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Papel da hepcidina no metabolismo do ferro

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Revista Brasileira de Nutrição Funcional - ano 16, nº66, 2016

Papel da hepcidina no metabolismo do ferro

Role of hepcidin in iron metabolism

Resumo

O ferro é um mineral vital para a homeostase celular. O conhecimento sobre sua fisiologia e metabolismo foi bastante incrementado nos últimos anos. A hepcidina tem se apresentado como o principal regulador da homeostase do ferro e um provável mediador da anemia, de doenças crônicas e inflamação. O propósito deste trabalho é reunir informações a respeito do metabolismo da hepcidina e sua avaliação como parâmetro bioquímico para avaliação laboratorial do metabolismo do ferro. Para isso, realizou-se um levantamento bibliográfico mediante consulta à base de dados PubMed (National Library of Medicine´s Medline Biomedical literature) utilizando como descritor de assunto “hepcidin” and “iron”, assim como “hepcidin” and “evaluation laboratory”. O papel relevante da hepcidina em situações de alteração do metabolismo do ferro revelou que existe um conjunto muito heterogêneo de patologias que têm um mecanismo patogênico comum: a desregulação da hepcidina. Apesar do seu interesse clínico, não tem sido fácil implementar o doseamento da hepcidina na rotina laboratorial, sobretudo porque as metodologias que permitem medir concentrações das formas de hepcidina fisiologicamente relevantes são muito problemáticas, e a sua disponibilidade para a comunidade médica que faz investigação clínica tem sido muito limitada. Não há dúvida que o doseamento da hepcidina no soro será usado no futuro como uma ferramenta importante no diagnóstico, classificação e seguimento de doentes com patologias relacionadas com o ferro.

Palavras-chave: hepcidina, avaliação laboratorial, ferro.

Abstract

Iron is a vital mineral for cell homeostasis. The knowledge of its physiology and metabolism has increased a lot in recent years. Hepcidin has been presented as the main regulator of iron homeostasis and a probable mediator of anemia, chronic disease and inflammation. The purpose of this study is to gather information about the metabolism of hepcidin and its evaluation as a biochemical parameter for laboratory evaluation of iron metabolism. For this, a bibliographical survey was conducted by consulting the database PubMed (National Library of Biomedical Medicine’s Medline literature) using as the descriptor “hepcidin” and “iron” as well as “hepcidin” and “evaluation laboratory”. The role of hepcidin in situations of alterations in the iron metabolism revealed that there is a very het-erogeneous group of diseases that have a common pathogenic mechanism: the hepcidin deregulation. Despite its clinical interest, it has not been easy to implement the hepcidin determination in the laboratory routine, especially because the methodologies for measuring concentrations of physiologically relevant hepcidin forms are very troublesome and their availability to the medical community that does clinical research has been very limited. There is no doubt that the determination of hepcidin in serum will be used in the future as an important tool in the diagnosis, classification and follow-up of patients with pathologies linked to iron.

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IntroduçãoO ferro é um mineral vital para a homeostase celular. A sua habilidade em aceitar e doar elétrons o torna imprescindível para diversas reações biológicas. É componente essencial para a formação da molécula heme, responsável pelo transporte de oxigênio, além de participar da formação de diversas proteínas1,2.

Um eficiente mecanismo de controle mantém o equilíbrio entre os processos de absorção do ferro, reciclagem, mobilização, utilização e estoque. Alterações no sincronismo desses processos podem causar tanto a deficiência como a sobrecarga de ferro, ambos com importantes repercussões clínicas para o paciente2.

O conhecimento sobre sua fisiologia e metabolismo foi bastante incrementado nos últimos anos. A descoberta da hepcidina constitui uma das grandes revoluções do conhecimento na área da homeostasia do ferro.

A hepcidina tem se apresentado como o principal regulador da homeostase do ferro e um provável mediador da anemia, de doenças crônicas e inflamação1-8. Este papel tem sido

amplamente comprovado em uma série de estudos recentes, existindo um enorme interesse em quantificar os níveis circulantes de hepcidina em amostras clínicas, avaliando sua utilização como um biomarcador da regulação do metabolismo do ferro3-12.

