w w w . r e u m a t o l o g i a . c o m . b r
REVISTA
BRASILEIRA
DE
REUMATOLOGIA
Artigo
original
Ocorrência
de
quedas
e
sua
associac¸ão
com
testes
físicos,
capacidade
funcional
e
aspectos
clínicos
e
demográficos
em
pacientes
com
artrite
reumatoide
Mariana
de
Almeida
Lourenc¸o
a,∗,
Izabela
Roma
be
Marcos
Renato
de
Assis
baUniversidadeEstadualPaulista(Unesp),SãoPaulo,SP,Brasil
bFaculdadedeMedicinadeMarília(Famema),Marília,SP,Brasil
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem25deagostode2015
Aceitoem3deagostode2016
On-lineem22desetembrode2016
Palavras-chave:
Artritereumatoide
Acidentesporquedas
Equilíbriopostural
Testesdeaptidão
r
e
s
u
m
o
Objetivo:Avaliaraocorrênciadequedasreportadasporpacientescomartritereumatoide
(AR)esuaassociac¸ãocomaatividadedadoenc¸a,capacidadefuncionaleaptidãofísica.
Materialemétodos:Estudotransversalcomumaamostrade97pacientescomARem
Marí-lia(SP),entre2012e2013.Foramusadosinstrumentosvalidadosnapopulac¸ãobrasileira
paraavaliarcapacidadefísicae funcional.Análisedosdadoscomestatísticadescritiva,
correlac¸õesdeSpearmanequi-quadrado,consideradop<0,05.
Resultados: Dospacientes,88%erammulheres,médiade56,anos(±11,7),durac¸ãomediana
daARde10anos(P25=6eP75=17)emédiadaatividadedadoenc¸a3,6(±1,3).Nosúltimos
12meses,37,1%tiverampelomenosumaqueda(total52episódios),74,2%relatarammedo
decair,porémsemassociac¸ãocomaocorrênciadequedas(2=1,19,p=0,27).Sexo,
quan-tidadedemedicamentos,idade,atividadedadoenc¸a,durac¸ãodaAR,capacidadefuncional
etestesfísicosnãoestãoassociadoscomhistóriadequedanoúltimoano.
Conclusões:Observou-sequeaocorrênciadequedaseomedodecairéfrequentenessa
populac¸ão.AocorrênciadequedasnessaamostradepacientescomARnãoestárelacionada
àatividadedadoenc¸a,àcapacidadefuncionaleatestesdeaptidãofísica.
©2016ElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCC
BY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Falls
and
their
association
with
physical
tests,
functional
capacity,
clinical
and
demographic
factors
in
patients
with
rheumatoid
arthritis
Keywords:
Rheumatoidarthritis
Accidentalfalls
Posturalbalance
Aptitudetests
a
b
s
t
r
a
c
t
Objective:Toevaluatetheoccurrenceoffallsreportedbyrheumatoidarthritispatientsand
itsrelationtodiseaseactivity,functionalcapacityandphysicalfitness.
Material and methods:A cross-sectional study constituted by a sample of 97
rheuma-toid arthritis patients from the city of Marília(SP) from2012 to 2013, were assessed
fordiseaseactivity.Instruments validatedforBrazilianpopulation inordertoevaluate
∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](M.A.Lourenc¸o).
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2016.08.003
0482-5004/©2016ElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/
physicalandfunctionalcapacitywereused.Dataanalysiswascarriedoutwithdescriptive
statistics,SpearmancorrelationandChi-squaredtest,consideringp<0.05.
Results:88.7%werefemalesubjectswithameanageof56(±11.7)years.Themedianduration
ofrheumatoidarthritiswas10years(P25=6andP75=17)andthemeanofdiseaseactivity
was3.6(±1.3),whatwasconsideredamoderateactivity.Inthelast12months37.1%of
patientsexperiencedatleastonefall,withatotalof52episodes,andfearoffallingwas
reportedby74.2%ofthem,butthiswasnotassociatedtotheoccurrenceofafall(2=1.19,
p=0.27).Gender,numberofmedications,age,diseaseactivity,durationofrheumatoid
arth-ritis,functionalcapacity,andphysicaltestsshowednoassociationswithhistoryoffallsin
thepastyear.
