sociais da infância, que vêm ganhando força nos últimos vinte anos por meio das produções acadêmicas na esfera internacional, enfoque teórico aqui privilegiado.
Focalizando, agora, como se deu a construção do objeto da investigação no plano substantivo, faz-se necessário reproduzir, aqui, sua formulação.
O objeto desta dissertação de mestrado propõe apreender e discutir concepções de adolescência e trabalho em quatro dissertações de mestrado defendidas no Brasil, em programas de pós-graduação em psicologia social, à luz dos enfoques teóricos dos estudos sociais da infância e enfoques da psicologia sócio-histórica de tradição russa sobre adolescência.
Para construir este objeto apoiamo-nos em pesquisas realizadas no Negri referentes à análise de discursos proferidos por atores sociais adultos relacionados à infância/adolescência pobres e a sua participação no mercado de trabalho,
1.1 Síntese de pesquisas do Negri sobre discursos referentes a crianças/adolescentes pobres
Foram várias as pesquisas no Negri que objetivaram apreender e interpretar discursos proferidos e divulgados por atores sociais adultos relacionados à infância/adolescência pobres. Tais pesquisas focalizam temas que relacionam
infância/adolescência pobres a “situação de risco”, como “Prostituição infanto
-juvenil” (ANDRADE, L. 2001), “Meninos de rua” (ANDRADE, M. 2005), “Gravidez na adolescência” (CALAZANS, 2000; NAZARETH, 2004), “Aborto voluntário” (BIZZO, 2008), além das pesquisas que focalizaram o “trabalho infanto-juvenil”, também denominado “trabalho precoce” (FREITAS, 2004; PRADO, 2009).
O conjunto de interpretações desses trabalhos aponta o teor dramático com que a mídia tem promovido a visibilidade pública da infância brasileira. Isto porque a dramaticidade dos problemas sociais é apontada como um dos componentes centrais da retórica, pois chama a atenção para a urgência, mobilização e indignação social na competição com outros problemas. “Os dramas sociais constituem uma das vias régias da visibilidade de crianças no espaço público”
(ROSEMBERG, ANDRADE, M., 2012, p. 291).
Também é destacada a postura estigmatizadora da pobreza, expressa pela argumentação dramática que sobrevaloriza aspectos discriminatórios, que descreve os sujeitos (crianças, adolescentes e suas famílias) como subumanos, sem autonomia e carentes de salvação, determinando o aspecto inexorável de seu destino.
Tais resultados dessas pesquisas do Negri estimularam a formulação de uma primeira pergunta desta dissertação: encontraríamos discursos equivalentes em dissertações de mestrado defendidas em programas de psicologia social no período de 2001-2011?
1.2 O tema “trabalho infanto-juvenil”
Além do apoio das pesquisas do Negri referentes a discursos sobre infância/adolescência pobres, no geral, nos voltamos aos estudos sobre “trabalho
infanto-juvenil”. Para esta questão, além dos estudos do Negri, as reflexões de Myers (2001) foram de grande utilidade.
Myers (2001), no debate internacional sobre “trabalho infanto-juvenil” no
contexto das dimensões políticas realizadas sobre infância, apreende quatro posicionamentos que orientam ações políticas: do mercado de trabalho, do capital humano, da responsabilidade social e centrada na criança.
O primeiro deles, denominado “perspectiva do mercado de trabalho”, enfatiza
fatores econômicos e defende que o “trabalho infanto-juvenil” impacta,
negativamente, sobre o mercado de trabalho adulto. Ao mesmo tempo, defende que o período da infância (e da adolescência) deve ser livre de trabalho, sendo ela concebida como inocente, incapaz de reconhecer o que é melhor para si, ao passo que o adulto é considerado o mais apto a identificar o que é melhor para a criança. Os principais representantes dessa concepção, conforme Myers (2001), são a OIT e alguns governos e legislação relacionada a essa concepção, tal como o Tratado de Versalhes (1919) e a Convenção sobre a Idade Mínima para o Trabalho (nº 138).
A segunda concepção foi denominada por Myers (2001) como “perspectiva do capital humano”, que concebe o “trabalho infanto-juvenil” como produto e produtor do subdesenvolvimento. Essa concepção entende a infância como etapa de preparação para a vida adulta, e a criança como portadora de um potencial que deve ser protegido e desenvolvido para fazê-la um adulto produtivo por meio da escolarização, contribuindo, assim, para “agregar valor” ao processo produtivo e de
acumulação do capital. Representam essa concepção, conforme Myers (2001), o Banco Mundial, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), alguns ministérios de planejamento e desenvolvimento econômico nacional, várias associações trabalhistas, profissionais da economia e educadores.