O propósito deste trabalho é reunir informações a respeito do metabolismo da hepcidina e sua avaliação como parâmetro bioquímico para avaliação laboratorial do metabolismo do ferro. Para isso, realizou-se um levantamento bibliográfico de artigos publicados no período de 2010 a 2015 mediante consulta à base de dados PubMed (National Library of Medicine´s

Medline Biomedical literature), utilizando

como descritor de assunto “hepcidin” and “evaluation”. Foram utilizados como filtros os idiomas inglês e português, e selecionaram-se as publicações científicas que se referiam a artigos de revisão que relacionavam a hepcidina como um biomarcador para a regulação do metabolismo do ferro, assim como os que traziam informações sobre avaliação laboratorial do metabolismo do ferro. Após a leitura destas publicações, buscaram-se referências citadas nas mesmas, que apresentavam informações relevantes, ainda que publicadas fora do período de busca.

Metabolismo do ferro

Para que o organismo utilize o ferro, é necessário que ele seja captado, interiorizado e entregue à célula sob a forma solúvel. Um grande número de fatores influencia a quantidade de ferro que é diariamente absorvida. Destacam-se, entre os mais importantes: o conteúdo de ferro da dieta; a biodisponibilidade do ferro, ou seja, a quantidade de ferro hemínico e não hemínico; a presença de fatores na dieta que influenciam a biodisponibilidade do ferro; a quantidade de ferro presente no organismo; a atividade eritropoiética; as secreções gástrica, biliares e pancreáticas; a motilidade intestinal; e a capacidade absortiva da mucosa do intestino delgado1.

Captação do ferro

A Figura 1 ilustra uma célula intestinal e a localização das proteínas envolvidas no processo de absorção. A transportadora de metal divalente-1 (DMT-1), para exercer sua função, necessita que o ferro tenha sido convertido de Fe3+ para Fe2+, o que é mediado pela redutase

citocromo b duodenal ou Dcytb1. A internalização

do ferro heme é aparentemente feita pela proteína transportadora do heme-1 (HCP1)3.

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Revista Brasileira de Nutrição Funcional - ano 16, nº66, 2016 Transporte para o plasma

O principal exportador do ferro da célula para o plasma é a ferroportina (FPN), que está aumentada na deficiência de ferro e hipóxia e também é seletiva para o ferro (na forma Fe2+)1.

A FPN, além de exportador do ferro celular, é também o receptor da hepcidina (HPN), importante regulador da aquisição do ferro3.

Como a Tf sérica tem grande afinidade pelo ferro na forma férrica, o Fe2+ externalizado pela

FPN deve ser oxidado para Fe3+. A hefaestina,

uma oxidase semelhante à ceruloplasmina sérica, é responsável por essa conversão. Mutações que

Figura 1. O enterócito e as proteínas envolvidas na absorção do ferro.

Transporte intracelular

No interior da célula, o ferro é liberado da protoporfirina pela heme oxigenasse (HO). Após liberado, fará parte do mesmo poolde ferro não heme, tendo dois possíveis destinos, dependendo da sua demanda: se a necessidade for baixa, ele permanecerá no enterócito sequestrado pela ferritina e será eliminado quando da descamação do epitélio intestinal; se houver necessidade de ferro pelo organismo, ele será transportado para fora do enterócito em direção ao plasma para ser transportado pela transferrina (Tf)3.

Dcytb: ferro redutase; DMT-1: transportador de metal divalente-1; HCP-1: proteína transportadora do heme-1; Nu: núcleo; HFE: proteína da hemocromatose; TfR: receptor da transferrina

Fonte: Grotto1 Nu Ferroportina Fe2+ Hefaestina Fe3+ Transferrina + Fe3+ HFE TfR Enterócito Hemeoxigenase Fe2+ Fe2+ Ferritina Heme HCP1 Fe3+ Dcytb Fe2+ DMT-1

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inativam a FPN ou a hefaestina levam ao prejuízo na absorção e acúmulo de ferro no enterócito e nos macrófagos3.

