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Texto 7 - O Trabalho e os Destinos Politicos do Sofrimento

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Academic year: 2021

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O TRABALHO E OS DESTINOS

POLÍTICOS DO SOFRIMENTO

Thomas Périlleux Tradução: Ricardo Avelar de Sousa Sumário: 1. Destinos Políticos do Sofrimento. 2. Uma Crítica Clínica da Dominação. 3. Lugares e Dispositivos Clínicos. 4. O que está em Jogo na Clínica e na Crítica. 5. Referências.

Uma das características originais da clínica do trabalho – que tam-bém é uma de suas dificuldades – é a de confrontar as questões políticas da organização do trabalho, a experiência da injustiça, as múltiplas faces da opressão1. Pode-se dizer que a clínica tem uma vocação para a crítica.

En-tendo por “crítica social” todas as formas de recusa das formas de opressão e todos os questionamentos do mundo “tal e como ele é”.

Como responder a essa vocação? Enquanto clínicos do trabalho, podemos contribuir para pôr em questão inúmeras formas de opressão, em nossa vida, em nosso trabalho, no trabalho daqueles que são objeto de nossa intervenção. Mas o que quer dizer exatamente pôr em questão ou fazer causa comum? É fazer bloco, envolver-se “todos juntos” em uma mesma causa? Quais são os ensinamentos da clínica a esse respeito?

Etimologicamente, o termo causa é emprestado do latim causa, palavra “de origem desconhecida da qual é difícil, portanto, determinar o sentido original”, diz o dicionário. No sentido filosófico, a causa é o motivo, a razão primeira. No sentido jurídico, ela designa os interesses de uma parte em um processo, uma questão judicial. Pôr em questão (NT: causa, em fran-cês) é instituir a cena de um conflito e envolver-se em um processo. É um sentido que encontramos nos compostos: excusar, acusar, recusar. Mas tam-bém sabemos que aquilo que nos causa, enquanto sujeitos falantes, às fontes

1 Este texto estende as reflexões desenvolvidas no artigo “Clínica do Trabalho e Crítica social” (Périlleux, 2009b). Remeto o leitor a esse texto para a discussão das articulações e disjunções necessárias entre a clínica do trabalho e a crítica social. Insistirei aqui sobre o tema da dominação e sobre a questão dos dispositivos clínicos.

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de nosso desejo, escapa-nos incessantemente2. Como articular a causa do

desejo e a causa comum?

Quando falamos de uma “causa comum”, na ação política e no protesto público, referimo-nos a um coletivo. A análise psicodinâmica do trabalho forneceu-nos muitos elementos que dizem respeito ao coletivo de trabalho. Ela nos conduz a refletir sobre coletivos que poderiam ser “máqui-nas de tratar da alienação psíquica esocial”, segundo os termos de J. Oury (2005): coletivos que poderiam solicitar mais o desejo de seus membros que seu gosto pelo poder, mesmo em suas tomadas de posições políticas. Quando se trata de fazer causa comum, faz-se lugar a uma causa singular que anima cada um.

Em um diálogo com a sociologia e a filosofia política, temos agora que interrogar-nos sobre a passagem de uma palavra elaborada em coletivo de trabalho a uma tomada de palavra no espaço público político. Em ambos os casos, trata-se do coletivo como operador, um operador que permite que cada um forme sua voz e dê voz, em um “concerto de vozes discordantes” (le Blanc, 2007). Mas, como veremos, o regime da palavra é diferente de um caso para o outro.

Além disso, forças de decomposição trabalham os coletivos. Nos ambientes de trabalho, certas técnicas gerenciais visam dissolvê-los ou trans-formá-los em simples coleções de indivíduos ligados por relações contratuais e exigências funcionais: a avaliação individualizada dos desempenhos, a competição entre os funcionários, a desqualificação das figuras de referência e a formação de equipes “com geometria variável” ameaçam o sentimento de coleguismo e fragilizam a formação de julgamentos baseados na experiência de ofício. Elas visam também impedir a formação de vozes críticas no local de trabalho. É a partir da crítica, portanto, ela mesma baseada na experiência da injustiça e no sentimento de indignação, que se formam as causas comuns (Boltanski, 1990; Boltanski e Thévenot, 1991).

É necessário acrescentar que forças internas agem no sentido de uma decomposição dos coletivos. Há resistências ao “fazer coletivo” que se devem também às recusas individuais a tomar lugar no seio de um coletivo, com o preço a pagar que isso implica. Inscrever-se em um coletivo, tecer relações, cuidar do ofício, tudo isso éexigente e tem um custo. Isso demanda tempo e consentimento, por exemplo, em fazer prevalecer o ponto de vista do outro sobre o seu (Lebrun, 2007; Périlleux, 2008).

2 Aliás, é bastante conforme às leis do desejo que a origem da própria palavra permaneça desconhecida.

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E os coletivos de clínicos? Não existe nenhuma razão para que os clínicos sejam poupados pelas forças de decomposição que habitam as equi-pes de trabalho. Não há razões para que escapemos na prática clínica das dificuldades que o capitalismo cria para formar hoje causas comuns3.

O que temos que fazer, então, é identificar pontos de resistência e inventar práticas originais de questionamento, pois, como sustenta G. Le Blanc, “a capacidade clínica está intimamente ligada à qualidade democráti-ca” (2010: 17). Devemos cuidar dessa qualidade democrática. Como? Como clínicos do trabalho, a partir de diferentes locais onde intervimos, podemos construir uma posição que seja de imediato uma contribuição à formação de causas comuns.

Entretanto, a clínica do trabalho não é uma ação política. Se ela luta contra a injustiça e a opressão, essa luta não é direta. Trata-se de uma arte do singular, refratária às medidas, comparações e generalizações que a ação política supõe. A politização do sofrimento não é óbvia e não é sempre desejável, ou não de qualquer maneira. O clínico pode continuar a cuidar do singular quando ele se lança em uma crítica social que denuncia a dominação no trabalho?

