Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Marcelo Frezarini
OS DEUSES DA ÁFRICA NO INFERNO UNIVERSAL
UMA LEITURA DOS CULTOS DE EXORCISMO DAS ENTIDADES AFRO-BRASILEIRAS ONTEM E HOJE
NA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Marcelo Frezarini
OS DEUSES DA ÁFRICA NO INFERNO UNIVERSAL
UMA LEITURA DOS CULTOS DE EXORCISMO DAS ENTIDADES AFRO-BRASILEIRAS ONTEM E HOJE
NA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
Dissertação
apresentada
à
Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, como exigência
parcial para a obtenção do título de
mestre em Ciências da Religião, sob a
orientação do Prof. Dr. João Décio Passos.
AGRADECIMENTOS
Aos amigos que encontrei pelas esquinas da vida e
que são sustento na caminhada quando as forças
fraquejam.
Ao professor e amigo de longa data Ênio Brito e aos
amigos do Programa de Ciências da Religião pelo apoio e
incentivo a este trabalho.
À Ordem do Carmo que me acolhe e me incentiva na
busca do saber.
À CAPES que me proporcionou a realização deste
trabalho.
RESUMO
Este trabalho estuda as diferenças entre os cultos de exorcismo das primeiras fases da Igreja Universal do Reino de Deus com os atuais. A partir delas, divide a história da Igreja em três grandes fases: o processo de fundação, a fase de consolidação e a fase de expansão internacional. Nos cultos de exorcismo há um processo de demonização das entidades afro-brasileiras chamadas pela Igreja de demônio. O demônio ganha espaços e papéis distintos e torna-se mais brando à medida que a Igreja vai se institucionalizando. Também o discurso da Igreja torna-se mais racional à medida que seus fiéis ascendem socialmente.
ABSTRACT
This study investigates the differences among the exorcism worships seen in the first and in the current phases of the Igreja Universal do Reino de Deus. From them, the Church’s History is divided in three big periods: the foundation process, the
consolidation period and the international expansion period. In the exorcism worships there is a process of demonization of the African-Brazilian entities that the Church calls Devil. The Devil gains space and different roles and becomes milder as the Church institutionalizes. Also, the Church’s speech becomes more rational as the audience
ascends socially.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 10
CAPÍTULO I – A Igreja Universal do Reino de Deus e seus cultos ... 21
1- Do pentecostalismo ao neopentecostalismo ... 22
1.1– A leitura de Antônio Gouvêa Mendonça ... 24
1.2– As três ondas de Paul Freston ... 28
1.3– A perspectiva de Ricardo Mariano ... 28
2- Origem e Desenvolvimento da IURD ... 29
2.1– Primeiro Período: o processo de fundação ... 30
2.2– Segundo Período: a consolidação da IURD ... 34
2.3– Terceiro Período: a expansão internacional ... 38
3- Uma igreja institucionalizada ... 44
CAPÍTULO II - Os cultos de exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus ontem e hoje ... 49
1- O culto de exorcismo na em sua fase de consolidação ... 50
2- O culto de exorcismo na fase de expansão internacional ... 59
3- Rupturas e continuidades nos cultos de exorcismo da Igreja Universal do Reino de Deus ... 69
3.1 – Centralidade do demônio nos cultos ... 69
3.2 – Menor visibilidade do demônio nos cultos ... 70
3.3 – Mudança do lugar do demônio no espaço físico ... 70
3.4 – Mudança do lugar do culto de exorcismo ... 71
3.5 – Mudança dos protagonistas do culto ... 71
3.6 – Intensificação do demônio feminino ... 71
CAPÍTULO III – O afro no inferno universal ... 73
1- As entidades “aproveitadas” pela IURD ... 74
1.1 – Do Candomblé, Omolu e Iansã ... 74
1.2 – Entidades “aproveitadas” da Umbanda e Quimbanda ... 75
1.3 – O transe como um elemento comum ... 78
2- O processo histórico de demonização das entidades ... 81
2.1 – Pré-demonização na Umbanda ... 82
2.2 – No cristianismo ... 85
2.3 – A demonização na IURD ... 92
CAPÍTULO IV – Do rito à razão ... 100
1- A IURD e a domesticação do selvagem ... 101
2- IURD – Uma empresa amiga do demônio ... 105
2.1 – A institucionalização como empresa ... 105
2.2 – O afro legitimado pela empresa ... 106
3- O novo lugar do demônio na IURD ... 107
3.1 – Mudanças sociais na última década ... 107
3.2 – A racionalização da IURD ... 113
3.3 – Consequências das mudanças sociais nos cultos da IURD ... 117
CONCLUSÃO ... 121
BIBLIOGRAFIA ... 129
INTRODUÇÃO
Cada vez mais, pesquisadores sentem-se desafiados a explicar o grande êxito da Igreja Universal do Reino de Deus e o porquê de sua irrefutável prosperidade. Nesse sentido, esse trabalho vem a ser uma modesta contribuição para que o sucesso da IURD possa ser mais bem compreendido e para que seu universo simbólico, onde elementos culturais senão do povo brasileiro, ao menos da população dos grandes centros urbanos onde ela tão bem se adaptou, possa ser mais bem explorado.
demonização na IURD? Será que tais entidades já não sofreram uma pré-demonização no próprio universo afro-brasileiro, ou mesmo por influência do catolicismo? São perguntas fundamentais para o estudo da demonologia iurdiana.
Nos anos 1.998 a 2.000 deu-se início a tal pesquisa neste mesmo programa de mestrado, interrompida por motivos alheios ao pesquisador. Agora surge novamente a oportunidade de levá-la a cabo, justamente num momento em que se tornam ainda mais evidentes e até mesmo explícitas as ligações da IURD com as entidades afro-brasileiras.
No entanto, algo mudou substancialmente nos cultos da IURD: O lugar ocupado pelos cultos de exorcismo. Antes presentes praticamente em todas as sessões e em todos os templos, agora têm lugar e data previamente estipulados. Ao se comparar as visitas feitas à Igreja nos fins da década de 1990 e início da década de 2000 às atuais, nota-se que a mudança nos cultos é evidente. Não somente em sua estrutura, mas também no estilo arquitetônico do templo, na localização geográfica do mesmo e, sobretudo, no perfil dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, o demônio ocupa um lugar de menor destaque, os templos mudaram-se de barracões na periferia para grandes construções em grandes avenidas e os fiéis deixaram de ser os mais pobres e agora são capazes de ostentar sua condição de empresários, seus carros, sua nova e melhor condição econômica. Tudo isso reflete diretamente na liturgia dos cultos de exorcismo na IURD. Surge a curiosidade acadêmica de verificar o porquê desta mudança e o desejo de elucidar tal fato neste trabalho.
localizados nas áreas centrais da cidade de São Paulo, sobretudo nas igrejas IURD Catedral da Fé, sita à Rua Celso Garcia, 499, Brás e IURD João Dias, Avenida João Dias, 1.800, Santo Amaro e também IURD Bela Vista, sita à Av. Brigadeiro Luís Antônio 1401, Bela Vista, dando enfoque às manifestações demonológicas ocorridas e descrever o processo que levou as entidades afro-brasileiras a serem categorizadas como demônio na IURD. A partir disso, traçamos um paralelo entre o papel do demônio nos cultos da IURD no início da década de 2000 e nos dias de hoje, buscando primeiramente evidenciar as mudanças que ocorreram e analisar as causas das evidentes mudanças. O enfoque deste trabalho é, portanto, evidenciar que houve mudanças nos cultos de exorcismo da IURD ao longo de sua história. Muitos outros elementos poderiam ser utilizados como janelas para captar as mudanças ocorridas: o estilo arquitetônico dos templos, sua localização, o papel do dízimo na Igreja ao longo de sua história, os cânticos litúrgicos, as vestimentas dos fiéis, o processo de seleção e formação dos pastores... A opção pelas mudanças nos cultos de exorcismo se devem ao fato de que esse elemento cultural resgata vários universos simbólicos, tais como o do candomblé e umbanda, bem como do imaginário popular devocional católico, tornando-se um rico elemento de análise.
