A VOLTA DO CANIBAL CEARÁ
Parte 01 – Reminiscências ... 03
Parte 02 – Descobertas... 06
Parte 03 – Encontro... 09
Parte 04 – Mortes... 13
Parte 05 – Vingança e Traição... 18
Parte 06 – Tortura e Exílio... 25
Parte 07 – Caçada e Tirania... 39
Parte 08 – Queda e Vitória... 54
Epílogo – Paz, Ameaças e uma Ressurreição... 69
Pós-Epílogo – Passagem de Bastão... 75
Parte 01 – Reminiscências
Alguns sábios dizem que o tempo voa feito uma andorinha. Certamente concordo em gênero, número e grau.
Já faz tempo desde que capturei aquele assassino miserável.
Pra ser mais exato em 1993.
Lembro que era uma noite gelada de agosto e estava de plantão na delegacia quando recebi um telefonema anônimo dizendo que o perigoso Canibal Ceará estava escondido em uma casa na Vidal de Negreiros, lá no Fragata.
Então, junto com o meu amigo José Davi e alguns dos rapazes, fomos ao esconderijo deste marginal e o cercamos, exigindo sua rendição.
O desgraçado reagiu atirando em nossa direção, todavia sua resistência foi inútil contra meu pessoal bem treinado e imediatamente o colocamos no camburão.
Revistamos a casa dele de cima a baixo e nos horrorizamos com o que vimos lá dentro.
Tinha tudo de assustador que possa imaginar. Encontramos ali algumas cabeças dentro do freezer, outras intactas em formol e que estavam dentro de recipientes de vidro, no armário perto da geladeira havia crânios pintados de cinza para parecerem de plástico, no fogão havia um fígado humano a milanesa e por fim, alguns pênis e vaginas em mais recipientes de vidro.
E para meu espanto, um dos policiais encontrou diversos barris no porão da casa onde neles havia o pouco que sobrou das vítimas sendo que a carne foi derretida com ácido e, por fim, um baú com roupas e pertences delas.
Os vizinhos disseram que Ceará se masturbava diante de seus “troféus” com o objetivo de melhorar sua potência sexual. Quanta tolice.
Tudo o que fez foi matar meninos e meninas inocentes nesses três anos em que agiu impunemente. Foram ao todo 16 vítimas nesse período: 8 rapazes e 8 garotas.
Com certeza, Jeffrey Dahmer, o “canibal de Milwaukee” teria inveja desse cara.
Foi julgado no ano seguinte e pra meu desgosto foi condenado somente a cinco anos de prisão graças a sua incrível habilidade de manipulação. Todo o júri se comoveu com as falsas histórias daquele crápula. Eu não senti pena alguma dele, mas estava sozinho nessa parada.
Revoltei-me com tudo e saí da polícia descontente com a corrupção e o engessamento que estávamos nos submetendo, não sem antes ajudar a supervisionar no processo de seleção pra ver quem ficaria no meu lugar.
Pra minha satisfação foi escolhido um cara tão honesto e incorruptível quanto eu.
O meu grande amigo Marcelo.
Ele me visitou para pedir algumas informações sobre o Ceará e prontamente mostrei o dossiê que fiz dos casos através dos recortes de jornais e das informações do arquivo pessoal do Márcio. Ficou estarrecido com o que viu.
- Putz, o cara fotografou cada passo dos crimes que fazia!!! É um psicopata, um animal!!!
- Nem animais fazem isso, Marcelo. Torço pra que o desgraçado encontre a morte naquela cadeia. Espero que o material te ajude nesse caso. Não poderei ajudar muito, pois saí daquela merda.
- Vá curtir um descanso, cara. Sugiro que conheças as praias nordestinas. Dizem que Porto de Galinhas é o melhor lugar pra descansar.
- Vou me lembrar disso, Marcelo. Com certeza.
Mas estive errado. Sempre dizem nos filmes e nas séries de TV que o mal nunca é derrotado totalmente e isso se confirmou. O Ceará ficou preso por dois anos e acabou solto por bom comportamento. Isso é o que dá ter leis brandas nesse país. Só protegem o meliante e prejudicam as pessoas que trabalham honestamente na maioria das vezes.
Saiu da cidade e sumiu por uns tempos.
Ah, desculpem minha descortesia em não me apresentar. Meu nome é Mário Vianna e as pessoas me chamam de “Elliot Ness de Pelotas” devido a minha reputação de implacável com os criminosos.
Bandido não tinha vez comigo e fui processado várias vezes por surrá-los sem piedade. Pra mim, marginal bom é marginal morto.
Porém, nunca esqueci aquele olhar de predador e aquele sorriso de satisfação do filho da mãe que me chamava de Nêmesis.
Perto dele, Alex DeLarge, personagem do filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, é o cara mais puro da Terra.
Era um dia calmo e quente. Andei sozinho pelo calçadão do Laranjal como sempre faço todas as tardes até a padaria do shopping tomar café e comer um pastel de carne lendo o jornal que tinha comprado na banca ao lado.
Fiquei sem ação quando li a matéria sobre um rico empresário pelotense que se preparava para voltar a sua terra natal após muitos anos no exterior. A matéria reportava ainda que este poderoso empresário tem a intenção de ajudar o futuro prefeito nos projetos de crescimento da cidade em todos os segmentos através de sua enorme fortuna amealhada com muito trabalho.
Tudo porque o cara da foto era ele. O filho da puta tinha retornado a Pelotas para continuar matando pessoas inocentes.
E para não provocar nenhuma suspeita, abandonou seu apelido e se apresentaria ao povo pelotense com seu verdadeiro nome, Luiz Otávio.
Um belo plano, sem dúvida.
Mas havia muitas perguntas sem resposta. Como conseguiu amealhar tanta fortuna? O que fez todo esse tempo e por onde andou? Qual o objetivo dele em Pelotas além de matar e canibalizar?
Mistérios e mais mistérios. Resolvi então investigar tudo por conta própria.
Parte 02 – Descobertas
Nos dias de hoje, a Internet tornou-se uma ferramenta indispensável que parece resolver todo e qualquer problema ou quase isso.
No meu tempo de policial, digitar uma palavra e ter milhares de caminhos a escolher era uma utopia. Precisava de autorizações diversas dos superiores até mesmo para pesquisar sobre determinado bandido e hoje tudo está ao alcance de apenas um clique.
Meu caso, no entanto, estava mais nebuloso quanto o fog londrino. Mas pelo pouco de informações dos arquivos de notícias das agências internacionais que consegui na Internet, deu pra entender que o bastardo escolheu bem as suas vítimas para tornar-se uma pessoa rica e poderosa.
No arquivo de notícias da Reuter descobri que em 2000 houve um assassinato misterioso em Monte Carlo da filha de um conde muito ligado aos Grimaldi que foi encontrada derretida em ácido. Fala ainda que na autópsia dos restos mortais, os legistas encontraram marcas de pancada na cabeça e ferimentos a lâmina na coluna, provando que o corpo foi aberto ao meio.
E no arquivo de notícias da CNN encontrei outra ocorrência de assassinato ocorrido em 2001 na cidade de Dallas envolvendo a filha de um magnata do petróleo. Diz o artigo que até hoje essa morte está envolta em muitos mistérios e o namorado dela sumiu misteriosamente após o crime reaparecendo no enterro para consolar os pais da vítima.
