OLHOS DE MENTA
verso reverso prosa poesia
ISBN 9 788581 971674
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A saudade e o absurdo Quando choveu nos meus olhos Alinhamento
Pássaros
Phatos e Phadas Disparate
Fala serio
A pedra branca de Marte Atitude
Olhos de menta
Sonhar, sonhar e sonhar Marcas
Eu, ilha Foco
O sol daquela noite Tábua das marés Retalhos
Para derreter corações Anjos etílicos
Amanhã talvez Veleiro coração Você é o alvo O jogo continua Entulhos mentais Onde há paixão Eu e você
Anúncio classificado Triste tristeza
Pra dizer coisas de amor Promessa é dívida Sorriso aberto Entremeio A brisa e o vento Limiar
Lá vem o trem
A pantera de olhos de estrelas Relógio de sol
Entendeu?
Durma bem
Nem Neruda nem Drummond Alfazema
Rosa dos Tempos Sorriso aberto Eu também quero Aquele que ainda sonha Polêmica
Eu gosto
Quem acordou o gigante Éramos todos jovens
Carnavália do lirismo comum Vilarejo estranho
Flor da paisagem Apelação II
Quando eu enxugava gelo
A SAUDADE E O ABSURDO
quando a poeira baixar e a saudade passar!
nada será como antes, ninguém vai se admirar se a noite o sol brilhar, e sem pudor bronzear o marfim dos elefantes!
ser diferente ou igual não vai fazer nenhum mal não vai fazer diferença, já quebrei a minha lança Don Quixote ou Sancho Pança sem vitória ou recompensa !
se da canção, o acorde, meio sem querer, acorde o dormente sentimento, eu nem sequer me iludo, e de poeta do absurdo podem até me chamar
sem nenhum constrangimento!
e muito além de bereberê, pra lá de láialáia,
lua e estrela marinha por certo vão se encontrar num lugar que talvez fique junto ao Cruzeiro do Sul!
avisem lá pro astronauta que nem só a Terra é azul!
QUANDO CHOVEU NOS MEUS OLHOS!
quando choveu nos meus olhos, não me questione as razões, surgiu no meu horizonte um arco-íris de ilusões, a roupa pulou do aquário, o peixe saiu do armário, quem ao pote vai com sede e põe as mãos pelos pés, não compra lebre por gato, o bom senso é um desacato e enfrenta qualquer revés!
quando choveu nos meus olhos, de noite não teve lua,
e até o olho da rua surpreso se arregalou, e aquele poste da esquina lamentou a sua sina, de viver ali inerte
sem nada que lhe desperte da eterna concretude!
quando choveu nos meus olhos, me lembrei de tanta coisa, que nem sei como é que pude!
ALINHAMENTO
tudo na vida acontece
e se o imprevisto aparece sempre existe solução,
se o instinto prevalece além do além da razão, é no porão da memória que se esconde a história na gaveta da ilusão!
e quando a alma flutua na rima pobre de um verso, feito uma réstia de lua perdida no universo, as ideias se alinham, planetas em desalinho ensaiam a revolução!
e no círculo de dois lados, no espanto do momento, de repente e sem demora, a dupla emoção aflora, uma do lado de dentro, outra do lado de fora!
PÁSSAROS
são criaturas aladas que enfeitam a natureza canto e cores encantadas deslumbrantes de beleza!
seres mágicos e sedutores puro encanto e magia inspiram compositores e os amantes da poesia!
símbolos de liberdade cantados em prosa e versos alegres e multicores!
fazem alarido, alarde, leves, soltos e dispersos, e seguem beijando flores!
PHATOS E PHADAS !
Era uma vez um país em algum lugar do passado, do presente ou do phuturo, onde ninguém sabia ao certo o motivo, mas o povo vivia sorrindo.
Várias pesquisas haviam sido pheitas no intuito de desvendar o mistério da origem de tal phato, no entanto, as respostas a pergunta que não queria calar , eram as mais diversas, variadas e inimagináveis possíveis.
Uns achavam que o povo pendurava um sorriso no rosto pheito aquelas máscaras de carnaval, pra dispharçar a realidade de tanta tristeza, ou seja, tapar o sol de uma angústia com a peneira de uma ilusão, ou simplesmente pra esquecer o ônibus lotado, o título no cartório, o nome no SPC, a phila da previdência, o imposto compulsório, ou o valor de um tal salário mínimo, que na realidade era o máximo de desrespeito.
Outros ainda achavam que o povo sorria devido a uma cãimbra causada por ocasião em que o bobo da corte contara uma piada muito sem graça, e para que o maioral não lhe cortasse a cabeça, as pessoas deram aquela risadinha amarela e phorçada, que acabara se perpetuando.
Alguns aphirmavam, e eram capazes de assinar embaixo, que o motivo do riso permanente era pura e tão somente as mirabolantes e phantasiosas promessas dos políticos em véspera de eleição.
Com toda a certeza, dephendiam veementemente aqueles da ala religiosa, era porque Deus era oriundo daquela santa terrinha, com cédula de identidade, cadastro de contribuinte, conta no banco do povo, e tudo mais, e sentiam-se phelizes pelo phato de terem um compatriota globalizado e mundialmente conhecido, muito embora por muitas e muitas vezes completamente ignorado.
Juravam alguns, em nome do compatriota phamoso, que o riso era resultado do epheito de phrases de epheito, soltas e esparsas ouvidas no dia a dia tais como:
“A justiça é cega!; Quem ri por último ri- tardado!; Mais vale um pássaro na mão do que uma jararáca no meio das pernas! ; Eu prometo...! Vamos apurar as responsabilidades! O nosso compromisso é com o povo!; Não me deixem só! ; Vamos coibir as impunidades! Este assunto é prioritário!; A melhor dephesa é o ataque! Tem dia que de noite é assim mesmo!; Quem espera sempre alcança!; Eu disse que não ia dar certo!; Ah! Se eu phosse mais novo!; No meu
tempo era dipherente!; Vamos zerar a inphlação!; Ante o orgasmo esporádico da atual conjuntura!; Avisem os desavisados que hoje não tem aviso!; Se correr o bicho pega , se phicar...!
E outras tantas pérolas
semipreciosas do linguajar popularesco.
Por ser maravilhoso o tal país era pródigo em conversa phiada , boatos, patuás e talismãs, (tinha um que phora ídolo da Gaviões!) , duendes, desempregado padrão, orixás, torcidas uniphormizadas, CPIs, maracutáias, vigaristas de carreira, inimigos número um, monopólio estatal, conexões de trambiques, greves, gnomos, gigantes e anões como o João Phelizardo, phigura do alto escalão, um cara de pau consumado que alardeava ser detentor de uma sorte tamanha, mas inegavelmente suspeita, ou o Anão Tagarela, petulante e convencido atleta da seleção de phrescobol, que queria porque queria jogar, e apesar de pegar o avião andando, chorava pois queria ir sentando na janelinha!
Tantos phatos, poucas phadas e muito pano pra manga! Phantasioso país de sorridentes phiguras- talvez dissesse Cervantes!! E enganando os desenganos no desphile principal, pelas
esquinas da vida, nos becos do desespero, nos mares da hipocrisia do social abandono, vagando nas ondas do rádio esparsas pelo espaço, sem direção nem compasso, prisioneiros sob os grilhões de modernos bucaneiros, Peter Pans e Sininhos morriam de overdose, de pico, pedra de crack, ou de pó de pirimplimplim, pois para eles a esperança era uma phaca de dois gumes, sonho no phio da navalha, e se vivia ou se morria sorrindo!