A respeito da Igreja Universal do Reino de Deus, trabalhos significativos foram realizados, enfocando-se os mais diversos elementos da Igreja. Listo a seguir, alguns que são fundamentais para nosso estudo e para situar o leitor na produção acadêmica a respeito do tema.
Ao analisar o sucesso da Igreja Universal do Reino de Deus a autora Margarida OLIVA em seu trabalho “O Diabo No Reino de Deus: Por que proliferam as seitas?”1
associa o sucesso da IURD à maneira como esta trabalha o elemento “sacrifício” em
seus cultos. O demônio aparece como a vítima expiatória que, ao ser expulsa, canaliza as emoções coletivas no bode expiatório demônio. Oliva faz de modo brilhante uma retrospectiva da figura do demônio em toda a história da religião judeu-cristã e o lugar que ocupa na Universal, que o trabalha arquetipicamente, segundo a psicologia Junguiana.
Outro grande pesquisador da IURD na sua relação com o afro-brasileiro é Vagner Gonçalves da SILVA. De sua obra, destaco dois artigos de grande importância: “Transes em Trânsito: Continuidades e rupturas entre neopentecostalismo e religiões
afro-brasileiras”2 e “Concepções Religiosas Afro-Brasileiras e Neopentecostais: uma
análise simbólica”3. No primeiro, Silva analisa a batalha espiritual que se trava nos cultos de exorcismo das igrejas neopentecostais onde há a identificação das entidades do panteão afro com o demônio. Feita esta identificação uma verdadeira batalha espiritual se trava entre o bem e o mal resultando na a libertação do fiel. Esse clima de batalha implica na quebra da ideia do Brasil como um país de tolerância religiosa. Outro aspecto importante é a lembrança de que o Exu africano é batizado como demônio cristão e, posteriormente, de demônio brasileiro e ocupa lugar central na doutrina neopentecostal. Em continuidade a este, o segundo artigo Silva caracteriza o movimento pentecostal inspirado no evento bíblico de pentecostes. Acentua a importância da glossolalia e do transe nesse processo. Nas igrejas pentecostais clássicas ele é marcado pela glossolalia, já nas igrejas neopentecostais este se dá nos cultos de exorcismo, através da incorporação das entidades afro-brasileiras, caracterizadas como demônio. Num trabalho minucioso, o autor compara as cosmogonias católica e umbandista ao universo simbólico das igrejas neopentecostais, sobretudo da IURD. Finalmente, Silva procura acentuar as semelhanças entre os cultos da Universal e dos centros de culto afro-brasileiros e alerta para os possíveis danos causados à cultura afro-brasileira.
Ivo Pedro ORO em seu livro “O outro é o Demônio: Uma análise sociológica do Fundamentalismo”4 realiza de forma brilhante o que se propõe no título do livro. Resgatando as origens do fundamentalismo até mesmo no islamismo, no catolicismo e no cristianismo, de forma geral, destacará o papel atribuído aos pastores de gerir autoritariamente e totalitariamente o sagrado. Ao demonizar o inimigo, as igrejas pentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus, travam uma batalha espiritual
2 SILVA, Vagner Gonçalves da: Transes em Trânsito: Continuidades e rupturas entre neo-pentecostalismo
e religiões afro-brasileiras. In: TEIXEIRA, Faustino & MENEZES, Renata (orgs.) - As religiões no Brasil: continuidades e rupturas. Petrópolis, Vozes, 2006, pp. 207-228.
3 SILVA, Vagner Gonçalves da: Concepções Religiosas Afro-Brasileiras e Neopentecostais: uma análise
regada à emoção e legitimada dentro do contexto religioso. Mas é com outros dois organizadores, André CORTEN e Jean-Pierre DOZON, que o trabalho “Igreja Universal do Reino de Deus, Os novos conquistadores da fé”5 que Oro apresenta um belo
trabalho de análise da evolução da IURD. Reunindo artigos que contam a história de sua expansão em diversos países, o trabalho acaba por especular as causas de tamanho sucesso. Uma delas, a hipótese de que a Igreja Universal do Reino de Deus é uma empresa centrada em si, no lucro e na expansão devido aos mecanismos de obtenção de capital junto aos fiéis é também analisada por outros prismas: o do poder político e da organização que explora de modo providencial as necessidades dos fiéis.
Em seu trabalho “Teatro, Templo e Mercado: Organização e Marketing de um Empreendimento Neopentecostal”6, Leonildo Silveira CAMPOS faz uma brilhante
análise da nova forma de expressão neopentecostal. Cada uma das três características dessas novas igrejas, sobretudo da IURD, é bem explorada. Como teatro, a Universal aproveita-se da encenação, dos palcos, cenários, da exploração das emoções no seu processo de teatralização do sagrado. Como mercado, analisa as acusações feitas à Igreja e situa a relação comércio-religião ao longo da história. Analisa também a forma como a Igreja se utiliza das estratégias de marketing modernas para atrair fiéis e aumentar seu capital. Finalmente, expõe a teologia da Igreja, explorando alguns aspectos que são de suma importância para nosso estudo, como a teologia da prosperidade, a cura divina e o exorcismo.
Como fruto da dissertação de mestrado, o trabalho “BISPO S/A – a Igreja Universal do Reino de Deus e o Exercício do Poder”7, de Odêmio Antonio FERRARI,
temos uma importante contribuição ao estudo da Igreja Universal do Reino de Deus. Analisando a Igreja dentro do “fenômeno religioso da pós-modernidade”, o autor
analisa as relações de poder dentro dela e como essas produzem grandes efeitos em seu sucesso, envolvendo relações hierárquicas verticais, padronização das estratégias
5 ORO, Ari P.: Corten André, Dozon, Jean P.: Igreja Universal do Reino de Deus, Os novos conquistadores
da fé. São Paulo, Paulinas, 2003.
6 CAMPOS, Leonildo Silveira: Teatro, Templo e Mercado: Organização e Marketing de um
Empreendimento Neopentecostal. Petrópolis, Vozes, 1997.
de pregação e marketing, entre outras. Há também uma importante contribuição para análise dos cultos, da doutrina e do exorcismo iurdiano.
Há, além dos descritos acima, outros importantes trabalhos sobre pentecostalismo e sobre a própria Igreja Universal do Reino de Deus. Muitos deles encontram-se citados em nosso estudo e alguns outros estão disponíveis em nossa bibliografia final.
Assim sendo, este trabalho pretende somar-se aos demais e visando indagar pelo novo lugar que ocupam as entidades afro-brasileiras nos cultos da Igreja Universal do Reino de Deus. Lá, onde recebem o nome de demônio, já foram o tema central deles. O demônio tinha liberdade para se manifestar até mesmo de forma violenta, selvagem, era entrevistado, recebia especial atenção dos bispos e era o objeto central dos cultos. À medida que a IURD se institucionaliza – e esse processo tem se dado fortemente nos últimos tempos – o demônio estará presente em ocasiões predeterminadas e ocupará um lugar mais doutrinal que físico nos cultos da igreja. Não é mais exorcizado por bispos, mas por pastores ou até mesmo por obreiros (fiéis contratados como funcionários do templo), não lhe é permitido manifestar-se com tamanha liberdade como outrora. Estaria o demônio domesticado? Seria essa uma consequência inevitável do processo de institucionalização? Afinal, uma Igreja que surge carismática não poderia chegar a tamanho lugar de destaque sem um processo de institucionalização. Seria possível identificar esta institucionalização a partir da análise das mudanças no culto de exorcismo da IURD? Ou a Igreja continua carismática como em sua forma mais original?
Além dessas questões, há que se indagar pelo que motivara a institucionalização da IURD. Seria a mudança no perfil dos seus participantes que acompanham as mudanças no perfil social da população que provocou tal mudança de estratégia forçando-a a uma institucionalização, se é que esta ocorreu?
1) À medida que a Igreja Universal do Reino de Deus sofre um processo de institucionalização, o demônio deixa de ser selvagem e assume uma feição
domesticada.