“É muita cara de pau desse desgraçado aparecer no enterro. Sem dúvida matou as duas para apoderar-se do dinheiro como único herdeiro. Só pode ser isso!!” pensei.
E foi o mesmo modus operandi do outro assassinato. Pancada na cabeça e o corpo aberto ao meio.
Graças a sua incrível habilidade de manipulação e mentiras, fez com que os pais das duas garotas excluíssem todos seus parentes do testamento nomeando-o como o principal herdeiro e logo assumiu os negócios dessas duas famílias.
“Nada mau, filho da puta, nada mau seu plano. Agora começo a entender mais ou menos seu objetivo.” pensei.
Minha cabeça estava doendo muito e meus olhos estavam esbugalhados pelas horas excessivas na Internet e tentei então dormir um pouco.
Mas logo meu celular tocou. Era Marcelo que falou para ligar a televisão bem na hora que o jornal estava fazendo a cobertura da chegada do empresário pelotense que prometia revolucionar a cidade através de seus dinâmicos projetos.
- Olha isso, Mário!!! O cara mais parece um pop-star!!
- Parece mesmo. Ô Marcelo, não deverias comandar o esquema de segurança da chegada dele?
- Deveria sim. Mas fui dispensado do serviço por um motivo muito especial.
Minha esposa está grávida.
- Meus parabéns, Pai do Ano!!! Quem está comandando a segurança?
- O Sandro.
- Ah, seu parceiro na polícia?
- Ele mesmo. Tenho que desligar porque a Mariana precisa de mim.
- Até mais.
Então resolvi acatar a recomendação de Marcelo e liguei a TV para acompanhar a reportagem de meu antigo inimigo. Estava bem vestido com um terno preto de risca-de- giz no melhor estilo Al Capone e mentia desbragadamente como nos velhos tempos.
Quando acabou a reportagem, desliguei a TV e continuei pesquisando na Internet em busca de mais informações sobre ele e descobri quase que por acaso as profissões dele naqueles dois assassinatos em outras redes de notícias.
Ele foi crupiê do Cassino de Monte Carlo conhecendo a primeira vítima em uma dessas jogatinas noturnas e com relação a segunda vítima, acabei descobrindo que o crápula trabalhou nas empresas de petróleo do pai dela galgando posições de destaque na empresa (ou seria matando seus concorrentes um a um) até ser íntimo da família dele.
Tudo agora começa a fazer sentido, porém ainda não consegui saber qual o verdadeiro objetivo dele em Pelotas além de se vingar de mim.
Tentei dormir de novo, mas fui acordado quase aos safanões pelo Márcio, meu irmão mais novo.
- Mário!!! Levanta logo, bicho-preguiça!!
- Porra, Márcio, vai procurar tua turma!! Estou tentando dormir!!! Fiquei muito tempo no computador tentando procurar informações sobre aquele safado!!
- Mas tenho um bom motivo pra te acordar. O empresário que apareceu na TV está vindo pra cá e quer te conhecer.
- Fala sério, Márcio!!! O que um empresário rico e poderoso quer comigo?
- Ora essa!!! Vai ver que é um dos teus fãs, mano. Afinal colocasse muitos bandidos atrás das grades, é natural que queira conhecer o famoso “Elliot Ness de Pelotas”.
- Seu vício por cinema está me embaraçando. Mas até que esse apelido ficou bom em mim, Márcio.
Mas por trás dessa calma aparente, posso sentir meu sangue ferver tanto quanto uma chaleira de água.
As coisas estão começando a ficar interessantes e também perigosas. Enfim irei encontrar o safado cara a cara.
Que vontade tenho de acabar com a raça dele, mas agora preciso analisá-lo mais e entrar no jogo dele usando meus dotes artísticos.
Venha, miserável, estou te esperando com meu falso sorriso.
Parte 03 - Encontro
Lá estava eu na casa da minha mãe a espera daquele miserável. Antes de relatar esse encontro, irei dizer a vocês algumas coisas importantes.
Estou temporariamente na casa de minha mãe desde que a minha foi destruída num incêndio há três anos por uns vagabundos sedentos por vingança. Perdi algumas coisas valorosas, mas o mais importante eu não perdi que é minha vida.
Estou procurando uma casa próxima pra ficar mais perto da minha mãezinha e do Márcio, que, aliás, é o meu segundo motivo deste relato.
É um cara legal e é de uma importância muito grande tanto na minha vida quanto no meu trabalho. De início, queria seguir a linhagem da família e ser policial, porém se decepcionou ao saber que a polícia não era o lugar dele.
Então resolveu estudar e ler tudo o que caía na frente dele formando-se com louvor em História pela Universidade Federal de Pelotas. Além da enorme biblioteca que tinha em seu quarto com diversos livros de literatura e de história, havia ainda quatro prateleiras cheias de filmes de todos os tipos que tu imaginas. Atualmente é escritor e crítico de cinema nas horas vagas pra desespero da minha mãe que acha que ele está perdendo tempo fazendo isso. O que mais me impressiona é sua incrível memória fotográfica sendo capaz de citar trechos de livros e dissertar sobre qualquer coisa até mesmo os crimes e a arma em que o assassino usou para fazê-los.
Só havia um único defeito nele que é desconfiar de todo mundo e cismar dos meus amigos. Talvez um pouco de ciúme, eu acho.
Mesmo assim, tenho grande alegria de ter um irmão como ele.
Foi ele também que me deu o apelido do “Elliot Ness” e espalhou minha fama por toda a cidade através dos artigos que escreve para os jornais e registrou todos os meus feitos em um caderno com uma capa vermelha que está bem guardado em seu quarto.
Depois desses relatos, voltamos agora ao encontro que tive com o calhorda na casa de minha mãe.
Lógico que ficou fascinada por ele, mas encantou-se mais ainda pelo cozinheiro que o Ceará, ou melhor, o Luiz Otávio trouxe com ele, o Jean-Pierre. Logo trocaram receitas e se tornaram amigos. Só queria saber como se comunicavam tão bem.
Vai ver que ela teve aulas de francês com o Márcio e que aprendeu muito bem essa língua. Pena que não tenho tempo pra essas coisas, já que tenho que caçar criminosos por essa cidade.
Então, o almoço foi servido e o que tinha ali era uma delícia. Tinha arroz, feijão, carne com batata, galinha assada, salada de alface e de batata com maionese e um tal de Coq au Vin, que o Márcio me disse que era um galo cozido em vinho tinto e é uma das comidas mais populares da França.
Pra beber, tinha suco, refrigerantes e vinho tinto borgonhês que o safado trouxe, diz ele, de Monte Carlo.
E sem falar das sobremesas que foram feitas pelo cozinheiro francês que foi mousse de chocolate e crepes e o pudim de calda da minha mãe que é uma delícia, mas essas comidas novas aí não fazem feio.
E a conversa na mesa foi bem animadora.
- Nossa, a comida ta deliciosa mesmo, hein mãe? – disse eu.
- Obrigado pelo elogio, Mário. Mas o Jean-Pierre me ajudou muito no preparo e deu algumas dicas.
- Le Repas est Délicieux, Jean-Pierre. - disse o Márcio - Merci Beaucoup, Mon Ami.
- Me diz uma coisa, Luiz Otávio, o que ocorreu de fato naquele crime lá em Mônaco uns 11 anos atrás e se tu sabes alguma coisa? – disse o Márcio.
