João Ademar de Andrade Lima — [email protected]
Feito com base em recortes de textos variados – notas de aula, artigos científicos publicados em re-vistas e anais de congressos e na dissertação “Análise de políticas de ação à Propriedade Intelectual na Fundação Parque Tecnológico da Paraíba”, do Mestrado em Engenharia de Produção da UFPB – disponibilizados, pelo autor, no site www.joaoademar.com, acrescido de dados atualizados e de ou-tros referenciais doutrinários, sempre em consonância aos incisos III e VIII do artigo 46 da Lei nº 9610/98.Direito de Propriedade
Para a ciência jurídica, o direito de propriedade é aquele que garante a seu ti-tular, em toda sua plenitude, a faculdade de dispor dos seus bens livremente e a seu bel-prazer, internalizando-se no inconsciente coletivo (como o principal direito subje-tivo1 existente) e figurando como um pilar econômico de nossa sociedade capitalista. “Aliás, poder-se-ia mesmo dizer que, dentro do sistema de apropriação de ri-quezas em que vivemos, a propriedade representa a espinha dorsal do direito privado, pois o conflito de interesses entre os homens, que o ordenamento ju-rídico procura disciplinar, se manifesta, na quase generalidade dos casos, na disputa sobre bens.” (RODRIGUES, 1997, p.73).
Possui como elementos essenciais os chamados Jus Utendi, Jus Fruendi e Jus Abutendi, a saber:
• Jus Utendi é o direito de usar, ou seja, é o direito de retirar da propriedade tudo o que ela pode oferecer, sem alterar-lhe;
• Jus Fruendi aparece como o direito gozar da propriedade, explorando-a economicamente;
• Jus Abutendi, o mais importante dos três, significa o direito de dispor da propriedade como bem entender, dando a ela o destino que achar melhor2.
1 “O Direito se exterioriza sob a forma de Direito Objetivo e Subjetivo. O Direito Objetivo traça as normas de duta que todos devem observar, a fim de que haja ordem e segurança nas relações sociais [...]. Esse poder con-ferido pelo Direito para a realização de interesses humanos, é o que constitui o Direito Subjetivo. Tem um Direito Subjetivo, todo aquele que pode utilizar a garantia do Direito Objetivo para a realização de um interesse próprio. [...] Podemos, pois, definir o Direito Subjetivo como a faculdade de agir, de adotar um determinado comporta-mento, em vista de um interesse garantido pelo Direito Objetivo.” (NÓBREGA, 1972, p. 148-149).
2 “Não significa, porém, prerrogativa de abusar da coisa, destruindo-a gratuitamente, pois a própria Constituição Federal prescreve que o uso da propriedade deve ser condicionado ao bem-estar social.” (GONÇALVES, 2002, p.84).
Há ainda uma quarta prerrogativa (ou mesmo elemento, para alguns autores), qual seja o Rei Vindicatio, isto é, o direito de reaver a coisa, de reivindicá-la de quem injustamente a possua ou a detenha.
São essas faculdades conferidas ao “proprietário” que caracterizam o direito de propriedade, aparecendo, sempre, de forma concorrente, de modo que na falta de alguma delas não há como se falar em propriedade, mas no máximo, por exem-plo, em posse. Contudo, ainda que estejam presentes todos os elementos caracteri-zadores do direito de propriedade, esse comporta limites, disciplinados legalmente, inclusive na esfera constitucional.
“Há limitação ao direito de propriedade com o escopo de coibir abusos e im-pedir que seja exercido, acarretando prejuízo ao bem-estar social. Com isso se possibilita o desempenho da função econômico-social da propriedade, preconizada constitucionalmente, criando condições para que ela seja eco-nomicamente útil e produtiva, atendendo o desenvolvimento econômico e os reclamos de justiça social. O direito de propriedade deve, ao ser exercido, conjugar os interesses do proprietário, da sociedade e do Estado, afastando o individualismo e o uso abusivo do domínio.” (DINIZ, 2003, p. 785).
É em consonância a esse preceito que, por exemplo, o titular de uma patente pode perder sua propriedade por abuso ou desuso.
“‘Desuso’ consiste em não explorar o objeto da patente, ou seja, o detentor não importa nem produz localmente o produto [...]. Já a conceituação de ‘a-buso’ é mais subjetiva. Alegam alguns que, por exemplo, um preço suposta-mente exagerado poderia configurar exercício abusivo do direito de patente.” (TEIXEIRA, 1997, p.84).
Assim, a propriedade intelectual, como a própria terminologia sugere, é uma propriedade como qualquer outra – material ou imaterial – com as mesmas prerroga-tivas caracterizadoras para sua existência e as mesmas funções econômico-sociais.
Propriedade Intelectual
“O resultado de toda atividade criativa de ordem intelectual, seja tecnológica ou não, pode obter o reconhecimento da sociedade, mediante a proteção dos direitos de criação.” (SEBRAETIB, 1997, p.4).
“A propriedade intelectual, parte de um grupo de propriedade de bens intangí-veis, é assunto de especialização na área do direito, na da técnica e na da economia [...]. Trata-se de um importante assunto que deve estar presente no rol das atenções da organização e dos gerentes de projeto, por relevantes motivos.” (VALERIANO, 1998, p. 43-44)
O termo propriedade intelectual é usado para designar a área do direito que cuida da proteção às criações do homem nas áreas técnico-científica, literária e
ar-tística e também àquelas relacionadas à indústria, nas invenções, inovações, pro-cessos e design de um modo geral.
Em nosso país, é disciplinada principalmente pelas leis 9.279/96 (Marcas e Patentes), 9.456/97 (Cultivares), 9.609/98 (Software) e 9.610/98 (Direitos Autorais). Além disto, assim como a maioria dos países, o Brasil faz parte, inclusive como sig-natário, de tratados internacionais, como as Convenções de Berna, sobre Direitos Autorais, e de Paris, sobre Propriedade Industrial, e outros acordos como o TRIPs (Trade Related Intelectual Property Rights). É também preceito Constitucional, es-tando arrolado entre os “Direitos e Garantias Fundamentais”, com previsão nos inci-sos XXVII, XXVIII e XXIX, em consonância aos inciinci-sos XXII e XXIII, do artigo 5º da Constituição Federal, a saber:
“Art. 5º [...]
XXII – É garantido o direito de propriedade;
XXIII – A propriedade atenderá a sua função social;
XXVII – Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publica-ção ou reprodupublica-ção de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar;
XXVIII – São assegurados, nos termos da lei:
a) A proteção às participações individuais em obras coletivas e à re-produção da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desporti-vas;
b) O direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas;
XXIX – A lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações indus-triais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimen-to tecnológico e econômico do País; [...].”
A propriedade intelectual pode ser subdividida em duas grandes áreas, quais sejam: o Direito Autoral e o Direito Industrial. Estas, apesar de possuírem similarida-des bastante notórias, apresentam naturezas jurídicas distintas e, conseqüentemen-te, tratamentos diferenciados, tanto ao nível de proteção temporal como ao nível de direitos pessoais e patrimoniais.
Direito Autoral
A primeira categoria, também chamada de Propriedade Literária, Científica e Artística, cuida da proteção às criações de caráter mais artístico-científico que fun-cional, ou seja, abrange as obras de arte, como a pintura e a escultura, as obras musicais e lítero-musicais, as obras literárias, como os romances e a poesia, e aque-las acadêmico-cientificas, como as teses, as dissertações, os artigos, os livros técni-cos etc.. O direito autoral também abarca os programas de computador3. “É um ra-mo ainda em desenvolvimento, mas cuja importância é crescente.” (ASCENSÃO, 1997, p.16). Em suma, é o direito autoral que disciplina e acolhe toda e qualquer cri-ação do intelecto humano que possua qualidades diferentes daquelas eminentemen-te técnicas ou mecânico-funcionais.
Juridicamente, o direito autoral possui natureza dicotômica, contudo indisso-ciável4, abrangendo uma parte moral e outra patrimonial, ou seja:
“[...] representa uma relação jurídica de natureza pessoal-patrimonial, sem ca-ir em qualquer contradição lógica, porque traduz numa fórmula sintética aquilo que resulta da natureza especial da obra da inteligência e do regulamento de-terminado por esta natureza especial.” (CHAVES, 1987, p.6).
