Estudo Nacional da Rede Europeia HBSC /OMS (1998)
Margarida Gaspar de Matos Celeste Simões Susana Fonseca Carvalhosa Carla Reis
Faculdade de Motricidade Humana /Programa de Educação Para Todos - Saúde
"A SAÚDE DOS ADOLESCENTES PORTUGUESES"
Estudo Nacional da Rede Europeia HBSC /OMS (1998)
Equipa pela F.M.H.
Prof.ª Dr.ª Margarida Matos Dr.ª Celeste Simões Dr.ª Susana Carvalhosa Dr.ª Carla Reis
Dr.ª Lúcia Canha
Consultores
Prof. Dr. Luís Sardinha Prof. Dr. Alves Dinis Dr.ª Catalina Pestana
Equipa pelo PEPT Saúde
Dr.ª Maria da Luz Duque Dr.ª Fernanda Oliveira Dr. Orlando Duarte Dr.ª Alice Costa Dr. Jorge Costa Dr.ª Isabel Reis Dr.ª Dorinda Calha Dr. Carlos André
Equipa pelo GPT /CML
Dr.ª Filomena Marques Dr.ª Cláudia Cruz
Financiamento
Faculdade de Motricidade Humana Projecto Vida
PEPT Saúde GPT /CML
ÍNDICE
PREFÁCIO 5
RELEVÂNCIA DO ESTUDO 7
INTRODUÇÃO 13
REVISÃO DA LITERATURA 15
METODOLOGIA 20 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS 23
EXPECTATIVAS FUTURAS 25
HISTÓRIA DE CONSUMOS 27
Álcool 28
Tabaco 30 Drogas 32 PRÁTICA DE EXERCÍCIO FÍSICO E TEMPOS LIVRES 36
Exercício Físico 37
Tempos Livres 41
HÁBITOS ALIMENTARES E DE HIGIENE 43 BEM ESTAR E APOIO FAMILIAR 48
AMBIENTE NA ESCOLA 54
Amigos 56
Professores 58 Violência 60
IMAGEM PESSOAL 65
QUEIXAS PSICOLÓGICAS E SOMÁTICAS 68 CRENÇAS E ATITUDES FACE AO HIV /SIDA 73 SÍNTESE DAS DIFERENÇAS ENTRE SEXO E IDADE 78 CONCLUSÃO 83
DIFERENÇAS POR REGIÃO 87
REFERÊNCIAS 111
Os jovens são o garante do futuro da Humanidade, e a “herança” que os adultos lhes deixarem será determinante.
Liberdade, tolerância, compreensão de si e dos outros, capacidade para agir em diferentes momentos e situações – no grupo de amigos, nos tempos livres, na escola/trabalho, na família – são valores de que os jovens se virão um dia a orgulhar.
Uma boa saúde é um dos maiores recursos para o desenvolvimento social económico e pessoal, e uma dimensão importante da qualidade de vida, como vem referido na carta de Otawa.
Os serviços de saúde detêm uma particular responsabilidade na promoção da saúde, que decorre na especificidade da sua intervenção, mas também das múltiplas oportunidades de contacto directo dos profissionais com pessoas que a eles acorrem, e com as comunidades que servem.
Mas a promoção da saúde não depende só do sector da saúde e necessita da participação activa de outras estruturas da comunidade. É uma tarefa que a todos diz respeito e se concretiza através da acção de cada um de nós e nos diferentes contextos ambientais que nos rodeiam.
É um processo que se faz com as pessoas, que parte dos seus problemas e necessidades e que visa contribuir para a capacitação e o desenvolvimento de recursos individuais e colectivos no sentido da obtenção de melhores níveis de bem estar e qualidade de vida.
Só através de processos que assentem na valorização das pessoas e na criação de condições que lhes permitam desenvolver todo o seu potencial de saúde e humano, será possível vir a formar novas gerações mais saudáveis e aptas a enfrentar os desafios do futuro.
Penso que este estudo poderá ser um valioso contributo na definição de uma melhor política de saúde e bem-estar das crianças e jovens portugueses.
Maria da Luz Duarte Duque Junho 2000 Representante da Ministra da Saúde na Comissão Interministerial do Programa de Educação Para Todos
O Programa Aventura Social e Saúde, da Faculdade de Motricidade Humana, coordenado pela Professora Margarida Gaspar de Matos, integrou desde o ano lectivo de 1995/96 a rede de investigação patrocinada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) Health Behaviour of School-Aged Children (HBSC).
Conhecer os comportamentos e os estilos de vida dos adolescentes, integrados nos sistemas educativos, é em nosso entender, condição determinante para poder intervir adequadamente em estratégias preventivas.
Portugal tem em relação à complexidade dos problemas que hoje se colocam às crianças e adolescentes, que frequentam a escola pública um défice de respostas superior ao da maioria dos países da Europa. Este fenómeno tem causas históricas que facilitam a sua compreensão: - até meados da década de sessenta a escolaridade obrigatória era legalmente de seis anos e na prática, a grande maioria frequentava apenas os primeiros quatro.
A mudança de regime decorrente da revolução de 1974, democratizou a escola, alargou para 9 anos a escolaridade básica e o modelo escolar pensado para elites, sofreu em finais de setenta a explosão que tivera lugar em meados de cinquenta na Europa saída da 2ª guerra. Vinte e cinco anos de atraso numa sociedade que se transformou à velocidade do som.
A escola deixou de ser apenas o espaço de instrução e da socialização para ter que se ocupar também da educação em sentido amplo. Entre as diversas vertentes, a educação para a saúde ocupa um papel determinante. Se considerarmos com Cristoph Djours que, “a saúde é a capacidade de cada homem, mulher ou criança para criar e lutar pelo seu projecto de vida, pessoal e original, em direcção ao bem estar”, cabe sem dúvida aos sistemas educativos, perante o conhecimento rigoroso das características e dimensão dos problemas de saúde, condicionados pelos comportamentos, para eles construir respostas preventivas que são parte integrante da formação global do cidadão.
O Dictionaire Encyclopedique de l ´Education (1994), Nathan Paris, define prevenção desta forma, (...) ”É de educação que se trata, do desenvolvimento harmonioso e dinâmico de cada humano, do conjunto das suas potencialidades (afectivas, morais, intelectuais, físicas e espirituais)” (...) transformação positiva, dinâmica e contínua de pessoa.
O volume de conhecimento que este estudo pôs à disposição de pais, professores, psicólogos e profissionais de saúde e educação em geral afigura-se-me determinante na alteração das práticas educativas neste fim de milénio.
Desejo profundamente que os decisores políticos tenham tempo para o ler.
Catalina Pestana Junho 2000 Directora do Plano de Eliminação do Trabalho Infantil
RELEVÂNCIA DO ESTUDO
*NA ELABORAÇÃO DE PROGRAMAS DE PROMOÇÃO E EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE NOS JOVENS
Saúde…
Observou-se nas últimas décadas a passagem de um conceito de “Saúde”, que se baseava na dicotomia “Saúde /Doença” para outro mais lato e presentemente já perfeitamente reconhecido, que se lê “Saúde Positiva” e que se define como “não apenas a ausência de doença mas um completo estado de bem estar físico, mental e social (OMS, 1993, p. 5).
No entanto esta assumpção de “Saúde Positiva” tem sempre de ser enquadrada em termos não só individuais como interpessoais e ambientais, isto é, o significado de “Saúde /bem estar”, varia de grupo para grupo, de cultura para cultura. “Saúde” é uma percepção intra e inter pessoal que depende do modo como cada um de nós se sente (ou sente um outro) doente ou não, em função de cada momento da sua vida e da sua história individual e grupal.
