Processo 3133/08.1TBVCT.G1.S1 Data do documento 30 de junho de 2021 Relator Ferreira Lopes
SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA | CÍVEL
Acórdão
SUMÁRIO
I - A consideração do chamado dano biológico como componente do dano patrimonial futuro, não significa que o julgador deva autonomizá-lo no cômputo da indemnização por perda da capacidade de ganho; deve apenas reflectir na indemnização a capitis deminutio do lesado, a diminuição da sua capacidade de ganho, valoração que não pode deixar de ser feita com base num juízo de equidade, dentro dos limites que tiver por provados (nº3 do art. 566º do CC).
II – O organismo da segurança social suíço, interveniente principal na acção cível instaurada por lesado em acidente de viação ocorrido em Portugal, que nos termos da legislação daquele país indemnizou o Autor, emigrante na Suíça, por vários danos emergentes do acidente, com culpa exclusiva do condutor do veículo segurado na Ré, tem direito, por sub-rogação, ao abrigo da legislação suíça aplicável (o art. 65º alínea 1, da Lei de Circulação Rodoviária), a reclamar da seguradora do responsável pelo acidente, o que pagou ao lesado.
Acordam no Supremo Tribunal de Justiça
AA, residente na freguesia …, do concelho …, instaurou a presente acção declarativa com processo ordinário destinada a efectivação de responsabilidade civil emergente de acidente de viação contra Seguradoras Unidas, SA, com sede na Avenida …, …, em Lisboa.
Foi requerida e deferida a intervenção principal provocada, como
associada do autor, da Schweizerische Unfalversicherungsanstalt
(SUVA), com sede …, …, …, …, na Suíça.
O autor fundamentou a sua pretensão na ocorrência do sinistro que descreve, do qual resultou lesões corporais para o mesmo, e que imputa à conduta ilícita e culposa da condutora do veículo seguro na ré e do qual resultaram danos patrimoniais e não patrimoniais que computa, à data da propositura da acção, na quantia global de € 599.851,08.
Terminou pedindo a condenação da demandada a pagar-lhe a referida quantia global líquida de € 599.851,08, acrescida de juros de mora à taxa legal, contados desde a data da citação e a indemnização que se vier a ser fixada em decisão ulterior, por força das intervenções e tratamentos, etc. a que ainda se terá que sujeitar.
Citada, a Ré apresentou contestação, em que aceita a dinâmica do acidente, impugnando, todavia, a existência e montante dos prejuízos invocados.
Alegou já ter suportado despesas várias ao autor no valor de € 1.445,74, que lhe fez pagamentos a título de indemnização pela perda de rendimentos, garantiu-lhe tratamentos médicos e medicamentoso, suportando o respectivo
custo, defendendo que deve ser abatida a qualquer indemnização que seja fixada ao autor os valores por ele já recebidos da referida interveniente. Concluiu pedindo que a acção seja julgada improcedente ou só parcialmente, com as consequências legais.
A interveniente Schweizerische Unfalversicherungsanstalt (Suva), para tanto citada, deduziu contra a ré pedido autónomo, pedindo a condenação desta a pagar-lhe a quantia de CHF 222.602,01, acrescida de juros de mora desde a citação, bem como os danos futuros em que a interveniente venha a incorrer decorrente do acidente; acrescidas de juros de mora vincendos até efectivo e integral pagamento.
Alegou ter despendido o aludido montante em consequência do embate discutido nos autos, em perdas salariais e despesas médicas, sendo uma entidade equiparada à Segurança Social que presta assistência aos seus beneficiários nos termos da Lei Suíça.
A ré apresentou contestação ao pedido de reembolso e, não obstante reconhecer a responsabilidade pela regularização do sinistro, impugnou os montantes suportados pela SUVA.
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A final, foi proferida sentença que, na parcial procedência da acção, condenou a Ré Seguradoras Unidas, SA a pagar ao autor AA:
- a título de danos não patrimoniais, a quantia de € 60.000,00 (sessenta mil euros), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a presente sentença e até integral pagamento, deduzida do valor já pago pela
interveniente a título de compensação de integridade (no valor de CHF
69.420,00);
- a título de despesas e objectos danificados, a quantia de € 247,18, acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação e até integral pagamento;
- a título de perdas salariais, a quantia de € 103.500,00 (cento e três mil e quinhentos euros), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação até integral pagamento, deduzida do valor já pago pela interveniente a título de perdas salariais (no valor de CHF 129.473,80)
- a título de perda de ganhos futuros, a quantia de € 320.000,00 (trezentos e
vinte mil euros), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados
desde a citação até integral pagamento, deduzida do valor pago pela interveniente ao autor a título de pensões até ao encerramento da discussão da causa (sendo que o valor já liquidado ascende a CHF 343.842,27), e ainda da quantia de € 15.500,00 já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa;
E condenou a ré Seguradoras Unidas, SA a pagar à interveniente
Schweizerische Unfalversicherungsanstalt (SUVA) as seguintes quantias:
- CHF 69.420,00 (sessenta e nove mil, quatrocentos e vinte francos suiços),
de CHF 80.901,46 (oitenta mil, novecentos e um francos suiços e quarenta e seis cêntimos),
francos suiços e oitenta cêntimos),
de CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suiços e vinte e sete cêntimos)
- ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do
respectivo cumprimento - e ainda a quantia que se vier a liquidar
posteriormente, relativamente aos valores que ela entretanto tiver satisfeito ao autor, desde a sua última ampliação do pedido em 10.05.2019 até ao encerramento da audiência de julgamento, tudo acrescido dos juros de mora desde a data de notificação à ré de cada um dos pedidos de reembolso e até integral pagamento.
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Da sentença apelaram o Autor e a Ré, com parcial sucesso pois que a Relação …, por acórdão de 21.11.2018, reformado pela decisão da conferência de 03.12.2020, decidiu:
A - Condenar a Ré Seguradoras Unidas, SA. a pagar ao autor AA:
- A título de danos não patrimoniais, a quantia de € 70.000,00 (setenta mil euros), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a presente sentença e até integral pagamento, deduzida do valor já pago pela interveniente a título de compensação de integridade (no valor de CHF 69.420,00), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar;
- A título de despesas e objectos danificados e despesa efectuadas, a quantia de € 612,18 (seiscentos e doze euros e dezoito cêntimos), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação e até integral pagamento.
- A título de perdas salariais, a quantia de € 103.500,00 (cento e três mil e quinhentos euros), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação até integral pagamento, deduzida do valor já pago pela interveniente a título de perdas salariais (no valor de CHF 129.473,80), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar;
- A título de perda de ganhos futuros, a quantia de € 320.000,00 (trezentos e vinte mil euros), acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação até integral pagamento, deduzindo-se da parcela de dois terços desse valor, ou seja, 213 333,33 €, o valor pago pela interveniente ao autor a título de pensões até ao encerramento da discussão da causa (sendo que o valor já liquidado ascende a CHF 343.842,27), e ainda a quantia de € 15.500,00 (já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, e condenando-se a Ré a pagar ao Autor, ainda, sem qualquer desconto, o remanescente, ou seja, € 106 666,67 (correspondentes a uma terça parte da indemnização pela perda de ganhos futuros – 320 000,00 € -, não sujeita a desconto).