Conclusion: Itwasobservedthattheoccurrenceoffallsandthefearoffallingarequite
commoninthispopulation.Theoccurrenceoffallsinthissampleofrheumatoidarthritis
patientsbearsnorelationtodiseaseactivity,functionalcapacity,orphysicalfitnesstests.
©2016ElsevierEditoraLtda.ThisisanopenaccessarticleundertheCCBY-NC-ND
license(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Introduc¸ão
A artrite reumatoide (AR) é uma doenc¸a inflamatória
sistêmica,autoimune,crônica,progressiva,deetiologia
desco-nhecida,quepodelevaradestruic¸ãoósseaedeformidades.1–3
Pacientes com AR podem apresentar fraqueza muscular,
diminuic¸ãodamobilidade,instabilidadepostural,alterac¸ões
depropriocepc¸ão,equilíbrioposturalemarcha,quesão
conhe-cidosfatoresderiscoparaquedas.4–14
Aocorrênciadequedas temsidoreportadaentre14,3%7
a 54%5 em pacientes com AR. Essa margem grande pode
ser justificada pela falta de critérios e padrões nos
estu-dos,alémdapouca quantidadedetrabalhosqueenvolvem
quedaseAR.AlgunsestudosempacientescomARtêm
mos-tradoassociac¸ãodequedacommaioratividadeda doenc¸a,
reduc¸ãodacapacidadefuncionaletestesdecapacidadefísica
eequilíbrio.4,5,7–9,11,14–17
Osimpactosdasquedasatingemaspectosfísicos,
psicosso-ciais,econômicosefamiliares.Lesõesvariamdesdepequenas
escoriac¸õesafraturas,principalmenteosteoporóticas
(comor-bidadefrequenteempacientecomAR).5,7,9,11,15–17Porsetratar
deumeventofrequente,acaracterizac¸ãoeidentificac¸ãode
pacientessãofundamentaisparaqueseestabelec¸am
progra-maseintervenc¸õesespecíficasdeprevenc¸ãonessapopulac¸ão.
Napopulac¸ãobrasileirafoiencontradoapenasumestudo,
deMarquesetal.,18sobrequedasempacientescomAR,oque
mostraafaltadeestudosnacionais quecaracterizemesses
pacientes.Emvistadisso,oobjetivodopresenteestudofoi
avaliaraocorrênciadequedas empacientescom AResua
relac¸ãocomidade,durac¸ãoeatividadedadoenc¸a,testesde
avaliac¸ãofísicaecapacidadefuncional.
Material
e
métodos
OestudofoiaprovadopeloComitêdeÉticaemPesquisa
Envol-vendoSeresHumanosdaFaculdadedeMedicinadeMarília
(Famema)soboprotocolon◦672/12.Todososindivíduos
rece-beramesclarecimentos verbaiseporescrito eparticiparam
doestudoapósassinaturadoTermodeConsentimentoLivre
eEsclarecido.
Foifeitoumcortetransversal,comaamostrapor
conve-niência,compostapor97pacientesdeambosossexoscom
diagnósticodeARacompanhadosnoAmbulatóriode
Reuma-tologiadaFamema.Paracálculodotamanhodaamostrafoi
usadaaseguintefórmula19:
Z1−˛/22P (1-P)
d2 ,
naqual:
- Z1-␣/2=1,96,para␣=0,05(errotipoI)
- P=proporc¸ão esperadade quedas napopulac¸ãocom AR,
considerado35%(valorintermediárioentreosextremosde
15%e55%encontradosnaliteraturaexistente).
- d=precisãode10%
O tamanho da amostra obtida por essa fórmula seria
87 pacientes,acrescentamos10% paracompensar perdase
recusas,totalde96pacientes,porémnãohouverecusas.
Critérios de inclusão: a) diagnóstico de AR de acordo
com os Critériosde Classificac¸ão doColégio Americano de
Reumatologia (ACR)de1987oupelos Critérios
Classificató-rios para ARde2010da ACR/Eular (European League Against
Rheumatism)1,20,21;b)idade acimade18 anos;c)capacidade
físicaparaexecutarostestes.Critérios deexclusão:a)
défi-citdecompreensãoquelimitasseaentrevista;b)deficiência
visualouauditivaacentuada.