Ter “Saúde” não é pois só um objectivo individual mas um objectivo de cada comunidade nas suas rotinas do dia a dia, que inclui aspectos ligados à Saúde física mas também à Saúde mental e interpessoal. Depende não só da escolha individual em adoptar comportamentos de saúde ou de risco, mas também do meio ambiente no qual os indivíduos estão envolvidos e da capacidade deste em permitir escolhas saudáveis. Por isso qualquer programa de Promoção e Educação para a Saúde tem que visar não só acções sobre os indivíduos como também acções sobre o ambiente e sistema social e político.
O enfoque sobre os indivíduos tem de incluir não só acções educativas, mas também acções de facilitação do desenvolvimento pessoal e social que promovam competências de vida que permitam aos indivíduos preferir comportamentos de saúde e estilos de vida saudáveis, na sua acepção mais lata, e que os capacitem para depois vir a intervir activamente no meio envolvente de modo a mudá-lo para optimizar este processo.
Esta abordagem sublinha questões como a participação activa dos indivíduos no processo de decisão e implementação de medidas que visem melhorar a sua saúde e a da comunidade.
Neste processo é preciso criar uma visão partilhada do que são envolvimentos saudáveis, seleccionar objectivos prioritários, e posteriormente desenvolver, implementar e avaliar planos de acção. Para todo este processo se sublinha o papel participativo e capacitativo de todos os intervenientes. Quanto aos resultados o enfoque é fazer o que for possível para que as pessoas tenham as melhores condições para se sentirem mais felizes e mais saudáveis.
Na implementação de programas em diversos contextos em que a escola aparece privilegiada, é absolutamente necessário essa visão partilhada e participada do que é um projecto promotor de saúde. Posteriormente vai-se afinando uma linguagem comum, vai-se garantindo a comunicação, promovendo a capacitação e participação de todos os indivíduos envolvidos, tendo em mente que as coisas não acontecem sozinhas nem acontecem de um momento paro o outro e que o trabalho em regime de voluntariado se arrisca à exaustão a médio prazo.
Há ainda que ter em mente que não há só intervenções positivas e intervenções que não dão resultado, há também intervenções negativas, de onde a necessidade de garantir uma avaliação com base em indicadores de realização, quer a nível dos processos, quer a nível do impacto, quer ainda a nível dos produtos esperados.
Estilos de vida saudáveis…
A experiência dos indivíduos e factores relacionados com o seu envolvimento físico e social favorecem que estes desenvolvam comportamentos de risco ou, por outro lado, actuam como factores de protecção. Assim reforçar nos indivduos escolhas saudáveis em termos de estilo de vida tem de passar por uma reorganização do ambiente físico, social, cultural e económico.
* HBSC (Health Behaviour in School-aged Children) /OMS
Um dos factores que determina os estilos de vida é a desigualdade entre países e entre indivíduos dentro de cada país. Os indivíduos e países social e economicamente privilegiados têm uma maior amplitude de escolhas na procura de um estilo de vida saudável, enquanto que outros têm que se debater com questões fundamentais da existência, sobrevivência e direitos humanos. A pobreza limita o espectro dos estilos de vida acessíveis e está intimamente ligada à saúde.
No entanto, nos países em vias de desenvolvimento, ao mesmo tempo que se assiste a uma diminuição da importância de certos riscos para a saúde (doenças infecciosas, e ligadas ao saneamento p.e.), assiste-se a um aumento dos riscos de saúde ligados a esse mesmo
“desenvolvimento”, doenças ligadas ao stress, consumo de tabaco, álcool e drogas, acidentes de viação, doenças cardíacas.
Também no que diz respeito aos estudos das causas das doenças, se passou de um enfoque na causa orgânica para a procura de causas multifactoriais e desta relação com os estilos de vida. Parece pois evidente que nos países desenvolvidos o enfoque dos serviços de saúde passe para um maior ênfase na promoção e educação para a saúde tentando levar os indivíduos a adoptar estilos de vida saudáveis, desde as idades mais precoces. Daí a importância crescente atribuída ao trabalho a nível das escolas e das famílias.
Green (1986) tenta isolar factores que influenciam a escolha de comportamentos ligados à saude, passíveis de serem modificados por intervenções pedagógicas: factores predisponentes relacionados com o indivíduo, o seu sistema de valores, crenças e motivações, factores relacionados com as competências e conhecimentos individuais, e factores relacionados com o contexto (crenças, normas e atitudes de grupo). Green defende, que a utilização de estratégias centradas nestes três factores potencia o sucesso de intervenções educativas.
Mendoza e Sagrera (1990) falam de estilo de vida como um conjunto de padrões de comportamento que definem a maneira comum de viver de um indivíduo num grupo. Tem a ver com o modo como se relacionam as aprendizagens de um indivíduo no seu processo de socialização e as condições de vida nesse mesmo grupo.
Os estilos de vida estão pois ligados aos valores, às motivações, às oportunidades e a questões específicas ligadas a aspectos culturais, sociais e económicos (OMS, 1985).
Nao há um mas vários tipos de estilos de vida “saudáveis”, esta variedade estabelece-se em função do grupo onde cada indivíduo está inserido e das próprias características individuais.
Determinantes de estilos de vida saudáveis…
Vimos pois que para a compreensão da adopção de comportamentos de saúde é necessário considerar não só os tais factores individuais (atitudes, interesses, informação, educação), como também factores do envolvimento como grupo familiar, grupo social, ambiente do trabalho ou escola, comunidade onde vive, ainda outros factores mais sistémicos do envolvimento como o sistema social, instituições, cultura, regime político e ainda, por outro lado as características do nicho ecológico e geográfico. Estes quatro factores (Mendoza et al., 1990) estão em permanente interacção e moldam assim os comportamentos dos indivíduos ligados à saúde ou ao risco.
O aumento da esperança de vida acarretou com ele uma saúde mais fragilizada com indivíduos mais tendentes a sobreviver mais tempo a doenças degenerativas crónicas (cancro, doenças circulatórias, osteoporose, diabetes, artrite). Aspectos como a nutrição, a actividade física, o tabagismo, o alcoolismo, a exclusão social, o isolamento social, o stress laboral, estão na base de um estilo de vida mais ou menos saudável que não havendo preocupações na sua prevenção poderão tornar-se factores ligados ao risco.
Argyle (1997) defende que a felicidade, o humor e a Saúde se inter-influenciam. Indica ainda um conjunto de factores pessoais e sociais que influenciam a saúde, quer directamente quer por influenciarem a felicidade e o humor. Estes factores incluem as relações interpessoais, o ambiente laboral e a motivação com o trabalho, a classe social, o exercício físico e o lazer.
Lidando com contextos ambientais adversos…
Investigações das últimas décadas têm demonstrado um interesse cada vez maior pelo estudo das capacidades adaptativas das pessoas face a condições adversas, isto é, pela razão porque diferentes indivíduos reagem de modo diferente à mesma situação stressante e utilizam diferentes respostas adaptativas. Vários conceitos têm emergido destes estudos.
Um destes conceitos é a “resiliência” e não é um conceito simples. Tem a ver justamente com as razões porque algumas pessoas conseguem organizar-se para lidar com a adversidade.
Pode ser particularmente importante em períodos de transição como p.e. a que ocorre em momentos diferentes da vida, na entrada para a escola, na adolescência ou entrada no mundo do trabalho. Transições incluem ainda acontecimentos inesperados ou sem controlo por parte dos indivíduos, tais como desemprego, divórcio ou pobreza.
Recentemente têm aparecido vários programas com base na comunidade escolar que se destinam a promover a resiliência como meio de possibilitar a adaptação dos indivíduos. São sobretudo programas que têm como enfoque o aumento da capacidade de comunicação, a resistência, a influência do grupo de pares e outras competências sociais. Estes programas incluem conteúdos como a comunicação interpessoal verbal e não verbal, a resolução de problemas e gestão de conflitos, as competências sociais básicas e complexas, as estratégias de lidar com o stress, as estratégias de lidar com a ira, as estratégias de planeamento e de tomada de decisão. E apresentam-se na sua forma e orientação teórica estruturalmente semelhantes aos que se utilizam para a promoção de competências sociais (Matos, 1994, 1997).