O direito autoral moral surge com a criação da obra e faz referência ao aspec-to pessoal desta, nascendo da relação entre criação e criador, com vinculação direta à pessoa do autor, que tem a obra como uma projeção de sua personalidade. “Não pode ser confundido com o direito de personalidade em geral, embora diga respeito à personalidade do autor.” (HAMMES, 2002, p.70). É um direito não transferível, não disponível, não renunciável, não penhorável e absoluto do autor; “assim, os direitos morais do autor, a exemplo dos direitos de personalidade, são considerados indis-poníveis, intransmissíveis e irrenunciáveis, devido ao seu caráter de ‘essencialida-de’.” (COSTA NETTO, 1998, p.73). O direito moral não tem validade temporal de-terminada, ou seja, não possui prazo de vigência.
3 O software, por características próprias e, inclusive, por definição legal, possui natureza jurídica de Direito Au-toral, no qual seu criador aparece como titular moral e, em regra, patrimonial.
Diz o artigo 7º, inciso XII, da Lei n.º 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais): “Art. 7º. São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, co-nhecido ou que se invente no futuro, tais como: XII - os programas de computador.”
Por conseqüência, não há como se falar em compra e venda de um software, mas tão só uma licença de uso do mesmo. Weikersheimer (2000, p.11) completa: “software não é mercadoria, a sua forma extrínseca não modifica a sua natureza jurídica, que é de Direito Autoral.”
Um software, por este ser uma Propriedade Intelectual, agrega os três elementos essenciais da propriedade já vistos – usar, gozar e dispor. Assim, só se pode imaginar uma “venda” de um software, quando transferida a sua propriedade, incluindo, na absoluta totalidade, os três elementos acima.
4 “[...] em verdade não há dois direitos distintos, compondo um todo, mas apenas um, pois um é impossível dis-sociar do outro.” (PELLEGRINI, 1998, p.5).
“Ora, o direito moral é fator determinante da proteção do aspecto patrimonial [grifo nosso], substrato mes-mo do Direito de Autor, apresentado e conceituado – comes-mo se verificou – comes-mo direito da própria personalidade e no que mais nobre ela se encerra.” (BITTAR, 1999, p.41).
Já o direito autoral patrimonial resulta da publicação ou divulgação da obra, ou seja, da comunicação da obra ao público, tanto pelo próprio autor como por ou-trem autorizado. Cuida dos interesses monetários da obra e, diferentemente do que ocorre com a primeira categoria, pode ser negociado, por transferência, cessão, licença etc..
“Os direitos patrimoniais do autor baseiam-se nos atributos – exclusivos – do criador intelectual, de utilizar, fruir e dispor da obra [grifo nosso], bem como o de autorizar sua utilização ou fruição por terceiros.” (COSTA NETTO, 1998, p.78).
Como regra geral, o direito patrimonial do autor perdura por toda a vida deste e por mais setenta anos, contados do primeiro dia do ano subseqüente ao do faleci-mento, sendo obedecida, para fins sucessórios, as regras comuns de nosso Código Civil. No caso do software essa duração é de cinqüenta anos contados do primeiro dia do ano subseqüente a data de criação do programa, não importando o ano do registro ou o início de sua comercialização.
O quadro 1 resume algumas diferenças entre os direitos moral e patrimonial do autor.
Direito Moral Direito Patrimonial
Nasce com a criação da obra; Resulta da comunicação ou divulgação da obra; Vincula-se a personalidade do autor; Diz respeito aos aspectos monetários da obra; É indisponível, intransmissível, irrenunciável e
absoluto;
Pode ser doado, vendido, licenciado etc.; Possui proteção indefinidamente; Possui tempo de vigência limitado; Possui natureza de direito pessoal. Possui natureza de direito real. Quadro 1 – Direito Moral e Direito Patrimonial do Autor. (LIMA, 2006, p.27).
Processo de Registro (de acordo com as leis nº 9.609/98 e 9.610/98)
A proteção garantida pelo direito autoral independe de registro, que funciona assim como uma mera declaração de direitos. Contudo, apesar da natureza faculta-tiva, o registro possui o objetivo de assegurar o direito com uma maior facilidade de conservação e defesa, já que funciona como meio de prova de verificação de propri-edade.
Optando pela feitura do registro, o autor deverá efetuá-lo no órgão público competente, entre os quais encontram-se a Biblioteca Nacional e a Escola de Belas Artes da UFRJ – requerentes que se encontrem fora do Rio de Janeiro, podem fazer o registro via Correios. Este é feito basicamente com o preenchimento de um formu-lário padrão, estabelecido pelos próprios órgãos, com a anexação de cópias dos do-cumentos pessoais do autor, como CIC e RG, e uma cópia ou exemplar da obra que se quer registrar.
Sua tramitação é bastante rápida e simples (vide fluxograma 1), verificado-se basicamente se no pedido consta toda a documentação necessária e exigida. Este processo é considerado concluído com a expedição da Certidão de Registro.
Fluxograma 1 – Tramitação de pedido de registro de Direito Autoral Abaixo, vê-se um exemplo de Certidão de Registro.
Apresentação do Pedido de Registro Exame Formal Exigências Cumpridas Não Sim Indeferido Deferido Expedição da Certidão de Registro
Em se tratando de software, diz a nossa legislação que este deverá ser feito no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), em sua sede, no Rio de Janei-ro, ou em uma de suas delegacias ou representações espalhadas pelos demais es-tados da federação.
A abrangência do registro é internacional, de forma que os programas estran-geiros não precisam ser registrados no Brasil, assim como os nossos não precisam ser registrados lá fora, desde que o país em questão também faça parte do acordo TRIPs.
Feito registro, o titular poderá optar pela divulgação ou pelo sigilo de seu con-teúdo. Em sendo sigiloso, os chamados Documentos de Programa serão colocados num envelope especial, ficando guardado em Arquivo de Segurança do INPI. Não se requerendo sigilo, estes Documentos serão apensados no corpo do processo admi-nistrativo, ficando, desta forma, passível de conhecimento de qualquer interessado.
Dentre as informações constantes do requerimento de registro de um softwa-re (dados do softwa-requesoftwa-rente, comprovante de pagamento etc..) citam-se: 1. Documento comprobatório de vínculo empregatício ou de prestação de serviço, onde a titulari-dade será do empregador ou contratante; ou 2. Documento de Cessão, no caso de programa feito por encomenda; ou 3. Autorização do(s) autor(es) do programa origi-nal, para os casos de obra derivada ou modificada.
Além destes e de outros itens obrigatórios para tramitação burocrática, o mais importante é a chamada Documentação Técnica, constituída de memoriais que ser-virão de base para comprovar a originalidade de um programa. O seu teor é de intei-ra responsabilidade do depositante, que poderá incluir todo ou apenas parte do Có-digo Fonte, contando que seja capaz de caracterizar a criação e identificar, sem pro-blemas, o software.
Protocolizado o pedido, este será examinado e deferido, ou não, em no má-ximo 180 (cento e oitenta) dias.
Não há no registro de software o chamado Exame de Mérito (presente nas patentes). Ou seja, não se verifica se o programa objeto do registro tem similaridade com outro anterior, ficando o depositante responsável pela veracidade e pela licitude das informações por ele fornecidas.
Transferência
O direito autoral patrimonial, que é um direito de propriedade, pode ser trans-ferido para terceiros a critério de seu titular. Esta garantia é dada pelo Jus Abutendi, ou direito de dispor, estipulada pela própria Lei de Direitos Autorais (LDA), que facul-ta a transferência tofacul-tal ou parcial, pessoalmente ou por meio de represenfacul-tantes, a-través de licença, concessão, cessão etc..
Além da transferência contratual inter vivos, feita pelo titular da obra, o direito autoral é transferido hereditariamente, obedecendo às regras comuns do direito su-cessório, disciplinadas na lei civil.
A transferência total é aquela que envolve todos os direitos inerentes a obra, enquanto a parcial diz respeito a aspectos limitados e específicos. A primeira
moda-lidade deverá sempre ser feita por estipulação contratual escrita e, em quaisquer de-las, haverá a presunção de onerosidade, o que não impede, por exemplo, a doação gratuita ou outra modalidade.