- Não me lembre disso, por favor!!! Pobre Sophie, era tão linda e foi morta tão cruelmente por aquele canalha do Ceará!!! Fui ao enterro dela e presenciei o desespero do seu pai e por solidariedade, o consolei. Mas teve o problema do testamento.
- Sim, de acordo com a lei, os pais podem ficar com o testamento se não houver mais descendentes. É o chamado testamento legítimo.
- O problema é que os parentes queriam brigar pela herança da Sophie, mas ela queria passar pra mim o dinheiro. Isso é válido?
- Bem, tecnicamente é valido sim, mas de qualquer maneira tu receberias essa herança por meação, já que era o cônjuge da vítima.
“Faz sentido”- pensei eu.
- E exatamente assim foi feito.
- Interessante sua história, Luiz Otávio, e me diz uma coisa, foi aí que conheceu o Jean-Pierre?
- Exatamente. Ele trabalhava para Sophie e passou depois a trabalhar para mim com muita lealdade.
Aí, ele olhou diretamente pra mim e eu estava comendo minha comida em silêncio.
- Por que está tão quieto, Nem... Quero dizer, Mário Vianna?
- Estou apenas apreciando as sobremesas maravilhosas do teu cozinheiro. Mas eu tenho uma pergunta. Quais são os seus objetivos aqui em Pelotas?
- Bem, ouvi dizer que o atual prefeito está com projetos inovadores pra cidade e decidi ajudá-lo doando algum dinheiro e máquinas para contribuir no desenvolvimento de Pelotas para que a cidade torne-se próspera e também quero auxiliar o futuro prefeito em seu projeto de governo.
- Pelo que sei, a Revitalização do Mercado Público é um destes projetos inovadores – disse eu.
- É verdade. E o outro objetivo aqui é abrir novos negócios empresariais.
- Bom. Espero que tenhas sucesso nessa empreitada.
- E você também, Mário Vianna. Torço para que acabe com a criminalidade nesta cidade.
- A minha batalha é difícil até por que saí da polícia há muito tempo e os meliantes estão com armas cada vez mais sofisticadas hoje em dia. Mas são ossos do ofício.
O almoço acabou e logo o canalha se despediu de nós pedindo que retribuíssemos a visita algum dia. Fiquei sabendo que tinha comprado uma casa no Laranjal e outra mais antiga no Centro com porão.
Apenas ouvi as mentiras desbragadas de sempre e também algumas coisas interessantes como o episódio da herança e que o nome da vítima monegasca do crápula é Sophie.
Fui ao quarto do Márcio e conversamos um pouco.
- Como foi minha atuação, Márcio?
- Acho que tu merecias um Oscar, mano, mas seria páreo duro com ele.
- Viu a falsa emoção dele? Sem dúvida é um psicopata maldito.
- Maldito sim, mas não um psicopata completo.
- Como assim?
- Tu não percebeste, mas eu vi quando começou a olhar demais pra você, parece que queria te analisar por inteiro não demonstrando o ódio.
- Qual é a tua, Márcio!! Tá me estranhando, é?
- Ô mente poluída!!! Ele estava agindo como um verdadeiro estrategista.
Esperando o momento certo para atacá-lo.
- Isso não vai acontecer. Vou contatar o Marcelo para me ajudar a vigiar esse filho da mãe e aguardar o momento de prendê-lo.
- Olha, mano, não confio nesse cara. Acho que vai te trair pelas costas.
- Deixa de bobagem, Márcio. Ele é meu amigo de longa data e é tão incorruptível como eu.
- Sabe qual é seu problema? Tu és ingênuo demais e facilmente cai na conversa dos outros. Só peço que redobre então sua vigilância se tu confias tanto nele.
- Vou me lembrar disso, mano. Mas a minha preocupação é quando o canalha vai começar a matar as pessoas?
- Isso não sei. Mas acho que tu tens que te precaver. E em dobro.
- Concordo plenamente, Márcio.
As coisas estavam ficando mais quentes. Agora é vigiar o crápula e esperar o momento certo para pegá-lo.
Parte 04 - Mortes
Depois do encontro que tive com o calhorda na casa da minha mãe e com a conversa que tive com o Márcio, resolvi descansar um pouco. Mas posso dizer que estava tão confuso quanto o Oriente Médio e mais perdido do que cachorro em dia de mudança em relação a esse caso.
Antes de relatar sobre os assassinatos desse desgraçado, gostaria de contar como me tornei policial.
Quando era criança, admirava-me com as histórias de meu pai que foi um dos melhores policiais que a cidade já teve. Combatia ladrões de carro, assassinos, estupradores, abigeatários, traficantes e estelionatários com justiça e energia os botando atrás das grades ou, em alguns casos, matando-os.
Era natural que eu quisesse seguir a linhagem da família e assim me tornei policial aprovando-me em concurso teórico e nos testes físicos com louvor e me destacando em diversas capturas e lutas durante toda a minha vida sendo inclusive promovido a sargento dois anos depois da minha aprovação.
Superei ainda a tristeza de perder meu pai. O Márcio tinha apenas cinco anos quando isso aconteceu. Ele estava em patrulha noturna e encontrou dois bandidos que tinham assaltado uma senhora no Mercado Público e estavam em fuga desabalada.
Um tiroteio começou e meu pai acabou atingido no peito, morrendo no local não sem antes despachar os dois vagabundos pro quinto dos infernos.
Confesso que foi um dos golpes mais duros que recebi na vida, mas mesmo assim tenho orgulho do que fez e com certeza, onde estiver, deve estar orgulhoso de mim e do Márcio pelos caminhos honrados que escolhemos.
Depois desse relato emocionado sobre meu pai, voltamos agora aos assassinatos.
No dia seguinte, fiquei sabendo pelo Márcio, que estava lendo o jornal, que um corpo havia sido encontrado num descampado perto da BR-116 e logo parti pra lá pra averiguar como isso aconteceu.
Chegando lá, vi Marcelo e Sandro fazendo os procedimentos de identificação da vítima.
O que vi foi de assustar. Só tinha sobrado pouca coisa da vítima, mas nem precisei bancar a Bones pra concluir que tinha levado uma pancada na cabeça e havia marcas de lâmina nas costelas sinalizando de que foi cortado ao meio.
Sem falar que havia ainda sinais de derretimento por ácido no corpo da pobre vítima.
Algum tempo depois, Sandro encontrou uma bolsa de couro perto das ossadas da vítima e dentro havia 100 reais e algumas camisinhas. Não entendi o porquê dele ter jogado a bolsa raivosamente no chão.
- Marcelo, por que o Sandro está agindo tão furiosamente?
- É por que ele odeia prostitutas e tem verdadeira ojeriza a elas desde que foi roubado por uma delas no Mercado Público.
- Vai ver que escolheu a mulher errada pra transar e babaca como é, deixou que roubasse seus pertences.
- Pode ser verdade, ah, ah, ah!!
Logo Sandro se enfureceu e gritou rispidamente com o Marcelo.
- Parem os dois com essa conversa mole e vem me ajudar, porra!!! Bom, pelo menos o assassino fez um baita favor pra sociedade em eliminar uma vagabunda que desencaminhava os bons homens.
- Pára com esse preconceito, Sandro!!! Ela pode ter tido filhos e usava o corpo para dar comida as crianças.
