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(de: PEREIRA JÚNIOR, Luiz Costa. Guia para a edição jornalística. Petrópolis: Vozes, 2006)

Capítulo

[8]

O acabamento da notícia

Títulos são filhotes da revolução industrial. O século 18 avançava sua marcha pelo progresso e boa parte dos jornais ainda não o usava, nos moldes que se conheceria no século seguinte. Com a industrialização e o aumento de interesse por mercados e pela vida urbana, que ficava mais e mais difícil de entender, a quantidade de informações circulante era tal que as matérias jornalísticas começaram a ser agrupadas por seções, assinaladas por linhas destacadas do texto, com o tema e, eventualmente, o resumo da informação.

Os títulos nasceram desse processo, como um fato muito recente na história da imprensa e uma peça de "venda" da informação. A manchete, para se ter idéia, tem pouco mais de um século de existência – e surgiu como apoio à sensacionalização dos fatos que fazem vender mais jornais. Para facilitar a leitura da massa de trabalhadores que usava bondes e coletivos e, com isso, turbinar as vendas de seu penny-press World, o mandarim da imprensa norte-americana Joseph Pulitzer aumentou o tamanho das letras de títulos, criando a hoje vulgarmente conhecida manchete. E isso só ocorreu com a proximidade do século 20, entre 1895 e 97.

Segundo Nilson Lage, antes da Segunda Guerra Mundial era muito raro ver títulos com o mesmo tipo de letra num mesmo veículo. Com o processo artesanal de montagem de páginas, não se contava as letras que depois seriam compostas na gráfica do jornal. Os títulos, diz Lage, eram compostos "no corpo que desse melhor aproveitamento na largura da matéria". A variedade tipográfica conferia até status à tipografia.

Muitas vezes, era o próprio repórter ou redator quem datilografava os títulos numa lauda, que na gráfica eram formatados e encaixados no espaço de até seis colunas (standards). Como não havia cálculo em paicas, sistema de medida que perdurou até a informatização de processos em muitas empresas, era freqüente os jornalistas fazerem títulos com letras estourando o espaço, e o conjunto era no fim reordenado, quando não recriado, pelos profissionais do setor industrial. Com o estabelecimento de padrões industriais e publicitários na imprensa, os títulos se firmam como uma macroproposição semântica, que sintetiza a idéia mais ampla contida na informação noticiada.

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Por serem sínteses de relatos, títulos exigem complemento de outras unidades da titulação, proposições menores com função tituladora que desobrigam o título principal a esgotar a informação noticiada pelo texto, como antetítulos (chapéus), subtítulos, intertítulos, olhos e janelas.

A tendência a aumentar o tamanho das letras provoca a óbvia redução no cumprimento da linha titulada. O Instituto Gutenberg aponta um encolhimento sistemático do número de caracteres por título, iniciado na imprensa brasileira no pós-guerra, com O Jornal, de Assis Chateaubriand, e, em seguida, quando Pompeu de Souza substituiu a solenidade discursiva pelo laconismo quase telegráfico dos títulos do Diário Carioca. Pompeu esvaziou a titulação de todo ornamento e gordura.

Uma notícia, costumeiramente, poderia ser intitulada:

O Senhor General Eurico Gaspar Dutra demite-se

do Ministério da Guerra e é nomeado para

substituição o Senhor General Pedro Aurélio de

Góis Monteiro

No Diário de Notícias, a titulação passou a ter uma solução bem diferente para as convenções da época:

Sai Dutra, entra Góes

A opção adotada pelo jornal do Rio de Janeiro rompeu a rotina produtiva do período.

Soluços e exclamações

Pompeu de Souza costumava dizer que chegara a brigar com Nelson Rodrigues porque o amigo não o havia perdoado por tirar o ponto de exclamação da frase-título. O chiste bem poderia ser verdadeiro, a julgar pelo que o próprio Nelson dizia na época. No final dos anos 60, no mesmo texto em que chamava os copidesques de "idiotas da objetividade", escrevia que, nas velhas gerações, o jornal não era um órgão de informação, mas de emoção.

– As manchetes soluçavam como se fossem também viúvas dos cadáveres – vaticinou.

Segundo Nelson, a imprensa "romântica" tinha o comportamento emocional do "canastrão do velho teatro". Era um bando de "canastros do estilo e da pontuação".

– Tiramos todos os pontos de exclamação do horror – protestou o dramaturgo e jornalista.

