UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO-OESTE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM
DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO
ÂNGELO ALTAIR DE OLIVEIRA
A LUTA DOS SEM-TERRA EM RIO BONITO DO IGUAÇU (PR): Terra e experiência no acampamento
IRATI 2018
ÂNGELO ALTAIR DE OLIVEIRA
A LUTA DOS SEM-TERRA EM RIO BONITO DO IGUAÇU (PR): Terra e experiência no acampamento
Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção de grau de Mestre na área Interdisciplinar, Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário, da UNICENTRO.
Orientador: Prof. Dr. Ancelmo Schörner IRATI 2018
Catalogação na Fonte Biblioteca da UNICENTRO OLIVEIRA, Ângelo Altair de.
O48l A luta dos Sem-Terra em Rio Bonito do Iguaçu (PR): terra e experiência no acampamento / Ângelo Altair de Oliveira. – Irati, PR : [s.n.], 2018.
185f.
Orientador: Prof. Dr. Ancelmo Schörner
Dissertação (mestrado) – Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário. Universidade Estadual do Centro-Oeste, PR. 1. Assentamento – acampamento. 2. Luta pela terra. 3. MST – Movimento Sem Terra – cotidiano. I. Schörner, Ancelmo. II. UNICENTRO. III. Título.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO
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TERMO DE APROVAÇÃO
ÂNGELO ALTAIR DE OLIVEIRA
A LUTA DOS SEM-TERRA EM RIO BONITO DO IGUAÇU (PR): TERRA E EXPERIÊNCIA NO ACAMPAMENTO
Dissertação aprovada em 31/10/2018 como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre no Curso de Pós-Graduação Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário, área de concentração Desenvolvimento Comunitário, da Universidade Estadual do Centro-Oeste, pela seguinte banca examinadora:
Orientador: Prof. Dr. Ancelmo Schörner Instituição: UNICENTRO
Prof. Dr. Emerson Luis Velozo Instituição: UNICENTRO
Prof. Dr. Antonio Hilario Aguilera Urquiza Instituição: UFMS
AGRADECIMENTOS
Devo este escrito à labuta de muitos trabalhadores. Nos livros e teses geralmente aparecem os nomes de quem os publicou, como se fossem seus únicos autores, no entanto, para que um escrito chegue à mão do leitor, muitos trabalharam nele. São os heróis do cotidiano, heróis anônimos, homens e mulheres comuns, que trabalham em muitas obras, mas permanecem anônimos. Aqui busco tirar alguns do anonimato, não me sendo possível nominar a todos. Agradeço aos trabalhadores assentados nos assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire que tive a honra de entrevistar: Sr. Enio Pasqualin, Sr. Ari Martins Moreira e Dona Iris Terezinha Moreira, Dona Eva da Rosa Ângelo e o Sr. Lindomar Ângelo, Dona Dalíria dos Santos Mello e o Sr. Antonio Mello, o Sr. Amilton Alves Carlin e Dona Maria Irene Tomas de Santiago, Sr. Danilo Ferreira de Almeida, Sr. Doni Feliciano Pereira de Souza e Dona Glaci da Silva Souza, Sr. Valdelir Veríssimo da Rosa, Sr. Ivair Sumenssi e Dona Salete de Fátima Prusch, Sr. Ivo Gomes de Amorim. Agradeço Ir. Lia, trabalhadora incansável das causas sociais, mãe e avó de muitos assentados, pelas agradáveis conversas, trazendo ao presente memórias de tantas artes de fazer. Agradeço ao Pe. Afonso, o qual trabalhou, embora perseguido, para que os acampados tivessem acesso à terra e que também entrevistei. Agradeço a tantos professores a quem devo boa parte dos meus conhecimentos acadêmicos, ao Professor Ancelmo Schörner, pela dedicação em me orientar, ler, reler, corrigir letras tortas até que pudessem ser apresentadas dentro de padrões aceitáveis pela academia. Agradeço a leitura e contribuições tão bem colocadas dos professores Emerson Luis Velozo e Antonio Hilário Aguilera Urquiza. Agradeço, outrossim, a meu colega de trabalho, Pe. Sebastião Gulart, que teve seus afazeres acrescidos para que eu pudesse dispor de tempo livre para estudar. Agradeço a Isabel e Amilcar, meus amigos que tão gentilmente me acolheram em sua casa em Irati e tudo fizeram para que eu estivesse bem em seu lar. Foram para mim uma expressão da economia do dom ainda vivenciada em muitos espaços nos tempos atuais. Agradeço a meu amigo Adriano Toczek com o qual partilhei estudos em Irati. Agradeço à Professora Rosângela Bujocas, que me acompanhou em meu estágio de docência. Agradeço aos meus colegas de mestrado pelas partilhas acadêmicas e de vida, dentre os quais, Ione Rodrigues Correia, pela parceria em vários artigos. Agradeço, por fim, à Dona Júlia Terezinha de Oliveira, minha mãe, que tanto me ajudou, incentivou, cozinhou, limpou, lavou minhas roupas, esteve ao meu lado nos momentos em que estive doente, trabalhou tanto para que no ócio eu pudesse escrever. Este escrito não é só obra minha. Obrigado a todos os colaboradores.
“Gente simples, fazendo coisas pequenas em lugares sem importância, consegue mudanças extraordinárias.” (Dom Moacyr Grechi)
RESUMO
A presente pesquisa busca compreender a luta dos trabalhadores rurais sem-terra no acampamento do Movimento Sem Terra (MST) em Rio Bonito do Iguaçu nos anos de 1996 e 1997. Através de metodologias da História Oral, parte dos relatos dos sujeitos que vivenciaram o processo de acampamento estudado, bem como de outras fontes escritas, orais e visuais, as descreve e interpreta a partir de estudos sociológicos, antropológicos e culturais, com especial relevância aos estudos de Michel de Certeau. Está estruturada em três partes. O primeiro momento apresenta os processos vivenciados pelos sem-terra que foram para o acampamento e busca compreender as razões que levaram aqueles trabalhadores rurais a acampar com suas famílias, inserindo-se na luta organizada pela terra. O segundo momento consta de estudo sobre o cotidiano dos acampados, apresentando a luta das pessoas no acampamento, sua organização em grupos e setores, a composição das lideranças, como conseguiam alimentação e água, os arranjos, as táticas e estratégias empregadas para sobreviverem e avançarem em direção à “terra prometida”. A terceira parte apresenta o processo de desenvolvimento participativo ocorrido na luta pela terra vivenciada pelos acampados apoiados pelos líderes do MST e por lideranças religiosas. Conclui-se que o êxito do MST em organizar um acampamento sem-terra em menos de dois meses com mais de doze mil pessoas se deu por dois motivos principais, a saber, uma estratégia bem montada por parte do movimento, e pela enorme necessidade de encontrar um meio de sobrevivência por parte de grande número de pessoas naquele momento histórico brasileiro. Esse processo de acampamento foi vivido entre estratégias do Movimento e táticas dos sem-terra como experiência histórica que gerou consciência de classe, vivência essa que em língua nativa era traduzida pelo termo luta, que não era apenas luta pela terra mas também luta pela sobrevivência. E nesse sentido, na busca por superar os problemas que iam surgindo ocorreu um processo de desenvolvimento participativo, com forte atuação de Irmã Lia e das mulheres acampadas.
ABSTRACT
The present research tries to understand the wrestling of rural workers without property in the Without Property Movement (MST) in Rio Bonito do Iguaçu in 1996 and 1997. Through Oral History methodologies, part of the reports of the subjects who lived the studied housing process, as well as other written, oral and visual sources, aspires and interprets from studies sociological, anthropological and cultural, with special emphasis on the studies of Michel de Certeau. It is divided in three parts. The first moment shows the processes experienced by the Without Property that went to the camp and search to understand the reasons that led the rural workers to camp with their families, with the data in the organized struggle for the land. The second module is about the daily routine of them, presenting a series of activities of these people Without Property, their organization into groups and sectors, leadership composition, how to have water and food, a series of exercises and strategies, walking towards the "promised land". The third part of the participatory process of development is conducted by the MST and by religious leaders. It is concluded that the MST has organized a camp worm in a period of two months with the largest number of people (more than twelve thousand) for two main reasons, a well-mounted strategy by the movement, and by finding means to survive on that historic moment. This process was experienced between the strategies of the native language and Without Property movement, which was not only a struggle for language but also for the struggle for survival. And in this sense, in the search for the problems that have arisen, a process of participatory development arose, with a strong participation of Sister Lia and the women encamped.
