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Formação de moléculas orgânicas em ambientes interestelares

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Academic year: 2017

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Departamento de Astronomia

Luciene da Silva Coelho

Forma¸

ao de Mol´

eculas Orgˆ

anicas em

Ambientes Interestelares

S˜ao Paulo

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Forma¸

ao de Mol´

eculas Orgˆ

anicas em

Ambientes Interestelares

Disserta¸c˜ao apresentada ao Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geof´ısica e Ciˆencias Atmosf´ericas da Universidade de S˜ao Paulo como requisito parcial para a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Mestre em Ciˆencias.

Vers˜ao Corrigida.

A vers˜ao original encontra-se na unidade.

´

Area de Concentra¸c˜ao: Astronomia

Orientador: Prof. Dr. Amˆancio C´esar Santos Fria¸ca

S˜ao Paulo

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`

A minha m˜ae Cl´ea, e aos meus irm˜aos Alexandre e Allan por me ajudarem, me estim-ularem e me darem suporte para chegar aqui. Devo tudo a vocˆes;

Ao Professor Doutor Amˆancio C´esar S. Fria¸ca por me orientar neste projeto e em outros que ainda est˜ao por vir;

`

A Ana Cec´ılia Soja e ao Rafael Santucci por tudo, sem vocˆes eu n˜ao conseguiria chegar aqui e conto com vocˆes na qualifica¸c˜ao!!!

`

A Fernanda, Maria Clara e Pedro Caetano por tornarem minha vida mais feliz;

Ao Professor Doutor Jacques Le Bourlet e ao Professor Doutor Franck Le Petit pela gentileza em me assessorar na utiliza¸c˜ao do C´odigo Meudon PDR;

`

A Professora Doutora Ruth pelos conselhos sempre ´uteis, principalmente nos relat´orios; Ao Professor Rama pelos conselhos e por me ajudar a crescer pessoal e profissional-mente;

`

A Professora S´ılvia Rossi pelo colo e pelas broncas; `

A Professora Vera Jatenco pelo semestre que trabalhamos juntas;

Aos amigos Cris Forcioni, F´abio Rodrigues, Felipe A. Augusto, por toda a ajuda e disponibilidade em me atender e tirar minhas d´uvidas, principalmente em qu´ımica!!!;

Aos amigos James, Rodrigo Costa, C´esar, Artur, Lilian, Andressa, Isis, Elisa, Aiara, Tha´ıse, Giovanni, Denise, Tatiane, Alexandra, Mariana Tanaka, Mariane Marins, alguns por simplismente estarem l´a e os outros por entenderem porque eu n˜ao podia estar l´a.

Aos colegas Marcus, Vinicius e Oscar por disponibilizarem esta vers˜ao super amig´avel do latex facilitando muito minha disserta¸c˜ao;

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Ao Instituto de Astronomia, Geof´ısica e Ciˆencias Atmosf´ericas - IAG/USP

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Lennon and McCartney

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Este trabalho apresenta o estudo de algumas mol´eculas do meio interestelar ´uteis para o levantamento do conte´udo de mat´eria orgˆanica do universo e para as condi¸c˜oes pr´e-bi´oticas na Terra e em outros ambientes no universo. Utilizamos como objeto-teste a Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo, devido `a sua geometria simples, `a sua distˆancia moderada at´e n´os, ao seu campo de radia¸c˜ao ultravioleta bem conhecido resultante da ilumina¸c˜ao por uma estrela pr´oxima, σ Orionis, e por ter sido extensivamente estudada por diversos trabalhos. Desse modo, podemos investigar com seguran¸ca diversos processos f´ısicos e qu´ımicos no meio interestelar.

O principal instrumento utilizado neste trabalho foi o c´odigo PDR Meudon devido ao fato de que ´e amplamente utilizado por ser um dos programas de an´alise de dados de projetos recentes de astronomia, como o projeto Herschel, e por ser p´ublico. O c´odigo pode ser utilizado para modelizar com confiabilidade a Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo, visto que ela mesma ´e uma PDR (regi˜ao de fotodissocia¸c˜ao) protot´ıpica. Atualizamos o setor de qu´ımica do c´odigo para testar diversos cen´arios de forma¸c˜ao de mol´eculas.

Consideramos o impacto nas abundˆancias derivadas das mol´eculas de v´arias suposi¸c˜oes em rela¸c˜ao ao estado do g´as (modelos isoc´orico, isot´ermico e isob´arico), decidindo em favor de um modelo isob´arico. Verificou-se o papel dos raios c´osmicos e de v´arios conjuntos de dados das rea¸c˜oes qu´ımicas.

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This work presents the study of some molecules of the interstellar medium that are useful for the bookkeeping of the molecular content of the universe and for prebiotic con-ditions on Earth and in other environments in the universe. The Horsehead Nebula was chosen as test object, due to its simple geometry, its moderate distance to us, its well-known ultraviolet radiation field resulting from the starσ Orionis, and due the fact that it has been extensively studied in several works. In this way, we can safely investigate several physical and chemical processes on the interstellar medium.

The main tool used in the present work was the Meudon PDR code due the fact that it is widely used as one of the legacy data analysis programs of current astronomy projects, e.g. the Herschel project, and it is public. The code can reliably model the Horsehead Nebula, since this nebula is a prototypic PDR (photodissociation region). We updated the chemical sector of the code in order to test several scenarios for molecule production.

We considered the impact on the derived molecule abundances of several assumptions relative to the gas state (isochoric, isothermal and isobaric models), and the isobaric model was found to be the most plausible. We checked the role of cosmic rays and several datasets of chemical reactions.

We derived the abundances of several molecules, including some of potential prebiotic importance: CN and their ions, HCN, HNC, nitriles and their ions, nitrogen hydrides, and benzene. We investigated the role of anions and PAHs. Finally, we explored production channels for astrobiologically relevant nitrogenated heterocycles: pyrrole and pyridine.

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∆fH0 Varia¸c˜ao da entalpia de forma¸c˜ao.

AIBs Bandas Arom´aticas no Infravermelho

Akari Sat´elite astronˆomico no infravermelho desenvolvido pela Agˆencia de Explora¸c˜ao Espacial Japonesa.

ALMA Da sigla em inglˆes para The Atacama Large Millimeter/submillimeter Array -Radiotelesc´opio desenvolvido em parceria entre Europa, Am´erica do Norte, leste da

´

Asia e Chile.

AV Extin¸c˜ao na faixa espectral do vis´ıvel.

CHO Elementos carbono, hidrogˆenio e oxigˆenio.

CHON Elementos carbono, hidrogˆenio, oxigˆenio e nitrogˆenio.

CHONPS Elementos essenciais para a vida, ou seja, carbono, hidrogˆenio, oxigˆenio, ni-trogˆenio, f´osforo e enxofre.

CoRoT Da sigla para Convection Rotation et Transits Plan´etaires - Miss˜ao espacial lid-erada pela Agˆencia Espacial Francesa em conjunto com com a Agˆencia Espacial Europ´eia com objetivo de buscar exoplanetas e realizar astrosismologia.

DFT Teoria da densidade funcional.

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FIR Da sigla em inglˆes para far infrared - infravermelho distante FUV Da sigla em inglˆes para far ultraviolet - ultravioleta distante

HARPS Da sigla em inglˆes para High Accuracy Radial velocity Planetary Search project - espectrometro dedicado a busca por exoplanetas, instalado no telesc´opio de 3.6 metros em La Silla.

Herschel Observat´orio espacial desenvolvido pela Agˆencia Espacial Europ´eia. HHN Da sigla em inglˆes para Horsehead Nebula- Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo. Kepler Telesc´opio espacial da NASA que visa a busca por planetas habit´aveis.

LLAMA Da sigla em inglˆes para Long Latin American Millimeter Array - Radiote-lesc´opios para comprimentos de onda milim´etricos e submilim´etricos.

M⊙ Massa solar.

Mag Magnitude.

NASA Da sigla em inglˆes para National Aeronautics and Space Administration- Admin-istra¸c˜ao Nacional de Aeron´autica e Espacial dos Estados Unidos da Am´erica. nH Densidade total de n´ucleos de hidrogˆenio.

Odin Mini-sat´elite desenvolvido pela Su´ecia em coopera¸c˜ao com Fran¸ca, Canad´a e Finlˆandia com proposta de estudar a atmosfera terrestre al´em de objetos astronˆomicos.

PACS Da sigla em inglˆes para Photo-conductor Array Camera and Spectrometer - Es-pectrˆometro e cˆamera fotocondutora instalados no observat´orio espacial Herschel. PAHs Da sigla em inglˆes parapoliciclic aromatic hidrocarbon- hidrocarbonetos arom´aticos

polic´ıclicos.

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RNA Da sigla em inglˆes para ribonucleic acid - ´acido ribonucleico.

Sophie Da sigla em francˆes para Spectrographe pour l’Observation des Ph´enom`enes des Int´eriuers stellaires et des Exoplan`etes- espetr´ografo instalado no telesc´opio de 1.93 metros do Haute-Provence Observatory no sudoeste da Fran¸ca.

SPICA Da sigla em inglˆes paraSpace Infrared Telescope for Cosmology and Astrophysics - observat´orio espacial proposto pela Agˆencia de Explora¸c˜ao Espacial Japonesa para ser lan¸cado em 2018.

Spitzer Telesc´opio espacial da NASA que opera na regi˜ao do infravermelho do espectro eletromagn´etico.

SWAS Da sigla em inglˆes para Submillimeter Wave Astronomy Satellite - telesc´opio es-pacial da NASA designado a estudar a composi¸c˜ao qu´ımica de nuvens de g´as inter-estelares.

Tc Temperatura cin´etica.

Te Temperatura eletrˆonica.

Tef Temperatura efetiva.

UV Ultravioleta.

VISIR Da sigla em inglˆes para The VLT spectrometer and imager for the mid-infrared -espectrometro para o infravermelho m´edio usado pelo ESO.

