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Poderosa Afrodite: uma tragédia cômica

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7 jul. 2011

Orlando Luiz de Araújo *

PODEROSA AFRODITE

: UMA

TRAGÉDIA CÔMICA

RESUMO: RESUMO:RESUMO: RESUMO:

RESUMO: Muitas adaptaçõ e s mo de rnas de tragé dias

anti-gas ne m se mpre são be m re ce bidas pe lo público , se ja po rque

se distanciam do o riginal, se ja po rque a fide lidade ao o riginal

pare ce impo ssíve l. Ne sse artigo , inte ntamo s mo strar e m Po

-dero sa Afro dite, de Wo o dy Alle n, a manipulação que o dire

-to r faz de te mas e de e le me n-to s fo rmais, co mo o Co ro , do

drama antigo , a fim de o bte r uma bo a re ce pção pe lo público

co nte mpo râne o .

P PP P

PALAALAALAALAALAVRAS- CHAVRAS- CHAVRAS- CHAVRAS- CHAVRAS- CHAVE:VE:VE:VE:VE: Édipo Re i, Wo o dy Alle n, Po de ro sa

Afro dite, Tragé dia Gre ga

MI GHTY APHRODI TE MI GHTY APHRODI TEMI GHTY APHRODI TE MI GHTY APHRODI TE

MI GHTY APHRODI TE: A COMI C TRAGEDY: A COMI C TRAGEDY: A COMI C TRAGEDY: A COMI C TRAGEDY: A COMI C TRAGEDY

ABSTRACT: ABSTRACT:ABSTRACT: ABSTRACT:

ABSTRACT: Many mo de rn adaptatio ns o f ancie nt trage die s

are no t always we ll re ce ive d by the public, e ithe r be cause

the distance fro m the o riginal, e ithe r be cause the ir fide lity

to the o riginal it se e ms impo ssible . In this pape r we inte nd

to sho w in Mig hty Aphro dite by Wo o dy Alle n, the dire cto r

make s the handling o f the me s and fo rmal e le me nts, like the

Cho rus, the ancie nt drama, in o rde r to ge t a go o d re ce ptio n

by co nte mpo rary audie nce s.

KEYW ORDS: KEYW ORDS:KEYW ORDS: KEYW ORDS:

KEYW ORDS: Oe d ip u s Kin g , Wo o d y Alle n , Mig h t y

Aphro dite , Gre e k Trage dy

Ouça, me nina, uma ve lha que viu t rê s

ge raçõ e s e apre nde u muit o so bre o s ho me ns e

so bre as mulhe re s. Casame nt o e amo r nada

t ê m a ve r co m o o ut ro . Casa-se para f undar

uma f amília e f o rma-se uma f amília para

co nst it uir a so cie dade . A so cie dade não po de

dispe nsar o casame nt o . Se a so cie dade é uma

cade ia, cada f amília é um ane l de ssa cade ia.

Para so ldar o s ané is pro curam-se se mpre

me t ais pare cido s [ . . . ] . Só no s casamo s uma

ve z, me nina, po rque o mundo e xige , mas

po de mo s amar vint e ve ze s na vida, po rque a

nat ure za no s f e z assim.

( Guy de Maupassant, Jadis, Pléiade, trad.

de Rejane Jano witzer)

A

o t rat ar d e t e mas c lássic o s, muit o s dire to re s de te atro e de c ine ma tê m b usc ado

inspiraç ão , e spe c ialme nte , no s po e mas é pic o s,

Ilíada e Odisse ia, e nas tragédias, Édipo Re i, As

Tro ianas, Ele ctra, Me de ia, Antígo na, que parecem

se r as mais in sp irad o ras. Os e sf o rç o s d e sse s

dramaturg o s e c ine astas para traze r o passado

p ara o p re se nt e são e no rme s, e ne m se mp re

exito so s do po nto de vista da recepção das o bras.

A transpo sição de qualquer o bra literária para o

palc o o u para a tela é alg o bem c o mplexo ; tal

* * * *

* Pro fesso r Adjunto II da Universidade Federal do

Ce ará. E- Mail: araujo _ o rlando @ ho tmail.co m

(2)

transpo sta está distante de nó s há pelo meno s

do is mil ano s, co mo é o caso das o bras literárias

da antig uidade c lássic a; ac re sc e nta- se a e ssa

c o mp le xid ad e a e xp e c t at iva q ue o s c rít ic o s,

leito res e espectado res têm de ver representado s,

na no va pro dução , o s valo res so ciais e culturais

da o bra de partida.

