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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”

AVM FACULDADE INTEGRADA

Família e Saúde Mental

Por: Fernanda de Castro Corbage Nogueira

Orientador Prof. Fabiane Nunes

Rio de Janeiro 2014

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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”

AVM FACULDADE INTEGRADA

Família e Saúde Mental

Apresentação de monografia à AVM Faculdade Integrada como requisito parcial para obtenção do grau de especialista em Terapia de Família.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, aos meus familiares, especialmente ao meus pais e aos professores da pós-graduação em Terapia de Família.

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DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao meu marido Júlio pelo apoio constante e incentivo e a minha querida Isabela que está a caminho!

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RESUMO

Nesta monografia será discutida a família e forma como ela incide positivamente e negativamente, no desenvolvimento de seus membros.

Este trabalho tem por objetivos: trazer a tona a temática da comunicação e seus desdobramentos e os desafios da prática do atendimento familiar.

Os aspectos abordados são frutos da experiência no trabalho com pacientes com doença mental e suas respectivas famílias, em Instituições assistenciais.

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METODOLOGIA

A metodologia usada nesse trabalho foi a pesquisa bibliográfica. Assim, pude obter subsídios para confirmar a minha hipótese: a família tem um papel fundamental na saúde mental de seus membros. Os principais autores utilizados nesta pesquisa foram Foucault, Meyer e Wtzlawick.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 08

CAPÍTULO I – A História da Loucura e a Reforma Psiquiátrica

1 – História da Loucura na Era Clássica 10

CAPÍTULO II – A Família como um Sistema

2.1 – Teoria sistêmica 17

2.2 – Problemas de Comunicação no Sistema Familiar 22

CAPÍTULO III – Terapia Familiar

3 – Terapia Familiar e seus desafios 29

CONCLUSÃO 37

BIBLIOGRAFIA 38

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INTRODUÇÃO

Para a conclusão do curso de pós graduação em Terapia de Família da Universidade Cândido Mendes UCAM a realização dessa monografia é uma etapa obrigatória. Resolvi, então escrever sobre questões que nortearam a minha prática nos estágios que fiz em saúde mental, no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira e no Instituto Municipal Philippe Pinel.

A reforma psiquiátrica possibilitou o surgimento de novas formas de lidar com a loucura e o sofrimento psíquico, com a transformação do modelo de assistência à saúde mental e conseqüentemente com a implantação de novos dispositivos. Todos os saberes e práticas que compõem o campo da reforma psiquiátrica constituem uma recusa ideológica de afastamento e isolamento do sujeito acometido por uma doença mental.

O primeiro capítulo - História da loucura e a reforma Psiquiátrica – apresenta uma breve discussão sobre a história da loucura a partir do ponto de vista de Foucault, que estabelece um paralelo entre a história da loucura e a história das respostas sociais à loucura e em geral essas respostas visam silenciar e segregar o que é diferente. Foucault nos mostra que ocorre uma apropriação médica da noção de loucura, tendo Pinel como sua principal expressão, portanto a loucura passa a ser vista como doença mental. Os asilos eram lugares onde os loucos passaram a ocupar, espaço de reclusão, e eram vistos como objetos de conhecimento médico, portanto o asilo deu à psiquiatria o campo que delimita sua prática, seu saber e seu objeto (noção de saúde mental).

No segundo - A Família como um Sistema e problemas de comunicação no sistema familiar - mostro as principais mudanças da passagem do pensamento analítico ao pensamento sistêmico, que ocorreu em função da mudança de paradigma, onde o sintoma passa ser analisado numa visão macro, inter-relacional. Pensando a família a partir da Teoria Geral dos Sistemas fundada por Bertalanfy.

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Ao longo do capítulo abordo a compreensão de que a família pode ser entendida não só como um sistema, mas também como um sistema de interações. Quando nos referimos a um padrão relacional, queremos especificamente falar do conjunto de comportamentos e comunicações de um membro do sistema familiar como um todo.

E for fim coloco as contribuições de Watzlawick a respeito da

comunicação, que é uma condição imprescindível da vida humana e da ordem social. É notório que desde o início da sua existência o ser humano está envolvido no complexo processo de aquisição das regras de comunicação.

Concluo o capítulo, afirmando que a terapia desenvolvida a partir do enfoque Sistêmico enfatiza a mudança no sistema familiar, sobretudo pela reorganização da comunicação entre os membros da família. O passado é abandonado como questão central, pois o foco de atenção é o modo comunicacional no momento atual.

No terceiro - Terapia Familiar e seus desafios - finalizo o trabalho expondo a importância de trabalhar as relações familiares constantemente para que os membros percebam o quanto a forma de se relacionarem contribui para manter a doença. Porém essa percepção para muitas famílias envolverá a elaboração de como essa terapia é assimilada, e da série de problemas que tal assimilação coloca para o terapeuta, em relação à sua identidade profissional.

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CAPÍTULO I

A História da Loucura e a Reforma Psiquiátrica

1 – História da Loucura na Era Clássica

Foucault, em seu livro História da Loucura, utiliza vasta bibliografia para compor a trajetória da loucura na ocidentalidade clássica. Mostra a relação entre a loucura e razão em determinados momentos históricos.

Segundo Foucault (1978), durante a Renascença, a loucura era encarada como uma forma relativa à razão, o que proporcionava uma interlocução entre as duas e a mensuração de uma pela outra. Durante esse período da Renascença (XIV/XVI) há uma retomada da cultura clássica (Humanismo) esquecida durante a maior parte da idade média. O pensamento teocêntrico é deixado de lado em favor do antropocentrismo, que traz a discussão velhos temas cristãos, os quais pregavam que a razão absoluta era somente emanada por Deus, a razão do homem não passava de uma loucura frente à sabedoria divina. Portanto a separação entre a loucura e a razão dos homens não teria sentido, pois a loucura encontrava-se veiculada a razão. Dentro desta perspectiva, os loucos não eram confinados e a convivência com estes era tolerada.

“A loucura torna-se uma forma relativa à razão ou, melhor, loucura e razão entram numa relação eternamente reversível que faz com que toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória. Cada uma é a medida da outra, e nesse movimento de referência recíproca elas se recusam, mas uma fundamenta a outra”.(Foucault; 1978, p. 30)

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A loucura é um tema presente na literatura dos séculos XV e XVI, numa identificação romanesca, em obras como Dom Quixote e Rei Lear. No domínio da expressão da literatura e filosofia a experiência da loucura assume sobre tudo o aspecto de uma sátira moral, um confronto entre a consciência crítica e a experiência trágica.