B - Condenar a ré Seguradoras Unidas, SA a pagar à interveniente Schweizerische Unfalversicherungsanstalt (SUVA) as seguintes quantias:
- CHF 69.420,00 (sessenta e nove mil, quatrocentos e vinte francos suíços), ou, no máximo, o valor correspondente ao valor da indemnização por danos não patrimoniais fixada ao Autor (70.000.,00 €), na data do cumprimento, que a SUVA pagou ao Autor a título de danos não patrimoniais;
- CHF 80.901,46 (oitenta mil, novecentos e um francos suíços e quarenta e seis cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento –, e que a SUVA pagou a título de despesas médicas;
- CHF 129.473,80 (cento e vinte e nove mil, quatrocentos e setenta e três francos suíços e oitenta cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento –, a título de perdas salariais ou, sendo este superior, a quantia de € 103.500,00 (cento e três mil e quinhentos euros), valor correspondente ao valor da indemnização por perdas salariais fixado, na data do cumprimento;
- “CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) – ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de € 197.833,33,00 (cento e noventa e sete mil oitocentos e oitenta e três euros e trinta e três cêntimos), resultantes da diferença entre a indemnização por dano patrimonial futuro fixada ao Autor - € 213.333,33 - e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa - € 15.500,00 ).
Ainda inconformados, o Autor e a Ré interpuseram recursos de revista, rematando as respectivas alegações com as seguintes conclusões:
Autor:
1ª. Vem o presente recurso interposto do Douto Acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de …., nos autos, na parte em que julgou improcedentes os pontos 33 a 41 das conclusões da sua apelação.
2ª. As instâncias fixaram uma única indemnização global de €320.000,00 a título de “perda de capacidade de ganho”.
3ª. Não obstante, não destrinçaram, no referido valor de €320.000,00 fixado a título de “perda de capacidade de ganho” (ou dano corporal), qual a parcela destinada a compensar o dano biológico e qual a destinada a compensar o dano patrimonial propriamente dito.
4ª. Pese embora constitua uma parte da indemnização pelo défice funcional permanente ou perda de capacidade de ganho, a compensação pelo dano biológico não pode ser levada em conta para os efeitos previstos no art. 6.º do Decreto-Lei n.º 187/2007, de 10 de Maio.
5ª. O douto acórdão recorrido fixou uma indemnização de €320.000,00, a título do que qualificou como “perda de capacidade de ganho”, mas não discriminou, dentre essa quantia, qual a parcela que se destinava a indemnizar o dano biológico e qual a parcela que se destinava a compensar perda de ganho.
6ª. Compreendendo a indemnização pela perda de capacidade de ganho ou défice funcional permanente o dano biológico e estando este excluído do âmbito de aplicação do art. 6.º do Decreto-Lei n.º 187/2007, de 10 de Maio, essa diferenciação revestia-se da maior importância para ajuizar sobre o desconto dos valores pagos pela Interveniente SUVA.
7ª. Subsistindo a dúvida quanto ao valor atribuído a cada uma das parcelas (dano biológico e dano patrimonial propriamente dito), por inerência, teria de ser aplicada a disposição do n.º 2 do art. 6.º do referido diploma, de acordo com a qual “Quando não seja discriminado o valor da indemnização por perda da capacidade de ganho, presume-se que a mesma corresponde a dois terços do valor total da indemnização atribuída.”
8ª. É que, estando-se no quadro de aplicação de um regime análogo ao da Segurança Social Portuguesa, o regime previsto no Decreto-Lei n.º 187/2007, de 10 de Maio não se poderá deixar de ter por aplicável.
9ª. Transpondo o acima exposto para o caso concreto, temos que, não se distinguindo, na douta decisão recorrida, qual a parcela dos € 320 000,00 destinada a compensar o dano biológico e o dano patrimonial propriamente dito, dever-se-ia ter concluído que esta última era de dois terços desse valor, olhando ao critério geral fixado no n.º 2 do art. 6.º do Decreto-Lei n.º 187/2007, de 10 de Maio.
10ª. Em consequência, o Tribunal recorrido, no que respeita à parcela indemnizatória de € 320 000,00, apenas deveria ter sujeito a desconto de valores pagos pela Interveniente SUVA dois terços desse valor, ou seja, € 213 333,33, condenando a Ré a pagar ao Autor (sem qualquer desconto) o remanescente, ou seja, € 106 666,67.
11ª. A douta decisão recorrida, na parte em que determinou a dedução à totalidade da indemnização fixada a título de compensação pelo dano corporal (€320000,00) o valor já pago pela Interveniente SUVA a título de perdas salariais, violou, além de outras, a disposição do art. 6.º, n.º 2 do Decreto-Lei n.º
187/2007, de 10 de Maio
12ª. Daí que se imponha a procedência do recurso, com a consequente:
a) revogação do segmento decisório do Douto Acórdão proferido nos autos, na parte em que condenou a Ré a pagar ao Autor, “A título de perda de ganhos futuros, a quantia de € 320.000,00 acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação até integral pagamento, deduzida do valor pago pela interveniente ao autor a título de pensões até ao encerramento da discussão da causa (sendo que o valor já liquidado ascende a CHF 343.842,27), e ainda da quantia de € 15.500,00 já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar”
b) substituição dessa parte do segmento decisório por decisão que condene a Ré a pagar ao Autor, a título de perda de ganhos futuros, a quantia de € 320.000,00, acrescida de juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a citação até integral pagamento, deduzindo-se da parcela de dois terços desse valor, ou seja, €213.333,33, o valor pago pela interveniente ao autor a título d e pensões até ao encerramento da discussão da causa (sendo que o valor já liquidado ascende a CHF 343.842,27), e ainda a quantia de € 15.500,00 (já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, e condenando-se a Ré a pagar ao Autor, ainda, sem qualquer desconto, o remanescente, ou seja, € 106 666,67 (correspondentes a uma terça parte da indemnização pela perda de ganhos futuros – 320 000,00 € -, não sujeita a desconto)
c) revogação do segmento decisório do Douto Acórdão proferido nos autos, na parte em que condenou a Ré a pagar à Interveniente SUVA “CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de € 305.000,00 (trezentos e cinco mil euros, resultantes da 109 diferença entre a indemnização fixada ao Autor - € 320.000,00 - e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa - € 15.500,00 -), valor correspondente ao valor da indemnização por perdas salariais fixado, na data do cumprimento”;
d) substituição dessa parte do segmento decisório por decisão que condene a Ré a pagar à Interveniente SUVA CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de€ 213 333,33 € (cento e noventa e oito mil trezentos e trinta e três euros e trinta e três cêntimos, resultantes da diferença entre dois terços da indemnização fixada ao Autor - € 213 333,33 - e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa - € 15.500,00 -), valor correspondente ao valor da indemnização por perdas salariais fixado, na data do cumprimento”.
Conclusões da Ré:
1ª. Sendo certo que a SUVA se encontra sub-rogada nos direitos do autor, o direto no qual a SUVA se sub-rogou é o direito do autor à indemnização fixado de acordo com a Lei Portuguesa.
2ª. O direito do sub-rogado, no caso a SUVA, contra terceiros é conformado por dois limites: por um lado não pode exigir do terceiro responsável pelo sinistro quantia superior à que pagou ao primitivo credor; por outro, não pode exigir desse terceiro quantia superior à do crédito do primitivo credor.
3ª. Assim, para uma correta solução jurídica do caso em análise, devem, em primeiro lugar, ser quantificados os danos sofridos pelo autor, sem atender aos valores que este já recebeu da SUVA, da Ré ou de outras entidades, e, de seguida, vem ser imputadas e abatidas nessas quantias verbas pagas pela SUVA (e, bem assim, por outras entidades).
4ª. E, depois dessa operação, a Ré apenas poderia ter sido condenada a pagar ao autor a eventual diferença que se encontrasse entre o valor da indemnização fixada ao demandante e as quantias que dela foram suportadas pela SUVA e outras entidades.
5ª. Atendendo aos factos dados como provados e apelando à equidade, entende a recorrente que – antes de qualquer abatimento – os danos não patrimoniais sofridos pelo autor não deveriam ser quantificados em quantia superior à de 35.000€.