Havia uma porrada de dragões, muito cacique pra pouco índio, nenhuma princesa encantada ou cavalo de qualquer cor! Naquele reino desencantado, bobagem era miséria pouca e as ilusões em preto e branco, entrando de porta em porta, correndo de boca em boca, querendo explodir no peito, brilhando no sorriso aberto rephletido na phragilidade da imagem do mágico espelho de cristal, que na realidade só era mesmo espelho de uma história inverossímil, phantasia, phatos e phadas, que só pra não phugir a regra, phoram phelizes pra sempre!
E eu vou é parando por aqui pois que, escoteiro sempre alerta, eu quero é correr perigo, e quando a saudade aperta, no auge da solidão, só
posso contar comigo, e tiro da multimochila um punhado de ilusão!
Dirão os desavisados, - perdeu o phio da meada – que eu, careta vacinado viajei, pisei na bola, mas como Vovó já dizia sorrindo pra Chapeuzinho, voltando-se à vaca phria já a caminho do brejo :
- Não se enrede no enigma encontre seu paradigma, roteiro da solução! E eu aqui de minha parte usando mil artiphícios perto do início do phim, exercendo o meu direito de ousar de qualquer jeito, salvaguardando as aparências, só tenho a dizer é que quem quiser que conte outra, e é bem melhor perder a esperança do que não tê-la conhecido, já que todo amor dura pra sempre, o pra sempre é que não tem uma vida duradoura!
DISPARATE
cuidado com o andor pois o sonho é de barro tem reggae, flores no jarro, e o santo é de cristal!
aposte na loteria esperança na cabeça francamente, quem diria, por incrível que pareça, é melhor que não se esqueça da verdade nua e crua!
eu aqui de minha parte, eterno amante da arte, não é nenhum disparate, vou tomar meu banho de lua!
FALA SÉRIO
quem fala sério não brinca não racha, não quebra, não trinca,
melhor sorrir que chorar!
não teimar na teimosia feito mula que empaca, chutar o pau da barraca, enfiar o pé na jaca, viver é pura magia e a vida é um carnaval!
se você achar que é pouco, não queira pagar de louco, não semeie tempestade pra não colher vendaval!
A PEDRA BRANCA DE MARTE pare pra pensar na vida se desligue da tomada, depois por favor me diga se a tomada da medida foi coisa certa ou errada, pare para olhar pra lua de uma forma inusitada, imagine a moça nua só de luar enfeitada, que triste e sem ter meios de conter os seus anseios, consigo mesma reflete no auge dos seus sonhares, que apesar dos pesares julgar rimas, versos, almas, afinal não lhe compete!
do porto inseguro do universo a policromica nave mãe,
no sol de qualquer manhã, sem ter hora certa, parte para desvendar os mistérios no encontro de hemisférios, daquela pedra da lua
e da pedra branca de marte!
ATITUDE
um dia, talvez, quem sabe, nada será diferente, e a incerteza não cabe nesse verso incoerente, bem sabe disso, acredite, quem nada contra a corrente!
eu, da vida não reclamo, não há motivo ou razão, e sigo à risca meu plano de evitar os desenganos, não pôr os pés pelas mãos!
nasci assim desse jeito quase isento de defeitos, muita esperança no peito muita fé no coração!
poeta não morre à míngua, a rima na ponta da língua lhe alivia a caminhada e até faz bem a saúde, fique atento, não se iluda, para que tudo aconteça sempre é preciso atitude!
OLHOS DE MENTA
O gelo brilhava no copo, o sangue dançava ao som do bolero que preenchia todos os espaços, e o colorido das luzes ofuscava qualquer possível resto de esperança escondido em algum olhar!
Aquela noite tinha que ser diferente pois, deliberadamente ele havia decidido, estava cansado de tudo, de teto baixo, pra lá de down, completamente exausto daquele reinante conformismo absurdo, não concordava de jeito algum que Deus escrevia certo por linhas tortas, não conseguia engolir essa tal filosofia!
Ele tivera seus grandes amores, vivera loucas paixões, dissabores, e sonhos além das razões, no entanto, preso agora nos fios resistentes daquela teia, já quase no fundo do poço, o sangue fervendo na veia, a esperança no osso, ele sabia que quando a coisa fica preta no apogeu do eclipse, ou quando soa a trombeta do arauto do apocalipse, é preciso não se perder a cabeça, nem abrir mão do direito de que a vida aconteça como quiser, do seu jeito, independente do projeto, do momento, da dosagem, do contexto, do objeto, dos medos ou da coragem, da paixão voraz, selvagem, das razões, dos desatinos, do código da
mensagem, ou por quem dobram os sinos, pois a vida nos desafia de forma fria e fatal e todo dia é dia do tal juízo final!
Ele se lembrava, ainda que muito vagamente, de quando acreditava que tudo era possível e havia muita gente brincando de roda na calmaria dos mares do tempo, navegando aos quatro ventos em busca de um porto seguro, mantendo a qualquer preço a bravura, o sangue frio, o orgulho, a paciência, a vantagem, o desafio, a razão, a consciência, o prescrito na receita, as aparências e a virtude, e acima de qualquer suspeita, os sonhos da juventude!
Agora ele se transformara apenas e tão somente em mais uma peça da engrenagem da grande máquina.
Questão de sobrevivência!
De paletó e gravata, de pasta debaixo do braço, agenda, hora marcada, pisoteando seus sonhos no caminho para o sucesso, sem tempo pro bate-papo, sem o encanto do canto, alheio, condicionado, sem rima para a poesia, e não foram poucas as vezes, que tentara dizer pra si mesmo, que pra tudo existe um jeito, porém nunca lhe dera ouvidos!
Por isso talvez ele estivesse decididamente perplexo ante o auge da indecisão. Na margem da incerteza, entre o sim e o não, a suavidade e a dureza, o diamante e o carvão, entre as trevas das estrelas e o brilho da escuridão!
Entre o nada e o tudo, entre o princípio e o fim, o real e a fantasia, a verdade e a hipocrisia, no arco-íris do mundo, entre o raso e o profundo, seguindo qualquer caminho, canto, pranto, flor, espinho, sol e luz, sorte e destino, guerra e paz, ilusões dentro do peito, entre o errado e o direito,
Quem lhe dera ser capaz de acreditar na magia de encarar a utopia como coisa natural, e de relance, num momento, solucionar o enigma no enunciado do poema, no contexto do teorema, ou no encontro das paralelas no infinito pensamento!
Ele tinha uma remota lembrança de que a força dos sentimentos supera qualquer dificuldade, atravessa qualquer barreira, ultrapassa qualquer fronteira, inverte a ordem natural prescrita, que então se torna proscrita, seja ela imaginária, convencional ou restrita, vacilante ou convicta, e segue a desordem a risca, sem dar a mínima importância a qualquer eventual limite de ordem emocional e se perpetua na
eternidade de momentos cheios de magia, fazendo valer cada instante!
Pois pra viver tem que ter ginga e tudo tem lugar hora, e quem não pode com a mandinga, mete os sonhos na sacola! Muita fé, perseverança, etc... e coisa e tal, vale a fé na esperança, vá de retro baixo astral, e quando a esmola é demais é melhor ficar alerta, pois no limite da paz, bala perdida te acerta! E não adianta chorar a lágrima derramada, melhor remédio é cantar, tristeza não leva a nada e sonhos não pagam impostos, sorrisos não pagam dívidas, e os sentimentos expostos valem as emoções vividas, doce magia encantada de saber viver a vida.
Mesmo assim, dos seus olhos não saia a lembrança esverdeada do brilho daquele mágico olhar que o deixara enfeitiçado.
Marinheiro de inúmeras viagens, vários sonhos naufragados, pelos bares navegados mesmo sem crer em miragens, havia se esquecido de que joia falsa também brilha, e que às vezes esmeraldas não passam de turmalinas!
Chegando em casa havia trocado o terno de caimento impecável, a gravata e a camisa de seda italianas, por uma camiseta velha e um jeans surrado e desbotado, que induzido pela antiga
propaganda lhe dava a falsa sensação da mais completa liberdade.