Gostaria de tentar abordar alguns aspectos dessa questão. Em uma primeira seção, abordarei os possíveis destinos políticos do sofrimento, evocando uma obra coletiva que consagramos a esse assunto. Mencionarei a importância e os obstáculos à politização dos sofrimentos provenientes do trabalho. A segunda seção será consagrada à resposta proposta por C. Dejours. A análise psicodinâmica é uma clínica da relação subjetiva com o trabalho; é também uma crítica da dominação no e pelo trabalho. Na obra de Dejours, a crítica da dominaçãotem um lugar central e funciona como um eixo entre os aspectos psicopatológicos e os aspectos políticos do tra-balho. Sustentarei, porém, que o tema da dominação, apesar de sua força, não é a via mais adequada para responder à vocação crítica da clínica, por-que ele corre o risco de levar à perda de uma ancoragem na singularidade das situações clínicas.

Na terceira seção, voltarei a abordar os compromissos dos próprios clínicos, em um contexto institucional que às vezes não os poupa da violên-cia que eles denunviolên-ciam. Espero, então, formular algumas propostas úteis

3 O capitalismo esgota o que causa o desejo, fazendo cintilar satisfações ilimitadas, incenti-vando a “gozar sem desejar” (Dufour, 2003), confundindo intensificação do trabalho e intensidade da vida (Hamraoui, 2007). Ele esgota as causas comuns, minando o que faz da vida um coletivo e recuperando para seu próprio proveito os temas da crítica social (Bol-tanski, Chiapello, 1999).

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para fundamentar uma postura “clínico-crítica” entre clínicos do trabalho que não renunciam a seu papel político.

1 DESTINOS POLÍTICOS DO SOFRIMENTO

A referência ao sofrimento, muito contestada em política, suscitou vivas controvérsias no domínio francófono. Algumas delas visaram direta-mente à análise psicodinâmica do trabalho. Penso em particular nas críticas virulentas feitas às posições de C. Dejours por autores como A. Ehrenberg (2010) ou D. Trom (2007).

Esses autores sustentam que o termo sofrimento é uma espécie de anestésico do senso crítico que impede a constituição de causas comuns e suscita uma despolitização dos problemas coletivos, ao contrário das antigas palavras alienação ou opressão. Todos nós sofremos! Falar do sofrimento, no debate público, acabaria por edulcorar as contradições da vida coletiva. Isso contribuiria para transformar os oprimidos em vítimas passivas incapazes de envolver-se nas lutas políticas: eles passariam a ser doentes a tratar, sua existência encontrando-se inteiramente medicalizada.

Segundo essa perspectiva, a introdução da dimensão do sofrimento em política paralisa todo verdadeiro debate público e perverte o ideal de solidariedade. Ela impede de formar uma comunidade de interesses com os oprimidos, ao transformá-los em enfurecidos, segundo a expressão de H. Arendt, incapazes de constituir uma multidão “cuja majestade reside na pró-pria pluralidade” (Arendt, 1963). Invo car o sofrimento em política não faria senão aliar os ressentimentos, porque o sofrimento seria brandido como um fato que dá direito, por si mesmo, a um reconhecimento.

Nossa opção foi inversa (Périlleux, Cultiaux, 2009). Ela não causa-rá surpresa a todos os que se inspiram na psicodinâmica do trabalho. Em nosso entender, o uso da categoria sofrimento não conduz à despolitização, nem à passividade, nem ao ressentimento. Ao contrário: o silêncio e a inca-pacidade de exprimir o sofrimento é que condenam à impotência (Renault, 2008). Quisemos reafirmar a dimensão política de sofrimentos injustos. O sofrimento é uma experiência íntima e singular, porém está no cerne do vín-culo social e político (Boltanski, 1993).

Entretanto, nem todo sofrimento é forçosamente inaceitável. Há uma inevitável “dor de existir” diante do real; uma dor de existir que escapa a toda tentativa de explicação científica e a toda vontade de questionamento político. É um sofrimento que não se pode denunciar nem justificar. É preci-so distinguir preci-sofrimentos injustos que têm origens preci-sociais, contra os quais é

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preciso lutar. A primeira operação da crítica social é então uma operação de separação entre sofrimentos inevitáveis, cuja denúncia não tem nenhum sen-tido, e sofrimentos inadmissíveis, que é necessário questionar4. A politização

impõe essa divisão radical5.

A análise psicodinâmica do trabalho introduz aqui uma articulação complexa. Segundo C. Dejours, o sofrimento é inerente ao trabalho. Ele é inevitável na medida em que o trabalho impõe sempre a prova do real. Ele é mesmo desejável, pois provoca uma reorganização da subjetividade para reencontrar ao mundo e a si mesma. A primeira relação com o trabalho é uma relação pática (NT: depathos). O que está em jogo na análise clínica – e na intervenção política – é impedirque esse sofrimento primeiro torne-se patogênico. Não se trata de suprimir, mas de permitir que ele se transforme em sofrimento criador (Dejours, 1993, 2000, 2001).

Isso indica que os sofrimentos não são somente assuntos privados. Eles contêm um potencial criador e um potencial crítico. Um potencial que frequentemente é entravado, por diversas razões que procuramos estudar (Périlleux, Cultiaux, 2009: 11-16).

Antes de mais nada, coloca-se o problema da visibilidade política dos sofrimentos. Sentimentos de vergonha e mecanismos de negação ou de ocultação impedem que certos sofrimentos ocorram no espaço público. Um trabalho de identificação e de nominação pública faz-se necessário. Os so-frimentos não são fatos diretamente acessíveis, e não é uma consequência lógica que sejam tomados como injustiça: vários pontos de vista sobre o que é justo ou injusto podem estar legitimamente envolvidos (Dubet, 2006: 13).

