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VISUALIDADES FERROVIÁRIAS: REFLEXÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS

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Academic year: 2021

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VISUALIDADES FERROVIÁRIAS: REFLEXÕES TEÓRICAS E

METODOLÓGICAS

Maira EvElinE SchMitz

Universidade Federal de Pelotas [email protected]

Resumo: O presente trabalho possui por tema as visualidades construídas para representar o espaço ferroviário da cidade de Pelotas, no fim do século XIX e início do século XX, por meio de fotografias, gravuras e narrativas descritivas. O conceito de visualidade é compreendido como uma construção social e cultural direcionada e propiciada pela educação do olhar e das sensibilidades. Interliga-se diretamente com a ideia de cultura visual, onde o que se pretende analisar não é a parte “visual” de uma cultura, mas a forma como a cultura se manifesta e é construída visualmente. Em um primeiro momento, neste sentido, será abordada a discussão teórica sobre os conceitos que dão base e sustentação ao tema. Em seguida, apresentar-se-á a elaboração de uma metodologia para o trabalho com as imagens elencadas.

Palavras-chave: Ferrovia – Pelotas – visualidades

O século XIX, de forma geral, pode ser considerado um momento de transformação, mais do que de estruturas políticas ou econômicas, das formas de ver, sentir e estar no mundo. Palco para novidades produzidas pelo homem, foi o século da revolução industrial, do desenvolvimento da técnica, do fortalecimento do regime do tempo e do relógio e da aproximação dos mundos. Inúmeros ícones desta “virada moderna”, assim, podem ser citados, como os motores a vapor para a indústria, a iluminação a gás, o telégrafo, o telefone, a eletricidade, a fotografia, as estradas de ferro. Acelerando a comunicação e o transporte e criando confortos que a nova classe média requisitava, estes melhoramentos são representantes de um novo modo do ser social e cultural no ocidente.

Acontece neste momento uma mudança na forma como as coisas passam a ser apreendidas e representadas; há um clima mental em que a instabilidade passa a ser o que marca e identifica a vida dos homens (HARDMAN, 2005:37). O “lugar próximo” adquire um maior estranhamento e com a pulverização do tempo em “instantes inacessíveis”

é desta forma fluida, volátil, vaporosa que se estava constituindo a paisagem típica da era urbano-industrial. Com efeito, o mundo das mercadorias está se convertendo, a partir de meados do século XIX, num gigantesco fantascópio. Alguns de seus contemporâneos, em meio a multidões assombradas em face dos espetáculos mecânicos da modernidade, tentam representar as imagens desse novo poder de encantamento. (HARDMAN, 2005:37-38)

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A paisagem urbano-industrial a qual se refere o autor não diz respeito somente à materialidade dos espaços, mas ao próprio ambiente social e cultural que passa a marcar as relações entre pessoas e lugares. Este ambiente, assim, pode ser caracterizado como o do espetáculo, onde as relações e interações passam a ser mediadas por novas formas de apresentação e representação sociais. Neste sentido, cria-se uma necessidade – e oportunidade – de buscar apreender toda a instabilidade e representar imageticamente o espetáculo da modernidade.

As ferrovias são exemplo dessa forma vaporosa, fluida e volátil do mundo moderno, com a fumaça e a velocidade das locomotivas, o vai-e-vem dos passageiros, a passagem de um local ao outro. Sua criação e entrada na era da indústria geraram – em todos os lugares, pode-se arriscar dizer – um encantamento e um estranhamento, em função de sua materialidade específica e do poder de aproximar lugares e modificar a percepção do tempo. Surgidas na Europa praticamente ao mesmo tempo em que a técnica fotográfica, as vias férreas foram largamente representadas na forma de imagens – ressaltando que tanto fotográficas, quanto pictóricas. A estação férrea e a locomotiva, principalmente, adentraram o imaginário oitocentista, sendo construídas visualmente e, ao mesmo tempo, criando novas formas de percepção visual.

Neste sentido, considerando a ferrovia na cidade de Pelotas na virada do século XIX para o XX, pretende-se pensar sobre as possibilidades de se compreender a construção visual de espaços específicos ligados à presença ferroviária. Parte-se, para isto, da noção de visualidade, enquanto definidora de modos de ver que são construções sociais e culturais, direcionados e propiciados pela educação do olhar e das sensibilidades.