Vários autores citados por Wang, Reynolds & Walberg. (1995) referem que as crianças resilientes apresentam em geral bom nível de competências sociais, bom relacionamento interpessoal, são centradas em objectivos e têm boa capacidade de empreender e concretizar tarefas e de resolver problemas. As que apresentam história de acontecimentos stressantes apresentam experiências compensatórias p.e. talentos especiais ou boas relações com os pais e os professores. Rutter (1990, citado por Wang, 1995) refere que as crianças resilientes apresentam uma maior capacidade de planear, modificar o envolvimento e mudar com sucesso as suas vidas.
O ambiente da escola tem um papel importante na promoção da resiliência nos estudantes, sendo um ambiente favorável o que envolve a participação dos estudantes e tem níveis elevados de exigência.
Mangham, McGrath, Reid e Stewart (1995a, 1995b) referem como factores contribuindo para uma atitude resiliente, as competências pessoais e o suporte ambiental. Aqui incluem-se a boa saúde física, o bom relacionamento interpessoal, a ausência de conflitos familiares e a baixa exposição a stressores. Salientam estes autores que, no Canadá, a resiliência tem sido estudada com vista à sua utilização em programas de promoção da saúde, quer a nível do indivíduo, quer a nível da família, quer a nível da comunidade.
Antonovsky (1984) apresenta por outro lado, a ideia que a saúde varia num contínuo entre um polo de bem estar e um polo de doença, ao invés da dicotomia habitual doente ou não doente, e vem depois falar (Antonovsky e Sagy, 1986) de um outro conceito, o “sentido interno de coerência”, como determinante para uma orientação positiva do indivíduo no tal contínuo “bem estar /doença”, isto tanto do ponto de vista físico como psicológico.
Para Antonovsky et al. (1986), o sentido interno de coerência tem a ver com um conjunto de respostas adaptativas que se consubstanciam numa capacidade de percepcionar, interpretar e dar significado às experiências pessoais de vida e desenvolvimento de estratégias ajustadas e flexíveis para lidar com os desafios do dia a dia. Este sentido interno de coerência refere-se à capacidade dos indivíduos percepcionarem o mundo como previsível e compreensível (compreensibilidade), se percepcionarem como capazes de lidar com as exigências do dia a dia (capacidade de gestão) e percepcionarem essas exigências como desafios (em vez de como “problemas”) merecedores de um investimento pessoal (significado).
Lazarus e Folkman (1984) já anteriormente tinham referido o conceito de “coping” como o conjunto de esforços que o indivíduo empreende para tolerar, reduzir, dominar e evitar os problemas que advêm das exigências do envolvimento ou pessoais. Este conceito de “coping”
tem a ver quer com a capacidade de mudar as condições adversas, quer com a capacidade de resistir a elas. Lazarus refere ainda dois tipos de estratégias individuais, um tipo de estratégia mais focalizada na regulação das emoções (mais ajustada quando a resolução do problemas não está ao alcance dos indivíduos), e um outro tipo de estratégia mais focalizada nos problemas (quando as situações são alteráveis), como exemplos de ambas as estratégias temos o auto-controlo, a resignificação, a relativização, a procura de suporte social, o evitamento, o distanciamento ou a solução de problemas.
Por fim Kobasa, Maddi e Kahn (1982) introduzem o conceito de “hardiness”, como relacionável com a procura activa de bem estar. “Hardiness” tem a ver com a característica individual de acreditar que se pode modificar os acontecimentos (controlo), que se está envolvido com pessoas e situações da sua vida (comprometimento) e com a tendência a ver nas alterações da vida uma oportunidade para crescer em vez de uma ameaça à segurança e estabilidade (modificação).
Promoção da Saúde…
Promoção da saúde, segundo a carta de Otawa (1986) é “um processo de capacitar as pessoas a aumentar o controlo sobre a saúde e melhorá-la”.
Assim, promover a saúde significa, a um nível não só individual mas sistémico, criar um sistema de saúde que permita a cada pessoa não apenas a prevenção das doenças mas a possibilidade de promover e proteger a sua saúde.
Promover a saúde tem a ver com a acessibilidade a estilos de vida saudáveis, reduzindo outros mais ligados ao risco de doença. Uma vez mais esta medida tem tradução tanto no indivíduo como no sistema político e organização social das comunidades.
Promover a saúde tem a ver com medidas no dia a dia, medidas essas que tornem a opção por estilos de vida saudáveis, a opção fácil e prestigiante do ponto de vista do reconhecimento social. Este facto é sobretudo importante na adolescência, onde por vezes a adopção de estilos de vida saudáveis é vista como “cinzenta, aborrecida, desprestigiante e desinteressante”, ao passo que os consumos e as velocidades, por exemplo, e em geral “transgredir”, não usar cinto de seguranca, envolver-se em lutas, não usar capacete, são vistos como excitantes e fonte de prestígio social. É pois preciso reduzir as barreiras físicas, económicas e culturais que dificultam estas escolhas. É também necessário incluir o indivíduo como parte deste processo de controlo e responsabilização individual sobre a sua saúde e a saúde da comunidade.
Num estudo realizado por Green e Kreuter (1991) em que estes tentam apurar quais são os comportamentos que os adolescentes percepcionam como saudáveis e como problema, concluíram que comportamentos saudáveis são a abstinência de drogas, o comportamento pró-social e o bem estar pessoal, como comportamentos contrários à saúde aparecem-nos o consumo de tóxicos, o comportamento anti-social e o sexo não protegido.
Educação para a Saúde…
Num inquérito realizado com jovens portugueses em que estes eram inquiridos sobre aspectos da sua vida afectiva e sexual (Matos, Gomes, Silvestre, Fernandes, Jorge, Nunes, Bizarro, Frazão, Canha e Duarte, 1994), concluiu-se que os jovens estavam em geral bem informados no que diz respeito à prevenção da gravidez não desejada e às doenças sexualmente transmissíveis, no entanto tinham por vezes dificuldades em transformar esses conhecimentos em comportamentos de saúde.
É nesta discrepância entre “informação” e “adopção de comportamento” que fazem sentido medidas promocionais que ajudem os jovens a transformar os seus conhecimentos em práticas de saúde. Para tal, propõem-se programas de promoção de competências pessoais e sociais que capacitem o jovem a identificar e resolver problemas, gerir conflitos interpessoais,
optimizar a sua comunicação interpessoal, defender os seus direitos, resistir à pressão de pares, etc. e com estas aprendizagens optimizar a sua capacidade de escolher um estilo de vida saudável e de o manter (Matos, 1994, 1997).
A educação para a saúde não se pode limitar a adoptar uma abordagem específica das doenças, nem pode privilegiar o cariz informativo ou instrumental ou mesmo visar apenas o desenvolvimento de crenças e atitudes. As acções educativas têm de ser integradas num contexto mais vasto de promoção da saúde, não só para que sejam os próprios indivíduos a tomar decisões e a responsabilizarem-se pela sua saúde, como para que estes mesmos indivíduos se sintam competentes para adoptar estilos de vida saudáveis, como ainda para que o envolvimento físico e social seja favorável a estes estilos de vida permitindo uma acessibilidade fácil, socialmente valorizada e duradoura.
Da Investigação à Intervenção…
Os comportamentos de saúde são, como já referimos, muito complexos e o estudo de como estes comportamentos aparecem e se estabelecem na infância e na adolescência tem que ter em conta os cenários mais relevantes da vida destes jovens: a família, a escola e o grupo de pares. Efectivamente muitos factores ligados à protecção e ao risco na área da saúde, tiveram a sua génese na infância e na adolescência, fruto de uma aprendizagem social, de uma experimentação ou de uma adesão a um grupo de pertença, que se tornou uma alternativa.