Os sapatos de cromo alemão haviam sido substituídos por um par de tênis sem marca comprado em um camelô.
Não saiu fantasiado de rapaz bem sucedido! Sonhou acordado ao som dos boleros dos Anos Dourados, uma orquestra tocava “Catito-Catito”
e ele dançava feliz, nos mares do sonho seguia “La barca”, “Sabras que te quiero”, “Total”, “:Ansiedad”,
“Aqueles olhos verdes”, “Besame Mucho”, “Acerca-te mas”. Ouviu Os Incríveis, The Jordans, Mama and Papas e os Beatles, viu os grandes festivais, a Banda passou em Disparada atrás da menina perfumada de Channel número 5, o boy, de gola olímpica, passou na lambreta cheirando lança-perfume, e ele, chapado de paz e amor quebrou o seu telhado de vidro para poder atirar pedras em telhados alheios!
Foi aí que o luar invadiu a sala e iluminou de beleza o anel de formatura jogado em um canto qualquer. Saiu sem lenço e sem carteira de trabalho, na mão o velho baralho, automática na cintura, e só um restinho de esperança no bolso esquerdo do coração! Na esquina dos devaneios ele desceu do sonho andando pois quem sabe o caminho
certo não tem o direito de errar, é o que lhe havia dito aquele Velho Ditado que era amigo do peito do Pescador de Ilusões e que continuava bem lúcido sentado no banco da Praça do Mundo, conjugando o verbo viver pois se navegar é preciso, sonhar é imprescindível!
Quando deu por si estava ali no “Mais um trago” bebendo uísque misturado com cachaça, disposto a comprar briga e fazer trapaça ao entrar na jogatina, e a bem da verdade, poderia jurar que não era pra mostrar coragem, era só pra fugir da engrenagem, só pra sair da rotina, pois tinha plena consciência de que a carne é fraca, mas o seu santo era forte e ele não ligava pra sorte ou ao que desse a falar!
No espelho do balcão do bar olhou a ruga que lhe enfeitava a testa, mas não deu a mínima importância ao que esta lhe dizia, cantarolou como antigamente, ousou sorrir, coisa que não fazia, bem reparou que estava diferente, fingiu porém que nada percebia. Pouco lhe importava sair dali cambaleando, misturando seus fracassos aos pedaços de luar.
Esgotada a sua paciência cortou as asas da esperança, subornou a consciência, quebrou as juras secretas, jurou não jurar mais nada, rompeu os laços fraternos, desvendou os segredos e os sigilos,
mandou os anjos pro inferno dando pau a três por quatro na cabeça dos seus grilos! Fechou os seus olhos tristes pra não ver a realidade, renegou as ilusões, colheu as flores do asfalto, chutou os sonhos pro alto, deu um pé na fantasia, rejeitou a tal da prática, exaltou a teoria, acreditou em paz na Terra, e quando a saudade bateu no peito, atendeu de má vontade e disse que não estava!
As pessoas a sua volta não estavam nem aí para o seu estado de espírito, continuavam intransigentes e indiferentes, cada qual na sua, completamente alheias as suas amarguras e pouco se importando se ele seguiria pelas carícias da noite escura, ao léu, sem rumo, sem eira nem beira quase chegando às raias da loucura.
Na mesa ao fundo, a linda mulher de olhos verdes não deixava transbordar um pingo sequer de tristeza, alias muito pelo contrário, a sua falsa alegria de aluguel chegava a ser contagiante, no entanto ela já estava cansada de ser o eterno colírio da menina dos olhos do olho da rua, exposta na vitrine de uma esquina qualquer ou na mesa de um bar , daquele brilho de sedução na estrela do olhar, e daquela conversa envolvente de mil promessas na cama para agradar o cliente de mais um programa, de esconder
os seus sentimentos atrás de cada sorriso, pois que no seu ofício era fundamental e necessário, viver o momento e sufocar dentro do peito toda e qualquer emoção, e curtir a espera de um amor verdadeiro sonhando acordada, vendendo ilusão e o corpo sem qualquer compromisso e sem se importar em ser um sonho virado do avesso, anjo da noite amando quem pagasse o seu preço.
Rezava às vezes para que tudo se apagasse de repente da sua mente e todo o seu pensamento fosse um imenso deserto, pois então ela nem saberia da vida rolando lá fora, de mentiras nem segredos, da coragem ou dos medos, de ideias repulsivas, daquele viver tão sem nexo, de promessas impulsivas feitas na explosão do sexo, ou de ilusões coloridas feito luzes de neon! Ela nem saberia da fogueira da saudade fazendo festa dentro do peito, ou do farol da tristeza ofuscando o seu olhar, da mágoa a flor da pele, das cores e seus matizes, da flor do amor e os seus espinhos, das dores e das cicatrizes e nem da desilusão!
Talvez então, com certeza ela em nada mais se apegasse, se ela nunca mais pensasse, se tudo em sua mente de repente se apagasse, então ela não saberia da cruel realidade da sua imensa solidão. E
o tempo sempre passando, e ela sem querer levando a vida que não havia pedido a Deus, sempre bronzeando a pílula pois há momentos na vida em que não há ouro que aguente. Mas o seu passado estava sempre presente em cada curva da estrada e a sua alma lavada pelas inúmeras paixões vividas, e pra fugir do marasmo, do escárnio, do sarcasmo, ela havia feito da vida um gozo pleno, um orgasmo.
No palco cumprindo a sua sina e movido pela realidade incontestável de que precisava comer e pagar o aluguel, entre tantas outras coisas, o cantor de boleros cuja vontade mesmo era poder mostrar seu talento cantando outro tipo de música, sonhava com o estrelato para poder parar de cantar para um punhado de gente pra lá de bêbada, e continuava a desfiar aquele repertório meloso, intrigado sem saber se a arte imita a vida ou será que vice-versa, a vida é a arte contida na imitação submersa?
Apenas mais uma dúvida entre tantas do Universo onde somos pródigos em estabelecer parâmetros, limitados pelos códigos dessa ordem mundial. Pois na fronteira para o nada esse tudo é mais profundo do que qualquer oceano e no dente da engrenagem somos meramente súditos de
um reino de outro mundo, temporariamente prisioneiros da nossa própria embalagem! Ele sabia do seu potencial e sabia também que algo em potencial pode ou não se tornar realidade, de nada adianta uma potencialidade que não ultrapasse jamais a barreira da possibilidade saindo do abstrato para o concreto.
Tinha plena consciência de que
“mídia” era a palavra mágica que abriria as portas do sucesso, o qual, por sua vez, estava cada vez mais irremediavelmente dependente de uma outra palavra de apenas quatro letras, “jabá”, que há muito tempo deixara de ser apenas e tão somente uma iguaria do norte/nordeste. Mesmo assim ele continuava a escrever canções e poesias, pois dentro da alma, ainda que de amor deserta, trazia guardados versos escondidos, que haveriam de brotar no tempo e na hora certa, com a magia e cores dos jardins floridos!
Ele fazia versos como quem vai a feira buscar restos de esperança na barraca das ilusões, como brinquedo de criança remendado de emoções, como quem se faz de louco pra segurar tanta barra, pra esquecer que ganha pouco, e que pra se iludir se agarra às garras da imaginação, como um operário da arte dedicado ao seu ofício, um operário
padrão, em cujo peito pulsa, bate, o que chamam;
coração!