Acredita-se que a ideia de visualidade interliga-se diretamente com a de cultura visual. Assim, o que se pretende analisar não é a parte “visual” de uma cultura, mas a forma como a cultura se manifesta e é construída visualmente. As fontes que trazem indícios sobre os modos de olhar em relação ao espaço ferroviário são múltiplas, indo desde croquis, plantas, mapas, gravuras, fotografias, até descrições narrativas que compõem os cenários e a forma como estes deveriam ser percebidos. Neste sentido, com este trabalho, propõe-se iniciar uma discussão sobre como aplicar os conceitos de imagens e de visualidade a construções que fazem parte, sim, de uma determinada cultura visual, mas que não necessariamente se apresentam à visão de maneira direta, podendo simplesmente – mas não de forma tão simples – fazer imaginar imageticamente.

O primeiro subtítulo estará centrado na explanação das noções que sustentam os estudos de História visual, o trabalho com imagens e com visualidades. Em seguida, pretende-se percorrer algumas possibilidades metodológicas para a análipretende-se de fontes de caráter tão variado, mas com um objeto visual em comum, buscando olhar para algumas fontes sobre a ferrovia na cidade de Pelotas à luz destas reflexões.

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Visualidades na História

De acordo com Sandra Pesavento (1995, p.16), o real é ao mesmo tempo concretude e representação. Para a autora, a própria sociedade é instituída imaginariamente, uma vez que se expressa simbolicamente por um sistema de ideias-imagens que constituem a representação do real. Nesta direção, “o imaginário é sempre referência a um “outro” ausente. O imaginário enuncia, se reporta e evoca outra coisa não explícita e não presente” (PESAVENTO, 1995:15). A principal questão que coloca, assim, é como estas representações do mundo social se articulam com o próprio mundo social, uma vez que não são o seu reflexo.

Em se tratando de construções visuais esta articulação parece se tornar ainda mais complexa, em virtude do forte caráter representacional que a imagem traz, seja por sua “natureza” ou pela incapacidade que os historiadores ainda têm em lidar com sua linguagem. Pensando na relação entre História e imagem, Rafael Rosa Hagemeyer (2011:41-2) coloca vários questionamentos: não seria a imagem uma forma específica de representação? Ou existiriam várias maneiras de se representar uma imagem não apenas visualmente? Quais seriam os domínios da imagem? São perguntas que precisam ser discutidas e pensadas, a fim de se utilizar e compreender as representações imagéticas no discurso histórico.

Paulo Knauss aponta que, ao se trabalhar com a imagem, ela pode ser caracterizada como expressão da diversidade social, exibindo a pluralidade humana (KNAUSS, 2006:99). De forma genérica, uma imagem é aquilo que, visualmente, expressa e representa aspectos sociais os mais diversos, não se limitando a determinados campos da experiência humana – como a cultura, ou arte. Ela é plural e histórica, remetendo sempre ao social. Neste sentido, pensando o uso das imagens para a compreensão histórica, o autor defende que

O pressuposto de seu tratamento é compreender os processos de produção de sentido como processos sociais. Os significados não são tomados como dados, mas como construção cultural. Isso abre um campo para o estudos de diversos textos e práticas culturais, admitindo que a sociedade se organiza, também, a partir do confronto de discursos e leituras de textos de qualquer natureza – verbal escrito, oral ou visual. (KNAUSS, 2006:100)

Com esta afirmação, Knauss alerta para o caráter representacional da imagem. O visual que ela traz não deve ser considerado como uma informação direta sobre o que apresenta, mas como um discurso. Assim, uma fotografia que mostre a multidão na estação férrea à espera do trem não é prova do fato, ou da presença da materialidade arquitetônica, ou das pessoas que ali se encontravam; é uma construção histórica discursiva, permeada por intencionalidade, sobre o momento apreendido pelo instante fotográfico. Por este

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viés, a potencialidade da imagem enquanto fonte não é, em absoluto, diminuída ou contestável. De acordo com o autor, essa característica – que de certa forma é inerente a todos os documentos históricos – amplia as possibilidades de estudo, abarcando a própria construção cultural dos fatos e das práticas, admitindo que o social não é resultado de visões e ações homogêneas e coadunadas.