LISTA DE TABELAS E IMAGENS
Tabela 1: Entrevistas com Ir. Lia e assentados do Assentamento Ireno Alves dos Santos ....17
Tabela 2: Entrevistas nos assentamentos Marcos Freire, Dez de Maio, Oito de Junho e com Pe. Afonso...18
Tabela 3: Ocupação laboral anterior ao acampamento ...47
Imagem 1: Mapa ilustrativo do Município de Rio Bonito do Iguaçu, destacando os assentamentos Ireno Alves dos Santos, Marcos Freire e Dez de Maio...11
Imagem 2: Acampados transportando suas coisas. Dia 17/04/1996. Na chegada dos acampados no acampamento do Buraco...32
Imagem 3: Crianças no acampamento-base às margens da rodovia BR-158. Paraná, 1996 ...49
Imagem 4: Mapa ilustrativo destacando os acampmantos-base e o local da ocupação ...51
Imagem 5: Número do cadastro de Amilton Alves ...55
Imagem 6: Momento da ocupação da Giacomet-Marondin em 17 de abril de 1996 ...69
Imagem 7: Acampamento do Buraco, em 1996 ...75
Imagem 8: Barracos montados na Sede, 1997 ...86
Imagem 9: Adriana, filha adotiva de Lindomar Ângelo e Dona Eva, fazendo a sua refeição no interior do barraco. 1997 ...103
Imagem 10: Acampamento do Buraco. Acampados na fila para pegarem água potável e para lavar roupas. 1996 ...105
Imagem 11: Crianças com suas vasilhas esperando para pegar a sopa no grupo. Acampamento do Buraco, 1996 ...127
Imagem 12: Trabalho coletivo no preparo da terra para o plantio. Sede, 1996 ...132
Imagem 13: Iris Moreira e seu ajudante na casinha onde preparava os remédios. 1996 ...138
Imagem 14: Em uma casa que pertencera à Giacomet-Marondim na Sede. Crianças cuidadas temporariamente até serem adotadas; o pai das crianças, Ir. Lia e mulheres acampadas. 1996...144
Imagem 15: Henrique e Adriana alguns anos depois da adoção por parte de Lindomar e Eva. 2000...146
Imagem 16: Escola José Alves em um barracão da Sede. 1997...148
Imagem 17: Ir. Lia dando formação para mulheres e homens no Buraco.1996...155
Imagem 18: 12ª Romaria da Terra do Paraná, acampamento da Sede. 1997...162
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
1 – TRABALHO DE BASE PARA ORGANIZAÇÃO DE UM NOVO ACAMPAMENTO SEM-TERRA...23
1.1 Estratégia do MST para a organização de um novo acampamento...24
1.2 De onde vêm as pessoas para acampar, processos vivenciados antes do acampamento...32
1.3 Dois acampamentos na mesma BR...49
1.4 Travessia dos acampamentos-base à fazenda Pinhal Ralo...63
2 – ENTRE ESTRATÉGIAS DO MOVIMENTO E TÁTICAS DOS SEM TERRA, O COTIDIANO DO ACAMPAMENTO...68
2.1 Discursos criadores...75
2.2 O cotidiano como luta pela permanência no acampamento...85
2.2.1 Os lugares e espaços do acampamento...85
2.2.2 As normas do acampamento...92
2.2.3 O cotidiano dos acampados...99
3 – O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO PARTICIPATIVO VIVENCIADO NO ACAMPAMENTO SEM-TERRA...116
3.1 Alimentação...120
3.2 Outros problemas e suas resoluções...138
3.3 Trabalho de formação a partir da Bíblia...150
3.4 Celebrações...157 CONSIDERAÇÕES FINAIS...168 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...173 ANEXO I...182 ANEXO II...184 ANEXO III...185
INTRODUÇÃO
Esta dissertação resulta de pesquisa realizada nos assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire, localizados no Município de Rio Bonito do Iguaçu – PR, em uma mesma unidade territorial. Foram mil quinhentas e uma famílias assentadas em 26.800 hectares de terra que antes pertenciam ao maior latifúndio do sul do Brasil, a empresa Giacomet-Marondin S. A. Esse processo de assentamento foi feito em duas etapas, a primeira em dezembro 1997, na qual foram assentadas 900 famílias, no Projeto de Assentamento Ireno Alves dos Santos. Mas das famílias acampadas, ficou um excedente que foi um ano mais tarde assentada, 601 famílias, no Projeto de Assentamento Marcos Freire. O acampamento que deu origem a esses assentamentos foi organizado pelo Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra (MST) em 1996, com mais de três mil famílias.
Imagem 1: Mapa ilustrativo do Município de Rio Bonito do Iguaçu, destacando os assentamentos Ireno Alves dos Santos, Marcos Freire e Dez de Maio.
Estivemos presentes nos anos de 2011 e 2012 nesses assentamentos e voltamos em 2017 a atuar como religioso nos mesmos. Sempre nos chamou a atenção os fatos narrados pelas pessoas sobre o processo de acampamento, suas dificuldades e lutas que ficaram gravadas na alma desses trabalhadores sem-terra que conquistaram a terra tão sonhada. Tendo esses assentamentos mais de vinte anos, muitos projetos de desenvolvimento foram encampados nos mesmos e tantos acontecimentos vivenciados. Uma vez em campo percebemos que para compreender os acontecimentos posteriores à criação dos referidos assentamentos faz-se necessário estudar bem o processo de acampamento que originou esses assentamentos, pois, ao que nos parece, muitos dos acontecimentos posteriores são devedores da experiência vivida do acampamento gerador dos mesmos.
Em conversas com os assentados dos Assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire percebemos que os mesmos se identificam por comunidade. Perguntamos ao Sr. Ari Moreira, em uma conversa informal: “o senhor mora aonde?” ao que ele nos respondeu, “no Assentamento Ireno Alves, na comunidade da Sede”. E assim é com todos os assentados, dizem o nome do assentamento e a comunidade a que pertencem, e em alguns casos se reportam ao número do grupo do qual faziam parte quando acampados. Em campo percebemos que ambos os assentamentos formam uma unidade territorial, e estão organizados em comunidades que se articulam em torno de um espaço comunitário, espaço esse construído a partir de um imaginário religioso católico.
Melhor explicando, ambos os assentamentos estão hoje organizados em vinte e oito comunidades, a saber: Nova Santa Rosa, Sede, Açude Seco, Nova União, Sagrado Coração, Guadalupe, Arapongas, São Francisco, Campos Verdes, Nova Estrela, Boa Esperança, Juriti, Alta Floresta, São Vicente, Santo Antônio, Alto Alegre, Quatro Encruzos, Nossa Senhora Aparecida, Irmã Dulce, Nova Conquista, Paraíso, Centro Novo, Camargo Filho, Santa Luzia, São João Maria Vianey, Nossa Senhora do Rocio, Nova Aliança e Dez de Maio1.
Essas comunidades estão articuladas em torno de um espaço comum, no meio do qual está a Igreja Católica, tendo ao lado um salão de festas e um campo de futebol. Pelo que percebemos, os assentados ao dizerem que pertencem a uma comunidade usam esse termo mais proximamente ao que Palácios (2001) define como comunidade.
Para Palácios (2001), uma comunidade tem alguns elementos fundamentais que a caracterizam, a saber: a) sentimento de pertencimento; b) sentimento de comunidade; c)
1 Dez de maio, na verdade, é outro assentamento, criado aonde era a reserva do Assentamento Marcos Freire, a
partir de outro processo de acampamento. Mas por estar no meio do território do Assentamento Marcos Freire, ao se reportar aos assentamentos de Rio Bonito, geralmente se engloba o Assentamento Dez de Maio como fazendo parte do Marcos Freire.
permanência (em contraposição à efemeridade); d) territorialidade (real ou simbólica); e) forma própria de comunicação entre seus membros por meio de veículos específicos.
No caso das comunidades dos assentamentos, a territorialidade é real, ou seja, as comunidades são demarcadas físico-geograficamente, com limites bem delimitados, o que não quer dizer que não se possa ter um sentimento de pertença a ela, mesmo à distância, é o que ocorre com filhos de assentados em processo de estudo, morando em cidades.