Ele fazia versos assim como alguém que sofre as dores de uma solidão, e que por querer, ou por descuido, pode queimar-se nas brasas da fogueira da paixão, assim como alguém que ama sem algemas e sem regras, sem limites e sem alarde, e que no peito carrega fragmentos de saudade, como quem sonha acordado, como quem colhe um beijo na boca da mulher amada, e segue a estrela guia que brilha no seu olhar! Como quem esqueceu o ofício, como quem chorou um sonho, como quem ardeu na fogueira, como quem sonhou um beijo, como quem perdeu sua estrela, como quem ousou ser feliz! Sabia que existem certas coisas que não precisam ser ditas, basta ficar admirando e deixar acontecer, não é aconselhável navegar contra o vento, remar contra a maré ou trafegar na contramão, noções básicas e fundamentais de sobrevivência na selva das necessárias ilusões são simplesmente dispensáveis, e que medidas infalíveis de não envolvimento emocional tornam-se ineficazes, e a objetiva racionalidade é meramente transitória no mecanismo da trajetoria da conexão razão/coração!
Ele sabia de muita coisa, inclusive que é muito mais do que fácil crer na realidade, prática não é
requisito, e muito menos, a habilidade, mas é indispensável, no entanto, a tal sensibilidade, para poder acreditar na virtual fantasia e viajar nas asas brancas de um sonho de todas as cores!
Que o amor que brinca no peito, a paixão que dança no olhar, é o que faz do poeta, um ser privilegiado, um caçador de ilusões, pirata dos devaneios, que navega em verdes mares, naufraga em emoções, paralelo e marginal, perdido pelo espaço feito a luva do astronauta, entre a certeza e o quase daquilo que se imagina, e do que a realidade alcança!
Uma estrela de mil brilhos, um ET, um bicho-grilo, um querubim kamikase, espírito mensageiro, cibernético guerreiro, um verdadeiro samurai da esperança!
Sabia também que sonhar é correr perigo e viver é um risco calculado, sensações, emoções, são facas de dois gumes, delírios e devaneios, empurram a realidade ladeira da vida abaixo, no entanto, ansiava por encontrar, ah! quem lhe dera!, a tal linha divisória entre a realidade e a quimera, para poder mudar, se quisesse, o tal final da história e viver intensamente cada instante possível da realidade do seu sonho!
Sabia que com certeza, amanhã seria outro dia e que sem dúvida, na verdade poderia chegar
num instante ou durar uma eternidade, pois a máquina do tempo, sempre, a qualquer momento, pode nos fazer vislumbrar as surpresas do futuro ou as cores do passado! Mas para nós os pobres mortais, só o ontem e o hoje são verdadeiras certezas, o amanhã é só um talvez, uma mera possibilidade e sempre era melhor esperar chegar o amanhã, para aí sim, quem sabe outra vez, sermos uma certeza!
O gelo dançava no copo, o sangue fervia nas veias, e de repente, a verde estrela daqueles olhos sedutores, deixou evidente que a mulher de olhos de menta não sorria quando olhava para ele.
Ela ria,
o gelo dançava no copo, o uísque fervia nas veias,
um tiro, os olhos de menta gelavam, o sangue vermelho brilhava,
E nunca mais se ouviria aquele cantor de boleros, pois pairava no ar a certeza de que para ele jamais haveria amanhã!
SONHAR, SONHAR E SONHAR!
tinha uma estrela
tinha um sol no final do túnel tinha uma pedra no peito e um diamante no olhar
tinha uma estrela no meio do caminho tinha um sol no peito
tinha um diamante no final do túnel e uma pedra no olhar
tinha o olhar numa estrela
tinha uma pedra no final do túnel tinha um sol no meio do caminho e um diamante no peito tinha tudo pra dar certo mas entre o certo e o incerto é melhor não se arriscar
pode ser talvez quem sabe que foi-se ao pote com sede, e a vida nos concede
o direito de errar
tinha uma estrela no peito tinha um caminho no olhar um brilho de diamante no sol do final do túnel, tinha um sonho de pedra, sonhar, sonhar e sonhar !
MARCAS!
a v ida nos deixa marcas também conhecidas como lembranças, e quer sejam boas ou más, elas ficam,
independentemente da nossa vontade a gente muda de caminho
de endereço de cidade e até mesmo de atitude
e se pudéssemos mudar de planeta lá no infinito de não sei onde um belo dia descobriríamos a verdade que não se quer ver você pode mudar de lembranças mas elas não saem jamais de você!
EU, ILHA !
sob ao sol ao meu alcance
vejo a vida num relance, céu azul, palmeira, mar, vejo a sombra
de mim mesmo
que me segue, me persegue, sinto o fogo que me aquece, me abrasa, me incendeia, ouço a canção do vento
e sem querer, de repente, canto o refrão de um lamento que me lembra a espuma branca da onda que beija a praia
da ilha que me tornei!
FOCO
não sei se quero ou não quero, não sei se quero querer,
não sei se querer não quero se quero, não quero saber!
viver é faca de corte, pra morrer é cedo ainda, mas a certeza da morte é o paradoxo da vida!
vivemos de incerteza ao sabor da correnteza da enchente do destino,, porém uma coisa é certa, é melhor focar na meta e não cometer desatinos!
O SOL DAQUELA NOITE
Todos guardam algum segredo, sagrados doces mistérios, variam as circunstâncias, o momento e os critérios. Quantas vezes você olha para uma pessoa e tem aquela curiosidade imensa em saber o que vai pelos seus pensamentos, que problemas as afligem, que sonhos flutuam por sua alma.
Não há nenhum mal nisso, ( as pessoas também gostariam de saber o que vai pela sua cabeça), por isso não se acanhe, venha comigo, entremos nesta lanchonete, repare (sem dar bandeira), no homem sentado ao fundo na ala esquerda.
Não, esse não ! Na outra mesa, aquele de cabelos grisalhos, camiseta azul, calça jeans e tênis, junto com o garoto de blusa vermelha. Como você pode observar ele não é nem magro nem gordo, nem alto nem baixo, tem uma aparência jovial e se eu não lhe contasse que o garoto é seu neto, você, com certeza, julgaria que era seu filho ou quem sabe um sobrinho.
O homem em questão é o senhor Cândido Augusto da Paz, você notou, (pode olhar
novamente), que nos seus olhos existe um brilho um tanto quanto enigmático, e o seu sorriso parece um sol pendurado no rosto?
Pois é, para tudo existe um motivo, uma razão, e para o senhor Da Paz (como é conhecido na empresa onde trabalha), beirando os cinquenta anos, grisalho, (como você já confirmou), honesto, totalmente dedicado ao trabalho e à família, bom marido, avô daqueles que mimam os netos, levam aos passeios no parque, ao cinema, para comer hambúrguer com fritas e coca cola, e tomar sorvete quase todos os finais de semana, as coisas não são diferentes, afinal olhando bem de pertinho quase ninguém é normal.
Mas, quem nunca teve na vida, uma paixão incontida dessas que a gente enlouquece ? A paixão do senhor Da Paz pelo futebol, aliás, pela seleção brasileira, é uma coisa assim fora do normal.
Ele não é desses fanáticos comuns, afinal ele nem sequer tem um time do coração, mas o seu fascínio pela equipe verde-amarela, nem Freud explica! Sabe tudo, tudo mesmo, sobre a paixão da sua vida, mas mesmo assim, não discute futebol, política, religião e nem marca de cerveja!
É um cara carismático e sempre tem de plantão alguma palavra de incentivo, de elogio, de conforto, e como ninguém é perfeito, quando é preciso pegar pesado, sai da frente, também é com ele mesmo! No fundo, no fundo, o senhor Da Paz faz jus ao nome, é cândido, pacífico, cauteloso, nunca deu tiro no escuro, e nunca foi de deixar furo!
Agora vou lhe pedir um favor, sei que você simpatizou de cara com o senhor Da Paz, por isso, não o julgue pelos fatos que passo a relatar, afinal, ninguém tem procuração divina para julgar comportamentos. Peço que volte comigo há alguns poucos anos atrás, é final de expediente de mais um dia de trabalho, todos estão no auditório da empresa comemorando o aniversário (vinte e três anos), da gata-de-olhos-de-mel, que trabalha no departamento de marketing.