Toda a imagem origina-se na mente humana, nas reações frente ao mundo, mais do que no mundo mesmo. Nenhuma imagem é, então, “verdadeira” ou “falsa”, é apenas adequada a uma cultura ou momento de expressar significados. Entender uma imagem pressupõe distintas interpretações visuais, as quais se baseiam num jogo de construção e leitura entre o artista e o espectador. (LEHMKUHL, 2010:58)

Luciene Lehmkuhl parte na mesma direção, reforçando que a imagem é um produto cultural, vinculado a uma necessidade social de representar o mundo e as coisas que fazem parte dele e lhe dão sentido. Toda e qualquer imagem, sendo construção, não admite juízos de valor, mas pressupõe diversas interpretações, conforme o olhar e as formas de construção e recepção visuais. A produção da imagem, assim, inclui intencionalidades e interesses que são próprios de seu produtor; já as recepções que podem ocorrer escapam de uma lógica concreta, abarcando tantas interpretações quanto foram seus espectadores – ou melhor, “tradutores”. Sendo assim,

Não se pode deixar de reconhecer o potencial de comunicação universal das imagens, mesmo que a criação e a produção delas possam ser caracterizadas como atividade especializada. A imagem é capaz de atingir todas as camadas sociais ao ultrapassar as diversas fronteiras sociais pelo alcance do sentido humano da visão. (KNAUSS, 2006:99)

Uma imagem, mesmo que produzida, a partir de técnicas específicas, para certo perfil de espectador dotado da forma “correta” do olhar, tem uma abrangência que escapa a estas determinações. A imagem pressupõe, unicamente, a capacidade do olhar. Por outro lado, como aponta Paulo Knauss, baseado nas contribuições de Mitchell, acima de tudo é necessário não tomar a visão como um dado natural, mas questionar a universalidade da experiência visual. Para o autor, trata-se de abandonar a centralidade da categoria de visão, admitindo a especificidade cultural da visualidade para caracterizar as

transformações históricas da visualidade e contextualizar a visão (KNAUSS, 2006:107). A visualidade, neste sentido, vai além da produção de imagens, ou da capacidade de ver. Ela “se refere ao registro visual em que a imagem e o significado visual operam” (KNAUSS, 2006, p.115), isto significando uma percepção dialética destes dois âmbitos visuais, ou seja, entre a produção imagética e o sentido que a produção evoca – e quer evocar.

Um dos principais campos preocupados com o estudo das visualidades é o da chamada cultura visual. Knauss aponta que ela pode ser definida a partir de duas vertentes (2006:110). A primeira, de aspecto um pouco mais fechado, considera a cultura visual

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como restrita à cultura ocidental, marcada pelo cientificismo, tratando especificamente dos tempos marcados pela imagem digital e virtual, sob domínio da tecnologia. A segunda perspectiva, que abarca diversos autores, considera que a cultura visual serve para pensar diferentes experiências visuais ao longo da história em diversos tempos e sociedades. É, portanto, considerando a atuação dos pensadores desta segunda linha que adota-se, aqui, os estudos de cultura visual. Nesta direção,

Os estudos visuais, seguindo a inspiração dos estudos culturais, defendem que os sentidos não estão investidos em objetos. Ao contrário, o conceito de cultura visual sustenta o pressuposto de que os significados estão investidos nas relações humanas. É nesse sentido que a cultura é definida como produção social e, por isso, o olhar pode ser definido como construção cultural. Nesse sentido, as definições materiais e tipológicas devem ser percebidas como elementos do processo de significação. O objeto individual é integrado numa ampla rede de associações e de valores que integram as competências visuais. (KNAUSS, 2006:115)

Não há como não identificar a forte filiação dos estudos visuais aos culturais, quase que como uma especialização deste campo. No entanto, considera-se que a cultura visual, embora se manifeste grande parte das vezes em objetos e materialidades da cultura, estes não são o seu fim ou objeto. O que se pretende compreender, com a pesquisa na área visual, é como esta forma da sociedade de se expressar e representar interfere e auxilia a construir o social, ou seja, as próprias relações entre as pessoas. O objeto que carrega a imagem, que produz a visualidade, é somente o instrumento por meio do qual se busca chegar a explicações sociais de seus usos, atribuições e ações no real. O estudo do objeto em si – sua produção, circulação, recepção também pode e deve ser feito, mas acredita-se que este objetivo esteja mais ligado à compreensão do circuito cultural dos bens visuais do que a uma busca pelo visual na sociedade.