Outro aspecto dessas comunidades é que elas foram formadas a partir de um processo histórico comum, o acampamento de 1996 a 1997. Os acampados estavam organizados em grupos, essa organização grupal permaneceu até serem assentados. No Projeto de Assentamento o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) havia pensado somente quatro espaços comuns, que seriam na Sede, no Arapongas, na Alta Floresta e no Paraíso, mas quando os grupos tomaram posse da parte da terra que lhes coube, por conta própria os que tinham uma articulação interna forte organizaram sua comunidade e outros grupos se juntaram por proximidade territorial àquela comunidade.
Entendemos, portanto, que os Assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire hoje se constituem como uma rede de comunidades2, originadas de um mesmo processo histórico que foi o acampamento que ocupou a Fazenda Pinhal Ralo em 1996.
Percebemos, pela revisão de literatura, que há algumas teses e dissertações escritas sobre os referidos assentamentos, no entanto, falta um estudo detalhado sobre o processo de acampamento que gerou esses assentamentos, estudo esse que nos parece indispensável para entender a trajetória desses assentamentos.
Portanto, o presente estudo pretende começar a preencher essa lacuna, sem a pretensão de abarcá-la como um todo.
Assim sendo, o objetivo principal da presente dissertação é compreender a luta dos trabalhadores rurais sem-terra no acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em Rio Bonito do Iguaçu nos anos de 1996 e 1997. O termo luta apareceu recorrente na boca dos entrevistados e nós a entendemos no sentido de experiência histórica, conceito de Edward Palmer Thompson. Ou seja, luta aqui é a experiência vivida pelos sem-terra no aglutinarem-se num acampamento mediado pelo MST, e de forma articulada ocuparem a Fazenda Giacomet-Marondin, buscando sobreviver às entemperes e dificuldades e
2 Esse termo vem dos documentos da Igreja Católica no Brasil escritos a partir de 2010, e se reporta, na
concepção católica a uma nova forma de entender a Paróquia como comunidade de comunidades, ou como rede de comunidades (CONFERÊNCIA DOS BISPOS DO BRASIL, 2013). O termo é apropriado para se entender o assentamento, uma unidade territorial, constituído por um mesmo processo histórico, organizado em comunidades em rede de relações sociais, históricas e de luta pela terra.
nesse processo irem questionando e cobrando do Estado para desapropriar a área a fim de serem assentados e poderem viver com dignidade.
Thompson criticava a historiografia de seu país, a Inglaterra, por retratar a auto-imagem das classes dominantes e assim ocultar a vida, o trabalho, os sentimentos, a luta pela sobrevivência da prole, e buscou, numa crítica ao marxismo estruturalista, escrever sobre o que chamou de experiência de classe, ou melhor dizendo, o “auto-fazer-se da classe operária ao longo da história” (THOMPSON I, 2004, p. 9, nota do tradutor), buscando dar visibilidade às experiências vividas por pessoas reais em contextos reais.
A partir das obras “A formação da Classe Operária Inglesa” e “A miséria da teoria”, entendemos experiência em Thompson como ação vivida num determinado contexto por sujeitos que se identificam por interesses comuns, e se constitui como modo de enfrentar os problemas e dificuldades desse contexto na busca por sobrevivência. A ação desses sujeitos se faz de determinada maneira por causa do que trazem no seu íntimo de valores, pensamentos e crenças, sentimentos e cicatrizes no corpo como expressão de experiências já vividas. O seu agir se dá dentro de uma estrutura existente, uma determinada realidade, como um inscrever-se sobre um papel já escrito, e assim ao viver, esinscrever-ses sujeitos fazem a sua experiência como inscrever-ser social que age e faz história e passam a tomar consciência do que é viver na sua pele aquele processo, o que Thompson chama de consciência de classe.
Nesse sentido, os sujeitos da experiência são:
(...) pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades, interesses e como antagonismos; e em seguida, “tratam” essa experiência em sua consciência e sua cultura, das mais complexas maneiras e em seguida, agem, por sua vez, sobre sua situação determinada. (NICOLAZZI, 2004, p. 35)
Á partir desse conceito também buscamos neste trabalho dar visibilidade à luta empreendida como experiência vivida por sujeitos reais, os sem-terra, no seu contexto real, o acampamento do MST em Rio Bonito do Iguaçu.
Para tal, a pesquisa se estrutura em três partes. Num primeiro momento nos esforçamos por escrever sobre de onde procedem os sem-terra. Mais que lugar geográfico, os processos vivenciados pelos trabalhadores que foram para o acampamento, trajetória de vida essa que se inscreve na questão agrária do Paraná e do Brasil. Buscamos, igualmente, entender as razões que levaram aqueles trabalhadores rurais a acampar com suas famílias de baixo de uma lona preta, à beira do asfalto e como se deu esse inserir-se na luta organizada pela terra.
Num segundo momento estudamos o cotidiano dos acampados no tempo em que estiveram no Buraco, primeiro lugar ocupado da Giacomet-Marondim, e na Sede da empresa. Nesse momento interessa-nos a luta das pessoas no acampamento, a organização em grupos e setores, a composição das lideranças, o como conseguiam sua alimentação e água, os arranjos, as táticas e estratégias para sobreviverem e avançarem em direção à “terra prometida”.
Na terceira parte estudamos o processo de desenvolvimento participativo ocorrido na luta pela terra vivenciada pelos acampados apoiados pelos líderes do MST e em especial por lideranças religiosas, dentre as quais Irmã Lia e Padre Afonso.
Como o estudo se reporta a um processo histórico ocorrido há mais de vinte anos, não foi possível fazer observação direta do campo, por isso, adotamos procedimentos metodológicos da História Oral.
História Oral é um recurso moderno usado para elaboração, arquivamento e estudos de documentos referentes à vida social de pessoas. É sempre uma história do tempo presente (MEIHY, 1996). Ou seja, só é possível usar métodos da História Oral sobre um processo histórico no qual os entrevistados estiveram presentes, o que é o caso dos nossos entrevistados, pois foram eles os protagonistas do acampamento por nós pesquisado.
Para a História Oral, os depoimentos orais dos entrevistados são considerados como fontes para a pesquisa histórica (LOZANO, 2006). Essas fontes, no entanto, não podem ser colhidas de qualquer forma, precisam fazer parte de um projeto a partir dos objetivos pretendidos pelo estudo.
A moderna História Oral3 surgiu a partir da Segunda Guerra Mundial, da necessidade de se colher narrativas de experiências de pessoas que participaram de um processo histórico, como meio de compreender melhor o acontecimento estudado, seja porque não havia fontes escritas, seja porque havia lacunas nas fontes escritas, ou porque os documentos conflitavam. Mas recolher essas narrativas como fontes confiáveis só foi possível graças ao avanço nos meios de comunicação que possibilitaram gravar a fala das pessoas para depois transcrevê-las (GRELE, 1991).
O uso da metodologia da História Oral neste trabalho se explica porque pretendemos escrever sobre a experiência dos acampados de Rio Bonito do Iguaçu de 1996 e 1997. Parte
3 A História Oral nasceu em 1948, na Universidade de Columbia, em Nova York. Na ocasião, Allan Nevis
organizou um arquivo e oficializou o termo que passou a ser indicativo de uma nova postura em face da formulação e da difusão das entrevistas. Isso se deu quando os avanços tecnológicos foram combinados com a necessidade se se propor formas de captação de experiências como as vividas então tanto por combatentes como por familiares e vítimas dos conflitos da Segunda Guerra Mundial. O vínculo com os relatos do passado e a necessidade de registrar experiências gravadas e transmitidas por meios mecânicos facilitaram a democratização das informações e serviram de base para o sentido da história oral, que então, para ser diferenciada de outras práticas da oralidade, ganhou o adjetivo “moderna” (MEIHY, 2005, p. 92).