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1.1 Mapa das ´Areas de estudos da Astrobiologia (Briggs, 2009) . . . 28

1.2 Carboidratos formados por cadeias de carbono. (Gilmour e Sephton, 2004) 36 1.3 Membranas lip´ıdicas de c´elulas. (Gilmour e Sephton, 2004) . . . 36

1.4 Produ¸c˜ao de prote´ınas a partir de amino´acidos. (Gilmour e Sephton, 2004) 37 1.5 Bases encontradas no DNA. (Gilmour e Sephton, 2004). . . 37

2.1 Ilustra¸c˜ao de uma PDR com seus principais elementos. (Le Petit, 2012) . . 45

2.2 Ilustra¸c˜ao de nuvem molecular com suas regi˜oes t´ıpicas. (Le Petit, 2012) . 46 2.3 Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo (HHN) e circunvizinhan¸ca. (NASA, 2010) . . . 56

2.4 Caracter´ısticas geom´etricas do c´odigo em uma nuvem. (Le Petit, 2012) . . 58

3.1 Varia¸c˜ao dos principais parˆametros no modelo com nH constante. . . 67

3.2 Teste de Convergˆencia do c´odigo para a HHN. . . 68

3.3 Teste de Convergˆencia do c´odigo para a HHN. . . 68

3.4 Teste da influˆencia da taxa de ioniza¸c˜ao por raios c´osmicos na HHN. . . 69

3.5 Teste da influˆencia da taxa de ioniza¸c˜ao por raios c´osmicos na HHN. . . 70

3.6 Teste da influˆencia da varia¸c˜ao da entalpia de forma¸c˜ao na HHN. . . 72

3.7 Abundˆancias de algumas esp´ecies CHO na HHN. . . 73

3.8 Abundˆancias de algumas esp´ecies CHO na HHN. . . 73

3.9 Abundˆancia de algumas esp´ecies CHO na HHN. . . 74

3.10 Abundˆancias do CN, CN+,CN, HCN e HNC em rela¸c˜ao ao CN. . . . 75

3.11 Varia¸c˜ao dos principais parˆametros no modelo isob´arico. . . 76

3.12 Abundˆancias de CHO para o modelo isob´arico ao longo da HHN. . . 77

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3.16 Abundˆancia CN, HCN e HNC para o modelo isot´ermico ao longo da HHN. 80

3.17 Abundˆancia de algumas mol´eculas nitrogenadas na HHN. . . 81

3.18 Abundˆancia de algumas mol´eculas nitrogenadas na HHN. . . 82

3.19 Abundˆancia de alguns ˆanions na HHN. . . 83

3.20 Abundˆancia de ˆanions na HHN. . . 83

3.21 Abundˆancia do benzeno ao longo da Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo. . . 85

3.22 Abundˆancia do pirrol ao longo da Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo. . . 87

3.23 Abundˆancia do pirrol com mais rea¸c˜oes. . . 89

3.24 Diferen¸ca obtida para a abundˆancia do pirrol . . . 90

3.25 Abundˆancia da piridina a partir do etano ao longo da HHN. . . 92

3.26 Abundˆancia dos principais hidrocarbonetos na HHN (incluindo o CH). . . 92

3.27 Abundˆancia da piridina ao longo da Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo. . . 94

3.28 Abundˆancia do benzeno quando considera-se uma abundˆancia inicial. . . . 95

3.29 Compara¸c˜ao da produ¸c˜ao do benzeno. . . 96

3.30 Abundˆancia do pirrol produzido por PAHs. . . 97

3.31 Compara¸c˜ao da produ¸c˜ao do pirrol por diversos canais. . . 98

3.32 Abundˆancia da piridina produzida por PAHs. . . 98

3.33 Compara¸c˜ao da produ¸c˜ao da piridina por diversos canais. . . 99

3.34 Compara¸c˜ao entre pirrol e piridina produzidos por PAHs. . . 100

3.35 Abundˆancia de alguns PAHs e PANHs ao longo da HHN. . . 102

3.36 Compara¸c˜ao da produ¸c˜ao do pirrol por diversos canais. . . 103

3.37 Produ¸c˜ao da piridina por diversos canais. . . 103

3.38 Compara¸c˜ao da produ¸c˜ao da piridina por diversos canais. . . 104

3.39 Compara¸c˜ao entre pirrol e piridina produzidos por PAHs. . . 104

4.1 Fra¸c˜ao de N em algumas formas simples de nitrogˆenio na HHN. . . 106

4.2 Fra¸c˜ao de N em alguns hidretos de nitrogˆenio na HHN. . . 106

4.3 Fra¸c˜ao de N em cianeto e seus derivados na HHN. . . 107

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1.1 Os dez elementos mais abundantes. . . 35 2.1 Comprimentos de onda de transi¸c˜oes de n´ıveis de energia. . . 48 2.2 Valores m´edios para taxas de rea¸c˜ao.(Maciel, 2002) . . . 56 2.3 Caracter´ısticas f´ısicas da HHN.(Gerin et al., 2009) . . . 57 3.1 Parˆametros iniciais do modelo padr˜ao para a Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo. . 66 3.2 Valores usados na varia¸c˜ao da entalpia de forma¸c˜ao (∆fH◦). . . 71

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1. Introdu¸c˜ao. . . 27 1.1 Mat´eria Orgˆanica no Universo . . . 27 1.2 Astrobiologia . . . 30 1.3 Origem e Busca pela Vida . . . 31 1.3.1 O que ´e vida? . . . 31 1.4 Agua . . . .´ 33 1.5 Carbono . . . 34 1.6 Nitrogˆenio . . . 35 1.6.1 Acidos Nucleicos (DNA/RNA) . . . .´ 37 1.6.2 Esp´ecies Nitrogenadas de Interesse Astrobiol´ogico . . . 37 1.7 O Mundo Arom´atico . . . 38 1.8 Organiza¸c˜ao da Disserta¸c˜ao . . . 41

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2.2.2 Destrui¸c˜ao de Mol´eculas . . . 53 2.2.2.1 Fotodissocia¸c˜ao . . . 54 2.2.2.2 Dissocia¸c˜ao Colisional . . . 54 2.3 Cin´etica de Rea¸c˜ao . . . 54 2.3.1 Taxas de Rea¸c˜ao . . . 55 2.4 Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo . . . 56 2.5 O C´odigo PDR Meudon . . . 57 2.5.1 Caracter´ısticas do C´odigo . . . 58 2.5.1.1 Rea¸c˜oes Qu´ımicas . . . 60

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4.2 Rotas para a Produ¸c˜ao de Heteroc´ıclicos . . . 109 4.3 Busca por Mol´eculas em Ambientes Interestelares e Circum-estelares . . . . 112

5. Conclus˜oes e Perspectivas . . . 117 5.1 Precisamos de uma Revolu¸c˜ao Molecular . . . 118 5.2 Pr´oximos Passos em Simula¸c˜oes . . . 121 5.3 Perspectivas Observacionais . . . 123

Referˆencias . . . 125

Apˆendice 135

A. Mol´eculas Encontradas em Ambientes Interestelares e Circum-estelares . . . 137

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Introdu¸c˜

ao

O estudo do universo orgˆanico tornou-se uma das ´areas de fronteira em astrof´ısica. O enorme crescimento que esta ´area apresentou nos ´ultimos anos deve-se ao aumento da disponibilidade de bases de dados em laborat´orio e de c´alculos quˆanticos fundamentais com respeito `as taxas de rea¸c˜oes e espectros de mol´eculas. Grande parte das mol´eculas observadas no espa¸co s˜ao orgˆanicas e, de fato, houve uma mudan¸ca paradigm´atica muito recente, motivada pelo florescimento da astrobiologia, ou seja, o estudo multidisciplinar da origem, evolu¸c˜ao, distribui¸c˜ao e destino da vida no Universo, considerando em especial a vida em outros lugares al´em da Terra (Lafleur, 1941). Al´em disso, diversos observat´orios tanto espaciais como em solo tˆem explorado partes do espectro eletromagn´etico rico em linhas moleculares, desde o infravermelho pr´oximo ao r´adio, incluindo o infravermelho m´edio e distante e o submilim´etrico/milim´etrico. Uma das principais frentes exploradas pela astrobiologia ´e o estudo da biologia terrestre, j´a que a busca pela vida em qualquer lugar do Universo ´e condicionada por nosso conhecimento da vida na Terra. Al´em disso, a origem e a evolu¸c˜ao da vida terrestre, ´e condicionada pelas condi¸c˜oes que possui nosso planeta no Sistema Solar e na nossa Gal´axia (Fria¸ca, 2012). O surgimento da vida no Universo passou a ser visto como uma etapa da evolu¸c˜ao cosmol´ogica da complexidade, da qual a forma¸c˜ao das mol´eculas orgˆanicas representam uma importante fase.

1.1 Mat´eria Orgˆanica no Universo

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Figura 1.1: Mapa das ´Areas de estudos da Astrobiologia (Briggs, 2009)

“early”, usando o rec´em-completado espectr´ografo Coud´e do observat´orio de Monte Wilson. No seu trabalho de 1937, Durham e Adams identificaram facilmente nos espectros estelares linhas doT i+de origem interestelar, mas restavam algumas linhas de origem desconhecida. No mesmo ano, Swings e Rosenfeld reconheceram o comprimento de onda de uma das linhas n˜ao identificadas a 4300.3 ˚Acomo um dos componentes da banda 4315 ˚Ado CH (Herzberg, 1988). Nesse momento, come¸cou a era do universo molecular em astrof´ısica.

Pode-se dizer que tamb´em que em 1937 come¸cou a era do universo orgˆanico em as-trof´ısica. A defini¸c˜ao de qu´ımica orgˆanica tem alguma varia¸c˜ao, mas um modo de defini-la seria o campo da qu´ımica que estuda compostos onde comparece a liga¸c˜ao CH. Esta defini¸c˜ao exclui o CO e CN− assim como compostos mais complexos onde n˜ao comparece

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Tamb´em para o HCN ´e cr´ıtico na defini¸c˜ao de qu´ımica orgˆanica, visto que normalmente n˜ao ´e considerado orgˆanico. Mas, segundo o ponto de vista astrof´ısico, ele seria orgˆanico porque apresenta a liga¸c˜ao H-C. Ademais ´e o precursor da importante classe de nitrilas, que apresentam abundˆancias significativas no meio interstelar. Tamb´em ´e importante ao se considerar os compostos heteroc´ıclicos nitrogenados, de grande significado na biologia terrestre.