A literatura no começo do século XVII propõe a manifestação da verdade, e o retorno da razão, devido ao advento da filosofia cartesiana, que propõe a loucura como o avesso da razão, impossibilidade do pensamento.

A loucura vai ser reduzida ao silêncio pela era clássica1, através do surgimento das casas de internamento, que eram espaços onde os leprosos foram abrigados no início da idade média, e que nesse momento passam por reconstrução a fim de abrigar os loucos. É importante ressaltar que até este momento a loucura não era sinônimo de doença mental e sim estava ligada a questões morais, religiosas, políticas e econômicas.

“A loucura, cujas vozes a Renascença acaba de libertar, cuja violência porém ela já dominou, vai ser reduzida ao silêncio pela era clássica através de um estranho golpe de força.” (Ibid.:.p. 45)

Neste momento que Foucault chama de a grande internação, o funcionamento dos hospitais gerais, casas de internação, não se assemelham a nenhuma idéia médica, e está diretamente ligada ao poder real. Os hospícios eram instituições cuja tarefa era de impedir a mendicância e a ociosidade, bem como as fontes de todas as desordens. Em toda a Europa, o internamento tem nesta época o mesmo sentido de limpeza moral.

“Ainda durante muito tempo a casa de correção ou os locais do Hospital Geral servirão para a colocação dos desempregados, dos sem trabalho, e vagabundos. Toda vez que se produz uma crise e que o número de pobres sobe verticalmente, as casas de internamento retomam,

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pelo menos por algum tempo, sua original significação econômica.” (Ibid.:p. 67)

Em relação a assistência, os maus tratos e até mesmo a violência devem ser vistos em sua perspectiva temporal, na medida que a razão era atribuída como característica essencialmente humana e a loucura o oposto daquela, explica-se então a inumanidade do confinamento dos loucos.

“O hospital como instituição importante e mesmo essencial para a vida urbana do ocidente, desde a Idade Média, não é uma instituição médica, e a medicina é, nesta época, uma prática não hospitalar” (Foucault; 1981:p. 101)

No século XVIII se estabelece a grande crise da internação. Em primeiro lugar com o chamado grande medo que é animado, no fundo, por um mito moral.

“Muitas dessas casas de internamento foram construídas lá onde antes se tinham colocados os leprosos; dir-se-ía que, através dos séculos, os novos pensionários foram contagiados pelo mal. Eles reassumem o brasão e o sentido que tinham sido ostentados nesses mesmos lugares...” (Foucault; 1978:p. 353)

O medo leva os médicos para as casas de internamento.

Em segundo lugar a partir do século XVIII a concepção de loucura é modificada, pois se no século XVII era ela colocada como a perda da verdade no mundo com um olhar de animalidade, nesse momento a loucura era vista como a perda da verdade do próprio indivíduo acometido pela doença mental.

“Na segunda metade do século XVIII, ela não mais será reconhecida naquilo que aproxima o homem de uma decadência imemorial ou de uma animalidade indefinidamente presente; situa-se, pelo contrário nessas distâncias que o homem toma em relação a si mesmo, a

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seu mundo, a tudo aquilo que lhe oferece na imediatez da natureza; a loucura torna-se possível nesse meio onde se alteram as relações do homem com o sensível, com o tempo, com o outro; ela é possível por tudo aquilo que, na vida e no devir do homem, é ruptura com o imediato.” (Ibid:p. 368)

Na segunda metade do século XVIII inicia-se a criação de casas estritamente reservadas aos loucos, os asilos, embora a lógica de repressão no tratamento fosse mantida junto a não inserção médica.

“Portanto, o essencial do movimento que se desenvolve na segunda metade do século XVIII não é reforma das instituições ou a renovação de seu espírito, mas esse resvalar espontâneo que determina e isola asilos especialmente destinados aos loucos.” (Ibid:p. 384)

Foi importante que houvesse essa nova exclusão a fim de mostrar que alguma coisa importante estava acontecendo. O fato do isolamento da loucura e seu distanciamento do desatino, que estavam confusamente misturados, instalou a loucura como objeto de percepção. O grande internamento precedeu os asilos de loucos e a psiquiatria positiva.

No final do século XVIII acontece um evento de grande importância realizado por Pinel, diretor da antiga Bicêtre, que seria a retirada das correntes dos loucos, promovendo um movimento de reforma, com o surgimento de uma ciência médica da loucura.

“...primeiro o internamento, do qual procedem os primeiros asilos de loucos; daí nasce essa curiosidade – logo transformada em piedade, depois em humanitarismo e solicitude social – que permitirá a existência de Pinel e Tuke, os quais por sua vez provocarão o grande movimento de reforma..” (Ibid:p. 392)

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Foucault retratou e analisou criticamente como funcionou a política do internamento no século XVIII. Não houve a libertação plena da loucura, os asilos eram prisões que dispensavam algemas, realizando um tratamento que impedia a individualidade do sujeito e massificava-os, unindo a loucura ao internamento de uma forma mais sólida.

“Pelo contrário, mais solidamente do que nunca ela uniu a loucura ao internamento, e num duplo elo; um fazia dela o próprio símbolo do poder que encerra e seu representante irrisório e obsedante no interior do mundo do internamento; o outro, que a designava como objeto por excelência de todas as medidas de internamento.” (Ibid:p. 398)

O internamento se transformou em asilo devido a alteração de suas significações sociais, a crítica política da repressão e a crítica econômica da assistência. A loucura se apropria de todo campo de internamento, enquanto todas as outras figuras em desatino a normalidade são pouco a pouco afastadas. Ocorre uma relação paradoxal, pois com o fim do internamento a loucura formula sua verdade e libera sua natureza, porém continuam reafirmados o confinamento e o distanciamento do social como práticas no tratamento.

Com o surgimento do asilo, a medicina emerge nesse espaço tornando-se protagonista e tendo o controle do funcionamento interno.

Contudo é importante ressaltar que a transformação da casa de internamento em asilo não se fez através da introdução progressiva da medicina, e sim porque o próprio internamento aos poucos assumiu um valor terapêutico.