Além dos registros visuais, os estudos de cultura visual abarcam práticas cotidianas de olhar e exposição (KNAUSS, p.115) e também os modos apropriados de ver (MENESES, 2005).

Os modos de ver, primeiramente, podem ser demarcados num sentido sociológico geral, pois se trata de sublinhar que as convenções oculares permitem articular a dimensão visual das relações sociais. Há assim uma relação entre visão e contexto que precisa ser estabelecida. A partir dos estudos culturais, pode-se dizer, porém, que o foco da cultura visual dirige-se para a análise da imagem como representação visual, resultado de processos de produção de sentido em contextos culturais. Percebe-se, em diversos autores, que a afirmação do conceito de cultura visual implica analisar as imagens como representações visuais no sentido de problematizar a visão como processo ou identificar formas de visualização, colocando a visualidade em questão. (KNAUSS, 2006:115)

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visualidade – ou visualidades. Não basta reconhecer que existem convenções das formas de olhar, mas perceber em que contexto elas agem e qual a função das mesmas para o social que as criou. As produções de sentido, das quais fala o autor, são as construções que, no momento em que foram criadas, dirigiram o modo como as representações visuais deveriam ser vistas; elas educaram o olhar, criando as visualidades.

Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses (2005), pensando os estudos visuais, aponta que conviria à História incorporar a visualidade como dimensão possível de ser explorada em qualquer um dos seus segmentos correntes. Ele afirma isto por considerar que a “cultura visual”, ou “História visual”, não constitui um campo especializado da disciplina histórica, como mais uma “migalha”, mas é um aspecto do mundo social – e portanto histórico – reconhecível e passível de compreensão em qualquer período temporal e espacial. O objetivo dos estudos visuais, assim, sempre é entender como, por meio da visão, o social é constituído e sentido.

Meneses (2005) faz esse alerta por que considera que a história não definiu uma problemática visual específica. Para o autor, as pesquisas de história na área visual ainda privilegiam o tratamento da imagem – suas “leituras” deslocadas de um significado visual maior dentro do contexto – deixando de margem sua múltipla presença na vida social. Além disso, o visual não é constituído somente por imagens, no sentido estrito, artefatos que são constituídos em sua superfície de características que são produzidas para provocar a visão. O autor defende que o estudo visual deve se cercar de inúmeros documentos, não somente os imagéticos, pois o visual pode ser apreendido de diversas formas.

Defende-se, assim, que as imagens fotográficas do espaço ferroviário de Pelotas, no fim do século XIX, constituem uma determinada iconosfera, pois os itens fotografados seguem uma lógica e escolhas determinadas que se repetem, formando um “visual” específico. Fazem parte, ainda, de certo modelo de visibilidade – e invisibilidades –, estando permeadas de jogos de poder, de escolhas e interesses. Por fim, partilham da construção de um “modo de olhar”, de uma visão, o que lhes capacita, além de representar, a construir a própria espacialidade em questão. É partindo, portanto, destas considerações que acredita-se que o estudo das visualidades dos espaços ferroviários em Pelotas deva ser feito através de fontes diversas, buscando essas construções visuais não somente no que é dado diretamente, mas nas entrelinhas, nos silêncios, nas invisibilidades e nas descrições que, em um “primeiro olhar” não despertariam a atenção.

Visualidades ferroviárias

Uma vez que o objeto desta pesquisa é o espaço ligado à ferrovia, cabe uma explanação do que se entende por este. O “espaço urbano ferroviário” é tido como o

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lugar físico onde se desenrola a ação das pessoas – como a estação, suas ruas adjacentes com hotéis e comércio próximos, as oficinas, as casas de trabalhadores ferroviários, os trilhos, as pontes, os próprios vagões e todo local que tenha surgido ou se interligue aos elementos da via férrea. Em outra perspectiva – não contraditória, mas complementar – este também é o lugar abstrato: imaginado, sentido e vivenciado pelas pessoas, as quais realizam nele suas práticas sociais, lhe conferindo representações.

