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De Durkheim, Dolly e outros dinossauros: o museu das grandes novidades.
Contribuição ao Debate sobre o artigo de Everardo Duarte Nunes
Otáv io Cru z N et o 1 M a rcelo Rasga M o re i ra 1
1De p a r tam en to d e Ciên cia s Socia is, Escola N aci on al d e Sa ú d e Pú blica, Fu n d ação Osw ald o Cru z . Ru a Leop old o Bu lh ões 1480, Rio d e Ja n e i ro, R J 2 1 0 4 1 - 2 1 0 , Bra s i l .
Refle tir so b re “O Su i c í d i o”, d e Du rkh eim , qu a se u m sé cu lo a p ós su a elab o ra ç ã o , su scita , d e im ed iat o, u m a co nstatação: a a tu alid ad e d e su as pre o c u p a ç õ e s ( Nu n e s, 1998). Passad a a su rp resa (p ara algu n s irri t ação ), sob ressai u m d e safio: ap esa r d e tem as b em se m e l h a n t e s, a realidad e social d e h oje é m u ito d ifere n -te d a exis-ten -te àqu ela ép oca, se nd o qu e as con d ições m a t e riais d e vid a , e as in st ân cias con ju n tu ra is p o r elas su scita d as p assar am p o r pr o fu n d a s m u d an ças. Com o pro c e d e r, en tão, a u m a (re ) l e i t u ra qu e, sem d etu rp a r o p en sam en to o rigin a l d o au to r, forn eça su b -síd ios p a ra se e n t en d e r m e lho r a so cie d ad e em q u e v i ve m o s ?
Na o b ra d e Du rkh eim t rê s asp ect o s co n ce it u ais ( i n t rin secam e n te ligad o s) ace itam , d estart e, este d e-sa fio: (a) a fu nçã o d a m or al na socied ad e; (b ) o p ap el d a Sociolo gia / Ciên cia So cia l e (c) a m et o d olo gia d e p e s q u i s a .
A qu estã o da m oral é hoje, ao lad o d a violên cia , a m ais com e n tad a e d iscu tid a na socied a d e b ra s i l e i ra , se n d o o b je t o d e a p re ciaçã o p o r p a rt e d os p o d e re s i n s t i t u í d o s, de p ar tidos p olíticos, d a op in ião p ú b lica, d o s m eio s a cad ê m ico s, d e ca te go ria s p ro f i s s i o n a i s, i g re j a s... qu e ge ra lm e n te a con fu n d em com h on e stid astide e h on ra. Apesar stidos in cessan tes stid eb ates qu e en -vo l vem p on tos ap aren te m en te tão d ísp are s qu an to a f o m e, a at u açã o d os p o lít ico s, a le i d e im p r en sa e a clona ge m d e Dolly, n ão foi p ossível (ain d a?), p ara n e-n h um d os ie-n tere s s a d o s, divisar e d ir im ir se é p ossíve l e sta b ele cer u m p a d r ã o d e co m p or ta m e n to m o ra l / é t i c o, seja ele u m cód igo u niversal ou d e u m segm en -t o d o co rp o social em p ar-t i c u l a r. En -t re -t a n -t o, p are c e h a ver u m co n sen so en tre os con te n d ores: a m o ra l é u m fator d e tra n s f o rm a ç ã o, cu ja aplica ção favo re c e r á u m a m u d an ça sign ificativa n a socied ad e.