do processo de luta foi registrada durante o período de acampamento, mas, segundo os entrevistados, esses documentos se perderam. Portanto, a melhor fonte que hoje temos para escrever sobre elas são os relatos das pessoas que fizeram acontecer aquele processo histórico. A metodologia da História Oral exige que se faça um projeto de pesquisa a partir do qual se elaboram as perguntas a serem feitas a pessoas previamente selecionadas. As entrevistas precisam ser gravadas em fitas ou outros meios que permitam ser conservadas e transcritas (KALIL, 2010). Nesse sentido, a partir de contatos prévios com os possíveis entrevistados, elaboramos um projeto de pesquisa com os objetivos a serem alcançados. Preparamos um questionário aberto para servir de base para as entrevistas, e fomos à campo. Alguns dos entrevistados foram escolhidos por nós, tais como Irmã Lia, por ser lembrada por todos com quem conversamos anteriormente; o Sr. Enio Pasqualin, por fazer parte do MST desde o acampamento até hoje; o Sr. Ari Moreira, por ter participado do trabalho de divulgação anterior ao acampamento estudado. Essas pessoas foram nos citando outras e assim chegamos ao seguinte movimento em campo:
Os caminhos percorridos e encontros vivenciados durante a pesquisa de campo se deram tendo como ponto de partida a experiência narrada por Irmã Lia, uma religiosa vicentina de 86 anos, que desde antes da fundação oficial do MST já atuava junto aos sem-terra do Paraná, e ainda atua nos acampamentos de Rio Bonito e Quedas do Iguaçu. Com ela conversamos na sala de estar da casa das irmãs em Laranjeiras do Sul. Ir. Lia trouxe para a entrevista uma caixa com fotos, recortes de fornais, objetos variados que guarda como relíquia daqueles anos e a partir desses recortes de história acessava memórias de sua experiência e interpretação dos fatos vividos. Saindo da casa da Ir. Lia, fomos até o Assentamento Ireno Alves dos Santos, à comunidade Arapongas, à casa do Sr. Enio Pasqualin, líder do MST desde o acampamento de 1996 da BR 158 até aos dias de hoje. Era um dia chuvoso, enquanto sua esposa preparava um café, conversamos na cozinha da casa, aquecendo-nos ao fogão, tendo Enio em mãos fotos da época e vídeos gravados que nos sedeu gentilmente. Da casa do Sr. Enio nos dirigimos à Comunidade da Sede aonde ouvimos os relatos do Sr. Ari Martins Moreira e sua esposa, Dona Iris Terezinha Moreira, responsáveis pelo setor da saúde no acampamento pesquisado. Em sua casa ficamos na varanda, logo eles também trouxeram seu álbum com muitas fotos da época e com alegria nos contaram sua experiência de acampamento. Da casa de Dona Iris, na mesma comunidade, dirigimo-nos até à casa de Dona Eva da Rosa Ângelo e do seu esposo, o Sr. Lindomar Ângelo. Ela atuou ativamente junto à Ir. Lia no setor de mulheres, e ele foi o secretário do acampamento, atuando também em outras frentes. Foi nosso primeiro contato com esse casal, o qual buscamos por indicação da Ir. Lia.
Conversamos na varanda de sua casa, estando Lindomar Ângelo em pé, e às vezes se ausentando emocionado. Também eles puxaram suas fotos e outros papéis da época que ajudava a acessarem as memórias do vivido. Da casa deles fomos à comunidade de Juriti, à casa de Dona Dalíria dos Santos Mello, que foi liderança no acampamento e trabalhou com Ir. Lia. Tendo conversado com ela, ouvimos também os relatos do Sr. Antonio Mello, que na época do acampamento era solteiro e não participava de coordenação alguma. Dalíra dos Santos também foi indicada por Ir. Lia, e com ela e Antônio conversamos na sua cosinha, tendo o álbum de fotos da família em mãos e perguntando a partir das fotos. Da casa de Dona Dalíria dirigimo-nos até à comunidade de Alta Floresta, à casa do Sr. Amilton Alves Carlin e de sua esposa, Dona Maria Irene Tomas de Santiago. Ele fazia parte da segurança no acampamento e ela trabalhava junto à Ir. Lia. Amilton Alves deixou os seus afazeres e nos recebeu na varanda da casa, era de manhã, na gravação se percebe que muitos pássaros cantavam enquanto conversávamos. Sua esposa veio logo em seguida e já entrou na cas para preparar-nos algo para comermos. Conversamos longamente e almoçamos juntos. Depois do almoço alguns fatos ainda foram recordados e voltamos às gravações. Tendo escutado as suas narrativas, fomos à comunidade de Arapongas, e lá escutamos os relatos do Sr. Danilo Ferreira de Almeida, em sua casa que fica anexa ao mercado do qual ele é proprietário. Na sala da casa conversamos, ele tendo seu filho no colo e suas outras crianças brincando ao redor, nos contou muitos detalhes de sua experiência de acampado. No final da conversa ele pegou o violão e cantou a música que fez no acampamento.
Tabela 1: Entrevistas com Ir. Lia e assentados do Assentamento Ireno Alves dos Santos
ENTREVISTADO LOCAL DATA TEMPO DE
ENTREVISTA Ir. Lia Sua casa, Laranjeiras do Sul,
na sala de estar
06/12/2017 07/12/2017
3h e 45 min. Enio Pasqualin Comunidade Arapongas,
PA Ireno Alves, na cozinha 09/02/2018 1h e 30 min. Ari Moreira
Ires Terezinha Moreira
Comunidade Sede
PA Ireno Alves, na varanda
12/02/2018 1h e 02 min.
Eva da Rosa Lindomar Ângelo
Comunidade Sede
PA Ireno Alves, na varanda
12/02/2018 1h e 19 min. Dalíria dos Santos
Antônio Mello
Comunidade Juriti
PA Ireno Alves, na cozinha
Amilton Alves
Maria Irene Comunidade Alta floresta PA Ireno Alves, na varanda 15/02/2018 1h e 12 min. Danilo Ferreira Comunidade Arapongas
PA Ireno Alves, sala de estar
28/02/2018 2h e 13 min.
Do Assentamento Ireno Alves passamos ao Assentamento Marcos Freire, na comunidade de Paraíso onde ouvimos os relatos do Sr. Doni Feliciano Pereira de Souza e da sua esposa, Dona Glaci da Silva Souza. Ele, líder de um grupo no acampamento do Paraíso. Com Doni Feliciano já havíamos conversado previamente, e nessa ocasião a entrevista se deu na varanda de sua casa, estando ele e sua esposa juntos, e um ajudando ao outro a recordarem os fatos vivenciados. De sua casa, dirigimo-nos à comunidade Camargo Filho, à casa do Sr. Valdelir Veríssimo da Rosa, que foi líder geral do acampamento do Paraíso e nos contou os acontecimentos desse acampamento. Com ele conversamos na sala de sua casa, entrevista rápida, pois respondia com rapidez e assertividade.
Da casa do Sr. Valdelir, fomos até o Assentamento Dez de Maio, à casa do Sr. Ivair Sumenssi e lá ouviu os relatos dele, que era liderança do grupo que veio a ser assentado nesse assentamento. Ouvimos também a sua esposa, Dona Salete de Fátima Prusch. A entrevista se deu na varanda de sua casa, estando presentes dois filhos do casal que escutavam atentamente as narrativas.
Tabela 2: Entrevistas nos assentamentos Marcos Freire, Dez de Maio, Oito de Junho e com Pe. Afonso
ENTREVISTADO LOCAL DATA TEMPO DE
ENTREVISTA Doni Feliciano
Glaci da Silva
Comunidade Paraíso,
PA Marcos Freire, na varanda
06/04/2018 1h e 04 min.
Valdelir Veríssimo Comunidade Camargo Filho, PA Marcos Freire, na sala de estar
06/04/2018 34 min.
Ivair Sumenssi Salete de Fátima
Comunidade Dez de maio, PA Dez de Maio, na varanda
11/04/2018 1h e 01 min.
Afonso das Chagas (padre)
Cacoal – Rondônia,
entrevista respondida por escrito
15/04/2018
Ivo Amorin PA Oito de junho Sede da associação
Tendo concluído as pesquisas de campo nesses assentamentos, conseguimos contato com o Pe. Afonso das Chagas, pároco da Paróquia de Rio Bonito na época do acampamento e que agora mora em Rondônia. Ele nos atendeu prontamente, incentivando a pesquisa e respondendo com riqueza de detanhes nossas perguntas. À sua indicação, dirigimo-nos, por fim, ao Assentamento Oito de Junho, onde, na sede da associação, conversamos com o Sr. Ivo Gomes de Amorim, líder do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Bonito do Iguaçu quando da grande ocupação e agora assentado nesse assentamento, sendo o líder da associação do mesmo. Foram cinco meses percorrendo esse mapa.