Al´em do meio interestelar, representado tanto por nuvens difusas interestelares como por nebulosas, os envelopes circum-estelares e, principalmente, arredores de gigantes ver-melhas, s˜ao regi˜oes ricas em carbono, onde se encontra grande quantidade de mat´eria orgˆanica. Verificou-se que as rea¸c˜oes qu´ımicas que formam mol´eculas orgˆanicas nestas regi˜oes (Cherchneff et al., 1992) fazem delas as fontes dominantes de uma importante classe de compostos orgˆanicos, os hidrocarbonetos arom´aticos polic´ıclicos (PAHs, na sigla em inglˆes). Tais mol´eculas, consistindo de v´arios an´eis arom´aticos fundidos, representam um reservat´orio importante de carbono no meio interstelar, chegando a aprisionarem 30-50% de todo carbono desse meio (Puget e Leger, 1989). Essa alta propor¸c˜ao de PAHs reflete suas abundˆancias elevadas nos s´ıtios de produ¸c˜ao e a sua resistˆencia `as condi¸c˜oes do meio interestelar. De fato, modelos dos envelopes carbonados frios mostram que mais carbono est´a contido em PAHs do que em CO a temperaturas de cerca de 850 K, quandoC/O >5 (Helling et al., 1996). Os ventos estelares expelem estas mol´eculas para o meio interestelar e, a partir da´ı, elas podem ser encontradas em outros ambientes.

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A mat´eria orgˆanica ´e componente fundamental de sistemas vivos e, portanto, os estudos sobre a origem da vida e a evolu¸c˜ao da biosfera procuram elucidar como se deu a passagem de compostos orgˆanicos abi´oticos para a primeiras formas de vida e como as substˆancias orgˆanicas permanecem dispon´ıveis para os seres vivos na biosfera por per´ıodos de tempo de v´arios bilh˜oes de anos. Al´em disso, ´e inevit´avel que a distribui¸c˜ao da mat´eria orgˆanica no Universo tenha um impacto direto na origem da vida na Terra e em outras partes do Cosmos al´em do nosso planeta. Por esse motivo, o estudo do conte´udo molecular do universo ´e um dos eixos da pesquisa em astrobiologia.

1.2 Astrobiologia

Existe vida fora da Terra? Se existir, ´e um tipo de vida similar `as formas de vida que se conhece na Terra? Como detect´a-la? Estas s˜ao algumas das mais fascinantes perguntas que defrontam as ciˆencias hoje, sendo a astrobiologia a ´area que se dedica particularmente ao estudo da origem, da evolu¸c˜ao e da distribui¸c˜ao da vida no Universo.

Trˆes estrat´egias cl´assicas foram seguidas na busca por vida extraterrestre: o estudo celular de organismos ex´oticos terrestres, a busca por mat´eria orgˆanica, como o estudo realizado neste trabalho, e microorganismos vivos fora da Terra e o uso de radiotelesc´opios para detectar sinais de vida inteligente no Universo (Chela–Flores, 2001).

A primeira estrat´egia tem por objetivo entender como a vida na Terra come¸cou. Pesquisas revelaram organismos ex´oticos, os chamados extrem´ofilos, vivendo em ambientes in´ospitos, tais como o fundo de oceanos, len¸c´ois glaciais ant´articos e fluxos de lava vulcˆanicos, que apresentam temperatura e press˜ao que podem at´e ser semelhantes `as encontradas durante a forma¸c˜ao da Terra h´a cerca de 4,5 bilh˜oes de anos atr´as (Chela–Flores, 2001). Descobertas recentes indicam que h´a ecossistemas inteiros que n˜ao dependem da luz solar, estendendo nosso conceito de limites de zona de habitabilidade no Sistema Solar. Pesquisar nossas pr´oprias origens n˜ao somente amplia nossa avalia¸c˜ao da enorme diversidade da vida aqui na Terra, mas tamb´em pode ajudar-nos a entender as situa¸c˜oes extremas que organis-mos simples podem tolerar, tais como ambientes encontrados em outros corpos celestes, tornando mais prov´avel que exista vida em outro lugar.

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planetas, cometas ou meteoritos, ou, ainda, em nuvens interestelares. Hoje j´a h´a evidˆencias de fluxos de ´agua l´ıquida num passado geol´ogico recente, ou at´e atual, em Marte. A Miss˜ao Espacial Galileu forneceu ampla evidˆencia de um oceano embaixo da superf´ıcie congelada de Europa (Chela–Flores, 2001). Um dos objetivos prim´arios da astrobiologia ´e determinar onde a vida pode existir al´em da Terra e, se isto ´e poss´ıvel, quais as condi¸c˜oes ambientais limitantes.

A terceira estrat´egia usada na busca por ind´ıcios de vida fora da Terra utiliza os radiote-lesc´opios que, al´em de pesquisarem os comprimentos de onda invis´ıveis ao olho humano, permitem a detec¸c˜ao de anomalias nas ondas de r´adio, que podem representar sinais de vida no cosmos. Os astrˆonomos tˆem vasculhado o espectro em r´adio h´a cinco d´ecadas, aproximadamente, sem nenhum sinal de civiliza¸c˜ao extraterrestre (Chela–Flores, 2001).

A busca de vida extraterrestre, combinada com grandes avan¸cos em astronomia espacial e de solo levou a encontrar seguidamente novos planetas extrassolares e mesmo novos sistemas planet´arios, e mant´em a esperan¸ca de encontrar vida inteligente “em algum lugar l´a fora”.

Estas trˆes estrat´egias fornecem um mapa para uma grande jornada de descobertas, incluindo a possibilidade de encontrar um lugar real no Universo que seja como o planeta Terra e, ao mesmo tempo, elucidar como a vida se desenvolveu no nosso planeta.

1.3 Origem e Busca pela Vida

A procura por vida dentro e fora do Sistema Solar est´a intrinsecamente relacionada `a compreens˜ao dos sistemas vivos na ciˆencia moderna. Por´em, definir o que ´e vida n˜ao ´e uma tarefa t˜ao simples como parece; ´e preciso examinar a qu´ımica e a fun¸c˜ao dos elementos que constituem um sistema vivo. Outro passo ´e estudar os lugares no Universo e na Terra onde a mat´eria-prima para a vida poderia ter se formado antes da vida ter come¸cado de fato. Finalmente, temos que entender os mecanismos atrav´es dos quais a mat´eria-prima n˜ao biol´ogica pode ter se combinado resultando nos primeiros organismos vivos.

1.3.1 O que ´e vida?

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repentina-mente na Terra. Estas suposi¸c˜oes eram apoiadas pelas evidˆencias observacionais da ´epoca sobre a gera¸c˜ao espontˆanea de moscas e larvas de insetos a partir de carne podre, piolhos a partir de suor, enguias e peixes a partir da lama do mar e sapos e ratos a partir do solo ´umido. Ocasionalmente, a id´eia da gera¸c˜ao espontˆanea era questionada. Por exem-plo, em 1668, o m´edico Francesco Redi (1627-1697) demonstrou que as larvas de insetos eram postas por moscas e se a carne fosse deixada em um recipiente fechado, ent˜ao, as moscas adultas eram impedidas de entrar e depositar seus ovos e as larvas n˜ao apareciam. De qualquer modo, quando o microsc´opio holandˆes feito por Anthony van Leeuwenhoek (1632-1723) detectou microorganismos em 1676, a gera¸c˜ao espontˆanea era a explica¸c˜ao que melhor dava conta de tais criaturas. O problema foi finalmente resolvido em 1862, quando em uma tentativa de ganhar um prˆemio oferecido pela Academia Francesa de Ciˆencia, Louis Paster (1822-1895) realizou uma s´erie de experimentos convincentes demonstrando a inexistˆencia da gera¸c˜ao espontˆanea. Pasteur mostrou que se um caldo ou solu¸c˜ao es-tiver devidamente esterilizado e exclu´ıdo de contatos com microorganismos, ele poder´a permanecer est´eril indefinidamente (Gilmour e Sephton, 2004).

Pasteur respondeu uma quest˜ao importante ao provar que a gera¸c˜ao espontˆanea n˜ao era a origem da vida, mas inevitavelmente fez surgir quest˜oes novas e mais dif´ıceis. Se toda a vida vem de vida existente, de onde veio a primeira vida? Ironicamente, em contraste ao banimento da velha e arraigada ideia que a vida surge espontaneamente de mat´eria inanimada, veio a inevit´avel e l´ogica conclus˜ao que a primeira vida pode ter aparecido exatamente assim - surgida de materiais n˜ao-vivos presentes no Universo.

Se vamos estabelecer quando e como a vida se originou, devemos primeiro definir o que ´e vida.

Em geral, muitos bi´ologos costumam identificar duas caracter´ısticas chave que indicam vida (Gilmour e Sephton, 2004):

• a capacidade de se auto-replicar;

• a capacidade de evoluir de acordo com a teoria Darwiniana.

(35)

estar sujeitas `a sele¸c˜ao natural. A natureza favorece algumas caracter´ısticas particulares sob dadas condi¸c˜oes ambientais e aqueles indiv´ıduos que melhor se adaptarem `as condi¸c˜oes existentes sobreviver˜ao mais facilmente. Por este processo, uma mudan¸ca evolutiva com qualquer caracter´ıstica vantajosa por qualquer tipo de muta¸c˜ao deve ser passada para as gera¸c˜oes futuras (Gilmour e Sephton, 2004).

Uma pequena lista de apenas duas caracter´ısticas pode n˜ao ser uma defini¸c˜ao muito confi´avel de vida. Por isso, a NASA propˆos a seguinte defini¸c˜ao: “vida ´e um sistema qu´ımico auto-sustent´avel capaz de permitir a evolu¸c˜ao Darwiniana” (Joyce, 1994). De qualquer forma, qualquer defini¸c˜ao de vida ser´a igualmente falha sob certas circunstˆancias. Por exemplo, a mula ´e a descendˆencia de jumento com ´egua, que s˜ao esp´ecies distintas, por isso a mula ´e est´eril. Uma mula n˜ao pode se multiplicar e, sendo assim, ´e incapaz de satisfazer os crit´erios de auto-replica¸c˜ao e de evolu¸c˜ao Darwiniana, mas apesar disso, n˜ao se pode negar que ela esteja viva. Entretanto, para a maioria dos casos, essa defini¸c˜ao de vida ser´a uma defini¸c˜ao satisfat´oria.