- Deixa de ser idiota, Marcelo!!! Essa aí não tem família e só roubava dinheiro dos trouxas que queriam fazer sexo pela primeira vez.
- Como tu? – disse eu.
Aí o caldo entornou. O Sandro quis me bater, mas o Marcelo colocou panos quentes em tudo.
- Pode até ser verdade, Sandro. Mas ela está morta e o assassino precisa ser detido.
- Concordo – intervi eu – E acho que o grande suspeito dessa história é o Ceará, ou se preferir, o Luiz Otávio.
- O empresário? – disse Sandro – Tu achas que sou palhaço, é? Agora entendi o porquê de ter saído da polícia. Também, com essas historinhas de Ceará e de canibal!!!
Quer saber, vai pra casa e deixa pros policiais de verdade resolverem.
Que vontade eu tive de dar um soco nas fuças dele e mostrar quem era policial de verdade, mas resolvi responder a sua provocação á altura.
- Eu já era policial de verdade antes mesmo de tu sair das fraldas, moleque. Se quiser ser um, terá que prender muito vagabundo e beber bastante leite. No seu caso, regado a pêra e Ovomaltine!!
Sandro se enfureceu mais ainda, mas me deixou de lado pra continuar os procedimentos de investigação. Já o Marcelo quase morreu de rir da minha provocação.
- Continua com o mesmo sarcasmo de sempre, Mário. O Sandro é um bom policial, mas ele é teimoso como uma mula. Não sei mais o que faço.
- Não se preocupe. Basta um vagabundo bem armado pra acabar com a teimosia dele. Antes de ir embora, me diga uma coisa. Onde essas prostitutas se reúnem pra fazer ponto?
- Na Praça Coronel Pedro Osório e elas fazem o “serviço” no Motel Viva Vida, por que a pergunta?
- Por que é pra lá que eu vou. Boa sorte com as investigações e qualquer coisa nova me contate, meu amigo.
- Tudo bem.
Não pensei duas vezes e fui a Praça Coronel Pedro Osório na esperança de conseguir alguma informação sobre essa prostituta, mas tendo quase certeza que foi o miserável do Ceará que fez isso.
Estava indo embora quando surgiu uma moça a minha frente. Usava uma jaqueta preta, blusa, saia dessas de jeans e botas igualmente pretas. Notei que era uma prostituta pelo andar rebolativo.
- Olá, você não é da polícia, né?
- Não. Mas estou em um caso de investigação. Sabia que uma de suas amigas foi encontrada morta num descampado?
- Não me diga.
- Sabes alguma coisa sobre isso?
- Sim. Mas só vou te contar se tu namorar comigo. Vamos namorar?
- Quanto é o namoro?
- 20 reais. E me espera lá dentro, tá?
Que remédio. Lá fui eu pro hotel “namorar” um pouco e posso dizer que era muito boa em seu ofício.
Quando tudo acabou, pedi a ela que começasse a falar.
- Olha, veio aqui ontem um cara bem vestido e parecia um daqueles empresários bonitões. Foi a Joana quem o atendeu e ficou encantada com o cara, que dizia que a faria feliz e depois de um namoro rápido, ela disse pra mim que iria lá na casa dele e depois nunca mais a vi.
- Já é o bastante. Muito obrigado.
- Se tu quiseres namorar outra vez, estarei esperando.
Sorri e logo voltei pra casa com a certeza de que era ele que matou a tal Joana.
Chegando lá, o Márcio já tava me esperando na porta da frente para conversarmos um pouco.
- E aí, mano, como foi seu dia?
- Tive bons avanços na investigação, mas digamos que paguei um preço na forma de transa com uma prostituta.
- O quê? Tu transaste com uma prostituta? Mário, tu estas pensando demais com a cabeça de baixo.
- Bem, Márcio. Não é tu que fala que os fins justificam os meios? Pois foi exatamente o que fiz.
- Não fui eu que falei, mano, foi Nicolau Maquiavel quem disse isso. Mas não precisava levar isso ao pé da letra, não é!!
- Isso não importa agora. O resultado é que consegui uma boa pista sobre o calhorda.
- Tens certeza disso?
- Tenho. A mulher me falou que viu saindo no motel um homem vestido de empresário junto com a prostituta assassinada e acho que era ele.
- Mano, já ouviste falar de John Wayne Gacy?
- Não é hora de piadas, Márcio. Nunca ouvi falar dele.
- Estou falando sério, Mário!!! Esse cara foi um dos maiores assassinos dos Estados Unidos e tinha um procedimento de matar que era parecido com o que tu disseste sobre o Ceará. Ele amordaçava as vítimas com uma cueca e as matava vestido de Pogo, o palhaço que animava festas de crianças e ainda se postava de bom moço chegando a se fotografar com a então primeira-dama Rosalyn Carter em um evento de caridade.
- Hummm!!! Isso faz sentido com minha pista. Mas preciso averiguar melhor pra poder confirmar o que estás me dizendo.
- Vais ter sua chance, mano. Amanhã iremos visitá-lo na casa dele lá no Laranjal para almoçar, retribuindo a visita que ele nos fez.
- Claro que iremos vê-lo. Com certeza a mãe vai querer ver o Jean Pierre de novo.
- E trocar mais receitas, sem dúvida.
Despedi-me do Márcio e fui dormir.
Enquanto isso, no Laranjal, Sandro saiu para passear com sua namorada Cristiana e viu um jovem andando feito zumbi. Estava nu e grogue. Desesperado, agarrou a mão de Sandro pedindo ajuda.
- So-Socorro, me-me tira daqui!!
- Me larga, seu cachaceiro desavergonhado, vou te botar na cadeia por atentado ao pudor.
- N-Não me leve de-de volta.
Estava levando-o pro carro quando o calhorda apareceu na frente dele, agradecendo-o por ter achado seu amante e levou o guri de volta pra casa.
- Amante!! Puxa, não sabia que o Luiz Otávio era bissexual.
- Cada um faz o que quer, amor. Agora vamos que a noite está maravilhosa.
Já o garoto não teve a mesma sorte. Tentou fugir, mas levou uma pancada na cabeça e morreu. Depois disso, o Ceará abriu seu tronco com um machado, desmembrou os braços e as pernas com uma katana e separou a cabeça e o pênis para guardar em dois formóis.
Aproveitou toda carne disponível entregando-a a Jean-Pierre e por fim guardou os restos em um barril pra derreter em ácido e desovar no mesmo descampado da primeira vítima.
Mandou Leopoldo fotografar tudo para guardar de lembrança desse assassinato e pediu a Jean-Pierre para fazer fígado a milanesa.
E o canalha saboreava aquilo como se fosse uma grande refeição chegando ao cúmulo de colocar molho na comida e beber vinho tinto.
- Ah, Leopoldo!!! A carne está uma delícia. Agora esses dois estão dentro de mim para sempre.
- Que bom, patrão. Só quero lembrá-lo que amanhã terás um almoço com os irmãos Vianna aqui em casa e depois se encontrará com o prefeito a tarde.
- Então a agenda estará cheia amanhã, Leopoldo. Agora saia. Preciso ficar sozinho.
Ele então abriu a sua sala de “troféus”, tirou a calça e se masturbou na frente da vagina e do pênis que tinha arrancado com um prazer doentio e nojento.