Em seguida, a queixa ou o sintoma – que são eles mesmos os indí-cios de uma demanda muitas vezes não articulada (Barus-Michel, 2004) – devem ser formulados em um protesto geral, que corre o risco de negligen-ciar a singularidade da experiência da qual o porta-voz se apropria. No espa-ço público político, os interlocutores exigem uma descrição objetiva e falsi-ficável de experiências que, entretanto, são singulares e subjetivas. Existe o risco de que o protesto identifique, então, as vítimas ao seu sofrimento, ao

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Nossa distinção junta-se à proposta por L. Boltanski, a partir de Bourdieu, entre sofri-mentos genéricos (inerentes à condição humana) e sofrisofri-mentos específicos (que têm cau-sas sociais) (Boltanski, 1993).

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Tomamos o termo de politização em um sentido muito amplo. Nosso ponto de partida foi o das experiências cotidianas de indignação diante da injustiça. Para nós, o político ba-seia-se na crítica do curso da realidade; crítica que não pode contentar-se de um estado de coisas, mas exige transformação um passo além dostatus quo (Bauman, 2005). O polí-tico é então a instituição de uma cena em que a diferença de opinião torna-se visível aos olhos de todos (Lefort, 1986).

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buscar fazer ouvir a gravidade das situações que denuncia. Entretanto, como ator político, cada trabalhador é portador de uma dignidade humana que vai além de seu sofrimento, ele não pode ser reduzido à manifestação de sua infelicidade.

Enfim, a coalizão das “vítimas” e a intervenção de um terceiro (porta-voz) são apoios para elaborar o sentido político das situações de so-frimento e torná-los audíveis publicamente. Ao contrário, a impossibilidade de apoiar-se em um terceiro (uma pessoa esterior ao círculo das vítimas ou uma entidade coletiva que o represente) constitui um entrave importante à tomada política dessas situações. As coalizões que são portadoras de causas comuns são frágeis e muitas vezes ambivalentes: a preocupação com a coe-rência do projeto coletivo pode obrigar a excluir aquele que poderia prejudi-cá-lo. Devem-se estabelecer fronteiras entre os casos que podem relacionar-se à causa comum e aqueles que não fazem parte dela, encontrando-relacionar-se desde então duplamente vítimas.

É isso que esclarece, por exemplo, uma pesquisa que N. Dodier e J. Barbot (2009) consagraram à formação de coletivos de vítimas em torno de um drama médico (a morte de crianças após um tratamento com hormônio de crescimento extrativo). Eles estudam as modalidades de ingresso de ação judicial para obter reparação no seio de um espaço de vítimas. Eles falam a esse propósito de uma crise da reparação proveniente de uma “dificuldade para pensar de modo transversal uma reparação ajustada dos danos”. A for-mação de causas comuns é complexa, e os coletivos de vítimas devem preencher várias condições: criar vínculos de conforto recíproco, resistir às divisões internas, dotar-se de mecanismos de delegação em face da ação política e judicial.

A conclusão dos autores é a dificuldade da crítica social para reunir vítimas dispersas no que chamamfigures gerais. Nesse caso, pode-se obser-var uma forte tensão entre um trabalho de reconstrução psíquica, que res-ponde a uma lógica do luto, e um compromisso com uma causa comum, que responde a uma lógica da crítica.

Como amarrar a intervenção clínica a uma ação crítica sem trans-formar o problema político da opressão em problema pessoal do oprimido (Lhuilier, 2009)? Coloca-se a questão dos dispositivos possíveis, nas redes de pessoas envolvidas, para fazer com que os sofrimentos se tornem audíveis dentro de um espaço público.

Penso aqui no estudo que P. Molinier dedicou, com A. Flottes, às “mutações do corpo feminino na indústria farmacêutica”. Trata-se de uma pesquisa conduzida com empregados de um laboratório no momento de seu fechamento. Em um artigo que trata do assunto, P. Molinier (2007) explica

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que o “sofrimento expresso por ocasião dessa pesquisa foi de uma intensida-de pouco usual. (...) uma história sepultada há mais intensida-de vinte anos emergiu intensida-de maneira inesperada”. As operárias que trabalhavam na “limpeza e raspagem das placentas” tinham sofrido transfor mações corporais masculinizantes: aumento de peso, pilosidade e barba, vozes que se tornaram mais graves. Outras que trabalhavam na repartição dos produtos hormonais constataram problemas de ciclo menstrual, dificuldades para engravidar e aumento de peso. Várias operárias que foram aposentadas morreram de câncer, sem que isso fosse discutido publicamente. Esse drama, rechaçado coletivamente, retornou no momento do fechamento da empresa sob forma de uma enorme angústia de morte.

Não posso entrar nos detalhes do estudo nem no conjunto das con-clusões do autor. Gostaria de destacar três pontos mencionados por P. Moli-nier, e que levarão a uma discussão crítica.Primeiramente, as operárias mais velhas percebiam fortemente suas modificações corporais, mas essas percep-ções, postas “umas ao lado das outras”, permaneciam sem vínculo reflexivo ou causal (2007: 43). As operárias se impediam de pensar as relações gera-doras de ansiedade entre seus próprios corpos e os produtos que elas mani-pulavam. A angústia, escreve P. Molinier, tinha ficado “não elaborada, pois desconectada de sua verdadeira fonte” (2007: 45). Acrescento que é então toda a dinâmica de formação de uma causa comum que é paralisada, o que mostra a importância da imputação de causalidade na crítica social.

Em segundo lugar, P. Molinier observa que a intensidade do sofri-mento expresso pelos participantes não era mensurável. A angústia de morte e o medo de serem confrontadas ao uso mercantil e industrial de placentas impregnavam os olhares, as vozes, “ao ponto de agir sobre o corpo do pes-quisador, que, por sua vez, sofre com isso”. “O instrumento de medida aqui é o próprio corpo do pesquisador, o que ele experimenta na carne em razão da confrontação com o outro”, escreve P. Molinier. Essa proposta não chocará os clínicos do trabalho, que, entretanto, têm que refazer, cada vez, a consta-tação singular da mesma. Mais como passar do corpo próprio do pesquisador a um “corpo” político, que é o que faz causa comum?