Com várias das pessoas pesquisadas já tínhamos estabelecido contatos anteriores seja por causa da pesquisa, seja por outros motivos. Com outros, entramos em contato somente para a realização da entrevista. No entanto, com todos procuramos estabelecer relações de proximidade e empatia, agindo com descrição e respeito, seguindo as indicações de Portelli (1997, p. 22), para quem fazer uma entrevista significa que “em vez de irmos na casa de alguém e tomarmos seu tempo a lhe fazer perguntas, vamos à casa dessa pessoa e iniciamos uma conversa. A arte essencial de quem trabalha com entrevistas é a arte de ouvir”.
O resultado foi um rico e extenso material, com 17 horas de entrevistas gravadas, que resultaram em 158 páginas de transcrição. Essas narrativas contêm muito mais do que foi possível escrever nesta dissertação, mas que bem guardadas podem servir para ulteriores pesquisas.
No momento das gravações tínhamos conosco um caderno de anotações no qual escrevemos impressões que íamos tendo durante a pesquisa, tais como, gestos realizados, emoções percebidas, outras impressões importantes e que não aparecem nas gravações. As gravações foram sendo transcritas logo após serem gravadas.
Mesmo sem pedirmos aos entrevistados, esses logo traziam seus álbuns e arquivos com fotos sobre o período estudado, o que ajudou a “puxar pela memória” os acontecimentos e a vivência pessoal daqueles fatos. Algumas dessas fotos serão colocadas no trabalho final.
Segundo Meihy (2005), há que se levar em consideração que as memórias são lembranças organizadas segundo uma lógica subjetiva que seleciona, organiza, agrupa elementos que nem sempre correspondem aos fatos concretos. Assim sendo, para a História Oral, uma memória individual só tem sentido quando inscrita no conjunto social das demais memórias. Por isso, por se tratar de um período acessado pela memória optamos por entrevistar um grande número de pessoas. Ou seja, o que pretendíamos apurar não era somente a vivência pessoal de alguém em relação a um fato, mas também como aquele fato se constituiu para o grupo.
O referencial teórico adotado, as lentes pelas quais olhamos, o aparelho pelo qual gravamos e a tinta com a qual buscamos passar para o papel as interpretações dessa rica, coletiva e pessoal experiência, foram os escritos e intuições de Michel De Certeau, em especial os conceitos de táticas e estratégias, contidas em suas obras A Invenção do Cotidiano I e II. Também, para melhor compreender o que os entrevistados contavam, lançamos mão de muitas outras pesquisas realizadas em assentamentos e acampamentos e o que nós mesmos observamos no período em que estivemos em campo, seja em 2011-2012, seja em 2017-2018.
Portanto, o trabalho final, escrito por vezes extenso, com fatos, fotos e interpretações, trata-se de uma história narrada por várias bocas e estilos, contada por protagonistas dos fatos narrados, intérpretes da experiência histórica da qual seu momento atual é devedor.
Este estudo pretende-se porta voz dos personagens-autores, no esforço de escrever sobre a luta dessas pessoas. Temos consciência de estarmos olhando por óculos confeccionados por estudiosos mais gabaritados, dos quais emprestamos as lentes para ver e temos nossa audição mediada por suas teorias. Temos consciência, outrossim, de as narrações não terem sido expressas pelos mesmos vieses que usamos para as interpretar. Do encontro do narrado com naturalidade, ouvido com atenção e teoricamente interpretado é resultado o presente trabalho.
Neste estudo o acampado, “o homem ordinário se torna o narrador” (CERTEAU, 2013, p. 61) em um lugar comum de seu discurso, espaço de seu desenvolvimento, o acampamento sem-terra. Entendemos que a linguagem dos acampados, o modo de dizer deles é filha do cotidiano, das formas de vida do vivido no qual ela se produziu. Assim sendo, há que se considerar três aspectos dessa linguagem. 1) São maneiras de falar usuais, não têm equivalência nos discursos filosóficos e não são traduzíveis para eles porque nelas existem mais coisas do que nesses discursos; 2) As maneiras de falar constituem uma reserva de “distinções” e de “conexões” acumuladas pela experiência histórica e armazenadas no falar de todos os dias; 3) Enquanto práticas linguísticas, elas manifestam complexidades lógicas das quais nem há suspeita nas formalizações eruditas (CERTEAU, 2013).
Os fatos vividos há vinte anos foram acessados pelos narradores pela memória, casa de quem fala manifesta nas narrações, nas maneiras de falar dos sujeitos da história. Consideramos que a memória é a autoridade, ou seja, aquilo que autoriza como memória coletiva ou individual, aquilo que torna possível este escrito. Assim, buscamos passar para o papel as “línguas naturais que organizam a atividade significante comum”, mas a interpretação, por pretender-se acadêmica, é feita em “língua artificial que articula os
procedimentos de um saber especificado” (CERTEAU, 2013, p. 63) em edioma estrangeiro à casa de quem fala.
Há que se levar em consideração ainda, e isso aparecerá claramente nos relatos, que a história contada, “puxada pela memória”, também traz detalhes circunstanciais, entonações, que apesar de ser a mesma história, a modifica sutilmente. Estamos conscientes de que o ato de dizer do entrevistado é estratégico, pois ele marca no dito aqui e agora o que pretende causar no que presta atenção, ou no que está a fazer perguntas. No responder contando a história, o narrador, conforme suas habilidades, usa de astúcias nas suas maneiras de dizer sobre as maneiras de fazer para responder o que aconteceu conforme ele quer que seja entendido.
Consideramos a oralidade uma exterioridade dos atos de fazer, sem a qual o escrever não teria função. Esta pesquisa foi desenvolvida na perspectiva de que a voz faz escrever, na tentativa de fazer falar a voz dos acampados. Assim, este escrito pretende-se uma tradução para códigos acadêmicos do que está implícito nos relatos daqueles que sabem o que viveram. Sabemos, no entanto, que essa operação nunca chegará a traduzir na íntegra o que foi dito, mas buscamos tomar cuidado ao menos para não trair a memória dos contadores da história.
Para Certeau (2013), todo discurso é possibilidade. O lugar do discurso é dado pela instituição. Nesse sentido, buscamos escrever aqui nos moldes ditados pela instituição, pois quando alguém escreve, não escreve sobre o que quer e da maneira que pretende, mas sobre o que a instituição espera que se escreva. Assim sendo, pode acontecer que quando um assentado que foi entrevistado leia este escrito não se reconheça bem nele, pois a sua fala foi dita em outros códigos.
Sabemos que a leitura que fazemos de Certeau é uma dentre tantas possíveis e ao ouvir os relatos e transcreve-los mediados pelos termos do autor, como Certeau mesmo dá a entender, não se trata apenas de consumir, entrar numa forma, mas sim de buscar ler construindo. Assim, entendemos não repetir os termos do autor, mas fazer um texto diferente, com as ferramentas fornecidas por ele, pretendendo ao menos não quebrar essas ferramentas.
Há, porém, uma diferença significativa entre o que Certeau observava e a quem escutava quando escrevia em relação ao que olhamos e a quem escutamos quando escrevemos. Certeau observava os cidadãos parisienses dos bairros, ou a cidade de Nova York, das ainda existentes torres gêmeas. Observava e escutava os consumidores diante da TV, nas ruas da grande metrópole, no supermercado. Já para este trabalho escutamos pessoas que eram sem-terra, sem-teto, sem-trabalho, e viviam na periferia da cidade e do campo, à beira da estrada. Ao olhar do alto daquele acampamento não eram avistados prédios e
arranha-céus, mas um emaranhado de barracos de lona preta. Observava-se e escutava-se usuários sem TV, pois não havia energia elétrica no acampamento. Eram avistadas pessoas andando no chão bruto, que gostariam de encher carrinhos de mercadorias, mas não possuiam dinheiro para trocar por comida, e que por isso vivencivam um outro lugar, ou um não lugar em relação ao mundo capitalista que os cercava. Para muitos o estar em um acampamento se dava porque não era mais possível sobreviver naquele mundo. Esse não lugar constituiu-se como travessia rebelde e questionadora, um espaço de transgressão.
Passemos agora ao primeiro capítulo no qual estudaremos o trabalho de base desenvolvido pelo MST para formar novo acampamento e como se deu a ocupação da Fazenda Pinhal Ralo, até então pertencente à empresa Giacomet-Marondim.
1 – TRABALHO DE BASE PARA ORGANIZAÇÃO DE UM NOVO
ACAMPAMENTO SEM-TERRA4
A classe roceira e a classe operária Ansiosas esperam a reforma agrária Sabendo que ela dará solução Para situação que está precária. Saindo projeto do chão brasileiro De cada roceiro ganhar sua área Sei que miséria ninguém viveria E a produção já aumentaria Quinhentos por cento até na pecuária!