Se isso continuar será difícil pará-lo. Mas eu tinha que atacá-lo logo antes que ele fizesse mais vítimas inocentes.
Parte 05 – Vingança e Traição
Pelotas amanheceu ensolarada mais uma vez e eu saí da cama para mais um dia de problemas e de fortes emoções.
Olhei calmamente o convite do calhorda para o almoço na casa dele e pensei que talvez conseguisse mais alguma informação a respeito da morte daquela prostituta. Estava mergulhado nesses pensamentos quando meu celular tocou. Era Marcelo que me deu a notícia que encontraram a segunda vítima e identificaram-no como um jovem estudante de 18 anos. Mas isso não foi tudo. O pior é saber que essa morte poderia ter sido evitada se o Sandro não fizesse a besteira de entregá-lo ao filho da puta.
Aquilo me deixou tão furioso que só faltou rasgar minha camisa e se transformar no Incrível Hulk. É nessas horas que eu queria ser o Gigante Verde só pra arremessá-lo á distância e enfiar a cara dele em uma parede.
- Aquele imbecil o matou, Marcelo!! Nem se deu o trabalho de ver o estado desesperado do guri e o entregou ao miserável.
- O Sandro me falou que encontrou o garoto nu e grogue e o ameaçou prendê-lo, mas aí o Luiz Otávio apareceu dizendo ser amante dele e que tudo não passou de uma briga conjugal. Disse ainda que o garoto tinha bebido demais e acabou fugindo sem saber onde ir.
- Amante? Briga conjugal? Qual é, Marcelo, deixa de ser trouxa!!! O Ceará drogou o guri pra dar uma pancada na cabeça dele, mas o bastardo se descuidou e o rapaz conseguiu escapar da casa dele até o bosta do Sandro o entregar de bandeja. Dá vontade de torcer o pescoço desse merda.
- Tenha calma, Mário.
- A essa altura já deve ter virado comida no bucho daquele safado.
- Ora, não te preocupa com isso. Quem sabe no almoço com ele tu não consegues uma pista importante. Agora preciso ir. Hoje a noite é a minha ronda pelo Laranjal e vai até a madrugada. Se precisar da minha ajuda, é só me contatar.
- Tá bem, mas fica de olho no Sandro, certo!!! Aquele lá não serve nem pra engraxar meus coturnos.
Despedi-me do Marcelo e me preparei para o almoço na casa daquele infeliz junto com o Márcio e a minha mãe.
Antes de retomar a história, gostaria de falar um pouco mais sobre minha mãe.
Era muito bonita na juventude e cativou muito meu velho ficando sempre do seu lado nas horas difíceis. Além de continuar bela, ela é bastante corajosa e sempre foi muito coruja comigo e com o Márcio nos ensinando os valores da vida e treinando a gente pra enfrentar esse mundo louco. Ficou algum tempo deprimida depois da morte do pai, mas mesmo assim buscou forças para continuar vivendo e confesso aqui que ela as vezes se preocupa com os perigos que enfrento, temendo que eu tenha o mesmo destino do meu pai mas ao mesmo tempo, se sente orgulhosa de nós por termos escolhido bem nossos caminhos.
Voltando agora pro almoço, tive no caminho para a mansão um incidente desagradável com o traste do Sandro. Estava indo com minha mãe e o Márcio para o Laranjal e encontrei-o junto com a namorada. Não pensei duas vezes e dei um direto de esquerda na cara dele. Caiu no chão feito um saco de batatas. Depois o agarrei pelo colarinho e bradei:
- Isso é pela besteira que tu fizeste, seu merda!!! E agradece a minha mãe por eu não te dar uma coça!!!
- Agora entendi porque saiu da polícia!!! Tu ta pirado mesmo com essa história de canibal e de assassino. Não sei como tu ficaste tanto tempo lá!!! Deve ter dado a bunda pros superiores.
- Isso tu fizesses, não é, seu veadinho!!!
Aí se enfureceu e quis me bater. Mas esquivei facilmente do soco dele e dei um chute bem no meio das pernas, fazendo-o se ajoelhar como um cristão pedindo perdão a Deus pelos seus pecados.
Claro que depois minha mãe me deu uma bronca federal por ter feito isso ao Sandro, mas estava tão furioso e irritado com ele que nem vi mais nada a minha frente.
Senti como um touro que só quer apenas chifrar o toureiro.
Depois disso, chegamos então a casa do pústula recepcionados pelo seu mordomo Leopoldo, que lembra muito o Alfred, o mordomo da Mansão Wayne e tutor do Batman.
O lugar é um espetáculo. Tinha dois andares e era toda pintada de azul. As janelas eram de vidro e havia uma porta que levava até o porão da casa.
“É um lugar perfeito para matar pessoas”, pensei eu.
A sala principal era uma loucura. Tinha uma mesa de vidro enorme e cadeiras suficientes para fazer um grande banquete. Sem falar nos espelhos que rodeiam toda a sala mostrando nossas imagens. Lógico que minha mãe adorou o lugar.
O Márcio me explicou que esta sala lembra muito a Sala dos Espelhos que tem lá no Palácio de Versalhes e foi neste mesmo lugar que assinaram o Tratado de Versalhes, dando fim a Primeira Guerra Mundial e obrigando a Alemanha a pagar indenizações absurdas aos países vencedores.
A casa era bem arrumada, mas comecei a sentir um forte odor de podre que embrulhou meu estômago.
E enfim, o canalha apareceu. Vestia um terno cinza com um colete igualmente cinza e camisa branca lembrando um mafioso da Yakuza. Ao lado dele, estava Jean-Pierre conferindo o cardápio pra hoje.
- Bem-vindos a minha casa, meus amigos. Sinto honrado com a presença de vocês.
- Como anda seus negócios, Luiz Otávio? – disse eu.
- De vento em popa. Estou acertando a compra de um terreno para construção de algumas casas populares e recrutando operários para fazer estas obras. Ainda financio pesquisas para alguns projetos das Universidades para resgatar a história de Pelotas e estou acertando algumas tratativas com o atual prefeito para conseguir recursos na reforma do Teatro Sete de Abril.
- Legal. Essa história nunca deve ser esquecida pelas futuras gerações. – disse Márcio.
Como sempre o Jean-Pierre caprichou no cardápio. Tinha strogonoff, mexilhões cozidos, medalhões de carne moída e um pouco de charque. Completava o cardápio arroz, feijão e muitas saladas.
Mas durante o almoço, comecei a me sentir mal por causa do insistente cheiro de podre que havia na casa. Meu estômago embrulhava cada vez mais.
- Estou me sentindo estranho. Desculpe a descortesia, mas preciso ir ao banheiro.
- O Leopoldo te mostra onde é. Fique a vontade.
Logo que cheguei ao banheiro, corri direto pro trono e vomitei tanto que parecia até aquela menininha possuída pelo demônio do filme Exorcista.
Ainda bem que o Leopoldo era bastante prestativo. Deu-me um pouco de água com açúcar e logo me aquietei num canto da sala.
- Filho, tu estás bem? – perguntou minha mãe.
- É. Mais ou menos. Mas que cheiro de podre é esse, Luiz Otávio?
- Deve ser de um lixão acumulado, acho eu. Sinto-me envergonhado quando vejo alguém jogando um saco de lixo no chão. Depois, o lixo se acumula e o cheiro de podre
vem junto. É horrível. Hoje á tarde falarei com o prefeito para juntos tomarmos providências.
