Ana Isabel Pinto 3URIHVVRUD$X[LOLDU)3&(83
(VWDREUDGR3URIHVVRU%DLUUmRSUHWHQGHUHÀHWLURSHUFXUVRSUR¿VVLRQDOH FLHQWt¿FRGR3VLFyORJR3URIHVVRUEHPFRPRDGLYHUVLGDGHHFRPSOH[LGD-de do seu pensamento que, enquanto presença imaterial da sua sabedoria, constitui o património imaginário que nos legou.
E iria começar pelo título dessa obra “8P WHyULFR IRUoDGR j SUiWLFD"
2XXPSUiWLFRIRUoDGRj7HRULD"”. Esta é uma questão de fundo que
co-locou ao longo de todo o seu percurso e que se traduz, primeiramente, no seu questionamento acerca da identidade da Psicologia em geral e dos psicólogos na área do desenvolvimento e da educação em particular. As suas convicções estão bem patentes num texto seu de 1992 no qual se re-fere à psicologia atual como responsável pela co-construção de uma (e SDVVRDFLWDU³nova teoria social do conhecimento e de um pragmatismo
FLHQWt¿FR TXH FRQGX]D j VROXomR GRV JUDYHV SUREOHPDV TXH VH S}HP j humanidade´SS1.
Estas eram as inquietações que, enquanto Professor, sempre nos colocou, logo desde as primeiras aulas. Começando com citações como a de Kurt Lewin “1mRKiQDGDPDLVSUiWLFRTXHXPDERDWHRULD”, lançava-nos desa-¿RVTXHOHYDUDPDUHÀH[}HVHSLVWHPROyJLFDVHSUDJPiWLFDVGHYiULDRUGHP (DRORQJRGDVKGHDXODDVLGHLDVÀXtDPQXPDRUGHPOyJLFDDOWHUQDQGR entre paradigmas que ainda não dominávamos e dados empíricos de in-YHVWLJDomRTXHUHÀHWLQGRWDLVTXDGURVFRQFHSWXDLVFRQVWLWXtDPDRPHVPR tempo evidência para práticas efetivas que desenvolvia com a sua equipa de Lisboa, ao serviço de problemas desenvolvimentais, sociais e humanos de comunidades em risco.
Recordo aquilo que, no início de anos 1980, nos foi ensinando a partir de uma pesquisa interdisciplinar sobre Crianças em Risco, o Estudo Epi-GHPLROyJLFRGD'H¿FLrQFLD0HQWDOGH$UUXGDGRV9LQKRVTXHFRRUGHQD
%DLUUmR-$SHUVSHWLYDHFROyJLFDHPSVLFRORJLDGDHGXFDomRCadernos de Consulta Psicológica, 8, 57-68
MAIS
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LEITURA
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nos anos 1970, e que constitui um ponto de viragem na compreensão do desenvolvimento e da educação da criança, nomeadamente de crianças com GH¿FLrQFLDPHQWDOHPULVFRRXHPFRQGLo}HVGHLQDGDSWDomR(VWH3URMHWR veio questionar formas tradicionais de abordagem então vigentes, as quais se caracterizavam por uma quase total ausência de enquadramento teórico, por uma perspetiva eminentemente diagnóstica e reabilitativa centrada na criança, e não inclusiva. De facto, com os resultados do referido Estudo, Joaquim Bairrão veio a questionar a abordagem médica, assistencial e se-gregativa de tais modelos de atendimento, sendo de realçar as suas preocu-pações com o desenvolvimento em idades precoces.
¬ DOWXUD ¿FiYDPRV SHUSOH[RV FRQIXVRV H DR PHVPR WHPSR IDVFLQDGRV FRPDOJXQVSRXFRVLQVLJKWVTXHQRVDSUHVViYDPRVDUHJLVWDUHDGLVFXWLU entre nós com entusiasmo, na medida em que estas ideias nos suscitavam uma nova visão acerca dos processos implicados no desenvolvimento hu-mano e do nosso papel enquanto agentes de mudança nesses processos.
Mais tarde compreendemos que, lançando-nos em debates centrais em psicologia, nos levava a desconstruir argumentos e a posicionar-nos numa perspetiva de teorias desenvolvimental-sistémicas, perante a premência de relacionar os diferentes níveis de organização envolvidos na experiência hu-mana. Percebíamos, então, a necessidade de adotar modelos que consideras-sem os processos interativos a diferentes níveis, bem como as características dos contextos e da cultura em que estes se inserem.