Nas primeiras fases da Igreja o demônio, que nada mais é do que entidades dos cultos afro-brasileiros, sobretudo do Candomblé e Umbanda, desprovidas de quaisquer aspectos benéficos, estava presente em praticamente todos os cultos da igreja, manifestando-se de forma muito semelhante à dos afro-brasileiros. E o exorcismo que levava à cura e libertação do fiel se dava de maneira que os bispos podiam exercer o poder divino contra o mal, numa verdadeira batalha teatral. À medida que a igreja avança, os cultos de exorcismo tornam-se mais raros e concentrados em lugares específicos. Embora o tema demônio ainda esteja presente em diversos deles, não tem mais toda aquela expressão de outrora. E os cultos que trabalhavam fortemente com simbologias oriundas do universo afro-brasileiro agora são focados em outros temas, de acordo com as necessidades atuais do público que frequenta os cultos. Há, portanto, um desvio de enfoque que ocasiona também numa nova apresentação da figura do demônio, muito mais polida que outrora;
2) O processo de institucionalização da Igreja Universal do Reino de Deus,
impulsionado pelo seu caráter empresarial e seu crescente desenvolvimento
e internacionalização, dá-se devido às mudanças no perfil socioeconômico
dos fiéis.
nova classe de fiéis que dela participa. Tal movimento é expressão do processo que denominamos institucionalização e pelo qual passará a Igreja cada vez mais em sua breve história.
Ao verificar a plausibilidade dessas hipóteses, esse trabalho tem a pretensão de ser mais um subsídio para que se possa entender o processo de organização da Igreja Universal do Reino de Deus. Diante da inquietação que o sucesso de tal igreja vem causando em estudiosos e fiéis de outros credos, propomo-nos a colaborar com mais outra chave de leitura a partir da análise dos cultos de exorcismo na IURD. Explicando-se um pouco melhor o Explicando-seu processo de institucionalização, convidamos aos leitores a entender seu novo perfil. Mais do que dar respostas às questões propostas, esse trabalho quer suscitar o debate em torno do processo de mudança das igrejas neopentecostais, sobretudo da Universal do Reino de Deus, e despertar para futuras questões que se porão à mesa de debates, como o futuro das igrejas neopentecostais e sua incrível capacidade de adaptação às mudanças econômico-político-sociais.
Visando alcançar, ao menos em parte esses objetivos, para descrever os cultos de exorcismo das entidades afro-brasileiras ontem e hoje na Igreja Universal do Reino de Deus foi necessário primeiramente um trabalho de pesquisa histórico-teórica visando definir as diferentes etapas no processo de formação da igreja e localizá-la no universo pentecostal e neopentecostal.
Para nos auxiliar neste processo de análise das mudanças nos cultos de exorcismo da Universal, propomos primeiramente o texto de Roger Bastide: O Sagrado Selvagem e Outros Ensaios8.
Quando Nietzsche proclamou a “morte de Deus”, provocou em muitos autores
o sentimento de que o homem moderno passaria a viver sem deuses. O próprio Roger Bastide avalia que o processo de separação cada vez mais presente na sociedade moderna entre religião e estado criou a ilusão de que haveria um divórcio entre o mundo religioso e o mundo político.9
No entanto, Bastide insiste na ideia de que os elementos do sagrado, ao invés de desaparecer, tomam força como elemento constitutivo do ser humano e se manifestam de diversas maneiras na sociedade laica, de forma “selvagem”.
Na IURD, o sagrado selvagem está presente de forma explícita nas manifestações demonológicas durante os cultos nas primeiras etapas de sua constituição. A função do pastor no culto é a de domesticá-lo, colocando a Igreja como solução para os problemas do indivíduo, integrando o selvagem aos valores da cultura moderna.
À medida que tratamos do processo de institucionalização, outro referencial de análise são os conceitos de Max Weber, sobretudo o de organização carismática e o de organização institucionalizada. Esses são de grande importância para a compreensão da Igreja, proporcionando relacionar as mudanças sofridas pela mesma ao processo de institucionalização da religião oferecido por Weber. A igreja que surge carismática, pela proposta de Weber, se quiser manter-se atual, institucionalizar-se-á.
Com o intuito de percorrer esses passos, a dissertação ganhou corpo em quatro capítulos que trazem como eixo o evidenciar das diferenças entre os cultos de exorcismo nas distintas fases da Igreja e a busca dos elementos que atestam sua institucionalização à luz do novo perfil econômico-social de seus membros.
O primeiro capítulo intitulado “A Igreja Universal do Reino de Deus e seus
cultos” trata de apresentar ao leitor o contexto em que pretendemos situar a IURD
dentro do universo acadêmico e dentro da história das religiões no Brasil. Num primeiro momento, buscamos situar a igreja no contexto do pentecostalismo e do neopentecostalismo. Começando por uma apresentação do tema do “pentecostalismo” mostraremos as características principais deste movimento e sua distinção do chamado “neopentecostalismo”. Para tal, uma retrospectiva dos
trabalhos de Antônio Gouvêa Mendonça, que evidenciará as diferenças entre pentecostalismo clássico e neopentecostalismo; de Paul Freston que divide a história do pentecostalismo em três grandes fases, também chamadas de “as ondas de Paul Freston”, situando a IURD na terceira onda – a do exorcismo – e de Ricardo Mariano
que abre novas questões sobre o tema do neopentecostalismo. Feito esse breve recuo, o capítulo dividirá a história da Igreja Universal do Reino de Deus em três grandes fases: primeiro período: o processo de fundação (1977- 1980); segundo período: a consolidação da IURD (décadas de 80 e 90); e terceiro período: a expansão internacional da Igreja, dos meados da década de 1990 até os dias atuais. Cada período com suas motivações e principais características. Feita essa leitura histórica, o capítulo encerrar-se-á evidenciando as características de uma igreja institucionalizada, em oposição àquela das fases iniciais.
O segundo capítulo trata dos cultos de exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus ontem e hoje. Traz o conteúdo das observações feitas em campo no final da década de 1990 e os feitos por ocasião desta pesquisa. Descrevendo analiticamente os cultos de exorcismo, buscará elos entre seus elementos e as diferentes fases em que os mesmos se dão. Feita esta associação às fases, restará apreciar as diferenças, observando-se as rupturas e continuidades neles presentes.
Já o terceiro capítulo aprofundará o tema desta dissertação, procurando entender o processo que leva as entidades afro-brasileiras a se tornarem demônios na IURD. Com a alusão ao título “O Afro-Brasileiro no Inferno Universal” o capítulo olhará
para as entidades "aproveitadas" pela IURD oriundas, sobretudo do candomblé e umbanda e seus respectivos conteúdos trazidos à tona. Apresentadas tais entidades, buscaremos olhar como passaram de divindades a demônios nos cultos da Universal. Assim, olharemos para a “pré-demonização” das entidades dentro do próprio universo
cristão do conceito abrasileirado utilizado na Universal e, finalmente, a demonização dentro da própria IURD.
Analisado o processo de demonização, resta-nos apontar, no quarto capítulo, o que nos revelam os cultos de exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus. E as revelações não são poucas! Podemos perceber que há um processo de domesticação do selvagem, onde o demônio perde, não só a força de espetáculo nos cultos, como seu lugar privilegiado neles, passando a ocupar lugar secundário; percebemos que a IURD se institucionaliza como empresa e incorpora, entre outros elementos, o afro; vemos uma igreja que traz um novo perfil de fiel, modelado pelas mudanças sociais da última década e que apresentará conteúdo muito mais racional e polido, fruto de sua institucionalização como igreja de classe média ou média-alta. O enfoque agora é muito menos o exorcismo simbólico dos males na figura do demônio e mais a prosperidade legitimada pela religião institucionalizada. Enfim, analisaremos os fatores externos e internos dessa institucionalização.
CAPÍTULO I
A IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS E SEUS CULTOS
Nos últimos tempos tem sido grande a pluralidade dos movimentos religiosos, despertando o interesse dos estudiosos. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem sido um objeto frequente de novos estudos por ser um fenômeno marcado pelo seu rápido crescimento (e enriquecimento), pelas características de sua doutrina, tanto pelo dízimo, o ataque a outros grupos religiosos como o culto de exorcismo. Particularmente, este último tema será objeto deste estudo, onde buscaremos analisar as diferentes etapas dos cultos de exorcismo na IURD e, através destas, traçar um perfil da Igreja desde sua fundação até os dias atuais.