É hora do parabéns pra você, (pode cantar junto), a aniversariante apaga as velas no bolo e, neste mesmo instante, (olha lá!), acende um estopim no coração do senhor Da Paz! Você concorda comigo que o olhar explosivo que ela dirigiu ao senhor Da Paz, é um verdadeiro torpedo de meiguice e promessas de um estágio no paraíso ?
Tá certo, eu concordo com você que ela não é linda, maravilhosa, não é assim uma Brastemp, mas aqueles lábios carnudos, e aqueles olhos perigosos, sobretudo para quem não pode se fartar com doces, lhe emprestam um ar assim meio exótico, e não dá pra negar que ela é realmente uma verdadeira gatinha.
Ao abraçar a aniversariante dando-lhe os parabéns, o senhor Da Paz (perceba), fica fora de órbita sem saber se é efeito do perfume delicioso que ela usa, ou pelo impacto causado por aquele olhar. O senhor Da Paz é um cara sério, mas não é mané pra não notar a intenção por trás daqueles olhos meigos.
Como eu já disse, ele nunca foi dado a aventuras amorosas, sua única paixão extra-conjugal é o seu eterno caso de amor com a seleção verde- amarela ! Nos dias que se seguem, as pessoas começam a notar que o senhor Da Paz, vira e mexe, tem alguma coisa para fazer no terceiro andar, onde, (com certeza, você também já percebeu), fica o departamento de marketing, e consequentemente a gata-de-olhos-de-mel! O próprio Da Paz, (já estamos mais íntimos e podemos dispensar a formalidade), se dá conta do que ocorre, e como é sempre muito ponderado, conversa consigo mesmo:
- Para com isso Da Paz, tá ficando bobo depois de velho? Papai Noel não existe, o que uma gatinha daquelas vai querer com um cara que tem idade de ser pai dela ?
- Depois você nunca foi disso, acorda, cai na real, bota a cabeça no lugar!
No entanto, Da Paz fala consigo mesmo, mas não lhe dá ouvidos, e aumenta cada vez mais, a vontade de botar a cabeça (a outra) no lugar!
Ele sabe muito bem que os tempos agora são outros, que tudo é diferente, mas ele é da antiga, não tem absolutamente nada a ver com a forma descartável e sem compromisso com que a juventude atual se relaciona amorosamente. E lhe vem à mente, aquela frase que ele ouviu uma repositora de produtos em um supermercado, dizer ao seu companheiro de trabalho, alguns anos mais novo do que ela:
- Acorda menino, quem gosta de homem é veado, mulher gosta é de dinheiro!
E Da Paz diz novamente para si mesmo:
- Acorda Da Paz, você não tem condições psicológicas e nem financeiras pra encarar uma barra dessa, é muita areia pro seu caminhão! E isso era a pura verdade, ele tinha um bom cargo, ganhava relativamente bem, mas não era um alto
salário que permitisse extravagâncias, tinha o seu apartamentinho na praia, seu carro era popular e já tinha alguns anos, e ele se virava nos trinta para dar conta do recado, para equilibrar o orçamento.
Mas, sonhar não paga imposto, e ele se permite a fazê-lo, e também, viver fantasias não é nenhum pecado! Um dia ele cria coragem e convida a gata-de-olhos-de-mel para almoçar, sei que você não vai se surpreender sabendo que ela aceitou, numa boa!
Conversam banalidades, trocam ideias sobre a nova campanha publicitária da empresa, e depois da sobremesa os olhos de Da Paz não conseguem fugir do visgo da meiguice daqueles olhos de mel,(nem lembra da insulina).Quase que automaticamente, sem perceber, Da Paz segura as mãos da gata, e nota que ela estremece e arrepia da cabeça aos pés, abre o seu sorriso de anjo (se é que anjos sorriem), e continua a olhar fixamente para ele, com aquele olhar mágico que não preciso mais descrever. Nos dias que se seguem, (aliás foram uns três meses) os almoços passam a ser rotina, e as conversas ficam cada vez mais íntimas, em pouco tempo ele sabe tudo a respeito dela
Foi criada pela mãe, tem três irmãos, e mais uma irmã por parte de pai, mora no arrabalde da periferia. Seu primeiro amor, o único homem da sua
vida (segundo ela), está do outro lado do mundo, na terra do sol nascente. Faz quase um ano que ele partiu, e eles haviam brigado um pouco antes da viagem, coisa assim meio besta, sem explicação, e como nenhum dos dois quis dar o braço a torcer, o assunto ficou pendente.
Mas ela ainda o ama, e não transou com ninguém depois da sua partida,(vai saber?) e tem esperança de que quando ele voltar, eles se acertam de novo. No trabalho ela é assediada constantemente pelos gaviões de plantão da empresa, (aqueles que olham para as mulheres como se estivessem olhando para um pedaço de carne pendurada no açougue), mas ela sabe jogar muito bem o jogo da sedução, e descartar os inconvenientes quando necessário. Em pouco tempo Da Paz fica sabendo tudo sobre a gata, inclusive, das ansiedades, e das dúvidas que pairam pela sua cabeça .
Mas, como eu já disse, Da Paz é da antiga e aos trancos e barrancos vai mantendo os pés no chão, muito embora seus sonhos andassem passeando pelas nuvens de algodão de mãos dadas com um anjo. Às vezes um samurai aparecia assim de repente, o sabre brilhando em sua mão, o olhar de aço penetrante, assustador, Da Paz voltava à realidade!
Até com um certo prazer, e eu acho que para tirar mais ainda o sossego do Da Paz, ou para ver se ele se decide, a gata lhe conta tudo sobre as investidas e cantadas dos gaviões, os convites, as promessas, tudo! Da Paz se remói de ciúmes, de inveja ou de um sentimento que ele não sabe explicar, ou finge não perceber, mas continua na dele.
Um dia a gata lhe confessa que está pensando em quebrar o compromisso feito com ela mesma, de esperar pela volta do samurai. Confessa que está balançando, que ninguém é de ferro , e que talvez não valha a pena ficar se guardando para um homem que nem sabe quando volta, se é que volta!
Ela havia saído para jantar com um rapaz que trabalhava no escritório em frente, conta que ele é gerente de informática, tem vinte e sete anos, é muito simpático, e ela está seriamente pensando em colocar um fim na sua abstinência sexual. Da Paz pensou lá com os seus botões que vinte e sete, mais vinte e três dava quase a sua idade, e se sentiu fora da parada, no fundo achava que era bem melhor para a gata se envolver com alguém jovem como ela.
Escondendo seus sentimentos, pergunta em que lugar eles haviam ido jantar, e a gata lhe diz que foram a um restaurante dançante onde a atração
musical é o tango, então Da Paz fica sabendo que o rapaz é argentino. Aquela noite, (nem precisava dizer) Da Paz não teve um pingo da dita cuja! Os pesadelos o assombravam, e agora a ameaça não vinha do samurai dos olhos frios de aço empunhando o seu sabre, era muito pior, ela vinha vestindo o uniforme azul e branco da seleção argentina.
Ninguém merece! As nuvens brancas do seu constante pesadelo haviam se transformado em um gramado verdinho. Era o momento decisivo, ele ajeita a bola na marca de pênalti, sente que as suas pernas pesam toneladas, é o peso da responsabilidade, o goleiro vai se transformando em uma gigantesca muralha azul e branca, num flash ele vê os olhos da gata-troféu, que sorri tranquilamente alheia ao seu sofrimento.