Ambas as características são intrinsecamente ligadas: o sensível depende do material, assim como o material se nutre do sensível. O conceito, apesar de poder ser separado nestas categorias a fim de uma maior compreensão metodológica, é um só; a materialidade não existe deslocada dos sentidos que lhe são dados, ao mesmo tempo em que os próprios sentidos modificam a forma como esta materialidade é apresentada e vista.

Dizer, entretanto, que o espaço pode ser tanto material como construído abstratamente, ainda mantém a definição um tanto amplo e generalizante; seria impossível abarcar todas as características inerentes à construção espacial. O aspecto elencado aqui, assim, é a construção visual, a qual, embora possa parecer unicamente do domínio do abstrato, interfere diretamente na forma como a própria materialidade é vista e percebida.

Ver o espaço como fruto de uma construção social de imagens e imaginários significa admitir que os espaços diferem de cultura para cultura, ou seja, que estamos lidando no campo do significante e não apenas do significado. (...) Múltiplo, objeto de construção de sentido e de leitura, o espaço nessa compreensão estimula o olhar, exigindo um espectador ativo.

O espaço se dá aos nossos sentidos, principalmente, pelo olhar, elabora os demais sentidos contribuam para as trocas que se efetuam nele e com ele. (GASTAL, 2006:82)

Entender o espaço sob esta perspectiva significa encará-lo de forma não naturalizante, percebendo sua condição cultural e histórica. O espaço é fundamentalmente constituído de imagens e imaginários pois, por meio de sua materialidade, é impossível que ele não provoque a visão; o reconhecimento visual é fundamental para a compreensão de seu arranjo, suas funções e seus significados – embora a autora mesmo alerte para a funcionalidade e uso também dos outros sentidos.

Em sua obra, Susana Gastal parte de princípios marcadamente semióticos, buscando relações diretas entre os signos e significados constituintes do espaço que pesquisa. Ressalta-se, aqui, que a semiótica não será utilizada como solução metodológica, uma vez que se concorda com Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses quando este afirma que um método fechado, como a semiótica, nunca irá trazer respostas às perguntas da pesquisa:

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Essas devem ser produzidas a partir das hipóteses formuladas pela interpretação histórica. O auxílio principal está, sim, na ampliação do leque de questões a levantar e que incluem o conhecimento do potencial semiótico dos documentos mobilizados. Portanto, perguntas, não respostas. (MENESES, 2005:s./p.)

Isto não impede, assim, que certos preceitos e discussões inerentes à forma semiótica de ver a imagem possam ser levados em consideração. Um pontos muito interessante é a contribuição que as séries interpretativas trazem para a análise das imagens, na medida em que sua aplicação é ampliada – não só a partir da origem arquivística ou do produtor, mas também pelas temáticas representadas.

Meneses, pensando a relação da história com as imagens e a possibilidade de uma História visual, propõe, assim, três feixes de questões, os quais podem ser tomados como uma possibilidade metodológica. São eles: o visual, o visível e a visão.

O visual seria uma chamada “iconosfera”, com seus sistemas de comunicação visual, os ambientes visuais, a produção/circulação/consumo/ação dos recursos e produtos visuais (2003). Fazem parte do visual também as instituições visuais ou os suportes institucionais dos sistemas visuais, as condições técnicas, sociais e culturais (2005). Para o autor, é preciso ainda, identificar as imagens de referência, recorrentes, catalisadoras, identitárias. Acredita-se que as duas fotografias escolhidas para a análise neste trabalho podem ser consideradas como de “referência”, em relação ao espaço da ferrovia na cidade de Pelotas.