E continuou:

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Imaginem se em nossa Paquetá, num domingo, caísse uma bomba atômica. Hiroxima é uma Paquetá. E não se lhe concedeu um ponto de exclamação.

A sincera indignação de Nelson Rodrigues mostrava que os tempos haviam mudado. Títulos de secura atlética e caracteres pré-definidos se estabeleceram com a modernização dos processos de impressão de jornais. No espaço de pouco tempo, a padronização em espaços rígidos difundia, em toda a indústria, contagens específicas de toques por título: variações entre 35 e 45 toques em títulos de uma linha, 16 a 28 caracteres em duas linhas e 13 em três linhas.

A rigidez industrial

A contagem de toques datilografados em laudas impunha rigidez industrial, agravada na década de 70 pelo momento político do país. O que o veículo diz, e como diz, é peneirado – e quanto menos diz, melhor para o sistema de controle. O Instituto Gutenberg cita um código 130, que teria imperado no Estadão nessa época, que obrigava o redator a resumir uma notícia em três linhas de dez toques.

Ainda na década de 80, no entanto, a infra-estrutura de produção do fechamento de páginas editoriais tinha muito de artesanal. Se a solução não era dada pelos jornalistas, o próprio setor industrial se encarregava de cortar reportagens pelo pé, enfiar calhaus em espaços não preenchidos por matérias e fazer caber títulos adequados aos textos.

Era costume dos redatores rubricarem as laudas em que datilografavam os títulos com a quantidade de linhas e caracteres em cada uma. Duas linhas de 28 toques, por exemplo, recebiam a rubrica "2 x 28" manuscrita, no alto da lauda. O sistema dominou muitas Redações antes que a informatização começasse a mudar o processo de trabalho das empresas jornalísticas, nos anos 90.

A exigência de títulos em espaço rígido obrigou os editores a verdadeiros malabarismos mentais. José Roberto de Alencar lembra um episódio do final de 1979, passado no Diário do Povo, de Campinas. Depois de mais uma depredação de trens urbanos no Rio de Janeiro ("todo dia era depredado um", lembra Alencar), a editora de primeira página se viu obrigada a intitular um "pirulito" (matéria de primeira página em uma coluna só – a página standard do jornal costuma ter seis) em 4 x 7 (quatro linhas de sete toques). Em tal espaço, impensável caber palavras usuais para tal tipo de notícia, como "quebrado" ou "depredado", por exemplo. Depois de muito matutar, ela fechou a matéria, encabeçada pelo seguinte título:

O trem

atrasou

de novo.

Coitado.

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Décadas de experiências consolidadas já incorporaram a síntese como condição natural de títulos. Quando a condensação dá também margem à tentativa de fugir ao lugar comum, vira uma ferramenta da economia narrativa. Tendo de driblar os limites de espaço, redatores e editores encontram muitas vezes soluções que oxigenam a cobertura. José Roberto Alencar lembra que, em 29 de setembro de 1978, o jornal Última Hora noticiou a morte de João Paulo I, menos de dois meses depois de seu antecessor, Paulo VI:

O papa morreu. De novo

Muitos títulos de boa estirpe trabalham a possibilidade de amplificar sentidos da informação titulada sem perder a exatidão. Essa intenção está traduzida, por exemplo, numa manchete de O Estado de Minas, de Belo Horizonte, que apresentou uma reportagem sobre protestos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) por ocasião dos 500 anos do Brasil, na edição de 22 de abril de 2000:

Sem-terra à vista

A ênfase é em capturar não só o resumo da história como sua significação. Enquanto outros jornais titularam de forma burocrática a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro de 2002 (Folha de S. Paulo: "Lula assume presidência e pede ‘controle das ansiedades sociais’; O Estado de S. Paulo: "Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e com cuidado"), o Diário de S. Paulo fisgou o espírito da festa nacional e tascou na manchete do dia seguinte:

O Brasil é da Silva!

A síntese, assim realizada, é o melhor de dois mundos. Transborda os limites do espaço estreito. Não só se revela plena (de sentidos) como exata (na leitura dos fatos).

Ética do fechamento

O título é uma informação que grita. A tendência a estimular títulos curtos, acompanhados por muitos elementos de titulação complementar, acentua uma vocação "publicitária" inerente a toda titulação, com implicações éticas e ideológicas precisas. O processo de fechamento de páginas pode dar lugar a uma prática aliciante, como diria Nuno Crato, em que a finalidade de informar se torna secundária. Se é feito para vender uma mercadoria, o fechamento de uma página pode mentir.