Como consequência, o “trabalho infanto-juvenil” é concebido como um obstáculo ao
acesso a mecanismos sociais de proteção. A infância é concebida como produto e como projeto social. Os principais representantes dessa vertente, conforme a classificação de Myers (2001) são movimentos sociais de países em desenvolvimento como os ligados à Teologia da Libertação, na América Latina, também, de alguns setores da academia e agências de desenvolvimento.
A quarta e última vertente é denominada por Myers (2001) como “perspectiva
centrada na criança”, que enfatiza, assim como a vertente anterior, aspectos sociais
e culturais do problema. Sua tese central consiste no pressuposto de que há grande diversidade de trabalhos exercidos por crianças e adolescentes, de contextos em que se situam e de sentidos atribuídos pelas crianças aos seus trabalhos, de modo que, pode-se concluir que o “trabalho infanto-juvenil” não é um mal em si e por si
mesmo. Esta vertente concebe a criança, ao mesmo tempo, como resiliente e vulnerável, capaz e inexperiente, agente ativo e passivo de seu próprio desenvolvimento. Os principais representantes desta vertente, segundo Myers (2001), são parte de membros do Unicef, organizações internacionais como Save the Children, algumas Organizações Não Governamentais (ONGs) nacionais de defesa de direitos das crianças e organizações de crianças e adolescentes trabalhadores. Myers (2001) avalia que esta concepção ou vertente tem tido crescente influência no mundo acadêmico. A legislação a ela relacionada é a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança.
Em relação ao posicionamento frente ao trabalho de crianças e adolescentes, as três primeiras perspectivas (do mercado de trabalho, do capital humano e da responsabilidade social) tendem a um posicionamento ético-político do tipo
abolicionista acerca do “trabalho infanto-juvenil”. Sua perspectiva é a “erradicação do
trabalho infanto-juvenil”. A “perspectiva centrada na criança”, por sua vez, tende a
uma posição mais relativista, a qual tem ganhado adeptos nos últimos anos, a despeito da predominância da perspectiva que absolutiza a condição de o trabalho ser prejudicial a crianças e adolescentes. Myers (2001) não trata da associação dessas perspectivas com relação às etapas da vida, infância e adolescência.
Com essa categorização das principais posições sobre o tema do “trabalho
infanto-juvenil”, Myers (2001) estabelece um quadro geral de tendências que se
trabalho e educação, e identifica os marcos da passagem, na esfera internacional, de legislações que concebem vínculo e compatibilidade entre ambas, para uma perspectiva que considera incompatível para a criança. O estudo e a participação no mercado de trabalho são incompatíveis para a criança, portanto, sendo proibida de trabalhar, devendo frequentar, compulsoriamente, a escola. Ao mesmo tempo, Myers (2001) defende que é possível buscar conciliar trabalho de crianças e adolescentes e educação, de forma a acomodar ambas no cenário de sua vida social como aspecto positivo e benéfico. Explicita, pois, sua adesão a uma perspectiva relativista acerca do trabalho de crianças e adolescentes e também centrado na criança.
Identifica vários modelos que combinam educação e trabalho, sugerindo a possibilidade de se implementarem com sucesso, políticas sociais públicas para a infância sob esse formato. A contraposição à perspectiva que absolutiza a proibição à participação da criança e do adolescente no mercado de trabalho, definida como
perspectiva abolicionista do “trabalho infantil”, é marcante. Uma concepção que se
instalou, para Prado (2009), no Brasil e no mundo e que, ao mesmo tempo, contrapõe educação escolar e trabalho, e define a escola como o lugar legítimo de participação da criança e do adolescente, o que, do ponto de vista da perspectiva adotada por Myers (2001), do melhor interesse da criança, deve-se distinguir em cada contexto, trabalho salubre e insalubre, prejudicial e não prejudicial à criança, bem como os sentidos que os atores envolvidos nessas atividades atribuem a elas enquanto forma de participação na vida laboral.
Normativas legais na esfera das agências multilaterais, como a Convenção 138 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da idade mínima para inserção no mundo laboral, de 1973, aliadas a políticas nacionais de controle do trabalho de crianças e adolescentes, historicamente, assinala Myers (2001), estabelecem a proibição da participação econômica das crianças até a idade em que são consideradas legalmente desobrigadas do ensino compulsório. No Brasil, a educação obrigatória seria uma forma de manter a criança fora do mercado de trabalho.