Em terceiro lugar, P. Molinier insiste sobre a importância de abrir uma brecha nos processos de ocultação e de socializar o sofrimento no traba-lho “para desincorporá-lo e desaliená-lo”. Trata-se de restaurar o que se pode chamar de capacidade de uma voz para “passar de um sofrimento inarticulado à elaboração de um sentido comum”. “A pesquisa é o local aonde vem se pre-cipitar uma ansiedade que até então permanecia sem endereço”, escreve ela. Daí a importância do coletivo da pesquisa. Um trecho mais longo do artigo de P. Molinier parece-me totalmente decisivo para as questões aqui abordadas:

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O material constituído [durante as sessões de investigação] é uma ficção provisória, verdadeira criação da pesquisa, que não pertence a nenhum de seus participantes em particular, pesquisadores ou pesquisados, e não pode, portanto, em nenhum caso, ser generalizada. Essa ficção nada mais é que o resultado de esforço coletivo empreendido, durante o tempo limitado da pesquisa, para socializar o sofrimento no trabalho (…) in-ventar-lhe um destino fora de si, fora das destruições infligidas ao corpo próprio, para sublimá-lo, em suma, em uma obra coletiva e transmissível que tomará a forma do relatório de pesquisa6. (2007: 46, itálico meu).

Detenho-me sobre estes termos: o material da pesquisa é “uma fic-ção que não pode, portanto, em nenhum caso, ser generalizada”. Ele provém de uma experiência singular, compartilhada no seio de um coletivo, e a ela retorna. A narrativa transforma o próprio sentido do que é compartilhado, escreve P. Molinier, mas esse compartilhamento não é generalizável. Conse-quentemente, não pode resistir aos testes impostos pelo formato de uma deli-beração crítica no espaço público político.

Ora, a politização exige uma elevação em termos de generalidade. Ter acesso a um espaço público, fazer ouvir uma voz, protestar contra a in-justiça da situação, significa orientar-se na direção de um “horizonte maior que o si mesmo”, como diz o sociólogo L. Boltanski (2008), para inscrever sua situação particular em uma comunidade de condição. É necessário, en-tão, medir, comparar situações, pôr experiências em equivalência, julgar tomando por medida um princípio superior que transcende os casos singula-res. A intervenção clínica se dá sobre uma outra “cena” diferente do questio-namento político. Não há continuidadedireta de uma para a outra; mas há um vínculo que deve ser mantido.

Penso que essa tensão habita – e talvez assombre – a análise psico-dinâmica desde sua fundação, entre suas duas vertentes: a clínica da relação subjetiva com o trabalho; a crítica da dominação no trabalho e pelo trabalho. Essas duas vertentes não se opõem uma à outra de maneira harmoniosa: Também há tensões e, em alguns casos, incompatibilidades que é importante reconhecer.

É disso que eu gostaria de discutir agora, abordando a crítica da dominação formulada por C. Dejours. Ele não elaborou uma teoria

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Ele constrói uma “tumba”, no sentido literal do termo, para as operárias mortas, “a fim de inscrevê-las numa história comum, para que elas cessem de assombrar os vivos” (p. 48). Ele permite um trabalho de luto e de memória, “a partir de uma constelação invisível de traumas individuais, (ele) fabricou os elementos de uma catástrofe coletiva, isto é, uma história social, doravante suscetível de ser compartilhada por pessoas que a compreendem e que a viveram” (p. 51).

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ca da dominação social, mas sua repetição insistente e original dessa questão justifica que se fale de uma clínica crítica. Em seu entender, o termodomi-nação intervém como um operador poderoso de generalização. É uma ponte ou um eixo entre a vertente clínica e a vertente política do trabalho e de sua análise. Se faço sua crítica, é também por reconhecer a importância de uma clínica que não renuncia a uma aspiração de emancipação psíquica e política.

2 UMA CRÍTICA CLÍNICA DA DOMINAÇÃO

A partir da fundação da análise psicodinâmica do trabalho, C. De-jours analisou os vínculos entre o sofrimento e a opressão no trabalho, situa-da no olhar situa-da retomasitua-da em mão neoliberal situa-da organização situa-da produção. Ele estimou que as condutas adotadas pelos trabalhadores para defender-se do sofrimento – por exemplo, ao autoacelerar-se diante das cadências prescritas – poderiam ser objeto de uma exploração por parte da empresa. Ele evocava também o risco de ver instalar-se uma “lógica de combates successivos que [iriam] de alienação em alienação,sempre solicitando o sofrimento em lugar e em vez do desejo” (Dejours, 1988: 23). Esse risco talvez tenha se perdido um pouco de vista ulteriormente; a referência ao desejo parece-me, entre-tanto totalmente decisiva no problema da emancipação políticavia a forma-ção de causas comuns.

Quando C. Dejours fala de “servidão voluntária”, é para colocar o problema das “fontes subjetivas da dominação”. Ele situa a questão do con-sentimento da injustiça no centro de sua reflexão. Ele se apoia em uma análi-se das relações sociais de dominação einterroga a maneira como um sujeito pode responder de seu consentimento de certas formas de dominação que ele exerce e/ou sofre.

O que é a dominação? Essa é uma noção polêmica. Segundo L. Boltanski, ela serve para identificar e condenar “manifestações extremas e abusivas do poder” (2009, p. 15). Insp irando-se em Spinoza, pode-se consi-derá-la como a loucura do poder, que corresponde a um momento em que este esquece o que é – uma contradição dinâmica entre relações de forças e uma prática de governo que se supõe racional – para tornar-se objeto sagrado de posse7. A dominação se liberta da relação com o real dessa contradição e

é nesse sentido que se pode dizer que ela é “louca”. Seu princípio não é a contradição, e sim a conversão diretae permanente da racionalidade de uma prática em relações de força (Bove, 1996).

7 Agradeço a E. Hamraoui por ter chamado minha atenção sobre essa concepção da domi-nação e me ter proposto sua definição.

