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Dental Press J. Orthod. vol.20 número2

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Academic year: 2018

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© 2015 Dental Press Journal of Orthodontics 10 Dental Press J Orthod. 2015 Mar-Apr;20(2):10-1

edito

rial

Um homem, uma engenhoca, um legado

O ano era 1995. Aguardávamos, no saguão do aeroporto de San Francisco, o voo para Los Angeles, EUA, porventura para mais um congresso america-no. A meia-distância, um grupo de ortodontistas conversava com um senhor grisalho. Sentado, ele demonstrava como construir um aparelho que ha-via criado — uma espécie de Lego. A voz suave, fraca até, era cheia de perseverança. O tal grisalho era Carlos Martins Coelho Filho. Naquele primeiro contato, confesso que a figura humana e a suavidade da voz causaram-me mais admiração do que o pró-prio aparelho, o APM III1.

Anos mais tarde, o modelo APM IV entrava na

seara ortodôntica2, ao mesmo tempo em que me

aproximei do Prof. Carlos Coelho. Ser encantador, que emanava luz de brilho intenso, infinitamente amplificada pelo fato de partir de um homem sim-ples, humilde e de inteligência inconteste. Com o tempo, tornamo-nos amigos.

Maranhense de São Luís, Carlos fez mestrado em Ortodontia na Faculdade de Odontologia de Pira-cicaba. Antes, ele era técnico em eletrônica. Tam-bém complementava a renda dando aulas de inglês. Contou-me que, ao ser aprovado no seu curso de mestrado, ligou para o professor Muller de Araú-jo, então coordenador do programa, lamentando que, a despeito da aprovação, teria dificuldades para

estar presente na data definida para início do cur-so. O  empecilho era financeiro, pois precisaria de tempo para vender a pequena oficina de eletrônica e o seu fusquinha. Não esperava ser aprovado, dada a grande concorrência e suas dificuldades. Em grata surpresa, o Prof. Araújo, além de aceitar a sua pror-rogação, enalteceu as suas qualidades e disse-lhe que era ele, o Prof. Araújo, quem fazia questão da presença daquele aluno, dado o sacrifício que faria para seguir o curso. Carlos contou-me essa história algumas vezes, e eu nunca o interrompi porque os seus olhos sempre brilhavam com a lembrança do estimado professor, um perfume de gratidão.

Contou-me também sobre o seu primeiro con-tato com uma máquina de solda a ponto. Era um equipamento importado, pertencente a uma de suas professoras. Na época, o dispositivo era pouco co-mum no Brasil e sonho de consumo de qualquer ortodontista. Carlos usou os seus conhecimentos de eletrônica e fez, ele mesmo, uma cópia da máquina de solda, a partir da análise do equipamento impor-tado. Descarrilaram-se encomendas.

Após a conclusão do mestrado, Carlos retornou ao Maranhão e ingressou como professor na Facul-dade de Odontologia da UniversiFacul-dade Federal do Maranhão. Casou-se com Rosa, com quem teve dois filhos, Eduardo e Fábio. Mas foi na prática

pri-Normando D. A man, a gadget, a legacy. Dental Press J Orthod. 2015 Mar-Apr;20(2):10-1. doi: http://dx.doi.org/10.1590/2176-9451.20.2.010-011.edt. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/2176-9451.20.2.010-011.edt

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Editorial

vada que o Prof. Coelho iniciou a concepção da sua maior obra, um terceiro filho, podemos assim dizer: o aparelho de protração mandibular (APM). Uma engenhoca, como ele mesmo dizia, que promovia o avanço da mandíbula no intuito de tratar as más oclusões de Classe II. O que me impressionou foi o fato de Carlos ter se formado em uma época na qual avanços mandibulares soavam como heresias dentro da Ortodontia. Os poucos ortodontistas que se lan-çavam à experimentação eram quase execrados do meio. Percebe-se, destarte, um profissional atempo-ral e distante dos preconceitos.

No início do desenvolvimento da sua obra, Car-los logo percebeu a fragilidade do sistema, relatan-do constantes quebras. Aceitou com humildade as limitações e, com perseverança e inteligência, me-lhorou a obra até chegar ao modelo IV, mais estável e confortável.

Atualmente, o APM, ou algumas de suas modifi-cações, é utilizado por grande parte dos ortodontis-tas brasileiros. O aparelho não ficou tão conhecido fora do Brasil, a despeito das diversas publicações

internacionais1-7. Não é difícil compreender o

mo-tivo. Certo dia, perguntei-lhe se nunca havia pen-sado em comercializar a sua invenção por meio de uma grande empresa. Carlos, na sua infinita humil-dade — de dar raiva até —, relatou que uma gran-de companhia americana já havia lhe oferecido uma proposta comercial, a qual recusara. Ele gostaria que a sua obra fosse de livre acesso a qualquer colega, no modelo “faça você mesmo”. Ao cérebro inventor de Carlos não foi concedido o córtex empresarial.

A Ortodontia brasileira deve muito ao inventor Coelho Filho; e nós, seus admiradores, temos uma dívida imensurável com esse nordestino, clínico alvissareiro e ser humano altruísta. Um profissio-nal de conduta ilibada e um amigo de sagacidade iluminada e fidalguia, cujo legado não cabe nestas páginas ou em todos os volumes deste periódico...

1. Coelho Filho CM. The Mandibular Protraction Appliance No. 3. J Clin Orthod. 1998;32(6):379-84.

2. Coelho Filho CM. Mandibular protraction appliance IV. J Clin Orthod. 2001;35(1):18-24.

3. Siqueira DF, de Almeira RR, Janson G, Brandão AG, Coelho Filho CM. Dentoskeletal and soft-tissue changes with cervical headgear and mandibular protraction appliance therapy in the treatment of Class II malocclusions. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2007;131(4):447.e21-30. 4. Coelho Filho CM, Coelho FO, White LW. Closing mandibular first molar

spaces in adults. World J Orthod. 2006;7(1):45-58.

5. Coelho Filho CM. Mandibular protraction appliances for Class II treatment. J Clin Orthod. 1995;29(5):319-36.

6. Coelho Filho CM. Clinical applications of the mandibular protraction appliance. J Clin Orthod. 1997;31(2):92-102.

7. Coelho Filho CM. Clinical application of the mandibular protraction appliance in upper lateral agenesy and in asymmetric cases. Tex Dent J. 2002;119(7):618-26.

REFERÊNCIAS

Mas no seu coração, esse sim, coube. E ele, simples-mente, nos doou, divinasimples-mente, o que criou.

A nobreza estampa-se no passo a passo, no pouco a pouco, e são pequenas histórias que tornam um ho-mem grande e comporão um legado indestrutível.

Referências

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