Acorda num sobressalto! Torna a dormir, ou melhor, a sofrer! Agora ele é o goleiro, seu algoz enverga uma camisa azul e branca e caminha resoluto em direção a bola, defender aquele pênalti é botar as mãos na taça, ou melhor, na gata. Ele pensa na importância das traves, bem que elas podiam ser mais largas, já ajudava um pouco, reza para pular no canto certo, fazer a defesa espetacular e se consagrar, sabe que apenas um dos protagonistas vai entrar para a
história, e mentaliza a defesa miraculosa! Lembra-se do Dieguito Faroleiro, contando vantagens, com aquela peculiar arrogância dizendo que se não fosse pelo vício, ele seria o Rei!
Da Paz é campeão, também tem treze letras, é um bom sinal! O juiz autoriza a cobrança, Da Paz acorda, ufa!!!
Se lembra do arrepio da gata quando ele havia segurado a sua mão pela primeira vez., Da Paz enlouquece, pira na batatinha, viaja no extrato de tomate sentado na janelinha, o seu ufanismo verde- amarelo vem à tona, a gata é nada mais nada menos, que um troféu em que ninguém coloca as mãos há um ano!
A velha rixa aflora, é um jogo que ele não pode perder, e além do mais ele não precisa só assistir, torcer e sofrer, ele pode decidir o jogo, vencer a partida. E ele decide ir para o ataque.
- Perder pro samurai ainda passa, mas perder pra argentino, nem à pau!
Monta seu esquema estratégico e no dia seguinte, finalmente, sai para jantar com a gata-de- olhos-de-mel, e é claro, ela vai ser a sobremesa. Foi a melhor partida da sua carreira, fez gol de placa, gol de mão, gol de cabeça, entrou com bola e tudo, (verdade
que a defesa não oferecia muita resistência, aliás, muito pelo contrário), e ele conquistou o troféu tão ardentemente desejado.
No intervalo, olha para a gata deitada ao seu lado, meiga, doce, exausta, encantadora, esbanjando sua juventude, e ele se belisca para ver se acorda. Mas felizmente não é um sonho, é a mais pura e fantástica realidade, Da Paz é claro, não é mais nenhum jovenzinho, mas tem a vantagem da experiência! A gata-de-olhos-de-mel esta feliz, seu olhar radiante parece um imenso sol banhando tudo com seus raios dourados. Da Paz vai às nuvens, e seu sorriso reflete o brilho daquele sol.
Depois daquela noite, o sol nunca mais saiu do seu rosto !
TÁBUA DAS MARÉS
na razão inversa do cubo do sonho que me seduz, não vacilo e me incumbo de fazer brilhar a luz sobre a areia da praia dos mares da solidão, na preamar da esperança do meu pobre coração!
e na tábua das marés o fluxo dos meus revés, da lua, reflete o brilho, e sigo da vida a trilha em que a alegria brilha e o sonho não sai do trilho!
RETALHOS
Nessa rua mora um poste vamos todos cirandar, passa- passa de vez, tanta gente entrou na roda, a última há de ficar! Tanta coisa se passou, mas no entanto nem tudo, passa a banda, foi-se a mata, passa o homem de gravata, passa o natal, e o entrudo, o tempo passa, lamento, passa tudo em um momento, é enorme o movimento em dia de pagamento!
No cotidiano shopping center, o sol sorri descaradamente para os carros estacionados, passa a espuma branca das ondas do verde-mar, mas não passa a lembrança do brilho daquele olhar! Tanta coisa já sonhei, tanto sonho esperei, que atualmente eu nem sei esperar por coisa alguma, não sei dizer por onde anda a menina dos olhos do olho da rua! Sei que o olho da rua já anda vermelho sem o seu colírio, e a menina continua no seu doce delírio!
Tudo porque hoje em dia a gente tem pressa, tanta pressa que esquece depressa, e às vezes nem lembra de nada pra não esquecer. E a gente se perde tentando encontrar sem saber o que foi que perdeu, e a gente nem guarda segredos porque vai morrer!
Mas o tempo não tem tempo de perder tempo, ontem ainda não era hoje, agora já é quase amanhã! Por isso se me der na telha eu quebro o meu telhado de vidro pra poder atirar pedras no telhado do vizinho!
Na alameda do imprevisível eu peguei o bonde andando, quem sabe o caminho certo não tem o direito de errar, mas é tudo tão incerto e lá no céu só vejo fumaça, já houve um tempo em que ele era todo azul, me lembro disso quando a propaganda passa agitando a massa no índigo blue!
Houve um tempo em que eu não sabia de nada e nem de longe imaginava que as coisas fossem assim, mas eu era livre e alegre, hoje eu canto, mas sou triste, e pelos cantos existem tantas lembranças de mim! Eu queria voar livre feito um passarinho, eu queria ser herói de histórias em quadrinhos!
Minas de ouro desvirginadas pela presença das tais caravelas para espanto de finíssimas damas vestidas de pau-brasil, que ostentavam nos olhos o brilho da lua, dançavam na festa da aldeia do rock tupiniquim, e hoje se escondem atrás da tal pedra da lua, ou da pedra branca de Marte, e lá em cima no espaço há tanto lixo que um dia tem que cair!
Salve a tecnologia, salve o lixo espacial, acabou o carnaval, mas ainda tem gente dormindo sob as marquises em retalhos de ilusão!
A realidade não dá colher pra fantasia!
PARA DERRETER CORAÇÕES!
inventei uma saudade daquelas de dar inveja, do tipo que só quem teve, sabe que machuca e dói!
convidei uma tristeza, uma lua prateada, e a seta do tal cupido - essa pedi emprestada-, para praticar tiro ao alvo em descuidado coração!
achei de puro cristal no shopping das ilusões, uma taça de lágrimas, brindei aos corações!
cama, abraços e beijos, delírio, suor, e paixões, lençóis, estrelas, desejos, roubei de algumas canções, talvez eu faça um poema para derreter corações!
ANJOS ETÍLICOS
Era um domingo, não posso afirmar se o vento soprava, se os pássaros cantavam, se estava chovendo ou não, quantos graus marcava o termômetro, nem se havia clássico no Morumbi. A voz aveludada invadiu o espaço e ele pensou que ouvia um locutor de rádio FM:
- Vá, veja, ouça, cante ou escreva, mas passe a bola pra frente, pois quem não anuncia se esconde!
Ele voltou-se tentando localizar e identificar o dono daquela voz de veludo e, com surpresa, viu envolto pela luz brilhante de Sete Luminárias de Ouro, aquela figura de cabelos de algodão, olhos de fogo e rosto radiante de energia solar! Naquele sorriso brilhava a esperança, que como alguém já disse, é uma faca de dois gumes! Ao seu lado direito, vestidas a rigor Sete Estrelas cintilavam sua luz celestial. Ele pensou que estava assistindo a um filme do Spielberg cheio de efeitos especiais!
Então a iluminada figura estendeu a mão direita sobre aquele pobre mortal e disse:
- Eu sou aquele que é! Eu sou a luz e a treva, a cruz e a espada, a escada e o elevador, o anão e o gigante, a porta e a chave, a prosa e a poesia, o verso e
o reverso, a fada e a bruxa, o gari e o executivo, o grego e o troiano, o lobo e o cordeiro, a pomba e a gira, a água e o fogo, o amor e o ódio, a águia e o colibri, o Gênesis e o Apocalipse, o alfa e o omega, o fusca e o BMW, a esmeralda e a turmalina, a brisa e o furacão, o feijão e o sonho, e tenho a senha do cartão magnético que abre as portas do céu e da carceragem do inferno!
- Ordeno-lhe que faças chegar sem demora a cada anjo de cada um dos Sete Mistérios um relatório completo sobre tudo o que foi, o que é, e o que será!
Envie sinais de fumaça, rufe os tambores, mande um fax, um e-mail, se vire!
Mais do que espantado com tudo aquilo e sem entender nada, ele que não era bobo começou a fazer as anotações.