Ospacientesforamavaliadosporummédico
reumatolo-gista(MRA.)paraconfirmac¸ãododiagnósticodeAR,ocasião
emqueforamfeitasasmensurac¸õesdeatividadedadoenc¸a.
Foram submetidosà coletadesangue feitaporuma
enfer-meira (IR) e após encaminhados para uma anamnese e
entrevistaespecíficadequedas,bemcomoaplicac¸ãodos
tes-tesfísicos,porumafisioterapeuta(MAL).
Para identificac¸ão das quedas ocorridas nos últimos
12meses,foiusadoumquestionárioelaboradopelos
pesqui-sadores.Adefinic¸ãoadotadadequedafoideslocamentonão
intencionaldocorpoparaumnívelinferioràposic¸ãoinicial
comincapacidadedecorrec¸ãoemtempohábil,determinado
por circunstâncias multifatoriais que comprometessem a
estabilidade.22Asperguntasvisavamaocorrênciaedescric¸ão
local,motivo,horário,atividadedesenvolvida,consequências
epresenc¸ademedodecair).
Paraavaliaraatividadedadoenc¸afoiusadooDisease
Acti-vityScore(DAS-28),quefazacontagemdearticulac¸õescomdor
eedemaentre28articulac¸ões,aavaliac¸ãoglobaldasaúdepelo
pacienteobtidapormeiodeumaescalavisualanalógica(EVA)
de0a100eavelocidadedehemossedimentac¸ão(VHS),
deter-minadaemmilímetrosporhora(mm/h)pormeiodatécnica
dehemossedimentac¸ãofeitanoHemocentrodaFamema.23–26
OHealthAssessmentQuestionnaire(HAQ),27,28validadonoBrasil
porFerrazetal.,29foiusadoparaavaliarcapacidade
funcio-naleosseguintestestesparacapacidadefísica:a)Escalade
EquilíbriodeBerg(Berg),propostaporBergetal. em1989e
validadanoBrasilporMiyamoto,30queavaliaoequilíbriodo
indivíduoem14situac¸õesrepresentativasdodiaadia30–32;
b) Teste Timed Up and Go (TUG), proposto por Podsiadlo e
Richardsonem1991,queavaliaoequilíbriosentado,a
trans-ferênciade sentadopara posic¸ãoempé,a estabilidade na
deambulac¸ãoeasmudanc¸asdocursodamarchasemusar
estratégiascompensatórias31,33,34;c)TestedeCaminhadade
6Minutos (TC6M)desenvolvidoporBalkeem1963e
atual-menteusadoparaavaliarcapacidadefuncionaletolerânciaao
exercício35–37;d)BateriadeTestesdeGuralnikouShortPhysical
PerformanceBattery(SPPB),desenvolvidaporJackM.Guralnike
validadanoBrasilporNakano,38usadaparaavaliarequilíbrio
estático,habilidadedecaminharehabilidadedelevantar-se
deumacadeira.39,40
Foifeitaestatísticadescritiva,comapresentac¸ãode
medi-dasdetendênciacentralede dispersãoconformenatureza
dadistribuic¸ãodasvariáveis(média,mediana,desviopadrão
epercentis)paraascaracterísticasdaamostra,descric¸ãodas
quedasevaloresdeescoredostestes.Paraaverificac¸ãoda
nor-malidadedosdadosfoiusadootestedeKolmogorov-Smirnov.
Comoos dadossemostraramnãoparamétricos,foi feita a
correlac¸ão com o teste qui-quadrado de Spearman para o
númerosdequedaseasvariáveisfísicas,funcionaise
ativi-dadedadoenc¸a.Osseguintes valoresforamadotadospara
interpretara forc¸adas correlac¸ões:0,0 a0,3insignificante;
0,3a0,5baixa;0,5a0,7moderada;0,7a0,9altae0,9a1muito
alta.41Paraassociac¸ãoentregrupos(caidoresenãocaidores)
easvariáveismedicamentos,medodecairesexofoifeitoo
testedoqui-quadrado.Foiadotadoníveldesignificânciade
p<0,05eanálisefoifeitanoprogramaSPSSv.21.
Resultados
Participaram do estudo 97 pacientes, a maioria mulheres,
casadas,deetniabrancaecomsobrepesodeacordocomo
índicedemassacorporal(IMC)(tabela1).Todosospacientes
fazemusodeaomenosummedicamentoparaAR,27(27,8%)
usavamalgummedicamentomodificadordocursodadoenc¸a.