Para que a vida seja auto-sustent´avel e capaz de evoluir conforme a Teoria de Dar-win, energia e materiais b´asicos precisam ser extra´ıdos do ambiente ao redor para permitir crescimento e replica¸c˜ao. Al´em disso, alguns tipos de sistemas vivos devem estar presentes para governar a qu´ımica da vida. Para um primeiro passo na procura por vida no Uni-verso podemos nos basear na compreens˜ao dos sistemas vivos na Terra, o que significa vida baseada em ´agua l´ıquida, um conjunto de elementos biogˆenicos, como o carbono e o nitrogˆenio, al´em de uma fonte de energia livre. Nesse est´agio, a busca pela vida conduz `a busca de ´agua, carbono, nitrogˆenio e energia livre para sustentar a vida.

1.4

Agua

´

`

(36)

Uma alternativa ocasionalmente proposta, a amˆonia, poderia ser l´ıquida em outros mun-dos muito mais frios que o nosso, mas a tais baixas temperaturas as rea¸c˜oes qu´ımicas que levariam `a vida operariam lentamente e os sistemas vivos teriam que experimentar lapsos de tempo excessivamente longos para alcan¸carem a estabilidade.

Ademais, os elementos que formam a ´agua, o hidrogˆenio e o oxigˆenio, s˜ao os elementos mais abundantes n˜ao s´o dos seres vivos terrestres, mas tamb´em do Universo, seguidos pelo carbono e pelo nitrogˆenio.

1.5 Carbono

O carbono ´e o ´unico elemento que pode formar mol´eculas suficientemente grandes para realizar algumas fun¸c˜oes necess´arias para a vida como conhecemos. Pode formar cadeias qu´ımicas com diversos outros ´atomos, permitindo uma grande diversidade qu´ımica. A importˆancia do carbono para a bioqu´ımica terrestre ´e ilustrada pela posi¸c˜ao que ocupa na frente da sigla CHONPS, que designa os elementos essenciais para a vida, ou seja, carbono, hidrogˆenio, oxigˆenio, nitrogˆenio, f´osforo e enxofre, aos quais se acrescentam os macroelementos cloro, s´odio, pot´assio e c´alcio e cerca de uma d´uzia de microelementos, tais como ferro, magn´esio e zinco.

Uma das principais caracter´ısticas do carbono ´e a capacidade de v´arios de seus com-postos de se dissolverem facilmente na ´agua. Tal capacidade de intera¸c˜ao m´utua faz dos compostos de carbono e da ´agua as mais importantes substˆancias para o desenvolvimento de organismos vivos. Atualmente, todas as formas de vida conhecidas s˜ao baseadas em carbono.

(37)

Tabela 1.1 - Os dez elementos mais abundantes no Universo, na Terra e nos organismos

vivos [´atomos de elementos por 100.000 ´atomos no total] (Gilmour e Sephton, 2004)

Universo Toda a Terra Crosta terrestre Oceanos terrestres Humanos

H 92.714 O 48.880 O 60.425 H 66.200 H 60.563 He 7.185 Fe 18.870 Si 20.475 O 33.100 O 25.670 O 50 Si 14.000 Al 6.251 Cl 340 C 10.680 Ne 20 Mg 12.500 H 2.882 Na 290 N 2.440 C 15 S 11.400 Na 2.155 Mg 34 Ca 230 N 8 Ni 1.400 Ca 1.878 S 17 P 130 Si 2,3 Al 1300 Fe 1.858 Ca 6 S 130 Mg 2,1 Na 640 Mg 1.784 K 6 Na 75 Fe 1,4 Ca 460 K 1.374 C 1,4 K 37 S 0,9 P 140 Ti 191 Si - Cl 33

Depois da ´agua, as mol´eculas mais abundantes em sistemas vivos s˜ao as macromol´eculas biol´ogicas: carboidratos, lip´ıdios, prote´ınas e ´acidos nucleicos, todas formadas por cadeias de carbono.

Os carboidratos s˜ao importantes como fontes de energia para a vida (Figura 1.2) e os lip´ıdios, para a forma¸c˜ao da membrana celular (Figura 1.3). J´a as prote´ınas, longas cadeias de amino´acidos, s˜ao respons´aveis pela cat´alise e pela produ¸c˜ao das enzimas, constituindo uma das principais classes de macromol´eculas biol´ogicas (Figura 1.4).

1.6 Nitrogˆenio

(38)

Figura 1.2: Carboidratos formados por cadeias de carbono – transforma¸c˜ao de energia para

organismos vivos. (Gilmour e Sephton, 2004)

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Figura 1.4: Produ¸c˜ao de prote´ınas a partir de amino´acidos. (Gilmour e Sephton, 2004)

1.6.1 Acidos Nucleicos (DNA/RNA)´

´

Acidos Nucleicos podem ser as maiores macromol´eculas biol´ogicas conhecidas. Elas consistem em uma cole¸c˜ao de nucleot´ıdios individuais ligados em longas cadeias lineares de pol´ımeros. Assim como a¸c´ucares e amino´acidos, nucleot´ıdios podem ser ligados por simples rea¸c˜oes que envolvem a perda de ´agua. Cada nucleot´ıdio ´e composto por uma pentose (a¸c´ucar com cinco ´atomos de carbono), um ou mais grupos de fosfato e por uma base nitrogenada, para as quais h´a cinco possibilidades: adenina, citosina, timina e guanina (Figura 1.5), al´em da uracila.

Figura 1.5: Bases encontradas no DNA. (Gilmour e Sephton, 2004).

Os organismos vivos contˆem dois tipos de ´acidos nucleicos: DNA e RNA, sendo o DNA o ´acido nucleico que cont´em as instru¸c˜oes gen´eticas usadas no desenvolvimento e funcionamento de todos os organismos vivos.

1.6.2 Esp´ecies Nitrogenadas de Interesse Astrobiol´ogico

O espectro no infravermelho para as bases nitrogenadas ainda n˜ao ´e bem conhecido para a fase gasosa, o que dificulta sua detec¸c˜ao no meio interestelar. H´a poucos trabalhos como o de Pl¨utzer et al. (2001), que apresenta um espectro para a nucleobase adenina produzido em jatos supersˆonicos com linhas de absor¸c˜ao na faixa de n´umeros de onda entre 36050 e 36700 cm−1. Por´em, outros compostos contendo a fun¸c˜ao nitrila, tais como

(40)

-cianoacetileno, HCCN -cianometileno, HCNe o OCN−, foram detectados recentemente

na atmosfera de Tit˜a, em comas comet´arias e no meio interestelar (Hudson e Moore, 2004). De fato, esta ´e uma das ´areas que est´a em desenvolvimento e que possibilitar´a grandes descobertas observacionais num futuro pr´oximo.

Dentro do Sistema Solar, a qu´ımica da nitrila ´e particularmente relevante em Tit˜a, j´a que sua atmosfera oferece condi¸c˜oes de temperatura e press˜ao para a forma¸c˜ao de tais compostos, al´em das rea¸c˜oes estimuladas por radia¸c˜ao c´osmica, f´otons ultravioleta (UV) e pela magnetosfera de Saturno. As nitrilas tamb´em s˜ao relevantes no contexto de estudo de cometas.

Os cometas s˜ao essenciais para entender as nebulosas solares e sua evolu¸c˜ao, j´a que as mol´eculas s˜ao mais facilmente detect´aveis nestes objetos devido `a sua trajet´oria cruzando a ´orbita terrestre e servem de comparativo para o que se pode encontrar nas regi˜oes de forma¸c˜ao estelar e, tamb´em, para pesquisas dos processos qu´ımicos que ocorrem no meio interestelar.

Nesse contexto, cabe salientar a teoria da Panspermia, que sugere que a vida n˜ao necessariamente tenha se originado na Terra mas em cometas (Napier et al., 2007), ou ao menos transportada para c´a por estes; mais especificamente, Wickramasinghe et al. (2012) refere-se aos planetas primordiais, nos quais teria havido o in´ıcio da vida, ou pelo menos a forma¸c˜ao dos primeiros blocos construtores, alguns milh˜oes de anos ap´os o Big Bang, desde a primeira condensa¸c˜ao do H2, seria poss´ıvel mapear essa hist´oria evolucion´aria pelo processo de colis˜ao de cometas e outros astros que expeliram g´as e poeira na nu-vem zoodiacal, quando da passagem dos primeiros corpos planet´arios pelo sistema solar (Wickramasinghe et al., 2012). Outra teoria, mais aceita, ´e de que os cometas possam ter fornecido compostos orgˆanicos chaves para o inicio da vida na Terra. Dentre estes, os compostos heteroc´ıclicos nitrogenados tˆem especial importˆancia.

1.7 O Mundo Arom´atico

(41)

defini¸c˜ao sem ambiguidade que separe “vida” de “n˜ao-vida”. Todos concordam, por´em, que a vida tenha que, de alguma forma, passar sua informa¸c˜ao gen´etica ao longo do tempo para se perpetuar.

Existem aproximadamente 170 mol´eculas detectadas no meio interestelar (ver tabela A.1 no anexo) e v´arias delas s˜ao importantes para compreender a origem da vida. Cabe salientar os hidrocarbonetos arom´aticos polic´ıclicos (PAHs), que s˜ao mol´eculas orgˆanicas encontradas em todo espa¸co e podem ter desempenhado um papel fundamental na origem da vida. De fato, os PAHs devem ter sido as primeiras grandes mol´eculas produzidas logo ap´os a primeira gera¸c˜ao de estrelas massivas do Universo jovem (Chela–Flores, 2001).

Estas mol´eculas de carbono e hidrogˆenio s˜ao chamadas “polic´ıclicas” devido as suas m´ultiplos an´eis de ´atomos de carbono, e “arom´aticas”devido `as fortes liga¸c˜oes qu´ımicas do anel conjugado, pares isolados ou orbitais vazios que mostram uma estabilidade mais forte do que se poderia esperar da estabilidade de um conjugado sozinho. Os PAHs podem ser encontrados na Terra quando ocorre a combust˜ao incompleta de materiais `a base de carbono. Constituem uma fam´ılia de compostos caracterizada por possu´ırem dois ou mais an´eis arom´aticos condensados. Essas substˆancias, bem como os seus derivados nitrogenados e oxigenados, s˜ao encontrados como constituintes de misturas complexas em todos os ambientes.