No c aso das adaptaç õ e s e re le ituras das

tragédias gregas para o cenário co ntempo râneo ,

a representação das co ndiçõ es cênicas do pró prio

espetáculo , co mo o uso da máscara, a interdição

da exibição das cenas vio lentas diante do público

e a p a rt i c i p a ç ã o d o c o ro s ã o q ue s t õ e s q ue

direto res e encenado res devem estar atento s para

enfrentá- las. Do is o utro s elemento s que eles não

po dem negligenciar são o espaço e o tempo . No

c a s o d a t ra g é d i a g re g a , o e s p a ç o d a p ó lis

ateniense e a frequente discussão do s pro blemas

humano s é alg o que não po de ser descurado . É

ó bvio que não se trata de, simplesmente, transpo r

a realidade grega para a da co ntempo raneidade,

trata- se, po is, de estabelecer o diálo go entre as

c u lt u ra s , p ri n c i p a lm e n t e , a c e rc a d o q u e é

fundamental a ambas.

De starte , e le g e r um te ma, mais d o que

transladar a o bra tal qual fo i pro duzida na sua

é po c a, to rna- se mais e fic ie nte e se c o nfo rma

me lho r às c o nd iç õ e s d e re c e p ç ão d o p úb lic o

mo derno . Deve- se ressaltar que a representaç ão

primitiva do drama c o ntava c o m re g ras fixas e

bem definidas, co mo a apresentação , pelo meno s

e m to das as trag é dias g re g as supé rstite s, do s

elemento s lírico , cênico e recitativo , em o po sição

a uma representação mais flexível e insubo rdinada

do teatro na co ntempo raneidade.

A c o m b i n a ç ã o d o s t rê s e l e m e n t o s

suprac itado s pe rmitia ao e spe c tado r antig o a

e x p l o s ã o d a e m o ç ã o o u p u ri f i c a ç ã o d o s

se ntime nto s, e mo ç õ e s que fo ram subtraídas do

te atro atual. O e sp e c tado r, no te atro antig o ,

o cupava um lugar de destaque que não mais se

e n c o n t ra h o j e , e x c e ç ã o f e i t a , t a l v e z , à s

e nc e naç õ e s da dire to ra de te atro e de c ine ma

Ariane Mno uchkine ( 1939) , frente ao Thé âtre du

So le il, co m sua representação memo rável de Le s

no e spaç o so c ial do te atro ate nie nse – e aqui

entendemo s po r espaço so cial o thé atro n, o lugar

o nde se sentava o público - , o mo do pelo qual as

pesso as interagiam co nstituía uma fo rma de ação

po lític a. É, po is, o e le me nto po lític o , mais do

que o s elemento s fo rmais da tragédia, que deve

ser eleito co mo pano de fundo para transpo r uma

o bra antiga para a co ntempo raneidade, po dendo

c o nside rar, o b viame nte, e le me nto s da trag é dia

que po derão auxiliar na no va pro dução .

Na trag é d ia g re g a, o e le me nto líric o já

c i t a d o a c i m a e s t á c o n f i n a d o a o c o ro e s e

apresenta po r meio de verso s variado s e não meno s

co mplexo s, co mo , po r exemplo , po demo s divisar

no terc eiro estásimo de Édipo Re i ( 1086- 1109) ,

de Só fo cles, que apresenta uma dança frenética

e velo z, de teo r mais festivo , co ntrastando co m

o s ac o nte c ime nto s ante rio re s, que apre se ntam

t o n s mais so mb rio s. A músic a in st rume n t al,

p e rf o rmat izad a p e lo c o ro , o s d iálo g o s e n t re

pe rso nag e ns e a de c lamaç ão , que apare c e e m

po nto s de alta tensão dramática, são elemento s

que estruturam a trag édia ao mesmo tempo em

que aguçam a expectativa do público .

A o rg anizaç ão de sse s e le me nto s e m uma

pro dução mo derna é, indubitavelmente, po ssível.