Obras artísticas como desenhos, pinturas, gravuras etc. são transferidas, na grande maioria das vezes, em caráter total e definitivo, o que parece ser uma exce-ção à regra da estipulaexce-ção contratual, já que esta é obrigatória nessa modalidade de transferência, mas quase nunca é realizada.
É importante lembrar que o direito moral é intransferível! O que se transfere é apenas o direito patrimonial.
Divulgação ou Comunicação ao Público
Preliminarmente, conceitua-se, dentro do campo do direito autoral, o que é comunicação ao público, publicação e divulgação. Comunicação ao público é o ato mediante o qual a obra é colocada ao alcance do público, por qualquer meio ou pro-cedimento; strictu sensu, publicação é o ato que torna pública uma obra literária, ci-entífica ou artística, ou pelo menos ao alcance do conhecimento de todos. Já a di-vulgação é a propagação, a vulgarização e a difusão desta obra. A LDA, traz no seu artigo 5°, alguns conceitos e dentre eles o de publicação, qual seja: “o oferecimento de obra literária, artística ou científica ao conhecimento do público, com o consenti-mento do autor, ou de qualquer outro titular do direito de autor, por qualquer forma ou processo”.
Sob o título IV, denominado “Da Utilização de Obras Intelectuais e dos Fono-gramas”, a LDA trata da utilização e da comunicação ou divulgação ao público. Pri-meiramente, no capítulo I, as obras literárias versando sobre a edição, já no capítulo II, bem mais vasto, as obras teatrais, composições musicais ou lítero-musicais, fono-gramas quando representadas ou executadas para o público. No terceiro capítulo, as artes plásticas foram lembradas pelo legislador. Nos capítulos seguintes são tra-tados os direitos autorais sobre as fotografias, fonogramas, obras audiovisuais, das bases de dados e, por último, das obras coletivas.
O contrato de edição trata de forma equilibrada a relação entre o autor e o e-ditor dos livros. A lei trata este tipo de contrato de forma especial, dando os direitos da obra, temporariamente, para o editor que, segundo o artigo 53, fica autorizado, em caráter de exclusividade, a publicá-la e a explorá-la pelo prazo e condições pac-tuadas com o autor. Edição é a impressão e a publicação de uma obra literária, cien-tífica ou artística. O editor tem a obrigação de mencionar em cada exemplar o título da obra com o seu respectivo autor, o ano da publicação e, no caso das traduções, o título original e o nome do tradutor. Além disso, o editor tem que colocar o seu nome ou marca.
A norma estabelece obrigações tanto para o autor que tiver contratado de fa-zer e entregar a obra quanto para o editor que deve publicar e divulgar, assegurando assim um verdadeiro equilíbrio entre o autor e o editor. O artigo 54 reza que pelo mesmo contrato pode o autor obrigar-se à feitura de obra literária, artística ou cientí-fica em cuja publicação e divulgação se empenha o editor.
Deve-se ressaltar que se considera editor a pessoa física ou jurídica que re-produz a obra depois de adquiri-la do autor, ou como prescreve o inciso X do artigo 5º: “A pessoa física ou jurídica à qual se atribui o direito exclusivo de reprodução da obra e o dever de divulgá-la, nos limites previstos no contrato de edição”.
Como se nota, por todo o estatuto legal, a relação entre autor e editor se re-gula acima de tudo por um contrato. Todavia, a lei tipifica algumas situações nos ca-sos que os contratos não se pronunciem a respeito. Um exemplo comum ocorre quando não houver condição de que a obra contratada seja terminada por motivos de impedimento ou de falecimento, o dispositivo traz várias opções como: as partes considerarem que o contrato esteja resolvido, podendo também ser editada se tiver ela feição autônoma com o pagamento proporcional da obra, porém se for o caso de ter que terminar a obra só é permitido ao editor mandar que outros terminem se os sucessores consentirem, tendo que ser mencionado na edição. Uma outra hipótese quando o contrato silenciar no que se refere ao número de edições e ao número de exemplares para cada edição, que será de 1 (uma) edição de 3.000 (três mil) exem-plares. Uma outra situação também prevista é o da retribuição, ou seja, o pagamento ao autor do seu direito patrimonial, sempre se tomanado como base os usos e cos-tumes.
Caso o editor receba do autor a obra incompleta, sem ela está concluída co-mo foi previamente acordado, pode reclamar em até no máxico-mo em 30 (trinta) dias da data do seu recebimento, caso contrário, não poderá mais fazê-lo. Também não poderá o editor elevar o preço da obra a ponto de embaraçar a sua venda.
Uma obrigação que surge do enlace contratual por parte do editor é de pres-tar contas ao autor da obra quando a retribuição deste estiver vinculada a sua ven-da. Nos casos em que o contrato não estipula o interstício, a LDA o prevê mensal.
Depois da anuência entre editor e autor, a obra tem que ser editada em 2 (dois) anos, a não ser que de forma diversa tenha sido previamente acordada. Um problema relevante, neste caso, acontecerá quando o prazo consignado no instru-mento contratual for menor que o legal. Indaga-se se o editor em mora deve respon-der pelos danos causados ao autor e o contrato ser rescindido.
Como o contrato de edição trata tipicamente da disponibilização pelo editor dos direitos patrimoniais do autor sobre a obra, diz a lei que este não pode usufruir sua obra durante o lapso vigente do acordo. Ademais, o direito para reclamar a reti-rada de circulação de obra contratada por outrem é do editor. É importante ressaltar que o editor exerce o direito sobre as edições contratadas. Este direito termina quando as edições forem esgotadas, ou seja, quando restar em estoque o número de exemplares inferior a décima parte do número total de exemplares da edição.
O legislador ainda desenhou na LDA que o exemplares das obras não pode-rão ser vendidas em saldo, sem previamente, o editor notificar o autor para este, dentro de um mês, ter a preferência na aquisição dos exemplares pelo custo de pon-ta de estoque.
A seguir, segue um exemplo de contrato de edição, em que pode ser vistas algumas das cláusulas-padrão utilizadas nesse tipo de ato jurídico.
Há casos em que o contrato entre o editor e autor é por várias edições e não somente para uma edição. Se nestes casos o editor não publicar a nova edição den-tro de um prazo determinado pelo autor, perderá os direitos sobre aquela condição, além de ser passível de responder por danos.
Com as sucessivas reedições das obras, surge outro aspecto legal relevante, qual seja, por parte do autor, uma vontade de modificá-la em alguns aspectos, sejam de ordem meramente técnica ou por diversos outros motivos. Quando isto acontece, a norma prevê um meio termo para ambas as partes. O autor pode fazer as suas al-terações, mas a LDA não permite que essas modificações prejudiquem os interes-ses, ofendam sua reputação ou aumentem sua responsabilidade.
Há de se ressaltar, também, que algumas obras, por sua natureza, são de tamanha importância para a sociedade que não podem simplesmente deixar de ser publicadas, ou pelo menos publicadas com as devidas atualizações. Em virtude dis-so, a lei procurando defender os interesses da sociedade em detrimento do direito do autor, que, eventualmente, pode se opõe a atualizar a sua obra, faculta ao editor entregar a obra a outrem para que este faça a devida atualização. Todavia, deve o fato ser mencionado na edição para que chegue ao conhecimento de todos que se interessarem por aquela obra.
Outro conceito legal é o que trata da comunicação ao público. A palavra co-municação deriva do latim communicare, que poderá significar tornar comum, parti-lhar, trocar opiniões, dentre outros significados. Comunicar implica em partilha, em integração, em troca de mensagens, em emissão ou recebimento de informações novas ou até mesmo já conhecidas. Entretanto, os dispositivos da LDA se preocupa-ram em dividir e definir o que vem a ser essa comunicação. Segundo a lei, “comuni-cação ao público é o ato mediante o qual a obra é colocada ao alcance do público, por qualquer meio ou procedimento e que não consista na distribuição de exempla-res”. Exordialmente, capitula as obras que são protegidas sob aquele teto, a saber: as obras teatrais, fonogramas e composições musicais e lítero-musicais. Veda o dis-positivo a comunicação ao público desta obras sem prévia e expressa autorização do autor ou titular, para depois mencionar os tipos desta comunicação: a representa-ção pública e a execurepresenta-ção pública.