O visível diz respeito à esfera do poder, aos sistemas de controle, ao ver/ser visto e ao dar-se/não–se-dar a ver, aos objetos de observação e às prescrições sociais e culturais de ostentação (2003). Em suma, trata de visibilidade e invisibilidade. Neste ponto, cabe screscetar o que diz André Rouillé, quando afirma que “as visibilidades não se reduzem aos objetos, às coisas ou às qualidades sensíveis, mas correspondem a um esclarecimento das coisas: uma maneira de ver e de mostrar, uma certa distribuição do opaco e do transparente, do visto e do não visto” (ROUILLÉ, 2009:39) Meneses ainda destaca os “regimes escópicos”, a espetacularização da sociedade e o oculocentrismo como temas centrais do visível. Considera, contudo, o espetáculo não como uma coleção de imagens, mas como uma relação social entre pessoas mediadas por imagens; “o espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna uma imagem” (MENESES, 2005)

A visão, por fim, são os instrumentos e técnicas de observação, os papéis do observador, os modelos e modalidades do “olhar”. Meneses ressalta que “a visão é uma construção histórica, que não há universalidade e estabilidade na experiência de ver e que uma história da visão depende de muito mais do que de alterações nas práticas representacionais” (2005:4-5). Neste sentido, não cabe simplesmente dizer que há diversas formas pela qual uma visualidade pode ser representada, mas reconhecer que, mais importante do que a forma de representação, são os modos como essa representação

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é vista, ou seja, as conveniências sociais e as lógicas partilhadas que permitem que ela produza os efeitos esperados.

Considera-se, assim, que as imagens fotográficas do espaço ferroviário de Pelotas, no fim do século XIX, constituem uma determinada iconosfera, pois os itens fotografados seguem uma lógica e escolhas determinadas que se repetem, formando um “visual” específico. Fazem parte, ainda, de um certo modelo de visibilidade – e invisibilidades –, estando permeadas de jogos de poder, de escolhas e interesses. Por fim, partilham da construção de um “modo de olhar”, de uma visão, o que lhes capacita, além de representar, a construir a própria espacialidade em questão.

A partir disto, então, quer-se apresentar alguns exemplos de fontes para o estudo de uma história visual da ferrovia. O intuito não é, neste momento, realizar a análise e interpretação destas, mas apontar suas potencialidades enquanto indícios do passado.

A primeira fonte escolhida é exemplar de um tipo clássico nos estudos de imagem na virada de século XIX para o XX: um cartão-postal (fig.1).

Fig.1. A estação no início do século XX, foto de cartão-postal. Acervo pessoal de Carlos Cornejo.

Nesta imagem, adaptada de uma fotografia, a Estação de Pelotas foi representada nos moldes da pintura de Monet, lembrada por Hardmam, a qual tipifica as “formidáveis ‘fábricas de sonhos’ ou ‘catedrais do século XIX’ -, que se representam, assim, como novo cenário privilegiado do tráfico urbano”, sendo a gare ainda “a figura animada de uma ‘princesa rumorosa, com cara de um relógio, bufando ferro e fumo’” (2005:48).

Pode-se tomar, aqui, as palavras de Hardman quando diz que se vislumbra, assim, “o caráter projetivo das imagens produzidas pela máquina fotográfica, seu papel decisivo no registro e fixação de novo imaginário inscrito na ideia de utopia técnica em que a paisagem, revirada em obra pública, sinaliza para um futuro calcado na esperança do progresso” (2005:223) e aplicá-las também para o caso do cartão-postal.

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O segundo documento imagético elencado é uma fotografia do final do século XIX – aproximadamente do ano de 1884 (fig.2). Observa-se a representação visual de uma locomotiva, um dos símbolos clássicos das ferrovias, e ao seu lado a figura de um trabalhador ferroviário.

Fig.2. Locomotiva tipo Mogul da Baldwig... 1884.

Acervo do arquivo histórico do Museu do Trem , São Leopoldo/RS

As ferrovias, com a fumaça e a velocidade das locomotivas, o vai-e-vem dos passageiros, a passagem rápida de um local ao outro, são exemplos de uma nova paisagem urbano-industrial que se consolida no fim dos oitocentos. Esta paisagem, entretanto, não diz respeito somente à materialidade, mas ao próprio ambiente social e cultural que passa a marcar as relações entre pessoas e lugares. Neste sentido, cria-se uma necessidade – e oportunidade – de buscar apreender toda a instabilidade e representar imageticamente o espetáculo moderno. André Rouillé lembra, assim, que a fotografia foi a melhor resposta a esta necessidade, o que fez com que fosse projetada “no coração da modernidade, e que lhe valeu alcançar o papel de documento, isto é, o poder de equivaler legitimamente às coisas que ela representava” (ROUILLÉ, 2009:31).