6ª. E, se não se entender ser adequada essa verba, sempre se deveria quantificar o dano moral do autor – antes de qualquer abatimento - em quantia inferior à fixada no douto acórdão, o que, subsidiariamente, se requer.
7ª. Atendendo aos factos dados como provados, entende a Ré que o dano decorrente da incapacidade permanente do autor – antes de qualquer abatimento - se deveria fixar no valor de 150.000,00€ (cento e cinquenta mil
euros).
8ª. E, se não se entender ser adequada essa verba, sempre se deveria quantificar o dano decorrente da incapacidade permanente do autor – antes de qualquer abatimento -em quantia inferior à fixada no douto acórdão, o que, subsidiariamente, se requer.
9ª. Apesar de no douto acórdão sob censura se ter sanado a nulidade competida na sentença do Tribunal de primeira instância, dando-se agora como provados os factos alegados pela Ré no articulado superveniente de 14/12/2018 (omissos naquela primeira decisão) o Tribunal da Relação não se pronunciou, no douto acórdão sob censura, sobre a questão do abatimento na indemnização pela incapacidade permanente de que o autor ficou portador das pensões de invalidez que recebeu do CNP e venha a receber na pendência da ação.
10ª. Essa questão foi expressamente suscitada pela Ré nas conclusões XXVII a XXXVI das alegações do recurso de apelação e não foi decidida no douto acórdão, oque acarreta a nulidade dessa douta decisão, a qual, expressamente, se invoca.
11ª. Sem prejuízo da nulidade do douto acórdão acima invocada, nada impede, salvo melhor opinião, que o Supremo Tribunal de Justiça conheça da questão do abatimento na indemnização devida ao autor pela incapacidade permanente das pensões por invalidez pagas pelo CNP e das que vierem a ser pagas na pendência da ação.
12ª. Essas duas prestações – a pensão de invalidez e a indemnização pela incapacidade permanente – concorrem no sentido de eliminar o dano, pelo que são sobreponíveis e não cumuláveis, independentemente da causa da invalidez.
13ª. Em face do exposto, considera a Ré que, pelo menos tendo por referência as pensões que o A já recebeu (6441,90€) e irá receber até à data do trânsito em julgado da decisão que puser termo a este processo, se impõe que se proceda ao respetivo abatimento na indemnização pelo défice permanente da integridade física, nos termos que adiante melhor se resumirão.
14ª. Uma das questões que a Ré suscitou nas suas alegações de recurso de apelação foi a da forma de contabilização dos juros moratórios que devem incidir sobre as prestações eventualmente devidas ao autor (cfr conclusões LXXIV a XCII).
15ª. Decidindo essa questão, fez-se constar da fundamentação do douto acórdão sob censura que “…os juros devidos deverão ser contabilizados em termos legalmente estipulados e contabilizados com relação ás datas que vêm referidas na sentença, em conformidade com a natureza dos danos (danos morais, data da sentença; danos patrimoniais data da citação), devendo incidir, como nela se determina, sobre os valores líquidos a entregar a cada uma das partes (Autor e interveniente), ou seja, deduzidos dos abatimentos a fazer, devendo ser contabilizados e compensados na data do cumprimento da obrigação, se a opção for de a cumprir em euros”.
16ª. Deste trecho da fundamentação do douto acórdão decorre que o entendimento dos julgadores do recurso foio de que os juros moratórios devidos ao Autor devem incidir sobre as quantias líquidas que lhe devam ser entregues, ou seja, sobre as verbas fixadas quanto a cada uma das prestações indemnizações, depois de nelas terem sido abatidas as verbas que já recebeu.
acórdão não parecem ter sido transpostas para a parte dispositiva dessa douta decisão ou, pelo menos, não o foram de forma clara, já que, seguindo-se uma interpretação literal da parte dispositiva dessa decisão, poderíamos admitir que o Tribunal condenou a Ré a pagar ao autor as importâncias indemnizatórias definidas no douto acórdão, acrescidas de juros, abatendo-se os valores pagos pela SUVA (e a verba de 15.500,00€ que a Ré já pagou), apenas ao resultado dessa operação.
18ª. Mas, se assim for, essa decisão está em clara contradição com os seus fundamentos, já que, como se salientou, na fundamentação do douto acórdão foi manifestada posição diametralmente oposta, mais precisamente a de que os juros só devem incidir sobre os montantes líquidos (ou seja, após abatimentos) devidos ao autor.
19ª. Se assim for, a decisão está em clara contradição com os seus fundamentos, o que acarreta a nulidade do douto acórdão, nos termos do disposto no artigo 615.º n.º 1 alínea c) do CPC, nulidade essa que, expressamente, se invoca e que deve determinar a anulação do douto acórdão.
20ª. Admite, no entanto, a Ré que não exista a apontada contradição e que estejamos perante, tão só, uma incorreta interpretação do texto do douto acórdão, ou, salvo o devido respeito, uma mera imperfeição linguística.
21ª. Assim, se for essa a situação, requer-se a Vas Exas que, ao invés de declararem a nulidade do douto acórdão com este fundamento, se dignem, tão só, aclarar o sentido da sua parte decisória, no sentido de que esta deve ser interpretada de acordo com o entendimento expresso na sua fundamentação, ou seja, o de que os juros devem incidir, apenas, “sobre os valores líquidos a entregar a cada uma das partes (Autor e interveniente), ou seja, deduzidos dos
abatimentos a fazer, devendo ser contabilizados e compensados na data do cumprimento da obrigação, se a opção for de a cumprir em euros”.
22ª. Em alternativa, se estivermos perante uma mera imperfeição linguística, ou de expressão, assimilável a um erro material, impõem-se a sua correção, de forma a que fique clara a forma como devem ser contabilizados os juros, condenando-se a Ré, apenas, a pagar juros “sobre os valores líquidos a entregara cada uma das partes (Autor e interveniente), ou seja, deduzidos dos abatimentos a fazer, devendo ser contabilizados e compensados na data do cumprimento da obrigação, se a opção for de a cumprir em euros”.
23ª. Caso não venha a ser anulado o douto acórdão, ou clarificada/corrigida a sua parte dispositiva no que toca à condenação em juros, sempre se imporia a sua revogação no que toca a essa condenação em juros.
24ª. Por via dos pagamentos efetuados ao autor pela Ré, pelo CNP e pela SUVA, o seu direito de indemnização extinguiu-se na parte satisfeita, tendo, inclusivamente, sido transferido por sub-rogação para estas duas últimas entidades.
25ª. Efetuados pela SUVA e CNP tais pagamentos, a Ré já não teria de satisfazer ao demandante qualquer indemnização na parte já liquidada, devendo antes entrega-la à SUVA ou ao CNP sob pena, aliás, de ter de pagar duas vezes as mesmas prestações.
26ª. Se o autor deixou de poder exercer o seu direito na parte já satisfeita, não poderia a Ré incorrer em mora por não lhe entregar tais prestações.
por despesas médicas suportadas, todos os demais montantes cujo reembolso foi por essa entidade reclamado da Ré correspondem, precisamente, às quantias que pagou ao autor.
28ª. Assim, tendo a ré sido condenada a pagar juros moratórios ao autor sobre as indemnizações fixadas (sem abatimento) e, do mesmo passo, juros moratórios à SUVA sobre os valores a abater, é claro que se verifica uma duplicação.
29ª. Por via das quantias que já recebeu, o autor encontra-se já integralmente indemnizado desses danos (dano moral, perdas salariais e incapacidade permanente).
30ª. Ainda que se viesse a entender que o autor não se encontra integralmente indemnizado dos seus danos não patrimoniais, perdas salariais e incapacidade permanente, a Ré, nos termos já explanados nesta motivação de recurso, apenas poderia ser condenada a pagar-lhe a diferença entre os montantes nos quais fossem quantificados esses danos e as quantias que já recebeu da SUVA, da recorrente e do CNP.