Nesta primeira parte de nosso estudo, procuraremos situar a IURD no contexto dos movimentos (neo) pentecostais. Para tal se faz necessária a retomada da discussão acadêmica sobre ela. Recordando os autores Antônio Gouvêa Mendonça, Paul Freston e Ricardo Mariano, veremos como o termo “Neopentecostalismo” entra para a
Finalmente, analisaremos como essas fases de sua história apontam para um processo de institucionalização da Igreja.
1. Do Pentecostalismo ao Neopentecostalismo.
Ao se estudar uma das novas expressões do pentecostalismo, encontramos grande dificuldade para enquadrá-la nas classificações históricas existentes. Há questionamentos em torno da pertença dessas igrejas até mesmo ao hall das pentecostais, quanto mais ao movimento protestante.
Antônio Gouvêa Mendonça, por exemplo, ao tratar sobre o Protestantismo no Brasil, classifica o movimento pentecostal fora do protestantismo.
O protestantismo que chegou ao Brasil jamais se identificou com a cultura brasileira. Continua sendo um protestantismo norte-americano com suas matrizes denominacionais e dependência teológica. Por isso, prefiro falar em “protestantismo no Brasil” e não em protestantismo brasileiro1.
Reconhecendo no pentecostalismo uma identificação com a cultura brasileira, o aponta como sinal de crise no protestantismo:
Propomos a seguinte periodização: de 1824 a 1916, período de implantação do protestantismo no Brasil; de 1916 a 1952, desenvolvimento do projeto de cooperação ou pan-protestantismo e a chegada de “um bando de teologias novas”; de 1952 a 1962, crise política e religiosa, ensaio de politização do protestantismo e impacto do pentecostalismo; de 1962 a 1983, período de repressão no interior do protestantismo, da revolução neopentecostal, fortalecimento do denominacionismo e o isolacionismo das igrejas. 2
1 Cfr. MENDONÇA, Antônio G.: O Protestantismo no Brasil e suas Encruzilhadas. REVISTA USP, São Paulo,
E ainda:
O último e grande desafio às igrejas protestantes históricas nesse período foi o avanço do movimento carismático no interior delas mesmas gerando divisões que produziram as chamadas igrejas “renovadas”. O neopentecostalismo, como se sabe, provocou verdadeira devastação nessas igrejas. 3
Neste sentido, André Cortem faz uma observação importante, destacando a influência de elementos africanos no pentecostalismo e não somente vê nele uma origem europeia ou norte-americana:
Origem africana, origem metodista? O pentecostalismo é um fenômeno religioso transnacionalizado. É vão sopesar hoje o que faz parte da emoção religiosa anglo-saxônica e da emoção africana. O metodismo não foi simplesmente exportado sob a forma do pentecostalismo. Por um lado, ele era “contaminado constitutivamente” por elementos africanos. Por outro, o pentecostalismo do Terceiro Mundo – em particular o pentecostalismo brasileiro – teve quase sempre um desenvolvimento autóctone. Estes dois aspectos de “contaminação constitutiva” e “desenvolvimento nativo” são as marcas não de uma exportação, mas de uma transnacionalização 4.
Como se não bastasse toda a problemática da ligação ou ruptura com o protestantismo, algumas igrejas mais modernas, como a Igreja Universal do Reino de Deus não pode ser facilmente enquadrada naquilo que chamamos de movimento pentecostal, havendo necessidade de outras formulações como Neopentecostalismo,
3 Ibidem, pp. 55-56.
4 Cfr. CORTEM, André: Os Pobres e o Espírito Santo: O Pentecostalismo no Brasil. Petrópolis, Vozes,
Catolicismo Popular sob a Forma Pentecostal ou, a nosso ver, podendo ainda ser nomeado Pentecostalismo de Fronteira5
.
Essa nova corrente pentecostal traz elementos novos para o pentecostalismo, trazendo em si, um forte primado do estético6
.
A lógica estética ocorre, ainda, na linguagem religiosa baseada e expressa no espetáculo, seja pelos testemunhos espetaculares de milagres e prosperidades, seja nos roteiros dos cultos, nas músicas, nas expressões corporais, nos exorcismos realizados em grande número e na própria arquitetura dos templos, desenhados e organizados, em sua infraestrutura, como um grande teatro. 7
Ao situarmos a Igreja Universal do Reino de Deus nessa nova corrente, necessitaremos aprofundar primeiramente os conceitos de pentecostalismo e neopentecostalismo como o são trabalhados por pesquisadores da área. Desta forma, observaremos alguns ensaios que buscaram entender, do ponto de vista histórico, o pentecostalismo no Brasil. Tentativas significativas foram feitas para criar categorias de análise deste e que são importantes para nosso estudo.
1.1 . A Leitura de Antônio Gouvêa Mendonça.
O estudo do pentecostalismo brasileiro tem em Antônio Gouvêa Mendonça um de seus grandes pilares. Dedicado primeiramente ao estudo do protestantismo no Brasil, demonstrará como foi importado, sobretudo dos Estados Unidos, encontrando-se com a cultura brasileira. Entre suas obras, são de fundamental interesencontrando-se para nosso estudo os títulos “Introdução ao Protestantismo no Brasil”8
, em conjunto com Prócoro Velasques Filho e “Protestantes, Pentecostais e Ecumênicos”9
. Em sua primeira obra, Mendonça dá início a uma breve apresentação da evolução histórica e a configuração
5 Encontramos nessas igrejas elementos oriundos de várias expressões religiosas, como o Candomblé, a
Umbanda, a Quimbanda, o Catolicismo Popular e até mesmo o Romano, o Pentecostalismo. 6
Cfr. Passos, João D.: PASSOS, João Décio: Pentecostais: origens e começo. São Paulo, Paulinas, 2005, pp. 55-56.
7 Ibidem, p. 56.
8 MENDONÇA, Antônio G. e VELASQUES FILHO, Prócoro: Introdução ao Protestantismo no Brasil. São
Paulo, Loyola, 2002.
9 MENDONÇA, Antônio G.: Protestantes, Pentecostais e Ecumênicos: o Campo Religioso e Seus
atual do protestantismo no Brasil. Assim, descreve sua origem norte-americana marcada por um forte messianismo que chega ao Brasil com a imigração e o forte papel dos missionários. Do confronto com elementos da cultura brasileira, sobretudo do catolicismo popular, dá origem ao que o autor denomina “Pentecostalismo Brasileiro”. Aprofundando o tema, indaga pela característica fundamentalista do
protestantismo brasileiro, essencial para a compreensão do movimento pentecostal. Finalmente, procura traçar um paralelo entre a realidade social brasileira de urbanização e o surgimento do pentecostalismo, onde a mudança do campo para a cidade faz com que se percam suas ligações com os símbolos do campo e não os encontre no protestantismo.
O pentecostalismo é essencialmente uma religião urbana porque é na cidade que o relacionamento com o sagrado se torna indireto; é essencialmente protestante porque é na cidade que o discurso das Igrejas tradicionais mais evidencia o exílio do sagrado. 10
Assim sendo, há a tendência de uma busca do misticismo dentro do protestantismo, algo fundamental no pentecostalismo.
Já em “Protestantes, Pentecostais e Ecumênicos” o autor contextualiza o
estudo do pentecostalismo dentro da dinâmica do protestantismo no Brasil. Em sua análise, este, ao aqui chegar traz consigo a racionalidade da reforma protestante por um lado, e elementos do misticismo próprio das religiões de um modo geral.
Todas as grandes religiões apresentam dupla face quanto à experiência do sagrado: uma doutrinária, dogmática, discursiva, racional portanto, e gerida pelo corpo de especialistas e outra que busca o sagrado de maneira intuitiva, direta, sem a mediação da doutrina e do dogma e, consequentemente, da mediação do corpo de especialistas. No cristianismo, temos místicos muito influentes como São Bernardo (1090-1153), Santa Teresa (1515-82), São João da Cruz (1542-91),
10 Cfr. MENDONÇA, Antônio G. e VELASQUES FILHO, Prócoro: Introdução ao Protestantismo no Brasil.
Meister Eckart (1260-1327), Tomás Kempis, o anônimo da Teologia Alemã etc. No protestantismo, em particular, há a corrente mística do pietismo, uma espécie de misticismo secular representado principalmente pelos moravianos. O sufismo engloba as correntes místicas do islamismo e a cabala, o misticismo judaico11.