“Não é o pensamento médico que forçou as portas do internamento; se os médicos hoje reinam no asilo, não é por um direito de conquista, graças à força viva de sua filantropia ou de sua preocupação com a objetividade

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científica. É porque o próprio internamento aos poucos assumiu um valor terapêutico, e isso através do reajustamento de todos os gestos sociais ou políticos, de todos os ritos, imaginários ou morais, que desde mais de um século haviam conjurado a loucura e o desatino.” (Ibid:p. 434)

Foucault revela que a psiquiatria surgiu no final do século XVIII e se desenvolveu no século XIX através da experimentação, concebendo a loucura como objeto de estudo.

“... sob o olhar que agora a envolve, ela se despoja de todos os prestígios que faziam dela, ainda recentemente, uma figura conjurada desde o momento em que era percebida; ela se torna forma olhada, coisa investida pela linguagem, realidade que se conhece; torna-se objeto.” (Ibid:p. 439)

Segundo Foucault o asilo de Pinel era um espaço onde havia um domínio uniforme da legislação, soberania, aonde o poder do médico era maximizado, um lugar de síntese morais.

“toda a vida dos internos, todo o comportamento dos vigilantes em relação a eles, bem como o dos médicos, são organizados por Pinel para que essas sínteses morais se efetuem.” (Ibid:p. 489)

A função do asilo era prover ordem ao sujeito através da figura do médico que utilizava técnicas como isolamento, interrogatórios públicos, pregações morais, punição com duchas e trabalho obrigatório. Na verdade não se tinha um saber médico da loucura, uma ciência, e sim um poder de ordem moral e social.

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“o médico só pode exercer sua autoridade absoluta sobre o mundo asilar e na medida em que, desde o começo foi pai e juiz, família e lei, não passando sua prática médica, durante muito tempo, de um comentário sobre os velhos ritos da ordem, da autoridade e do castigo.” (Ibid:p. 498)

Na virada para o século XIX ocorrem movimentos de reforma, que passam a se orientar pela crítica à insuficiência do asilo, seu caráter fechado e autoritário.

O período pós Segunda Guerra Mundial é o momento em que o campo psiquiátrico é redimensionado conceitualmente e teoricamente.

Assim , a estratégia de transformar o sistema de saúde mental encontra uma nova tática: é preciso desinstitucionalizar, é preciso inventar novas formas de lidar com a loucura e o sofrimento psíquico. A substituição do modelo asilar ganha nova forma com os novos serviços oferecidos, como residências terapêuticas , leitos em hospitais gerais, moradias protegidas, hospitais-dia, hospitais-noite, associações de pacientes e familiares, CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) entre outros.

Com a implantação do novo modelo de assistência à saúde mental, o trabalho de equipes multiprofissionais é priorizado. Todos os saberes e práticas que compõem o campo da reforma psiquiátrica constituem uma recusa ideológica da anulação subjetiva do louco, segundo Foucault (1978, p.20) “a reforma psiquiátrica é a tentativa da dar à loucura uma outra resposta social, ou seja, dar ao louco um outro lugar social.”

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CAPÍTULO II

A Família como um Sistema

2.1 – Teoria sistêmica

A psiquiatria, ao longo da idade moderna, dedicava-se a encontrar, circunscrever e isolar certo número de entidades que pudessem ser classificadas segundo as leis da nosologia médica, de acordo com o modelo em uso naquela época na prática clinica. Trata-se de uma época de descrições exaustivas e meticulosas de certo número de doenças. Acreditava-se que essas síndromes, até certo ponto autônomas, poderiam apoderar-se da pessoa e, como corpos estranhos, poderiam ali permanecer incluídas, habitando-a, como um robô dentro do indivíduo alienado. Este era transformado em um ser perigoso e portanto deveria ser internado e afastado do convívio familiar.

A ciência no período da idade moderna2, também conhecida como revolução cientifica, passa ser um conhecimento mais estruturado e prático, pois até então a ciência estava atrelada a filosofia, separa-se desta e eleva-se o eleva-senso critico de obeleva-servação dos fenômenos naturais em vez de renegá-los à interpretação da igreja católica.

“O Renascimento trouxe como uma de suas características o humanismo. Esta corrente de pensamento e comportamento pregava a utilização de um senso crítico mais elevado e uma maior atenção às necessidades humanas ao contrário do teocentrismo da Idade Média, que pregava a atenção total aos assuntos divinos e, portanto, um senso crítico menos elevado. Este maior senso crítico exigido pelo humanismo

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permitiu ao homem observar mais atentamente os fenômenos naturais em vez de renegá-los à interpretação da Igreja Católica. (Wikipédia)”

Enquanto a ciência se preocupou com o estudo das relações lineares, unidirecionais e progressivas de causa-efeito, um considerável número de fenômenos sumamente importantes manteve-se fora do grande território conquistado pela ciência durante os últimos quatro séculos. Os cientistas dessa época, mecanicistas, enxergavam tudo como máquinas e engrenagens. Com isso estabeleceu-se uma visão mecanicista do mundo.

A passagem do pensamento analítico ao pensamento sistêmico ocorreu em função da mudança de paradigma, onde o sintoma passa ser analisado numa visão macro, inter-relacional. Pensando a família a partir da Teoria Geral dos Sistemas Cerveny (1994) diz que em uma dada família o comportamento de cada componente é interdependente do comportamento relacional dos outros membros.

Karl Ludwing Von Bertalanfy foi o fundador da Teoria Geral dos Sistemas fez seus estudos em biologia interessando-se desde cedo pelos organismos e pelos problemas do crescimento. Foi um dos cientistas mais críticos à visão mecanicista da ciência da época.

Criticou a visão de que o mundo era dividido em diferentes áreas, como física, química, psicologia, biologia etc. Sugeria que os sistemas deveriam ser estudados globalmente, de forma a envolver todas as suas interdependências, pois cada um dos elementos, ao serem reunidos para constituir uma unidade funcional maior, desenvolvem características que não se encontram em seus elementos isolados.

Define um sistema como um todo organizado de elementos que estão em contínua interação. Esses elementos estabelecem trocas entre si que mantém a organização e perpetuação do sistema. Dessa forma, os membros da família podem ser organizados em subsistemas. Juntos os membros constituem o núcleo familiar, sem perder as características do todo.

Os sistemas são abertos e portanto sofrem interações com o ambiente onde estão inseridos, ao contrário dos sistemas fechados que não

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realizam trocas e tendem a desaparecer. As interações provocam realimentações que podem ser positivas ou negativas (homeostase), criando portanto uma auto regulação regenerativa, que por sua vez cria novas propriedades que podem ser benéficas ou maléficas para todo o sistema, independente das partes.