31ª. Se assim se entender, a única parcela relativamente à qual se poderia entender que a Ré se manteria em mora seria a da eventual diferença entre os montantes nos quais esses danos fossem quantificados e os valores que o autor já recebeu.
32ª. Logo, se assim se entender, deve ser revogado o douto acórdão na parte em que condenou a Ré a pagar ao autor as indemnizações de 70.000,00€, 103.500,00€ e 320.000€, acrescidas de juros, devendo, nesse caso, a Ré ser condenada a pagar ao autor, apenas, juros sobre a eventual diferença entre as
quantias nas quais venha a ser quantificados esses danos e as verbas que nelas devam ser abatidas, o que, subsidiariamente, se requer.
33ª. Mesmo que assim não se entenda, deve ter-se em consideração o autor já foi total ou parcialmente indemnizado desses danos.
34ª. Logo, não se atendendo o que acima se disse, a Ré só poderia ser condenada a pagar ao autor, juros sobre o montante do capital (que corresponde à indemnização por perdas salariais e incapacidade permanente) que, em cada momento, ainda não estivesse satisfeito, tendo em conta a sua sucessiva redução, por força dos pagamentos entretanto efetuados ou seja:
i) No que toca à incapacidade permanente, depois de fixada a indemnização, os juros devidos ao autor deverão incidir sobre a parte desse valor ainda não satisfeito à data da citação e a contar desta, até à data do primeiro pagamento imediatamente subsequente que a SUVA tivesse efetuado a título de pensão e, a partir daí, sucessivamente, sobre o montante do capital ainda em dívida depois de cada um dos pagamentos efetuados pela SUVA, estes até perfazer o montante a abater de CHF 343.842,27, pela Ré e pelo CNP.
ii) No que toca às perdas salariais, quantificadas em 103.500,00€, os juros devem incidir sobre a parte dessa indemnização ainda não satisfeita à data da citação e a contar desta, até à data do primeiro pagamento imediatamente subsequente que a SUVA tivesse efetuado a título de indemnização por incapacidade permanente e, a partir daí, sucessivamente, sobre os montantes ainda em dívida depois de cada um dos pagamentos efetuados pela SUVA, até perfazer o montante a abater de CHF 129.473,80.
indispensáveis à clara definição da data em que a SUVA, a Ré ou o CNP efetuaram cada um dos pagamentos que reduziram o crédito indemnizatório do autor por perdas salariais e incapacidade permanente, não poderia, ainda assim, a Ré ser penalizada com o pagamento de juros moratórios sobre a totalidade dessas indemnizações desde a citação até integral pagamento.
36ª. Se existirem dúvidas sobre a exata data em que foram pagas as parcelas que perfazem os valores de 129.473,80 e de 343.842,27 CHF pagos pela SUVA, deverá a exata quantificação dos juros devidos ser relegada para momento ulterior, tendo em vista o apuramento da data exata em que os pagamento que devam ser abatidos foram efetuados, de forma a que os juros incidam, apenas, sobre a diferença entre o valor fixado para a indemnização e os pagamentos que, entretanto, tenham sido efetuados ao autor e devam ser abatidos à indemnização
37ª. Em face do que se disse nas conclusões supra, a serem atendidas as razões invocadas pela Ré, deve o douto acórdão ser revogado na parte respeitante às prestações devidas ao autor e, em consequência, proferida nova decisão que condene a Ré, para além da outra prestação que não é posta em causa (612,18€ por despesas e objetos danificados):
- A título de danos não patrimoniais, aquantia de € 35.000€(trinta e cinco mil euros), (ou outra que se considere mais adequada, mas sempre inferior à fixada no douto acórdão), deduzida do valor já pago pela interveniente a título de compensação de integridade (no valor de CHF 69.420,00), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, acrescendo ao valor que, eventualmente, ainda seja devido ao autor, os juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a presente sentença e até integral
pagamento,
- a título de perdas salariais, a quantia de € 103.500,00 (cento e três mil e quinhentos euros), deduzida do valor já pago pela interveniente a título de perdas salariais (no valor de CHF 129.473,80), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, acrescendo ao valor que, eventualmente, ainda seja devido ao autor, os juros de mora, à taxa legalde4%, contados desde a citação até integral pagamento,
- a título de perda de ganhos futuros, a quantia de € 150.000€ (cento e cinquenta mil euros), (ou outra que se considere mais adequada, mas sempre inferior à fixada no douto acórdão), deduzida do valor pago pela interveniente ao autor a título de pensões até ao encerramento da discussão da causa (sendo que o valor já liquidado ascende a CHF 343.842,27), da quantia de € 15.500,00 já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa) e das pensões de invalidez pagas pelo CNP até ao encerramento da discussão da causa, sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, acrescendo ao valor que, eventualmente, ainda seja devido ao autor, os juros de mora, à taxa legal de4%, contados desde a citação até integral pagamento.
38ª. Ou, caso não venha a ser assim entendido, ou seja, se se entender que os juros não são devidos nos termos acima expostos, deve o douto acórdão ser revogado na parte respeitante às prestações devidas ao autor e, em consequência, proferida nova decisão que condene a Ré, para além da outra prestação que não é posta em causa (612,18€ por despesas e objetos danificados).
- A título de danos não patrimoniais, a quantia de € 35.000€(trinta e cinco mil euros), (ou outra que se considere mais adequada, mas sempre inferior à fixada), deduzida do valor já pago pela interveniente a título de compensação de integridade (no valor de CHF 69.420,00), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, acrescendo ao valor remanescente que seja, ainda, eventualmente devido ao autor, os juros de mora, à taxa legal de 4%, contados desde a presente sentença e até integral pagamento,
- a título de perdas salariais, a quantia de € 103.500,00 (cento e três mil e quinhentos euros), deduzida do valor já pago pela interveniente a título de perdas salariais (no valor de CHF 129.473,80), sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, acrescido de juros de mora, contados desde a citação e até integral pagamento à taxa legal de 4%, a incidir sobre o montante de capital que, a partir da data da citação e em cada momento, corresponder à diferença entre o valor fixado para a indemnização e os pagamentos que, entretanto, tenham sido efetuados ao autor e devam ser abatidos à indemnização,
- a título de perda de ganhos futuros, a quantia de € 150.000€ (cento e cinquenta mil euros), (ou outra que se considere mais adequada, mas sempre inferior à fixada), deduzida do valor pago pela interveniente ao autor a título de pensões até ao encerramento da discussão da causa (sendo que o valor já liquidado ascende a CHF 343.842,27), da quantia de € 15.500,00 já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa) e das pensões de invalidez pagas pelo CNP até ao encerramento da discussão da causa,
sendo-lhe, assim, apenas pago a este título, o valor da diferença, se a houver, entre o primeiro e o segundo valor, na data do cumprimento, à taxa de câmbio que se verificar, acrescendo ao valor eventualmente devido os juros de mora, contados desde a citação e até integral pagamento, à taxa legal de 4%, a incidir sobre o montante de capital que, a partir da data da citação e em cada momento, corresponder à diferença entre o valor fixado para a indemnização e os pagamentos que, entretanto, tenham sido efetuados ao autor e devam ser abatidos à indemnização.
39ª. Por fim, se assim não se entender, deve ser revogada o douto acórdão, alterando- se os valores indemnizatórios nos termos acima expostas, com os mesmos abatimentos, mas relegando-se a exata quantificação dos juros devidos, para momento ulterior, tendo em vista o apuramento da data exata em que os pagamento que devam ser abatidos foram efetuados, de forma a que os juros incidam, apenas, sobre a diferença entre o valor fixado para a indemnização e os pagamentos que, entretanto, tenham sido efetuados ao autor e devam ser abatidos à indemnização
40ª. Como decorre do douto acórdão, o direito de reembolso da SUVA foi limitado ao valor que, não fossem os pagamentos que efetuou, seria devido ao autor.
