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Rev. esc. enferm. USP vol.16 número1

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Academic year: 2018

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C O M P O R T A M E N T O M A N I P U L A T I V E E R E L A C I O N A M E N T O T E R A P Ê U T I C O

¡Iza Marlene Kuae Fukuda * Evalúa Cangado Arantes * * Maguida Costa Stefanelli *

F U K U D A , I. M . K . ; A R A N T E S , E. C ; S T E F A N E L L I , M . C. Comportamento mani-pulative e relacionamento terapêutico. Rev. Esc. Enf. USP São Paulo, 16(\): 67-74, 1982.

As autoras fazem revisão bibliográfica do conceito das modalidades de manipulação. Tecem considerações sobre as manifestações deste comportamento no relacionamento terapêutico enfermeira-paciente e sobre a importância da enfermeira estar ciente da ocorrência do processo manipulativo. Para facilitur a identificação do comportamento manipulativo, as autoras listam algumas das manifestações deste comportamento, fazem reflexões a respeito c dispensam especial atenção às medidas terapêuticas a serem adotadas.

O ser humano vive em constante busca de satisfação de suas sidades. Para que esta satisfação ocorra de modo saudável, é neces-sário que a pessoa tenha desenvolvimento adequado à sua idade, o que requer um certo grau de maturidade.

O homem, na tentativa de obter satisfação de suas necessidades, em-prega, comumente, manipulação e teste como manobras adaptativas. A freqüência do uso de manipulação e de teste e como o ser humano os utiliza na vida adulta dependem do modo pelo qual como as pessoas que lhe foram significativas na infância reagiram àquelas manifestações de comportamento.

A criança, na experiência interpessoal, segundo K U M L E R (1963), usa padrões de comportamento automático, como choro e sons que emite, a fim de chamar atenção para suas necessidades e para obter amor da mãe ou de quem cuida dela. À medida que se desenvolve ela torna-se capaz de perceber, entre aqueles que a rodeiam, os que satis-fazem suas necessidades e passa, então, a testar essas pessoas. Com essas manifestações de comportamento, a criança tentará manter sua segurança sem se preocupar com as necessidades ou objetivos da outra pessoa; só aprenderá a respeitar as necessidades e objetivos dos outros quando desenvolver o seu próprio "eu" e adquirirá, então, pa-drões mais amdurecidos de comportamento interpessoal. Para que isto ocorra é necessário que seja oferecido à criança um esquema refe-rencial dentro do qual ela se sinta livre para se desenvolver. A mãe

* P r o f e s s o r A s s i s t e n t e d o D e p a r t a m e n t o d e E n f e r m a g e m M a t e r n o - I n f a n t i l e P s i q u i á t r i c a d a E s c o l a d e E n f e r m a g e m d a U S P — d i s c i p l i n a E n f e r m a g e m P s i q u i á t r i c a . M e s t r e e m E n f e r -m a g e -m . E n f e r -m e i r a .

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deve, por outro lado, demonstrar sua expectativa em relação ao com-portamento de seu filho de modo firme e consistente. N ã o deverá esque-cer, contudo, que a cooperação da criança é fundamental para o desen-volvimento de seu auto-controle e independência- Agindo deste modo, a mãe faz com que ocorra o respeito pelo outro nas relações interpes-soais. A criança torna-se uma pessoa capaz de dar e receber amor, não tendo necessidade de recorrer a técnicas manipulativas e de teste. Consoante K U M L E R (1963), W I L E Y (1967), T R A V E L B E E (1969), B R I L L ( 1973), BURGESS & L A Z A R E (1976), Z A M O R A (1978), M c M O R R O W (1981) e P A S Q U A L I et alii (1981) manipulação é o pro-cesso pelo qual uma pessoa exerce influência sobre outra para levá-la a agir de acordo com seus propósitos. A manipulação pode ser consi-derada sob aspectos positivos e negativos. Manipulação positiva surge quando é usada como instrumento para promover uma experiência efetiva, gratificante tanto para quem manipula como para quem é ma-nipulado. A pessoa que a usa aplica os recursos de que dispõe para obter sucesso no relacionamento interpessoal ou para alcançar um obje-tivo desejável, respeitando, porém, as necessidades e direitos de quem é manipulado. A manipulação torna-se destrutiva quando os interesses e objetivos do outro não são considerados.

Em uma situação enfermeira-paciente, quando a enfermeira deter-mina um local para a interação, ela está usando manipulação cons-trutiva, pois sabe que num local privado, longe de estímulos externos, o paciente poderá sentir-se mais à vontade para verbalizar suas reais preocupações.

Quando um paciente, dependente de droga, usa sua capacidade para conseguir que um funcionário incauto lhe forneça a droga, estará se valendo de manipulação destrutiva. Ele estará satisfazendo sua ne-cessidade imediata sem se preocupar com as conseqüências que essa satisfação poderá acarretar ao funcionário.

W I L E Y (1967) considera que os meios usados para influenciar o comportamento de outras pessoas podem ou não ser expressos aberta-mente. A manipulação construtiva é consciente e é transmitida à outra pessoa por meio da comunicação verbal ou não verbal.

O indivíduo que usa padrões de comportamento manipulativo, se-gundo M c M O R R O W (1981), o faz mais para controlar o comportamento de outras pessoas. Afirma que o indivíduo não tem confiança em suas próprias emoções e conseqüentemente não pode confiar nos outros. Tenta, então, controlar a si mesmo controlando os demais, em vez de dirigir seus esforços para obter satisfação de suas próprias necessidades.