Assim numa perspectiva de promoção e educação para a saúde, os jovens são um importante alvo sendo de prever acções específicas para cenários específicos.
Por outro lado estes jovens, enquadrados no sistema de ensino regular tornam-se mais acessíveis a programas de incentivo que favoreçam escolhas de estilos de vida saudáveis.
Como base num trabalho de intervenção na Escola, no âmbito da Promoção e Educação para a Saúde, é útil definir então primeiro o “estado da arte” dos conhecimentos científicos nesta área. Daí a importância de estudos actuais, como é o caso do HBSC /OMS (King, Wold, Tudor- Smith & Harel 1996), que visem a compreensão dos comportamentos dos jovens ligados ao risco ou à saúde, do entendimento do que é a saúde por parte destes mesmos jovens, dos seus estilos de vida e das suas interacções com cenários envolvimentais relevantes (a escola, a família, os pares, as estruturas comunitárias), e que monitorizem a evolução deste conhecimento através da actualização periódica do estudo.
O que se pretende a seguir é uma elaboração esclarecida de programas de intervenção nas escolas, que promovam os comportamentos de saúde como um objectivo dos jovens, e apoiem a implementação e manutenção de estilos de vida saudáveis.
REFERÊNCIAS
Antonovsky, A. (1984). The sense of Coherence as a determinant of health. In J. Matarazzo, S.
Weiss, J. Herd & N. Miller (Eds.). Behavioral health - A Handbook of health enhancement and disease prevention (pp. 114-129). NY: Wiley & Sons.
Antonovsky, H. & Sagy, S. (1986). The development of sense of coherence and its impact on responses to stress situations. Journal of Social Psychology, 126, 213-285.
Argyle, M. (1997). Is happiness a cause of health?. Psychology and Health, 12, 769- 781.
Green, L. W. (1986). Measurement and evaluation in Health Promotion and Health Education.
Palo Alto: Mayfield.
Green, V. L., & Kreuter, M. W. (1991). Health promotion planning: an educational and environmental approach (2nd ed.). London: Mayfield.
Kobasa, S., Maddi, S., & Kahn, S. (1982). Hardiness and health: a prospective study. Journal of personality and social psychology, 42 (1), 168-177.
King, A., Wold, B., Tudor-Smith, C., & Harel, Yossi (1996). The health of youth: a cross-national survey. Canada: WHO.
Lazarus, R. S., & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal and coping. NY: Springer.
Mangham, C., McGrath, P., Reid, G., & Stewart, M. (1995a). Resiliency: relevance to health promotion - discussion paper. Ministry of supply and services. Catalogue nº H39- 330/101995E.
Mangham, C., McGrath, P., Reid, G., & Stewart, M. (1995b). Resiliency: relevance to health promotion - detailed analysis. Ministry of supply and services. Catalogue nº H39- 330/101995E.
Matos, M. (1994). Corpo, Movimento & Socialização. Rio de Janeiro: Sprint.
Matos, M., Gomes, A., Silvestre, A., Fernandes, C., Jorge, C., Nunes, F., Bizarro, J. Frazão, J., Canha, L. & Duarte, S. (1994). Comportamentos sexuais de risco na adolescência.
Educação Especial e Reabilitação, 2, 41-46.
Matos, M. (1997). Comunicação e gestão de conflitos na escola. Lisboa: Edições FMH.
Mendoza, R., & Sagrera, M. (1990). Los escolares y la Salud - Avance de los resultados del segundo estudio espanol sobre conductas de los escolares relacionadas com a Salud.
Madrid: Plan Regional sobre Drogas-Ministerio de Educacion e Cultura.
Organização Mundial de Saúde (1985). As metas da saúde para todos. Lisboa: Departamento de Estudos e Planeamento - Ministério da Saúde.
Organização Mundial de Saúde (1986). Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde (Direcção Geral de Saúde, Trad.). Versão portuguesa "Uma Conferência Internacional para a Promoção da Saúde com vista a uma nova Saúde Pública", 17-21 Novembro, Ottawa, Canada.
Organização Mundial de Saúde (1993). The health of young people: A challenge and a promise. Geneva: WHO.
Wang, M., Reynolds, M. & Walberg, H. (1995). Handbook of Special and Remedial Education:
research and practice (2nd ed.). Great Britain: Pergamon.
Margarida Gaspar de Matos Professora FMH/UTL Coordenadora Nacional do HBSC/OMS
INTRODUÇÃO
Em 1982, o primeiro estudo Health Behaviour of School-Aged Children (HBSC) foi levado a cabo por investigadores da Inglaterra, Finlândia e Noruega. Actualmente mais de 30 países estão envolvidos tratando-se de um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Portugal participou nos últimos dois estudos conduzidos em 1995-1996 (Matos, Simões
& Canha, 1999) e 1997-1998, através do projecto Aventura Social & Saúde desenvolvido na Faculdade de Motricidade Humana.
A presente brochura apresenta as atitudes e comportamentos de saúde dos jovens portugueses, em idade escolar, do último estudo realizado em Portugal Continental. Foram inquiridos 6903 alunos dos 6º, 8º e 10º anos de escolaridade, do ensino regular.
O próximo estudo Nacional do HBSC está planeado para o ano escolar de 2001-2002.
SAÚDE
Muitas vezes quando se refere a palavra saúde, pensa-se apenas em não estar doente. Mas, saúde é muito mais do que isso…
O conceito de saúde é definido pela Organização Mundial de Saúde, como "um estado completo de bem-estar físico, social e mental, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (WHO, 1993, p. 5).
Assim, a saúde é considerada como um direito humano fundamental e, consequentemente, todas as pessoas devem ter acesso aos meios básicos para a saúde. Uma ampla compreensão de saúde, requer que todos os sistemas e estruturas que dirijam as condições sociais e económicas e o envolvimento físico, devam ter em conta as implicações das suas actividades, em relação ao seu impacto na saúde e bem-estar individual e colectivo (Nutbeam, 1998).
De acordo com o conceito de saúde como um direito humano fundamental, a Carta de Ottawa (OMS, 1986), enfatiza alguns pré-requisitos para a saúde que incluem paz, meios económicos adequados, alimentação e abrigo, e um ecossistema estável e uso de meios sustentáveis. O reconhecimento destes pré-requisitos realça as ligações entre as condições sociais e económicas, o envolvimento físico, os estilos de vida individuais e a saúde. Estas ligações fornecem a chave para uma compreensão holística do conceito de saúde, o que é central para a definição de promoção da saúde.
PROMOÇÃO DA SAÚDE
No contexto da promoção da saúde, a saúde tem sido menos considerada como um estado abstracto, e mais como um meio para um fim, que pode ser expresso em termos funcionais, como um recurso que permite as pessoas levarem uma vida individual, social e econonicamente produtiva (Nutbeam, 1998).
A promoção da saúde representa um amplo processo social e político, que incluem não só acções dirigidas ao fortalecimento das habilidades e capacidades dos indivíduos, mas também acções dirigidas para a alteração das
condições sociais, envolvimentais e económicas, assim como, minorar o seu impacto na saúde pública e individual. A promoção da saúde, ao melhorar a qualidade de vida, é o processo de habilitar pessoas para aumentar o controlo sobre os determinantes da saúde e por meio disso melhorar a sua saúde. A participação dos indivíduos é essencial para manter a acção da promoção da saúde (WHO, 1986).
Saúde
A saúde é um recurso para o dia a dia. É um conceito positivo enfatizando os meios sociais e pessoais assim como as capacidades físicas (Nutbeam, 1998).
Promoção da saúde
É definida como o processo de habilitar pessoas para aumentar o controlo sobre, e melhorar, a sua saúde (WHO, 1998, citado por Nutbeam, 1998).