A fotografia, assim, faz parte de uma série de fenômenos que caracterizam a sociedade industrial, relacionando-se com eles e lhes dando legitimidade. A história da fotografia relaciona-se com a da ferrovia não só por terem surgido praticamente na mesma década, mas por estarem ligadas, uma no fortalecimento da função moderna da outra. Muito do poder de encantamento das ferrovias só se concretizou em virtude das imagens – a maioria fotográficas – que as representavam dessa forma; por outro lado, há um grande número de fotógrafos contratados para acompanhar a construção de diversas linhas, dando validade à fotografia como método de registro e veiculação do moderno.

No Brasil, esta relação não se dá de forma diferente, sendo logo aproveitada e adaptada. Francisco Foot Hardman (2005) acredita que a civilização brasileira, ao “adentrar

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o território da modernidade” parece ter se oferecido totalmente às “coleções de flashes e cartões-postais” produzidas por uma câmara lúcida que fosse ao mesmo tempo cúmplice e absolvidora de suas lacunas. Com a profusão da fotografia, assim, a sociedade brasileira a toma como ícone e instrumento de construção imagética de si, na qual representa o espetáculo de uma promessa e uma crença de modernidade – mais do que sua realidade.

O terceiro exemplo de fonte é um croqui de locomotiva (fig.3), onde está explicado como deveriam ser fixados a numeração e o letreiro.

Fig. 3. Letreiros e numeração nas locomotivas e tenders. Escala 1:16. Arquivo histórico do Museu do Trem, São Leopoldo/RS

O croqui é uma construção visual diferente da fotografia e, em um primeiro momento, poderia ser considerado como um detentor de informações visuais “secundário”, pois não possui um aspecto próximo ao “real” que o olho teria visto no espaço oitocentista. A explicação da normatização matemática do tamanho das letras e dos números, assim como a exigência da cor dourada para estes, contudo, dão o “tom” visual para quem vê a passagem do trem. Além disto, cabe lembrar que o croqui possui uma função técnica, de educação para quem fabrica as locomotivas.

As duas últimas fontes elencadas dizem respeito ao mesmo elemento do espaço ferroviário de Pelotas: a ponte férrea sobre o São Gonçalo. Fazem parte do “Regulamento sobre a ponte giratória do São Gonçalo e instrucções especiais sobre o sistema de Bloque”, publicado em 1913, com instruções para os empregados da linha. A primeira, constitui-se de um trecho do texto explicativo:

As linhas simples entre as juncções das linhas da Companhia Franceza nos dois lados da ponte sobre o rio São Gonçalo, será operada com o systema de Bloque Absolute, e será governada pelo seguinte systema de signaes de Bloque Semaphorico

“A posição normal dos braços dos Semaphoros será a horisontal – PERIGO – (...)

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passar o Semaphoro. O machinista pedirá o Semaphoro com 4 apitos curtos. Si a linha estiver livre e o empregado tiver obtido licença, elle baixará o signal competente – SEGUIR – (...)

O machinista deve ver a mudança dos signaes nos Semaphoros, e para provar que vio, deverá dar um apito curto, depois de tel-pedido com os 4 apitos curtos, e o Semaphoro não deve ser manipulado antes que o Machinista o tenha pedido pelos 4 apitos curtos. Os Chefes de trem deverão certificar-se que o signal foi regularmente trocado antes de entrar com o trem no Bloque. (...)

Os Machinistas devem ver os signaes trocarem-se. (...)

Durante o dia, emquanto a ponte estiver aberta, os braços dos semaphoros devem indicar LINHA IMPEDIDA (posição horisontal) e as taboletas nas cabeceiras da ponte devem apresentar a Côr Vermelha.