A lei se preocupou em definir o que é representação pública arrolando as su-as espécies, a saber: obrsu-as teatrais, do gênero drama, tragédia, comédia, dentre ou-tras. Este rol apresentado no § 1° do artigo 68, da Lei nº 9.610/98 não é taxativo, vis-to que o legislador ao final do dispositivo adiciona as demais “obras assemelhadas”, que também são consideradas para o caso da representação pública, que, segundo a norma, é a utilização destas obras em locais de freqüência coletiva, por radiodifu-são ou exibição cinematográfica. Já na execução pública, diz o dispositivo legal, é a utilização de obras musicais, lítero-musicais e fonogramas na radiodifusão, em exibi-ção cinematográfica ou em locais de freqüência coletiva. Para a definiexibi-ção legal tanto da representação como da execução pública, a norma menciona local de freqüência pública, que dentre vários locais relacionados adiciona qualquer um que seja
possí-vel à execução, representação ou transmissão de obras literárias, artísticas ou científicas.
Acerca da obra teatral, o autor pode autorizar a sua adaptação e tradução, fi-xando um prazo para isto. Não pode, supervenientemente, os tradutores e adapta-dores, oporem-se e impedir que o autor entregue a sua obra a outrem para traduzir ou adaptar, salvo se for uma cópia fiel do seu trabalho. No que concerne às obras teatrais que tiverem sido feitas em co-autoria, depois de autorizada a representação, é defeso a qualquer dos co-autores impedir o seu prosseguimento, principalmente se for em temporada. E por último, uma questão de ordem processual, destacando a lei que é impenhorável a quota renda do espetáculo que se destinarem ao autor e aos artistas.
Obras Audiovisuais
Obras audiovisuais são aquelas que podem ser televisionadas ou filmadas por qualquer que seja o meio ou processo. Tem como principal indivíduo o produtor que, de acordo com a LDA, “é a pessoa física ou jurídica que toma a iniciativa e tem responsabilidade econômica da primeira fixação do fonograma ou da obra audiovi-sual, qualquer que seja a natureza do suporte utilizado”.
Uma consideração que a lei faz se dá quanto à disposição da obra audiovisu-al pelo produtor, economicamente faudiovisu-alando, pois a autorização do autor presume que aquele disponha da obra para a sua exploração de ordem financeira, porém tem que ser mencionada, no instrumento da avenca, em cláusula expressa, a exclusividade da autorização, cessando esta decorridos 10 (dez) anos da celebração do contrato.
Como acontece com os demais organizadores, dos mais variados tipos de o-bras, os produtores têm algumas obrigações com relação à obra, como de mencio-nar, além do seu nome ou marca, o seu título, nomes ou pseudônimos do diretor e co-autores, artistas intérpretes, ano da publicação, e, nos casos em que for a obra adaptada, o seu título original e o autor.
A lei estabelece alguns requisitos para o contrato de produção audiovisual, ou seja, neste tipo de ajuste deve constar necessariamente o prazo para a conclusão da obra e a remuneração para os autores, artistas intérpretes e executantes, co-mo também o lugar, tempo e forma do pagamento e a responsabilidade do produtor quando houver co-produção em favor dos mesmos.
Dentre as tantas obrigações, já mencionadas, do produtor destaca-se a da prestação de contas quando se tratar da remuneração aos co-autores. Caso a fre-qüência não tenha sido estipulada em contrato, determina a LDA que deve ser a ca-da seis meses. Toca-davia, o mesmo diploma exime o produtor ca-da obrigação de reco-lher os direitos autorais das obras musicais, líteros-musicais e fonogramas quando executados nos locais de freqüência coletiva, arrolados no § 3° do artigo 68, e diz ser de responsabilidade dos proprietários dos locais ali mencionados.
Utilização da Obra Fotográfica e do Fonograma
Inicialmente, importante se faz declarar que a proteção das obras fotográficas independe de cumprimento de formalidades, ou seja, a existência de tal tutela não se vincula a satisfação de requisitos formais de natureza administrativa, como, por exemplo, registro do fotógrafo como profissional ou mesmo registro da fotografia.
Segundo o artigo 79 da LDA, o direito de exploração comercial da obra foto-gráfica é atribuída ao seu criador. A própria lei exige a observância de restrições quanto à exposição, reprodução e venda de retratos, e expressa ainda que se a obra fotografada for de artes plásticas protegidas, não haverá prejuízo dos direitos do ar-tista plástico.
Os seus parágrafos tratam do uso da fotografia e a imposição legal de se apor de forma legível o nome do seu autor, e também estatui proibição de reprodução de obra fotográfica que não esteja em consonância de forma absoluta com o original, afora a hipótese de haver prévia autorização do fotógrafo.
O dispositivo do artigo 80 edita que, no ato de publicar o fonograma, fixação sonora em suporte material, o autor deve mencionar em cada exemplar o título da obra incluída e seu autor, o nome ou pseudônimo do interprete, o ano de publicação e o seu nome ou marca que o identifique.
Bases de Dados
Acompanhando o progresso e a tendência mundial com relação à importância das informações que teve o seu cume com o advento da Internet, o diploma legal que disciplina os direitos autorais também procurou tratar das bases de dados, ou como são mais conhecidas, os bancos de dados. Nesse sentido protege-se o titular do direito patrimonial das referidas bases de dados conferindo exclusivamente a ele a autorização ou proibição de sua reprodução, tradução, adaptação, reordenação, qualquer que seja a modificação, distribuição ou disponibilização ao público, por qualquer meio ou processo.
É notório que esta preocupação do legislador tem um efeito crescente nos di-as atuais, pelos fatos aqui já mencionados como também por inúmeros outros. Não obstante, há de se lembrar que o direito é fruto direto das necessidades da socieda-de e que os profissionais da área da informática ansiavam por tal solução quando muitos deles após longos dias, semanas, meses e até anos vêem as suas obras se-rem copiadas sem qualquer respeito ao seu trabalho.
A Base de Dados (ou Banco de Dados) é uma coleção de informações que se relacionam entre si; informações essas que podem ser armazenadas, atualizadas, manipuladas, classificadas e recuperadas; “é um arquivo. Nada mais do que isto: um arquivo que, pela sua natureza tecnológica, comporta uma variedade de dados e in-formações, numa quantidade imensa, onde elementos gráficos e sonoros podem ser criados e inseridos” (CABRAL, 1998, p.192).
Pode ser composta de duas formas: por dados brutos ou por dados enrique-cidos.
Os dados brutos são aqueles que têm uma formação ditada pela codificação imposta pela linguagem, tais como datas, localizações geográficas e cálculos. Por estarem em estado bruto, essas informações não comportam quaisquer contribui-ções intelectuais (ou criativas) por parte de quem as transmite.
Os dados enriquecidos, por sua vez, são as informações as quais foram a-gregadas, em sua formação, qualidades resultantes de apreciações e/ou interpreta-ções, estando presente personalidade de quem os transmite, entendido como autor. Há também as chamadas Bases de Dados Multimídias, que incorporam diver-sos elementos, como textos, imagens, sons, provenientes dos mais diverdiver-sos supor-tes, sincronizados e integrados através de um software, englobando, conforme a si-tuação, dados técnicos, gráficos, planos, esquemas, croquis, modelos geométricos etc., ou compreendendo caracteres alfanuméricos, como textos e números habitual-mente tratados nas aplicações informáticas, dados de áudio e vídeo como imagens animadas ou fixas e sons; Em outras palavras, é uma coletânea de dados e outros elementos independentes, armazenados eletronicamente em formato digital, dispos-tos de maneira sistemática e individualmente acessíveis por meios eletrônicos.
A Base de Dados como objeto de Direito Autoral
A proteção das bases de dados está prevista na LDA em seu artigo 7º, inciso XIII e § 2º e no artigo 87, proporcionando às bases de dados, assim como às compi-lações de obras diversas, a qualidade de criações intelectuais pela seleção e a dis-posição das matérias, protegendo, portanto, a classificação e os elementos preexistentes.
“Art. 7º. São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer superte, tangível ou intangível, co-nhecido ou que se invente no futuro, tais como:
XIII — as coletâneas ou compilações, antologias, enciclopédias, dicionários, bases de dados e outras obras, que, por sua seleção, organização ou dispo-sição de seu conteúdo, constituam uma criação intelectual.