Myers (2001) destaca a predominância do capitalismo globalizado como impulsionador de mudanças sociais e ideológicas relacionadas com a redução da ênfase sobre o trabalho como elemento de humanização do ser humano como desenvolvimento social e individual. Indica, ainda, como evento importante para explicar a mudança de perspectiva acerca da relação educação e trabalho, a Conferência de Jomtien, ocorrida em 1990 (Tailândia), e a iniciativa internacional
denominada “Educação para Todos”, que estabeleceu como meta garantir educação
básica para a quase totalidade das crianças até o ano 2000. Essa agenda global mudou drasticamente a orientação internacional para o tema da educação, que se voltou para a meta de garantir ensino primário (hoje, educação básica) e teve, conforme o autor, o efeito colateral de desviar a atenção prioritária das questões ligadas à qualidade da educação, à qual estava vinculado o tema da relação educação e trabalho.
Esses apontamentos são importantes por considerar hipóteses na esfera dos processos sócio-históricos em âmbito internacional, para buscar compreender a
passagem do tema do “trabalho infanto-juvenil” de algo relativamente aceitável para uma perspectiva difusa da ideia de incompatibilidade entre educação e trabalho da criança e do adolescente, de forma absolutizada como é o caso das perspectivas
abolicionistas do “trabalho infanto-juvenil”. Permite, dessa forma, que se apreenda
concepção difusa no tempo presente, particularmente no Brasil, dos reflexos da agenda das agências multilaterais, dos governos e de entidades da sociedade civil
organizada, que têm pautado o tema da erradicação do “trabalho infantil” e da proteção do “trabalho adolescente” em meio aos contrastes existentes no Brasil, que
mantêm características de uma sociedade tradicional, ao mesmo tempo, que carrega traços da sociedade moderna, ou seja, capitalista.
reforçam as autoras, além de serem ineficazes, tendem a gerar novos problemas, à medida que contribuem para a manutenção da pobreza e da desigualdade social. A
tematização do “trabalho infanto-juvenil” estaria sendo pautada nos mesmos moldes
de uma concepção culturalista de pobreza. As autoras destacam, ainda, que tais políticas como as que se pautaram pelo objetivo de perseguir a erradicação do
“trabalho infanto-juvenil”, cumprem antes o papel de responder a demandas externas,
veiculação na mídia nacional e internacional e com fins de implementação de acordos comerciais internacionais que, efetivamente, focados na diminuição da desigualdade social.
Ao analisar, especificamente, um documento do Banco Mundial, Rosemberg e Freitas (2002) constatam que aquilo que o documento define como um conjunto de
“certezas” são efetivamente estereótipos sobre pobreza, educação e trabalho de crianças que associam a pobreza ao processo de migração rural urbana, de que famílias numerosas seriam responsáveis pela reprodução do ciclo de pobreza, de que a pobreza seria reproduzida por famílias tidas como desorganizadas, de que mães e pais são os que definem quais dos filhos devem estudar e quais devem trabalhar, ao
mesmo tempo em que reduzem o problema do “trabalho infanto-juvenil” a um cálculo
de tipo econômico, e representam a criança como um ser passivo submetido às decisões dos pais.