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com a notícia porque se editorializou a informação. Um título pode sensacionalizar aspectos banais ou descontextualizar frases, insinuando algo que o texto de fato não contém. Muitas são as formas de títulos que flertam o sensacionalismo. Tornados sensacionalistas mesmo quando não há intenção, terminam por frustrar quem quer ficar informado. Comum é o uso de expedientes, como:

• Títulos tangenciais – em que um detalhe ou um elemento periférico é destacado, não a questão central suscitada pela notícia;

• Títulos libelos – que fazem acusação. É fruto de negligência ou ignorância na qualificação dos fatos;

• Ambigüidade – fruto da imprecisão, pode confundir o público. Quando permitem dupla interpretação ou atribuem ação a celebridades quando, na verdade, estão se referindo a desconhecidos que lhe são homônimos.

Um problema ético que se agravou na era das redações enxutas, tayloristas, passivas em relação aos fatos e com editores cada vez mais enfronhados na engrenagem administrativa da empresa, é a propensão a definir o título antes da própria realização da reportagem. Essa forma particular de arrogância jornalística, fruto da miopia ou da pura má-fé, pode ainda não ser uma tendência, mas não é mais uma surpresa na vida de repórteres. Se mantida mesmo quando não confirmada pelos fatos, tal orientação não deixa margem de manobra ao jornalista que não a de lutar pela apuração que fez, mesmo que à custa do próprio emprego. Ou então assumir a posição humilhante de resignar-se, abrindo um precedente marcante para a própria carreira. E consciência.

Os elementos verbais da página

Feitos para chamar a atenção e saciar a curiosidade, os títulos nos fazem conhecer algo que, em seguida, "reconheceremos" com a leitura da matéria e dos outros elementos da página. A existência de vários níveis de titulação ajuda a quebrar a monotonia de páginas com muitas colunas de texto, mas pressupõe um processo de redundância ou amplificação dos títulos nos demais suportes da titulação. Principalmente, supõe o direcionamento do que é importante; delimita, antes da matéria ser lida, qual posição a ser tomada diante da questão. Como são por natureza curtos, correm o risco de fazer estardalhaço gráfico, transitar entre informação e sensacionalismo. Títulos são usados como unidade autônoma e garantia de leitura elementar da informação – já supõe que o texto noticioso, em pirâmide invertida, não será lido por inteiro, daí o esforço empresarial de dedicar grande atenção ao processo de acabamento da página.

A indústria firmou o fechamento da edição como o processo em que se formata a comunicação. Implica uma divisão de trabalho em que repórteres, fotografia e diagramadores fornecem ferramentas (matérias, fotos e paginação eletrônica) e uma equipe de fechadores realiza o acabamento (acomodação no espaço e complementação dos textos, criação de elementos de titulação, revisão da página). O editor é responsável pelo que foi feito pelo mesão de fechamento.

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inseridos geralmente entre as colunas, que dão respiro aos tijolos de texto. Os cuidados não diferem muito dos de outros fechamentos, como de notas, textos breves sem foto, textos-legenda e entrevistas.

A dificuldade central num fechamento vem da necessidade de reunir numa frase o suprassumo da peça jornalística e manter essa idéia em diálogo com outros elementos da página. Os elementos verbais (chapéu, título/chamada, olho, janela, legenda) não podem repetir informações e palavras entre si, entre as demais matérias da página e das páginas seqüenciadas, par c impar. Como o corpo do título se destaca na página, cada repetição saltaria ao olho e banalizaria recursos, dispersando o leitor que só vê o material de relance antes de decidir lê-lo.

Humor involuntário quando um título dialoga acidentalmente com foto: manchete sobre isenção de desconto previdenciário de funcionalismo se confunde com

foto sobre ataque americano no Iraque

Se fechados com eficiência, os elementos da página podem alcançar uma fórmula poderosa, com ritmo e obra, desde que fiel ao texto que batiza, que é seu propósito vital.

Chapéu

Tem vários nomes. Antetítulo, sobretítulo, linha fina, título-assunto, epígrafe e por aí cai. Qualquer que seja o batismo, o fato é que, ao preceder o título, o chapéu serve para antecipar e territorializar a informação central da notícia. Chapéus são sucintos, genéricos, ocupam o espaço de uma frase, no máximo uma linha, mas freqüentemente se expressam por um único termo. Geralmente, ampliam a idéia central ou a contextualizam.