41ª. Caso venha a ser atendida a pretensão da Ré de que seja abatida à indemnização eventualmente ainda devida ao autor as prestações que lhe tiverem sido pagas pelo CNP na pendência desta ação, a ora recorrente só poderá ser condenada a pagar à SUVA a eventual diferença entre a indemnização devida ao demandante a esse título e a quantia de 15.500,00€ adiantada pela Ré as pensões pagas pelo CNP ao autor a título de pensão de invalidez, na pendência desta ação.
42ª. Pelo que, nesse pressuposto, deve ser revogado o douto acórdão e substituído por decisão que opere essa limitação, nos termos que adiante melhor se exporão.
43ª. O direito de reembolso da SUVA emerge do facto de estar sub-rogada num muito concreto direito de indemnização do autor, que é o dano patrimonial futuro decorrente da sua incapacidade permanente.
44ª. Se se viesse a entender que parte da indemnização arbitrada pela incapacidade permanente não tem a mesma natureza das pensões que aquela instituição lhe vem pagando, o direito de reembolso desta deve ser reduzido e limitado ao valor do dano equivalente fixado no douto acórdão.
45ª. De facto, se, como vem sustentando o autor, parte da indemnização arbitrada a propósito da sua incapacidade permanente, se destinara indemnizar outro dano que não o dano patrimonial futuro (por exemplo o dano biológico), o direito de reembolso da SUVA, na parte respeitante às pensões por incapacidade permanente, deve ser reduzido ao valor que for fixado no douto acórdão pelo dano patrimonial futuro do autor, absolvendo-se a Ré do pedido quanto ao remanescente.
46ª. Não pode a Ré ser condenada em juros relativamente a montantes ilíquidos e não liquidados no douto acórdão, do mesmo passo que a SUVA não pode exigi-los enquanto não praticar os atos necessários a tornar líquida a obrigação.
47ª. Deve, pois, ser revogado o douto acórdão na parte em que condenou a Ré a pagar juros à SUVA sobre o montante ilíquido da condenação, absolvendo-se a
recorrente, nessa parte, do pedido.
48ª. Não existindo exata correspondência entre o crédito do lesado e os pagamentos efetuados pela SUVA (já que estes excedem a extensão e quantum daquele), o valor devido à interveniente deve ser reduzido, de forma a conter-se dentro dos limites do direito do demandante.
49ª. Na certeza de que a Ré não tem de pagar à SUVA a totalidade dos valores que esta reclama, mas apenas o valor indemnizatório que seria devido ao autor, não resta outra solução senão a de condenar a Ré a pagar à SUVA juros sobre as quantias que se entender serem-lhe devidas no que toca à prestação danos morais, prestação por incapacidade permanente e 100 prestação por perdas salariais, desde a notificação de cada um dos pedidos, mas na proporção do valor global que lhe seja devido e que, em cada um desses pedidos, tenha sido reclamado. Isto é, fixado o valor integral devido pela Ré à SUVA, deverá, de seguida, procurar-se em cada um dos pedidos de reembolso as verbas correspondente reclamadas em cada um deles, incidindo os juros de mora sobre a proporção do valor global que esteja contido em cada um desses pedidos.
50ª. Em face do exposto e perante tudo o que acima se explanou, deve ser revogado o douto acórdão, também na parte respeitante aos valores devidos à SUVA e, em sua substituição, deve ser proferida decisão que condene a Ré a pagar a essa instituição:
- CHF 69.420,00 (sessenta e nove mil, quatrocentos e vinte francos suíços), ou, no máximo, o valor correspondente ao valor da indemnização por danos não patrimoniais fixada ao Autor (35.000,00 €), (ou outro valor que se considere mais adequado, mas sempre inferior ao fixado no douto acórdão), na data do
cumprimento, que a SUVA pagou ao Autor a título de danos não patrimoniais;
- CHF 80.901,46 (oitenta mil, novecentos e um francos suíços e quarenta e seis cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento –, e que a SUVA pagou a título de despesas médicas,
- CHF 129.473,80 (cento e vinte e nove mil, quatrocentos e setenta e três francos suíços e oitenta cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento–, a título de perdas salariais ou, sendo este superior, a quantia de € 103.500,00 (cento e três mil e quinhentos euros), valor correspondente ao valor da indemnização por perdas salariais fixado, na data do cumprimento,
- CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de correspondente à diferença entre 150.000,00€ (indemnização fixada ao Autor) (ou outra que se considere mais adequada, mas sempre inferior à fixada no douto acórdão) e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa -€ 15.500,00 -) e o valor das pensões de invalidez pagas pelo CNP ao autor na pendência da ação, valor correspondente ao valor da indemnização por incapacidade permanente fixada, na data do cumprimento,
- E ainda a quantia que se vier a liquidar posteriormente, relativamente aos valores que ela, entretanto tiver satisfeito ao autor, desde a sua última ampliação do pedido em 10.05.2019 até ao encerramento da audiência de julgamento, tudo acrescido dos juros de mora desde a datade notificação à ré
de cada um dos pedidos de reembolso e até integral pagamento, incidindo os juros de mora sobre a proporção do valor global que esteja contido em cada um desses pedidos.
51ª. Em alternativa, caso se venha a entender que parte da verba atribuída a título de indemnização pela incapacidade permanente se destina a indemnizar um dano distinto do dano patrimonial futuro (por exemplo o dano biológico), deve o direito de reembolso da SUVA ser reduzido ao valor que for fixado ao autor a título de indemnização pelo seu dano patrimonial futuro (perda de capacidade de ganho), abatido da verba de 15.500,00€ e das verbas correspondentes a 6441,90€, acrescidos das pensões entretanto pagas pelo CNP a título de pensão de invalidez, devendo, nesse caso, ser revogado, nessa parte, o douto acórdão, condenando-se a Ré no pagamento à SUVA;
- da quantia de CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de correspondente à diferença entre a indemnização que vier a ser fixada ao autor pela perda futura de ganhos e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa - € 15.500,00 -) e o valor das pensões de invalidez pagas pelo CNP ao autor na pendência da ação, valor correspondente ao valor da indemnização por incapacidade permanente fixada, na data do cumprimento
52ª. O douto Acórdão sob censura violou as normas dos artigos 496º, 566º, 593º e 805º do Código Civil.
A Ré respondeu ao recurso do Autor e requereu a ampliação do objecto da revista, tendo formulado as seguintes conclusões:
1ª. No que toca à questão que o autor suscitada nas suas alegações de recurso de revista, o douto acórdão do Tribunal da Relação … confirma, com fundamentos que não são essencialmente diversos, a decisão de primeira instância.
2ª. Logo, não é admissível o recurso de revista interposto pelo autor, o qual não deve ser admitido ou conhecido.
3ª. Lendo-se a fundamentação do douto acórdão na parte respeitante à fixação da indemnização pela incapacidade permanente, percebe-se, claramente, que o que subjaz à atribuição da verba de 320.000€ arbitrada (antes do abatimento) a esse título é a consideração da perda de capacidade de ganho e do dano biológico na sua componente ou manifestação patrimonial.
4ª. Por outro lado, o Tribunal não deixou de compensar o dano biológico na sua componente não patrimonial, mas fê-lo na verba fixada pelos danos morais.
5ª. Assim, aquele dano biológico, decorrente da afetação permanente da integridade física, foi um dos aspetos que os julgadores consideraram para fixar a verba compensatória de 70.000,00€, como se vê, de resto, da fundamentação do douto acórdão, mais precisamente na seguinte passagem: “No que respeita aos danos não patrimoniais decorrentes do dano biológico, também atendíveis, pois que a comprovação da perturbação considerável do nível e de qualidade de vida da Recorrente resulta inquestionavelmente da incapacidade permanente e para a vida decorrente do dano biológico de que padece e
padecerá para toda a vida”.