§ 2º A proteção concedida no inciso XIII não abarca os dados ou materiais em si mesmos e se entende sem prejuízo de quaisquer direitos autorais que sub-sistam a respeito dos dados ou materiais contidos na obra.
Art. 87. O titular do direito patrimonial sobre uma base de dados terá o direito exclusivo, a respeito da forma da expressão da estrutura da referida base, de autorizar ou proibir:
I — sua reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo;
II — sua tradução, adaptação, reordenação ou qualquer outra modificação; III — a distribuição do original ou cópias da base de dados ou sua comunica-ção ao público;
IV — a reprodução, distribuição ou comunicação ao público dos resultados das operações mencionadas no inciso II desse artigo.”
A proteção autoral de uma obra possui como critério de exigibilidade a originalidade. Com relação à base de dado, ela agirá na estruturação empregada aos dados para os informatizar e ao arranjo efetuado de forma a criar um diferencial do ponto de vista documental. Em uma base de dados, como em uma compilação, é dada uma forma particular às informações, como um propósito funcional, visando permitir seu tratamento.
“O critério de originalidade das bases de dados é particularmente difícil de resgatar sob o ponto de vista tradicional, em razão de que, tratando-se de matéria de propriedade intelectual, o critério de originalidade é apreciado so-bre dois aspectos, ou seja, a forma de expressão e a composição da obra.” (ZIBETTI, 2002, p.50).
Uma base de dados é considerada uma obra original quando ela constitui uma criação intelectual própria do seu autor, quer seja pela seleção, quer pela dis-posição de seu conteúdo. Não se protege a informação em si, nem mesmo a forma como está expressa, mas a seleção dos dados.
Dados e base de dados não são a mesma coisa. O que diferencia efetivamen-te os primeiros da segunda é que esta ultima resulta de elementos de criação inefetivamen-te- inte-lectual que dão aos primeiros uma forma organizada e distintiva; elementos esses entendidos como originalidade.
“No reconhecimento da proteção autoral a uma base de dados, portanto, há que se verificar a simultaneidade de duas ocorrências: a) trata-se de uma o-bra completa, orgânica, e não de dados seqüencialmente apresentados aos usuários como mera informação; b) apresentar suficientes aspectos distintivos que possam dar-lhe identidade própria, destacando-a de seus pares.” (A-BRÃO, 2003, p.32).
O valor material da Base de Dados e a proposta de um Direito Autoral
Sui Generis
É bastante claro o valor monetário de uma informação; “A maioria dos geren-tes e executivos considera um banco de dados como uma das mais importangeren-tes e valiosas partes de um sistema de informação computadorizado” (STAIR & REY-NOLDS, 2001, p.15).
“Há relatos de ladrões que chegam a ganhar até 10 mil dólares para roubar um computador portátil de um executivo de uma corporação. O motivo, nes-ses casos, obviamente não é computador em si, já que a maioria dos portá-teis não vale nem a metade daquela quantia. Os dados armazenados no dis-co rígido do dis-computador é que são valiosos. Afinal de dis-contas, o dis-conhecimento
da estratégia adotada por uma empresa para obter vantagem sobre seus concorrentes pode valer milhões.” (NORTON, 1996, p.19).
Diante do alto valor que há hoje em dia acerca da informação e também dos pesados investimentos na consecução de algumas bases de dados, discute-se, in-clusive em âmbito internacional, diretivas para proteção das bases de dados que são insuscetíveis de serem protegidas pelo direito de autor na mesma medida onde elas não são originais, nem pela seleção, nem pela disposição das matérias.
A constituição de uma base de dados exige investimentos dos pontos de vista humanos, técnicos e financeiros e ainda necessita de proteção dos direitos, não mais e simplesmente dos “criadores intelectuais” das bases de dados, mas do que se pode denominar de “fabricantes de bases de dados”, conferindo-lhes o status de criador.
“Assim, claramente, observa-se que as novidades em tecnologias permitem extrair uma quantidade substancial de dados para constituir uma nova base de dados que terá um conteúdo idêntico, mas que, sendo diferente pela sele-ção ou pela composisele-ção, não constituirá uma contrafasele-ção no sentido do direi-to de audirei-tor, quandirei-to às bases de dados originais. É, portandirei-to, necessário pro-teger por vez os investimentos dos fabricantes das bases de dados não origi-nais e de impedir a extração dos dados das bases origiorigi-nais. O que resulta em um direito sui generis aplicável a todas as bases de dados, quer sejam elas originais ou não.” (ZIBETTI, 2002, p.57).
“The extent of database protection comprises both copyright and the new sui generis right. The new right was developed against a backdrop of existing copyright regimes and examination of the nature and extent of copyright pro-tection can inform the debate over the proper ambit of any new rights. It may also provide appropriate analogies for reform.” (COLSTON, 2001, p.4).
Diante disso, e como quase tudo relacionado ao direito privado, surge a inda-gação do quantum de investimento seria necessário para aquisição desse “direito”. Mas uma vez, recorrer-se-ia ao arbítrio dos legisladores e, em esferas recursais, dos juristas para tal definição (mas isso é objeto de outras discussões, não pertinentes nessa apostila!).
Obras Coletivas
Existem ocasiões em que as obras são feitas por um grupo de pessoas, ou até mesmo um conjunto de vários grupos de pessoas. Para estes casos a LDA tam-bém deu uma atenção especial, denominando de obra coletiva “a criada por iniciati-va, organização e responsabilidade de uma pessoa física ou jurídica que a publica sob seu nome ou marca e que é constituída pela participação de diferentes autores, cujas contribuições se fundem numa criação autônoma”. O artigo 88 traz em seu ca-put a figura do organizador, considerando, obviamente, que para toda obra coletiva há uma pessoa natural ou jurídica que faz todo o trabalho de produção. Já
estabele-cendo para o organizador algumas obrigações como a de indicar em todos os exem-plares o título da obra, o ano da sua publicação, seu nome ou marca e a relação de todos os co-autores em ordem alfabética se outra não tiver sido convencionada, con-tudo pode o participante não querer que o seu nome conste de tal lista, se assim o desejar deve entregar ao organizador uma notificação escrita com o requerimento, ou previamente ou simultaneamente com a sua parte da obra. É importante lembrar que o § 1° do artigo 17 dispõe que não haverá prejuízos na sua remuneração.
Direitos Conexos
Existem alguns profissionais que não são autores diretos das obras, mas que têm uma participação importante nelas, é o caso dos artistas intérpretes, executan-tes, produtores fonográficos e as empresas de radiodifusão.
Para a legislação, os direitos destas pessoas não prejudicam de qualquer forma os direitos dos autores. Ela estipula que o prazo de proteção a estes tipos de direitos se prolonga por até setenta anos. Todavia, foi importante definir e separar os direitos de cada um destes profissionais, individualizando alguns dispositivos e dedi-cando alguns artigos a cada um deles.
Aos artistas intérpretes e executantes a lei assegura, exclusivamente, o direito de autorizar ou proibir sobre as suas representações ou execuções em sua fixação, reprodução, execução pública, locação, radiodifusão, colocá-las a disposição do pú-blico em geral, como também a execução de qualquer modo. Para a hipótese de ha-ver vários artistas reunidos estes direitos podem ser exercidos pelo diretor do grupo de artistas. Determina ainda o dispositivo legal que os direitos dos artistas intérpre-tes e executanintérpre-tes se estendem à reprodução das vozes, bem como das suas ima-gens, quando estas estiverem associadas às suas apresentações, o que é muito comum nos nossos dias. Também cabe a esta categoria de artistas “os direitos mo-rais de integridade e paternidade de suas interpretações, inclusive depois da cessão dos direitos patrimoniais, sem prejuízo da redução, compactação, edição ou dubla-gem da obra de que tenham participado, sob a responsabilidade do produtor, que não poderá desfigurar a interpretação do artista”.
Quanto à relação artistas intérpretes e executantes, as empresas de radiodi-fusão dependem estritamente da autorização daqueles que delimitam a quantidade de emissões, podendo inclusive ser disponibilizados em arquivos públicos. E no mesmo norteio acrescenta a norma que alguns direitos no tocante a reutilização subseqüente de sua fixação são exercidos concorrentemente com os seus autores e com a devida remuneração.