“Lixão acumulado, hein, canalha? É aqui que tu matas e devoras as pessoas.”
pensei eu.
Bem que senti alguma coisa estranha naquela comida. E percebi que o almoço foi feito com carne humana e acabei sem querer tornando um canibal igual ao açougueiro da Rua do Arvoredo, em Porto Alegre. Nem minha mãe e nem o Márcio perceberam isso.
Foi um golpe humilhante no meu orgulho.
Saí de lá com uma certeza. Que ele era mesmo o canibal assassino e eu teria que prendê-lo o mais rápido possível para evitar mais mortes.
- Mario, o que houve contigo pra tu passar mal daquele jeito?
- Márcio, aquela comida foi feita com carne humana. E me senti mal com aquele cheiro de podridão na casa.
- Carne humana!! Meu deus, então era isso a estranheza que senti com a comida?
Um belo truque dele, não acha? Uma tática para tentar te desmoralizar.
- Bem que tentou, e por muito pouco ele não conseguiu seu intento, cara.
- Acho que tu precisa descansar um pouco. Que tal um filme pra distrair?
- Só não pode ser de terror, tá? Hoje já tive até demais.
- Mário, será que o cheiro de podre que sentimos não veio lá do porão?
- Provável. Mas se quiser pegá-lo, irei precisar de ajuda do Marcelo.
- Mano, toma cuidado com esse Marcelo e esse Sandro. Eles não valem nada.
- O Sandro não confio mesmo, mas o Marcelo é um cara legal. Tu vai gostar dele.
- Talvez sim talvez não.
Chegamos em casa e logo me preparei para a sesta da tarde enquanto que a mãe também foi deitar. Já o Márcio estava arrumando o seu material de pesquisa e organizando algumas fotos antigas do nosso avô que fez parte da Coluna Prestes como sargento.
Resolveu mostrar umas para a gente se lembrar dos feitos heroicos dele.
- Essa foto foi tirada depois que nosso avô e os homens dele capturaram três cangaceiros em uma escaramuça, Mário. Vale lembrar aqui que os cangaceiros eram subordinados do Lampião que foi nomeado capitão dos Batalhões Patrióticos para combater a Coluna Prestes.
Quando olhei pra foto, quase caí pra trás. Um dos cangaceiros da foto se parecia com o miserável. Aquilo me deixou estupefato demais.
- Meu deus, Márcio!! Esse cangaceiro é o avô dele!!! Então ele não veio pra melhorar a cidade de Pelotas e sim pra se vingar de mim por causa desse episódio.
- De nós, Mário. Também tenho o sangue de nosso avô.
- Mas de mim muito mais. Porque o prendi e o trancafiei no presídio em 1993. E naquela vez ele me disse que somos inimigos desde que nascemos. Agora entendi tudo.
- E por isso que se apelidou de Ceará. Para homenagear o seu avô que era cangaceiro.
- Agora precisamos nos cuidar em dobro. Mas não fala nada pra mãe sobre isso por enquanto pra não alarmar ela.
- Vou prepará-la para isto, mas não será fácil.
Depois dessa impactante descoberta, recebi outro telefonema do Marcelo me dizendo que encontraram mais duas vítimas em lugares diferentes, sendo um no Areal e outro na praia do Totó havendo ainda uma terceira vítima cujo corpo ainda não foi encontrado.
- Mais três vítimas, Marcelo?
- Sim. Mandei meus homens vasculharem toda a cidade e encontraram-nos do mesmo jeito que tu citaste. Pancada na cabeça e o tronco aberto. Mas no estudante, os legistas encontraram furos na cabeça dele, provavelmente marcas de broca e dentro do corpo, havia uma espécie de ácido.
- Acido muriático. O canalha queria ver se transformaria o coitado em zumbi ambulante.
- Mas o intrigante, Mário, é que o corpo da socialite não foi encontrado até agora.
E não tenho uma única pista.
- Socialite? Claro, o canalha é rico e pode seduzir qualquer mulher. Mas qual foi a segunda ossada que encontrou?
- Era de um taxista. Foi encontrado o táxi dele no Totó e todos os seus pertences estavam dentro.
- O maldito deve ter usado o táxi pra desovar o corpo no Totó.
- Com certeza.
- Encontrei o traste do Sandro e dei uma porrada nele pelo guri. O filho da puta tava de folga.
- E ainda perco esse espetáculo. Como foi o almoço?
- Já o almoço foi vergonhoso e ao mesmo tempo, produtivo. Consegui descobrir onde o canalha escondia as vítimas. É num porão. E a casa tinha um odor de podre muito suspeito. Com certeza, é ali que o corpo da socialite deve estar.
- Como disse antes, Mário, hoje a noite estarei na ronda lá no Laranjal com o Sandro. Se tu quiseres, a gente vai dar uma olhada na casa pra averiguar o que tu falaste.
- Então está certo. Sugiro que convoque alguns reforços porque, com certeza, o canalha vai resistir á tentativa de averiguação.
- Vou me lembrar disso. Até logo.
Resolvi me deitar um pouco para me preparar mentalmente para esta noite. Até me imaginei capturando o canalha e trazendo paz mais uma vez para minha cidade. Logo o Márcio me tirou dos devaneios para me alertar sobre a arrogância e a presunção de achar que tudo estava nas mãos e que era só prendê-lo de novo.
- Agora que nós sabemos um pouco a respeito dele, vamos tomar um pouco de cuidado, mano.
- Eu sei disso, mas vou capturá-lo com minhas próprias mãos e trancafiá-lo de novo na cadeia como fiz aquela vez. E vou vencer porque tenho a lei do meu lado.
- Mas agora ele tem o poder do dinheiro e esse compra tudo. Não podes ir pro confronto aberto contra ele, use um pouco de estratégia.
- Não preciso dessas coisas. Vou partir pro ataque direto em cima dele e capturá- lo logo.
- Toma cuidado, mano. O mundo é traiçoeiro e cheio de surpresas.
- Hoje vou acabar com tudo isso. E Pelotas será uma cidade pacífica novamente.
A noite chegou e Marcelo, Sandro e eu acompanhado de dois policiais invadimos o porão do calhorda e encontramos várias armas, como katanas e machados, um baú com pertences das vítimas e uma furadeira Black & Decker com a broca ainda manchada de sangue.
E ainda vasos contendo os pênis e as vaginas das vítimas. Fiquei cada vez mais confiante com as descobertas que fiz e nem percebi o quanto foi fácil demais entrar naquele porão.
Foi então que o vi. O crápula estava sentado num trono dourado com algumas cabeças nas bordas e não demonstrou nenhuma preocupação nem tampouco medo. Eu estava a um passo do triunfo.
- Finalmente te peguei, seu maldito!!! Está acabado. Renda-se logo!!!
O facínora riu.
- Correção, Nêmesis. Eu te peguei e você está acabado.
Achei que era uma piada de mau gosto, mas logo senti uma arma apontada nas costas, outra na cabeça e outras duas no peito. Agora tinha entendido tudo. Sandro e Marcelo assim como os outros dois policiais tinham me traído e graças a minha presunção idiota e meu orgulho imbecil, acabei caindo direitinho na armadilha do canalha.