Assim, começando por nos aconselhar, de forma viva e veemente, a leitura GRWH[WRGH$OWPDQH5RJR൵³$VTXDWURYLV}HVGRPXQGR”, conduzia-nos numa viagem através de “paradigmas”, “modelos”, ou “hipóteses acerca do mundo”. O que o Professor Bairrão nos ia transmitindo era que, para além dos factos relativamente empíricos da ciência, os cientistas possuem crenças ou pressupostos que não são sujeitos a testagem empírica, o que os leva a discordar acerca dos fenómenos que observam e acerca das leis e teorias en-volvidas na sua explicação. Finalmente, e ao longo de debates mais ou me-nos acesos, levava-me-nos a concluir, com alguma inquietação, devo confessar, não ser possível obter uma compreensão completa do desenvolvimento hu-mano através de uma única teoria ou metodologia, nem através da simples FDWDORJDomRGHIDFWRVHPStULFRV3DUDGDUVLJQL¿FDGRjWHRULDDRPpWRGRH DRVUHVXOWDGRVGDLQYHVWLJDomRVHULDSRLVQHFHVViULRLQWHJUiORVQXPD¿OR-VR¿DQRFRQWH[WRGDTXDODSHVTXLVDVHULDGHVHQYROYLGDHRVVHXVUHVXOWDGRV interpretados. Tornava-se, pois, fundamental a compreensão das diferentes VXSRVLo}HV¿ORVy¿FDVQDVTXDLVVHSRGHEDVHDURHVWXGRGRGHVHQYROYLPHQWR
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LEITURA
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humano, para que nos pudéssemos situar conceptualmente na nossa prática enquanto psicólogos e /ou investigadores.
E é de questões deste tipo, relacionadas com a identidade da Psicologia enquanto ciência que Joaquim Bairrão nos fala nesta obra em textos escri-tos entre 1967 e 2006, nos quais alerta para o perigo do reducionismo da Psicologia ao modelo de outras ciências e a modelos de causalidade linear, sublinhando a necessidade de desenvolver metodologias compósitas, que traduzam os múltiplos níveis da realidade em que o psicólogo atua. Nos seus escritos, debate, ainda, assuntos de grande atualidade, realçando a necessidade de equipas interdisciplinares que consigam criar um acerto de linguagens para chegar a uma compreensão adequada da realidade que observam.
Estas ideias são igualmente realçadas por ele enquanto Professor, nas suas aulas, mas também no trabalho que connosco desenvolve na FPCEUP, tanto a nível da investigação como a nível do serviço à comunidade. Des-taca-se “8PD([SHULrQFLD3VLFRSHGDJyJLFDQR(QVLQR3ULPiULR” que, na sequência destas preocupações, desenvolve connosco na faculdade entre 1983 e 1987, que se baseava num protocolo de cooperação com a Unida-de Unida-de Orientação Educativa do Porto um projeto experimental da então Direção Geral do Ensino Básico e que teve como objetivo a redução das altas taxas de insucesso escolar com base na “IRUoDQRUPDOL]DQWHGDHVFROD
regular”%DLUUmR2. Este foi o início dos projetos integrados a nível da comunidade, seguindo-se o Projeto Socio Educativo da Cruz de Pau, ¿QDQFLDGRSHOD)XQGDomR9DQ/HHUHPEDLUURVGHJUDGDGRVGR0XQLFtSLR de Matosinhos.
Na sequência destes projetos, a necessidade premente de encontrar mo-GHORV PDLV H¿FD]HV LQRYDGRUHV H LQFOXVLYRV GH DWXDU GHVGH LGDGHV PDLV precoces, levou Joaquim Bairrão a determinar-se na dinamização de es-tratégias para o lançamento e consolidação de um modelo de Intervenção 3UHFRFH,3DGHTXDGRjUHDOLGDGHGRQRVVRSDtVQXPDOLQKDFRHUHQWHFRP princípios e valores de que nunca prescindiu, nomeadamente a opção por uma abordagem sistémica e ecológica dos fenómenos educativos e desen-volvimentais e pela relevância social da investigação desenvolvida.
De facto, o carácter pioneiro de Joaquim Bairrão nesta área teve
conti-2 Como refere, aliás numa entrevista ao Jornal a Margem, o qual integra, a primeira secção deste livro, e cuja leitura aconselhamos vivamente, pela atualidade de que reveste.