No que tange aos direitos que devam exercer as empresas de radiodifusão, têm elas livre acesso para autorizar ou vedar que suas emissões sejam reproduzi-das, retransmitireproduzi-das, fixareproduzi-das, ou comunicadas através da televisão em locais de fre-qüência coletiva sem prejudicar os direitos dos seus autores originais.
Para os produtores fonográficos iguala a lei num sentido comum àquelas prer-rogativas conferidas ao editor, podendo os produtores, com ou sem ônus, permitir ou proibir qualquer tipo de reprodução, distribuição, locação, comunicação ao público
pela execução ou radiodifusão ou qualquer que seja o modo de utilização que por-ventura possam ser criadas, prevendo assim o legislador a total segurança para os produtores fonográficos. Encarrega ainda estes profissionais de receberem os pro-ventos pecuniários oriundos das representações ou execuções públicas previstos no artigo 68.
Violação
Um artista, um escritor, um compositor e qualquer outra pessoa dotada de al-gum talento para criação têm o sonho, por mais singelo que seja, de verem suas o-bras admiradas por outras pessoas, e a divulgação das mesmas sempre será algo positivo. Da mesma forma, não há nada mais frustrante para um criador, do que ver sua obra copiada ou má utilizada.
Há violação dos direitos autorais sempre que ocorre reprodução fraudulenta ou dano aos direitos morais, constituintes, inclusive, de ilícitos criminais.
Sobre estes dispõe o Código Penal:
“Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: Pena — detenção, de três meses a um ano, ou multa.
§1º. Se a violação consistir na reprodução, por qualquer meio, de obra intelec-tual, no todo ou em parte, para fins de comércio, sem autorização expressa do autor ou de quem o represente, ou consistir na reprodução de fonograma ou videofonograma, sem autorização do produtor ou de quem o represente: Pena — reclusão, de um a quatro anos, e multa.
§2º. Na mesma pena do parágrafo anterior incorre quem vende, expõe a ven-da, introduz no país, adquire, oculta ou tem em depósito, para o fim de venven-da, original ou cópia de obra intelectual, fonograma ou videofonograma, produzi-dos com violação de direito autoral.
§3º. Se a violação consistir no oferecimento ao público, mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer outro sistema que permita ao usuário reali-zar a seleção da obra ou produção para recebê-la em um tempo e lugar pre-viamente determinados por quem formula a demanda, com intuito de lucro, di-reto ou indidi-reto, sem autorização expressa, conforme o caso, do autor, do ar-tista intérprete ou executante, do produtor de fonograma, ou de quem os re-presente:
Pena — reclusão, de dois a quatro anos, e multa.
§4º. O disposto nos §§1º, 2º e 3º não se aplica quando se tratar de exceção ou limitação ao direito de autor ou os que lhe são conexos, em conformidade com o previsto na Lei n.º 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, nem a cópia de obra intelectual ou fonograma, em um só exemplar, para uso privado do co-pista, sem intuito de lucro direto ou indireto.
De qualquer forma e por fim, vale esclarecer que toda obra se beneficia da proteção legal, seja ela “longa” ou “breve”, “boa” ou “má”, “útil” ou “inútil” e, por con-seqüência, todo e qualquer uso indevido e vicioso deve ser punido, quer seja a obra violada um fruto de um gênio ou um simples produto do trabalho ou da paciência.
Limitações aos Direitos do Autor
A LDA regula as limitações dos direitos autorais, traçando mediante discrimi-nação os vários casos em que não ocorre o ato de violação. Nos termos prescritos no artigo 46 da citada lei, não constitui ofensa aos direitos autorais as taxativamente elencadas hipóteses descritas em seus incisos.
Por exemplo, os eventos ocorridos numa cidade podem ser noticiados por vá-rios jornais, sem que nenhum deles possa reclamar exclusividade pelo fato de ter si-do o primeiro a divulgá-los, contusi-do utilizansi-do-se de notícia já veiculada por outro jornal, ao reproduzi-la, terá que especificar as fontes de onde ela foi retirada. Em ou-tras palavras, em se tratando de notícia reproduzida já anteriormente veiculada por outro órgão de imprensa, será preciso que o transcritor de forma leal especifique as fontes de onde ela foi retirada.
Também não ofende aos direitos autorais a hipótese de se copiar manual-mente, xerocopiar ou datilografar qualquer obra, em um único exemplar, desde que não se destine à venda com intuito de lucro, sendo reservada para estudos e recre-ação.
Somam-se, a esses, inúmeros outros exemplos.
Sanções às Violações dos Direitos Autorais
As sanções às violações dos direitos autorais inseridas no título VII da Lei nº 9.610/98 são aplicadas sem prejuízo das sanções penais cabíveis.
Na defesa da propriedade literária, científica ou artística, a regra básica é a que sujeita entra outras sanções civis a de reparar com indenização cabível quem reproduzir, divulgar ou de qualquer forma utilizar obras sem permissão do seu titular. A lei presume que a publicação fraudulenta de obra alheia causa prejuízo ao seu titi-lar, prejuízo que o contrafator deve indenizar.
Para guarnecer o direito com um meio eficaz de defesa, o legislador defere ao titular ação de busca e apreensão dos exemplares produzidos de forma fraudulenta. Com efeito, dispõe o artigo 102 da LDA que o titular da obra que se reproduzir frau-dulentamente poderá requerer apreensão dos exemplares reproduzidos, subsistido-lhes o direito à indenização cabível, ainda que nenhum exemplar se encontre.
Mas a sanção não se limita apenas a busca e apreensão dos exemplares pu-blicados fraudulenta ou clandestinamente. De fato, conforme dispõe o artigo 103 e seu parágrafo único, a sanção é mais violenta consistindo também: I. na perda, em benefício do titular, dos exemplares da reprodução fraudulenta que se apreenderem; II. no pagamento ao titular do valor correspondente aos exemplares que tiver sido vendido. Contudo, desconhecendo-se a quantidade de exemplares que compõe a
edição fraudulenta, pagará o transgressor o valor de 3.000 (três mil) exemplares, como também os apreendidos.
Prescreve o artigo 104 que quem vender, expuser a venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem será solidariamente responsável com o contrafator. Não obs-tante, se a reprodução tiver sido feita no estrangeiro responderão também como contrafatores o importador e o distribuidor. Assim, o legislador estende responsabili-dade igual à do editor àquele que negociar com obra fraudulentamente produzida.
A transmissão e a retransmissão por qualquer meio ou processo, e a comuni-cação ao público de obras artísticas, literárias ou científicas, de interpretações e de fonogramas, realizadas mediante violação aos direitos dos seus titulares, deverão ser imediatamente suspensas ou interrompidas pela autoridade judicial competente, sem prejuízo da multa diária pelo descumprimento e das demais indenizações cabí-veis, independentemente das sanções penais aplicácabí-veis, conforme dita o artigo 105. Comprovando-se que o infrator é reincidente na violação aos direitos dos titulares de direitos de autor e conexos, o valor da multa poderá ser aumentado até o dobro.
Dispõe o artigo 106 que a sentença condenatória não poderá determinar a destruição de todos os exemplares ilícitos, como também como as matrizes, moldes, negativos e demais elementos utilizados para praticar o ilícito civil, assim como a perda de máquinas, equipamentos e insumos destinados a tal fim ou, servindo eles unicamente para o fim ilícito, sua destruição. Desta forma, se as máquinas, equipa-mentos e insumos servirem apenas como meio secundário de praticar o ato fraudu-lento, decretar-se-á apenas a sua perda; no entanto, se estas forem utilizadas uni-camente para o fim ilícito, sua destruição.
Quem altera, suprime, modifica ou inutiliza de qualquer maneira, dispositivos técnicos introduzidos nos exemplares das obras e produções protegidas para evitar ou restringir sua cópia ou também, de qualquer maneira, altera, suprime ou inutiliza os sinais codificados destinados a restringir a comunicação ao público de obras, produções ou emissões protegidas ou a evitar a sua cópia, ou apenas suprimi ou al-tera, sem autorização, qualquer informação sobre a gestão de direitos, igualmente, distribui, importa para distribuição, emite, comunica ou põe à disposição do público, sem autorização, obras, interpretações ou execuções, exemplares de interpretações fixadas em fonogramas e emissões, responderá por perdas e danos, nunca inferior ao valor que resultaria da aplicação do disposto no artigo 103 e seu parágrafo único, independentemente da perda dos equipamentos.