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Em ciências sociais, a dominação é um “objeto de síntese” e de “totalização”: ela designa “assimetrias” profundas e duráveis, que colonizam a realidade no seu conjunto, sem poder dar lugar a uma observação direta como relações de poder visíveis e localizadas. Ela permite mostrar como diferentes formas de poder fazem sistema, estendem-se e acabam por cons-tituir ordens sociais desiguais (Boltanski, 2009, pp. 16-18).

Exercer uma dominação é limitar as possibilidades de ação dos in-divíduos dominados e expô-los a uma “probabilidade de violência ainda maior” (Renault, 2008: 323). Nesse plano, C. Dejours concorda com as des-crições sociológicas da “dominação capitalista neoliberal” (Deranty, a ser publicado). Segundo ele, as novas restrições de valorização do capital, asso-ciadas à “virada gerencial” dos anos 1980, levaram a um ataque frontal con-duzido pelas ciências da gestão contra o trabalho, visando a descartar o “tra-balho vivo”, com o motivo de instaurar uma nova servidão para os trabalha-dores8. Dois exemplos recentes – entre outros – atestam isso.

O primeiro diz respeito à flexibilidade. C. Dejours não hesita em fa-zer dela “o outro nome da servidão”. Ele mostra isso a partir de suas pesquisas no setor nuclear na França: a flexibilidade funcionou como o recurso em mas-sa à terceirização e ao desmantelamento dos ofícios tradicionais de manuten-ção. Foi introduzida para quebrar os poderosos sindicatos dos trabalhadores assalariados responsáveis pela manutenção e “garantir uma mão de obra dócil, laboriosa e dispensável sem motivo justificado”. Isso foi feito ao preço pesado de riscos sobre a segurança das pessoas e das instalações (2006: 58).

O segundo caso diz respeito ao que C. Dejours chama de “novas patologias do trabalho” o que é interessante, pois reintroduz assim um ponto de vista psicopatológico: burn-out (esgotamento nervoso), patologias do assédio, depressões, suicídios no local de trabalho são, segundo ele, formas específicas da alienação no trabalho. Estão associadas aos novos métodos de gestão, como a avaliação de desempenho individualizada e os procedimentos de qualidade total. Sua evolução “corresponde também a um progresso sen-sível nos meios e métodos da dominação” (Dejours, 2006).

Esses dois exemplos são convergentes, segundo o autor. A flexibi-lidade e as novas patologias do trabalho estão diretamente ligadas à domina-ção, que encontra seus dispositivos nos métodos de gestão de pessoal. As novas organizações da produção repousam sobre uma mobilização “sem precedentes” da subjetividade em um contexto em que o apoio social dos funcionários é fragilizado” (Renault, 2008: 339).

8 Dominação e servidão devem ser vistas como as duas faces de uma hierarquia social injusta e violenta.

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A intensificação do trabalho, a dissolução dos coletivos constituí-dos em torno das regras do ofício, o medo do desemprego e a fragilização da posição de cada assalariado são, ao mesmo tempo, causas de novas patologi-as e meios de dominação – e “os dois pontos de vista são complementares”, escreve J.P. Deranty em seu comentário de Dejours (op. cit.). Mas é justa-mente nessa “complementaridade” que está a questão, no meu entender.

Estamos, na realidade, diante de dois regimes de discursos dife-rentes. O estabelecimento clínico das “causas” das novas patologias do tra-balho se faz em uma “prova pela palavra” (Gori, 1996). Os sintomas e sua elaboração devem ser considerados em sua dinâmica própria, no sentido em que um sintoma é uma “mensagem” singular dentro de uma história que também o é. A prova é inicialmente clínica – baseada na palavra e na transfe-rência.

Ao contrário, a crítica dos “meios de dominação” situa-se direta-mente em um plano muito geral. Ela supõe desvelar um motivo econômico – encontrar novos caminhos de lucro – e uma incumbência política – quebrar resistências e assegurar uma servidão. No debate público, é necessário de-monstrar seus argumentos, tornar objetivas suas observações. A prova ba-seia-se na objetivação de relações de forças sociopolíticas. É um regime de garantia pela objetividade.

A noção de patologias e a referência a suas causas indicam bem a dificuldade. Ao fundar a análise psicodinâmica do trabalho, C. Dejours (1988, 1993) distanciara-se da psicopatologia do trabalho e de seus esquemas causalistas. A psicopatologia do trabalho chegara a impasses na medida em que rapidamente constatou-se a impossibilidade de isolar «causas” profissio-nais para as enfermidades mentais, exceto em casos muito específicos (como o de telefonistas ou mecanógrafos).

Para o clínico, tratava-se de entrar em uma hermenêutica do drama vivido do trabalho relativizando a distinção entre o normal e o patológico e suspendendo o raciocínio causal (Dejours, 1993; cf. Périlleux, 2009b). Ao contrário, a própria dinâmica da crítica é uma dinâmica dequestionamento. Aqui, fazer causa comum é lutar contra as causas sociais de patologias que poderiam ser evitadas.

A complementaridade dos dois pontos de vista torna-se assim muito difícil. Entre a elaboração clínica e a denúncia crítica, é necessário reconhecer divergências e mesmo disjunções, sem o que se corre o risco de falhar na intenção crítica eperverter a intenção clínica9.

9 Encontra-se um indício dessa dificuldade na distância que separa as intenções das duas

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ta-O uso do termo dominação acarreta o risco de impedir essas dis-tâncias necessárias, sobretudo quando utilizado em um sentido abrangente.C. Dejours distingue vários tipos de dominação. A dominação no trabalho, que limita as “condições de pensamento e de sublimação” necessárias à trans-formação do sofrimento, está ela mesma ligada à dominação afetiva, vivida na primeira infância, e à dominação de gênero, que cruza as hierarquias esta-belecidas na esfera de trabalho.

Está feito o lugar, mas somente por algum tempo, para vários tipos de dominações. Esses diferentes tipos são levados, finalmente, aos mesmos mecanismos de submissão e de consentimento. Para C. Dejours, as domina-ções se exercem em vários domínios ou momentos da existência, mas che-gam todas a uma unidade conceitual. Pode-se falar da dominação referindo-se ao “modelo metapsicológico da autonomia” (Deranty, op. cit.).