As autoras destacam como um viés economicista nas análises, ou seja, a formulação de respostas a uma série de questões, próprias do âmbito da cultura e da política, com a mesma teoria e metodologia com que se busca dar conta da economia de mercado, ou seja, com base na teoria do capital humano. O que Rosemberg e Freitas (2002) criticam no documento do Banco Mundial e em outro documento oficial
do governo brasileiro, é, sobretudo, a desconsideração dos “valores que informam as decisões de pais e crianças das classes populares” sobre educação e trabalho, os
quais são convertidos, na análise do Banco Mundial, em meros consumidores de serviços educacionais, enquanto que os filhos são considerados agentes passivos das determinações parentais, uma representação que, conforme as autoras, não condiz com a dinâmica social que nem sempre se adequa à lógica da economia de mercado (ROSEMBERG; FREITAS, 2002, p. 103). Em relação aos documentos oficiais, Rosemberg e Freitas (2002) concluem que os discursos sobre “trabalho infantil”, escolarização, famílias pobres, podem ser identificados como produção
relações de dominação. Tais discursos consideram que são as famílias que decidem se as crianças devem ou não trabalhar, deixando de fora a criança como sujeito ativo,
com eventual participação na tomada de decisão, o foco na associação do “trabalho infantil” com a condição material de pobreza como fator primordial e/ou único de
explicação do fenômeno, em suma, a reificação da explicação do fenômeno convertido em patologia pessoal, familiar ou social. As autoras destacam:
Esse enfoque, ao reificar o trabalho infantil, não atenta para as condições em que este trabalho é exercido: omite que crianças pobres que trabalham têm acesso apenas ao trabalho para pobres, e que crianças, adolescentes e jovens competem em um mercado de trabalho que discrimina transversalmente na perspectiva de gênero, de raça e de idade. Segundo essa ótica, a extensão da jornada de trabalho da criança não é relacionada ao reduzido pagamento auferido pelo trabalho executado por crianças,
adolescentes e jovens, mas ao trabalho em si […] ou seja, a argumentação
assume que é inerente ou natural ao trabalho infantil ser excessivo, abusivo, esgotante, explorador, deixando na obscuridade que o abuso, o excesso, a exploração são associados aos valores atribuídos socialmente aos diferentes segmentos populacionais – crianças, mulheres, não-brancos – e ao trabalho
que executam […]. A naturalização do não-lugar da criança no mercado de trabalho acarreta a naturalização de sua exploração (ROSEMGERG; FREITAS, 2002, p. 106)
O esforço das autoras no artigo em questão consiste em oferecer argumentos que restabeleçam nas análises a complexidade e/ou a pluralidade de determinações
do fenômeno do “trabalho infanto-juvenil”, que extrapola uma perspectiva
simplificadora calcada em estereótipos subjacentes à racionalidade, estritamente econômica, identificada em documentos oficiais e difundidas como a única
explicação para o tema “trabalho infantil” e que reforçam as desigualdades sociais
de classe, gênero, raça e idade. Discursos capazes de formar amplos consensos ao se propagarem pela mídia e outras agências formadoras.
Para justificar a reivindicação de uma abordagem menos simplificadora do
tema “trabalho infanto-juvenil”, Rosemberg e Freitas (2002) apresentam um conjunto
população infanto-juvenil, enfim, o mercado e sua estrutura de oferta desigual de postos de trabalho, salários e na extensa jornada de trabalho. Outros aspectos também são abordados, como o sistema de transportes, a organização sócio-espacial das cidades e metrópoles brasileiras e outras variáveis estruturais que afetam crianças e adolescentes na dimensão de cansaço e que, por sua vez, impactam sobre a decisão de deixarem a escola em favor do trabalho.
Sobre as considerações acerca da dimensão cultural vinculada aos valores relacionados às práticas sociais de indivíduos pertencentes às camadas populares,
que se relacionam à decisão pelo “trabalho infanto-juvenil”, Rosemberg e Freitas
(2002) destacam as hipóteses aventadas por vários autores, como a migração rural-urbana e a composição familiar (PIRES, 1988) em que, os valores associados ao trabalho em famílias das camadas populares, o zelo moral para com filhos e filhas, uma ética familiar da reciprocidade vinculada à noção de retribuição ou de ajuda a mães e pais, as tomadas de decisão por parte de membros do núcleo familiar, envolvendo mães, pais, crianças e adolescentes (DAUSTER, 1992; SARTI, 1994; HEILBORN, 1997; FREITAS, 1998).
Outro aspecto identificado pelas autoras que não é explicado exclusivamente por uma dimensão cultural refere-se ao medo expresso por mães e pais de crianças
e adolescentes acerca do que definem como “medo da vagabundagem e do ócio” e
da atribuição à escola como espaço também de proteção do mundo da marginalidade (SARTI, 1994; PAPARELLI, 2001), mas, sobretudo, por uma dimensão estrutural
vinculada à “jornada escolar muito curta nas escolas brasileiras e pouca função de guarda”, e acrescentam, “a estruturação do sistema escolar em curta jornada facilitaria
a participação de crianças no mercado de trabalho” (ROSEMBERG; FREITAS, 2002, p.
110). Enfatizam ainda, a compreensão do trabalho como instituição socializadora, complementar às funções da família e da escola, como local em que se realizam atividades supervisionadas que estariam se contrapondo ao medo vinculado do que
definem como “ócio e à vagabundagem” (DAUSTER, 1992; DEMARTINI, 1988).