Quem, na utilização, por qualquer modalidade, de obra intelectual, deixar de indicar ou de anunciar, como tal, o nome, pseudônimo ou sinal convencional do au-tor e do intérprete, além de responder por danos morais, está obrigado a divulgar-lhes a identidade. No entanto, haverá algumas peculiaridades em se tratando de: I. empresa de radiodifusão, no mesmo horário em que tiver ocorrido a infração, por três dias consecutivos; II. publicação gráfica ou fonográfica, mediante inclusão de er-rata nos exemplares ainda não distribuídos, sem prejuízo de comunicação, com
des-taque, por três vezes consecutivas em jornal de grande circulação, dos domicílios do autor, do intérprete e do editor ou produtor; fazendo-se dessa mesma forma quando tratar intermédio da imprensa, tratando-se de outra maneira de utilização.
Em essência, dispõe o preceito legal do artigo 109 que a execução pública realizar-se-á em consonância com as regras normativas dos artigos 68, 97, 98 e 99 dessa mesma lei, pois do contrário, infligir-se-á aos responsáveis multa de 20 (vinte) vezes o valor que deveria ser originalmente pago.
O artigo 110 versa sobre a responsabilidade solidária que possuem os propri-etários, diretores, gerentes, empresários e arrendatários com os organizadores dos espetáculos, em razão da violação dos direitos autorais nos espetáculos e audições públicas realizados nos locais ou estabelecimentos a que se refere o artigo 68.
Dados Históricos
5Antigamente os autores intelectuais só podiam se contentar com a glória ad-vinda de seu talento, que nem sempre era reconhecida. Na Roma antiga, berço da ciência jurídica, não se concebia sequer a paternidade da obra intelectual. O traba-lho artístico era, para o próprio direito, equivalente a qualquer trabatraba-lho manual. De qualquer forma, o direito autoral, em sua concepção de direito subjetivo, sempre e-xistiu.
Todavia, o seu reconhecimento no aspecto patrimonial ou de propriedade, surgiu apenas com a criação da imprensa e da gravura, no século XV. A partir daí, as obras nos campos das artes, literatura e ciências passaram a ser exploradas co-mercial e industrialmente.
Os primeiros direitos autorais objetivos formalizaram-se com alguns privilé-gios, concedidos geralmente por reis e requeridos pelos autores, que juntavam ao pedido um exemplar da obra que seria apreciada por conselheiros reais.
Se a obra fosse “aprovada”, era fixado um preço para venda e dado ao autor um direito de exploração comercial da mesma, por um prazo determinado.
A primeira vez que se tem notícia da utilização do termo copyright data de 1701, na Stationers Company da Inglaterra, país que, em 1710, editou o que para muitos estudiosos seria o primeiro texto legal sobre o direito autoral, o chamado “Es-tatuto da Rainha Ana”.
Consta que os primeiros autores a receberem os referidos privilégios foram o escritor Reginald Wolf, para o conjunto de sua obra, e o professor Jean Palsgrave, por uma gramática da língua francesa.
Este sistema de privilégios não reconhecia direitos mas sim, e quando muito, concedia licenças, abrangendo basicamente as obras passíveis de reprodução. Com a Revolução Francesa, em 1789, houve uma verdadeira “reconstrução do mundo” com alicerce no primado das garantias e dos direitos dos cidadãos. Pela primeira
5 Extraído de Lima (2006, p.22-23).
vez na história, o autor intelectual teve seu verdadeiro direito autoral reconhecido e garantido.
Em 13 de janeiro de 1791 foi criada a Carta dos Direitos de Representação e em 18 de julho de 1793 a regulamentação dos direitos de reprodução, cuja epígrafe a definia como: “Lei relativa aos Direitos de Propriedade dos escritos de todo o gêne-ro, compositores de música, pintores e desenhistas.”
Com a Convenção de Berna, em 1886, ata resultante de uma conferência di-plomática sobre direitos autorais, ainda em vigência e cuja última revisão se deu em 1971, com ementas em 1979, o direito autoral adquire sua forma definida e inicia seu desenvolvimento nas legislações de vários países.
No Brasil, a primeira proteção autoral objetiva data do início do século XIX, quando, em 11 de agosto de 1827, por força de Lei Imperial, foram criadas as duas primeiras Faculdades de Direito brasileiras, uma em São Paulo e outra em Olinda. Nesta lei foi estabelecido o privilégio exclusivo, por dez anos, dos livros preparados pelos professores dos referidos cursos.
Após três anos, em 16 de dezembro de 1830, foi promulgado o então Código Criminal que, no seu artigo 261, estabeleceu o direito exclusivo do cidadão brasileiro de imprimir, gravar, litografar ou introduzir qualquer escrito ou estampa, por ele pró-prio feito, composto ou traduzido, enquanto viver e, se deixar herdeiros, por dez a-nos após sua morte.
Em 1898, com a Lei n.º 496, de 1º de agosto, o direito autoral passa a ser um privilégio garantido por cinqüenta anos, contados a partir do primeiro dia de janeiro do ano da publicação.
Mais tarde, com a promulgação do Código Civil Brasileiro, em 1916, a matéria passa a ser tratada em três itens, quais sejam, as propriedades: I. Literária; II. Cientí-fica; III. Artística. Consolida-se aí, a proteção legal dos direitos autorais em nosso país.
As normas contidas no Código Civil vigoraram até 1973, com a promulgação da Lei n.º 5.988, revogada recentemente pela Lei n.º 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.
Direito Industrial
Mais conhecido como Propriedade Industrial, esta segunda categoria pode ser entendida como um conjunto de princípios reguladores das proteções às cria-ções intelectuais no campo técnico, garantindo a exploração exclusiva por parte de seus criadores, com o objetivo principal de proteger e incentivar a difusão tecnológi-ca.
“O sistema de patentes [e a propriedade industrial como um todo], ao possibi-litar a divulgação de novas invenções em publicações oficiais, com a utiliza-ção de lapsos temporais reduzidos em comparautiliza-ção com as demais formas de proteção, permite acompanhamento atualizado do desenvolvimento industrial e científico.” (FURTADO, 1996, p.41).
A propriedade industrial abrange a concessão de patentes (invenções e mo-delos de utilidade) e registros (desenhos industriais e marcas).
Dessa forma, distribuem-se as modalidades de proteção da propriedade in-dustrial em: 1. Invenção; 2. Modelo de Utilidade; 3. Desenho Inin-dustrial; e 4.
Mar-ca.
“Ao inventor que oferece à sociedade um produto ou um processo novo, é re-conhecido, mediante sua demanda, um direito privativo em troca da revelação dos meios de sua invenção.” (SCHOLZE, 1996, p.16).
Assim, a Patente é um documento oficial expedido pelo Estado e que dá a propriedade exclusiva e temporária a uma pessoa física ou jurídica sobre o que te-nha sido inventado ou aperfeiçoado. O registro é uma modalidade simplificada, se comparado à patente, possuindo, contudo, os mesmos aspectos de temporalidade e exclusividade conferidos ao seu titular.
Ao contrário do direito autoral que tem sua proteção surgida na própria cria-ção da obra, independentemente de formalizacria-ção, a propriedade industrial tem na patente e no registro a condição essencial para sua existência e validade, ou seja, uma criação só passa a ser protegida pelo Direto Industrial se for patenteada ou re-gistrada.
A invenção é o nome dado a criação de algo novo, susceptível de aplicação industrial, como produto ou como processo de fabricação.
“[...] embora possa aludir a um produto, aparelho ou processo, entre outros, [a invenção] não é a representação material desses objetos. Trata-se de um conjunto de regras de procedimento, estabelecidas por uma pessoa especial – o inventor –, as quais, utilizando-se dos meios ou elementos fornecidos pela ciência, possibilitam a obtenção de um bem material (por exemplo: um produ-to, aparelho ou processo) que venha a proporcionar um avanço em relação ao estado da técnica.” (DI BLASI et al, 1998, p.19).