Um segundo passo é reconhecer que o protestantismo de onde nascerá o pentecostalismo chega ao Brasil não diretamente da Europa, mas através de uma diáspora norte-americana e outra brasileira.
No capítulo intitulado “Sindicato dos Mágicos: Pentecostalismo e Cura Divina (desafio histórico para as Igrejas)”, Mendonça alerta sobre a importância e o
significado da cura divina nos cultos pentecostais. Este fenômeno já descrito nos textos bíblicos, tem agora uma presença acentuada nos cultos e caracteriza um novo grupo de igrejas, o chamado pentecostalismo de cura divina ou neopentecostalismo. Longe de ser uma “igreja mágica” na afirmação de Durkheim12 as igrejas neopentecostais possuem “estruturas empresariais de maior ou menor amplitude e, sob a liderança de
uma espécie de sacerdote-mágico, mágicos credenciados agem nos limites de certa individualidade.” 13, o chamado “sindicato dos mágicos”. Alerta para a flexibilidade e
ajustamento para novas situações sociais dessas igrejas, contrapondo-as ao catolicismo e ao pentecostalismo clássico.
Finalmente reconhece que o termo pentecostalismo não abarca mais igrejas caracterizadas por “cultos com orações simultâneas, ou sem voz muito alta, com manifestações estáticas e línguas estranhas” 14
. Destaca o movimento das Tendas de Lona da Igreja do Evangelho Quadrangular, nos anos de 1953 a 1960, como possível berço do que chamará de neopentecostalismo. Tal movimento deu valor excessivo à cura divina e à expulsão dos demônios. Dele se originaram a Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo” e outras como Deus é Amor e Igreja Universal do Reino de Deus, entre outras. E afirma: “A Igreja do Evangelho Quadrangular talvez
11 Cfr. MENDONÇA, Antônio G.: Protestantes, Pentecostais e Ecumênicos: o Campo Religioso e Seus
Personagens. São Bernardo Do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2008, p.80. 12 DURKHEIM, Émile, As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo, Paulinas, 1989. 13 Cfr. MENDONÇA, op. cit. p.144.
tenha voltado ao Equilíbrio de seus quatro fundamentos, mas a obra que ela iniciou no país continua devastando o Evangelho e criando uma nova religião” 15.
Estaria a caminho a formação de uma religião da cultura brasileira? Uma religião que, atendendo ao imaginário social brasileiro, seria uma síntese do catolicismo popular, protestantismo pentecostal e cultos afro-brasileiros? 16
Assim, Gouvêa abre a discussão sobre neopentecostalismo afirmando que neste há um ajustamento de várias religiões entre si e em relação à cultura brasileira. Do encontro entre as culturas ibero-latino-católica, indígena e negra resultou “um
imaginário de um mundo composto por espíritos e demônios bons e maus em poderes intermediários entre os homens e o sobrenatural e por possessões” 17.
Percebe que o catolicismo e as outras religiões tradicionais e mesmo o pentecostalismo não têm condições de dar uma resposta religiosa que possa reorganizar o universo cultural em crise na sociedade brasileira.
A sociedade brasileira hoje é um mundo caótico, que marginaliza cada vez mais as classes pobres e desorganiza a classe média. Ora, as religiões tradicionais, como religião, têm a função de cultuar e manter um universo fixo e previsível. Quando esse universo se desorganiza, as religiões tradicionais têm dificuldades para ajudar as pessoas. Entra, então, a magia, com sua visão mais compartimentada do universo, que permite ajustes imediatos e parciais. Seria, então, lícito, sob o ponto de vista das ciências sociais, concluir que o neopentecostalismo é um ajuste entre religião e magia 18.
Assim, Mendonça introduz na discussão o termo “Neopentecostalismo”
de uma maneira bastante aberta e abrangente, distinguindo-o do conceito clássico de
“Pentecostalismo” e oferecendo nova chave de leitura para os novos movimentos
surgidos nas últimas décadas.
1.2 . As Três Ondas de Paul Freston.
Paul Freston, em seu artigo Breve História do Pentecostalismo Brasileiro19
descreve três ondas pentecostais no Brasil: a primeira tem início em 1910 com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembleia de Deus (1911). Outras Igrejas da época são inexpressivas. A grande ênfase desta onda pentecostal é o Batismo com o Espírito Santo certificado pelo fenômeno da glossolalia; a segunda vai dos anos 50 ao início dos anos 60, com o pentecostalismo se fragmentando. Três grandes grupos (em meio a outros menores) surgem, num contexto tipicamente paulista, atingindo principalmente os migrantes de nível cultural simples: Igreja Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). Sua grande característica é a “cura”; A
terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Seu representante máximo é a IURD (1977) e outro grupo expressivo é a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980). Seu contexto é fundamentalmente carioca, atingindo pessoas citadinas de nível cultural um pouco mais elevado e pele mais clara. Enfatiza o “exorcismo” da possessão maligna20.
Esta famosa formulação de Paul Freston, no entanto, data de 1996 e já não abarca mais as novas expressões do pentecostalismo, cujas tentativas de sistematização ocupam amplos debates acadêmicos e, além disso, no caso da IURD se faz necessária outra abordagem histórica, visto que a igreja tem uma história que, além de recente, se caracteriza por grande capacidade de adaptação e mudanças, o que a torna um grande desafio para os historiadores e demais pesquisadores.
1.3 . A perspectiva de Ricardo Mariano.
Tomando como ponto de partida as três ondas de Paul Freston, Mariano situa dentro da última onda o que chama de movimento neopentecostal, e procura precisar suas características. Uma importante observação feita por Mariano ressalta que nem
19 In: ANTONIAZZI, Alberto, |et al.| Nem Anjos nem Demônios: Interpretações Sociológicas do
Pentecostalismo. Petrópolis, Vozes, 1994, pp.67 – 159.
20 Cfr. P. FRESTON: A Igreja Universal do Reino de Deus. In VV.AA.: Nem Anjos nem Demônios, pp.70 -
todas as igrejas surgidas na década de 70 em diante são neopentecostais. Destaca a partir de trabalhos de outros autores, quatro aspectos fundamentais do neopentecostalismo: “1) exacerbação da guerra espiritual contra o diabo e seu séquito
de anjos decaídos; 2) pregação enfática da Teologia da Prosperidade; 3) liberalização dos estereotipados usos e costumes de santidade; 4) o fato de elas se estruturarem empresarialmente (incluindo fins lucrativos)” 21
Mas o autor vai além. Quer analisar as novas igrejas também por uma teologia que as distingue das demais. Nesse intuito, esbarra com o problema da heterogeneidade teológica entre os neopentecostais e também com a tendência de igrejas menores a abrirem mão de sua teologia no intuito de imitar as igrejas de maior sucesso. Assim, muitas igrejas sofrem influência direta dos modismos teológicos de igrejas norte-americanas. Contudo, ainda destaca uma ideia fundamental no neopentecostalismo: a de que este rompe “com a ideia da busca da salvação pelo ascetismo de rejeição do mundo, contrariando a velha concepção pentecostal” 22. Também, a tendência a “dedicarem-se inteiramente a esse mundo e essa vida para
resolver magicamente problemas cotidianos dos fiéis, distanciam o neopentecostalismo da escatologia pentecostal clássica” 23. Outra característica
apontada no mesmo artigo é o rompimento com o legalismo pentecostal.
Certamente, outras contribuições de autores poderiam ser aqui elencadas, porém, ao menos essas três são fundamentais para uma elaboração de uma história da Igreja Universal do Reino de Deus dividida em etapas.