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semanticamente, e não sintaticamente, do título. Classificam categorias familiares ao público. Introduzem e tranqüilizam, dando o sinal de que se encontrou o terreno que lhe interessa pisar.

– Não nos diz o que contém, mas a que categoria os enunciados pertencem – diz o autor.

O antetítulo retira ao título a obrigação de dizer tudo, permitindo a utilização neste de fórmulas mais breves, e portanto mais vigorosas e expressivas. Os chapéus etiquetam enunciados. São intemporais e, embora sejam inseridos antes do título, sempre apresentam uma informação complementar a ele. Principalmente, não são ingênuos. Dizem o ponto de observação em que o editor se colocou para abordar os fatos.

O Estado de S. Paulo encabeçou sua cobertura sobre os atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, com o chapéu "EUA sob ataque", decalque da cobertura televisiva americana, em particular a transmissão ao vivo feita pela rede CNN – que mostrava cenas carimbadas pela legenda "USA under attack". No calor dos acontecimentos, o jornal brasileiro se alinhou e se "editou" pela TV, veículo central na cobertura daquele acontecimento. Declarou sua posição diante dos fatos, sintetizou uma situação e, involuntariamente, denunciou a referência de mundo que o ampara e domina.

Título

Por ser um enunciado relâmpago e uma marca de identidade, todo título induz a compreensão do relato contido no texto – pois a síntese é sempre uma repartição seletiva de um todo. Na posição de "superlides", condensam o sumário da história. Como observa Mouillaud, há um processo de extração de "algo" de nuclear na notícia e, simultaneamente, de redução, simplificação das informações. Por isso, o título processa uma interpretação do texto, que dirige o entendimento do público sobre a notícia. Denuncia, na prática, como o veículo pensa o assunto retratado. É opinião decantada, bem disfarçada, em emissão neutra.

Com décadas de dependência da venda em banca, os jornais consolidaram o modelo Pulitzer. As manchetes com grande tipologia atraíam o leitor e facilitavam a apreensão do cardápio informativo. Quanto mais garrafais os títulos, mais exemplares exibidos nas laterais das bancas, para deleite dos passantes e bom faturamento dos jornaleiros.

Com a evolução do negócio e a propagação do sistema de assinaturas, o consumo sofre uma guinada. Grandes jornais não só no Brasil passam a ter o grosso da circulação destinado ao assinante, não à venda avulsa, cara-a-cara com o jornaleiro. Muitos dos leitores habituais, por sua vez, são consumidores com interesse específico, pulam para a seção de seu agrado, sem passar necessariamente pela capa-chamariz. As condições que levaram ao uso de títulos exageradamente garrafais na primeira página já não se manteriam.

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Com ou sem verbo

Ainda que usados por outros meios de comunicação, os títulos, a rigor, são patrimônios do impresso e do on-line. Sua importância para tais veículos é incomparável com a que chegam a ter em meios eletrônicos. Títulos são território da carpintaria verbal, propriamente dita. Definem tanto a comunicação com o mundo feita por jornais e revistas que o efeito de sentido neles se altera de acordo com a presença ou ausência de verbos.

Títulos sem verbo (anafórico, referencial) – É um modelo muito comum em revistas e alguns jornais (Jornal do Brasil, O Globo, Correio Braziliense). Em poucas palavras, congelam um parecer sobre o mundo. São, portanto, um convite à editorialização da peça jornalística. Mesmo quando não configuram uma orientação sobre um acontecimento, têm o status de uma referência, diz Mouillaud. Não aparentam tomar partido nem necessariamente determinam o que se pensa sobre o assunto. Mas sinalizam que o assunto não se esgota na edição, remete a um processo em andamento, que continua a ter validade. É mais duradouro que uma notícia comum, mais consistente que efêmero, tem a perenidade dos títulos de obras que vencem o tempo. Tornam o assunto uma classe, um resumo da ópera mais definitivo que uma matéria noticiosa comum. Sinaliza que o veículo não trata mais de um processo em andamento, mas se fecha numa rotulação.

Títulos com verbo (discursivos) – São os mais comuns em diários. Formam uma frase com afirmação completa, sujeito, verbo e predicado – daí a ordem direta, sem pontuação nem omissão do sujeito da informação.