(Autores: Francisco Lázaro e Goiá. Intérprete: Zilo e Zalo. Ano de lançamento: 1964.) Fernandes (1999) afirma que apesar da luta pela terra vir acontecendo em todos os períodos da história do Brasil, a estrutura fundiária brasileira encontra-se entre os mais altos índices de concentração do mundo. São muitos os movimentos de luta pela terra desde Canudos e movimentos messiânicos, passando pelas ligas camponesas de meados do século XX, até os movimentos sociais do campo atuais, principalmente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), iniciado em 1979, no Rio Grande do Sul. Desde 1980, a luta pela terra no Brasil tornou-se mais intensa e passou a ser entendida como luta pela Reforma Agrária, especialmente apoiada pela Comissão Pastoral da Terra, órgão da Igreja Católica.
No Paraná, como em todo o Brasil, a luta pela terra e a permanência na terra é uma constante histórica, mas foi a partir do ano de 1984, com o primeiro encontro de abrangência nacional dos trabalhadores rurais sem terra5, ocorrido em Cascavel, no qual foram definidos os princípios e formas de luta do MST, que as lutas pela Reforma Agrária se intensificaram, então articuladas com o movimento (FABRINI, 2002).
Dentre essas lutas, a maior ocupação de terra da Região Sul, até a o ano 2000, ocorreu no município de Rio Bonito do Iguaçu-PR, na Fazenda Pinhal Ralo, pertencente à empresa Giacomet-Marondim, por cerca de três mil famílias, isto é, por volta de doze mil pessoas. A
4 É comum os acampamentos organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) terem
um nome, mas o acampamento que deu origem aos Assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire, do qual tratamos nesta pesquisa, não tinha um nome.
5 Sem terra é um termo usado desde a fundação do MASTRO (Movimento de Agricultores Sem Terra do Estado
do Paraná), em 1982, para designar os trabalhadores rurais que se organizam para lutar pela terra. Esse termo, segundo Stedile, foi dado pelos jornais. Os participantes do primeiro encontro nacional do MST, ocorrido em janeiro de 1984, em Cascavel- PR, debateram sobre o nome do movimento que aglutinaria outros movimentos de luta pela terra já existentes. Decidiram-se por manter a nomenclatura com a qual já eram conhecidos na imprensa, Movimento Sem Terra (STEDILE; FERNANDES, 2005).
área ocupada posteriormente foi desapropriada para fins de Reforma Agrária e nela foram criados os assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire (CARVALHO, 2002).
A fim de ter um número de pessoas suficiente para ocupar a Fazenda Pinhal Ralo o MST fez um trabalho de divulgação e montou dois acampamentos-bases na BR 158 para cadastrar os trabalhadores rurais sem terra, trabalho esse conhecido pelos militantes do movimento como trabalho de base (ROSA, 2009).
Neste primeiro capítulo buscamos compreender de onde vêm os acampados, mais que lugar geográfico, os processos vivenciados pelos trabalhadores que foram para o acampamento, trajetórias e travessias de vida essas que inscritas na questão agrária do Paraná e do Brasil. Aqui nos esforçamos por entender as razões pelas quais os sem-terra pesquisados acamparam com suas famílias de baixo de lona preta, à beira do asfalto e como se deu esse inserir-se na luta organizada pela terra.
O texto tenta, às vezes de forma longa, dar visibilidade às narrativas dos sujeitos da história, os quais relataram as trajetórias de vida que os levaram até os acampamentos-bases da BR 158 no Paraná de 1996. Acampamentos esses que se constituíram como momento de travessia na luta pela terra empreendida por essas pessoas.
1.1 Estratégia do MST para a organização de um novo acampamento
Segundo discurso de Ireno Alves dos Santos6, líder do movimento, o MST vislumbrava há muito ocupar a fazenda Giacomet-Marondin.
O grupo Giacomet-Marondim surgiu da fusão feita em 1972 de dois outros grupos, a Madeireira Giacomet S.A. e a Marondin S.A. Exportações. Esses dois grupos atuavam no ramo de madeira no Rio Grande do Sul desde 1910 quando se uniram, formando a Giacomet-Marondin Indústria de Madeiras S.A. e adquiriram 100 mil hectares de terras e florestas no sudoeste do Paraná (ARAUPEL, 2010).
Os 100 mil hectares foram adquiridos da Companhia Celulose e Papel Iguaçu, de propriedade de José Ermírio de Moraes, dono de três pequenas serrarias e responsável dela consolidação do Grupo Votorantin. A área pertencente à Giacomet-Marondin em 1996, ano da ocupação pelo MST, abarcava três municípios, estendendo-se sobre 10,9% da área do Município de Nova Laranjeiras; 26,7% da área do Município de Quedas do Iguaçu e 49,6%
6 Ireno Alves dos Santos, discurso do dia 18 de abril de 1996, proferido na primeira assembleia geral na
das terras do Município de Rio Bonito do Iguaçu (O ESTADO DE SÃO PAULO, 14/09/1997).
Os líderes do MST afirmavam em 1996 que “parte dos títulos da fazenda era ilegal e que, na década de 1980, o Instituto de Terras e Cartografia do Paraná assegurou que 2.400 hectares não possuíam nenhuma documentação” (JANATA, 2012, p. 78). Alegando se tratar do maior latifúndio do Estado do Paraná, com parte dos títulos ilegais, o movimento tinha interesse em ocupar essas terras, a fim de serem desapropriadas e destinadas à Reforma Agrária.
Anteriormente à ocupação da qual estamos tratando, segundo Bonin e Germer (1991), ocorreram pelo menos duas tentativas organizadas de ocupação das áreas de posse da empresa Giacomet-Marondim, uma na década de 1970 e outra em 1983. Não se sabe muito sobre a primeira tentativa, mas quanto à segunda há pelo menos três fontes que dela tratam.
Era do conhecimento das pessoas da região a violência com que a empresa reprimira as tentativas de ocupação e ameaçava trabalhadores rurais do entorno de suas terras. Segundo Janata (2012) há quatro fontes que tratam das violências cometidas pela empresa Giacomet-Marondim. A primeira fonte é o boletim informativo “Poeira”, da CPT, edição maio/junho de 1983, a segunda fonte é a “Revista Sem Terra”, publicação do MST, em 2001, com relatos de José das Neves, o qual participou de três ocupações de áreas pertencentes à madeireira. A terceira é o vídeo “Giacomet-Marodin, uma história de luta e devastação”, produzido pelo MST (s/d), o qual pode ser acessado no You Tube e contém depoimentos de seis trabalhadores rurais e ex-funcionários da empresa, relatando violências, torturas e pressões realizadas pela empresa, através de seus jagunços, contra os trabalhadores rurais que moravam em seu entorno. E a quarta fonte é uma entrevista de Danilo Ferreira7.
Segundo a mesma autora, no ano de 1980 o Presidente João Batista Figueiredo desapropriou 95 mil hectares da empresa. Os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, a CPT e o MASTRO organizaram uma ocupação de mil hectares desapropriados. Os trabalhadores rurais foram expulsos com grande violência por parte de jagunços da emprese e da Polícia Militar. Outras ocupações foram tentadas, mas para expulsar os trabalhadores rurais, ameaças eram feitas e pessoas eram torturadas e mortas com requintes de crueldade, de formas que a desapropriação da área não saiu do papel. Essa situação foi denunciada pelo boletim “Poeira”, da CPT (JANATA, 2012).
Por ter conhecimento da violência com a qual a empresa reprimia quem entrasse em suas terras, o MST pensou uma estratégia8, a qual consistia em ocupar a área com um grande
número de trabalhadores rurais sem terra. Foi então que dois líderes da direção nacional e estadual do movimento, Ireno Alves dos Santos e Jaime Calegari ficaram responsáveis pela articulação de um novo acampamento, visando ocupar a dita área.
O MST para mobilizar grande número de pessoas para o acampamento taticamente no ano de 1995 fez reuniões com agentes de pastoral da CPT do Paraná e com lideranças dos Sindicatos Rurais, bem como, com lideranças altamente confiáveis do movimento no estado e, de forma sigilosa, planejou fazer o trabalho de base no mês de fevereiro de 1996 para em março iniciar o acampamento.