Transporte e captação do ferro pelas células

O ferro é transportado no plasma pela transferrina (Tf), uma glicoproteína de 80 KDa sintetizada e secretada pelo fígado, além da retina, testículos e cérebro. Em condições normais, a Tf plasmática tem a capacidade de transportar até 12 mg de ferro, mas essa capacidade raramente é utilizada e, em geral, 3 mg de ferro circulam ligados à Tf, ou seja, 30% da Tf está saturada com o ferro. Quando a capacidade de ligação da Tf está totalmente saturada, o ferro pode circular livremente pelo soro, na forma não ligada à Tf (NTBI), que acumula nos tecidos parenquimais, contribuindo para o dano celular os casos de sobrecarga de ferro.Quando complexado à Tf, a internalização do ferro é iniciada pela ligação desse complexo a um receptor específico (TfR) presente na superfície da maioria as células. A afinidade do TfR à Tf diférrica parece ser determinada pela proteína produzida pelo gene da hemocromatose, a HFE, também presente na membrana plasmática dos eritroblastos. O complexo Tf-TfR-HFE é internalizado por endocitose. Após a liberação do ferro da Tf, sua incorporação ao anel da protoporfirina irá formar o heme, que, em combinação com as cadeias de globina, formará a molécula de hemoglobina3.

Estoque do ferro

O ferro fica estocado nas células reticuloendo-teliais do fígado, baço e medula óssea nas formas de ferritina e hemossiderina. A ferritina contém e mantém os átomos de ferro que poderiam formar agregados de precipitados tóxicos. A hemosside-rina corresponde à forma degradada da ferritina, em que a concha proteica foi parcialmente

desin-tegrada, permitindo que o ferro forme agregados. Pode ser visualizada à microscopia óptica após a coloração com azul da Prússia ou reação de Perl, em que a hemossiderina cora com ferrocianeto de potássio na presença de ácido clorídrico1.

Hepcidina no metabolismo do ferro

A homeostase do ferro é regulada por dois mecanismos principais: um deles, intracelular, de acordo com a quantidade de ferro que a célula dispõe; e o outro, sistêmico, no qual a HPN tem papel crucial2,3,9.

Normalmente, o ferro é eliminado do organismo pelas secreções corpóreas, descamação das células intestinais e epidermais ou sangramento menstrual1,3. O organismo não possui um

mecanismo específico para eliminar o excesso de ferro absorvido ou acumulado após a reciclagem do ferro pelos macrófagos. Assim, o controle do equilíbrio do ferro requer uma comunicação entre os locais de absorção, utilização e estoque. Essa comunicação é feita pela HPN, um hormônio peptídeo circulante, derivado de hepatócito, composta por 25 aminoácidos, que tem um papel regulatório fundamental na homeostase do ferro, coordenando o uso e o estoque do ferro com a sua aquisição2,3,6,9,13. Trata-se de um

peptídeo antimicrobiano pertencente à família das defensinas. A atividade antimicrobiana é conferida pela propriedade da HPN em romper as membranas microbiais e na restrição da disponibilidade de ferro ao desenvolvimento microbiano3,6,9.

A FPN é o receptor da HPN, e a interação HPN-FPN controla os níveis de ferro nos enterócitos, hepatócitos e macrófagos2. Quando a hepcidina

se liga à FPN, as duas proteínas são internalizadas e degradadas dentro dos lisossomos6,9,13.

Desse modo, o ferro não é externalizado, levando ao aumento dos níveis de ferro no citosol, que será estocados como ferritina. Como consequência, ocorre o acúmulo de ferro

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nos hepatócitos e macrófagos. A redução da

passagem do ferro para o plasma resulta na baixa saturação da Tf, e menos ferro é liberado para o desenvolvimento do eritroblasto2,13 (Figura 2).

Figura 2. Ação da hepcidina no metabolismo do ferro.

A expressão da HPN pode ser regulada pelo estado do ferro (a sobrecarga de ferro aumenta sua expressão, enquanto a anemia e hipoxemia a reduzem)3, pelo estado inflamatório (em que a

IL-6 age diretamente nos hepatócitos estimulando a produção de HPN), pela presença de infecção e estresse oxidativo2,3,13.

Hepcidina nas anemias da doença crônica

Apesar de não haver relação com a ingestão dietética inadequada de ferro ou aumento da procura de ferro para os processos biológicos específicos, indivíduos que sofrem de infecção aguda e crônica, infestação parasitária, distúrbios

inflamatórios, doenças neoplásicas, trauma e doença crítica geralmente sofrem de alterações no metabolismo do ferro, referidas como anemia de inflamação (AI). A AI é uma anemia normocrômica, microcítica, que se pensa ser uma consequência da resposta de defesa do hospedeiro mediada por citocinas inflamatórias [interleucina-6 (IL-6), interleucina-1 (IL-1) e fator de necrose tumoral-α (TNF-α )] que evoluiu para privar as bactérias de ferro. A AI permanece como uma das síndromes mais comuns encontradas clinicamente13.