A diferença está em que, no caso de retroalimentação negativa, essa informação é usada para diminuir o desvio do produto de um conjunto de normas ou tendências – daí o adjetivo “negativo” – enquanto que, no caso de retroalimentação positiva, a mesma informação atua como medida para ampliar o desvio do produto e, por conseguinte, é positiva em relação à tendência já existente para um ponto morto ou dirupção.” (Watzlawick 2007, p. 27)

Os organismos em que as mudanças são benéficas são aproveitadas e sobrevivem ao contrário da predominância das mudanças maléficas que tendem a desaparecer caso não haja outra mudança que neutralize aquela primeira intervenção. Deste modo, Bertalanffy acreditava que a evolução permanece ininterrupta enquanto os sistemas se auto-regulam.

Um organismo vivo ou um corpo social não é uma agregação de partes ou processos elementares; é uma hierarquia integrada de subconjuntos semi-autônomos, formados por subconjuntos e assim por diante. Assim, as unidades funcionais, em cada nível da hierarquia, como que são bifaciais: atuam como um todo quando as observamos de cima para baixo, como partes quando as vemos de baixo para cima. (Koestler apud Watzlawick 1987, p. 287)

Como um sistema, procura manter um funcionamento de interdependência. Minuchin (1982), acerca dessa propriedade, entende que quando o terapeuta compreende a família na ótica de um sistema em contínua interdependência e mudança, como também um sistema que busca sua

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adaptação junto às peculiaridades das diferentes etapas do seu ciclo de desenvolvimento, é preciso compreender que esse movimento sistêmico de interdepender e mudar, almeja garantir a continuidade e crescimento psicossocial do sistema.

Esse processo – continuidade e crescimento – é descrito como parte resultante de uma busca de equilíbrio que ocorre entre duas funções aparentemente contraditórias: a tendência homeostática e a capacidade de transformações/mudanças presentes no sistema familiar. Quando isso ocorre na busca de equilíbrio, o circuito de retroalimentação trabalha no sentido de manter o sistema em ambientes ou situações não favoráveis; através da correção do desvio que busca manter a homeostase. Um sistema realimentado é necessariamente um sistema dinâmico.

Quando as coisas são organizadas dentro de um padrão, algo emerge do padrão e do relacionamento das partes dentro dele que é maior e diferente. A ciência passa a não mais isolar e aplicada à teoria da família o foco passa a ser a interação entre os membros da família e menos nas características individuais.

“O comportamento de todo o indivíduo, dentro da família, está relacionado com (e depende do) comportamento de todos os outros. Todo comportamento é comunicação e, portanto, influencia e é influenciado por outros. Especificamente, como notamos acima, as mudanças para melhor ou pior no membro da família identificado como o doente terão, usualmente, um efeito sobre os outros membros da família, especialmente em função de sua própria saúde psicológica, social e até física.” (Watzlawick; 2007: p. 123)

Cervenypostula que a família quando entendida a partir da perspectiva de um sistema, passa a ser capaz de desenvolver padrões e modelos próprios de expressões sociais. Também afirma que em nosso encontro com a família, ainda nos damos conta de que cada membro atribui para si próprio um significado para suas interações e possui um modo singular de transmiti-lo no

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meio familiar. Esse modo singular está de acordo com o aprendido no contexto familiar.

“Ao adotar os pressupostos sistêmicos, toda a família irá ser concebida como um ser vivo, um sistema autônomo, auto-organizado que tenta progredir ao longo do seu ciclo de vida. Este “organismo” está em estreita relação com outros sistemas, cada um composto por diferentes elementos: escola, grupo cultural ou social, nação, bairro, emprego.” (Machado; 2012; Compreender a Terapia Familiar)

A partir dessa compreensão a família pode ser entendida não só como um sistema, mas também como um sistema de interações. Quando nos referimos a um padrão relacional, queremos especificamente falar do conjunto de comportamentos e comunicações de um membro do sistema familiar como um todo.

Um organismo vivo ou um corpo social não é uma agregação de partes ou processos elementares; é uma hierarquia integrada de subconjuntos semi-autônomos, formados por subconjuntos e assim por diante. Assim, as unidades funcionais, em cada nível da hierarquia, como que são bifaciais: atuam como um todo quando as observamos de cima para baixo, como partes quando as vemos de baixo para cima. (Koestler 1987, p. 287)

Segundo Watzlawick (2007), os estudos feitos com famílias que continuam um membro esquizofrênico, poucas dúvidas restam de que a existência do doente é fundamental para a homeostase do sistema familiar e de que o sistema reagirá rápida e eficazmente a quaisquer tentativas internas ou externas para mudar a sua organização. Claramente, trata-se, nesse caso, de um tipo indesejável de estabilidade.

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2.2 – Problemas de Comunicação no Sistema Familiar

Segundo Watzlawick, a comunicação é uma condição imprescindível da vida humana e da ordem social. É notório que desde o início da sua existência o ser humano está envolvido no complexo processo de aquisição das regras de comunicação, apenas com uma noção pequena daquilo em que consiste esse corpo de regras. Por mais que o sujeito se esforce é impossível não comunicar.

Atividade ou inatividade, palavras ou silêncio, tudo possui um valor de mensagem; influenciam outros e estes outros, por sua vez, não podem não responder a essas comunicações, portanto, também estão comunicando. (Watzlawick 2007, p. 14)

Quando as complexidades das relações entre um evento e a matriz em que ele ocorreu não é percebida, entre um organismo e o seu meio, o observador depara-se com algo inexplicável ou é induzido a atribuir ao seu objeto de estudo certas propriedades que o objeto não possui.

Levando em consideração que se o sujeito manifesta um comportamento psicopatológico for estudado isoladamente, baseando-se apenas na natureza da mente humana o diagnóstico seria falho ou “misterioso”. Porém se os limites da investigação forem ampliados de modo a incluir os efeitos desse comportamento psicopatológico sobre outros (o contexto em que tudo isso ocorre), o foco transfere-se do paciente, analisado isoladamente, para as relações entre as partes de um sistema muito mais vasto. Sendo assim, o observador do comportamento humano passa de um estudo inferencial da mente para o estudo das manifestações observáveis da relação.

A conexão dessas manifestações é a comunicação. Esse estudo irá ocupar-se dos efeitos comportamentais da comunicação. Pois os dados do

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comportamento não são só palavras, suas configurações e significados, mas também os seus sinais não verbais e a linguagem do corpo.