AsBacante s ( 1996) , de Jo sé Celso Martinez Co rrêa ( 1937) , é um exemplo ; essa o rganicidade co nfere

à representação o estatuto fo rmal – apro ximando

-se da trag é dia c lássic a - , e ntre tanto po de não

c ausar o re sultado que se de se ja, pe lo fato da

ad ap t aç ão sug e ri r q ue st õ e s d i st i n t as d a d o

passado . As e nc e naç õ e s no te atro de Dio niso ,

em Atenas, não descuidavam do s seus co ntexto s

de perfo rmances e, frequentemente, faziam co m

que suas perso nag ens, - e a co média é pró dig a

e m e xe mp lo s d e ssa e sp é c ie - , se d irig isse m

dire tame nte ao auditó rio utilizando c ate g o rias

so cial e po lítica.

Na a d a p t a ç ã o , d e v e m o s c o n s i d e ra r o

c o nte xto da re pre se ntaç ão e o que e spe ramo s

at i n g i r c o m t al p ro d uç ão . Ne sse se n t i d o , o

espetáculo Fragme nto s Tro iano s ( 1999) , de Antunes

Filho ( 1929) , é bastante elo quente. Lo go ,

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c lássic as pare c e se r mais e fic az quando traduz

as questõ es essenciais do passado para a língua

do presente, sem que, necessariamente, a fo rma

se ja pre se rvada, to davia se m pre juízo do que

David Willes ( 2000: p. 179) deno mina de elemento

de authe nticity. Para Willes, muito s direto res que

se e nvo lve m c o m o drama g re g o ac re ditam te r

e nc o ntrado alg o de autê ntic o no passado que

me re c e se r t razid o ao p re se n t e , assim c o mo

acreditam ter enco ntrado algo no presente que é

dig no de ser levado para o texto antig o . Nessa

relação dialó gica, pensamo s que o passado po de

se r re inve ntado , ao invé s de se r transplantado

para o presente.

De ssa f o rma, Po de ro sa Af ro dit e, Mig ht y

Aphro dite ( 1995) , ro teiro de filme escrito e dirigido po r Wo o dy Allen ( 1935) , traz algo de autêntico

ao b usc ar re le r o s p o n t o s f un d ame n t ais q ue

tragédias co mo Édipo Re i o u Me de ia po dem suscitar

ao d isc ut ir assunt o s d e valo r p ara o ho me m

c o nte mp o râne o ; assunto s que e ram, tamb é m,

necessário s ser discutido s na épo ca de Só fo cles.

Co mo sabemo s, as representaçõ es se realizavam

no Teatro de Dio niso , em Atenas, po r o casião do

f e stival de dic ado ao de us e no s trê s dias do

festival, temas c o mo o da relaç ão pro blemátic a

entre filho s e pai, o do adultério e o da c ulpa

f aziam p art e d o p ro g rama d as ap re se nt aç õ e s

dramátic as.

Sem dúvida, tais temas co ntinuam em pauta

na agenda do ho mem co ntempo râneo . Assim, mais

i m p o rt a n t e d o q u e t ra n s p o r u m a o b ra ,

privile g iando se us aspe c to s fo rmais, b usc ando

pro duzi- la tal qual pro duziu seu auto r na épo ca

e m q ue f o i f e i t a, é d i sc ut i r sua at uali d ad e

te mátic a. De ssa fo rma, ao e le g e r a c ulpa e o

ad ult é rio c o mo o b j e t o s d e d isc ussão e m sua

pro dução , Wo o dy Allen se apro xima das narrativas

m í t i c a s e d o s d ra m a t u rg o s g re g o s s e m , n o

e ntanto , subve rtê - lo s o u apag á- lo s to talme nte ,

visto que não intenta representar uma trag édia

antig a, mas, a partir dela, disc utir as questõ es

que co nstituem, ainda, matéria de debate.

A d e s p e i t o d o i n t e re s s e d e Alle n p o r

arg ume nto s sé rio s, e le não c o nstró i um drama

t rág ic o no se nt id o e st rit o d o t e rmo ; p o ré m,

vinculando o cô mico ao trágico , co nsegue unir o s

do is e le me nto s, po ssib ilitando - lhe filmar uma

narrativa ao mesmo tempo séria e divertida, duas

f a c e t a s p re s e n t e s n o s g ê n e ro s d ra m á t i c o e

humano , se c o nside rarmo s a liç ão de De janira,

em As Traquínias, de Só fo c le s, que no s e nsina

ac e rc a da ine vitabilidade da ale g ria se g uir se u

c urso , to davia, “ o s que e xaminam b e m po de m

temer que o vencedo r um dia caia” ( vv. 296- 97) .