Um estudo relatou que as crianças com excesso de peso têm maior quantidade de hepcidina sérica circulante e mais pobre estado de ferro, apesar

A formação do complexo com a ferroportina leva à sua degradação. No enterócito, o ferro não é transportado para o exterior da célula, e a absorção é inibida (figura à esquerda). No macrófago, o ferro fica acumulado no seu interior, diminuindo o ferro disponível para a eritropoiese (figura à direita).

Fonte: Grotto1 Enterócito Ferroportina Internalização de ferroportina Degradação da ferroportina Nu DMT-1 Ferro da dieta Dcytb Excesso de

Ferro Anemia/hipóxia Infecção/Inflamação

Hepcidina + - IL-6 + Macrófago Ferro proveniente do catabolismo de eritrócitos senescentes Nu

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de semelhante ingestão de ferro na dieta, quando comparado com crianças de peso normal13.

Esses dados, juntamente com outros estudos, sugerem que a HPN é um importante modulador da anemia em pacientes obesos8. A obesidade pode

ser considerada como um estado inflamatório de baixo grau, estimulando a produção de marcadores inflamatórios como a PCR, que pode regular positivamente a síntese de HPN8.

Em outro estudo, a presença de obesidade aumentou os níveis de HPN e foi associada com diminuição da resposta à terapia com ferro oral na anemia por deficiência de ferro na infância5.

Na obesidade grave, uma elevação persistente de proteínas de fase aguda e citocinas (tais como o TNF-α, IL-6 e inibidor do ativador do plasminogênio) foi observada. Isso reflete um estado inflamatório sistêmico de baixo grau, que persiste cronicamente em indivíduos com obesidade grave, como resultado de adipocinas pró-inflamatórias, provinda dos adipócitos. O tecido adiposo é atualmente considerado um órgão endócrino, que produz também peptídeos biologicamente ativos, incluindo HPN6.

Qualquer tipo de exercício físico extenuante também irá causar algum tipo de inflamação, pois esta inflamação e os mecanismos de reparação subsequentes são a base de adaptação à atividade física. O tamanho da resposta inflamatória depende do tipo, intensidade e duração dessa atividade. Vários marcadores do metabolismo do ferro são afetados pela cascata inflamatória, uma vez que são parte da resposta de fase aguda4.

No que diz respeito ao metabolismo do ferro, foi mostrado que o treinamento intensivo pode levar a aumentos distintos nos níveis de HPN14,15.

Ainda relacionado com atividade física, outro estudo mostrou que a HPN no soro aumentou significativamente até 6 h após o exercício e não se correlacionou com níveis elevados de citocina inflamatória IL-6 circulantes ou níveis de ferro presentes no soro7.

A resistência à insulina é a principal caracterís-tica patológica de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), bem como da síndrome dos ovários policísticos

(SOP). A ligação entre valores laboratoriais de ferro elevado e resistência aos efeitos hipoglicêmicos da insulina está atualmente sob investigação. Evidências sugerem que as influências de ferro no metabolismo da glicose e um nível baixo de hepcidina podem contribuir para a resistência à insulina em DM2 e SOP16.

A relevância do eixo HPN-FPN na doença neoplásica é multidimensional. A superexpressão da hepcidina não só está associada a vários cânceres, mas também é responsável por anemia em pacientes com câncer. Malignidades hematológicas, tais como leucemia, linfomas de Hodgkin e não-Hodgkin, mieloma múltiplo, tumores de órgãos sólidos tais como câncer da mama, próstata, rim, cérebro, ovário e pulmões foram relatados para exibir a sobre-expressão de HPN17-20. O ferro é um cofator essencial para

a proliferação de células cancerosas. Assim, a restrição da absorção de ferro a partir da fonte alimentar e utilização de reservas de ferro internas por HPN pode ter um efeito anti-câncer6.

Perspectivas de avaliação laboratorial da hepcidina em diagnóstico de anemia ferropriva e anemia da doença crônica

A anemia relacionada aos níveis de ferro em humanos e modelos animais aponta para a importância da eritropoiese na regulação da HPN e a necessidade de entender suas bases moleculares21.