2. Origem e Desenvolvimento da IURD
Encontramos, na literatura sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, trabalhos significativos que procuraram descrever sua história. Destacamos o trabalho de Ari Pedro Oro, André Corten e Jean-Pierre Dozon no livro intitulado A igreja Universal do Reino de Deus. Reuniram num só livro diversos trabalhos de estudiosos sobre a origem e o desenvolvimento da Igreja Universal do Reino de Deus, apontando diversos caminhos tomados pela igreja em todo mudo. Para nossa pesquisa, no entanto, se faz
21 Cfr. MARIANO, Ricardo: Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo,
necessária a análise dos diversos períodos de sua história, desde a sua origem, sua consolidação e expansão.
Ao propor uma chave de leitura para as diferentes etapas da igreja, percebemos que esta surge de forma carismática, leve, destinada, sobretudo a pessoas humildes que vivem nos subúrbios do Rio de Janeiro e assim se estende a outras cidades e estados brasileiros. Já nesta fase, cultos de exorcismo constituem um dos pilares fundamentais sobre os quais se estrutura a igreja. Seu fundador, o Bispo Edir Macedo, no entanto, assim que vê a igreja prosperar, reveste-a de uma mentalidade o que lhe dará, inevitavelmente, uma estrutura institucionalizada. É esta mentalidade empresarial que impulsionará a igreja para o sucesso, sua consolidação e, posteriormente, sua internacionalização. Tal chave nos permite dividir a história da IURD em três períodos distintos: a fase de fundação, de consolidação e sua expansão internacional. Nestes três diferentes quadros, buscaremos destacar as mudanças em suas linhas de ação e, sobretudo, em sua liturgia.
Tal distinção será de grande importância para que possamos analisar os cultos de exorcismo na IURD, pois resta-nos saber se o demônio exorcizado nesses cultos sofrerá as consequências de uma institucionalização ou permanecerá selvagem como em sua origem.
2.1. Primeiro Período: O Processo de Fundação
O site da Igreja Universal do Reino de Deus24 ao falar da própria história, descreve-a como uma obra divina que se inicia timidamente na periferia do Rio de Janeiro e ganha o mundo.
Tudo começou em 9 de julho de 1977, quando se abriram oficialmente as primeiras portas da Igreja Universal do Reino de Deus. Sem condições de alugar um imóvel, o então pastor Edir Macedo iniciou as suas primeiras reuniões num coreto do Jardim do Méier. Orientado pelo Espírito Santo e revestido de uma fé inabalável, as suas palavras
logo deram início à Igreja que atualmente é a maior responsável pelo crescimento evangélico no mundo.
Uma antiga fábrica de móveis no número 7.702 da Avenida Suburbana foi alugada, parecendo ser o local ideal para iniciar a obra. O galpão se tornou o grande templo da Abolição, com capacidade inicial para 1.500 fiéis. Mas logo precisou ser ampliado e, atualmente, comporta 2.000 pessoas confortavelmente sentadas.
Quando o jovem Macedo alugou o galpão, algumas pessoas consideraram o gesto uma loucura, já que o aluguel do imóvel era muito caro. Essa ousadia, entretanto, contribuiu para fazer da Universal o que ela é hoje: uma Igreja que não para de crescer.
A cada dia, bispos e pastores travam várias lutas. No entanto, na árdua trajetória, eles são motivados pelo fato de que em todo lugar há sempre alguém em busca de paz interior, precisando de orientação. O objetivo da IURD é sempre apresentar a todos a salvação através do Senhor Jesus Cristo.
Atualmente, a Igreja Universal acumula grandes multidões em todos os seus templos.”25
“Trinta anos se passaram e, atualmente, a IURD tem cerca de 8 milhões de fiéis somente no Brasil. Possui 9.600 pastores e gera 22 mil empregos diretos em mais de 4.700 templos instalados em 172 países. O trabalho continua crescendo dia após dia. 26
A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) foi fundada em 1977 pelo “Bispo”
Edir Macedo (que assim se autodenomina), na cidade do Rio de Janeiro, mas só começará a crescer na década seguinte27. Edir Bezerra Macedo nasce em 1945 e aos 18 anos converte-se ao pentecostalismo, abandonando o catolicismo e a umbanda, passando a integrar a Igreja de Nova Vida. 28 A Nova Vida foi a pioneira num carismatismo de classe média e sua maior contribuição foi ter sido um “estágio” para
25Disponível em <http://www.igrejauniversal.org.br/histiurd-passos.jsp> Acesso em: 21 de abril de 2010. 26
Disponível em <http://www.igrejauniversal.org.br/histiurd-mundo.jsp> Acesso em: 21 de abril de 2010.
27Cfr. FRESTON, P.: A Igreja Universal do Reino de Deus. In VV.AA.: Nem Anjos nem Demônios, p.131ss. 28 Cfr. MARIANO, Ricardo: A Igreja Universal no Brasil. In Ari Pedro Oro (org): Igreja Universal do Reino
futuros líderes. Deu a seus líderes uma formação indispensável para que se tornassem independentes, e soubessem como “levantar uma boa oferta”. Em sintonia com tudo isso, a mensagem deveria ser sempre positiva. “Era o transplante do que havia de mais recente na religião americana, no estilo dos novos pregadores televisivos.”29 Em 1975,
Edir fundou, com outros pastores a Cruzada do Caminho Eterno. Descontente, dois anos mais tarde fundou a Igreja Universal do Reino de Deus, cujo pastor principal era seu cunhado RR Soares que se desliga dessa igreja para fundar a Igreja Internacional da Graça de Deus.30
O Brasil é outro, e o pentecostalismo adapta-se às mudanças do período militar: o aprofundamento da industrialização; o inchamento urbano causado pela expulsão de mão de obra do campo; a estrutura moderna de comunicações de massa que, no final dos anos 70, já alcança quase toda a população; a crise da igreja Católica e o crescimento da umbanda; e a estagnação econômica dos anos 80 31.
A Igreja tem crescimento acelerado. Com apenas três anos de existência já contava com 21 templos em cinco estados brasileiros. Em 1985 contava com 195 templos no Brasil. Dois anos depois, já contava com 365 templos. 32
Um pastor explicou com perspicácia as razões do crescimento lento em sua religião: a IURD se expande onde há “macumba” e famílias dilaceradas; no interior paulista, o catolicismo tradicional e a estrutura familiar mais fortes prendem as pessoas à sua atual filiação religiosa. Talvez haja um fator complementar: a relativa força do pentecostalismo mais antigo no interior de São Paulo e a fraqueza do mesmo na cidade do Rio e na Bahia. 33
29Cfr. P. FRESTON: op. cit., p.131. 30 Ibidem, p.54.
31 Ibidem, p.133.
Acompanhando esta primeira fase da Igreja Universal do Reino de Deus, pudemos notar que sua origem se dá nas periferias das grandes cidades. Ao contrário das atuais grandes catedrais da fé, seus primeiros templos ocupam espaços que outrora eram de fábricas e galpões em grandes áreas de circulação de pedestres. Nesse período, a igreja não dá conta de se expandir por todas as classes sociais de modo uniforme, obtendo maior sucesso na base da pirâmide social brasileira. As tentativas de abarcar as outras classes sociais falharam. 34
Com relação a esse cenário, Paul Freston nos diz que a ênfase desta nova onda pentecostal é a libertação (do poder demoníaco), pelo exorcismo, da possessão maligna relacionada principalmente com os cultos mediúnicos. Uma razão para tal é o fato de que o catolicismo vem perdendo vários de seus seguidores e que a grande corrente desta época é a Umbanda. Com o fortalecimento desta, surge uma forma de protestantismo que a ataca mais diretamente. Na IURD, contatos passageiros com a “macumba” são destacados na biografia pessoal. Isso pode refletir numa diferença real
nos públicos.
A exemplo de seu fundador, os fiéis sentem-se, neste momento, motivados a abandonar as práticas relacionadas à macumba e a Umbanda. Tais práticas são consideradas demoníacas e são frequentemente taxadas de feitiçaria. Nos cultos de Libertação35 tais práticas são exorcizadas nos fiéis que manifestam as entidades dos cultos afro-brasileiros. No entanto, o universo de tais cultos permanece como pano de fundo para a doutrinação da IURD e, em muitos casos, ganha nova roupagem cristã, como veremos em outras oportunidades.
Em seguida a essa primeira fase da IURD, analisaremos sua fase de consolidação.