HONORÁVEL ANJO NÚMERO UM
- Tenho comigo o relatório de todas as obras realizadas durante a tua administração, sei que enfrentas vários problemas com muita paciência e trabalho não vacilando em defender-me, muito embora tenhas te desviado da tua missão primeira. Mas há tempo ainda para o sincero arrependimento. Utilize tão somente as verbas necessárias para terminar as obras prioritárias, esquece a construção da fonte luminosa, (se gostas de mexer com água, combate as causas das
enchentes) e outras obras faraônicas ou serei forçado a remover-te do gabinete. Confie sempre na esperança da vitória pois como já disse o Machado: Ao vencedor as batatas!
PS : Esquece a proposta para participar da campanha do comercial de cerveja!
HONORÁVEL ANJO NÚMERO DOIS
- Não há o que temer, amores e sofrimentos são coisas da vida, alguns dos seguidores da tua causa poderão ser presos e ficar incomunicáveis, em que pese todo o empenho e luta da Comissão de Justiça e Paz. Mas, conservem eles até o fim, sob todas as circunstâncias a fidelidade aos seus princípios até à morte, e, resistindo, alcançarão a vitória podendo voltar ao seu amado rincão e serem um dia agraciados com a faixa e a coroa. Quem corre atrás do sonho tem que estar preparado e disposto a pagar o preço!
PS : Temo que quando alcances teus objetivos, faças exatamente como os outros!
HONORÁVEL ANJO NÚMERO TRÊS
- Sei que habitas nos confins do arrabalde da periferia onde os serviços públicos são deficitários e que enfrentas galhardamente teus moinhos de vento,
feito um verdadeiro Dom Quixote na tanga e sem tacape. Acordas as quatro da manhã, és esmagado no coletivo lotado e chegas pontualmente às sete horas ao trabalho para garantir o teu salário de fome, provando assim ser inabalável a tua fé e a tua extrema necessidade. No entanto alguns dos teus têm vacilado, mas enfim nem tudo é perfeito e nem tudo são flores!
Cumpre pois a tua penitência ou serás castigado pelos sonhos de querer ter o que não podes comprar, e de comprar o que não podes pagar, caminhando constantemente sobre o fio da navalha dos carnês e dos cartões de crédito. Mas não desanimes pois a vitória um dia chegará e receberá um ingresso para assistir ao banquete angelical e concorrer ao sorteio de uma cesta básica, isso tudo pra provar-te que nem só de pão viverá o homem!
PS : Jamais desista de um sonho, caso não o encontres em uma padaria, procure em outra!
HONORÁVEL ANJO NÚMERO QUATRO
- Tens permitido entre os teus o perigoso jogo da arte da sedução levando-os ao adultério, praticando o sexo sem amor, quando o ideal é ter-se o amor como base do sexo, (eu sei que me achas meio ultrapassado), mas a promiscuidade será umas das
principais causas da transmissão do vírus fatal que se não adequadamente controlado, poderá determinar a extinção da espécie. Aqueles que acordarem para a realidade e vestirem a camisinha da campanha terão mais chance de ver o brilho da estrela da manhã, para aqueles outros, no entanto, talvez nem haja amanhã!
PS: És o único responsável pelo que fumas, cheiras, bebes, e com quem e como transas, não tenho absolutamente nada como isso!
HONORÁVEL ANJO NÚMERO CINCO
- Protegido pela mágica da cartola tu te fazes de morto para poder viver pois o pior cego é aquele que não quer enxergar. Assim finges não ver os teus jovens digladiando-se como nas arenas da Roma Antiga, tingindo os seus uniformes com o vermelho do próprio sangue, ou com o dos teus irmãos que viram teus inimigos sem motivo ou razão aparente. Terás por tua omissão o teu nome perpetuado no Dario de bordo da tua existência!
PS : O recheio verde da tal mala preta não garante a tua classificação para a próxima etapa dos Torneios Celestiais!
HONORÁVEL ANJO NÚMERO SEIS
- Guardastes a sete chaves o segredo da minha palavra mantendo aberta a todos a porta da felicidade, no entanto nem todos conseguem entrar pois têm o péssimo costume de dificultar as coisas, de torná-las mais difíceis do que realmente são, e, via de regra, projetam a busca da tal felicidade em tudo que os cerca, esquecem porém de procurar no local certo, ou seja, dentro de si próprios. Urge também que tomes as providencias cabíveis para melhor divulgação do nosso trabalho. Nosso índice de aceitação está despencando lamentavelmente, a descrença nos nossos dogmas está proliferando, é necessário rever nossos conceitos e reavaliar nossas ações de marketing, pois o número de dissidentes está assustador! Não importam os meios, o que conta são os resultados, é preciso reabilitar e reavivar a fé em toda a sua plenitude.
- Portanto, que se renovem os conceitos, que se repiquem os atabaques, que se murmurem as preces, que soem as guitarras, as baterias e os teclados, que se ecoem os cânticos, pois o poeta já disse que: - Tudo vale a pena se a alma não é pequena!
PS : A poesia, ainda que pareça utópica é um bem necessário!
HONORÁVEL ANJO NÚMERO SETE
- Conheço todos os teus passos, seu que vives em cima do muro, não és contra nem a favor e nem muito pelo contrário. O que te importa é defender o teu nem que chova cotonete ! Riqueza não é pecado mas, a pobreza deveria ser tipificada no Código Penal. A Justiça não é tão cega como alguns, querem fazer crer e muitos roubam na balança! Mas, na verdade devo confessar que ela manca de uma perna!
PS : Uma coisa é certa, se a humanidade não acordar para a realidade, em não muito tempo sucumbirá de sede em pleno Planeta Água!
Ouviu-se o som de um sax solando “Stella by starlight”, e entrou o comercial.
Aos poucos ele foi abrindo os olhos vermelhos que se destacavam nas profundezas das olheiras. Na boca, ainda sentia aquele gosto de cabo de guarda-chuva, deu com as anotações rabiscadas no papel em cima da mesa, leu, releu e naquele exato momento compreendeu toda a verdade, toda a importância daquela revelação policrômica.
Então ele tomou a drástica mas necessária decisão:
Nunca mais beberia além da terceira dose!
AMANHÃ TALVEZ...!
só estaciono minha nave em lugares permitidos, e a ave dos meus sonhos voa em qualquer sentido, vou na contra mão da galaxia, não paro na pista espacial, nada tenho de especial exceto o dom de acreditar, que não quero ser igual embora não seja diferente!
não me julgue incoerente, as cores da aparência da ilusão transparente, vão fazer a diferença, pois além do que se pensa, se a emoção é tensa,
qualquer paixão não compensa, o risco pode ter razão!
e então a gente faz planos, para amanhã, para o futuro, o passado já passou,
não tem medo do escuro,
e a gente pensa estar seguro, e mergulha, vai ao fundo,
sem saber o que pode acontecer, na próxima fração de segundo!
tudo é como está agora, mas poderia ser diferente, quem sabe amanhã, talvez?
VELEIRO CORAÇÃO!
sem ter noção do perigo, sem guarida e sem abrigo, se entrega o coração aos caprichos do destino, sem pensar nos desatinos e artimanhas da paixão!
é um veleiro ao vento, nos mares dos sentimentos navega às velas soltas, quase naufraga em seus ais, e segue em busca de um cais singrando as águas revoltas!
VOCÊ É O ALVO!
se um dia a fonte secar, a estrela não brilhar, e a banda não tocar lá no coreto da praça, você irá perceber, que não adianta correr, pois tipo assim, sem querer, a solidão te abraça!
se um dia de repente, você ficar frente à frente, com uma paixão ardente, dessas que a gente enlouquece, em cada vez que chorar,
vai prometer, vai jurar, que não vai mais se lembrar, mas nunca, jamais esquece!
sem razões e sem critérios, do amor e seus impérios, da paixão e seus mistérios, nunca ninguém esta à salvo, amar sempre vale à pena, disfarce, saia de cena,
pois bem sei que este poema, te atingiu, você é o alvo!