Sempre respondem a alguma coisa, dão conta de um único fato – daí a necessidade de uma notícia por verbo, o que condena o título com excesso de verbos.

Falam do momento, do que acabou de ocorrer e talvez não se repita mais nem perdure – daí o verbo estar no presente.

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no jornal O Globo, de 15 de agosto de 2000.

Falam também de uma ação, sobre algo que se faz, não sobre o que não se faz – daí a necessidade de evitar títulos que negam alguma coisa.

Exigem clareza, por isso os fechadores evitam pontuar um título ou siglar palavras. Não se rima em títulos. Não há cacofonias: "Governo aluga armazém para estocar alho" (A Tarde, Salvador, 1994). "Enrique C atraca em Maceió" (Jornal de Alagoas, Maceió, 1989). Trazem números aproximados, não necessariamente exatos.

Cuidados adicionais se tornam freqüentes durante o fechamento:

• Títulos de duas linhas – as duas ficam do mesmo tamanho, ocupando pelo menos 3/4 da largura, ou a primeira excede a segunda, que ocupa pelo menos 3/4 da largura;

• Títulos de três linhas – a primeira é igualada à terceira, para evitar o efeito "escada". Cada linha deve ocupar pelo menos 3/4 da largura;

• Título quebrado – palavras pertencentes à mesma estrutura sintática (substantivo e artigo, verbos compostos) não devem ser separadas, pois a leitura seria mais demorada. As palavras hifenizadas não devem ficar parcialmente em uma linha, enquanto outra parte fica na seguinte;

• Perceber o tom – os títulos devem refletir o tom do material que encabeçam. Após ser criado, deve ser reexaminado para perceber se, por exemplo, ele adotou um ar frio ao batizar uma reportagem tocante ou se foi sarcástico quando a matéria solicitava sobriedade;

• Intertítulos – são locuções de até três palavras, colocadas no interior das matérias, com intervalo médio de três parágrafos. Funcionam como títulos internos, que criam áreas de respiro na peça jornalística.

Olho

O "olho" completa a informação titulada. Seu nome vem da aparência, pelo menos na versão clássica: poucas linhas e pequena largura, quase no formato de um olho humano. Ele atualiza e contextualiza um título, detalhando-o. Não repete fatos titulados ou palavras já usadas no título e no chapéu. Pode, ainda, destacar uma frase significativa contida no texto. De todo modo, pressupõe sempre que o título limita-se não raro a chamar a atenção, mas não esgotou a notícia. O apelido "olho" é não só metafórico como premonitório: ele está na página para ver o detalhe que escapou á titulação que o subordina. Sua presença deixa, em tese, o editor/redator mais livre para a criação de sentenças do título, pois o detalhe da informação será dado depois que o título tiver tido efeito.

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A engrenagem marcada a ferro nos títulos e olhos revela, no fundo, um processo em que a memória anula a edição anterior mal ela é digerida, porque se abriu um novo presente, por sua vez substituído na edição seguinte. Com títulos e olhos permanece, no entanto, a consciência de um mundo que existe independente de nós, de forma fixa no tempo. Eles congelam a vida que passa, ordenam com o mesmo movimento que tranqüilizam, porque estabelecem coerências inauditas, formas que antes não haviam sido estabelecidas, certezas onde só havia imprecisão.

Texto

A maior prerrogativa de um "fechador" de páginas impressas é o da revisão, feita a partir de um texto prévio. Não é tarefa óbvia, limitada a cortar ou "esticar" a informação, buscar clareza na leitura ou fazer cumprir a correção da língua e a obediência às normas padronizadas. O desafio é destacar a intenção e o sentido cultural da mensagem, o que a espanhola Diana Guardiola chama de passar "do texto claro ao discurso coerente".

– Quando se persegue algo mais que um escrito "claro", a inclusão de elementos contextuais é determinante; elementos nos quais talvez não tenha pensado o redator menos atento, que só se ocupou em gerar uma série mais ou menos correta de emissões lingüísticas trabalhadas.