Segundo a bioqu´ımica moderna, os trˆes principais requisitos dos sistemas celulares s˜ao ´acidos nucleicos, proteinas e membranas. A maior parte destes blocos de constru¸c˜ao da vida, no espa¸co, ´e encontrado em meteoritos carbon´aceos, mas h´a ind´ıcios de algumas mol´eculas complexas na fase gasosa no meio interestelar(Chela–Flores, 2001).

Os PAHs podem ter sido material importante para a estabilidade da vida em sua origem, pois possuem uma estrutura muito robusta contra diversos tipos de degrada¸c˜ao, incluindo por radia¸c˜ao. Eles podem ser modificados, mas n˜ao ser˜ao totalmente destru´ıdos. Mesmo se forem divididos, os fragmentos ainda estar˜ao dispon´ıveis para futuras mol´eculas. Em contrapartida, outras mol´eculas mais imediatamente ligadas `a vida, como os amino´acidos, n˜ao tˆem grande probabilidade de serem observadas no meio interestelar, uma vez que f´otons ultravioleta (UV) as destruiriam (Chela–Flores, 2001).

(42)

e parcialmente insol´uvel, e bastante resistente a radia¸c˜ao. Logo, por resistir mesmo sob condi¸c˜oes muito hostis, como durante o poss´ıvel in´ıcio da Terra, esse material pode ter sido mais importante do que inicialmente se suspeitava. Os PAHs s˜ao as mol´eculas orgˆanicas livres mais abundantes no espa¸co, ambiente certamente menos prop´ıcio `a forma¸c˜ao mole-cular em geral do que a Terra, uma vez que n˜ao existe uma atmosfera protetora (Lunine, 2005).

Os trˆes requisitos para um sistema vivo s˜ao a existˆencia de sistemas informacionais, redes metab´olicas e compartimentaliza¸c˜ao. Os PAHs podem desempenhar o papel de pol´ımeros informacionais ao constituir de um modo direto templates com blocos de PAHs complementares. Em rela¸c˜ao `a compartimentaliza¸c˜ao os PAHs s˜ao capazes de se organi-zarem em bicamadas para constituir estruturas primitivas de membrana (Ehrenfreund et al., 2006).

Um ponto importante ´e que os PAHs tamb´em podem ser fotossensibilizados, porque podem realizar transferˆencia de carga entre c´ations e ˆanions. Assim, eles podem desem-penhar um papel metab´olico como transdutores energia. Al´em disso, Nicolas Platts, do Laborat´orio de Geof´ısica do Carnegie Institution of Washington propˆos que, pela jun¸c˜ao de PAHs, eles podem formar um pol´ımero informacional semelhante a um ´acido nucleico (Platts, 1992). Portanto, o material arom´atico pode ser utilizado como “recipiente”para os trˆes requisitos `a vida de uma s´o vez.

A recente detec¸c˜ao deC4H−, C6H− eC8H− levou `a investiga¸c˜ao dos ˆanions de hidro-carbonetos no meio interestelar e no ambiente circum-estelar. A raz˜ao encontrada entre a abundˆancia de ˆanions e mol´eculas neutras ´e de, pelo menos, uma pequena porcentagem, uma vez que essas ´ultimas tˆem mais de cinco ´atomos de carbono. Esses c´alculos predizem, ainda, ˆanions de n ´atomos de carbono (Cordiner et al., 2007a).

(43)

2007a).

Considerando o papel da carga dos PAHs quanto `a extin¸c˜ao ultravioleta, uma com-bina¸c˜ao de PAHs marjoritariamente neutros e com carga negativa reproduz satisfatoria-mente curvas de extin¸c˜ao interestelar observadas (Cecchi-Pestellini et al., 2008).

Al´em disso, as assim chamadas Bandas Arom´aticas no Infravermelho (AIBs, na sigla em inglˆes) s˜ao atribu´ıdas `a emiss˜ao infravermelha de PAHs aquecidos, excitados por f´otons UV. Tamb´em se acredita que algumas das Bandas Difusas Interestelares (DIBs, na sigla em inglˆes), um conjunto de linhas de absor¸c˜ao no vis´ıvel e no infravermelho pr´oximo, teriam sua origem nos PAHs (ver se¸c˜oes 3.10 e 4.2 desta disserta¸c˜ao).

Assim, os PAHs s˜ao excelentes mol´eculas alvo para a busca de mat´eria orgˆanica que foi produzida em outras partes do Sistema Solar ou mesmo em outros locais da Gal´axia e entregue posteriormente quase intacta em planetas como Marte e a Terra.

1.8 Organiza¸c˜ao da Disserta¸c˜ao

(44)
(45)

Base de Dados

O principal instrumento utilizado neste estudo foi um modelo computacional para regi˜oes de fotodissocia¸c˜ao (PDRs), o c´odigo PDR Meudon, podendo ser usado no estudo de propriedades f´ısicas e qu´ımicas de nuvens difusas, nuvens moleculares densas e regi˜oes circum-estelares, al´em das regi˜oes de fotodissocia¸c˜ao (Le Petit et al., 2006). Dessa forma, ´e poss´ıvel analisar a regi˜ao estudada de acordo com seus principais parˆametros, como a incidˆencia de um campo de radia¸c˜ao, a densidade, a temperatura e a press˜ao da regi˜ao, bem como as propriedades qu´ımicas de compostos que podem ser formados e/ou destru´ıdos e suas rea¸c˜oes qu´ımicas.

2.1 Meio Interestelar

O componente mais ´obvio do meio interestelar ´e constitu´ıdo pelos f´otons, dos quais os produzidos por estrelas quentes, especialmente de tipo O e B, f´otons UV, tˆem especial importˆancia ao constituir um campo de radia¸c˜ao associado ao meio interestelar geral, que pode aquecer e ionizar o g´as, interagindo tamb´em com os demais componentes do meio.

A id´eia de um g´as interestelar ´e relativamente recente, as primeiras evidˆencias remontam `as observa¸c˜oes da bin´aria espectrosc´opica δ Orionis em 1904, feitas por Johannes Franz Hartmann (1865-1936), que revelaram a presen¸ca de linhas de absor¸c˜ao de CaII que n˜ao participavam do movimento orbital do par. Hartmann concluiu pela existˆencia de uma nuvem de g´as na linha de visada de δ Orionis, afastando-se com velocidade radial de 16km/s.

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radia¸c˜ao do campo, apresentando-se no c´eu como nebulosas escuras. ´E o caso do Saco de Carv˜ao e da Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo, na constela¸c˜ao de ´Orion.

Caso a nuvem de gr˜aos esteja associada a estrelas moderadamente quentes, com tem-peraturas efetivas at´eTef ≃25000K, os gr˜aos podem espalhar a radia¸c˜ao estelar, formando

uma nebulosa de reflex˜ao. Essas nebulosas s˜ao importantes para a determina¸c˜ao das pro-priedades f´ısicas dos gr˜aos. Um exemplo ´e a nebulosa de reflex˜ao ao redor das Plˆeiades.

Quando a nebulosa est´a associada a estrelas muito quentes, comTef ≥25000K, o g´as

ao redor encontra-se fotoionizado, e a nebulosa ´e uma nebulosa difusa ou regi˜ao HII. O g´as ionizado ocupa uma regi˜ao bem definida no espa¸co, com uma separa¸c˜ao n´ıtida entre a regi˜ao HII ionizada e quente, com temperatura eletrˆonicaTe≃104K, e a regi˜ao HI neutra

e fria, com temperatura cin´etica deTc ≃102K. As regi˜oes HII apresentam intensa emiss˜ao

nas linhas UV e ´opticas do H, He e elementos pesados e, al´em disso, emiss˜ao em r´adio e no infravermelho. Essas regi˜oes s˜ao associadas com as regi˜oes de forma¸c˜ao estelar e tˆem um papel importante no estudo da evolu¸c˜ao qu´ımica da Gal´axia e na defini¸c˜ao dos bra¸cos espirais, dos quais s˜ao os principais tra¸cadores (Maciel, 2002).

Outros tipos de nebulosas s˜ao formadas no processo de evolu¸c˜ao estelar. Estrelas com massa da ordem de 1M⊙ terminam suas vidas ejetando suas camadas externas,

torna-se uma an˜a branca e, posteriormente, uma an˜a negra. Expulsas, suas camadas externas formam uma nebulosa planet´aria. Este tipo de nebulosa possui propriedades an´alogas `as regi˜ao HII, pois suas estrelas centrais s˜ao objetos muito quentes com Tef ≥ 30000K e

fotoioniza essas regi˜oes. Estrelas com massas maiores do que 9M⊙ terminam suas vidas

ejetando toda ou parte de sua massa de um modo explosivo, constituindo as supernovas. Forma-se uma nebulosa gasosa brilhante a partir do material estelar espalhado pelo espa¸co interestelar, chamada resto de supernova. Atrav´es das colis˜oes entre o material ejetado e o meio interestelar o g´as nesta regi˜ao ´e ionizado. Os processos n˜ao-t´ermicos, como a emiss˜ao s´ıncrotron, s˜ao os principais respons´aveis pela emiss˜ao da radia¸c˜ao.

(47)

Os gr˜aos interestelares s˜ao os principais respons´aveis pela polariza¸c˜ao da radia¸c˜ao das estrelas e, assim, fornecem evidˆencias da existˆencia de umcampo magn´etico fraco no meio interestelar - com intensidadeB ≃10−6Gauss- pois este tipo de campo pode causar uma anisotropia, como a apresentada na polariza¸c˜ao, segundo uma dire¸c˜ao preferencial.

O espa¸co interestelar cont´em tamb´em raios c´osmicos, part´ıculas de alta energia como pr´otons, el´etrons e n´ucleos de elementos pesados, que atravessam a regi˜ao com velocidades pr´oximas `a da luz. A detec¸c˜ao e an´alise dos raios c´osmicos permite estudar as condi¸c˜oes f´ısicas de seus locais de origem atrav´es dos poss´ıveis processos de acelera¸c˜ao que tenham sofrido.

