Módulo 3:
Diagnóstico do HIV na
Criança
O Módulo 3 aborda os seguintes temas:
Identificação de crianças com HIV ou em risco de infecção
Desafios e vantagens do diagnóstico do HIV em crianças
OBJECTIVOS DE APRENDIZAGEM
No final deste módulo, os participantes deverão ser capazes de:
Enumerar os benefícios do diagnóstico precoce nas crianças.
Identificar precocemente os bebés e crianças infectadas pelo HIV, através de uma combinação do diagnóstico clínico e laboratorial.
Aplicar os algoritmos utilizados em Moçambique para efectuar o diagnóstico laboratorial do HIV em bebés e crianças com menos de 18 meses de idade e mais de 18 meses de idade.
Identificar as apresentações clínicas comuns do HIV/SIDA nos bebés e nas crianças.
Identificar as crianças cujo estado precisa de uma atenção ao nível superior e referir.
TEMA 1: IDENTIFICAÇÃO DE CRIANÇAS COM INFECÇÃO OU EXPOSTAS À INFECÇÃO PELO HIV: DIAGNÓSTICO
1. Diagnóstico do HIV numa criança exposta
O diagnóstico do HIV na criança deve ser com base nos critérios clínicos e laboratoriais. Mas, antes de se apresentar os critérios clínicos e laboratoriais do diagnóstico, vai-se passar em revista os conceitos de Criança Exposta e Criança Infectada pelo HIV.
Crianças expostas ao HIV: são todas as crianças que nasceram de mães infectadas pelo HIV. Estas crianças podem ou não estar infectadas pelo HIV. Uma criança é considerada exposta até aos 18 meses de vida.
Crianças infectadas pelo HIV são todas as crianças com a infecção confirmada.
1.1. Exame clínico
O exame clínico inclui uma revisão da história clínica e um exame físico. Perante uma criança exposta ou com sinais sugestivos de infecção pelo HIV, a avaliação clínica deve contemplar os seguintes aspectos:
Anamnese:
a. História clínica
História pré-natal
As informações requeridas devem ser obtidas a partir de diferentes fontes:
Cartão da saúde da criança: ver se nele consta alguma informação sobre o resultado do teste HIV da mãe, de forma a saber se estamos perante uma criança exposta. Ao mesmo tempo, é importante analisar se no cartão consta alguma informação sobre o protocolo de PTV aplicados à mãe e à criança, bem como o tratamento anti-retroviral, o que significa avaliar a possibilidade de risco de infecção da criança.
Falar com a mãe: é possível que a mãe já esteja a fazer seguimento nos Serviços de TARV. Ela poderá falar sobre o seu estado de saúde, se faz tratamento anti-retroviral, se recebeu comprimidos durante a gravidez para tomar antes e depois do parto, e se deram um xarope a criança logo após o nascimento. Também nos pode informar sobre as condições do parto (normal, distórcico, cesariana).
Módulo 3: Diagnóstico do HIV
na Criança
Avaliação clínica da criança exposta ao HIV
1. Avaliação nutricional: Na história alimentar, interessa saber se a criança faz aleitamento materno exclusivo, ou se já iniciou a diversificação alimentar e, se sim, quando. Também é importante saber qual é a frequência das refeições e quais são os alimentos que a mãe tem em casa.
2. Avaliação do crescimento através dos parâmetros antropométricos: O perímetro craniano é medido em crianças menores de 2 anos de idade. Depois dessa idade, este é um parâmetro que deixa de ter interesse. Um perímetro inferior ao esperado pode indicar problemas de desenvolvimento neurológico, no contexto de uma possível encefalopatia. Aconselha-se que:
Use tabelas padronizadas para avaliar e interpretar os parâmetros obtidos.
Use o cartão de saúde da criança para avaliar a curva de peso da criança.
3. Avaliação do desenvolvimento psicomotor: Nesta avaliação, os pais podem fornecer informação acerca dos problemas que observam na criança. O atraso na aquisição das habilidades (andar, sentar ou falar) pode indicar a progressão da doença, com afectação neurológica (encefalopatia).
Antecedentes pessoais e familiares: a informação sobre os antecedentes familiares (TB na família, por exemplo) ou sobre as doenças prévias da criança, internamentos anteriores, muitas vezes só pode ser fornecida pela mãe ou outros cuidadores.
Avaliação nutricional: é importante avaliar o tipo de aleitamento (materno ou artificial) e a história alimentar da criança.