Co mo o s enredo s trágico s, o filme de Wo o dy Allen

narra uma histó ria de c o nto rno s b e m simple s:

um casal, Lenny Weinrib ( Wo o dy Allen) e Armanda

Slo an ( Helena Bo nham Carter) , ado ta uma criança.

Os do is de sc o nhe c e m a ide ntidade da mãe do

bebê, até o dia em que Lenny reso lve investigar

e desco bre tratar- se da pro stituta, que aspira a

ser atriz de filmes po rno gráfico s, Judy Cum ( Mira

So rvino ) , mais c o nhe c ida c o mo Linda Ash, que

também será a “Afro dite” da histó ria de Allen.

Alle n apre se nta na narrativa o lug ar da

alternância das co isas co mo po nto principal. Ao

fazer isso , ele atrai a atenção do espectado r para

o fato de que to da histó ria tem, no mínimo , duas

versõ es. Na sequência inicial do filme, o público

é transpo rtado para o passado , para um anfiteatro

antig o no qual um c o ro de ato re s masc arado s

encena uma tragédia grega; trata- se da adaptação

da histó ria de Édipo . Alle n pare c e , a e xe mplo

do s pró lo go s das tragédias gregas, prenunciar o

que estar po r vir ao fundir a histó ria de Édipo na

de Lenny Weinrib.

A s e q u ê n c i a s e g u i n t e s e d á e m u m

re staurante o nde do is c asais, um do s quais é

Lenny e Amanda, co nversam animadamente acerca

de filho s, ado ç õ e s, pais e parric ídio . Ao faze r

isso , o direto r traz o espectado r para o presente

da narrativa. Po r me io de sse artifíc io , lanç a o

espectado r em do is espaço s diferentes e em do is

t e mp o s d ist in t o s, sit uan d o - o d ian t e d e d o is

cenário s to talmente singulares: as ruínas de um

anfite atro , de um lado ; e o e spaç o o rg anizado

do restaurante no qual se enco ntram o s casais,

de o utro . No centro das duas narrativas, está a

histó ria de Lenny Weinrib, “ tão g reg a e eterna

quanto o pró prio destino ” , diz o co ro . Lenny não

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se co ntra ele, to rnando - se um parricida.

Ao ritmo e ao to m sério e so mbrio do co ro ,

na primeira cena, se o põ e a co nversa do s casais

que se enco ntram no restaurante. Se na cena do

anfiteatro , o espaç o do thé atro n está vazio , de

mo d o que so me nte o s ato re s atue m se m que

se jam visto s pe lo s e spe c tado re s, po is não há

ne nhum e spe c tado r; no re staurante , o s c asais

po de m ve r e se re m visto s po r o utras pe sso as

presentes à c ena c o mo pro váveis espec tado res.

I g u a l m e n t e , m e re c e m d e s t a q u e s o u s o d e

másc aras pelo c o ro e a ausênc ia delas na c ena

do restaurante.

Al l e n s u s p e n d e o t o m a u s t e ro , m a i s

adequado à tragédia, para incluir o to m jo co so ,

p ró p ri o d e s e us f i lm e s , e m a i s p ró x i m o d a

co média. Po r co nsequência, o tempo e o espaço ,

a t rag é d ia e a c o mé d ia, o sé rio e o risíve l

c o n st i t ue m a n a rra t i va f í lm i c a d e Po de ro s a

Af ro dit e. As ruí n as d o an f i t e at ro o p o st as à c uidado sa arrumaç ão do restaurante no qual o s

c asais, c ivilizadame nte , c o me m e b e b e m, são

índ ic e s q ue le vam o e sp e c t ad o r a p e nsar na

d e s e s t ru t u ra ç ã o p e l a q u a l a s p e rs o n a g e n s

p assarão .