Parte 06 – Tortura e Exílio
Estou agora preso, humilhado e sem nenhuma esperança de escapatória graças à burrice e a presunção deste ex-policial aqui que ainda acreditava na justiça.
Como fui cair numa armadilha tão óbvia. O calhorda facilitou a entrada de todos na casa me fazendo acreditar que o pegaria no melhor estilo Tom e Jerry. O que aconteceu, no entanto, foi que acabei fazendo o papel do Jerry na história.
Não conseguia acreditar que Marcelo tinha me traído. Logo ele que considerava tão irmão quanto o Márcio. Tudo o que queria saber agora era o porquê dessa traição.
O desgraçado estava feliz e radiante como uma criança que acabava de ganhar o brinquedo mais sofisticado do mundo. Sabia que minhas chances de derrubá-lo e sair correndo eram mínimas com todas aquelas armas apontadas para mim. Uma só bala poderia fazer a diferença.
Não tinha escolha senão se render e ser humilhado.
- Me mata logo, filho da puta!!! Faça isso enquanto tu tens chance.
- Tua carne não serve nem pra alimentar os cachorros, Nêmesis. Seu orgulho imbecil trouxe você direto para as minhas mãos.
- O que tu fizeste pros policiais estarem do teu lado? Deu a bunda pra eles?
- Não a bunda, meu caro Nêmesis, mas algo muito mais importante. Dinheiro. Em outras palavras, salários dignos para policiais dignos.
- Dignidade!! Tu os corrompeste. Isso é corrupção, seu miserável.
- Corrupção? Ora, deixe de tolice!!! Tu achas que os policiais com baixos salários e com pouca motivação pra trabalhar te ajudariam a prender a mim? Um empresário poderoso e rico? Os tempos são outros, Nêmesis. Bastou apenas uma ligação para alguns vereadores sensibilizarem ao prefeito a dar aumento a esses fiéis servidores da justiça. E o mesmo fiz com os deputados estaduais que sensibilizaram o governador na área estadual. Fiz minha parte também doando boa quantia do meu inesgotável dinheiro a estes valentes patrulheiros da segurança. Simples assim.
Agora entendi tudo. O Márcio estava certo mais uma vez. O miserável apenas usou o poder que o dinheiro tem para comprar os policiais e os juízes para se livrar das acusações de assassinato. Realmente tinha uma esperteza fora do comum, tenho que admitir.
- Aprendi com os meus erros, Nêmesis. Descobri que o dinheiro é a melhor arma contra oponentes que lutam por ideais. O dinheiro é tudo. Pode inclusive ajudar as pessoas a melhorar de vida e a ganhar poder!!! Isso é o certo!!!
- Então tu nunca quiseste ajudar a cidade de Pelotas a crescer. Na verdade, quer mesmo é se vingar de mim pelo que fiz há muitos anos atrás.
- Está enganado, Nêmesis. Também ajudarei minha cidade querida com meu inesgotável dinheiro. A vingança é um prato que deve ser servido bem gelado como cerveja e refinado como vinho. Não vou matá-lo de uma só vez, não. Farei isso aos poucos para que tu sofras como eu sofri nesses anos todos. Lamento informar, mas a era dos policiais brucutus acabou há muito tempo e você será em breve uma relíquia de um passado distante.
- Ora, seu...
Quando quis me mover para tentar acertá-lo, Sandro me acertou uma coronhada forte nas costas e caí de todo comprimento no chão. E como todo bom covarde que se preze, ainda me chutou duas vezes no peito e me agarrou pelo cabelo apontando a arma pra minha cabeça.
- Cala a boca, vagabundo!!! Logo tu vais pro Presídio Regional pra ser a mulher de todo mundo na cadeia. Vai ser uma beleza.
- Tu ta morrendo de inveja, sua bicha louca? São merdas como você que denigrem a polícia e envergonham uma nação inteira.
Levei então um chute dolorido no saco e outra coronhada nas costas. O Sandro já se preparava pra me levar para o carro da polícia quando o calhorda interveio.
- Ele fica aqui, senhor policial. Será meu brinquedinho favorito. Obrigado por impedir que esse marginal roubasse minha casa.
- Nós cumprimos nosso dever de proteger os cidadãos de bem. Agora vamos patrulhar a cidade, pessoal.
- Quero que você e seu amigo fiquem. Serão minhas testemunhas do que farei com o Nêmesis.
Sandro dispensou seus colegas e permaneceu quieto em seu lugar. Já Marcelo estava envergonhado e cabisbaixo por sua traição. Estava chorando muito.
- Sabe, Nêmesis. O problema é que ainda existem pessoas idealistas como seu amigo chorão ali. Tive que convocá-lo por livre e espontânea pressão.
- Seu Canalha!!! Porco Imundo!!! Crápula!!! Tu quisesses jogar o Marcelo contra mim tentando corrompê-lo!!! Mas tu nunca vais conseguir isso!!!!
Pelo menos, a única coisa que me confortava é que Marcelo foi forçado a me trair devido a ameaças contra sua esposa. Eu sempre soube que nunca me trairia a não ser que fosse pressionado por aquele maldito.
Mas o pior ainda estava por vir. Leopoldo entregou uma bandeja para seu patrão onde nela havia maionese e um olho humano no prato. O patife então pegou um pouco da maionese e passou no olho antes de comê-lo. Aquilo era muito nojento. Sandro sorria e Marcelo vomitou de forma violenta.
- Que manjar delicioso. Não acha, Nêmesis?
Nem quis responder a essa horrível pergunta. Sandro estava ainda com a arma na mão e logo começou a me provocar.
- Elliot Ness de araque. Tu não passas de uma eterna piada. Agradeça a bondade do Luiz Otávio por não virar mulherzinha no Presídio ou na pior das hipóteses, um presunto.
- Melhor virar um presunto honesto do que um capacho sem honra. Não sinto mais raiva de ti, Sandro e sim com pena do teu mau-caratismo.
Aquilo o enfureceu tanto que me acertou mais uma coronhada nas costas. Desatei- me a rir e a seguir provocando-o apesar das fortes dores que sentia.
- Vou te matar, seu desgraçado!!! Juro que vou te matar!!!
- Só se for de prazer, meu bem!!
Outra pancada levei. Não sei nem de onde tirava forças para ainda provocá-lo, talvez pelo fato de que não tinha mais nada a perder. Continuei então a enfurecê-lo mesmo correndo risco de levar uma surra.
- Oh, Luiz Otávio, meu amor!!! Meu magnânimo chefinho!!! Chupe meu pau com gosto, por favor!!!
- Vai te fuder, sua merdinha insolente. Fique sabendo que sou macho e deixo minha namorada feliz na cama!!!
- Com uma arma dessas, Sandro, até o Clodovil vira macho. Tu és tão fraco que nem pra puto você presta. E te digo mais, cuidado com a cabeça senão tu acabas furando o teto com seus belos chifres.
Levei mais alguns chutes e coronhadas antes do desgraçado detê-lo com a mão. O estrupício me queria vivo de qualquer maneira.
Mal sabia eu que as surpresas apenas começavam. Estava tão grogue pelas pancadas que nem vi o crápula tirar a roupa e pegar alguma coisa dentro de um enorme armário. Só que essa “coisa” era o cadáver da socialite. Tinha ficado com ele para fazer
sexo á hora que quisesse. O posicionou de costas e a penetrou com ferocidade na minha frente, excitando-se com minha presença. Aquilo ultrapassava todos os conceitos de nojento.