O trabalho de edição, nesses casos, começa pela detecção do que há para ser refeito, trocado ou reordenado, para que o raciocínio original se articule numa linha. Reescrever, só com critérios. A leitura atenta se desafia a perceber elementos que faltam ser investigados (para suprir lacunas informativas do original) e qual abordagem a informação exige (para que ela seja congruente com a situação comunicativa pretendida). A ação não é inteiramente livre, mas limitada ao que o editor/redator identifique como a intenção pretendida pelo autor no devir original do texto. A coerência textual virá da observação do tópico em que o discurso se centra, não apenas dos mecanismos que o tornam mais coesos. Para o texto virar uma "unidade inegável de sentido", um tecido em que partes remetem umas a outras, deve haver relação entre o tema do texto e as "seqüências restantes que predicam sobre ele". As peças lingüísticas usadas no texto devem manter referência ao tema principal e fazê-lo sem cair em contradições ou saltos sem sentido, respeitando uma progressão lógica, que desenvolva o tópico "num crescendo", e uma ordenação de subtemas a serviço do tema'.

Guardiola diz que o sentido (a coerência conceitual) que se vai extrair do relato vem do cruzamento da "coerência linear" entre os raciocínios particulares em seqüência e da "coerência global" do texto completo, assim como da atenção à coerência pragmática (a consideração do contexto em que surge o relato). Tal combinatória de "coerências" formaria o entendimento do texto, a consciência de que o relato representa um mundo completo e consistente.

A clareza coerente

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mental, que leva a predicação sobre as questões abordadas na mensagem: o que o relato diz é "isto" e não "aquilo".

O editor precisa estar atento, para não ser "engolido" pelo texto alheio, a tudo que atrapalhe essa síntese mental: apostos que desarticulem a informação, relato com frágil progressão de tópicos, falta de progressão lógica e tudo o que importe – o que significa não estar limitado à mera vigilância sintática, gramatical e de padronização, como a existência de manuais de redação levaria a supor. Se sua leitura for integrada à intenção da mensagem, se for dialógica, atenta e carinhosa, cada reescrita será um ato dinâmico e consciente do fechador, que permitirá tornar o relato claro do ponto de vista lingüístico num material definido no nível da comunicação.

Não basta compreender o significado da mensagem. O diálogo com o texto é na leitura e também em sua reescrita. Uma postura ativa implica perguntar sobre tudo o que falta ao relato para ele conquistar uma compreensão completa sobre o universo ali descrito. O ouvinte tem de transformar-se em falante, assumir a rédea do relato até deixá-lo "redondo", suprir as carências semânticas e pragmáticas do texto, o significado e as informações de contexto, para obter respostas às perguntas que o original não havia dado conta. Isso exige um esforço para complementar, por meio de mais uma rodada de apuração de fatos ou pesquisa em arquivos, o que requer um tempo que nem sempre se tem.

Reescrever uma matéria supõe recuperar o sentido original do relato, por meio de uma topicalização eficiente, uma funcionalidade nas peças lingüísticas, uma incorporação de mecanismos coesivos a serviço do sentido global. O propósito é que o futuro receptor da mensagem não passe pelas mesmas dificuldades de compreensão pelas quais passou o editor e seja capaz de identificar o mundo a que o discurso se refere. Identificar o sentido global do texto com menos esforço.

Legenda

Toda legenda, por princípio, completa a informação que uma foto foi incapaz de fornecer, por mais reveladora que ela seja. Amplia a compreensão da imagem, sem ser redundante. Faz isso ao chamar a atenção para detalhes que passariam despercebidos ou ao contextualizar a cena. Tem não raro um forte poder sugestivo, capaz de influenciar o leitor ou induzi-lo a erro.

Em Para ler e fazer o jornal na sala de aula, Maria Alice Faria e Juvenal Zanchetta Jr. categorizam as legendas nos seguintes tipos:

• Referencial – quando se limita a situar a foto. Dá nomes a personagens fotografados, sua posição na cena. É preciso cuidado para não dar margem a distorções. A Folha de S. Paulo perpetuou a legenda-verdade, a que descreve a cena em seus detalhes óbvios; • Explicativa – completa a notícia escrita ao aprofundar informação visual. Há casos em que se informa onde foi tirada foto área, não necessariamente citada no texto. Noutros, a foto esclarece contradições verbais das fontes. A cena com assaltante do ônibus 174, vivo num camburão, desmentiu versão policial de que ele morrera em tiroteio;

• Legenda-notícia – quando ampara uma foto que, sozinha, justifica sua publicação; • Legenda-chamada – notícia contida na foto e sua legenda, mas não ampliada em forma de chamada na primeira página. Costuma ser encabeçada por um pequeno título;

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