Possui como requisitos essenciais: a novidade, a industriabilidade e a ativida-de inventiva, a saber:
• Novidade é a condição de novo, ou seja, o que jamais fora feito, em qual-quer lugar e a qualqual-quer tempo;
• Industriabilidade é a possibilidade de produção (ou reprodução) industrial, com finalidade de consumo;
• Atividade inventiva é a criatividade, ou seja, a não ocorrência de maneira evidente ou óbvia ao atual estado da técnica (que é tudo aquilo que já foi a-cessível ao público, em qualquer ramo de atividade e em qualquer parte do mundo).
Se uma criação possuir esses três requisitos e se utilizar, principalmente, téc-nicas radicalmente diferentes, “quebrando” métodos e conceitos tradicionais, com certeza será passível de proteção patentária, sendo enquadrada como uma inven-ção.
“Porém, existem melhorias, aperfeiçoamentos etc. que conquanto não signifi-quem grande avanço ou às vezes nem alterem evidentemente as caracterís-ticas intrínsecas de uma invenção, a tornam mais facilmente aproveitável, ou permitem que seu processo de obtenção seja melhorado. Isto acontece quando se dispõe os elementos que compõem uma dada invenção de forma diferente, objetivando melhorar seu manuseio, por exemplo.” (PITTA, 1998, p.12).
Assim, o modelo de utilidade é o produto resultante de uma modificação de forma, ou disposição, de objeto já existente, representando uma melhoria de caráter funcional no uso ou no processo de fabricação de algum produto, sendo nada mais que um aperfeiçoamento na utilidade, requerendo também a novidade, a industriabi-lidade e a atividade inventiva. A novidade, no modelo de utiindustriabi-lidade, seria basicamente formal, de disposição ou de fabricação. Contudo, esta modificação, além de concei-tual, deve gerar um avanço de caráter funcional, uma vez que as modificações me-ramente estéticas já têm guarida com o registro de desenho industrial.
O desenho industrial é definido legalmente como a forma (estética) de um objeto, ou o conjunto ornamental de “linhas” e “cores”, que possa servir de aplicação num produto e que proporcione um resultado visualmente perceptível novo e original na sua configuração externa, e que possa servir também de tipo de fabricação.
“[...] portanto pode ser considerado como uma atividade de projeto, voltada para a determinação das características funcionais, estruturais e estético-formais tanto de produtos como de sistemas de produtos para que sejam pro-duzidos em série.” (CUNHA, 2000, p.15).
Sua formalização é dada através de registro e sua finalidade é a proteção de caráter mais estético que funcional. Esta é a principal diferença entre o modelo de u-tilidade e o desenho industrial. No primeiro, a intervenção é dada na função, visando uma melhoria no uso ou no processo de fabricação. Já no desenho industrial, a pro-teção é direcionada apenas na composição estético-formal de um produto.
Praticamente toda intervenção estética em produtos, através de texturas, gra-fismos etc. com vistas à produção industrial, é registrável e passível de proteção pe-la propriedade industrial através do registro de desenho industrial, com exceção de algumas poucas limitações impostas por lei, entre as quais a forma necessária co-mum ou vulgar do objeto ou, ainda, aquela determinada essencialmente por consi-derações técnicas ou funcionais.
Assim, o item principal a ser verificado em um produto passível de registro de desenho industrial é o seu caráter estético, ou seja, por menor que seja a interven-ção formal, ela deverá sobressair-se da configurainterven-ção eminentemente técnica ou fun-cional. É por isso que peças ou componentes mecânicos, isoladamente, dificilmente são aptos de proteção com registro de desenho industrial.
A marca, por fim, é o sinal distintivo, visualmente perceptível, capaz de dife-renciar um produto ou serviço de outro concorrente. Sua proteção também é dada através de registro.
“O controle governamental sobre as marcas é importante porque é comum a utilização destas licenças para burlar as regras impostas aos contratos de pa-tentes e de know how. As marcas podem gerar, ainda, repercussões social e cultural negativas, caracterizando um domínio do mercado nacional por em-presas estrangeiras. Como exemplo da preocupação com estas repercussões cita-se o caso do Japão que, na sua política de desenvolvimento industrial baseada na importação de tecnologia, permitiu a entrada sob forma de paten-tes de know how mas impediu o comércio das marcas com suas empresas.” (Fábio Grynszpan in MARCOVITCH 1983, p.481).
O requisito básico para uma marca ser passível de registro é a novidade, no sentido de originalidade ou não “confusão” ou semelhança com marcas anteriores.
Existem duas classificações empregadas às marcas, uma quanto à natureza e outra quanto à apresentação.
Quanto à natureza, a marca pode ser:
• Marca de Produto ou Serviço – é aquela usada para distinguir produtos ou serviços semelhantes ou afins. É o tipo mais comum;
• Marca de Certificação – são os “selos” que servem para especificar itens como qualidade e material utilizado;
• Marca Coletiva – é aquela usada para identificar produtos ou serviços reali-zados por membros de uma mesma entidade.
Quanto à apresentação, a marca pode ser:
• Nominativa ou verbal – é a marca constituída apenas por palavras, qual-quer que seja a quantidade, compreendendo tanto um neologismo como uma combinação de letras e números;
Exemplo → Toshiba
• Figurativa ou emblemática – é constituída de uma figura, símbolo ou sinal gráfico, incluindo qualquer novo aspecto ou forma dado a letra ou algarismo isoladamente, mesmo que não seja do alfabeto arábico;
Exemplo →
• Mista ou composta – é a marca constituída tanto por elementos nominati-vos como figuratinominati-vos;
Exemplo →
• Tridimensional – é aquela constituída pela configuração volumétrica do produto ou de sua embalagem, cuja forma já é capaz, por si só, de distinguí-la de outro produto concorrente. Uma marca tridimensional não pode decorrer de suas características técnicas.
Além destas modalidades, existem as chamadas marcas de Alto Renome e as Notoriamente Conhecidas, que agregam para si uma popularidade ou notorieda-de tão grannotorieda-de que possuem alguns privilégios que as marcas comuns não têm.
“Um exemplo para esse caso é a marca Coca-Cola. As curvas de seu dese-nho combinadas com as cores vermelho e branco, se aplicadas em qualquer outro produto, transmitem ao consumidor um imediato reconhecimento da tradição dessa marca [...]. Assim, qualquer pessoa se vê impedida de usar marca idêntica ou semelhante, mesmo que em qualquer outro ramo de ativi-dade.” (BARBOSA, 1996, p. 42).
Toda marca, ao ser registrada, deve ser enquadrada em uma categoria, as chamadas classes e subclasses. Assim, excetuando as marcas de Alto Renome e as Notoriamente Conhecidas, pode haver marcas com a mesma parte nominativa para dois ou mais produtos distintos, desde que não pertençam à mesma classe e não gerem confusão ao consumidor.
Duração
Quanto à duração, o direito de propriedade industrial tem sua temporalidade bem mais limitada se comparada com aquela do direito autoral. Para as invenções (PI) essa duração é de vinte anos contados a partir do seu pedido, ou depósito. Para os modelos de utilidades (MU), este prazo é um pouco menor, sendo de quinze anos contados da data do depósito. Já o desenho industrial tem duração de dez anos con-tados do pedido, prorrogáveis por três períodos iguais e sucessivos de cinco anos. Por fim, a proteção dada às marcas possui um caráter diferenciado das demais, re-velando uma modalidade atípica no direito industrial, uma vez que o seu prazo de duração é indeterminado; assim, sua proteção tem duração mínima de dez anos, podendo ser prorrogado sucessiva e indefinidamente por períodos iguais.
Processo de Registro/Patenteamento (de acordo com a lei 9.279/96)
A proteção conferida pela propriedade industrial nasce com a concessão da patente ou do registro, que aparecem assim como obrigatórios para garantia deste direito.
O processo burocrático do pedido de patente ou registro é bem mais detalha-do que o detalha-do registro de direito autoral, pois envolve uma maior quantidade de requi-sitos obrigatórios, sem os quais a proteção não se efetiva.
No Brasil o único órgão responsável pela recepção, pelo encaminhamento e pela concessão de privilégios de direito industrial é o INPI (Instituto Nacional da Pro-priedade Industrial) com sede na cidade do Rio de Janeiro e delegacias e/ou repre-sentações espalhadas pelos demais estados do país.
Num processo de pedido de patente, quer de invenção (PI), quer de modelo de utilidade (MU), os requisitos essenciais são: o requerimento, o relatório descritivo, as reivindicações, os desenhos (se necessário) e o resumo.