Qualidade de vida
É a percepção dos indivíduos de que as suas necessidades estão a ser satisfeitas e que não lhes estão a ser negadas oportunidades de alcançar felicidade e satisfação, não obstante o estado físico de saúde, ou condições sociais e económicas (WHO, 1998, citado por Nutbeam, 1998).
O objectivo de melhorar a qualidade de vida tem vindo a tornar-se de progressiva importância na promoção da saúde (Nutbeam, 1998).
Qualquer actividade desenvolvida por um indivíduo, indiferente do seu estado de saúde actual ou percebido, com o objectivo de promover, proteger ou manter a saúde, quer ou não esse comportamento seja objectivamente eficiente para o fim, é um comportamento de saúde (WHO, 1998, citado por Nutbeam, 1998).
É possível argumentar que quase todos os comportamentos ou actividades de um indivíduo têm impacto no estado de saúde. É útil distinguir entre comportamentos que são adoptados propositadamente para promover ou proteger a saúde, daqueles que podem ser adoptados indiferentemente às consequências para a saúde. Matarazzo (1984, citado por Ogden, 1999) definiu os comportamentos de saúde em termos de:
- hábitos prejudiciais para a saúde - «comportamentos patogénicos», como fumar, fazer uma alimentação rica em gorduras, beber grandes quantidades de álcool;
- comportamentos de protecção da saúde - «comportamentos imunogénicos», tais como lavar os dentes, usar cinto de segurança, procurar informação relacionada com a saúde, realizar check-ups regulares, dormir um número adequado de horas por noite.
Comportamentos de risco que são definidos como comportamentos associados com o aumento da susceptibilidade a uma causa específica de «doença-saúde» (Nutbeam, 1986).
Comportamentos de risco são formas específicas de comportamento associadas com o aumento de susceptibilidade a uma doença específica ou à
«doença-saúde» (WHO, 1998, citado por Nutbeam, 1998). Os comportamentos de risco são usualmente definidos como "perigosos" com base em dados epidemiológicos e dados psico- sociais. Alterações nos comportamentos de risco são o objectivo principal da prevenção de doenças, e tradicionalmente a educação para a saúde tem sido usada para alcançar esses objectivos. Dentro da ampla estrutura da promoção da saúde, os comportamentos de risco podem ser vistos como uma resposta, ou mecanismo para lidar com condições de vida adversas. Estratégias de resposta para a alteração de comportamentos de risco incluem o desenvolvimento de competências de vida, e a criação de mais envolvimentos facilitadores da saúde (Nutbeam, 1998).
Comportamentos de saúde e comportamentos de risco estão frequentemente relacionados em grupos num padrão de comportamentos mais complexo referido como estilos de vida (Nutbeam, 1986).
Estilos de vida (Estilos de vida que contribuem para a saúde)
Estilos de vida são um modo de vida baseados em padrões identificáveis de comportamentos determinados pela interacção entre as características pessoais do indivíduo, as interacções sociais e as condições de vida socioeconómicas e envolvimentais (WHO, 1998, citado por Nutbeam, 1998). Estes padrões de comportamentos são frequentemente interpretados e testados em diferentes situações sociais e por conseguinte não são fixos, mas sujeitos a alterações. O estilo de vida individual, caracterizado por padrões de comportamento identificáveis, pode ter um efeito profundo na saúde de um indivíduo e na saúde dos outros.
Para melhorar a saúde, habilitando os indivíduos a alterarem os seus estilos de vida, a acção tem de ser dirigida não só ao indivíduo mas também às condições sociais e às condições de vida, que interagem para produzir e manter esse padrão de comportamento.
É importante reconhecer, contudo, que não existe um estilo de vida "óptimo" para ser prescrito a todas as pessoas. A cultura, o estatuto sócio-económico, a estrutura familiar, a idade, a habilidadde física, o envolvimento em casa e no local de trabalho, farão certos estilos e condições de vida mais atractivos, possíveis e apropriados (Nutbeam, 1998).
Comportamentos de saúde
São acções praticadas por indivíduos que se percepcionam como saudáveis, com o objectivo de prevenir o surgimento de mal-estar ou doença (Kasl e Cobb, 1966 citado por Conner & Norman, 1996).
Comportamentos de risco
É qualquer actividade praticada por indivíduos, com frequência ou intensidade tal, que conduza a um aumento de risco de doença ou acidente (Steptoe e Wardle, 1996).
Adolescência
Variações e diversidade nas relações interpessoais na adolescência representam factores de risco ou protectores neste periodo de vida (Lerner, 1998; Matos, 1997).
A Carta de Ottawa (OMS, 1986), identifica 3 estratégias básicas para a promoção da saúde. Elas são: defesa da saúde para criar as condições essenciais; habilitar todas as pessoas para alcançarem todo o seu potencial de saúde; e mediar entre os diferentes interesses da sociedade na busca de saúde.
Estas estratégias estão apoiadas por 5 áreas de acção prioritárias, que são os instrumentos básicos para a promoção da saúde. Na Carta de Ottawa (OMS, 1986), acção de promoção da saúde significa:
- construir uma política de saúde pública;
- criar envolvimentos sustentadores de saúde;
- fortalecer a acção da comunidade para a saúde;
- desenvolver competências pessoais;
- re-orientar os serviços de saúde.
A Declaração de Jakarta (WHO, 1997, citado por Nutbeam, 1998), confirma que estas estratégias e áreas de acção são relevantes para todos os países.
ADOLESCÊNCIA
A adolescência é um período de desenvolvimento com rápidas alterações físicas, psicológicas, sócio-culturais e cognitivas caracterizadas por esforços para confrontar e superar os desafios e para estabelecer uma identidade e autonomia (DiClemente, Hansen e Ponton, 1996).
O processo básico do desenvolvimento do adolescente envolve modificar relações entre o indivíduo e os múltiplos níveis do contexto em que o jovem se encontra. Variações na existência e no ritmo dessas relações promovem uma grande diversidade na adolescência e representam factores de risco ou protectores através deste periodo de vida (Lerner, 1998;
Matos, 1997).
A multiplicidade de contextos sociais e interpessoais em que o adolescente se move representam desafios adicionais e possibilidades acrescidas de estes virem a desenvolver problemas de ajustamento, com consequências negativas na sua saúde (Matos, 1997).
Enquanto muitos adolescentes navegam por vezes em percursos turbulentos desde a infância à fase adulta para se tornarem adultos produtivos e saudáveis, existe uma preocupação crescente de que muitos outros podem não alcançar o seu potencial total como trabalhadores, pais e indivíduos. Infelizmente, a adolescência é também um período cheio de muitas ameaças à saúde e ao bem-estar dos adolescentes, muitos dos quais sofrem de substanciais incapacidades e diminuições (DiClemente, Hansen e Ponton, 1996).
Muitas das consequências adversas da saúde experienciadas pelos adolescentes são, dentro de um grande âmbito, o resultado de comportamentos de risco (Ginzberg, 1991, citado por DiClemente, Hansen e Ponton, 1996). Deste modo, eles são evitáveis (DiClemente, Hansen e Ponton, 1996).
Considerando que anteriormente as infecções eram a causa de uma grande parte de doenças e mortalidade, actualmente a esmagadora taxa de morbilidade e mortalidade dos adolescentes é o resultado dos estilos de vida praticados. A maioria das actuais ameaças à saúde dos adolescentes são a consequência de factores sociais, envolvimentais e comportamentais (DiClemente, Hansen e Ponton, 1996). Estes factores, que podemos designar
como factores de risco, incluem um largo espectro de comportamentos e efeitos relacionados tais como uso e abuso de substâncias, violência, suicídio, gravidez na adolescência (DiClemente, Hansen e Ponton, 1996; Lerner, 1998), álcool (Lerner, 1998), distúrbios de alimentação, e doenças sexualmente transmissíveis (DiClemente, Hansen e Ponton, 1996).