“Assim, desde esta perspectiva da pragmática, todo comportamento, não só a fala, é comunicação; e toda a comunicação – mesmo as pistas comunicacionais num contexto impessoal – afeta o comportamento.” (Watzlawick 2007, p. 19)

Toda comunicação não só transmite informação mas, ao mesmo tempo, determina um comportamento. Segundo Bateson (1951) essas duas operações acabaram sendo identificadas como aspectos de “relato” e de “ordem”, respectivamente, de qualquer comunicação. Exemplifica, ainda, que esses dois aspectos por meio de uma analogia fisiológica: sejam A, B e C uma cadeia linear de neurônios. Portanto, o disparo do neurônio B é o “relato” que o neurônio A lhe enviou, ao disparar, e uma “ordem” destinada ao neurônio C para que dispare.

O aspecto “relato” de uma mensagem fornece informação e, portanto, é sinônimo, na comunicação humana, do conteúdo da mensagem. Qualquer coisa que pode ser comunicável, independentemente dessa informação particular ser verdadeira ou fala, indeterminável , válida ou inválida.

O aspecto “ordem”, ao contrário, refere-se à espécie de mensagem e como deve ser considerada, portanto, em última instância, refere-se às relações entre os comunicantes.

“todas estas definições de relações gravitam em torno de uma ou várias das seguintes asserções: “isto é como eu que você me vê...” etc., numa regressão teoricamente infinita.” (Watzlawick 2007, p. 48)

Em vista disso, parece que quanto mais espontânea e saudável é uma relação, mais o aspecto relacional da comunicação recua para um plano secundário. As relações doentes, inversamente, são caracterizadas por uma

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constante luta sobre a natureza das relações, tornando-se cada vez menos importante o aspecto de conteúdo da comunicação.

É interessante que antes de os cientistas behavioristas começarem a se questionar a respeito dos aspectos da comunicação humana, os engenheiros de computação já tinham se deparado com o mesmo problema em seu trabalho.

Tornou-se evidente, para os engenheiros, que quando se comunica com um organismo artificial, as comunicações tinham de apresentar os dois aspectos, o do relato e o de ordem. Um computador, por exemplo, vai multiplicar dois números, terá de ser alimentada essa informação (os dois números) e a informação sobre essa informação, que é a ordem de multiplicar os números.Com isso, o que é importante observar é a relação existente entre o conteúdo (relato) e a relação (ordem) da comunicação.

Se aplicarmos agora á comunicação humana, podemos constatar que a mesma relação existe entre os aspectos de relato e ordem. O primeiro transmite os dados da comunicação, o segundo como essa comunicação deve ser entendida. A relação pode também ser expressa não verbalmente como por um grito, um sorriso ou muitos outros meios. A relação pode ser claramente entendida com base no contexto em que a comunicação ocorre.

Toda a comunicação tem um conteúdo (Forma digital) e uma relação (Natureza analógica), os dois devem ser permanentemente combinados e traduzidos um no outro. Os dois modos básicos de comunicação ser encontrados em funcionamento no campo dos organismos fabricados pelo homem. Existem computadores que utilizam o princípio do tudo-ou-nada das válvulas eletrônicas ou transistores e são chamados de digitais, porque são calculados, basicamente, para trabalhar com números dígitos. Há uma outra classe de máquinas que manipulam grandezas distintas e positivas que são análogas dos dados e que por isso se chamam analógicas.

Nos computadores digitais, os dados e as orientações são processados na forma de números, de modo que, repetidamente, no caso das instruções, só existe uma correspondência arbitrária entre o item particular da

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informação e a sua expressão digital. Esses números são arbitrariamente atribuídos nomes de código que têm pouca semelhança com as grandezas reais quanto os números de telefone com seus assinantes.

Por outro lado, o princípio de analogia é a essência de toda a computação analógica. Assim como o sistema humoral dos organismos naturais os meios de informação são certas substâncias e sua concentração na corrente sanguínea, também nos computadores análogos os dados assumem a forma de quantidades descontínuas e, no entanto, continuamente positivas, por exemplo, o número de rotações de uma roda, a intensidade de correntes elétricas, o grau de deslocamento de componentes etc.

No corpo humano, a informação transmitida pelos neurônios é digital, já que os impulsos excitam ou inibem as respostas sinápticas, mas em forma de tudo ou nada. Por sua vez, o sistema humoral é analógico, já que solta ou não substâncias em quantidades volúveis, dependendo de determinados fatores. Mas, tanto o sistema analógico do ser humano, como o sistema digital, são sistemas que coabitam e atuam de forma complementar e contingente.

(Psicologia e Comportamento Humano; 2012; Comunicação Digital e Analógica)

Levando em consideração a comunicação humana, podemos nos referir aos objetos de duas maneiras inteiramente diferentes. Podem ser representados por semelhança, como num desenho, ou ser designados por um nome. Assim, na frase escrita: “A cobra apanhou o rato’, os substantivos poderiam ser substituídos por desenhos, porém se a frase fosse falada, poderíamos apontar para a cobra e o rato reais. Seria prescindível acrescentar que isso seria um modo incomum de comunicação, geralmente, usa-se o nome escrito ou falado, isto é, a palavra.

Esses dois tipos de comunicação um por semelhança, auto-explicativa, e outro por uma palavra também são equivalentes, é claro, aos conceitos de

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analógico e de digital, respectivamente. Toda vez que se usa uma palavra para denominar alguma coisa, é notório que a relação entre nome e a coisa denominada é arbitrariamente estabelecida.

As palavras são sinais arbitrários que se manipulam de acordo com a sintaxe lógica da linguagem. Não existe qualquer motivo particular para que as cinco letras c-o-b-r-a denotem um determinado animal. Trata-se, em última análise, de uma convenção semântica da nossa linguagem e, fora dessa convenção não há qualquer outra correlação entre uma palavra e a coisa que ela representa.

“...por muito tempo que se fique escutando uma língua estrangeira no rádio, por exemplo, nenhuma compreensão da língua resultará disso, enquanto que alguma informação básica pode ser facilmente derivada da observação de uma linguagem de sinais ou dos chamados movimentos intencionais, mesmo quando usados por uma pessoa de uma cultura totalmente diferente...” (Watzlawick 2007, p. 57)

A comunicação analógica é virtualmente toda comunicação não verbal. Não restringindo-se apenas aos movimentos corporais e abrangendo também postura, gestos, inflexão de voz, expressão facial, ritmo e cadência das próprias palavras, e qualquer outra manifestação não verbal de que o organismo seja capaz. O homem é o único organismo conhecido que emprega os modos analógico e digital de comunicação.