A durac¸ão da doenc¸a variou de 2 a 40 anos, com uma
medianade10(P25=6eP75=17),oquecaracterizadoenc¸a
estabelecida na amostra estudada. A média do DAS28 foi
3,6(±1,3),valorrelacionadoadoenc¸aemmoderadaatividade
(>3,2e≤5,1).26 AmedianadoHAQfoi 0,6(1◦ e3◦ quartis
0,1-1,5),oqueindicouincapacidadedeleveamoderada.28
Nos12mesesanterioresaentrevista,cercadeumterc¸odos
pacientessofreuumaoumaisquedas,52episódios(tabela2).
Tabela1–Característicasdaamostra
Variável Valor
Pacientes,n 97
Sexo,n(%)
Feminino 86(88,7%)
Masculino 11(11,3%)
Idade(anos)
Média±DP 56±11,7
Mínimo-máximo 23-88
Massacorporal(kg)
Média±DP 68,7±15,5
Mínimo-máximo 34,3-109,2
Estatura(m)
Média±DP 1,57±0,08
Mínimo-máximo 1,37-1,78
IMC(kg/m2)
Média±DP 27,5±5,3
Mínimo-máximo 15,3-40,
Medicamentos(númerode)
Média±DP 4,5±1,9
Mínimo-máximo 10
Estadocivil,n(%)
Solteiro(a) 17(17,5%)
Casado(a) 61(62,9%)
Divorciado(a) 10(10,3%)
Viúvo(a) 9(9,3%)
Etnia,n(%)
Branca 60(61,9%)
Parda 25(25,8%)
Negra 12(12,3%)
AR,artritereumatoide;DP,desviopadrão;IMC,índicedemassa corporal;kg,quilograma;m,metros.
Nenhum paciente apresentou quatro ou mais quedas no
últimoano,foimaisfrequenteoepisódioúniconesseperíodo. Asquedasocorrerammaisduranteodia,naprópriacasado paciente, enquanto andavam,portropec¸oou escorregão.A maiorianãofoiaomédicoouprontosocorro,mastevealgum tipodeferimento/escoriac¸ãooudorintensa(tabela3).
Omedodecairfoirelatadopor74,2%dospacientes,tanto
entreosquecaíramnoanoanteriorquantoosquenão
sofre-ramqueda,porémsemassociac¸ãosignificativa(p=0,274)com
o relatode quedanos últimos12meses (tabela4). Não foi
encontrada associac¸ãosignificativaentre omedo de caire
idade (p=0,289), durac¸ão (p=0,071) e atividade da doenc¸a
(p=0,082).Pacientescommedodecairapresentarammaior
prejuízo funcional pelo HAQ(p=0,004)e pior desempenho
nostestesTC6M(p=0,002),TUG(p=0,007)eSPPB(p=0,020)
quandocomparadoscomosquenegaramtermedo.