Factores de risco
Estados sociais, económicos ou biológicos, comportamentos ou envolvimentos que estão associados com ou são a causa de um aumento da susceptabilidade a uma doença específica,
«doença-saúde» ou prejuízo (WHO, 1998, citado por Nutbeam, 1998).
Como no caso dos comportamentos de risco, uma vez tendo sido identificados os factores de risco, eles podem vir a ser o ponto de entrada ou o foco para as estratégias e acções de promoção da saúde (Nutbeam, 1998).
INSTRUMENTOS
O questionário Comportamento e Saúde em Jovens em Idade Escolar utilizado neste estudo foi o adoptado no estudo europeu em 1998. Incluímos as questões demográficas e um conjunto adicional de questões sobre a imagem do corpo, sobre a violência, sobre conhecimento e atitude face ao HIV /SIDA, consumo de drogas ilícitas e representações dos factores de risco e protectores a ela associados e ainda a actividade física.
Apresenta-se assim um conjunto de questões relacionadas com expectativas para o futuro, história de consumos (consumo de álcool, tabaco e drogas), prática de exercício físico e tempos livres, hábitos alimentares e de higiene, bem estar e apoio familiar, ambiente na escola (amigos, professores e violência), imagem pessoal, queixas psicológicas e somáticas e crenças e atitudes face ao HIV /SIDA.
AMOSTRA
Os questionários foram recolhidos em 191 escolas nacionais (Quadro 1), de ensino regular, com um total de 6903 alunos inquiridos. Foram seleccionados alunos dos 6º, 8º e 10º anos de escolaridade, correspondendo cada um destes anos, a uma idade média de 11, 13 e 16 anos.
n ESCOLAS IDADE NÍVEL ESCOLARIDADE 6903 191 11 / 13 / 16 6º / 8º / 10º
Quadro 1 - Número de sujeitos e de escolas que participaram no estudo, escalões etários e níveis de escolaridade dos sujeitos
Os Gráficos 1 e 2 apresentam a distribuição destes jovens por sexo e por nível de escolaridade.
Sexo Feminino 53%
Sexo Masculino 47%
Gráfico 1 - Distribuição dos sujeitos por sexo
Gráfico 2 - Distribuição dos sujeitos por nível de escolaridade 34,9% 37,5%
27,6%
0 5 10 15 20 25 30 35 40
6º ano 8º ano 10º ano
6º ano 8º ano 10º ano
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
Os quadros seguintes (Quadros 2 a 52) apresentam os resultados obtidos para cada uma das questões do questionário. Em cada quadro referimos a questão em análise e respectivas modalidades (três níveis de frequência ou de intensidade). Nas primeiras duas linhas de cada quadro apresentamos os resultados por modalidade na amostra total. Nas linhas seguintes apresentam-se os resultados para cada questão, por modalidade em função do sexo e da idade (grupo de idade média: 11 anos como representação dos mais novos e 16 anos como representação dos mais velhos).
Estudo Comparativo
Compararam-se as respostas dos rapazes com as das raparigas e as respostas dos alunos mais novos (dos 10 aos 12 anos, = 11) com as dos mais velhos (dos 15 aos 17 anos,
= 16). Para esta variável da idade a amostra é reduzida para 4384 alunos.
Utilizou-se o teste de Qui-quadrado e residuais ajustados para localizar os grupos onde se registam diferenças significativas. Registaremos em texto apenas as diferenças significativas, aceitando uma probabilidade de erro inferior a .05.
Nos Quadros 2 a 52, as percentagem indicadas na segunda linha dizem respeito ao total da amostra, as percentagens a negrito referem-se a diferenças estatisticamente significativas entre as modalidades: Masculino (M) /Feminino (F) e 11 anos (11) /16 anos (16).
Nas questões que se referem a variáveis contínuas (número de cigarros e número de saídas nocturnas com amigos) foi utilizado o teste T de Student. Em texto foram registadas apenas as diferenças significativas, aceitando uma probabilidade de erro inferior a .05 (Quadros 8 e 34).
FOTOGRAFIA Nº 1
1. EXPECTATIVAS FUTURAS
A satisfação com a escola pode ser considerada um domínio específico, um constructo de bem estar subjectivo contribuindo para o bem estar subjectivo global e para a qualidade de vida entre os jovens. O conceito reflecte as respostas emocionais imediatas tais como felicidade, gostar da escola e um sentido de bem estar na escola (Samdal e Dür, 2000).
No quadro seguinte apresentam-se as expectativas dos jovens, no que diz respeito ao seu futuro.
Prosseguir estudos
Estudos orientados p/
vida activa
Arranjar emprego
Formação profissional
Ficar sem emprego
Não sei
59.2% 14.3% 9.5% 2.1% 0.1% 14.8%
M F M F M F M F M F M F 48.4% 68.8% 17.7% 11.2% 14.0% 5.5% 3.5% 0.9% 0.2% 0.1% 16.1% 13.5%
11 16 11 16 11 16 11 16 11 16 11 16 58.3% 62.4% 11.5% 16.2% 2.2% 2.5% 6.9% 9.9% 0.1% 1.0% 21.1% 9.0%
Quadro 2 - Expectativas futuras
Podemos verificar (Quadro 2) que a maioria dos alunos pretende prosseguir os estudos, após a escolaridade obrigatória.
Em relação ao sexo, as raparigas pretendem mais prosseguir os estudos, enquanto que os rapazes pretendem mais: prosseguir estudos orientados para a vida activa, arranjar emprego, realizar uma formação profissional ou então, não sabem.
Em termos de diferença de idade, os mais velhos referem mais frequentemente pretender prosseguir os estudos, tanto para a Universidade como para um curso Técnico e realizarem uma Formação Profissional. Os mais novos são aqueles que se encontram mais indecisos quanto ao futuro.
EXPECTATIVAS FUTURAS
Prosseguir estudos Raparigas / Mais velhos
Não sei Rapazes / Mais novos
Em relação ao sentimento pela escola, a grande maioria dos alunos gosta da escola.
São as raparigas e os mais novos que mais gostam da escola e, pelo contrário, os rapazes e os mais velhos afirmam mais frequentemente não gostarem da escola.
SENTIMENTO PELA ESCOLA
Gosto Não gosto
86.9% 13.1%
M F M F
82.9% 90.4% 17.1% 9.6%
11 16 11 16
92.6% 83.7% 7.4% 16.3%
Quadro 3 - Vida escolar: Sentimento pela escola
SENTIMENTO PELA ESCOLA
Gosto Raparigas / Mais novos
FOTOGRAFIA Nº 2
2. HISTÓRIA DE CONSUMOS
2.1 ÁLCOOL
A maioria dos estudos realizados na área dos consumos, na fase da adolescência, segundo Carvalho (1990), referem que o álcool é a substância mais utilizada pelos adolescentes. Aarons et al. (1999) refere ainda que os problemas de saúde durante a adolescência estão relacionados com o consumo de álcool e os problemas tornar-se-ão mais evidentes se o seu início for precoce.
Num estudo conduzido por Feldman, Harvey, Holowaty e Shortt, em 1999, sobre crenças e comportamentos específicos do consumo de álcool entre estudantes adolescentes da escola secundária, verificarou-se que os padrões de beber dos estudantes estão
significativamente relacionados com o género, a etnicidade, o ano de escolaridade, e os hábitos de beber dos pais e amigos. Constataram que os rapazes mais velhos estão em maior risco para o forte consumo de bebidas do que os estudantes mais novos ou raparigas. Afirmam ainda que de acordo com os seus resultados os fortes consumidores de bebidas em geral, têm um maior risco do que outros estudantes em envolver-se noutros comportamentos de grande risco tal como beber e conduzir, ser um passageiro num carro quando o condutor está intoxicado, e fumar diariamente. Os autores concluíram então que os rapazes mais velhos estão em maior risco para o forte consumo de bebidas. O consumo de bebidas corrente e forte sobe significativamente entre o 9º e o 12º ano de escolaridade. Os estudantes que consomem mais frequentemente têm mais probabilidade para beber e conduzir sob o efeito do álcool, para fumar diariamente, e para ter amigos e pais que bebem álcool.