Meses antes de iniciar um acampamento os militantes, assentados e parceiros do movimento se deslocam por bairros das periferias das cidades, por povoados e municípios do interior para fazerem as reuniões da terra. Essas reuniões são o momento no qual os divulgadores explicam como se dá o processo de acampamento até a entrada na terra. Esse processo de mobilização é chamado pelos militantes do MST de trabalho de base (LOERA, 2009).
Para que aconteçam as reuniões, é criado um espaço de sociabilidade por meio das redes de relações. Essas reuniões em muitos lugares não são divulgadas pelos meios de comunicação, e assim as relações de parentesco, vizinhança e amizade são indispensáveis para que as pessoas fiquem sabendo e participem das reuniões (LOERA, 2009).
Aliás, há que se levar em conta que em 1996 o MST já atuava a mais de dez anos, e a Comissão Pastoral da Terra (CPT)9, a qual ajudou a organizar o movimento, tinha longo trabalho de presença e articulação junto aos trabalhadores rurais do Paraná. Para Loera (2009), as ocupações de terra só se tornam possíveis graças à existência de uma rede de conhecidos e familiares. De fato, ao analisarmos o trabalho de divulgação do novo acampamento, percebemos que essas redes de conhecimentos familiares foram muito
8 “Estratégia é o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de
querer e poder é isolável de um “ambiente”. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta. A nacionalidade política, econômica ou científica foi construída segundo esse modelo estratégico. As estratégias escondem sob cálculos objetivos a sua relação com o poder que os sustenta, guardado pelo lugar próprio ou pela instituição” (CERTEAU, 2013, p. 45).
9 11. Organismo pastoral da Igreja Católica, vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A
CPT foi organizada em 1975, em Goiânia (GO), durante um encontro de bispos e agentes de pastoral, a partir de reflexões sobre a crescente onda de conflitos de terra que ocorriam nas regiões Norte e Centro Oeste do país. A CPT teve como referência doutrinária a Teologia da Libertação. Procurava aplicar na prática as orientações do Concílio Vaticano II. Embora iniciada no Norte e no Centro-Oeste, estendeu suas atividades para quase todos os estados do Brasil (STEDILE; FERNANDES, 2005).
importantes para que em pouco tempo se divulgasse e mobilizasse grande número de trabalhadores sem-terra.
Ari Moreira participou ativamente do trabalho de divulgação do novo acampamento, ele nos contou como foi feito esse trabalho.
Comecemos em fevereiro de 96. Foram poucos dias. Em 15 dias foram feitas as reuniões e se organizaram e já tinha que tocar o barco não dava para ficar muito tempo, para turma descobrir. Só que antes já fazia no sindicato, conversava, só que quando é para organizar tem que ser rápido. Não é como hoje que já se divulga, aquele tempo ninguém sabia.10
Ari Moreira nos contou como Jaime Calegari e Ireno Alves organizaram o trabalho de divulgação no sudoeste do Paraná:
Tirava uma equipe, que nem nós de Dois Vizinhos, um de Capanema, tinha um de São Jorge, ali nós começámos fazer essas discussões na ASSESSOAR. Tivemo reunião lá em Beltrão. Lá estava o Calegari, companheiro que trabalhava com nós, falecido Ireno. Naquela região eram as pessoas que participavam junto com nós para explicar como nós tínhamos que fazer pra ir fazendo o trabalho. Daí quando chegou na última reunião cada um já sabia a sua função. O Calegari falou então seu Ari vai fazer parte da direção, chega lá o senhor já sabe. Cada um tinha o setor dele para trabalhar né.11
Ou seja, Ireno Alves dos Santos com Jaime Calegari setorizaram a sua região de atuação, o oeste e sudoeste do Paraná. Cada setor era composto por alguns munícipios, sendo que em cada município foram escolhidas lideranças já vinculadas à luta pela terra como responsáveis por realizar o trabalho de base com a mobilização de pessoas para o novo acampamento. Em reuniões com esses responsáveis, os dois líderes do MST explicavam toda a metodologia a ser usada.
Ari Moreira nos contou com detalhes como era desenvolvida essa metodologia:
Cada região tinha um [líder]. Cada município um começava a organizar. Nois ia nas casas, conversava nas casas, fazia conversa na casa, com as famílias, explicava como era. Naquele tempo não dava pra ficar abrindo de mais, olha nois vamos acampar. O povo tinha medo, tinha fazendeiros que perseguiam. De vagarzinho ia conversando meio no segredo um com o outro. Já pegava o nome. De Dois Vizinhos e Cruzeiro do Iguaçu nois
10 Ari Martins Moreira, Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair Oliveira em
12 de fevereiro de 2018.
viemos em doze famílias aquele dia lá no Cruzeiro tinha um piazão que foi comigo, mas eu tive que ir lá porque o responsável da região era eu né. Aí fomos nas casas do pessoal.12
Ou seja, havia um organizador por município. Esse organizador, conforme a sua realidade, pensava estratégias para abordar as famílias de possíveis candidatos ao acampamento. Essas estratégias iam desde o ir conversar de casa em casa até o fazer reuniões com um grupo maior de pessoas em salões de igrejas ou associações. Tudo era feito com o máximo de discrição para não ser descoberto, pois pelo histórico de violência infligida pelos fazendeiros da região contra organizações de trabalhadores rurais sem terra, “o povo tinha medo”.
Uma vez feita a divulgação e levantados os nomes de quem ia acampar, o mesmo líder organizava o transporte do pessoal. Em alguns municípios era a administração pública e em outros os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STRs)13 que cediam ônibus para o transporte das pessoas e caminhões para transportar os pertences dos mesmos.
Ari Moreira nomina os pertences desses trabalhadores de “bugiganga”, e descreve o que esses trabalhadores levavam para o acampamento. Segundo ele, “ninguém tinha muita coisa mesmo, era uma borsa de roupa, um acolchoadinho e umas panelinha (risos), foice, enxada, machado, facão, trempe pra fogo”. De fato, uma das características dos acampamentos é a provisoriedade. Pudemos constatar em outros acampamentos que as pessoas ao acamparem levam o mínimo necessário, o que consiste basicamente em ferramentas, algumas peças de roupas pessoais, colchão e cobertas para dormir e panelas para cozinhar. São raras as pessoas que levam algum móvel. Nessa época a maioria dos acampamentos não contavam com energia elétrica, então eletrônicos eram dispensáveis. Toda a mudança era embalada em duas ou três sacas usadas no interior para armazenar sementes.
O levar o mínimo necessário acontecia por três fatores. O primeiro fator se devia a que muitas dessas pessoas que se decidiam por acampar não possuíam muitas coisas e precisavam repartir o que tinham com as pessoas da família que não iam para o acampamento. Outro motivo dizia respeito à possibilidade de ter que sair às pressas seja por motivo de despejo, seja de mudança para um outro local, por isso se deveria levar o mínimo possível. Ainda um terceiro motivo era porque o barraco de lona onde iam morar não oferecia segurança e como o
12 Ari Martins Moreira, Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair Oliveira em
12 de fevereiro de 2018.
13 Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs). A partir de 1962, os trabalhadores rurais brasileiros conquistaram
o direito de se organizar em sindicatos com base municipal, o que só era permitido aos assalariados urbanos. Independentemente de categoria (assalariados, posseiros, pequenos proprietários ou sem-terra) todos poderiam estar filiados ao sindicato de trabalhadores rurais. E a partir do sindicato municipal se constituiu toda estrutura sindical verticalista de federações estaduais e a Contag, em nível nacional (STEDILE; FERNANDES, 2005).
acampado deixava seu barraco sozinho muitas vezes, temia chegar e não encontrar todos os seus pertences (LOERA, 2014).
Estando já há algum tempo no acampamento, muitos acampados passam a adquirir mais coisas para o seu barraco, conforme a necessidade do dia-a-dia e a confiança que vão adquirindo nos companheiros de luta.