2.1.1 Regi˜oes de Fotodissocia¸c˜ao

Quando somente f´otons, em sua grande maioria menos energ´eticos do que a energia de ioniza¸c˜ao do hidrogˆenio, chegam `a camada superficial de uma grande nuvem molecular, dissociando e ionizando suas mol´eculas, deixando o resto da nuvem predominantemente neutra, ou seja, molecular, a camada superficial da nuvem ´e chamada de regi˜ao fotodomina-da ou de fotodissocia¸c˜ao, PDR (photon-dominated region, na sigla em inglˆes). A distin¸c˜ao entre PDRs e regi˜oes HII torna-se clara se a defini¸c˜ao de PDR aplicada n˜ao for a de regi˜ao fotodominada, j´a que as regi˜oes HII tamb´em s˜ao dominadas por f´otons, mas a de regi˜oes de fotodissocia¸c˜ao, pois mol´eculas dissociadas s˜ao dificilmente encontradas em regi˜oes HII. Uma PDR ´e definida abrangentemente como uma regi˜ao onde as propriedades f´ısicas e qu´ımicas do g´as s˜ao determinadas por f´otons penetrantes do ultravioleta distante (FUV, 6< hν < 13.6eV).

Figura 2.1: Ilustra¸c˜ao esquem´atica de uma PDR com as regi˜oes de aparecimento das

prin-cipais esp´ecies atˆomicas e moleculares. (Le Petit, 2012)

(48)

per-dendo intensidade ao penetrar a nuvem e, assim, as esp´ecies mais importantes passam de ´ıons para mol´eculas; a complexidade qu´ımica aumenta, pois as esp´ecies moleculares podem ser formadas sem serem imediatamente destru´ıdas pela radia¸c˜ao de alta energia (ver Le Petit et al., 2006; Gerin et al., 2009).

O aquecimento da nuvem se d´a principalmente pelo campo de radia¸c˜ao incidente, mas outras fontes tamb´em s˜ao importantes: a desexcita¸c˜ao colisional de mol´eculas deH2 vibra-cionalmente excitadas, emitindo f´otons no processo; colis˜oes poeira-g´as quando a tempe-ratura do gr˜ao ´e maior que a do g´as; raios c´osmicos, que podem penetrar fundo na nuvem; efeito fotoel´etrico na superf´ıcie dos gr˜aos e dos PAHs pelos f´otons FUV; a forma¸c˜ao e disso-cia¸c˜ao deH2; a turbulˆencia do g´as; e rea¸c˜oes qu´ımicas no interior da nuvem (Le Petit et al., 2006).

O resfriamento se d´a principalmente pela emiss˜ao por mol´eculas excitadas, pela emiss˜ao no cont´ınuo pelos gr˜aos e pelas colis˜oes poeira-g´as quando a temperatura do gr˜ao ´e menor do que a do g´as.

A densidade da nuvem e a intensidade do campo de radia¸c˜ao FUV basicamente determi-nam o tamanho e a estrutura qu´ımica - a distribui¸c˜ao de abundˆancia de cada constituinte qu´ımico - da PDR da nuvem.

Os gr˜aos na nuvem molecular tˆem grande importˆancia f´ısica, pois determinam grande parte da curva de extin¸c˜ao da nuvem, catalisam algumas rea¸c˜oes qu´ımicas e s˜ao respons´a-veis por toda forma¸c˜ao de hidrogˆenio molecular em condi¸c˜oes padr˜ao gal´acticas, al´em de participarem do balan¸co t´ermico da nuvem por aquecimento fotoel´etrico e colis˜ao poeira-g´as (Le Petit et al., 2006).

Quanto mais adentramos a nuvem, ou seja, maior a extin¸c˜ao (AV), mais energ´etica deve

ser a radia¸c˜ao para conseguir penetr´a-la. Passando da regi˜ao da PDR (regi˜ao I na figura 2.2) dominada por f´otons FUV, vem uma regi˜ao ainda dominada por f´otons FUV, mas somente parcialmente, pois o campo de radia¸c˜ao externo ´e fortemente atenuado. Nessa regi˜ao (II na figura 2.2) h´a o ac´umulo de capas de gelo na superf´ıcie dos gr˜aos na nuvem molecular. A fotodissocia¸c˜ao ´e devido ao atenuado campo FUV que, ainda assim, consegue fazer esp´ecies em estado s´olido na superf´ıcie dos gr˜aos passarem para o estado gasoso.

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Figura 2.2: Ilustra¸c˜ao esquem´atica de uma nuvem molecular com suas trˆes regi˜oes t´ıpicas.

(Le Petit, 2012)

importante como agentes externos (Hollenbach et al., 2009).

2.2 Detec¸c˜ao de Mol´eculas no Meio Interestelar

Mol´eculas apresentam linhas de emiss˜ao e absor¸c˜ao assim como os ´atomos, por´em o n´umero de linhas do espectro molecular ´e muito maior, j´a que elas podem estar excitadas tanto eletronicamente como tamb´em vibracional e rotacionalmente, na fase de g´as.

A mecˆanica quˆantica prevˆe que, assim como no caso das transi¸c˜oes eletrˆonicas, somente algumas transi¸c˜oes vibracionais e rotacionais s˜ao permitidas. As energias destes estados de vibra¸c˜ao e rota¸c˜ao podem ser entendidas, respectivamente, como modos de vibra¸c˜ao ao redor das posi¸c˜oes de equil´ıbrio dos ´atomos da estrutura molecular, uns em rela¸c˜ao aos outros e como rota¸c˜ao das mol´eculas como um todo ao redor dos eixos, a partir do centro de massa (Karplus e Porter, 1970).

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Tabela 2.1 - Comprimentos de onda de diversas emiss˜oes provenientes de transi¸c˜oes entre

diversos tipos de ´atomos, n´ucleos atˆomicos e mol´eculas. As denomina¸c˜oes FUV, NIR e FIR

s˜ao, respectivamente, ultravioleta distante, infravermelho pr´oximo e infravermelho distante.

(Karplus e Porter, 1970)

Comprimento de onda Origem Radia¸c˜ao

10−1103˚A Transi¸c˜oes eletrˆonicas internas de ´atomos e mol´eculas Raios-X e FUV

103104˚A Transi¸c˜oes eletrˆonicas externas UV (1034×103˚A)

de ´atomos e mol´eculas Vis´ıvel (4×103

7×103˚

A) NIR (>7×103˚A)

104106˚A Vibra¸c˜oes moleculares Infravermelho (IR)

1−102

µm Vibra¸c˜oes moleculares Infravermelho (IR) 102

105

µm Rota¸c˜oes moleculares FIR (102

103

µm) 0.1−102mm Rota¸c˜oes moleculares Microondas (103µm0.1mm)

10−30cm Rota¸c˜oes moleculares e ressonˆancia el´etron-spin Microondas 0.3−300m Ressonˆancia nuclear-magn´etica Ondas de r´adio

A presen¸ca de mol´eculas no meio interestelar ´e inferida por suas linhas de emiss˜ao ou absor¸c˜ao, pois essas s˜ao caracter´ısticas das liga¸c˜oes qu´ımicas entre seus ´atomos cons-tituintes. Mas para mol´eculas mais complexas a quantidade de linhas pode ser imensa, tornando dif´ıcil distinguir entre linhas de diferentes mol´eculas ou entre linhas de diferentes ´atomos. No caso de PAHs e de outras mol´eculas grandes, as linhas de diferentes liga¸c˜oes qu´ımicas podem at´e ser observadas, mas a estrutura espacial das liga¸c˜oes entre seus ´atomos constituintes n˜ao pode ser inferida diretamente do espectro observado. Isso dificulta a detec¸c˜ao de mol´eculas complexas, fato percebido na redu¸c˜ao da quantidade de mol´eculas detectadas com grande n´umero de ´atomos. (ver tabela A.1)

(51)

2.2.1 Rea¸c˜oes Moleculares na Fase Gasosa

Os processos de forma¸c˜ao e destrui¸c˜ao de mol´eculas no meio interestelar apresentam quatro diferen¸cas b´asicas com rela¸c˜ao aos processos conhecidos na atmosfera terrestre (Maciel, 2002): i) os principais processos que levam `a forma¸c˜ao e fixa¸c˜ao de uma po-pula¸c˜ao est´avel de mol´eculas interestelares s˜ao, basicamente, processos na fase gasosa, j´a que as esp´ecies atˆomicas e moleculares nas nuvens interestelares est˜ao essencialmente na fase gasosa, com exce¸c˜ao dos gr˜aos s´olidos; ii) ocorrˆencia de rea¸c˜oes envolvendo trˆes ou mais part´ıculas s˜ao praticamente impedidas devido `as baixas densidades das nuvens intereste-lares, mesmo as mais densas - da ordem de 104 por cm−3. Em compensa¸c˜ao, devido `a sua destrui¸c˜ao mais lenta e sua maior estabilidade nessas nuvens, radicais e mol´eculas muito reativos em laborat´orio, como OH eN2H+, podem ser estudados mais detalhadamente nas nuvens interestelares. Al´em disso, algumas esp´ecies somente foram identificadas no meio interestelar, como HC7N e HC9N; iii) a energia cin´etica dos ´atomos e das mol´eculas ´e baixa, pois as temperaturas das nuvens interestelares s˜ao muito baixas e somente rea¸c˜oes exot´ermicas tˆem, geralmente, importˆancia. Algumas rea¸c˜oes ocorrem quando processos dinˆamicos injetam no g´as uma energia superior `a energia t´ermica m´edia dos ´atomos nas nuvens. As nuvens tˆem movimentos aleat´orios com velocidade (≃ 10kms−1) superiores `a velocidade do som em nuvens interestelares t´ıpicas (≃1kms−1), de modo que a colis˜ao de duas nuvens pode produzir ondas de choque com energia suficiente para elevar sua tem-peratura localmente por um fator da ordem de cem; iv) no meio interestelar, as rea¸c˜oes de oxigˆenio s˜ao muito menos importantes nas nuvens interestelares do que nas condi¸c˜oes de laborat´orio, em que a alta reatividade do oxigˆenio tem um papel preponderante nos pro-cessos qu´ımicos, j´a que a abundˆancia de oxigˆenio ´e muito mais baixa que a do hidrogˆenio. Por exemplo a mol´ecula de CO, que em condi¸c˜oes terrestres transforma-se facilmente em

CO2, ´e a segunda mais abundante no meio interestelar. Isso se deve `a grande estabilidade

do CO nas nuvens interestelares e mesmo nas atmosferas das estrelas mais fria e, assim, ela ´e utilizada para determinar a abundˆancia da esp´ecie mais importante, oH2.