6ª. Ou seja, o dano biológico do autor foi compensado como dano patrimonial com a verba de 320.000,00€ e como dano não patrimonial com parte do montante de 70.000,00€ que lhe foi arbitrado.
7 ª . E isto significa que não há qualquer destrinça a fazer no que toca à indemnização fixada a título de incapacidade permanente, entre a sua componente de perda de capacidade de ganho e dano biológico. Isto porque o que se visou indemnizar a propósito da incapacidade permanente foram os danos patrimoniais (incluindo, portanto, a vertente patrimonial do dano biológico), tendo sido relegada a compensação da vertente não patrimonial do dito dano biológico para uma verba autónoma, por danos morais.
8ª. Disto decorre, portanto, que a indemnização fixada ao autor pela sua incapacidade permanente visa indemnizar o mesmo dano que vem sendo compensado pelas pensões que a SUVA lhe pagou.
9ª. E, sabendo-se que a SUVA está sub-rogada nos direitos do lesado, impunha-se o abatimento naquela indemnização de todas as pensões que pagou ao autor.
10ª. Por outro lado, apesar de se dever ter como absolutamente certo que o direito da SUVA não pode ser superior ao direito do próprio lesado, nada impede que se considere essa instituição sub-rogada, até ao limite dos pagamentos que fez e por causa deles, noutros direitos do lesado, entre eles o seu dano biológico.
ao limite do direito do próprio lesado), aquelas pensões teriam sempre de ser abatidas nessa ou noutras parcelas indemnizatórias a que o autor tivesse direito, entre elas a do dano biológico, o que impõe a improcedência do recurso.
12ª. Se assim não se entendesse, nunca poderia ser atendida a pretensão do autor de subdividir a indemnização pela incapacidade permanente de forma a considerar-se que 1/3 dela corresponde a danos morais.
13ª. De facto, nunca teria este Tribunal de efetuar qualquer destrinça entre o dano biológico e o dano da perda de capacidade de ganho, uma vez que, nos termos em que foram proferidas as decisões dos tribunais inferiores, já foi efetuada essa distinção, fixando ao autor uma indemnização por todos os danos patrimoniais decorrentes da sua incapacidade (incluindo o dano biológico enquanto dano patrimonial) e os danos morais (aí se incluindo aquele dano biológico na sua vertente não patrimonial).
14ª. Por outro lado, não é aplicável ao caso a regra do artigo 6º do DL 187/07.
15ª. Consequentemente, também por esta razão, deve improceder o recurso.
16ª. Se, por absurdo, se viesse a reconhecer razão ao demandante, sempre se imporia, em coerência, que a decisão proferida fosse alterada em conformidade.
17ª. De facto, no essencial, o autor pretende que seja alterado o segmento decisório na parte em que condenou a Ré a pagar-lhe a quantia de 320.000,00€, abatida das verbas pagas pela SUVA, por outra que condene a Ré a pagar-lhe os ditos 320.000,00€, deduzida, apenas, de 213 333,33 e € 15.500,00, condenando-se a Ré a pagar ao Autor, ainda, sem qualquer
desconto, o remanescente, ou seja, € 106 666,67 (correspondentes a uma terça parte da indemnização pela perda de ganhos futuros – 320 000,00 € -, não sujeita a desconto).
18ª. Ora, para que se pudesse concluir nesse sentido, seria necessário que se considerasse que a SUVA, no que toca aos ditos 106.666,67€ que o autor reclama para si, não se encontra sub-rogada nos direitos do autor.
19ª. Mas, se assim fosse e em coerência, o tribunal teria sempre de alterar, igualmente, o segmento decisório na parte respeitante à SUVA.
20ª. Com efeito, como a Ré sustentou nas alegações do recurso de revista interposto pela ora recorrida, sendo certo que a SUVA se encontra sub-rogada nos direitos do autor, o direto no qual a SUVA se sub-rogou é o direito do autor à indemnização fixado de acordo com a Lei Portuguesa e o direito do sub-rogado, no caso a SUVA, contra terceiros é conformado por dois limites: por um lado não pode exigir do terceiro responsável pelo sinistro quantia superior à que pagou ao primitivo credor; por outro, não pode exigir desse terceiro quantia superior à do crédito do primitivo credor.
21ª. Ora, face a estas considerações, se se viesse a entender que parte da indemnização arbitrada pela incapacidade permanente não tem a mesma natureza das pensões que a SUVA lhe vem pagando, o direito de reembolso desta deveria, em coerência, ser reduzido e limitado ao valor do dano equivalente que se viesse a entender ser devido ao autor.
22ª. Daqui resulta que, a considerar-se que o dano patrimonial futuro sofrido pelo autor deve ser indemnizado apenas com o valor correspondente a 1/3 do valor global arbitrado (ou seja, nos termos estabelecidos no douto acórdão sob
censura, que dos 320.000,00€ só 213.333,33€ se destinaram a indemnizar tal dano) sempre se teria reduzir, na mesma proporção, o valor que a Ré teria de pagar à SUVA.
23ª. E, assim, importaria julgar procedente, entre outras a conclusão “LI” do seu recurso de revista que a ora Ré interpôs, onde faz a seguinte consideração “caso se venha a entender que parte da verba atribuída ao Autor a título de indemnização pela incapacidade permanente se destina a indemnizar um dano distinto do dano patrimonial futuro (por exemplo o dano biológico), deve o direito de reembolso da SUVA ser reduzido ao valor que for fixado ao autor a título de indemnização pelo seu dano patrimonial futuro (perda de capacidade de ganho), abatido da verba de 15.500,00€ e das verbas correspondentes a 6441,90€, acrescidos das pensões entretanto pagas pelo CNP a título de pensão de invalidez, devendo, nesse caso, ser revogado, nessa parte, o douto acórdão, condenando-se a Ré no pagamento à SUVA;
- da quantia de CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de correspondente à diferença entre a indemnização que vier a ser fixada ao autor pela perda futura de ganhos e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa - € 15.500,00 -) e o valor das pensões de invalidez pagas pelo CNP ao autor na pendência da
ação, valor correspondente ao valor da indemnização por incapacidade permanente fixada, na data do cumprimento;
reduzir-se, em conformidade, o direito de reembolso da SUVA, conforme sustentado pela Ré nas suas alegações do recurso de revista.
2 5 ª . Vem a ora recorrida sustentando, reiteradamente, quer na fase dos articulados, quer em resposta a cada uma das ampliações de pedido requeridas pela Suva, quer, também, nas alegações e contra-alegações de recurso que apresentou, que, sendo certo que a SUVA se encontra sub-rogada nos direitos do autor, o direto no qual essa entidade se sub-rogou é o direito do autor à indemnização fixado de acordo com a Lei Portuguesa.
26ª. A ora recorrida vem, ainda, sustentando, reiteradamente, que o direito do sub-rogado, no caso a SUVA, contra terceiros é conformado por dois limites: por um lado não pode exigir do terceiro responsável pelo sinistro quantia superior à que pagou ao primitivo credor; por outro, não pode exigir desse terceiro quantia superior à do crédito do primitivo credor
27ª. Sucede, porém, que o autor sustenta nas suas alegações de recurso de revista que deve ser alterado o segmento decisório na parte em que condenou a Ré a pagar-lhe a quantia de 320.000,00€, abatida das verbas pagas pela SUVA, por outra que condene a Ré a pagar-lhe os ditos 320.000,00€, deduzida, apenas, de 213 333,33 e € 15.500,00, condenando-se a Ré a pagar ao Autor, ainda, sem qualquer desconto, o remanescente, ou seja, € 106 666,67 (correspondentes a uma terça parte da indemnização pela perda de ganhos futuros – 320 000,00 € -, não sujeita a desconto).
