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Radiol Bras. 2009 Mar/Abr;42(2):114 O trauma é uma das principais causas demorbidade e mortalidade em uma faixa etária que compreende adolescentes e adultos jo-vens, em proporção dominante do sexo mas-culino, com grande impacto econômico e so-cial. Dentro do complexo do trauma, o trauma-tismo abdominal fechado é um acomtecimento bastante frequente e apresenta dificuldade na avaliação e manejo, uma vez que o exame clí-nico apresenta baixas sensibilidade e especifi-cidade. A detecção de hemoperitônio é um dos métodos de avaliação indireta de possíveis le-sões intra-abdominais, inicialmente pela pun-ção abdominal diagnóstica e, posteriormente, pela lavagem peritoneal diagnóstica, que, ape-sar da eficácia, apresentam inconvenientes como invasividade e impossibilidade na quan-tificação do hemoperitônio e no estadiamento da lesão, resultando em laparotomias não te-rapêuticas. Os métodos de imagem prestam utilidade na investigação de lesões intra-abdo-minais, como a radiografia convencional e con-trastada, a ultrassonografia (US) e a tomogra-fia computadorizada (TC), esta última o método que apresenta melhor resolutividade, porém, como desvantagens, o custo, a acessibilidade, o uso de radiação ionizante e meio de contraste e o deslocamento do paciente até o aparelho. A US apresenta-se como alternativa na avalia-ção inicial desses pacientes por ser um método não invasivo e com potencial de dano virtual-mente ausente, de baixo custo, de rápida rea-lização e portátil. Apesar disso, este método também apresenta suas limitações, como nos Resumo de tese / Thesis abstract
casos de lesões intra-abdominais na ausência de líquido livre.
Este estudo foi realizado com a finalidade de estabelecer o desempenho da US nesse contexto, permitindo racionalizar o uso da TC. Com esta finalidade, foram estudados 163 pacientes atendidos no Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com a realiza-ção consecutiva de US e TC. A popularealiza-ção es-tudada enquadra-se no perfil usual das vítimas de trauma, sendo 83% do sexo masculino e 56% na faixa etária entre 20 e 39 anos, e em 73% dos casos eram vítimas de acidentes de trânsito. Eles foram trazidos ao serviço num tempo médio de 51 minutos, na maior parte estáveis e com nível de consciência satisfató-rio. A US levou em média cinco minutos para ser realizada e o intervalo médio até a realiza-ção da TC foi de 155 minutos.
Dos 163 pacientes estudados, 31 (19%) apresentaram US positiva e 132 (81%) apre-sentaram US negativa. Dos mesmos 163 pa-cientes, 33 (20,2%) apresentaram TC positiva e 130 (79,8%) apresentaram TC negativa, re-sultando em sensibilidade de 73%, especifici-dade de 95%, acurácia de 90% em prevalên-cia de 20%, com valor preditivo positivo de 77% e valor preditivo negativo de 93%. Corrigindo quanto à detecção de líquido livre, resulta-se em sensibilidade de 64%, especificidade de 98%, acurácia de 89% em prevalência de 27,6%, com valor preditivo positivo de 93% e valor preditivo negativo de 88%. Ao se
consi-derar a evolução dos pacientes, o desempe-nho da US foi semelhante ao da TC. Ao se considerar a necessidade de cirurgia, a US apresentou acurácia de 87%, com valor predi-tivo posipredi-tivo de 58% e valor predipredi-tivo negapredi-tivo de 94%, próximo da TC, com 91% de acurá-cia, 67% de valor preditivo positivo e 97% de valor preditivo negativo. Vinte e quatro por cento dos pacientes com lesões intra-abdominais não apresentavam líquido livre, registrados pela TC. O espaço hepatorrenal e a pelve são os locais mais frequentes do encontro de líquido, sendo 74% e 67% à US e 51% e 62% à TC, respec-tivamente. Entre os fatores que indicaram ten-dência de necessidade cirúrgica, destaca-se a presença de líquido no espaço hepatorrenal (14 de 20 pacientes) e somatório dos bolsões de líquido acima de 3,0 cm. A detecção de lesões em víscera parenquimatosa foi baixa: 4 casos em 33, sendo que apenas 2 deles se confirmaram.
Dentre os fatores que limitam o estudo pela US estão as lesões intraparenquimatosas que não se associam a líquido livre e hematomas retroperitoneais. A experiência do examinador não influenciou no número de casos positivos ou negativos, mas notou-se uma tendência a falso-positivos nos examinadores mais expe-rientes e falso-negativos nos menos experien-tes. Assim, a US apresenta-se como ferra-menta útil na avaliação inicial de traumatismo abdominal fechado, fornecendo subsídios para avaliação clínica, que associados aos demais dados, permite determinar a conduta.