Além do mais, o desenvolvimento do diagnóstico e terapia das anemias baseados na HPN pode oferecer uma abordagem mais efetiva para prevenir a toxicidade associada à sobrecarga de ferro21.

Apesar do seu interesse clínico, não tem sido fácil implementar o doseamento da HPN na rotina laboratorial, sobretudo porque as metodologias que permitem medir concentrações das formas de HPN fisiologicamente relevantes são muito problemáticas, e a sua disponibilidade para a comunidade médica envolvida em investigação clínica tem sido muito limitada2,4,8-11,15.

Os primeiros estudos de doseamento de HPN em modelos humanos foram realizados com um

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ensaio de doseamento de HPN urinária baseado na sua extração da urina por um método de cromatografia de troca iônica, com subsequente detecção por um anticorpo específico22.

Posteriormente, foram introduzidas as técnicas de doseamento da HPN por espectroscopia de massa23, que têm uma alta reprodutibilidade

e podem dosear a HPN não só na urina como também no soro, mas dependem de equipamento muito dispendioso e que não se encontra facilmente disponível. Em termos de métodos imunoenzimáticos, foi descrito inicialmente um teste para detecção de pró-hepcidina, com um kit de ELISA comercialmente disponível.No entanto, esse teste não foi validado clinicamente, já que os seus resultados não se relacionavam com as concentrações esperadas de hepcidina-25 nem com outros parâmetros do metabolismo de ferro, motivo pelo qual o significado fisiológico da pró-hepcidina ainda permanece desconhecido24.

Embora os ensaios para a estimativa de HPN em soro e urina tenham sido desenvolvidos nos últimos anos, a sua disponibilidade e acessibilidade é limitada a apenas alguns centros. Além disso, é importante diferenciar outras isoformas de HPN da hepcidina-25, biologicamente ativa25.

Alguns autores sugerem que ensaios baseados em espectrometria de massa são superiores aos ensaios baseados em anticorpo (ELISA, quimiluminescência e ensaio dot blot), pelo fato de poderem discriminar entre diferentes isoformas. Diferentes estudos têm relatado variabilidade intraindividual substancial e variabilidade diurna da HPN sérica, o que também pode impedir o seu uso25.

Segundo Tussing-Humphreys et al.9, o

primeiro imunoensaio para HPN humana foi recentemente desenvolvido e validado, porém, neste momento, está disponível principalmente para fins de investigação. Com base nesse ensaio, os valores de referência para HPN no soro são 29-254 ng/ml em homens saudáveis e 17-286 ng/ml em mulheres saudáveis, ewnquanto mostrou-se

que as concentrações variam significativamente em pacientes com ID, ACD e obesidade.

Considerações finais

A descoberta da HPN revolucionou a área do metabolismo do ferro. Este peptídeo provou ser o hormônio, há muito tempo procurado, que funciona como regulador central da homeostasia do ferro. A compreensão dos mecanismos da regulação da sua expressão colocaram o fígado no centro das atenções como o principal sensor das alterações sistêmicas, e a compreensão do seu mecanismo de ação confirmou o papel das células exportadoras de ferro, tais como o epitélio intestinal e os macrófagos, como os principais efetores. Anda, inicia-se a compreensão de que a HPN é produzida por muitos outros tipos celulares, podendo, assim, constituir uma proteína importante na regulação autócrina e parácrina do metabolismo celular de ferro.

O papel relevante da HPN na hemocromatose e em outras situações de alteração do metabolismo do ferro revelou que existe um conjunto muito heterogêneo de patologias que têm um mecanismo patogênico comum, a desregulação da HPN. Não há dúvida que o doseamento da HPN no soro será usado no futuro como uma ferramenta importante no diagnóstico, classificação e seguimento de indivíduos com patologias relacionadas com o ferro. No entanto, aguarda-se ainda pelo tempo em que possamos ter um teste robusto, comercialmente disponível e a um preço acessível, que torne o doseamento da HPN um teste de rotina na prática clínica.

Finalmente, a HPN e os seus reguladores já são vistos hoje como potenciais alvos terapêuticos em patologias como a sobrecarga de ferro ou a anemia da doença crônica, embora para que isso possa ser uma realidade ainda haja necessidade de esclarecer muitos dos mecanismos moleculares da sua síntese, maturação, secreção e ação, permitindo uma compreensão plena da interação entre todos os seus reguladores.

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