Nest e d eb at e ca b er ia a Du rkh e im (ju n ta m e n t e co m ou tro s a u to re s clá ssico s, o u “Ju r á s s i c o s” co m o b rad a m o s “m o d e rn o s o s”) o p ap el rod r ig u e a n o d e d esqu a lifica r a u n an im id ad e. Pa ra ele a m oral p ossu i u m a fu n ção b e m d e finid a qu e é a con serva ção e m a -n u te-n ção d a socied a d e! Além d isso o au tor d eixa -n íti-d o qu e ela nã o é re s p o n s á vel p elo e stab elecim ento íti-d e u m a n ova e str u t u ra social m a s, ao con trá ri o, é o r i g i-n ad a p elas relações sociais p ara q u e a tu e, i-n o i-n ível d a co nsciên cia h u m a na, com o u m in stru m e nt o d e le git i m a ç ã o, in git e gra ção e co n se r va ç ã o. Esgit a con ceigitu a
-ção evid en cia -se qu an d o Du rkh e im a nalisa a re l a ç ã o e n t re o a um en to d o ín d ice d e su icíd io e o p ro g re s s o d a ciê n cia: o d e se n volvim en to cien tífico cr ia sub síd ios p ara o ap a recim ent o síd e rela ções sociais síd ifere n -te s d as c on sagr ad as p e la tra d ição e, co n se qü e n t e-m e n t e, d e u e-m a re e s t ru t u ração d a vida d os in divíd u os qu e coloca “em xequ e” os cód igos m ora is e sta b ele ci-d o s. Essa n ova situ ação n ecessita ci-d e u m ou tr o cóci-d igo m o ra l q u e cor resp o nd a a su as asp ira ç õ e s.
O su icíd io é im or al p orqu e é u m a d as form a s p e-la qu al o in d ivídu o e xp ressa a não aceitação d o p ap el e d as fu n ções qu e a ele são im p o stas pela socied ad e. É u m a atitud e q ue, se p raticad a e m gra nd e escala, le-va à qu ebra da in te gração n ecessár ia (an om ia) p ara a m an u ten ção d a socied ad e. Neste se n tid o d e ve se ter c l a ro qu e a q u ilo q ue o e m in en te Pe n sa d or fra n c ê s p re ten d ia em su a ob ra era d em on strar qu e o ato ap a-re n tem en te m a is in d ivid u a l d o ser h u m a n o – t ira r a p r ó p ria vid a – t em , e m ve rd a d e, ra í zes e m o tiva ç õ e s i n e q u i vo cam e n te sociais. Ele p ro c u ra va d e m on stra r com o a m o rte d o “ser social” leva à m o rte d o in d ivíd u o: qu an ivíd o o se r hu m ano se n te qu e sua s re p re s e n -ta çõe s socia is se d esva n e cem , qu e o l ocu s s o cial qu e ele o cu p a va n ão m a is existe (e ist o p od e ac on te ce r p or m o tivo s d ive rsos co m o a viu vez, a q ue b ra d a d i-visã o so cia l d o trab alh o e por con segu int e d a so lid a-ri e d a d e...), su a p articip ação m eram en te in d ividu al na socied ad e perd e o sentid o. Fica n ítido q ue ele atri b u í a u m p ap e l n e gat ivo à m u d an ça, re s p o n s a b i l i z a n d o - a (e tam b ém aos qu e a ad vo g a vam , com o os m ateri a l i s-tas dialé ticos) p or b oa pa rte d os p rob lem as en fre n t a-dos p ela socieda de. Assim , p ara Du rkh eim , as m u d an-ça s sociais só d eve m ocorrer qu an d o for em im p re s-c i n d í veis e de vem tra ze r, em seu b ojo, s-có digos m ora i s qu e ad eqü em o s in d ivíd u os a su as n ovas fu n ções.
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d os e m p rem issas m or ais com p a tíveis com su as am -b içõ es e ne cessid ad es. Assim sen d o, fica claro qu e as rela çõ e s soc iais são re s p o n s á veis p elo est ab e leci-m en to d a leci-m oral e n ã o o con trári o.