Não foiencontradaassociac¸ãosignificativaentrea
ocor-rênciadequedasnosúltimos12 meseseaidade(=0,070,
p=0,498),aatividadedadoenc¸a(=0,50,p=0,629),adurac¸ão
daAR(=−0,015,p=0,888)eacapacidadefuncional(=0,167,
p=0,102).Tambémnãoestãoassociadosàpresenc¸adequeda
noúltimoanoaquantidadedemedicamentostomada
Tabela2–Caracterizac¸ãodasquedasrelatadas
nosúltimos12meses
Variável n (%)
Sofreuquedanosúltimos12meses
Sim 37 37,4
Não 62 62,6
Númerodevezesemquecaiu
1 24 64,9
2 10 27
3 3 8,1
4oumais 0 0
Períodododiaemquecaiu
Manhã 22 41,5
Tarde 18 34
Noite 12 22,6
Madrugada 1 1,9
Localdaqueda
Emcasa 29 54,7
Narua 19 35,8
Ambientedetrabalho 3 5,7
Ambientedelazer 2 3,8
Atividadedesenvolvidaduranteaqueda
Andar 33 62,2
Subir/descerdegraus 9 17
Cuidadosdomésticos 7 13,2
Vestir-se 2 3,8
Pegarobjeto 2 3,8
Motivoquelevouàqueda
Tropec¸ou 20 37,8
Escorregou 19 35,8
Fraquezanaspernas 6 11,3
Perdeuequilíbrio 5 9,4
Sentiutontura 2 3,8
Torceuopé 1 1,9
Procedimentosapósaqueda
Nenhum 35 66,1
Prontosocorro 13 24,5
Consultamédica 5 9,4
Consequênciasdaqueda
Ferimentos/escoriac¸ões 18 34
Dorintensa 16 30,2
Nenhuma 14 26,4
Fratura 5 9,4
Tabela3–ResultadosdostestesfísicosTUG,Berg,TC6M
eSPPB
Resultados Mínimoe máximo
Berg(mediana,P25-P75) 53(49-56) 15-56 TUG(mediana,P25-P75) 9,3(7,7-12,2) 5,5-39,4 SPPB(mediana,P25-P75) 10(8-12) 1-12 TC6M(média,±DP) 376,7±111,9 120-620
Berg,EscaladeEquilíbriodeBerg;DP,desviopadrão;P25,percentil 25; P75, percentil 75; SPPB, Short Physical Performance Battery; TC6M, Teste de caminhada de 6 minutos (em metros); TUG,TimedUpandGo(emsegundos).
Tabela4–Associac¸õesdasquedasrelatadascom
quantidadedemedicamentos,presenc¸ademedoesexo
Presenc¸ade quedas
2 p
Não(n) Sim(n) Medicamentos
Até3 24 8 3,002 0,083
4oumais 37 28
Medodecair
Sim 43 29 1,199 0,274
Não 18 7
Sexo
Feminino 55 31 0,370 0,543
Masculino 6 5
2Testedoqui-quadrado.
Tabela5–Associac¸õesentreidade,durac¸ãodaAR,
DAS28,HAQenúmerodequedaseostestes
dedesempenhofísico
Berg TC6M TUG SPPB
Idade −0,392a −0,315a 0,322a −0,335a
Durac¸ãodaAR −0,233a −0,261a 0,160 −0,179 DAS28 −0,420a −0,286a 0,329a −0,433a
HAQ −0,575a −0,534a 0,546a −0,687a
Númerodequedas −0,141 −0,051 0,072 −0,139
AR,artritereumatoide;Berg,EscaladeEquilíbriodeBerg;DAS28,
DiseaseActivityScore 28; Durac¸ãodaAR(emanos);HAQ, Health AssessmentQuestionnaire;Idade(emanos);SPPB,ShortPhysical Perfor-manceBattery;TC6M,Testedecaminhadade6minutos(emmetros); TUG,TimedUpandGo(emsegundos).
Correlac¸ãodeSpearman. a p<0,05.
O pior desempenho nos testes físicos está associado a
maioridade,amaiordurac¸ãodadoenc¸aeamaioratividadeda
doenc¸a.Acapacidadefuncionalmostrou-semoderadamente
associada com o desempenho em todos os testes físicos,
indica quealimitac¸ãodeatividades funcionaisreflete pior
desempenho nesses testes. O número de quedas não está
associadoaodesempenhoemnenhumdostestesfísicosfeitos
(tabela5).
Discussão
Opercentualdepessoasquecaíramnoperíodode12meses
variou de14,3%7 a54%5(18,8%,1626,9%,17 30,2%,18 30,9%,10
33%,11 35,2%,8 36,4%,12,14 37,1%,42 42%13 e 50%9). No
pre-senteestudo37%tiveramaomenosumaquedanosúltimos
12meses,semelhantementeaos30,2%encontradosemoutro
estudocom a populac¸ãobrasileira.18 Essaincidênciaanual
éconsideradaalta,secompararmosaestimadaparaidosos
acimade65anos(28%a35%)eacimade75anos(32%a42%).22
AssimcomorelatadoporStanmoreetal.,12houveo
predo-míniodequedasemambientedomiciliar,provavelmentepor
passaremamaiorpartedentrodecasadevidoaumestilode
vidamaisrestrito,noqualoconjuntodelimitac¸õesfísicas,
deatividades laborais, delazereparticipac¸ão social.Outra
explicac¸ãoéagrandefamiliarizac¸ãocomoambiente
domés-tico, no qual se subestimamos fatores de risco de queda
extrínsecosexistentes.