28ª. Ora, se se viesse a atender a essa pretensão do autor, o direito de reembolso da SUVA deveria, em coerência, ser reduzido e limitado ao valor do dano equivalente que se viesse a entender ser devido ao autor.
29ª. Ora, nas suas alegações de recurso de revista, a Ré já suscitou esta questão, mais precisamente na sua conclusão “LI”
30ª. Na perspetiva da ora recorrida, a questão em causa já se encontra devidamente suscitada nas alegações do recurso de revista que apresentou.
31ª. No entanto, caso se entenda que estamos perante matéria que deve ser entendida como sendo uma ampliação do objeto do recurso interposto pelo Autor, a Ré desde já a suscita nesse âmbito.
32ª. E, pelas razões acima assinaladas, caso seja julgado procedente o recurso interposto perlo autor, deverá ser revogado o douto acórdão proferido nestes autos e, consequentemente, caso se venha a entender que parte da verba atribuída a título de indemnização pela incapacidade permanente se destina a indemnizar um dano distinto do dano patrimonial futuro (por exemplo o dano biológico), deve o direito de reembolso da SUVA ser reduzido ao valor que for fixado ao autor a título de indemnização pelo seu dano patrimonial futuro (perda de capacidade de ganho), abatido da verba de 15.500,00€ e das verbas correspondentes a 6441,90€, acrescidos das pensões entretanto pagas pelo CNP a título de pensão de invalidez, devendo, nesse caso, ser revogado, nessa parte, o douto acórdão, condenando-se a Ré no pagamento à SUVA;
- da quantia de CHF 343.842,27 (trezentos e quarenta e três mil, oitocentos e quarenta e dois francos suíços e vinte e sete cêntimos) - ou os correspondentes valores em euros, à taxa de câmbio da data do respectivo cumprimento – a título de perda de ganhos futuros, ou, sendo este superior, a quantia de correspondente à diferença entre a indemnização que vier a ser fixada ao autor pela perda futura de ganhos e a quantia já adiantada pela ré em consequência da providência cautelar apensa - € 15.500,00 -) e o valor das pensões de
invalidez pagas pelo CNP ao autor na pendência da ação, valor correspondente ao valor da indemnização por incapacidade permanente fixada, na data do cumprimento.
Termos em que deve ser negado provimento ao recurso, decidindo-se antes nos moldes apontados nas alegações do recurso de revista que a ora recorrida interpôs, devendo, se necessário, ser ampliado o objeto de recurso para conhecer da questão que a se suscita nestas alegações, tudo como é de justiça.
Colhidos os vistos, cumpre decidir.
///
Fundamentação de facto.
Vem provada a seguinte matéria de facto:
1. No dia … .01.2005, pelas 14,20 horas, ocorreu um embate, na Estrada ………, no lugar …., freguesia …, concelho …., no qual foram intervenientes o ciclomotor de matrícula VCT…… e o veículo automóvel ligeiro de mercadorias de matrícula …..-…..-RO (als. A) e B) dos Factos Assentes).
2. O ciclomotor de matrícula VCT…… era conduzido pelo autor e o veículo automóvel ligeiro de mercadorias de matrícula …..-…..-RO, pertencente a BB, era conduzido por CC (al. C) dos Factos Assentes).
3. A Estrada …., no local do sinistro, configura um traçado rectilíneo, com uma extensão superior a trezentos metros (al. D) dos Factos Assentes).
4. Esse sector de recta é delimitado, a Norte, ou seja, do lado …., por uma curva descrita para o lado direito, tendo em conta o sentido NorteSul, ou seja, …. -…., situada a 200 metros de distância e é delimitado a Sul, ou seja, do lado …, por uma lomba, situada a cem 100 metros (al. E) dos Factos Assentes).
5. A faixa de rodagem da Estrada …. tem uma largura de cinco metros (al. F) dos Factos Assentes).
6. Pela margem direita da faixa de rodagem da Estrada …., tendo em conta o sentido Norte-Sul, ou seja, …. - ……, situa-se a residência da condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO (al. G) dos Factos Assentes).
7. O logradouro dessa residência era vedado em relação à Estrada …., através de um muro de blocos de granito, com uma altura de 1,40 metros (al. H) dos Factos Assentes).
8. O acesso da Estrada Nacional à residência da referida condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO é servido através de uma via particular com três metros de largura, ao longo de uma distância de cerca de cinquenta metros (al. I) dos Factos Assentes)
9. Essa via, desde o local em que existe o portão que veda o logradouro da casa da condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO até à faixa de rodagem da Estrada …, alarga-se, progressivamente, em leque, através de curvas de concordância, que o supra-referido muro de vedação ali configura, ao logo de uma distância de seis metros (al. J) dos Factos Assentes).
10. No preciso local da confluência com a Estrada ……, a via de acesso ao interior do logradouro da casa da condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO
apresenta uma largura de oito metros (al. K) dos Factos Assentes).
11. No preciso local da confluência com a faixa de rodagem da Estrada …., a via de acesso ao interior do logradouro da referida casa configura um pequeno largo, de forma sensivelmente trapezoidal (al. L) dos Factos Assentes).
12. Para quem se encontra ao volante de um veículo automóvel, no interior desse espaço de forma trapezoidal, apenas consegue avistar a faixa de rodagem da Estrada …., numa altura em que se encontra no preciso local de confluência com a faixa de rodagem da referida via (al. M) dos Factos Assentes).
13. Essa visibilidade é impedida pela existência do referido muro, que veda o logradouro da casa da condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO e que delimita, pelos seus dois lados, em curvas de concordância, o espaço de forma sensivelmente trapezoidal, situado entre o portão do logradouro da referida casa e a faixa de rodagem da Estrada ….. (al. N) dos Factos Assentes).
14. Essa visibilidade é ainda mais dificultada e impedida, no sentido Norte, ou seja, em direcção a …., pela existência, junto ao dito muro de vedação da referida, encostada ao referido muro, de uma ramada de vinha, com uma altura de 02,30 metros (al. O) dos Factos Assentes).
15. No dia … .01.2005, pelas 14,20 horas, o autor conduzia o ciclomotor de matrícula VCT……, pela Estrada …, no sentido Norte-Sul, ou seja, ……-…., pela metade direita da faixa de rodagem da referida via, tendo em conta o seu indicado sentido de marcha, com os rodados do ciclomotor de matrícula a uma distância não superior a 0,50 metros da linha delimitativa da berma do mesmo lado.
16. O autor circulava a uma velocidade não superior a vinte/trinta quilómetros, por hora (al. Q) dos Factos Assentes).
17. Momentos antes da ocorrência do embate, CC tripulava o veículo de matrícula …..-…..-RO também pela Estrada …, no sentido Sul-Norte, ou seja, ……..-….. (al. S) dos Factos Assentes).
18. CC pretendia levar a efeito a manobra de inversão do seu sentido de marcha e passar a circular pela Estrada …. no sentido Norte-Sul, ou seja, …… – …… (al. T) dos Factos Assentes).
19. Desse modo, a CC, ao chegar ao local onde existe a sua casa de habitação, efectuou a manobra de mudança de direcção à sua esquerda, penetrou, com o veículo automóvel ligeiro de mercadorias de matrícula …..-…..-RO, na via de acesso à sua referida casa de habitação, introduziu completamente o referido veículo no espaço desse acesso, de forma sensivelmente trapezoidal e no interior da própria via de acesso à sua casa de habitação, com a parte frontal do dito veículo apontada para a sua referida casa de habitação e com a parte traseira apontada para a faixa de rodagem da Estrada …. (al. U) dos Factos Assentes).