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MAIS
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LEITURA
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nuidade em anos 1995, com a criação, na FPCEUP, do primeiro Mestrado em IP em Portugal e, simultaneamente, do Projeto de Intervenção Precoce 3,3GH0DWRVLQKRVRTXDOWHYHFRPRXPDGDVSULQFLSDLV¿QDOLGDGHVFRQV-tituir a parte empírica do referido Mestrado, possibilitando aos alunos um contacto efetivo com práticas recomendadas nesta área de intervenção, bem como o estudo de casos em cooperação com uma equipa pluridisciplinar LQWHJUDGDSRUSUR¿VVLRQDLVGRWHUUHQR
Transversalmente a estes projetos esteve sempre presente a preocupação ligada às questões da qualidade dos contextos e das interações na educação pré-escolar, o que veio a assumir um papel relevante na investigação da equipa desta faculdade por si coordenada. A interação como unidade de aná-lise surge enquanto conceito fundamental no estudo do desenvolvimento, na medida em que “descreve as trocas ativas e dinâmicas entre um indivíduo
HRVREMHWRVHHYHQWRVItVLFRVHVRFLDLVGRVHXPHLReXPFRQFHLWRIXQGD-mental em psicologia do desenvolvimento e é psicológica e culturalmente GH¿QLGR. (VWDXQLGDGHGHDQiOLVHSRGHVHUDERUGDGDDXPQtYHOLQWUtQVHFR RXLQWUDLQGLYLGXDORXDXPQtYHOH[WUtQVHFRLQWHULQGLYLGXDO(Bairrão,
comu-QLFDomR SHVVRDO (VWH FRQFHLWR IRL DSURIXQGDGR HP YiULRV HVWXGRV ¿QDQFLDGRV SHOD )XQGDomR SDUD D &LrQFLD H D 7HFQRORJLD QRPHDGDPHQWH VREUHRVIDWRUHVTXHLQÀXHQFLDPRHQYROYLPHQWRGDFULDQoDHPFRQWH[WRGH creche e pré-escolar. Estes são projetos que continuam a ser desenvolvidos pela equipa da faculdade em colaboração com colegas a nível internacional.
Tais projetos espelham uma dialética teoria-prática, situando a ação do psicólogo educacional no âmbito de equipas inter ou transdisciplinares, numa lógica de ações integradas de serviços para a infância e contando com a participação da comunidade.
E deixa-nos uma mensagem forte, que tem constituído o lema do trabalho que a nossa equipa, com ele desenvolveu ao longo de anos e que continua a desenvolver. Passo a citar: “…
RSVLFyORJRGHYHUiLQWHUURJDUVHFRPLQ-VLVWrQFLDDLGHOHVHRQmR¿]HUVREUHDFLrQFLDTXHSUDWLFDVREUHDUHJLmR ou nível do real que aborda e, ainda, sobre o que constrói.” De facto, no
elevado rigor que nos transmitia, houve sempre a preocupação de saber que áreas do conhecimento praticávamos e aplicávamos, os seus limites e os aspetos éticos das nossas práticas.
Assim, ancorado num quadro teórico consistente, capaz de impulsionar SUiWLFDVLQFOXVLYDVH¿FD]HV-RDTXLP%DLUUmRFRRUGHQRXLQWHUYHQo}HVPXOWL-dimensionais, incidindo sobre variáveis - chave que afetam o meio físico e VRFLDOGDFULDQoDGHVGHLGDGHVSUHFRFHVFRPRREMHWLYRGHPRGL¿FDUHVVDV
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um um o, bem o, bem isciplinar ciplinar e a preocupação e a preocupação rações na educação rações na educação te na investigação da e na investigação da ção como unidade de aná ção como unidade de aná--tudo do desenvolvimento, na tudo do desenvolvimento, nae dinâmicas entre um indivíd e dinâmicas entre um indivíd GRVHXPHLReXPFRQFHLWRI GRVHXPHLReXPFRQFHLWRI mento e é psicológica e cultu mento e é psicológica e cultu SRGHVHUDERUGDGDDXPQtY SRGHVHUDERUGDGDDXPQ OH[WUtQVHFRLQWHULQGLYLGXDO OH[WUtQVHFRLQWHULQGLYLGXDO WH FRQFHLWR IRL DSURIXQGDGR WH FRQFHLWR IRL DSURIXQGDG mR SDUD D &LrQFLD H D 7HFQR mR SDUD D &LrQFLD H D 7HFQ QFLDPRHQYROYLPHQWRG QFLDPRHQYROYLPHQWRG o projetos que co o projetos que co aboração co aboração co ética ética
realidades e sempre com a preocupação de partir das necessidades e aspi-rações das pessoas, sobretudo daquelas em stress e desvantagem. Nesta constante procura de abordagens inovadoras e promotoras de mudança, sempre teve em conta os conhecimentos mais atuais e as orientações vei-FXODGDVSHODFRPXQLGDGHFLHQWt¿FDLQWHUQDFLRQDO
No seu contacto connosco, como mentor de Projetos de investigação e de intervenção, bem como no papel de Professor, sempre incutiu à equipa DLGHLD¿UPHGHULJRUFLHQWt¿FRDVVRFLDGDjFRQYLFomRGHTXHR+RPHP pode mudar a realidade e que as condições necessárias para tal mudança se radicam na partilha de saberes entre os membros da comunidade tanto civil FRPRFLHQWt¿FD1HVVHVHQWLGRVHPSUHWUDQVPLWLXVHUQHFHVViULRXOWUDSDV-sar formas de atuação social prevalecentes de modo a produzir mudança e a traçar trajetórias históricas de vida.