O fato de a minoria (32,7%) procurar algum tipo de
atendimento especializado após a queda é semelhante ao
encontradoporFesseleNevitt10(31%)eStanmoreetal.12(26%)
etalvezsejaexplicadopelabaixagravidadedaslesões,que,
assimcomonosestudosencontrados,8,10,12foramos
ferimen-tosleves,asescoriac¸õeseador.
PacientescomARtêmumriscoaumentadodefratura
oste-oporótica, que éresultado da interac¸ão entre aumento da
fragilidadeóssea(menordensidadeóssea)etrauma,aqueda
éumimportantefatorcausadoremadultosdetodasas
ida-descomAR.Foiencontradaumaincidênciamaior(9,6%)de
fraturasconsequentesdequedasemnossospacientesse
com-paradocomoutrosestudos,quevariamentre1,1%e5%,bem
comoemidososcujasfraturasocorrememcercade5%das
quedas.9,11,16,22
Omedodecairfazcomquepacientesmudemseu
com-portamento,atécomdiminuic¸ãodeatividadesrecreativas.8,10
Essemedopodegerarumciclonoqualopaciente
compro-metidofisicamente pelaARpassaevitarsituac¸õesderisco,
torna-se menos ativo, o que piora sua capacidade física e
aumentaaschancesdeumafuturaqueda.Nãofoiencontrado
dadonacionalquequantificasseomedodecairempopulac¸ão
comAR,porémconsideramosaltoopercentual(74,2%)
encon-tradoemnossoestudoquandocomparadocomodeoutros
países(20,6%,446,2%,1750,5%,1059,8%8e66,7%7).
De acordo com Duyur C¸akat et al.,7 pacientes com
medodecairtêmadoenc¸ahámaistempoepiorescorena
escaladedepressãodeBeck,alémdepiordesempenhofísico.
Foiencontradoqueaquelescommedodecairapresentaram
piorcapacidadefísicaefuncional,talvezpornãofazeremos
testescomcapacidademáxima,oquecompromete
parcial-menteosresultadosdostestesfísicosfeitos.
Comrelac¸ãoaousodemedicamentonãofoiencontrada
diferenc¸asignificativaentreosgruposdecaidoresenão
caido-res,assimcomoSmuldersetal.13Naliteraturafoiencontrado
queomaiorriscodequedaestárelacionadoamaior
quanti-dadedemedicamentoqueopacientetoma(OR=1,4428)eao
usodeantidepressivo(OR=2,0928)edeesteroides.14
Assimcomonaliteratura,emboraaidadeseja umfator
de risco importante e comumente associado à presenc¸a
de quedas, essa não apresenta associac¸ão com a
ocorrên-ciadequedas empacientescom AR.4,7,9–15,17 Umapossível
explicac¸ãoparaissoéquepessoascomAR(nãocontroladas
oujácomsuassequelas)apresentamfatoresderisco
seme-lhantesàscaracterísticasfisiológicasdoenvelhecimentoque
aspredispõemaquedas.Assim,essespacientes
apresenta-riamumenvelhecimentoprecoce,aomenosdopontodevista
dosistemalocomotor.Detodososestudos,apenasBugdayci
etal.16encontraramassociac¸ãoentreaidadeeaocorrência
dequedaseSchoberetal.42encontraramqueamaioridade
foiassociadaaummaiorriscodequedaempacientescom
AR,foiapontadapelaliteraturaanecessidadedese
investi-garmaisarelac¸ãodaidadecomaocorrênciadequedasnessa
populac¸ão.14,17
Comrelac¸ão àdurac¸ãoda doenc¸a,amédiadosestudos
encontradosfoide11 a17anos,5,7–11,13,15,17 nossamediana
foide10anos.Nãofoiencontradaassociac¸ãoentreadurac¸ão
da doenc¸a e a ocorrência de quedas no presente estudo
(=−0,015,p=0,888),assimcomováriosoutros.5,9,11,13,17
O escore médio da atividade da doenc¸a (avaliado pelo
DAS28) encontradoem nosso estudode 3,6(± 1,3) mostra
moderadaatividade,masnãoseassociaaocorrênciade
que-das (=0,050, p=0,629). Assim como Stanmore et al.12,14 e
DuyurC¸akatetal.,7nogrupodoscaidoresoescoreda
ativi-dadedadoenc¸aémaiordoquenogrupodosnãocaidores
(3,7e3,5respectivamente).JáHayashibaraetal.9não
encon-traramdiferenc¸anoDAS28entreoscaidoresenãocaidores.