No p ró lo g o d o Édip o Re i, a vi s ã o d o s

suplicantes espalhado s pelo s degraus do palácio

se o põ e à no tável e bem segura figura de Édipo ,

q ue ac ab a d e sair ao ve st íb ulo . No c aso d a

tragédia so fo cliana, Édipo tro ca de papel co m o s

suplicantes no final da peça, ao passar de rei a

súplic e c eg o no s bo sques de Co lo no . Édipo , ao

dirigir- se ao s cidadão s que go verna, o faz co mo

o rei que se preo cupa co m o bem- estar do s seus

g o v e rn a d o s , s e n t i n d o p i e d a d e p o r s e u s

so frimento s, e dispo sto a pro teg ê- lo s. A iro nia

da cena so fo cliana jo ga co m o desco nhecimento

de Édipo em relação à pró pria vida e ao que lhe

ac o ntec erá depo is.

Em Po de ro sa Af ro dit e, Alle n sub stitui a

presença real de Édipo , co mo símbo lo de po der,

pela do fo go , que simbo liza ao mesmo tempo o

p o d e r e nc antató rio e a d e struiç ão . O uso d a

imag em do fo g o , então , sug ere que a narrativa

repre se ntará c e rto po de r de vastado r. Po de r que

à ruína co mo , po r exemplo , Aquiles e Édipo , no

p assad o , e Le nny We inrib , no p re se nte . Mas,

co ntradito riamente, desejo que to rna po ssível o

ho mem so nhar e co ntemplar mudanças de vida,

co mo a de Linda Ash. O co ro alude à mo rte de

Aquiles, ao s info rtúnio s de Édipo e à má so rte de

Medeia, que teve de gerar o s filho s para depo is

mat á- lo s, c o mo t o d o s e le s se nd o vít imas d o

“ d e se j o p ro i b i d o ” q ue p o d e d e sg ra ç a r t o d o

indivíduo que busc a “ entender o s c aminho s do

c o raç ão ”.

Ao c o m b i n a r o s e le m e n t o s c ô m i c o s e

trág ic o s na narrativa, Allen se afasta do g rupo

de direto res que buscam encenar a tragédia co mo

se e nc e nava no sé c ulo V; c o nt ud o g anha ao

c o n s t ru i r u m a t ra g i c o m é d i a q u e j o g a , b e m

humo rad ame nte , c o m o que há d e b o m e d e

t e rríve l n o h o me m, ap re se n t an d o o c o n f lit o

humano junto à dific uldade de lidar c o m se u

desejo e de tratar o s sinto mas deco rrentes dele.

Me t a f o ri c a m e n t e , o f o g o p o d e ro s o é

substituído pelo po der de Afro dite, deusa grega

do amo r. No Banque te ( 180d- e) , Pausânias, um

do s simp o siastas que e lo g ia o de us do amo r,

re fe re - se à dupla nature za da de usa: Afro dite

u râ n i a , f i lh a d e Ura n o s e m a p a rt i c i p a ç ã o

feminina, e Afro dite pandêmia, filha de Zeus e

de Dio ne. A primeira, po r nascer apenas do pai,

é celestial, inatingível e extrao rdinária, ao passo

que a segunda, po r ser pro duto do masculino e

do feminino , é acessível a to do s e o rdinária na

fo rma de o ferec er amo r.

Po r me io das pe rso nag e ns Laio , que na

e n c e n a ç ã o j á e s t á m o rt o , m a s n a rra o q ue

ac o ntec eu, e Jo c asta, que c o nhec e seu terrível

de stino , Alle n abo rda o pro ble ma das re laç õ e s

amo ro sas que envo lvem parricídio e incesto . Nessa

cena, o direto r reúne o to m patético da tragédia,

quando o pró prio Laio revela que fo i mo rto pelo

filho , e Jo casta mencio na o incesto co m Édipo ,

co m o to m ridículo da co média dado pela visão

q ue t e mo s d e Éd ip o , c e g o e d e se n g o n ç ad o ,

co rrendo co mo se fo sse uma criança. Seguem- se

a isso uma suspe nsão da narrativa ac e rc a do s

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co njecturas a respeito do s filho s que abando nam

o s pais e do vazio que é o casamento de Lenny

Weinrib.

Ao apre se ntar a histó ria de Le nny, Alle n

o rganiza em um só eixo duas histó rias, a de Édipo

e a do pró prio Lenny. Daí po r diante, a no ção de

tempo , - presente e passado - , se desc o nstró i,

bem co mo a co ncepção de espaço . A desco nstrução

de tempo e de espaç o – bo rrando as fro nteiras

d o c lássic o e d o c o n t e mp o rân e o - , t amb é m

aco ntece na última pro dução de Allen: Me ia No ite

e m Pa ris ( 2 0 1 1 ) . Po r m e i o d a t é c n i c a d e supe rpo siç ão de narrativas, o dire to r c o nse g ue

um resultado interessante do po nto de vista da

fluência do relato sem que nenhum do s níveis, o

tempo ral e o espacial, seja co mpro metido .