Essa posição crítica é forte por seu questionamento de mecanismos sociopsicológicos e sociopolíticos de ampla dimensão. C. Dejours não deixa de politizar os sofrimentos provenientes do trabalho, e faz isso por meio de uma crítica de relações sociais dedominação que não negligencia nenhum domínio da existência. Sua crítica clínica transcende os casos particulares para pôr em questão (NT: em francês, causa) dominações englobantes. É de lá que ela extrai sua fonte de indignação, mas é também seu limite.

Nem todas as sujeições devem ser assimiladas a formas de domina-ção. Trazendo o conjunto dos usos abusivos do poder ao termo único domi-nação, deixamos de lado as múltiplas faces da opressão e as particularidades das situações em que eles se exercem. Corre-se assim o risco de perder uma ancoragem naquilo que cada situação, ou cada causa, pode ter de singular.

A opressão, o desprezo, a negação da existência, a exploração, a humilhação, adquirem novas formas e faces, muitas vezes difíceis de desco-brir em razão dos mecanismos de ocultação já mencionados. É importante distingui-las sem perder o vínculo geral com a reorganização do capitalismo neoliberal. Na prática clínica, devemos retornar às situações locais e às vidas oprimidas, para ali encontrar, cada vez, motivos ajustados de crítica e de luta. Devemos estar particularmente atentos, as resistências que os trabalha-dores opõem as diversas formas de opressão no seu local de trabalho.

refa de “pensar os princípios de uma outra política do trabalho” ao afirmar que “o trabalho sempre foi e sempre será uma questão essencial das relações de dominação. É uma arena essencial onde se experimenta a luta por emancipação”. Nas Observations cliniques en

psychopathologie du travail, a intenção é mais distinguir entre o que diz respeito

especifi-camente ao trabalho e o que diz respeito propriamente à personalidade ou à estrutura do paciente, “mesmo quando as in justiças e os maus tratos estão em questão” (p. 10).

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É verdade que, para adquirir uma certa força, a crítica social deve despojar-se de suas particularidades e visar a um alcance geral, senão univer-sal, como conseguiu fazer o movimento operário na Europa no século XIX, baseando-se na referência à luta de classes como dinâmica histórica. Mas essa generalização deve também permanecer atento ao que perde ou reduz: o singular de uma situação ou de uma existência, incomensurável com relação a todas as demais.

O que está em jogo no clínico-político é respeitar a qualidade das experiências singulares que são elaboradas nos dispositivos de escuta, sem impedir de relacioná-las umas com as outras para denunciar as múltiplas formas da opressão que elas abrigam. A subjetividade crítica torna-se então um problema a resolver, mais do que um dado fundador (Renault, 2008). A identificação das causas das injustiças é mais um ponto de chegada eventual que um ponto de partida10.

3 LUGARES E DISPOSITIVOS CLÍNICOS

Podemos agora voltar às questões colocadas no início deste texto, que diziam respeito à responsabilidade dos clínicos quanto à tomada de pala-vra em um espaço público político. Os línicos lutam contra a injustiça e a opressão. Às vezes eles mesmos as vi venciam em instituições que tornam precárias suas condições de trabalho e não os poupam da violência que eles denunciam. Devemos interrogar-nos que lugares eles podem/devem ocupar para resistir e fazer de suas próprias experiências causas comuns11.

A clínica deve continuar a interrogar o que permite dar lugar à cau-sa singular de cada um em uma caucau-sa comum a vários. Como formar uma voz crítica capaz de se fazer ouvir em um concerto democrático de vozes? Se a clínica do trabalho tem uma vocação à crítica, ela pode lutar em várias frentes, localmente, em um estilo de crítica “sem garantias cognitivas e práti-cas” (Renault, 2008).

Esse estilo de crítica necessita de um coletivo para se organizar – não somente um coletivo de pesquisadores, mas também um coletivo de

10 Sobre esse ponto, remeto o leitor a meu texto de 2009.

11 O termo lugar tem dois sentidos, que encontramos na etimologia e nos usos sociológicos do termo. De um lado, é “o local onde a pessoa se encontra, onde se desenrola a ação” (o lugar forte, o lugar público, o lugar de negócios): o local da ação e o que torna possível o envolvimento na ação. Por outro lado, é umaposição com relação a outras, um degrau ou uma classificação em uma ordem simbólica. O que nos interessa aqui é a maneira como os “clínicos” e os “que demandam” se situam e se deslocam em um dispositivo que visa a produzir efeitos terapêuticos e políticos (Périlleux, 2012a).

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clínicos, e mesmo um coletivo de equipes clínicas. Sua formação necessita do tempo, da confiança recíproca, da capacidade de solicitar o desejo, mais do que o gosto do poder, na ação contra as formas de opressão cotidianas. Onde e como iniciar esse trabalho do coletivo?

Inicialmente, na instituição. Para assumir sua vocação, a clínica precisa ser instituída (le Blanc, 2010: 16). Essa é uma condiçãosine qua non de sua perenidade e de sua possibilidade operacional12. Ela é indispensável

mesmo se acarreta, para as práticas clínicas, o perigo do espírito de proprie-dade funcionando de um modo defensivo (“Somos os proprietários do poder de interpretação, nosso status nos garante a legitimidade de nossa ação”). A instituição da clínica é uma necessidade para encarregar-se dos riscos da escuta do trabalho e para transformá-los em oportunidades de questiona-mentos políticos.

O compromisso do clínico no encontro com seus interlocutores é arriscado. Supõe uma escuta que pode ser supreendente, desestabilizadora, às vezes inquietante, sempre desafiadora, particularmente quando a violência e a opressão estão em jogo. Quebrar os mecanismos de negação, evitar as re-petições violentas e mortíferas, impedir-se de reproduzir, no dispositivo clí-nico, (sem elaborá-la nem deslocá-la) uma opressão vivida no local de tra-balho, abrir vias de acesso a uma palavra pública: tudo isso supõe uma aten-ção particular aos dispositivos que podemos implementar.