34 Cfr. MARIANO, Ricardo: A Igreja Universal no Brasil. In Ari Pedro Oro (org): Igreja Universal do Reino
de Deus, p.60.
35 É assim que são chamados os cultos de exorcismo nesse momento; posteriormente tal culto será
2.2. Segundo Período: A Consolidação da IURD
Toda tentativa de se traçar limites históricos para uma instituição que surge de forma carismática encontra nessa característica uma barreira cronológica. O fato é que não há uma data precisa da passagem de uma etapa a outra. No entanto, algumas características da Igreja Universal do Reino de Deus sofrem grande transformação à medida que esta tem seu número de fiéis em crescente elevação, quando assume lugar de destaque na imprensa e até mesmo pela também crescente relevância financeira da instituição.
IURD no Brasil: As bênçãos se espalham rapidamente.
O poder de Deus se manteve tão forte sobre a Igreja que, logo, outros espaços precisaram ser alugados para dar lugar a mais fiéis. Naquela época, a divulgação dos cultos era feita por dez obreiros, que colavam folhetos nos postes e convidavam as pessoas a assistir às reuniões.
Já nas pregações, realizadas desde o coreto do Méier, o pastor Edir Macedo costumava dizer que a Igreja Universal tinha por meta pregar o Evangelho nos quatro cantos do mundo e, para isso, ele tinha que pensar grande e usar a fé. Fruto desta certeza, em um curto espaço de tempo, a IURD foi crescendo e alcançando outros estados brasileiros, levando sempre uma palavra de fé, esperança e amor para todas as pessoas que realmente desejam ver o poder de Deus se manifestando em suas vidas.
A expansão ocorreu rapidamente pelo País. Depois de estabelecer os templos da IURD nos principais pontos do Rio de Janeiro, o trabalho seguiu para os estados de São Paulo e Minas Gerais; chegando à Bahia e ao Paraná em 1980.
Multiplicando-se rapidamente, com o apoio da mídia impressa e eletrônica, permite que todos os necessitados tenham acesso à Palavra de Deus, mas não despreza a evangelização boca-a-boca. 36
Continuemos a acompanhar a história da Igreja Universal do Reino de Deus no seu fundador. Macedo mudou-se para os estados Unidos em 1986, buscando difundir sua igreja entre os hispânicos. Em 1987, a Igreja passa por uma diversificação de suas atividades e por um processo de penetração mais ousada de espaços sociais resultando em maior atenção crítica da mídia. Voltando ao Brasil em 1989, transfere a sede de sua igreja para São Paulo e adquire a Rede Record em 1990 por 45 milhões de dólares.
Tal fato deu à IURD uma notoriedade nos meios de comunicação sociais e logo despertou o combate a essa igreja pelas empresas concorrentes. Muitos escândalos foram levados à tona, envolvendo enriquecimento ilícito, sonegação de impostos e acusações de charlatanismo na obtenção de doações e dízimos. Mas o fato que mais elucida a competição entre IURD, a igreja católica e os outros meios de comunicação, em especial a Rede Globo, foi certamente o episódio do “chute na santa”, ocorrido em
1995. No dia 12 de outubro desse ano, dia da padroeira do Brasil, o Bispo Sérgio Von Helde, no intuito de demonstrar que a imagem de Nossa Senhora Aparecida se tratava apenas de um utensílio de barro, deu-lhe pequenos golpes com os pés e os punhos e proferiu palavras de desafeto ao objeto. Tal ato detonou uma série de protestos, inclusive de autoridades civis e religiosas do País. No entanto, com tal fato, a IURD deixou de ser apenas mais uma igreja pentecostal para despontar como a principal denominação (neo) pentecostal desde então.
Nesta fase, os cultos ganham uma característica de maior uniformidade e continuam destinados à fatia mais baixa da população, embora apontem já para uma outra fatia, a dos pequenos empresários e emergentes.
“A realização, por exemplo, de cultos de prosperidade para atrair clientela
formada especificamente por pequenos e médios empresários, em nada alterou a composição social de seus membros. Em vez de aliciar empresários, tais cultos restringiram-se, sobretudo a atrair fiéis desejosos de prosperar...”37
Nesta fase da igreja, seus templos demonstram sua evolução. Agora são grandes teatros e cinemas que são comprados para se transformarem em templos da
37 Cfr. MARIANO, Ricardo: A Igreja Universal no Brasil. In Ari Pedro Oro (org): Igreja Universal do Reino
Fé. Catedrais que lembram shopping-centers são erguidas nas principais cidades do país. A IURD não tem nenhuma intenção de esconder sua força econômica, nem mesmo a prosperidade que envolve a maioria de seus líderes.
Uma forma de acompanhar a evolução histórica dos cultos da IURD é observar como os cultos são distribuídos durante a semana. De início, as reuniões tinham como prática central a adaptação da novena católica: as correntes.38 As IURDs tinham um esquema semanal quase idêntico:
Segundas-feiras: Corrente da Prosperidade Terças-feiras: Corrente da Saúde
Quartas-feiras: Corrente dos Filhos de Deus Quintas-feiras: Corrente da Família
Sextas-feiras: Corrente da Libertação
Sábados: Corrente da Grandeza de Deus (Problemas financeiros, “Traga seus materiais de trabalho”)
Domingos: Corrente Sentimental.39
Os temas das correntes repetem-se semanalmente, de forma que o fiel possa participar várias vezes de uma delas até alcançar seu objetivo.
A corrente da prosperidade diz respeito aos cultos destinados a promover o bem-estar financeiro do fiel. São expulsos de sua vida os demônios que “trancam” os caminhos do fiel, impedindo-o de ter um bom emprego ou
obter sucesso nas empreitas.
A corrente da saúde busca livrar o fiel dos demônios que provocam nele ou em pessoas próximas a ele, doenças de todo gênero.
A corrente dos filhos de Deus leva o fiel a trabalhar sua autoestima, de forma que, consciente de seu valor como filho de Deus, saiba almejar a uma vida mais feliz e próspera.
A corrente da família busca afastar da família do fiel todos os males que o demônio possa nela fazer. Há um apelo maior nas pregações sobre os
38 As correntes, assim como as novenas, são um tipo de culto característico do catolicismo popular.
Segundo a crença dos fiéis, se tais cultos forem repetidos várias vezes nos mesmos dias de semana durante um determinado período, podem trazer uma graça ao fiel ou para quem este intercede.
valores a serem vividos na família: o respeito, a fidelidade e o serviço a Deus.
A corrente da libertação é o culto de exorcismo propriamente dito. Nele é provocada, através da oração forte, a manifestação das entidades afro-brasileiras aqui denominadas demônio. Há destaque para a entrevista com o demônio e o exorcismo feito pelo Bispo, acompanhado em oração pelos fiéis.
Já a corrente da grandeza de Deus convida os fiéis a trazerem objetos que simbolizam seu trabalho, pedindo que Deus os proteja de qualquer ataque do mal em suas vidas, sobretudo os que causam problemas de ordem financeira.
Finalmente a corrente sentimental terá por objetivo fazer com que os laços amorosos existentes não possam ser rompidos por trabalhos feitos por outras pessoas. Assim também são desfeitos quaisquer laços feitos por bruxaria ou macumba que não deixam o fiel livre para uma escolha amorosa adequada. Finalmente, ora-se pela pessoa amada.
Uma característica de todas essas reuniões eram as orações de exorcismo. A “oração forte” estava presente praticamente em todos os cultos da IURD. Nelas as
entidades dos cultos afro-brasileiros eram convidadas a se manifestar e lá estavam os demônios! Estes nada mais eram que as entidades já conhecidas, sobretudo da Umbanda e que eram gentilmente convidadas a se apresentarem à assembleia e a contar o mal que realizavam na vida do fiel. Tal gesto servia como fonte de doutrinação para a igreja, onde o demônio sempre era apresentado como a fonte de todos os males. Expulso o demônio, o fiel sentir-se-ia livre para fazer sua oferta de modo generoso e também poderia agora seguir sua vida como vencedor. Mesmo na corrente da família, tal oração de libertação ocorria mostrando quantos males o demônio podia operar num lar. O mesmo se dava na corrente da saúde, onde o Demônio era apontado como causador de inúmeras doenças aos fiéis.
entidades do panteão afro-brasileiro, sendo totalmente demonizadas, como veremos mais à frente, e responsabilizadas pelos males que assolam a vida do fiel. Em forma de entrevista com o demônio, o pastor evidencia a forma maléfica de atuação dessas entidades na vida das pessoas e as utiliza como forma de catequese para demonstrar como um fiel deve viver, liberto das possessões demoníacas. Em seguida, em forma de espetáculo, esse demônio é expulso e o fiel, livre de seu poder, dá testemunho da ação divina realizada através da igreja. De forma geral esse é o formato dos programas apologéticos da Igreja.