2.2.1.1 Rea¸c˜oes ´Ion-Mol´ecula

(52)

radia¸c˜ao UV ou pela propaga¸c˜ao de part´ıculas energ´eticas - os raios c´osmicos, e a carga el´etrica de um dos reagentes resulta em uma for¸ca de atra¸c˜ao, que favorece a rea¸c˜ao.

Exemplos dos principais processos s˜ao (Maciel, 2002):

C+hν →C++e− (2.1)

H2+r.c.→H2++e−+r.c. (2.2)

onder.c. significa raios c´osmicos.

Nas nuvens interestelares as rea¸c˜oes ´ıon-mol´eculas frequentemente envolvem oH2. Por exemplo, o ´ıon H2+ produzido pela rea¸c˜ao 2.2 pode desencadear as seguintes rea¸c˜oes em nuvens densas (Maciel, 2002):

H2++H2 →H3++H (2.3)

H3++O →OH++H2 (2.4)

OH++H2 →H2O++H (2.5)

H2O++H2 →H3O++H (2.6)

H3O++e− →H2O+H (2.7)

com a produ¸c˜ao deH2O na rea¸c˜ao de recombina¸c˜ao dissociativa 2.7. Essa rea¸c˜ao pode ser substitu´ıda pela forma¸c˜ao de OH, como por exemplo

H3O++e− →OH+H2 (2.8)

O mesmo resultado, isto ´e, a forma¸c˜ao deH2O e OH, pode resultar da rea¸c˜ao

O++H2 →OH++H (2.9)

(53)

A qu´ımica do carbono nas nuvens interestelares densas ´e tamb´em baseada nas rea¸c˜oes ´ıon-mol´ecula, em especial a forma¸c˜ao de CO. A partir do ´ıon H3+ formado em 2.3 e de

maneira semelhante `as rea¸c˜oes 2.4 a 2.6, temos (Maciel, 2002):

H3++C →CH++H2 (2.10)

CH++H2 →CH2++H (2.11)

CH2++H2 →CH3++H (2.12)

A forma¸c˜ao do CO ´e feita, ent˜ao, pelas rea¸c˜oes

CH3++O →HCO++H2 (2.13)

HCO++e−→CO+H (2.14)

Em nuvens difusas a penetra¸c˜ao da radia¸c˜ao produz ´ıons reativos como o C+, que se associa radiativamente com H2 (Maciel, 2002):

C++H2 →CH2++hν (2.15)

O produto (CH2+) pode sofrer rea¸c˜oes como 2.12 a 2.14 ou formar CH ou CH2 pelas rea¸c˜oes

CH3++e−→CH +H2 (2.16)

CH3++e−→CH2+H (2.17)

(54)

2.2.1.2 Rea¸c˜oes Neutro-Neutro

Embora menos eficientes que as rea¸c˜oes ´ıon-mol´ecula, as colis˜oes de ´atomos neutros, ou de um ´atomo com uma mol´ecula, podem levar `a forma¸c˜ao de uma nova mol´ecula. Neste caso, a intera¸c˜ao ´e mais fraca, podendo eventualmente haver uma barreira de energia que dificulta a rea¸c˜ao. Esta poder´a ocorrer se a part´ıcula incidente tiver energia suficiente ou puder atravessar a barreira de potencial por tunelamento. Alguns exemplos s˜ao:

O+OH →O2+H (2.18)

N +N O →N2+O (2.19)

No caso da primeira rea¸c˜ao, a barreira ´e desprez´ıvel, mas a segunda ´e lenta paraT ≃

10K e mais r´apida para T ≃300K, havendo uma barreira importante (Maciel, 2002). A mol´ecula deH2O pode ser produzida em nuvens interestelares a partir do O neutro - mais abundante que o ´ıon O+ envolvido na rea¸c˜ao 2.9 - pela rea¸c˜ao

O+H2 →H2O+hν (2.20)

Essa rea¸c˜ao ´e exot´ermica, mas possui uma barreira de energia de ativa¸c˜ao correspon-dente a cerca de 100K (Maciel, 2002). Essa temperatura pode ser alcan¸cada por meio de ondas de choque. Rea¸c˜oes endot´ermicas, como a rea¸c˜ao envolvendo C e H2 para produzir hidrocarbonetos ou N eH2produzindo amˆonia (N H3) podem tamb´em ocorrer pela mesma raz˜ao.

2.2.1.3 Associa¸c˜ao Radiativa

Rea¸c˜oes do tipo

A+B →AB+hν (2.21)

(55)

como 2.15 ou em

C++H→CH++hν (2.22)

2.2.1.4 Recombina¸c˜ao Radiativa

Em uma recombina¸c˜ao radiativa, um ´ıon recombina-se com um el´etron, havendo emiss˜ao de um f´oton. Por exemplo, al´em de 2.9, o ´ıon O+ pode ser destru´ıdo por

O++e−O+ (2.23)

2.2.1.5 Recombina¸c˜ao Dissociativa

Esta ´e uma rea¸c˜ao em que um ´ıon molecular recombina-se com um el´etron, com a forma¸c˜ao de dois produtos neutros, como em

OH+

2 +e−→OH +H (2.24)

OH3++e−→OH +H2 (2.25)

Geralmente, essas recombina¸c˜oes s˜ao mais r´apidas que as recombina¸c˜oes radiativas. Outros exemplos s˜ao as rea¸c˜oes 2.7, 2.16 e 2.17.

2.2.1.6 Rea¸c˜oes de Troca de Carga

Em nuvens difusas, a radia¸c˜ao n˜ao ´e suficientemente energ´etica para ionizar o O, mas o ´ıon O+ pode ser obtido por uma rea¸c˜ao de troca de carga do tipo

O+H+→O++H (2.26)

Os ´ıons H+ s˜ao produzidos pela ioniza¸c˜ao do H pelos r´aios c´osmicos. O ´ıon O+ pro-duzido pode, ent˜ao, ser usado para as rea¸c˜oes iniciadas com 2.9 at´e a forma¸c˜ao deH2O ou OH.

2.2.2 Destrui¸c˜ao de Mol´eculas

(56)

2.2.2.1 Fotodissocia¸c˜ao

Possivelmente o principal meio de destrui¸c˜ao das mol´eculas nas nuvens interestelares difusas ´e a fotodissocia¸c˜ao como, por exemplo, na rea¸c˜ao

OH+hν →O+H (2.27)

As mol´eculas em nuvens interestelares n˜ao protegidas pelos gr˜aos de poeira podem ser destru´ıdas pela radia¸c˜ao UV em escalas de tempo relativamente curtas, da ordem de algumas centenas de anos. As escalas de tempo para a fotodissocia¸c˜ao tornam-se aprecia-velmente mais longas `a medida que aumenta-se a extin¸c˜ao da nuvem interestelar, o que tende a bloquear os f´otons do campo de radia¸c˜ao.

2.2.2.2 Dissocia¸c˜ao Colisional

No interior de nuvens densas o processo dominante de dissocia¸c˜ao molecular ´e colisional, pois os f´otons UV n˜ao conseguem penetrar devido `a absor¸c˜ao pelos gr˜aos nas regi˜oes perif´ericas. De fato, a maior densidade nessas regi˜oes favorece a ocorrˆencia de rea¸c˜oes na fase gasosa, com a eventual dissocia¸c˜ao de esp´ecies moleculares. Al´em disso, processos dinˆamicos como ondas de choque podem favorecer a forma¸c˜ao de mol´eculas, fornecendo a energia necess´aria para superar a barreira de energia de ativa¸c˜ao. Entretanto, se o choque for suficientemente intenso, com velocidade de algumas dezenas dekm/s, as colis˜oes poder˜ao dissociar mol´eculas como oH2, produzindo ´atomos de H que, por sua vez, podem dissociar colisionalmente outras mol´eculas como NH ou N H3.

2.3 Cin´etica de Rea¸c˜ao

(57)

2.3.1 Taxas de Rea¸c˜ao

Considere uma rea¸c˜ao do tipo

A+B →M+X (2.28)

Chamando σ a se¸c˜ao de choque da rea¸c˜ao, pode-se definir a constante de rea¸c˜ao ou coeficiente de rea¸c˜aoκ pela rela¸c˜ao

κ=hσvi (2.29)

ondev´e a velocidade relativa dos reagentes. Admitindo, por exemplo, uma distribui¸c˜ao maxwelliana de velocidades para os ´atomos reagentes, a constante de rea¸c˜ao pode depender, portanto, da temperatura do g´as.

A taxa de rea¸c˜ao r mede a taxa de varia¸c˜ao dos reagentes e produtos envolvidos na rea¸c˜ao no decorrer do tempo. A taxa r ´e uma quantidade positiva e ´e, geralmente, pro-porcional `a constante de rea¸c˜ao e `as densidades dos reagentes, podendo ser escrita como

r =κnAnB (2.30)

onde nA e nB s˜ao as densidades num´ericas dos reagentes A e B. Se σ for medido em

cm2 ev em cm/s, a constante κser´a medida emcm3/se, medindo as densidades emcm−3, a taxa r tem unidades de cm−3s−1.

As constantes de rea¸c˜ao podem depender fortemente da temperatura, em particular quando h´a barreira de energia de ativa¸c˜ao. Essa dependˆencia, da constante de rea¸c˜ao κ

com a temperatura ´e frequentemente escrita utilizando-se a cl´assica equa¸c˜ao de Arrhenius,

κ(T) =Ae−Ea/κT (2.31)

onde A ´e o fator de Arrhenius eEa ´e a energia de ativa¸c˜ao. Desta rela¸c˜ao, temos:

lnκ= lnA− Ea

κT (2.32)

(58)

Tabela 2.2 -Valores m´edios para os principais tipos de rea¸c˜ao na fase gasosa. (Maciel, 2002)

Tipo de Rea¸c˜ao κ(cm3/s)

Rea¸c˜oes ´ıon-mol´ecula 10−9

Rea¸c˜oes neutro-neutro 10−11

Associa¸c˜ao radiativa - diatˆomica 10−17

Associa¸c˜ao radiativa - poliatˆomica 10−9

Recombina¸c˜ao radiativa 10−12

Recombina¸c˜ao dissociativa 10−6

Rea¸c˜oes de troca de carga 10−9

2.4 Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo

Figura 2.3: Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo (HHN) e circunvizinhan¸ca. (NASA, 2010)

(59)

para a forma¸c˜ao de linhas moleculares. Outrossim, ´e poss´ıvel ampliar os estudos sobre a regi˜ao, tendo como base os resultados obtidos por Goicoechea et al. (2009) e Gerin et al. (2009), considerando essa regi˜ao como arqu´etipo de nuvens moleculares. As caracter´ısticas f´ısicas mais importantes da HHN est˜ao sintetizadas na tabela 2.3.