A comunicação analógica é toda a comunicação não verbal como: postura, gestos, expressão facial, inflexão da voz, seqüência, ritmo e cadencia das palavras, qualquer outra manifestação não verbal.O homem é o único que usa os modos analógico e digital de comunicação. O material da mensagem digital é de um grau muito mais elevado de complexidade versatilidade e abstração do que o material analógico.

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A linguagem digital tem uma sintaxe lógica e, portanto é eminentemente adequada à comunicação no nível de conteúdo, os seres humanos comunicam-se digital e analogicamente. A linguagem digital é uma sintaxe lógica, complexa, poderosa, mas carente de adequada semântica no campo das relações. A linguagem analógica possui semântica, mas não tem uma sintaxe adequada para a definição não ambígua das relações. (Psicologia e Comportamento Humano; 2012; Comunicação Digital e Analógica)

Toda a comunicação tem um conteúdo e uma relação, podemos concluir que os dois modos de comunicação não só existem lado a lado mas complementam-se em todas as mensagens. Também podemos concluir que o aspecto de conteúdo tem toda a probabilidade de ser transmitido digitalmente, ao passo que o aspecto relacional será predominantemente analógico em sua natureza.

“...como existe uma semelhança sugestiva entre os modos de comunicação analógico e dígito e os conceitos psicanalíticos de processos primários e secundários, respectivamente. Se a transpusermos do quadro de referência intrapsíquico para o interpessoal, a descrição freudiana do Id converte-se, virtualmente, numa definição da comunicação analógica.” (Watzlawick 2007, p. 60)

Erros na tradução entre material analógico e digital podem incorrer em distorções na comunicação e sua constância favorecer o surgimento de doenças mentais.O material da mensagem analógica é sumamente ambíguo, pois presta-se a interpretações digitais muito diferentes e, com freqüência, incompatíveis. Com isso, não só é difícil ao emissor verbalizar as sua próprias comunicações analógicas mas, se surgir uma discordância interpessoal sobre o significado de um item particular de comunicação analógica, uma pessoa ou outra introduzirá, no processo de tradução para o modo digital.

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“Ao mesmo tempo que a comunicação transmite uma informação, ela define a natureza da relação entre os comunicantes. Estas duas operações constituem, respectivamente, os níveis de relato (digital) e de ordem (analógico) presentes em qualquer comunicação. Quando estes dois níveis se contradizem, temos o paradoxo. A comunicação paradoxal está na origem da patologia familiar.” (Carneiro; 1996; Terapia Familiar)

A psicoterapia interessa-se, sem dúvida, pela digitalização correta e corretiva do analógico, portanto o êxito ou fracasso de qualquer interpretação dependerá tanto da capacidade do psicoterapeuta para traduzir de um modo ao outro como da disposição do paciente para trocar a sua própria digitalização por outras mais adequadas e menos penosas.

“A terapia desenvolvida a partir deste enfoque enfatiza a mudança no sistema familiar, sobretudo pela reorganização da comunicação entre os membros da família. O passado é abandonado como questão central, pois o foco de atenção é o modo comunicacional no momento atual. A unidade terapêutica se desloca de duas pessoas para três ou mais à medida em que a família é concebida como tendo uma organização e uma estrutura. É dada uma ênfase a analogias de uma parte do sistema com relação a outras partes, de modo que a comunicação analógica é mais enfatizada que a digital.” (Carneiro; 1996; Terapia Familiar)

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CAPÍTULO III

Terapia Familiar

3 – Terapia Familiar e seus desafios

Nos capítulos anteriores podemos constatar que os trabalhos atuais sobre saúde mental não mais se preocupam apenas com o sujeito doente. Eles envolvem toda a estrutura da sociedade e a compreensão da dinâmica familiar.

"visto que em anos recentes o interesse público na urgência desse problema tem aumentado consideravelmente, a distribuição de dinheiro público para pesquisa psiquiátrica e treinamento de pessoal no campo da saúde mental está aumentando constantemente. Em números cada vez maiores os psiquiatras tendem a deixar os hospitais mentais e a se deslocar para o meio da comunidade a fim de satisfazer as crescentes exigências de seus serviços na psicoterapia, na orientação familiar e infantil, e no aconselhamento conjugal, e enfrentar as ramificações mais amplas de doença mental, delinqüência e desajustamento social na sociedade em geral." (Ackerman, 1986, p. 18)

A busca de compreensão dos processos familiares desenvolveu-se em muitas áreas do conhecimento e muito intensamente na área da saúde mental. Isso ocorreu no momento em que a enfermidade mental passou a ser compreendida também como expressão de processos sociais patológicos e não apenas como expressão de processos internos do indivíduo.

"as observações sobre a dinâmica e a estrutura da vida familiar deixaram de ser subsidiárias para a

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compreensão da patologia individual e se constituíram numa outra possibilidade de pesquisa do fenômeno saúde-enfermidade (Mioto, 1993, O Tratamento da Família)

É importante trabalhar as relações familiares constantemente para que os membros percebam o quanto a forma de se relacionarem contribui para manter a doença. Porém essa percepção para muitas famílias envolverá a elaboração de como essa terapia é assimilada, e da série de problemas que tal assimilação coloca para o terapeuta, em relação à sua identidade profissional.

"Daí a importância de trabalhar as relações familiares sistemicamente para que os membros percebam o quanto a forma de se relacionarem contribui para manter a doença". (Munhoz, 2012, p. 287)

Em nossa sociedade, os sistemas de assistência vêm sendo gradualmente institucionalizados. Em contrapartida, as respostas dos membros da cultura também se tornaram institucionalizadas. Espera-se, hoje, do sujeito que ele seja capaz de estabelecer uma relação entre o que ele identifica como necessidade ou demanda pessoal e o tipo de ajuda que a comunidade tornou disponível.

O modelo médico pode ser visto como paradigma desse tipo de desenvolvimento, pois uma dor de garganta, de cabeça e uma febre serão identificados pelo sujeito como o seu problema. Este o levará a um consultório, à prescrição de antipiréticos e antibióticos, a um leito hospitalar, a raios X, a licença por motivo de doença e etc. Todos esses episódios pertencem a uma variedade de expectativas, comum tanto ao sujeito quanto ao sistema assistencial.

aconteceria a mesma junção se a cadeia fosse composta de falta de concentração, irritabilidade, insônia, e o sistema respondesse oferecendo algum tipo de psicoterapia. Na realidade, pode haver grande variedade de elementos integrando os diferentes tipos de encadeamentos. Esses elementos

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não precisam ser todos de uma mesma categoria, pois uma cadeia composta de elementos somáticos pode evocar em resposta uma ajuda psicológica e vice-versa.