Uma equipe do MST se deslocou até o Paraguai para fazer o trabalho de base entre os brasileiros que moravam além fronteira. Ao que parece nem tudo era esclarecido, ou algumas informações eram passadas ou entendidas de forma divergente da realidade. Os brasiguaios, como eram chamados, saíam do Paraguai e ficavam em Foz do Iguaçu na casa de Lindomar Ângelo e sua esposa, Eva da Rosa, que na época trabalhavam num projeto com migrantes das irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo Scalabrinianas. Eva da Rosa nos contou que sua casa virou o paradeiro, a hospedaria daquele povo:
Eles vinham porque disque chegava aqui tinha tudo. Os que foram no Paraguai disseram que chegando aqui tinha tudo, falaram errado, que podia vir de qualquer jeito que tinha tudo. Chegavam [os brasiguaios] lá em casa, nois ajeitava comida pra eles. Eu chegava do serviço não tinha nem como entrar pra dentro. Tinha uma área, tava cheinho de gente. Mulher, criança, tudo.14
Segundo Lindomar Ângelo, em Foz do Iguaçu, onde ele ajudou a fazer a divulgação e recrutamento de pessoas, o trabalho também aconteceu em fevereiro de 1996. E a sua casa era o ponto de encontro para as pessoas:
Tinha sido agendado uma reunião lá na catedral. Daí a partir dessa reunião, dali pra frente que a gente se misturou. O sonho de ter um pedaço de terra, de ter uma vida sossegada, não rolar mais. Daí foi quando a gente começou. Marcamos um encontro na nossa casa onde morada pra fazer reunião e começar vir pro acampamento. Isso começou em fevereiro de 96. Aonde nois entramos, a família. Nois já era casado. Ela trabalhava na pastoral de migração de fronteira. Eu já tava afastado cuidando de outros trabalhos. Daí começamos a fazer reunião lá, foi assim que começou tudo. Comecemos a carregar gente, vinha gente de todo lado, do Paraguai, e ficava lá em casa. Ela chegava de tarde do serviço, fazia panelão de comida lá. Tinha gurizadinha, pessoas bem com bastante dificuldade.15
14 Eva da Rosa Ângelo, Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair Oliveira em
12 de fevereiro de 2018.
15 Lindomar Ângelo, Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair Oliveira em 12
Portanto, a casa de Lindomar Ângelo e Eva da Rosa tornou-se o ponto de partida para o acampamento tanto para quem saíra do Paraguai quanto para as pessoas dos municípios de Medianeira, São Miguel e Santa Terezinha. Também havia outros pontos de encontro dessas pessoas em Foz do Iguaçu.
Do Paraguai e de Foz do Iguaçu um grande número de pessoas foi para o acampamento, em várias viagens, o que chamou a atenção das autoridades, e por isso o Lindomar Ângelo foi preso, mas logo depois liberado, conforme ele mesmo relatou: “daí quando foi no dia 10 eu fui preso. Quando cheguei na BR me prenderam. A polícia tava lá. Daí os companheiros acharam por bem eu parar de fazer esse trabalho lá e vir para cá. Daí eu falei com a mulher, você pede a conta lá que nós vamos para o acampamento”.
Um papel muito importante nessa divulgação teve os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STRs). Aliás, a colaboração entre os STRs e o MST acontece desde a gênese do movimento. Inclusive, em algumas regiões os sindicatos faziam divulgação pelo rádio para que os trabalhadores rurais sem terra fossem fazer o seu cadastro, e no momento do cadastro conversavam sobre o novo acampamento.
E daí quando vim pro Paraná, um ano depois que nóis tava morando, começou assim um trabalho no Sudoeste de a gente escutá no rádio o convite pra famílias que não tinham terra que fossem fazer seu cadastro nos sindicatos, aí escutamos várias vezes aquela notícia e se reunimo com meu sogro e minha esposa e por curiosidade viemos nas reunião. E encontramo uma das lideranças do pessoal ali do sindicato do sudoeste fazendo as reunião e convidando as famílias que tivessem interesse em ir para o acampamento. Ficamos bastante curioso, isso e aquilo e aí discutimo com a família, já que tamo aqui... porque a nossa meta junto com o sogro lá era fazer um dinheirinho e comprar uma outra propriedade. E aí participando dessas reunião, depois que nóis tava ali dois anos, duas lavoura, foi em 96.16
Também Dalíria dos Santos nos contou que a organização na região de Cantagalo aconteceu por meio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
Na época nois morava junto com meu pai em Cantagalo, que meu pai já é de área de assentamento né. Ele era assentado no Assentamento Água Fria, que hoje pertence a Goioxim, e a gente morava junto com ele num pedacinho, e aí surgiu a organização do Movimento a nível de sindicato e várias entidades pra um acampamento. E aí a gente decidiu de vir, era eu e mais três filhos e o marido.17
16 Enio Pasqualim. Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair Oliveira em 09
de fevereiro de 2018.
17 Dalíria dos Santos Mello. Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair de
No município de Sulina também o trabalho de base foi feita por meio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Assim explicou Amilton Alves:
Eu soube por meio do sindicato. De vez em quando a gente tava no sindicato, e o povo começou a falar. Saiu uma reunião, acho que em Saudade foi a primeira reunião que saiu, lá disseram que ia sair um acampamento (...). Daí quando saiu essas reunião a gente viu que tinha que ir, porque não tinha o que fazer. Foi undié que a gente se organizou e veio pro barraco, pra baixo da lona pra peliar por um pedaço de terra.18
O trabalho de base geralmente era realizado por pessoas conhecedoras da luta pela terra, membros do MST, da CPT ou dos Sindicatos Rurais. Pessoas que se revestiam de autoridade no assunto para os que estavam sendo abordados. Os locais aonde ocorriam as reuniões eram significativos, demonstrando proximidade: o sindicato ou sede de alguma associação, a casa de alguém, ou barracão de igrejas ou dentro das próprias igrejas, sempre com o consentimento dos líderes responsáveis pelo lugar, o que dava credibilidade a quem falava. Outro aspecto era a linguagem empregada, palavreado local, com exemplos conhecidos e amplo espaço para perguntas. Por fim, o fator histórico, pois m 1996 o MST já tinha mais de 10 anos de luta pela terra, com vários assentamentos já organizados, isso era retomado nos convites, como relatou Enio Pasqualim:
(...) aí o convite era, olha nóis vamos ocupar, fazer o acampamento na BR até organizar o povo ali e depois nois vamos pra uma área ali e discutir com o governo pra que ele compre a área pra fazer assentamento. Nessa avaliação experimentemo e acabamo se envolvendo.19
E o trabalho de divulgação não terminou com a organização dos acampamentos- base. Ari Moreira nos contou que depois de os acampamentos-base já estarem montados o trabalho de divulgação continuou: “Uma vez nois saímos como Pe. Afonso, fomos pros municípios dar uma conversada nos municípios, porque precisava mais gente né”. De fato, depois da ocupação do Buraco ainda foram cadastradas mais pessoas.
Várias pessoas que participaram desse trabalho de base, já eram assentados do MST ou tinham vínculos com lideranças do movimento. Segundo Loera (2009), persiste nas ocupações de terra uma lógica de obrigações e compromissos entre assentados e lideranças do
18 Amilton Alves Carlin. Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair de Oliveira
em 15 de fevereiro de 2018.
19 Enio Pasqualim. Assentamento Ireno Alves dos Santos. Entrevista concedida a Ângelo Altair Oliveira em 09
movimento, de formas que as ocupações acontecem em uma espiral, estando sempre um assentamento ligado a um acampamento, numa rede de relações.
1.2 De onde saíram as pessoas para acampar, processos vivenciados antes do acampamento
Imagem 2: Acampados transportando suas coisas. Dia 17/04/1996. Na chegada dos acampados no acampamento do Buraco.
Fonte: Sebastião Salgado. Livro Terra, 1997.
Os acampados saíram, na sua maioria, de um lugar comum, o lugar de onde tinham que sair em busca de melhores condições de vida. Através dos relatos recolhidos percebemos que os sem-terra traziam na sua trajetória de vida vários lugares e experiências, muitos deles tendo migrado várias vezes até chegarem ao acampamento-base. As trajetórias de vida dessas pessoas é que nos interessa nesse momento. Entendendo-se como trajetória aqui “o encadeamento temporal das posições sucessivamente ocupadas pelos indivíduos nos diferentes campos do espaço social” (SILVA e MELO, 2009, p. 134).
Vários acampados eram trabalhadores rurais, mas não possuíam terra, é o caso dos meeiros, arrendatários e boias-frias. A maioria desses saíram do Sudoeste do Paraná. Outros tinham tido a sua terra e foram desapropriados pelas barragens, em especial a Barragem de Itaipu. Muitos já haviam passado por tantos processos de migração que agora se encontravam sem teto e sem trabalho, nas periferias de Foz do Iguaçu, e estes foram no mesmo transporte dos brasiguaios. Outros, os pais tinham suas terras, mas com o crescimento da família, a terra tornou-se insuficiente. E ainda os filhos de assentados, cujos pais já haviam passado por