Para se contrapor às explicações simplificadoras do tipo “criança deixa a escola para trabalhar”, Rosemberg e Freitas (2002, p. 110) analisam, com base em informações oriundas de Pesquisas Nacionais por Amostras de Domicílios (PNADs), que a expansão da escolarização de crianças e adolescentes está correlacionada ao aumento do número de crianças que, simultaneamente, trabalham e estudam. Uma
auferidos com o trabalho podem permitir à criança arcar com custos da educação
escolar, tais como transporte, alimentação e vestuário”.
No que se refere aos altos índices de reprovação que identificam entre crianças e adolescentes que estudam e trabalham comparativamente àquelas que só estudam, Rosemberg e Freitas (2002), concordam que “associar trabalho e estudo não parece
ser uma experiência fácil para a criança, nem parece ter sido resolvida pelo sistema
escolar” (ROSEMBERG; FREITAS, 2002, p. 110). Para evitar abordagens simplificadoras, as autoras sugerem considerar as longas jornadas de trabalho de crianças e adolescentes como consequência tanto do tipo de ocupação quanto dos salários baixos, além da demora na locomoção entre casa, trabalho e escola, dos deslocamentos das populações urbanas para as periferias das metrópoles, em decorrência da especulação imobiliária, da precariedade dos transportes públicos; dos cursos noturnos, via de regra, frequentados por crianças e adolescentes que trabalham longas jornadas, e que são considerados de qualidade média inferior aos diurnos. Isto faz com que o baixo rendimento escolar esteja associado não apenas a atributos vinculados às crianças e adolescentes, às suas famílias ou às condições de trabalho, e sim, ao tipo de escola que se lhes oferecem, e lhes determinam o abandono ou a expulsão da escola.
As autoras indicam, ainda, a dimensão cor-raça para a compreensão dos índices de reprovação, apontando estudos (ROSEMBERG et al, 1986) que constatam taxas maiores de repetência entre crianças e adolescentes negras, tanto para as que estudavam quanto para aquelas que estudavam e trabalhavam, mesmo controlando o rendimento familiar e sugerindo um processo de discriminação dentro do sistema escolar, que afetam o aproveitamento de estudantes pobres e negros, trabalhadores ou não.
Em relação à dimensão de gênero, Rosemberg e Freitas (2002) destacam que o fato de meninos apresentarem piores resultados escolares que meninas, “pode explicar, em parte e indiretamente, sua maior participação no mercado de trabalho […]
retenções sucessivas tornam meninos e adolescentes 'alunos velhos', que se sentem inadequados em classes com os mais novos, propiciando desânimo escolar e
problemáticas por parte de adolescentes de sexo masculino, avaliados por mães, das camadas populares. Além de considerar as dimensões de gênero, raça e idade, as
autoras afirmam, sobretudo, a ineficiência do sistema educacional brasileiro, que “tem sido considerada uma das principais razões da expulsão do sistema educacional de
crianças que trabalham e das que não trabalham” (ROSEMBERG; FREITAS, 2002, p. 112), ou seja, alertam para o fato de que o abandono e expulsão da escola decorrem da própria ineficiência do sistema educacional e da escola e não do trabalho em si e por si mesmo.
Para Rosemberg e Freitas (2002, p. 97), a proposta universalista de erradicação de todo e qualquer “trabalho infanto-juvenil”, que não sejam os
insalubres e perigosos, tal como vem sendo propagada e difundida no Brasil das
últimas duas décadas, constitui “uma missão impossível no contexto brasileiro contemporâneo, principalmente quando baseada na estratégia de fortalecimento da
escolaridade para retirar a criança do trabalho”. De acordo com as autoras, relações entre escolarização e “trabalho infanto-juvenil” são mais complexas do que as
relações supostas em documentos de agências de financiamento internacionais como o Banco Mundial e sua política de financiamento da educação para a América Latina em geral e o Brasil em particular.
Essas considerações realizadas sobre a complexa relação que permeia o tema da participação de crianças e adolescentes na População Economicamente Ativa (PEA) e sua relação com instituições familiares, educacionais, de mercado de trabalho, sob conjunto de indicadores sociais como classe social, gênero, raça, idade, tiveram como objetivo, construir um quadro de análise que permita clarificar o objeto do presente estudo, buscando identificar, sobretudo, presença ou não de ressonâncias na esfera
acadêmica da construção hegemônica em torno do tema “trabalho infanto-juvenil”,