Avaliação do crescimento através dos parâmetros antropométricos: os parâmetros antropométricos devem ser usados para avaliar o peso, estatura, altura e o perímetro craniano (até aos 24 meses de idade). É também importante correlacionar o peso/idade, peso/altura, o perímetro craniano deve ser correlacionado com a idade, sempre tendo em conta o valor padrão (ou valor normal para cada idade).
Avaliação do desenvolvimento psicomotor: a avaliação do desenvolvimento psicomotor deve incidir sobre os seguintes aspectos: motores, cognitivos, linguagem e sociais em relação à idade da criança.
b. Exame físico: Sinais de alerta
O Técnico de Medicina deve observar devidamente a criança, verificar a existência de sinais de alerta (através de perguntas, observação e exame físico). Os sinais de alerta representam todo o quadro clínico que nos pode levar a suspeitar tratar-se de uma criança infectada (embora não seja específico do HIV). Por exemplo, quando estamos perante uma criança que apresenta alguns dos seguintes problemas:
Infecção respiratória: Pneumonia ou pneumonia grave
Diarreia persistente ou grave (>14 dias)
Infecção aguda do ouvido com secreção ou otite crónica ou de repetição
Malnutrição aguda grave ou moderada ou falência do crescimento
Aumento dos gânglios linfáticos em dois ou mais dos seguintes locais (pescoço, axila ou virilha):
(>1cm em mais do que dois locais)
Candidíase oral (após as primeiras 6 semanas de vida) ou esofágica faríngea
Abdómen para observar a existência de aumento no tamanho do fígado ou baço
Hipertrofia das glândulas parótidas
Infecções generalizadas da pele, dermatite crónica
Febre persistente e inexplicada (>37,5°C) constante ou intermitente, durante um mês ou mais
Tuberculose
Sarcoma de Kaposi
Herpes Zóster
Atraso do desenvolvimento psicomotor
Portanto, se a criança apresentar um ou mais dos sintomas acima referidos, pode-se falar de quadro sugestivo
de infecção sintomática pelo HIV.
Os sinais de alerta são muito importantes nas Unidades Sanitárias onde é difícil ter acesso aos testes laboratoriais mais complexos
1, pois são úteis para o diagnóstico presuntivo.
É importante que, o técnico no acto da observação e exame físico da criança, questione à mãe ou o acompanhante e verifique no cartão de saúde da criança e nas fichas de observação da criança se ela tem algum antecedente em relação às patologias acima apresentadas.
1.2. Critérios Laboratoriais
Uma vez suspeitada a infecção, ela deve ser confirmada através de testes laboratoriais disponíveis na respectiva Unidade Sanitária para cada idade.
Os testes laboratoriais que podem ser feitos são os seguintes:
Testes serológicos
Testes virológicos a. Testes serológicos
Os testes serológicos (testes rápidos de HIV) permitem medir a existência no sangue de anticorpos (defesas) perante o vírus. São, portanto, uma forma indirecta de avaliar a presença de infecção por HIV.
O exame dos anticorpos é positivo à nascença em TODAS as crianças nascidas de mulheres seropositivas, porque a criança ainda apresenta os anticorpos da mãe que lhe foram transferidos através da placenta, incluindo as crianças que NÃO estão infectadas.
Os anticorpos da mãe irão desaparecer com o tempo no sangue do bebé. Na maioria dos casos, começam a desaparecer até aos 9 meses de vida, embora possam permanecer até aos 18 meses. Portanto, o teste rápido positivo não indica necessariamente a presença de infecção nas crianças maiores de 9 meses de idade, só informa-nos que a mãe dessa criança está certamente infectada pelo vírus e transmitiu os anticorpos ao seu filho.
b. Testes virológicos
Os testes virológicos (PCR-DNA, RNA) estão disponíveis em Moçambique e permitem detectar directamente a presença do vírus no sangue.
Nos casos de crianças menores de 9 meses de idade, precisamos dos testes virológicos (PCR) para confirmar a infecção.
A partir dos 9 meses de idade os testes serológicos são úteis quando negativos, para excluir a infecção.
Se positivos, as crianças podem estar infectadas ou ainda conter os anticorpos da mãe.
A partir dos 18 meses de idade, as crianças já não têm os anticorpos maternos que adquiriram através da placenta. Portanto, nestas crianças, os testes serológicos (testes rápidos Determine® e Unigold®) servem de igual modo que nos adultos, e podem ser usados para confirmar a existência de infecção. Caso a criança esteja infectada, terá desenvolvido os seus próprios anticorpos e os testes serão positivos (ver MISAU 2004).
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