Em Po de ro sa Afro dite, Allen no s parece mais

radical que em Me ia No ite e m Paris, ao imbricar o

passado no pre se nte . Co m isso , e le o b té m um

re sultado primo ro so e , e ste tic ame nte , c o nse rva

o que é impo rtante no drama antig o , se m que

seja necessário repro duzi- lo . Dessa fo rma, Allen

s u b v e rt e o s a s p e c t o s f o rm a i s d a o b ra d e

referência, para atingir seu o bjetivo : discutir as

relaçõ es co ntempo râneas, a partir de uma alusão

à antig uidade. Em ve z de Te b as e de Co rinto ,

cidades gregas o nde se passa a histó ria de Édipo ,

suas re fe rê nc ias são c idade s c o mo Cinc innati,

Bo ise e Idaho . No mes que so am para Lenny,

alter-ego do direto r Allen, co mo ridículas e estranhas.

Allen não o pta po r tratar de grandes temas – o

que pare c e e sc o nde r- se po r trás das trag é dias

g re g as - , mas o p t a p o r h ist ó rias simp le s d o

co tidiano .

As angústias de Allen, que desempenha o

pape l do pai que sai e m busc a da mãe do seu

filho ado tivo , equiparam- se às de Édipo , que tem

de enco ntrar o assassino de Laio . O co ro , espécie

de narrado r o nisc iente que seg ue o s passo s do

pro tag o nista, c o mo se fo sse sua c o nsc iê nc ia,

participa durante to da a narrativa das açõ es de

Lenny. Allen abre mão do elemento lírico co ral e

o a d o rn a d e t i ra d a s h u m o rí s t i c a s b e m

interessantes. Entre uma tirada e o utra, o c o ro

anunc ia ve rd ad e s que c ausam p e rp le xid ad e a

Lenny.

No filme, ainda, o co ro po de se apresentar

disfarçado , vestindo as indumentárias de ho mem

mo d e rno , c o mo o s jo g ad o re s, o s amig o s e tc .

Quando Lenny co nversa co m seu amigo co nfidente,

Bud, a re spe ito do c asame nto e do filho Max,

Bud lança em Lenny a dúvida, ao pro fetizar que

to do casamento passa po r alto s e baixo s. E, ao

mencio nar a presumível mo rte do verdadeiro pai

de Max, e a po ssíve l e xistê nc ia da mãe , uma

epifania cai so b Lenny. Escutamo s, nesse instante,

um barulho semelhante ao do tro vão . Em seguida,

a narrativa vo lta ao anfiteatro o nde se enco ntra

o co ro , que adverte Lenny – que se enco ntra no

e spaç o e no te mpo da aç ão passada - , a não

pro sseguir a investigação .

Lenny, à maneira da têmpera hero ic a do s

heró is so fo cliano s que não se desviam do caminho

esco lhido , mo stra- se o bcecado pela ideia fixa de

enco ntrar, a to do custo , a mãe do seu filho . Para

o c o ro , a dec isão de Lenny é fruto do destino :

“ Ó, maldito destino . Certas ideias, é melho r não

tê - las”. “ De ixa as c o isas c o mo e stão ” , ale rta- o

mais uma vez o co ro . E, po r fim, arremata: “ Po r

favo r, Lenny, não seja idio ta”.

As admo estaçõ es e alertas do co ro não são

sufic ie nte s para dissuadir Le nny do intuito de

enco ntrar a mãe do seu filho . Para tanto , vio la

as re g ras, q uan d o o uve d a re sp o n sáve l p e la

do cumentação das crianças, que vão para ado ção ,

que não é po ssível info rmar ao s pais ado tivo s o

paradeiro do s pais bio ló gico s.

Apesar de ser capaz de transgredir as leis,

não o faz se m c ulpa. No e sc ritó rio que Le nny

invade, a fim de enco ntrar do cumento s que deem

pistas de quem é a mãe de Max, Allen põ e Lenny

d iant e d o se u se nt ime nt o d e c ulp a p e lo at o

co metido . “ É co ntra a lei” , diz- lhe o co ro . A quem

Lenny retruca: “ Há leis maio res”. Nessa passagem,

lembramo - no s de Antígo na e do desafio que ela

faz às leis escritas de Creo nte que a pro íbem de

enterrar o irmão .