Em todos esses diferentes casos, um elemento tem de continuar sendo constante e relevante. O sujeito deve reter sua capacidade para detectar o que está sendo vivido como um problema e referi-lo à instituição que "cobre" esse problema. Em cada situação o ciclo deve funcionar como se fosse um feedback, reforçando a confiança do sujeito tanto na sua capacidade de avaliar a si mesmo quanto na capacidade da sociedade em dar assistência às demandas que surgiram em virtude dessa avaliação.

Repetidas experiências a esse ciclo conferem ao sujeito certo conhecimento da linguagem do sistema assistencial e das mensagens que o caracterizam. O sujeito aprende a codificar em uma mensagem algo que foi percebido por ele como existente dentro de si (problema). Por sua vez, o sistema é capaz de decodificar, interpretar e recodificar a mensagem do sujeito. Nesse momento ambos estão falando a mesma língua: queixa, histórico, exame, diagnóstico e tratamento, em suma, é para isso que se fica doente e é para isso que existe a instituição médica.

O encaminhamento de uma família para realizar terapia representa uma alteração nessa cadeia de acontecimentos. Em princípio, esses familiares estão acostumados ao modelo médico de abordagem e, portanto, preparados tanto para, em algumas circunstâncias, certamente considerar como patológico o comportamento de um de seus membros, quanto para aceitar que esse comportamento seja corrigido.

A família, portanto, concorda que o sujeito (um membro) receba tratamento administrado por uma instituição médica socialmente reconhecida. Em vez disso, diz-se a família que a dificuldade que está sendo vivenciada por um dos familiares (o paciente-emergente) pode ser trabalhada por meio de uma abordagem familiar.

"uma reação ao espectro de mudança que é percebida como traumática para os elementos de um grupo familiar é eleger um membro sintomático com a função de atrair sobre ele toda a tensão gerada pelas situações de risco.

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Neste contexto de desvelam as incertezas nas relações familiares" (La Mendola, 2005, O sentido do Risco)

A mensagem está indicando que o foco não irá necessariamente ser voltado para aquele que, fenomenologicamente, esteja apresentando o problema, mas para o grupo familiar desse sujeito. Existe aqui uma mudança que abala o conhecimento adquirido ao longo de toda uma experiência de vida. O acordo que costumava prevalecer entre as partes envolvidas (sistema assistencial - membros da família) quanto ao tipo de procedimento a ser seguido (problema - tratamento do sujeito expressando o problema), aparentemente deixou de existir.

A situação tornou-se adversa não só porque o sistema assistencial agora abandona uma prática há muito estabelecida. A maior dificuldade surge da disparidade entre a expectativa da família e a oferta do sistema. O usuário construiu um repertório das respostas usuais, fornecidas pelo sistema, mas aquela que agora está sendo fornecida não aparece se encaixar em nenhuma das expectativas armazenadas em sua memória.

As famílias, na realidade, não procuram espontaneamente terapia familiar. Não "aprenderam" a perceber as várias dificuldades que podem eventualmente estar relacionadas ao modo como funcionam enquanto família. Não existe consciência de uma pressão interna, nem de uma mensagem interna a ser codificada e enviada ao sistema. É a pressão externa que traz a família para terapia.

Por mais diferentes que possam ser as famílias encaminhadas para terapia familiar, todas elas parecem chegar com um padrão de interação centrado em torno da premissa de que aconteceu alguma coisa errada com o paciente-emergente. A família acredita firmemente que a instituição que irá fornecer a terapia também compartilhada desse pressuposto.

"...Pichon-Rivière inclui a família na sua compreensão da doença mental e desenvolve a noção de "bode expiatório" como depositário da patologia qu eé de toda família. Todos estes movimentos, formulações teóricas e

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novas compreensões da patologia propiciaram o surgimento dos primeiros estudos no campo da terapia familiar propriamente dita". (Terezinha Féres; 1996, p.2)

Diante disso, o pedido de se verem como família, apesar de inesperado, é aceito com a antecipação de que o objetivo da instituição será o de ajeitar o que está "errado", localizado no sujeito (numa pessoa específica). Portanto, no que tange ao encaminhamento, a família tentará acomodar-se à novidade desse convite mediante uma racionalização defensiva gradual. A essência da nova proposta será negada.

A família acreditará que a instituição irá corrigir o paciente-emergente, ou então irá ensinar o resto da família como lidar com a doença desse paciente. A oferta inesperada será progressivamente diluída até ser por fim transformada em algo compatível com as formas de ajuda usualmente fornecidas pelo sistema assistencial. A família tenderá a aceitar que não está vindo para a terapia realmente, mas apenas para acompanhar o paciente-emergente para tratar-se.

Quando encontram-se com o terapeuta pela primeira vez, há grande probabilidade de que essas defesas se mostrem frágeis. Pois, será difícil para a família deixar de tomar consciência da situação na qual se encontram agora, e, especialmente, do fato de estarem realmente sendo tratados como família.

Essa percepção tem origem em grande parte do modo como o terapeuta trata o material trazido pela família, quer dizer, a partir de seu método peculiar de abordar o campo emocional organizado na sessão. Nesse método, existe uma evidente determinação do terapeuta de deslocar o alvo do tratamento (tratamento com foco na família). Ele se empenha em tirar o foco do paciente-emergente e alterá-lo para a interação familiar de modo que alcance todos os membros da família..

"Vale a pena notar que esse passo inicial está presente em todas as diferentes escolas de terapia familiar, por mais diferentes que possam ser suas orientações. Vemos que foram desenvolvidas variadas técnicas como

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o intuito de colocar tais passos em prática, que são mencionados diversos referenciais teóricos no sentido de advogá-los e justificá-los, que são descritas numerosas manobras que demonstram como colocá-los em andamento." (Meyer, 2002, p. 164)

Todas as escolas de terapia familiar possuem em comum o seguinte objetivo: a necessidade de estabelecer a mudança do foco, tirando-o do paciente-emergente e dirigindo-o sobre a interação familiar. Todas as abordagens apontam, de um ou de outro jeito, as medidas para colocar em prática essa iniciativa.