20. A condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO, na execução da sua pretendida manobra de inversão do seu sentido de marcha, passou a circular, com o referido veículo de marcha-atrás e às arrecuas (al. V) dos Factos Assentes).
21. E penetrou, novamente, com o veículo de matrícula …..-…..-RO, de marcha-atrás e às arrecuas, novamente, na faixa de rodagem da Estrada ….. (al. W) dos
Factos Assentes).
22. À CC era impossível ver os veículos automóveis, motociclos, ciclomotores, velocípedes, pessoas e animais que, nessa altura, circulavam pela Estrada …, no sentido Sul-Norte, ou seja, …..-……, bem como no sentido Norte-Sul, ou seja, …..-……….., tal como, naquele preciso momento, sucedia com o ciclomotor de matrícula VCT…., conduzido pelo autor AA, por causa do supra referido muro e da ramada de vinha e, ainda, em consequência da caixa de carga isotérmica – de transporte de pão -,totalmente opaca, do veículo automóvel ligeiro de mercadorias de matrícula …..-…..-RO (als. X) e Y) dos Factos Assentes).
23. A CC penetrou com o veículo de matrícula …..-…..-RO, de marcha-atrás e às arrecuas, na metade direita da faixa de rodagem da Estrada ……, tendo em conta o sentido Norte-Sul, ou seja, …… – ……., de forma a descrever, como descreveu, uma trajectória enviesada e oblíqua, com a parte traseira da caixa de carga do dito veículo apontada no sentido Norte – ……….. -, de onde provinha o autor AA, no preciso momento em que o este e o ciclomotor de matrícula VCT…… se encontravam no local da confluência da via de acesso ao interior da casa de residência da CC, com a Estrada ….. (al. Z) dos Factos Assentes).
24. A CC, na execução e no desenvolvimento da sua referida manobra de marcha-atrás e às arrecuas, não pôs em funcionamento qualquer sinal luminoso – “pisca” – do veículo de matrícula …..-…..-RO, nem accionou o sinal acústico – “buzina” – do mesmo veículo (al. AA) dos Factos Assentes).
25. Quando se encontrava exactamente em frente ao local de acesso ao interior do logradouro da casa de habitação da condutora do veículo de matrícula …..-…..-RO, no preciso local da embocadura da via ou trilho, o ciclomotor de
matrícula VCT……. e o próprio autor foram embatidos pelo veículo automóvel ligeiro de mercadorias de matrícula …..-…..-RO (als. R) e AB) dos Factos Assentes).
26. O autor ainda travou a fundo o ciclomotor de matrícula VCT…… e guinou para a sua esquerda o ciclomotor que tripulava, mas sem conseguir evitar o embate (al. AC) dos Factos Assentes).
27. O embate ocorreu sobre a metade direita da faixa de rodagem da Estrada …, tendo em conta o sentido Norte-Sul, ou seja, …..-……, a uma distância de cerca de um metro, da linha delimitativa da berma do mesmo lado (al. AD) dos Factos Assentes).
28. Essa colisão verificou-se entre a parte traseira esquerda do ligeiro de mercadorias de matrícula …..-…..-RO e a parte lateral direita do ciclomotor de matrícula VCT…, sensivelmente ao meio (al. AE) dos Factos Assentes).
29. Como consequência directa e necessária do embate e da queda que se lhe seguiu resultaram, para o autor fractura exposta (GI) da junção do terço médio dos ossos – tíbia e perónio – da perna direita e escoriações dispersas.
30. O autor foi transportado de ambulância para o Centro Hospitalar …, E.P.E., de ……, onde lhe foram prestados os primeiros socorros, no respectivo Serviço de Urgência e foram-lhe efectuados exames radiológicos, às regiões do seu corpo atingidas, nomeadamente aos ossos – tíbia e perónio – da perna direita.
31. Foi-lhe efectuada lavagem e desinfecção à ferida e fez análises clínicas.
ossos – tíbia e perónio - da perna direita, consubstanciada em encavilhamento endomedular, com a aplicação de uma vareta metálica “ZIMMER”.
33. E manteve-se internado no Centro Hospitalar …, E.P.E., ao longo de um período de tempo de vinte e oito (28,00) dias, onde o autor permaneceu, sempre, retido no leito, na mesma posição, de costas e sem se poder virar, na cama.
34. E tomou, sempre, as suas refeições, no leito que lhe foram servidas por uma terceira pessoa e fez sempre as suas necessidades no leito.
35. No dia ... .02.2005, o autor foi submetido a uma segunda intervenção cirúrgica, consubstanciada em enxerto de pele, na região da ferida correspondente à rotura da fractura exposta dos ossos da perna direita.
36. Como preparativo dessa intervenção cirúrgica, o autor fez novas análises clínicas e recebeu uma segunda anestesia geral e foram-lhe, também, prescritos analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos.
37. No dia ... .02.2005, o autor obteve alta hospitalar no Centro Hospitalar …….., E.P.E.
38. E regressou à sua casa de residência, onde se manteve doente, combalido e retido no leito, ao longo de um período de tempo de duas semanas.
39. Posteriormente, o autor passou a ser seguido no Serviço de Consulta Externa de Ortopedia, do Centro Hospitalar …., E.P.E., …, aonde se dirigiu por quatro vezes.
40. Ao mesmo tempo, o autor passou a frequentar o Centro de Saúde … e da Extensão …. .
41. Frequentou, também, tratamento de fisioterapia, na Clínica de Reabilitação ……, em …., ao longo de vinte (20,00) sessões.
42. E frequentou os Serviços Clínicos da ré, na cidade …, ao se dirigiu por três vezes.
43. A partir da data do seu levante do leito, na sua casa de habitação, no mês de Fevereiro de 2005, o autor passou a caminhar com o auxílio de um par de canadianas.
44. O qual ainda usa na presente data.
45. O autor sente-se melhor a deambular com canadianas, apesar de ter tido indicação clínica para deixar de utilizar tal auxiliar de locomoção.
46. Na altura do embate, o autor era emigrante na Suíça e encontrava-se em Portugal, em gozo de férias.
47. No mês de Setembro de 2005, o autor decidiu dirigir-se para a Suíça, onde passou a frequentar a Clínica «……».
48. Foi aí submetido a uma terceira intervenção cirúrgica para substituição do material de osteossíntese – vareta endomedular, com três parafusos, mais curtos -, que lhe havia sido aplicado, nos ossos da perna direita, no Centro Hospitalar …, E.P.E., … .
49. Para o efeito, fez novas análises clínicas e foi-lhe ministrada uma nova anestesia geral.
50. E suportou um período de tempo de internamento de seis semanas.
51. Posteriormente, o autor frequentou tratamento de fisioterapia, em sessões diárias, ao longo de um período de tempo de seis (6) semanas, em regime de internamento.
52. Mais tarde, o autor frequentou novo tratamento de fisioterapia em regime de ambulatório, ao longo de um período de tempo de dois (2) meses, em Março e Abril de 2006.
53. Voltou a frequentar tratamento de fisioterapia, entre os meses de Abril e Junho de 2006.
54. No dia … .06.2006, o autor foi internado no «… Hospital», para extracção dos parafusos metálicos de que era portador e para correcção de lesões meniscal ocorrida em consequência do embate.
55. Entre os meses de Fevereiro de 2007 e Abril de 2007, fez novo tratamento de fisioterapia.
56. No dia … .08.2008, em Portugal, o autor foi novamente internado no Hospital ……, na cidade ……, onde lhe efectuaram análises clínicas e onde lhe foi ministrada uma anestesia geral e submetido a uma nova intervenção cirúrgica para extracção da vareta metálica, de que era portador no interior do fémur direito.