Sieving, Perry e Williams (2000) examinaram o suporte para os modelos da influência dos pares (que postulam que os jovens adolescentes cujos amigos consomem álcool também se envolverão nesse comportamento) e da selecção dos pares (os jovens adolescentes procuram amigos cujo comportamento de beber seja similar aos seus). Os resultados indicam que níveis mais elevados do consumo de droga pelos amigos leva ao aumento do consumo de álcool pelos jovens. A relação de ordem inversa (i.e., maior envolvimento dos jovens no álcool levar a um maior consumo de droga entre amigos) não foi verificado nestes estudo.
Finalmente, os modelos melhor ajustados sustentam a noção de que tanto o consumo de álcool dos participantes como o consumo de álcool ou outra droga dos amigos é muito estável ao longo do tempo. Concluiu-se que a similaridade no comportamento de beber entre os amigos dos adolescentes pode estar mais relacionado com processos de influência dos pares do que com processos de selecção dos pares. Os resultados sustentam a utilidade de programas de prevenção do consumo de álcool que apetrechem os jovens adolescentes com competências para resistirem à influência dos pares para usarem álcool.
Efeitos negativos do consumo de álcool:
O alcoolismo aumenta a probabilidade de doenças como a cirrose hepática, o cancro, a hipertensão e os défices de memória (Smith e Kraus, 1988 citado por Ogden, 1999). O álcool aumenta a probabilidade de o próprio indivíduo se lesionar em acidentes.
Os resultados de um estudo de Sarigiani, Ryan e Peterson (1999), sobre o impacto dos comportamentos de saúde considerados de risco, no desenvolvimento e saúde das raparigas adolescentes indicam que as adolescentes femininas fumam, bebem, e envolvem-se noutras substâncias tanto como os seus companheiros masculinos, mas com maior risco para a saúde.
Nos quadros apresentados de seguida expomos as questões relacionadas com o consumo e padrão de consumo de álcool.
Sim Não 71.0% 29.0%
M F M F 74.6% 67.8% 25.4% 32.2%
11 16 11 16 47.6% 88.6% 52.4% 11.4%
Quadro 4 - Consumo de álcool: Experimentar álcool
Pela análise do quadro podemos constatar que a maioria dos jovens inquiridos já experimentou bebidas alcoólicas. É possível ainda verificar que são os rapazes e os mais velhos quem mais frequentemente refere já ter experimentado bebidas alcoólicas, enquanto que, pelo contrário, as raparigas e os mais novos referem mais, que nunca o fizeram.
EXPERIMENTAR ÁLCOOL
Sim Rapazes / Mais velhos
No que se refere à preferência das bebidas alcoólicas podemos verificar em seguida, que os rapazes e os mais velhos bebem mais frequentemente cerveja, vinho e bebidas espirituosas do que as raparigas e os mais novos.
CERVEJA
Todos os dias Todas as semanas /meses Raramente ou nunca
1.0% 11.1% 87.9%
M F M F M F
1.8% 0.2% 15.3% 7.3% 82.8% 92.5%
11 16 11 16 11 16 0.2% 2.0% 2.0% 21.1% 97.9% 76.9%
VINHO
Todos os dias Todas as semanas /meses Raramente ou nunca
0.8% 2.4% 96.8%
M F M F M F
1.6% 0.1% 3.8% 1.1% 94.6% 98.8%
11 16 11 16 11 16 0.2% 0.8% 0.8% 4.3% 99.0% 94.8%
BEBIDAS ESPIRITUOSAS
Todos os dias Todas as semanas /meses Raramente ou nunca
0.4% 9.6% 90.0%
M F M F M F
0.8% 0.1% 12.5% 7.1% 86.8% 92.8%
11 16 11 16 11 16 0.4% 0.4% 2.7% 16.7% 96.9% 82.9%
Quadro 5 - Consumo actual de álcool: Cerveja, vinho e bebidas espirituosas
CONSUMO ACTUAL
Cerveja - Maiores consumos Rapazes / Mais velhos Vinho - Maiores consumos Rapazes / Mais velhos Espirituosas - Maiores consumos Rapazes
No que diz respeito ao estado de embriaguez, as raparigas e os mais novos referem mais frequentemente nunca se terem embriagado, enquanto que os rapazes e os mais velhos referem mais frequentemente, já terem ficado embriagados.
Nunca 1 a 3 vezes 4 vezes ou mais
77.9% 17.9% 4.2%
M F M F M F 73.3% 81.9% 20.2% 15.9% 6.5% 2.1%
11 16 11 16 11 16
92.3% 62.9% 7.3% 27.8% 0.4% 9.3%
Quadro 6 - Consumo de álcool: Embriaguez
EMBRIAGUEZ
Maior frequência Rapazes / Mais velhos
2.2 TABACO
O consumo de tabaco é referido como sendo um dos comportamentos que diminuem a saúde (Baum e Posluszny, 1999).
Uma das áreas mais realçadas na Promoção da Saúde tem sido, nos últimos anos, a prevenção do consumo de tabaco junto dos jovens, isto porque se provou que no período da adolescência, existe uma maior probabilidade de os jovens experimentarem o seu primeiro cigarro e iniciarem hábitos tabágicos, que se poderão prolongar por toda a vida (White, 1988, Charlton, Melia e Moyer, 1990, citados por Lima, 1999).
"Devido ao enorme poder da nicotina em conduzir a situações de dependência, a probabilidade de progressão de um consumo ocasional para regular é consideravelmente maior para o tabaco do que para outras drogas. Assim, a inalação do fumo do cigarro conduz facilmente a uma dependência psicofisiológica, mesmo em indivíduos muito jovens" (The Royal College of Physicians, 1992, Charlton, 1989b, citados por Lima, 1999).
Deste modo, desde o momento em que se experimenta o primeiro cigarro, até ao consumo regular dos mais jovens, podem decorrer dois ou mais anos, mas por vezes a dependência pode ser muito mais rápida (Lima, 1999).
A iniciação no hábito de fumar dos adolescentes está associada a vários factores:
factores pessoais e factores sociais (Charlton, 1989a, citado por Lima, 1999). Relativamente aos factores pessoais, podemos incluir todos os factores que dizem respeito ao micro-ambiente da criança ou jovem, ou seja, todos os que se relacionam com a sua individualidade e o seu meio social imediato, tal como a família, amigos e professores. O grupo dos factores sociais
"são os que pertencem ao macro-ambiente e que se relacionam com a influência da comunidade num sentido mais alargado, ou seja, com a aceitabilidade social do hábito de fumar, a sua acessibilidade e com a publicidade ao tabaco" (Lima, 1999). O papel destes factores no processo de desenvolvimento do hábito de fumar, só poderá ser compreendido numa interligação entre todas as variáveis que determinam o início do consumo de tabaco nos jovens (Lima, 1999).
Harrel, Bangdiwala, Deng, Webb e Bradley (1998) efectuaram um estudo com o objectivo de descrever a iniciação no fumar e investigar factores que predizem a “iniciação precoce” de fumar em crianças da escola, usando uma abordagem longitudinal. Os resultados indicam que o fumar experimental aumentou com a idade, assim como também a prevalência corrente de fumar, e que os rapazes tinham uma maior prevalência de fumadores experimentais do que as raparigas. Concluíram que a raça, o estatuto sócio-económico e o estadio pubertal são importantes factores de predição de começar a fumar em alunos da escola. Este estudo ainda indica a necessidade de prevenção do tabaco nas escolas básicas, e de programas para deixar de fumar, assim como classes de prevenção do tabaco, que eram
mais úteis para estudantes de escolas do 2º e 3º ciclo e secundárias. Por seu lado, segundo o Morbidity and Mortality Weekly Report (1999), os resultados de um programa anti-tabágico para os jovens, mostraram que num ano o fumar diminuiu 19% entre os estudantes das escolas básicas e 8% entre os estudantes das escolas secundárias. Ainda, Williams, Cox, Kouides e Deci (1999) afirmam que quando os adolescentes percebem a mensagem sobre “não fumar”
como relacionada com a sua autonomia, eles têm mais motivação para não fumar.