Em diálo go rápido e divertido entre Lenny

e o co ro , Allen apo rta questõ es meta- dramáticas

úteis. O tema da co nversação diz respeito tanto

ao co ntexto cênico em que a narrativa do presente

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be m de limitado , no filme de Alle n, e le é mais

desco ntraído , distanciando - se de sua função na

t rag é d ia. Assim c o mo na t rag é d ia g re g a, e le

permanece to do o tempo em cena, intervindo e

c o m e n t a n d o , m u i t a s v e z e s , a s a ç õ e s d a s

perso nag ens, em Po de ro sa Afro dite, ele também

to ma parte na aç ão “ he ro ic a” da pe rso nag e m,

mas a ele cabe, so mente, o papel de co mentar a

ação , co mo diz Lenny, bem humo rado , referindo

-se à c o ndiç ão de c o me ntarista do c o ro c o mo

função principal no co ntexto da narrativa.

Ou t ra re f e rê n c i a m e t a - d ra m á t i c a q u e

merece destaque é a cena em que Lenny não dá

impo rtânc ia à pro fec ia de Cassandra, c heg ando

até mesmo a desc o nhec ê- la c o mo pro fetisa. Ao

se r inst ad o p o r Cassand ra a q ue p are c o m a

inve st ig aç ão e a q ue não p e rmit a a Amand a

c o nve nc ê - lo a c o mprar a c asa vizinha, Le nny

c o ntraria as adve rtê nc ias de Cassandra. Assim

c o mo n o mit o g re g o , n a n arrat iva d e Alle n ,

Cassan d ra se ap re se n t a c o mo a p ro f e t isa d e

pre visõ e s inúte is, visto que suas palavras não

causam efeito em quem as escuta. .

A pro fecia de Cassandra traz um subenredo

p ara a narrativa: o ad ulté rio d e Amand a. Ao

intro duzir o tema do adultério , Allen mais uma

vez dialo ga co m o passado clássico , mo rmente, o

m i t o g re g o . Se m f a z e r m e n ç ã o d i re t a a o

Ag a m ê m no n, d e Ésq uilo , e m c uj a t rag é d ia o adulté rio é apre se ntado , o e spe c tado r sabe da

alusão que se e stab e le c e e ntre Clite mne stra e

Amanda. Alle n, c o ntudo , não e stá inte re ssado

em transfo rmar Amanda em Clitemnestra. Lo g o ,

n ã o c o n s t ró i u m a p e rs o n a g e m v i n g a t i v a e

a traição , não o crime.

A p art ir d isso , p o d e mo s af irmar q ue a

re c riaç ão do trág ic o de Wo o dy Alle n f o i b e m

sucedida, uma vez que ele co nstró i um elemento

d e a u t h e n t ic it y q ue p e rm i t e c o m un i c a r a o s

pó stero s verdades que ultrapassam o tempo e o

espaço . Assim, em um jo go dialético e dialó gico ,

fusio nando linguagens e co stumes diverso s, sem

temer a subversão , nem a experimentação , Allen

c o n s e g u e h a rm o n i z a r o c l á s s i c o e o

c o nte mpo râne o , diminuindo a distânc ia e ntre

amb o s.

Recebido em junho de 2011,

apro vado em junho de 2011.

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS E REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS E REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS E REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS E REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS E CINEMA

CINEMA CINEMA CINEMA

CINEMATTTTTOGRÁFIOGRÁFIOGRÁFIOGRÁFIOGRÁFICASCASCASCASCAS

Re fe rê nc ias primárias Re fe rê nc ias primárias Re fe rê nc ias primárias Re fe rê nc ias primárias Re fe rê nc ias primárias

ALLEN, W. ( 1995) Po de ro sa Afro dite (Mighty Aphro dite) . New Yo rk.

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COOK, A. ( 1982) Oe dipus Re x: mirro r fo r greek drama. Ilino is: Wavelam Press, Inc.

ROSELLI, D.K. ( 2011) The the ate r o f the pe o ple: spectato rs and so c ie ty in anc ie nt Athe ns. Austin: Unive rsity o f Texas Press.

Referências

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