E foi por estes princípios que a sua atuação sempre se pautou, defenden-do que a razão, enquanto posição baseada em sólidas bases conceptuais e apoiada em evidências empíricas, pode ser mantida através da crítica sus-tentada, persistente e continuada que, por isso, não desvia, antes preserva, as ideias fundamentais de verdade, liberdade e justiça.
Distinguiu-se pela constante procura de ideias e de projetos inovadores, estimulantes e promotores de mudança em que, num processo de evolução sempre envolveu toda a equipa que o rodeava, estimulando e incentivando nos discípulos e colaboradores a procura de conhecimento e a organização GHTXDGURVFRQFHSWXDLVSDVVtYHLVGHHQTXDGUDUSUiWLFDVFRPVLJQL¿FDGRH H¿FiFLDVRFLDO'HVWDFRRLQWHUHVVHHFXULRVLGDGHTXHHPQyVIRLGHVSHU-WDQGRSDUDDGHULUGHIRUPDPRWLYDGDDWDLVSURMHWRVRVGHVD¿RVDSRLRH FRQ¿DQoDTXHVHPSUHPDQLIHVWRXDRORQJRGHVVHVSURFHVVRV3RUWXGRLVWR RVHQWLPHQWRGHEDVHTXH¿FDHPDOXQRVHFRODERUDGRUHVpRHQRUPHSUL-YLOpJLRSRUWHUEHQH¿FLDGRGRVHXVDEHUQDRULHQWDomRGHSHUFXUVRVDQtYHO SUR¿VVLRQDODFDGpPLFRHGHLQYHVWLJDomRHWUDQVYHUVDOPHQWHDWRGRVHVWHV aspetos, pela sua amizade.
MAIS
toda a e toda a e colaborador e colabora FRQFHSWXDLVSDVVtYH FRQFHSWXDLVSDVVtY VRFLDO'HVWDFRRLQWHUHVVRFLDO'HVWDFRRLQWHUHV RSDUDDGHULUGHIRUPDPRWLYSDUDDGHULUGHIRUPDPRWL RQ¿DQoDTXHVHPSUHPDQLIHVWRQ¿DQoDTXHVHPSUHPDQLIHVWR RVHQWLPHQWRGHEDVHTXH¿ RVHQWLPHQWRGHEDVHTXH YLOpJLRSRUWHUEHQH¿FLDG YLOpJLRSRUWHUEHQH¿FLD SUR¿VVLRQDODFDGpPLF SUR¿VVLRQDODFDGpPL aspetos, pela sua a aspetos, pela suaLEITURA
ii-igação e ação e iu à equipa iu à equipa TXHR+RPHP TXHR+RPHP ara tal mudança se ara tal mudança se omunidade tanto civil munidade tanto civil VHUQHFHVViULRXOWUDSDV VHUQHFHVViULRXOWUDSDV-modo a produzir mudança e modo a produzir mudança e ação sempre se pautou, defen ação sempre se pautou, defe eada em sólidas bases conce eada em sólidas bases conce pode ser mantida através da pode ser mantida através da que, por isso, não desvia, a da que, por isso, não desvia, erdade, liberdade e justiça. erdade, liberdade e justiça. stante procura de ideias e de stante procura de ideias e dede mudança em que, nu de mudança em que, nu pa que o rodeava, e pa que o rodeava, procura de procura de HHQT HHQT