O dispositivo da clínica supõe uma assimetria fundadora entre o lugar do “clínico” e o da pessoa “que demanda” (sozinha, coletivamente, em grupo). Só essa assimetria permite ao clínico não se encontrar subjugado pela demanda que lhe é feita, mas deslocá-la (Oury, 1985). A assimetria dos lugares pode, entretanto, entrar em tensão com o compromisso político do clínico – que supõe um postulado deigualdade moral com os trabalhadores cuja voz crítica o clínico tem a intenção de formar, ou mesmo levar ao espa-ço público político. Isso suscita tensõesentre os lugares possíveis nos dispo-sitivos clínicos.

O lugar do clínico entra inicialmente em tensão com o do perito – perito médico no marco das consultas hospitalares, perito judicial no marco dos procedimentos de reparação, perito sindical ou político no momento em que aquele que demanda se envolve em um protesto público etc. A figura do

12 Essa observação faz eco a algumas das reflexões que C. Dejours consagrou à instituição em psicanálise: na prática analítica, a “reivindicação de autonomia e de originalidade pro-ferida por cada analista não é vã”, mas ela não se sustenta “que como diferenciação ou singularização com relação a referências comuns e compartilhadas com os membros de um coletivo”, e é a instituição que afiança a transmissão das regras do ofício de analista (Dejours, 2008: 948).

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perito modifica a natureza da demanda e o processo de elaboração clínica. O perito dispõe de um saber constituído, que ele não suspende em sua clínica. A teoria, que está no segundo plano da escuta clínica, passa aqui ao primeiro plano – ela é, de certa forma, à frente daquilo que o paciente pode dizer. Além disso, o perito pode agir diretamente sobre uma situação profissional, graças à sua perícia, modificando com isso as relações de força sociopolíti-cas, e também o trabalho de elaboração da demanda.

Uma segunda tensão diz respeito a um lugar de porta-voz. Trata-se, nesse caso, da passagem ao espaço público. A clínica do trabalho funciona com pessoal ou coletivos no mais singular das situações de trabalho. É um trabalho que se faz “um por um”. Mas ela pode também acontecer na tarefa de fazer “remontar” ao debate público questões oriundas de investigações de terreno – questões transmitidas em seus enunciados, mas, sobretudo, em seus modos de enunciação. Ora, como já destacamos, não existe continuidade direta entre esses dois regimes de ação, que necessitam de ferramentas e impõem restrições diferentes e, por vezes, incompatíveis.

Uma terceira tensão diz respeito ao lugar do pesquisador. A ques-tão dos traços deixados pelo trabalho clínico – por meio de gravações, notas de terreno, relatórios de investigação, relatórios de pesquisa... – pode tornar-se muito tornar-sensível, e é pena que algumas investigações psicodinâmicas, con-fidenciais, não possam ser levadas ao debate público. Além do problema da confidencialidade dos relatos, é também a relação com o saber que muda: entre o clínico e o pesquisador, há uma relação diferente com “a questão” (o questionamento).

Em clínica, trata-se de formular as questões para que elas se en-quadrem bem. Há uma fecundidade de coisas que não se compreendem ou não se entendem. O clínico deve suportar a existência de questões que ficam sem resposta provisoriamente ou duravelmente (Dejours, 2009b: 53-54). Isso pode levar-nos a distinguir entre “ser posto em questão” e “ser submetido à questão”: o primeiro estado é o de um espanto, o segundo é o de uma acusa-ção (Didier-Weill, 1995: 171). Para o saber universitário – em particular o dos engenheiros e gestores – a questão é vista como um problema que espera sua solução – se possível, uma solução rápida. No caso da clínica, seria mais o caso de fazer viver os problemas, mantendo ativas as questões que os ani-mam subterraneamente.

Observe-se que os diferentes lugares que acabamos de mencionar – clínico, perito, porta-voz, pesquisador – sofrem do fato de não serem insti-tuídos de maneira duradoura. A questão dos lugares apresenta-se para os clínicos, sabemos que ela também está presente de maneira importante nas situações profissionais relatadas pelas pessoas que vêm consultar e

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expri-mem o sentimento de não estarem no seu lugar, ou de não terem lugar, ou de estarem designados a um lugar que não lhes convém. O clínico é levado a trabalhar sobre a relação com os lugares profissionais, para apoiar possibili-dades de deslocamentos (não estar totalmente identificado a seu lugar, estar em um lugar para poder sair dele…). Isso supõe que seus próprios lugares, no coletivo e na instituição, sejam ocupáveis de maneira duradoura. A auto-nomia da clínica exige umadurabilidade do cuidar no espaço e no tempo (le Blanc, 2010: 15-18).

Enfim, é somente nas distâncias entre os diferentes lugares que pode funcionar a articulação entre uma palavra elaborada na situação clínica e uma tomada de palavra no espaço público. Os dispositivos de clínica do trabalho deveriam favorecê-la com articulações em rede13, conexões entre as

experiências de trabalho elaboradas nesses diferentes dispositivos, de manei-ra a romper seu isolamento e ativar o potencial crítico que elas contêm. O primeiro ganho, frequentemente relatado pelos consultores das clínicas do trabalho, é a possibilidade de quebrar o isolamento, (re)encontrar sua voz, falar com outras pessoas de uma situação que se acreditava inaudível e abrir pouco a pouco o horizonte de uma comunidade de experiências. Um segundo ganho deveria ser a possibilidade de conectar essas experiências para fazê-las alcançar o espaço público.

4 O QUE ESTÁ EM JOGO NA CLÍNICA E NA CRÍTICA

Para terminar com uma proposição mais prospectiva, gostaria de

mencionar alguns aspectos que estão em jogo em clínica-críticas e que se apresentam a nós. Eles constituem o desafio de uma clínica do trabalho que

não abre mão de questionar politicamente as formas de opressão com as quais é confrontada, sob as múltiplas faces que ela pode assumir nos locais de trabalho contemporâneos.