Num estudo com adolescentes, levado a cabo por DuRant, Smith, Kreiter e Krowchuk (1999), os resultados indicaram que um início precoce no uso de cigarros apresentava a correlação mais forte com o envolvimento noutros comportamentos de risco.
Para além das consequências negativas, a nível da saúde, do tabaco, nomeadamente doenças mais directamente relacionadas com esse consumo, é importante referir que se encontram outro tipo de consequências associadas ao consumo de aditivos, sendo muitas
vezes percebidas como positivas pelos adolescentes (WHO, 1993). Neste âmbito encontramos a crença de que o consumo de tabaco tem como consequência a prevenção do aumento de peso (Waldron, 1988; Smith, Nutbeam, Moore, Roberts e Catford, 1994), o que poderá constituir uma motivação para o aumento do consumo de tabaco, especialmente no sexo feminino.
Também Tomeo, Field e Berkey, em 1999, examinaram a relação entre as preocupações com o peso, os comportamentos de controlo do peso, e a iniciação do consumo de tabaco em jovens dos 9 aos 14 anos de idade. Os resultados deste estudo indicam que entre rapazes e raparigas, a intenção de fumar está positivamente relacionado com as preocupações com o peso. Experimentar cigarros está ainda positivamente relacionado com comportamentos de controlo de peso. Estes resultados sugerem a necessidade de programas escolares de saúde para ser reconhecido que os jovens consomem tabaco como forma de controlar o seu peso.
Segundo a revisão feita por Forster e Wolfson (1998) sobre o consumo de tabaco dos jovens, existe uma grande facilidade de acesso ao tabaco para os jovens. Esta questão sugere a necessidade de esforços políticos a serem desenvolvidos.
Pierce, em 1998, refere que os anúncios e a promoção de tabaco aumentaram a probabilidade dos jovens começarem a fumar.
Ainda no âmbito da promoção do tabaco, verificou-se que as revistas que têm um maior número de jovens leitores anunciam com mais frequência marcas de cigarros que são populares entre os jovens adolescentes do que marcas que são populares entre adultos (King, 1998).
Considerando as questões do nosso estudo relacionadas com o consumo e padrão de consumo de tabaco, podemos verificar que a maioria dos jovens nunca experimentou tabaco e presentemente não fuma.
Verifica-se contudo, que os rapazes e os mais velhos reportaram mais já ter experimentado tabaco e as raparigas e os mais novos referem mais não terem experimentado.
Sim Não Efeitos negativos do consumo de tabaco:
Em 1954, Doll e Hill (citado por Ogden, 1999) afirmaram que o consumo de tabaco estava relacionado com o cancro do pulmão. Desde aí, o consumo de tabaco foi também relacionado com a doença cardíaca e com outros cancros.
30.9% 69.1%
M F M F
33.6% 28.6% 66.4% 71.4%
11 16 11 16 9.0% 51.5% 91.0% 48.5%
Quadro 7 - Consumo de tabaco: Experimentar tabaco
EXPERIMENTAR TABACO
Sim Rapazes / Mais velhos
Dos jovens inquiridos são também as raparigas e os mais novos que mais referem não fumar actualmente.
Em relação aos jovens que fumam, podemos verificar que são os rapazes e os jovens mais velhos que fumam com maior frequência.
Todos os dias Uma vez semana Menos de 1 vez semana
Não fuma Média de cigarros por semana*
5.9% 2.7% 5.0% 86.9% 26.7 M F M F M F M F M F 6.0% 4.8% 3.1% 2.4% 5.7% 4.4% 85.2% 88.4% 29.5 23.6
11 16 11 16 11 16 11 16 11 16 0.7% 11.3% 0.7% 4.9% 2.1% 7.2% 96.4% 76.6% 15.5 32.4
* t-test, apenas foram incluídos na análise os sujeitos que fumam Quadro 8 - Consumo de tabaco: Consumo actual de tabaco
CONSUMO ACTUAL
Maior frequência Rapazes / Mais velhos Mais cigarros Rapazes / Mais velhos
2.3 DROGAS
O uso de substâncias é um importante predictor tanto da morbilidade como da mortalidade entre os adultos, no entanto é mais usual ser considerado comportamento de risco entre os adolescentes (Gabhainn e François, 2000). Daí, nos factores de risco referidos por DiClemente, Hansen e Ponton (1996) também estarem incluídos o uso e o abuso de substâncias.
Os problemas de saúde estão relacionados com o consumo de drogas, durante a adolescência, e os problemas tornar-se-ão mais evidentes se o seu início for precoce (Aarons et al., 1999). Num estudo levado a cabo por DuRant, Smith, Kreiter e Krowchuk (1999) os resultados dos adolescentes indicaram que o uso precoce de substâncias estava associado a um grupo de comportamentos de risco de saúde.
A teoria da socialização, segundo Oetting e Donnermeyer (1998, citado por Gabhainn e François, 2000), apresenta uma visão global do desenvolvimento do adolescente que inclui o uso de substâncias. Este modelo prediz uma maior probabilidade de estar envolvido em comportamento de risco quando a vinculação entre o adolescente e a sua família ou o ambiente escolar é fraco.
De seguida vamos analisar as questões relacionadas com o consumo e padrão de consumo de drogas.
Apesar da maioria dos jovens nunca ter experimentado drogas, ainda existe uma percentagem significativa de jovens que já experimentaram algumas.
HAXIXE / ERVA
Sim Não
3.8% 96.2%
M F M F
5.4% 2.5% 94.6% 97.5%
11 16 11 16
1.3% 7.8% 98.7% 92.2%
ESTIMULANTES
Sim Não 2.7% 97.3%
M F M F
3.9% 1.6% 96.1% 98.4%
11 16 11 16
1.5% 4.5% 98.5% 95.5%
HEROÍNA / ÓPIO / "CRACK" / MORFINA
Sim Não 1.0% 99.0%
M F M F
1.7% 0.5% 98.3% 99.5%
11 16 11 16
1.0% 1.3% 99.0% 98.7%
MEDICAÇÃO USADA COMO DROGA
Sim Não 2.1% 97.9%
M F M F
2.9% 1.4% 97.1% 98.6%
11 16 11 16
1.1% 3.0% 98.9% 97.0%
COCAÍNA
Sim Não 0.9% 98.8%
M F M F
1.5% 0.5% 98.5% 99.5%
11 16 11 16
1.2% 1.1% 98.8% 98.9%
OUTRAS
Sim Não 2.9% 97.1%
M F M F
4.3% 1.5% 95.7% 98.5%
11 16 11 16
2.0% 3.8% 98.0% 96.2%
Quadro 9 - Consumo de drogas: Experimentar drogas
EXPERIMENTAR DROGAS
Sim Rapazes / Mais velhos
Os produtos mais experimentados pelos jovens são o haxixe ou erva, os estimulantes e a medicação tomada como droga.
Os rapazes referem mais frequentemente já terem experimentado haxixe /erva, estimulantes, heroína, medicação usada como droga, cocaína e mesmo outras substâncias.
Em relação à idade, os mais velhos referem mais frequentemente já terem experimentado haxixe /erva, estimulantes, medicação usada como droga e outras substâncias.
IDADE DA 1ª EXPERIÊNCIA
6-9 anos 10-12 anos 13-15 anos 16-18 anos
6.4% 18.1% 66.0% 9.5%
SUBSTÂNCIAS DA 1ª EXPERIÊNCIA
Haxixe Estimulantes Heroína Tabaco