Assim, temos uma igreja voltada para o exorcismo, onde o demônio tem papel central nos cultos. Certamente é essa a principal característica que acompanha a liturgia da Igreja Universal do Reino de Deus nessa fase de sua história.
2.3. Terceiro Período: a Expansão Internacional
Pelos quatro cantos da Terra: IURD está presente em mais de 170 países.
Sempre movida pelo propósito do Espírito Santo, a Igreja Universal do Reino de Deus ampliou seus horizontes conforme a vontade do Senhor: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" (Marcos 16.15). Apesar de ter passado por diversas dificuldades, discriminações e perseguições, a IURD se manteve de pé, abençoando e libertando pessoas.
Cansadas de promessas, elas querem receber o sopro de vida que vem do Espírito Santo. Por isso, muitas têm buscado ajuda espiritual na IURD. Não são poucos os testemunhos de pessoas que, embora vivessem uma vida religiosa tradicional, estavam totalmente arruinadas. Depois de conhecerem o verdadeiro poder de Deus, elas venceram todos os problemas.
Uma longa jornada
nova-iorquinos, como Manhattan e Brooklin, viram o poder da Universal, que também conseguiu conquistar outras cidades e estados norte-americanos.
Desde a primeira igreja nos EUA, pisar em solo estrangeiro é um compromisso. A partir de então, a IURD vem conquistando outros países das Américas, da Europa, da Ásia e da África. Alguns políticos e instituições religiosas apresentaram vários obstáculos para a realização desta obra. Todavia, nada fez a IURD esmorecer. Afinal, a batalha é longa e quem é verdadeiramente de Deus não retrocede, ao contrário, se enche de fé e segue em frente.
Trinta anos se passaram e, atualmente, a IURD tem cerca de 8 milhões de fiéis somente no Brasil. Possui 9.600 pastores e gera 22 mil empregos diretos em mais de 4.700 templos instalados em 172 países. O trabalho continua crescendo dia após dia.40
Consolidada nesta década de 1990 em todo o país, a IURD tem agora novos horizontes a serem alcançados: sua internacionalização. A primeira iniciativa nessa linha se dá em 1994, como assinala Virgínia Garrard-Burnett em seu artigo A Igreja Universal nos Estados Unidos41, com a abertura de seu primeiro templo42 da IURD em Nova York, sendo esta uma das igrejas que mais obtiveram sucesso no início do séc. XXI. A partir daí, o processo de internacionalização se dá em vários países, seguindo os passos de emigrantes brasileiros no exterior, primeiramente, e com o intuito de atingir também outros seguimentos populacionais. No livro A Igreja Universal do Reino de Deus onde Ari Pedro Oro, André Corten e Jean-Pierre Dozon organizam uma série de artigos que tratam da internacionalização da IURD fica clara a ideia de que os primeiros templos da Universal no exterior surgem no final da década de 1980 e início da década seguinte, mas ganham força mesmo em meados de 1995 e início da década de 2000. Mapeia da seguinte forma a expansão da IURD nos países em que esta tem maior expressão:
40 Disponível em <http://www.igrejauniversal.org.br/histiurd-mundo.jsp> Acesso em: 21 de abril de
2010.
41 In Ari Pedro Oro (org): Igreja Universal do Reino de Deus, pp.51-164.
42 Ricardo Mariano situa o primeiro tempo nos Estados Unidos no ano de 1986, cfr. Ari Pedro Oro, op.
a) Argentina: chegada no final da década de 1980, expansão a partir de 1995. Conta hoje com 101 templos, segundo o site.
b) Venezuela: chegada em 1995 e expansão imediata. Em 2002 contava com 15 igrejas em Caracas e outras 45 no país, além de 17 “núcleos de oración”
que certamente se transformariam em igrejas43. O site lista apenas duas igrejas em Caracas.
c) Estados Unidos: chegada em 1994, grande expansão a partir de 2000. Conta hoje com 81 templos listados no site da Igreja44 (27 somente na Califórnia) d) México: chegada em 1993. Em 1995 possuía 11 igrejas e em 2001 apenas
17 templos. O site lista 41 templos atualmente.
e) Costa do Marfim: Chegada em 1995, conta com 40 em 2002. Atualmente 21 templos listados no site.45
f) Quênia: Chegada em 1994. Em 2001, somente um templo. Em 2002 abre três pequenos templos. O site lista apenas dois templos.
g) Moçambique: chegada em 1990 em Maputo e expansão logo em seguida nas regiões periféricas da cidade. Não há registro da quantidade de templos. O site lista apenas 1 templo.
h) África do Sul. Chegada em 1993. Tem 17 templos em 1995, 115 em 1998 e 181 em 2001. O site da igreja na África do Sul46 apresenta atualmente 324 templos.
i) Portugal. Chegada em 1989. Em 1999 a IURD anunciava a posse de 100 templos no país. O site brasileiro lista apenas 18 templos em terras lusitanas. O site português exatos 100 templos.
j) Inglaterra. Chegada em 1995. Em 2002 há 17 templos. O site brasileiro lista 20 templos atualmente.
43 Cfr. Pollak-Eltz, Angelina: A Igreja Universal na Venezuela in Ari Pedro Oro (org): Igreja Universal do
Reino de Deus, p.80.
44 Disponível em <http://www.arcauniversal.com/servicos/enderecos-AMN.html> Acesso em: 30 de
junho de 2010.
45 Chama-nos a atenção a dificuldade de encontrar números precisos sobre a IURD em alguns países. O
próprio site da Universal, ao oferecer o endereço dos templos na Costa do Marfim, assim os descreve:
“Ex cinema la paix, à coté de la poste. Toits-rouges - Abidjan - Costa do Marfim” ou mesmo: Entre la
k) França. Chegada em 1992. Em 1995 3 templos. O site brasileiro lista 6 templos atualmente.
O referido livro analisa ainda a expansão da igreja em países da Ásia, sobretudo no Japão, demonstrando as dificuldades encontradas pela igreja para penetrar na cultura desses países, alguns dos quais, muçulmanos e a estratégia de se difundir entre os latino-americanos e africanos que migram para essas localidades.
Ao todo, o site da IURD no Brasil relaciona a presença da igreja em 172 países, conforme texto citado anteriormente, demonstrando o processo de internacionalização da igreja.
Além disso, as transformações sociais mudam as características da população no Brasil e, consequentemente, o perfil dos fiéis da IURD. Na chamada “era Lula” a
cada ano o IBGE anuncia uma migração de pessoas da classe pobre para a classe média e desta para a classe média-alta. Ao contrário do cenário apresentado por Ricardo Mariano para o início da década de 90, é comum encontrar nos cultos, pequenos empresários que realmente conseguiram ascender na vida econômica, seguindo as tendências do crescimento do país. Certamente tal fator é decisivo nas opções de mudança de linguagem da igreja que adotou novos nomes para suas reuniões e novos conteúdos para os cultos, agora menos voltados para o exorcismo, mas não menos para a prosperidade.
Em seu início, os cultos eram chamados, conforme acima dito, de correntes por contar com esse elemento da religiosidade popular católica. Hoje em dia as correntes ainda existem, mas não mais predominam na organização dos cultos. Tais cultos levam agora outros nomes, como “Reunião” (segundas, quartas, quintas, sábados e
domingos), sessão (terças-feiras) e, nas sextas-feiras e sábados recebem nomes variados, conforme programação abaixo:
Segundas-feiras: Reunião dos empresários Terças-feiras: Sessão Espiritual do Descarrego Quartas-feiras: Reunião dos Filhos de Deus