Neste qu ad ro a Sociologia/ Ciência Social tem u m p ap el p o lítico- id e ológico b em cla ro : e stu d ar as re a i s co n d içõe s p ara a co n ser vação e eq u ilíb rio d a so cie-d a cie-d e. Ressalt e- se q u e Du rkh e im , q u e fo i o p ri n c i p a l crítico e alavan cad o r da So ciologia en q uan to Ciên cia ( e n f rentan d o ásp eras d iscussõ es com os “s e n h o res d o sab er e stab elecid o”, oriu n d os d as cha m ad as Ciên cias Na t u rais), a d voga p ar a e la u m pa p el d e in stân cia in-t e rve n in-t o ra n a p rod u ção d e con h e cim en in-tos com p os-sib ilid ade s bem d istin ta s d as q ue vêm sen d o p ostu la-d a s p or algu n s cien tistas la-d a áre a social, qu e, estu p e-factos fren te a u m a (con tín ua ) “c rise d os p ara d i g m a s” e ao “fim d as id eo logias”, assu m em , do cem en te con s-t ra n g i d o s, p osições qu e correm o risco d e leva r a seu a b a s t a rd am en t o : re d u ção d o t em p o d e d u ração d o s cu rsos d e So cio logia; ên fase no estu d o d a in fo rm á t i-ca e d e lín gu as em d etrim en to d os fu nd a m en tos teó-ricos a d vin d os d os au tores clá ssico s e a u tilização d e p ro p ostas e té cn icas qu e su p ere stim a m a im p ort â n cia d a d im en são qu an titativa no p ro ce sso d e d esve n -d am en to -d o s p rob lem as so ciais.
Na argu m e n tação co n tr a este ú ltim o, Du rk h e i m ta m b é m re p re se n ta u m im p or ta n t e p a p e l, u m a ve z qu e ele tenh a sid o, talvez, o p ri m e i ro sociólogo a p er-ce b e r q u e o o b je to d e est u d o d a s ciên cias so cia is é u m “to d o co m p le xo”, com p osto p or in úm eros asp ec-tos qu e se in tegra m e se exclu em , sem form ar u m “ j
ogo d e so m a ze ro”. Assim p ô d e tra b a lh ar com o co n -t rover so com p on en -te e m p írico e com a d im e n são q u a n t i t a t i va d e seu ob jeto, sem com prom eter a aná li-se q u alita tiva d e su a ob ra . Su a o u sad ia n ão fo i b e m vista por aqu ele s qu e se ju lgavam os d ono s d as técn i-cas e d os nú m eros (qu e in sistem em ign ora r o fato d e q ue a técn ica con siste ap en as em u m a ad equ ação d e m eios a fin s) qu e o cri va ram d e críticas, alegan d o er -ros em se u s le van tam en tos e statísticos qu e su p o sta-m e nte costa-m p ro sta-m e t e riasta-m su a ob ra. Por p ara d oxal qu e seja, n este aspecto n ão h ou ve grand es m ud anças d e s-d e a ép oca s-d e Du rkh eim , a n ão ser q u e h oje estas crí-t icas p a rcrí-tem d o ce rn e d a s p r óp r ias Ciê n cias So c i a i s, on d e u m a cert a p e rce p ção d o qu a n t it at ivo ad vo g a u m a p osição d e d e st aq u e e ve m se n d o co n fro n t a d a p ela co n cep ção in tera t i va, q ue vê a com ple m e n tari-d atari-d e en tre qu ali/ q u an ti com o um cam in h o p ossíve l . Assim , Du rkh eim (com o ou t ros clássico s) su rg e com o u m a fru t í f e ra fon te d e p rod u ção e p en sam e nto (p ensar = criar), a pto a p a ssa r p or d iscu ssões e re a va-liaçõ es qu e con tri b u i r ã o, sob re m a n e i ra, n os m ais d i-ve rso s estu d os e p esqu isas, co nco rd e-se o u não com e l e. O q u e n ã o se p o d e a ce it ar e p e r m itir é qu e su a o b ra se ja ap o sen ta d a p o r in va l i d ez pe los h o d iern o s, q u e ju lga m d e m a n e ira sim p lifica d a e fica m p re s o s n a fan t asia d e qu e as ove lh as p od e m d e rrotar os Di-n o s s a u ro s.