Responder a eles é considerar que não existe gesto clínico “puro” em si, como não existe espaço público em si que constitua a “ci dade democrática”: existem gestos de uma densidade clínica mais ou menos forte e de alcance público mais ou menos acentuado. O que está em jogo é um duplo processo – de densificação clínica e de questionamento crítico – do qual alguns pontos de cotejamento podem ser encontrados nas tarefas descritas a seguir.

13 Ver em particular a rede de consultas animada por M. Pezé na França (http://www.souffrance-et-travail.com/infos-utiles/listes/liste-consultations-souffrance-travail/#08); a consulta de clínica do trabalho aberta pelo CITES (Liège) na Bélgica (http://www.cites-stress.be).

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Manter os olhos abertos. – O primeiro gesto crítico da clínica é comprometer-se a não fechar os olhos sobre a materialidade do trabalho e a violência da opressão que nele pode se exercer. Não se deixar cegar nem às ambivalências da vida psicológica nem às contradições da vida social, lá onde atuam os mecanismos mais pesados de negações (déni). Isso acar-reta uma exigência para os clínicos: contribuir para uma subjetivação crí-tica, isto é, para a formação de sujeitos capazes de modificar os contextos de sua ação, em vez de adaptar-se a eles de maneira fatalista ou somente instrumental.

Nessa via, um trabalho clínico-crítica reencontra inevitavelmente o medo das sanções formais e informais. Esse medo invadiu a relação com o trabalho quando a gestão utiliza a ameaça de forma intensa. O papel dos clínicos, encontrando o papel dos que intervêm no plano social ou dos sindi-calistas, visa a ressuscitar um potencial crítico presente nos relatos do tra-balho, ao desfazer o máximo possível as ancoragens em mecanismos de “blindagem” defensiva.

Trabalhar para uma crítica local das formas de opressão para formar causas comuns. – O clínico não deve abandonar sua ancoragem na singularidade das situações e das existências. A partir do (dos) lugar (luga-res) que ocupa, ele pode estabelecer uma relação diferente com a generaliza-ção, de modo a dar lugar à causa do desejo na causa comum.

Os clínicos desconfiam com razão das generalizações “que sobres-saem” e que impedem a afirmação de um pensamento singular. Elas se desti-nam a qualquer um, em qualquer momento e em qualquer lugar: elas não comprometem quem as exprime. Existe, porém, uma maneira mais indutiva de construir da generalização, que permite respeitar a qualidade das expe-riências singulares, sem impedir-se de pô-las em relação umas com as outras (em “série” ou “classes”). Trata-se então de uma generalização concreta, que retorna à experiência singular para afinar-se, retificar-se. É isso que permite que os clínicos lutem em várias frentes,a partir de críticas locais, originárias de situações particulares de opressão.

Inscrever sua intervenção “no meio”. – O ato clínico diz respeito aos vínculos de formaçao recíproca entre a pessoa e seu meio de trabalho. Inscrever a demanda do trabalhador em situação de sofrimento “no meio”, isto é, na relação entre o sujeito e o contexto profissional, é evitar fazer com que ela recaia unicamente sobre a história singular do sujeito, ou dar-lhe um alcance geral com rapidez excessiva. É também reconhecer a plura-lidade das referências normativas com as quais os trabalhadores devem compor em seu trabalho, para assumir suas eventuais contradições com conhecimento de causa.

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Sustentar um percurso psicológico e tático de deslocamentos. – Para o sujeito, trata-se de (re)encontrar jogo entre estar ocupando um lugar e a possibilidade de se deslocar das atribuições identitárias, a fim de en-frentar de outro modo o que é inquietante ou insuportável na vida de tra-balho.

Ora, paradoxalmente, a capacidade de ocupar um lugar supõe a ca-pacidade de perdê-lo. Um dos papéis da clínica do trabalho consistiria em restaurar essa dupla capacidade, frequentemente ameaçada pelas evoluções da organização do trabalho que fragilizam a disposição durável dos lugares sociais, e em razão das evoluções culturais que favorecem “um tipo particu-lar de posicionamento subjetivo: aquele que se arranja para não estar lá, aquele que pode estar ausente de si mesmo” (Lebrun, 2007).

Manter aberta a brecha existencial criada pelo real do trabalho. –

Uma breche é aberta pela confrontação com o real do trabalho. Procuramos todos evitá-la por meio de diferentes formas de negação, psicológica e so-cialmente organizadas. Ela envolve o risco permanente de voltar a fechar-se na “necessidade de agir” e na estreita satisfação que dela obtemos (Vasse, 1969). Desse ponto de vista, a tarefa clínico-crítica que se apresenta é a de uma resistência à superocupação, não somente nos pacientes que se dirigem aos clínicos, mas igualmente nas próprias instâncias críticas (sindicais e po-líticas).

A superocupação (“affairement”) aparece como um dos princi-pais sintomas com os quais a clínicado trabalho lida. Ela esmaga todas as temporalidades da vida em favor exclusivamente do tempo operacional, numa confusão entre rapidez, pressa e agitação. É uma fuga para frente, exatamente contrária à retomada que, sozinha, permitiria a travessia da experiência. Resistir à superocupação é comprometer-se em uma crítica política do produtivismo; é também engajar-se em um trabalho clínico sobre as fontes da superocupação e o prazer que ele oferece (Périlleux, 2010, 2012b).

Nesse sentido, a clínica do trabalho está em condições de contri-buir ativamente para relançar a crítica social. Ela é confrontada a patolo-gias sociais inacessíveis por outras vias. Ela pode distinguir entre as raizes de opressão objetiva e as causalidades subjetivas, problematizando a questão do sintoma. Por sua arte da escuta de risco, ela abre brechas nos processos de ocultação de sofrimentos mudos e é suscetível de esclarecer vias imprevistas de emancipação. Ao contribuir para uma subjetivação crítica, ela pode também levar os trabalhadores a sustentar uma certa con-sistência pessoal que é solapada nos regimes de superocupação do capita-lismo neoliberal.

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