Vestiu-se com um roupão branco trazido por Leopoldo e me viu de cima a baixo como se fosse uma mercadoria na prateleira de um supermercado. Agora entendi tudo. O objetivo dele era tentar me enlouquecer.
As coisas estavam ficando muito piores a cada dia. Pense você em todas as torturas possíveis e inimagináveis tanto físicas quanto mentais a uma pessoa. Passei por tudo isso e mais um pouco.
Obrigou-me a olhá-lo se masturbando na frente de seus troféus e rindo na minha cara todo o tempo. O pior foi quando sofri a humilhação de chupar aquele membro pegajoso numa dessas noites. Foi horrível demais pra mim e o canalha achou que eu não estava me divertindo. Vomitei tudo aquilo na minha cela.
Pelo menos, fiquei sabendo um pouco da história sórdida dele.
- Já que ficará muito tempo sendo humilhado por mim, Nêmesis, vou te dar uma aula de história. Deves com certeza saber do meu honrado avô que era um dos melhores cangaceiros de seu tempo e era tão bom no que fazia que até Lampião o reconhecia como um grande guerreiro. Até seu avô aparecer e o prender em uma emboscada armada pela Coluna Prestes para supostamente libertar o povo da tirania do governo. Não bastasse isso, acabou sendo executado barbaramente junto com minha avó na frente da minha mãe e de minhas tias e tios por supostos crimes contra os moradores das vilas próximas. Ela teve que se exilar para o sul do país e embarcou clandestinamente em um navio com destino a Pelotas, que era naqueles tempos uma cidade de destaque. Chegando lá, um comerciante teve piedade dela e a abrigou em sua casa. Com o tempo, se apaixonaram e alguns anos depois, se casaram na Igreja Cabeluda e logo nasci. Foi então que a vida de minha mãe se tornou um inferno. Meu pai chegava em casa embriagado e a agredia tanto fisicamente quanto moralmente xingando-a de tudo quanto é nome. E me forçava a assistir a tudo aquilo. Meu gosto pela morte começou quando tinha uns seis anos de idade e brincava com os ossinhos dos animais que morriam. Achava aquilo tudo bonito e quando fiz dez anos, matei minha primeira pessoa, que era um daqueles valentões de escola e transei com o cadáver dele. Mas meu pai não gostava dos barulhos que eu fazia e me expulsou de casa, matando minha mãe de desgosto nesse processo. Era cardíaca a coitada. Minha vingança não tardou a acontecer. Quando fiz dezesseis anos, o embosquei e o matei com sete tiros na cabeça. Depois o estripei e o devorei com gosto e vontade.
Comecei então a gostar daquilo tudo e segui matando todas as pessoas que cruzavam meu caminho. Alguns eu matei e comi com prazer e outros porque me faz lembrar meu pai que tanto detesto e desprezo. Estava indo muito bem até você aparecer e me trancafiar no presídio. Cada dia e cada noite eu pensava numa maneira de te humilhar, sabia disso, Nêmesis? Mas agora tu estás em minhas mãos. Durma bem com os anjinhos. Amanhã almoçarei com o prefeito e vou discutir com ele os novos caminhos do desenvolvimento de Pelotas. Quem sabe se tu te comportar bem, trarei algum restinho do almoço. Se estiver com fome, coma um pouco de carne humana. Faz bem pra saúde.
E saiu dando risada. Quanto a mim, estava perdido, humilhado e sem nenhuma possibilidade de sair daquele maldito porão.
Senti-me como um leão dentro do zoológico apenas esperando migalhas de comida de algum visitante bondoso. Precisava fazer alguma coisa. Mas como faria isso, eu não sabia.
* * *
Estava preocupado com Mário. Já fazia dias que tinha ido atrás daquele bandido e desde então não me deu notícias. Até pensei que tinha morrido. Não havia me preparado, no entanto, do baque que iria receber.
Marcelo bateu na minha porta e contou-me tudo o que aconteceu, até mesmo da pérfida traição dele e dos outros policiais. A raiva que tinha era tão grande que o agredi a socos e pontapés. Não podia perdoá-lo pela torpe atitude que fez com Mário, que o confiava como se fosse um irmão. Agora entendo porque Dante colocava a traição como o pecado mais terrível que existe na Terra.
Notei, entretanto, que Marcelo não reagia aos golpes. Entendi que se não reagiu, não poderia ter traído Mário. Muitas perguntas estavam ainda sem respostas e somente ele poderia elucidar tudo.
Parei de bater nele e o convidei a entrar para explicar melhor o que houve. Depois de ter falado tudo, compreendi que o plano do Mário estava errado desde o início e que Marcelo foi forçado pelos próprios policiais a entregá-lo para o Ceará.
- Agora entendi tudo. Se não fizesse o que aquele canalha pediu, certamente ele mataria sua esposa. Peço desculpas por ter te agredido dessa forma e isso me alivia o fato de tu não teres traído meu irmão.
- Está tudo bem. Tu nunca gostasses muito de mim porque sempre lutava ao lado do teu irmão, mas vejo agora o porquê dele gostar tanto de ti. Aquele palhaço do Sandro me enganou. Falou que iria ajudar a mim e ao Mário a pegar aquele assassino, mas não me disse que tinha já recebido o dinheiro do suborno que o Ceará tinha dado. E o safado falou ainda que todos receberiam um gordo aumento de salário se entregassem o Mário nas mãos dele.
- O poder do dinheiro. Devo discordar de ti nesse aspecto, Marcelo, ele não corrompeu os policiais. Aproveitou-se de uma situação real, que é a dos baixos salários e os converteu a sua causa prometendo dar um salário digno a eles. E foi exatamente o que aconteceu. Abriu mão de um pouco de sua fortuna e cedeu esse dinheiro tornando-se um herói pros policiais. Um plano perfeito, admito.
- E em troca, o silencio e o arquivamento dos assassinatos. Que rato miserável!!!
- E ele veio na verdade pra se vingar do Mário, mas também da minha família devido ao assassinato do avô dele feito pelo nosso lá no sertão do Ceará.
- Por deus!!! Parece aquelas vendettas familiares. Mas não temos muito tempo.
Precisamos libertar logo o Mário antes que o Ceará o mate!!!
- Ele não fará isso, Marcelo. Com certeza o desgraçado vai torturá-lo de todas as maneiras possíveis até o enlouquecer. Quer destruir o espírito dele e não somente o corpo.
Esse é o plano!!!
- Sei onde ele se encontra, Márcio. Está trancafiado no porão da mansão do Laranjal e existe uma entrada onde nós podemos passar facilmente. Então libertaremos o Mário e capturaremos aquele filho da mãe do Ceará finalmente.
- É. Quer ser preso como o Mário? Com certeza o Ceará vai contratar guardas fortemente armados pra proteger a mansão e cães farejadores para nos localizar. E além do mais, a polícia está quase toda do lado dele.
- Me desculpe. Estou muito nervoso.
- Tudo bem. Tenho um plano já em mente.
Marcelo estava certo, tínhamos mesmo que agir. Mas sem um plano de ação, de nada adiantaria nossa valentia. Espero que não seja tarde demais.
* * *
- Onde está me levando, desgraçado?