"Ela expressa sua interação de estabelecer um procedimento pelo qual a família se torne consciente de que sua interação resulta da participação de todos. Nesse sentido, todos os familiares tendem a se sentir comprometidos como resultado da interação. Tecnicamente, o terapeuta tentará abordar todas as contribuições sem estabelecer valores hierárquicos no que tange à origem da contribuição. Desse modo, o material vindo do paciente-emergente a respeito de outros membros e a observação da interação entre os familiares passam a ser foco principal sobre o qual se estabelece seu interesse." (Meyer, 2002, p. 165)

As escolas se preocupam com a ameaça de sucumbir á pressão da família e "tratar", cedendo à exigência feita por esta, apenas o paciente-emergente. Todas elas assumem que a mudança de foco de atenção é o passo primordial para a caracterização e a estruturação da terapia. Espera-se que essa mudança gere um movimento voltado para a observação da interação familiar, tanto pelo terapeuta quanto pelos próprios membros dessa família.

Essa mudança de foco, todavia, está destinada a originar um confronto entre a família e o terapeuta. A própria experiência de terapia familiar já é um

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exemplo desse questionamento. Ela simboliza uma ruptura na crença da família de que o portador do problema deve automaticamente ser identificado com o problema. Esse questionamento pode ser experimentado como uma ameaça e um ataque.

A ameaça representada pelo descolamento do foco aumenta de acordo com a relevância que o terapeuta empresta à interação. A família agora, se sente obrigada a admitir não somente sua existência como também sua significação. Aos poucos compreendem que esse significado não é auto-evidente, devendo ser descoberto.

Essa descoberta dos diversos aspectos da interação e do modo pelo qual esses aspectos se relacionam com as diferentes partes da familidade dá origem a todo tipo de sentimentos dolorosos e emoções perturbadoras. Mas o movimento como um todo pode evoluir de modo tal que estimule a conscientização da interação na sua qualidade de criação coletiva. Os membros da família tomam consciência de que compõem um grupo.

"Portanto, o fato de iniciar a terapia torna a família ciente da presença de certo número de elementos inesperados que atuam na interação. Esses elementos provocam emoções poderosas e, como reação, a família sente que tais elementos devem ser mantidos fora do campo terapêutico, protegidos, sem questionamento, constituindo-se em fortalezas, de aspectos escindidos, ao redor dos quais e para os quais são exigidas extensas defesas. A aceitação e o reconhecimento desses elementos pode representar o primeiro passo em direção ao reconhecimento da existência da parte familidade." ((Meyer, 2002, p. 171)

O Campo congelado que a família levou para a terapia não derrete facilmente. As defesas erguidas contra as descobertas evidenciadas pela terapia estão sendo continuamente ativadas. Existe várias tentativas ao longo do processo terapêutico de redistribuir os aspectos suprimidos e projetados por parte dos familiares.

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A terapia familiar pode torna-se facilmente um arranjo adaptativo entre o terapeuta, como representante do sistema, e a família como um todo, cuja vontade é fazer com que p paciente-emergente seja tratado sem que se questione o funcionamento familiar. A terapia familiar pode destina-se a ser um empreendimento em comum, com o objetivo de isolar, dentro da família, o paciente-emergente.

O fortalecimento da consciência grupal por parte dos familiares pode ser modificado de modo a torna-se simplesmente um instrumento de para suportar o paciente-emergente. Essa consciência pode também ser empregada para expulsá-lo da família, encaminhando-o para uma instituição assistencial, contando com o apoio racional e material por parte do sistema. A interferência do terapeuta, nesse tipo de trabalho, ao retirar o rótulo do paciente-emergente não passa de uma mera manobra.

Desse modo o terapeuta assume o controle da cisão que está operando entre a vida pública e a privada da família quanto no interior do convívio familiar. Nesse contexto o terapeuta vem a família para desempenhar uma tarefa conservadora e apaziguadora, pois não se encontra em posição de torna-se o receptor, continente e intérprete da transferência.

A tarefa do terapeuta é estabelecer um ambiente de trabalho em que seja possível o surgimento e o desdobramento das características das partes dos familiar e compartilhar com a família seu entendimento e percepção da natureza e do funcionamento dos conflitos intrapsíquicos.

"Teoricamente, o terapeuta defronta-se com a necessidade de identificar as instâncias e ocorrências de cisão e identificação projetiva. Isso o levará a iniciativas produtivas, no uso de suas funções continente e interpretativa e no sentido de promover a integração. O campo emocional que se organiza com sua presença e sua atividade analítica constitui o meio de reduzir o bloqueio, estabelecer a mobilização, diminuir a cisão e promover a integração. ((Meyer, 2002, p. 270)

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CONCLUSÃO

A partir da leitura deste trabalho podemos pensar a importância que a reforma psiquiátrica teve no campo teórico-prático da saúde metal e conseqüentemente para surgimento do novo modelo de assistência à saúde mental, onde o trabalho de equipes multiprofissionais é priorizado. Todos os saberes e práticas que compõem o campo da reforma psiquiátrica constituem uma recusa ideológica da anulação subjetiva do sujeito acometido pela doença mental.

Em função dessa mudança de paradigma, o sintoma passa ser analisado numa visão macro, que marca a passagem do pensamento analítico ao pensamento sistêmico. A família pode ser entendida não só como um sistema, mas também como um sistema de interações. Quando nos referimos a um padrão relacional, queremos especificamente falar do conjunto de comportamentos e comunicações de um membro do sistema familiar como um todo.

Toda comunicação não só transmite informação mas, ao mesmo tempo, determina um comportamento. Levando em consideração que o sujeito manifesta um comportamento psicopatológico for estudado isoladamente baseando-se apenas na natureza da mente humana, o diagnóstico seria falho ou “misterioso”. Porém se os limites da investigação forem ampliados de modo a incluir os efeitos desse comportamento psicopatológico sobre outros (o contexto em que tudo isso ocorre), o foco transfere-se do paciente, analisado isoladamente, para as relações entre as partes de um sistema muito mais vasto.

É importante trabalhar as relações familiares constantemente para que os membros percebam o quanto a forma de se relacionarem contribui para manter a doença. Porém essa percepção para muitas famílias envolverá a elaboração de como essa terapia é assimilada, e da série de problemas que tal assimilação coloca para o terapeuta, em relação à sua identidade profissional.

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Referências

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