VII

Estando a ponte fechada e na posição de dar passagem aos trens, no lado por onde elles devem entrar, o semaphoro deve indicar LINHA IMPEDIDA (braço horizontal) e a taboleta na cabeceira da ponte deve mostrar a Côr Verde. Depois de o guarda ter visto que o trem tem que parar em frente ao semaphoro, o semaphoro deve ser mudado indicando linha livre e o trem a seguir. \(...) VIII

Durante a noite os signaes feitos pelos semaphoros e pelas taboletas serão substituídos por outros nos mesmos lugares, feitos com lanternas apresentando respectivamente as cores Vermelha ou Verde, conforme a ponte estiver aberta ou fechada.

IX

Quando a ponte estiver aberta, o disco electrico das estações de Pelotas e das juncções deve apresentar a Côr Vermelha, e quando estiver fechada deve despertar uma campainha e apresentar a Côr Branca.1

Chama a atenção o caráter técnico das instruções, ao mesmo tempo em que apresentam uma grande potencialidade informativa sobre o cenário que se formava no espaço da ponte férrea durante o momento descrito. Informações estas que não são apresentadas na forma imagética, mas, em contrapartida, não deixam de ser visuais.

A última fonte é complementar à descrição apresentada acima, representando em uma planta a demarcação de cada fase do procedimento:

1 COMPAGNIE AUXILIARE DE CHEMINS DE FÉR AU BRESIL;VIAÇÃO FÉRREA DO RIO GRANDE DO SUL. Regulamento sobre a ponte giratória do São Gonçalo e instrucções especiais sobre o sistema de Bloque. Porto Alegre: Filial da Liv do Globo, julho 1913. p.4-7. Acervo do Arquivo Histórico do Museu do Trem, São Leopoldo/RS.

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Fig. 4. COMPAGNIE AUXILIARE DE CHEMINS DE FÉR AU BRESIL;VIAÇÃO FÉRREA DO RIO GRANDE DO SUL. Regulamento sobre a ponte giratória do São Gonçalo e instrucções especiais

sobre o sistema de Bloque. Porto Alegre: Filial da Liv do Globo, julho 1913. (anexo). Acervo do Arquivo Histórico do Museu do Trem, São Leopoldo/RS.

Acrescendo dados à descrição anterior, vêem-se desenhados na representação da espacialidade os exatos pontos de parada do trem, em cada momento de operação da passagem na ponte. É possível, assim, calcular aproximadamente como se dava a utilização do espaço e quais as mudanças da percepção visual das cores (anteriormente explicadas) em cada uma destas paradas. Da mesma forma como o croqui, estes dois últimos exemplos de fontes apresentam caráter marcadamente técnico, destinado a um público específico, detentor dos “pré-requisitos” para um certo modo de olhar. Por outro lado, trazem indícios de como estes elementos presentes no espaço eram vistos e sentidos por quem passava, vivia, observava o local.

Considerações finais

A partir das discussões teórico-metodológicas e dos exemplos apresentados, defende-se que o estudo histórico dos modos de ver não pode se restringir a fontes imagéticas no sentido estrito do termo, ou seja, a representações visuais adquiridas ou criadas pelo homem por meio de técnicas mecânicas e/ou artísticas – como gravuras, pinturas, fotografias – produzidas especificamente com o intuito de registrar ou criar determinadas formas de recepção visual sobre algum fato ou local. No caso das estradas de ferro, assim

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como em muitos que caracterizam de formas múltiplas a vida em sociedade, a necessidade de serem criadas visualidades espaciais está interligada não somente a questões artísticas e culturais, mas também econômicas, administrativas, logísticas e técnicas, fundamentais para o funcionamento deste serviço. Estas, entretanto, não se limitam a trazer indícios somente sobre os aspectos para os quais foram inicialmente intencionados, mas auxiliam a compreender variados graus e formas de construção visual.

Dessa forma, faz-se necessário concordar com Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses (2005), quando este afirma que “as imagens não são puros conteúdos em levitação ou meras abstrações”, mas, sobretudo, possuem materialidade, sendo artefatos que não só representam, como também agem na vida social. É preciso indagar qual o papel social que estas fontes ocupam, para o que foram destinadas, a forma como podem ter ultrapassado seu direcionamento inicial e, principalmente, qual é a sua interlocução com as demais fontes – tanto no momento de sua produção, quanto no trabalho historiográfico.

Referências Bibliográficas

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Referências

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