AssimcomoBohleretal.17foiencontradaassociac¸ãoentre
aatividadedadoenc¸aeodesempenhonostestesfísicos.Isso
indicaquepacientescomadoenc¸aemmaioratividade
pos-sivelmenteapresentemmaisdificuldadesdefazer ostestes
físicoseobtenhampioresresultados.
Aamostraestudadaemsuagrandemaioriatem
compro-metimentofuncionaldeleveamoderadopeloHAQ;háuma
associac¸ãomoderadaentreopior escorefuncionaleopior
desempenhonostestesfísicos,porémnãosemostrou
associ-adoàocorrênciadequedas.DeacordocomMarquesetal.,18
aincapacidadefuncional,obtidapormeiodoHAQ,éo
princi-palfatorderiscoparaquedaempacientescomARbrasileiros.
Aliteraturamostra queaquelescomescoresmaiselevados
noHAQtêmmaiororiscodequeda,caírammaisnoúltimo
ano, têm mais medo de cair (assim como encontrado em
nossaamostra)eapresentarampiordesempenhoemtestes
físicos.4,5,7,10,13,14,17
Observou-senaliteraturafaltadepadronizac¸ãonaescolha
dostestesfísicosparaseavaliaroriscodequedas.No
pre-senteestudo,foramusadosinstrumentosvalidadosquesão
amplamente usadosno Brasil.Não houve associac¸ãoentre
ocorrênciapréviadequedaedesempenhonostestesfeitos
emnossaamostradepacientescomAR.Aassociac¸ãoentre
quedasepiordesempenhoemtestesdeequilíbrioe
desem-penho físico podeserdifícil deidentificar pois osmesmos
fatoresquelevamaoprejuízofuncional,potencial
predispo-nenteaocorrênciadequedas,tambémlimitamasatividades
dopaciente epodem reduzirsuaexposic¸ão asituac¸ões de
risco.
O presente estudo apresenta algumas limitac¸ões. As
informac¸õessobreaocorrênciadequedasobtidaspelo
autor-relatotendemasersubestimadas(viésdememória)emuitos
estudossugeremquesejamfeitosestudosprospectivosnos
quaisasquedassãocontroladasporcalendáriosdequedas
e/ou telefonemas e porperíodos maiores doque um ano,
poispodenãosersuficienteparadistinguircaidoresdenão
caidores.9,10,12,13,15–17 Alguns estudos11,12,14 apontam que o
fatodeaamostraserdeumambulatóriodereferênciapode
nãorepresentarbemapopulac¸ãocomARemgeral:espera-se
quetenhamcasosmaisgravesdeAR,porémmesmoosmais
gravespodemestarbemporteracessoaumbomtratamento.
Nãotersidoconsideradooníveldeatividadefísicados
paci-enteseaamplafaixaetáriatambémsãolimitac¸õesdoestudo.
Aocorrênciadequedaéumeventomultifatorialcomplexo
cuja predic¸ão podeser difícil mesmo com o usoconjunto
demedidasdeatividadedadoenc¸a,funcionalidadeetestes
físicos.Ostestesfísicosnãomostraramassociac¸ãocoma
ocor-rênciadequedasprévias,sugeremquesejamfeitosestudos
deoutrosinstrumentosdepredizeraocorrênciadequedasna
populac¸ãocomAR.
Conclusões
Confirma-seaprevalênciaaumentadadequedasem
pacien-tescomAR,porémnãosemostrouassociadaaidade,sexo,
durac¸ãoeatividadedadoenc¸a,capacidadefuncional,
quan-tidadede medicamentoetestede aptidão física.Os testes
físicosfeitosmostraramassociac¸ãocom aidade, durac¸ãoe
atividadedadoenc¸aeprincipalmentecapacidadefuncional.
Financiamento
Bolsade Mestradoda Coordenac¸ão deAperfeic¸oamento de
PessoaldeNívelSuperior(Capes).
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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