O JOGO CONTINUA
Atendendo a inúmeros pedidos, (mentira, confesso foi apenas um), resolvi continuar a contar novas experiências do nosso já conhecido e amigo, Da Paz! Só o faço em respeito e consideração à solicitação, repito, de uma nobre leitora.
A verdade é que as narrativas que dizem respeito ao Da Paz, para a grande maioria das pessoas pode parecer uma grande mentira, por isso relutei um pouco em trazê-las a público.
- Mas alto lá! Na vida eu nunca menti!
É certo que às vezes invento um pouco, coloco uma frase aqui, crio uma outra situação ali, mas no fundo, no fundo, a matéria prima da narrativa é totalmente verdadeira. Os fatos realmente aconteceram! Por motivos óbvios (é preciso manter a integridade moral do Da Paz, afinal quem nunca vacilou e não derrapou no gramado dos jogos da paixão?), não posso apresentar provas contundentes, mas, tem muita gente que sabe que estou relatando a verdade!
Mas vamos ao que interessa, depois daquela primeira noite que perpetuou o sol na cara do nosso amigo Da Paz, houve sim muitas outras partidas. E
levando a sério a frase que diz que: A prática leva à perfeição, Da Paz acreditem ou não estava jogando cada vez melhor, e em plena condição física e técnica.
Enfim, para usar um jargão popular do esporte bretão;
Ele tava batendo um bolão!
É certo que às vezes era preciso fazer mil peripécias e inventar absurdas desculpas para comparecer aos jogos, (afinal era um jogo por semana) e o seu repertório já estava se esgotando.
Assim um belo dia ele anunciou solenemente em casa, que seguindo as recomendações do cardiologista resolvera cuidar um pouco mais da saúde praticando esporte para combater o sedentarismo.
Assim, comprou tênis, calção, agasalho esportivo, estava todo aparelhado, e pra não dar trabalho em casa, mandava lavar tudo em uma lavanderia e deixava todo o seu equipamento no vestiário da empresa.. Resolveu assim o problema crucial da ausência para cumprir o comparecimento nos jogos semanais.
Além do mais havia ainda os jogos em casa e ele não podia dar mole Sabia muito bem que quem não comparece, abre concorrência! Mas ele tinha um pique incrível pra jogar todos os dias se fosse possível ou necessário.
Ele estava literalmente a todo vapor, um dia, no entanto pintou um jogo em pleno sábado, mas não um sábado qualquer era simplesmente o dia do aniversário de um dos netos. Ele não podia faltar à festa e não podia também de jeito nenhum deixar de comparecer ao jogo!
Afinal, nenhum bom avô que se preze deixaria de comparecer a festa de aniversário do neto, e Da Paz era um avô exemplar e acima de toda e qualquer suspeita! E nem um quase cinquentão apaixonado perderia uma partida com uma gata de olhos de mel!
Mas a paixão por mais sublime ou tresloucada que seja leva qualquer um à atitudes inusitadas e impensáveis. No fundo Da Paz sabia que mais dia menos dia o jogo podia acabar e era preciso dançar enquanto houvesse música, e jogar enquanto houvesse jogo!
No entanto o que não lhe faltava era imaginação, afinal a gata de olhos de -mel era uma fonte inesgotável de inspiração. Festa de criança não passa das onze da noite, e ele já havia anunciado que o seu “jogo” seria no domingo de manhã, como a partida era em outra cidade ele iria tão logo terminasse a festinha de aniversário, queria estar inteiro para a partida.
Ninguém colocou qualquer objeção, afinal era visível que depois que começara a praticar esporte Da Paz vivia sempre de bom humor, sempre alegre, prestativo, e o melhor de tudo, vendendo energia e saúde!
Mas como eu já disse, Da Paz sabia que não há mal que sempre dure e nem paixão que não se acabe!
Um dia ou outro a casa podia cair, e caiu! Nas viravoltas que o mundo dá não lhe era possível ficar vinte e quatro horas por dia dedicando-se total e exclusivamente à gata de olhos de mel! Era inevitável, e quase um ano depois o campeonato terminou.
Da Paz desmoronou solenemente sobre seu próprio alicerce, no entanto era preciso manter as aparências, ele não podia deixar a peteca cair, e apesar dos pesares o sol continuou a lhe brilhar no rosto. Por dentro, no entanto, estava tudo nublado e ele se via totalmente mergulhado no olho de um furacão.
Foram quatro meses de verdadeiro martírio, a Gata continuava desfilando a sua juventude e gostosura e quando encontrava ou passava pelo Da Paz fazia questão de literalmente lhe atazanar a paciência fazendo-o lembrar de tudo o quanto ele perdera.
Ela inclusive conseguira juntar todo o pessoal do escritório para uma cerveja no fim do expediente, no barzinho do seu atual namorado (não era o argentino não), e é claro que ela ficou o tempo todo aos beijos e amassos explícitos e as suas atitudes tinham um endereço certo! O sofrimento de Da Paz foi indescritível mas ele ficou ali fazendo cara de paisagem como se nada daquilo lhe abalasse. Mas naquela noite a gata-de-olhos-de-mel ao distilar o seu veneno, literalmente calou as bocas grandes que nos bastidores comentavam o seu suposto caso com o Da Paz! Todos concluíram que as suspeitas eram infundadas pois ninguém teria sangue de barata o bastante para ficar ali fingindo que nada estava acontecendo. Mas Da Paz resistiu brava e heroicamente e depois daquela noite os comentários se dissiparam!
Mas a vida é cheia de surpresas e o sol voltaria a brilhar intensa e verdadeiramente no rosto de Da Paz, havia ainda muito jogo pela frente, e quem viver lerá!
ENTULHOS MENTAIS!
somos eternas presas
de nossas próprias armadilhas, somos os únicos criadores dos nossos monstros e medos, dos fantasmas que nos assombram, e do fogo do dragão
das nossas crises existenciais!
o tudo e o nada,
a genialidade e a loucura os prós e os contras,
são flores do mesmo jardim, devemos ser os garis,
dos nossos entulhos mentais!
é preciso se libertar
dos grilhões do preconceito, e das algemas da intolerância, e nunca, jamais duvidar, do poder da nossa mente!
ONDE HÁ PAIXÃO!
não havia raio de lua e nem lágrimas de orvalho, na devastação da mata, na degradação das almas, na inversão de valores, na construção de conceitos na crítica construtiva da ideia criativa!
não havia raios de neon na imaginação ativa no teor do compromisso, na magia do feitiço da imagem quase real da virtual fantasia
que o sentimento seduz!
garanto que não havia no espanto de cada dia, da emoção racional resquício de ideal, que a razão não traduz!
é bom que não se esqueça, que é melhor evitar o estresse, e seguir a trilha distante
dos preconceitos extintos, na velocidade da luz,
pois cada estrela é um flash!
no ângulo das arestas do núcleo do grão de areia, a reação em cadeia
dos sentimentos expostos de forma aleatória,
estão inseridas no jogo!
onde há paixão, há perigo, onde há fumaça, há fogo!
EU E VOCÊ !
para aliviar as tensões
penso aqui com meus botões que por incrível que pareça, versos sem pé nem cabeça podem causar simpatia, onde antes não havia vontade ou motivo algum!
não vou fugir do combate, não quero bate e rebate, não quero bola na trave, eu quero o gol do empate, eu e você, um a um!
ANÚNCIO CLASSIFICADO!
coração em bom estado, necessita alguns reparos afinal, já é usado,
e chegou a ser ousado em um tempo não distante!
já rodou algumas milhas por entre tramas e trilhas e já carregou paixões!
o sentimento de esperança, de entusiasmo e otimismo, são ainda originais,
já suportou alegrias, tristezas e vendavais, mas jamais fugiu à luta!
não há dinheiro que o pague, mas posso estudar permuta!