Tabela 2.3 -Caracter´ısticas f´ısicas da Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo. (Gerin et al., 2009)

Nome Barnard 33 (Nebulosa Cabe¸ca de Cavalo - HHN) Localiza¸c˜ao AR: 50h40m54.27s; DEC:−02◦2800′′(2000)

Distˆancia da Terra ∼400pc

Estrela iluminadora σOrionis(O9.5V) Campo de radia¸c˜ao FUV 60 (unidades de Draine) Profundidade ao longo da linha de visada ∼0.1pc

Inclina¸c˜ao da linha de visada ≤6◦

Gradiente em forma de degrau: Perfil de densidade n∼r−3de105103cm−3no n´ucleo frio

n∼5−10×103

cm−3

na borda da (PDR) Temperatura cin´etica TK∼15Kno n´ucleo frio;TK∼100Kna borda (PDR)

Press˜ao t´ermica ∼4×106Kcm−3

σ Orionis´e na verdade um sistema qu´ıntuplo (Kaler, 2012), na borda de um pequeno aglomerado estelar, a 1150 anos-luz da Terra. O sistema de cinco estrelas ´e dominado por um par de estrelas: a mais luminosa do par tem tipo espectral O9.5V e, a menos luminosa do par tem tipo espectral B0.5V.

2.5

O C´odigo PDR Meudon

Modelos te´oricos sobre a estrutura das PDRs vˆem sendo feitos h´a cerca de 30 anos, evoluindo para complexos c´odigos computacionais e passando a considerar um n´umero crescente de efeitos f´ısicos, provendo resultados cada vez mais acurados (R¨ollig et al., 2007). O c´odigoPDR Meudon´e um desses modelos computacionais, podendo ser usado no estudo f´ısico e qu´ımico de nuvens difusas, PDRs, nuvens moleculares densas e regi˜oes circum-estelares.

(60)

publicamente (http://pdr.obspm.fr/PDRcode.html) e de ser um dos programas usados como recurso dos trabalhos a serem conduzidos com o observat´orio Herschel. Ele ´e des-crito em Le Petit et al. (2006), R¨ollig et al. (2007). Deve ser mencionado tamb´em um importante trabalho (R¨ollig et al., 2007) que compara os resultados de diversos c´odigos PDR, entre eles o c´odigo PDR Meudon.

2.5.1 Caracter´ısticas do C´odigo

O modelo considera uma nuvem unidimensional, com bordas paralelas e bem definidas (Figura 2.4), podendo ter extens˜ao finita ou semi-finita. O observador sempre se encontra no lado negativo. O modelo considera, ainda, uma geometria plano-paralela estacion´aria para o g´as e poeira, iluminado por um campo de radia¸c˜ao UV, caracterizado pela equa¸c˜ao 2.35 e ajustado por um fator χ, que representa a intensidade do campo de radia¸c˜ao FUV incidente em unidades do campo de radia¸c˜ao interestelar m´edio definido por Draine (1978), proveniente de um ou de ambos os lados da nuvem (as duas intensidades podem ser dife-rentes - χ+ para o lado positivo e χpara o lado negativo).

Uma estrela de dado tipo espectral tamb´em pode ser introduzida a uma distˆanciad(em parsecs) para criar um campo de radia¸c˜ao adicional. O c´odigo resolve a equa¸c˜ao de trans-ferˆencia radiativa (no UV) de uma forma iterativa, em cada ponto da nuvem, considerando tamb´em as absor¸c˜oes causadas por transi¸c˜oes de H eH2, al´em do cont´ınuo devido `a poeira. O modelo tamb´em calcula o equil´ıbrio t´ermico, tendo em vista processos de aquecimento (tais como o efeito fotoel´etrico), a qu´ımica, raios c´osmicos e outros parˆametros, al´em do resfriamento resultante da emiss˜ao no infravermelho e milim´etrico, abundante em ´ıons, ´atomos e/ou mol´eculas. A abundˆancia de cada esp´ecie ´e calculada em cada ponto. O es-tado de excita¸c˜ao de algumas esp´ecies importantes ´e ent˜ao calculado e, assim, o programa ´e capaz de calcular a densidade de coluna e emissividade/intensidade.

O campo de radia¸c˜ao padr˜ao ´e o campo de Draine (Draine, 1978), adotado no c´odigo como

I(λ) = 1 4π(

6.300×107

λ4 −

1.0237×1011

λ5 +

4.0812×1013

λ6 ) (2.33)

(61)

Figura 2.4: Ilustra¸c˜ao de algumas caracter´ısticas geom´etricas do c´odigo Meudon PDR em

uma nuvem. O Atot

V ´e o tamanho da nuvem, no caso χ

+ de uma nuvem finita. (Le Petit,

2012)

I(λ) = 1.38243×10−5λ−0.3 (2.34) ´

E comum medir a intensidade do campo de radia¸c˜ao usando o parˆametro G devido a Habing (1968), que ´e expresso, no modelo, pela equa¸c˜ao 2.35.

G= 1

5.6×10−14

Z 2400

912

u(λ)dλ (2.35)

O campo de radia¸c˜ao adicional devido `a estrela ´e oriundo da cria¸c˜ao de um espectro de corpo negro a partir da temperatura efetivaTef e do raio r∗ do tipo espectral da estrela.

As distˆancias na nuvem s˜ao medidas em extin¸c˜ao AV, dada pela equa¸c˜ao 2.36

AV = 2.5 log10(e)τ (2.36)

com AV dado em magnitudes eτ sendo a profundidade ´optica em determinado ponto

da nuvem (Rybicki e Lightman, 1979).

A rela¸c˜ao entre a profundidade ´optica e uma distˆancia real l, entre l eAV, ´e dada pela

equa¸c˜ao 2.37 (Karplus e Porter, 1970).

l = 2.5 log10(e)

CD

RV

Z τmax

0

dtτ nH(τV)

(2.37) onde, CD = ENBHV, sendo NH[cm−2] =N(H) + 2N(H2) a densidade de coluna total do hidrogˆenio n˜ao ionizado,EB−V o excesso de cor, RV = EABVV, e nH(τV)[cm−3] =n(H+) +

n(H) + 2n(H2) a densidade total de n´ucleos de hidrogˆenio a uma profundidade ´optica vis´ıvelτV. O limite superior de integra¸c˜aoτmax ´e a profundidade ´optica m´axima da nuvem.

Valores gal´acticos t´ıpicos para estes parˆametros s˜ao de estados estacion´ariosCD = 5.8×1021

cm−2mag−1 e R

(62)

Uma das grandes restri¸c˜oes do modelo ´e a aproxima¸c˜ao de estado estacion´ario, de modo que os resultados n˜ao podem ser comparados diretamente `as observa¸c˜oes de regi˜oes com evolu¸c˜ao r´apida. No entanto, o tempo em escalas de fotoprocessos ´e modesto comparado ao de extin¸c˜ao e/ou alta radia¸c˜ao de campos. O per´ıodo de tempo dado pela fotodissocia¸c˜ao do H2 ´e tipicamente 1000/χ anos na beira de uma nuvem (com radia¸c˜ao UV). O estado estacion´ario ´e ent˜ao uma aproxima¸c˜ao satisfat´oria (Le Petit et al., 2006).

Podem-se definir os parˆametros que descrevem o sistema e que podem ser ajustado como melhor conv´em. A primeira hip´otese ´e de que cada c´elula de g´as ´e pequena o suficiente para que todas as quantidades f´ısicas possam ser constantes, mas suficientemente grande para a m´edia estat´ıstica ser significante. Podemos, assim, falar da quantidade “temperatura cin´etica” (TK) como uma fun¸c˜ao da posi¸c˜ao. Esta ´unica hip´otese exclui alguns problemas

interessantes, como a presen¸ca de choques. As duas quantidades f´ısicas mais importantes consideradas s˜ao densidade e temperatura. Para a temperatura vari´avel, as equa¸c˜oes s˜ao resolvidas para equil´ıbrio t´ermico, e a densidade em si torna-se uma vari´avel se algum tipo de equa¸c˜ao de estado for utilizada. Os casos mais usuais a serem resolvidos s˜ao aqueles de equil´ıbrio t´ermico com densidade ou press˜ao constantes.

Outra restri¸c˜ao ´e o grupo de propriedades ou constantes que tˆem valores bem definidos, mas incertezas a cerca desses valores podem existir, em alguns casos por serem determi-nadas experimentalmente, al´em de poderem variar conforme a fonte na literatura.

2.5.1.1 Rea¸c˜oes Qu´ımicas

Os resultados do modelo s˜ao altamente dependentes da qu´ımica e da micro-f´ısica (as constantes ou propriedades) existentes nas PDRs. Neste caso, o modelo s´o tem uso se a descri¸c˜ao da micro-f´ısica em que ele se sustenta for acurada. Assim, os processos f´ısicos e qu´ımicos medidos em laborat´orio e observa¸c˜oes precisas s˜ao requisitos fundamentais na constru¸c˜ao dos modelos.

No caso das rea¸c˜oes qu´ımicas, s˜ao diversos os parˆametros necess´arios para que estas tenham precis˜ao suficiente para estimar a realidade nas PDRs. Estes parˆametros s˜ao estabelecidos atrav´es, principalmente, de modelos quˆanticos que calculam as taxas das rea¸c˜oes baseados na densidade dos reagentes e produtos formados na regi˜ao.

Imagem

Tabela 1.1 - Os dez elementos mais abundantes no Universo, na Terra e nos organismos vivos [´atomos de elementos por 100.000 ´ atomos no total] (Gilmour e Sephton, 2004)
Figura 1.2: Carboidratos formados por cadeias de carbono – transforma¸c˜ao de energia para organismos vivos
Tabela 2.2 - Valores m´edios para os principais tipos de rea¸c˜ ao na fase gasosa. (Maciel, 2002)
Figura 3.1: Varia¸c˜ ao dos parˆ ametros densidade do g´ as, temperatura e press˜ao para o modelo com densidade do g´ as constante.
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