N o comportamento manipulativo, segundo K U M L E R (1963), pode ser observada a seguinte seqüência:

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— o nível de ansiedade da pessoa com a necessidade não satisfeita aumenta;

— os objetivos ou necessidades da outra pessoa não são, consciente ou inconscientemente, respeitados;

— a manobra adaptativa é tentada;

— se a resposta desejada é obtida, a necessidade aparente é satis-feita, a ansiedade diminui e o padrão de comportamento persiste.

A citada autora considera que as duas primeiras situações são co-muns a qualquer relação interpessoal e que o terceiro pode ocorrer por quatro razões: a ) inconscientemente, b ) em períodos prolongados de ansiedade, c ) porque a pessoa não aprendeu a interagir em clima de respeito mútuo, ou então d ) por uma associação destas três primeiras situações. A terceira situação e as que a seguem, são de especial impor-tância para a assistência de enfermagem, uma vez que estão em oposição às medidas de enfermagem que visam desenvolver o amadurecimento do paciente e o desenvolvimento de respeito mútuo.

Para R I C H A R D S O N (1981), quando o manipulador obtém sucesso com a manipulação, a diminuição de sua ansiedade é temporária e pode atuar mais como um convite para uma nova tentativa de manipulação, reforçando-se assim o comportamento imaturo.

Para Z A M O R A (1978), o processo de manipulação, na situação enfermeira-paciente, surge do conflito entre as necessidades, interesses ou objetivos do cliente e os da enfermeira. A autora apresenta uma definição operacional de manipulação aplicada à situação enfermeira-paciente.

— O cliente quer obter algo da enfermeira.

— A enfermeira percebe o desejo do paciente como irracional ou patológico.

— A enfermeira não satisfaz o desejo do paciente. — A tensão do paciente aumenta.

— Aumentam as expectativas para influenciar a ação da enfermeira. O cliente torna-se dependente, exigente, inoportuno, racionaliza o que quer obter oferecendo razões lógicas, faz promessas que não cumpre e questiona ou menospreza a competência e autoridade da enfermeira.

— A enfermeira sente-se impotente e irritada.

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O processo ocorrido entre a pessoa que utiliza padrões de compor-tamento manipulativo e a que é manipulada pode tomar várias direções, de acordo com W I L E Y (1967). A resposta dada pela pessoa que foi manipulada pode ou não ser a desejada, intervir ou não nos padrões de comportamento manipulativo. Se a resposta não for satisfatória para o manipulador, este pode apresentar comportamento inadequado ou pode, ainda, aprender com a intervenção. Quando surge esta situação de apren-dizado, o comportamento manipulativo inicial pode deixar de ser usado pela pessoa que manipula- Esta poderá usar outros padrões de compor-tamento manipulativo ou desenvolver auto-controle. O principal aspecto para M c M O R R O W (1981)" é conseguir levar a pessoa que apresenta comportamento manipulativo a confiar em suas próprias emoções e sentir-se segura em relação a ela mesma. O K E N H A U G (1967) afirma que o propósito da enfermeira não deve ser o de controlar o paciente e sim o de oferecer-lhe orientação e elementos para que ele desenvolva auto-controle.

À medida que vai surgindo o auto-controle, a necessidade de utilizar a manipulação vai diminuindo; para que isto ocorra, é necessário que a pessoa se torne consciente de seu comportamento e se empenhe em mudá-lo.

Assim, o enfermeiro, ao assistir paciente que apresenta comporta-mento manipulativo, deve ter sempre em mente o desenvolvicomporta-mento do auto-controle.

Outra manifestação de comportamento que, em geral, está associada ao comportamento manipulativo é o de teste. Este é uma manobra que o paciente utiliza para por à prova não só a segurança que existe para ele no hospital, como também até que ponto ele pode confiar nas pessoas da equipe terapêutica que o assiste; em geral, ele testa as rotinas, a capacidade dos profissionais, a firmeza de limites que lhe são impostos, a disponibilidade da enfermeira, entre outras coisas. Exemplo: para testar a enfermeira o paciente pode chegar atrasado à entrevista formal que foi marcada; a enfermeira deve aceitar naturalmente esta mani-festação de comportamento, permanecendo no local da entrevista o tempo que foi combinado com o paciente, para lhe mostrar que realmente esta a sua disposição. Outra medida que poderá ser adotada é procurar o paciente, lembrá-lo do horário da entrevista e aguardá-lo no local deter-minado para a mesma.

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paciente. Ressalta-se aqui a importância de a enfermeira desenvolver acurado anto-conhecimento.

É importante a enfermeira estar consciente da existência do pro-cesso de manipulação e desenvolver habilidade na percepção de padrões de comportamento manipulativo, para poder atuar adequadamente. Esse comportamento tem amplitude muito grande: pode ir desde simples elogio até tentativa de sedução da enfermeira, ou mesmo tentativa de suicídio, como declaram S C H A F F E R & M A R T I N (1969). A s manifes-tações de comportamento manipulativo, são inúmeras e, para ajudar a enfermeira a percebê-las o mais precocemente possível, tentou-se aqui relacionar as mais freqüentes. O paciente pode:

— violar regras e rotinas;

— fazer reivindicações excessivas ou exigir privilégios;

— fazer elogios à pessoa da enfermeira ou à sua competência para obter privilégios;

— intimidar a enfermeira, principalmente quando descobre algum aspecto no qual ela demonstra insegurança;

— tentar assumir a liderança na unidade, em lugar da enfermeira; — colocar em dúvida a competência da enfermeira;

— instigar um elemento da equipe contra o outro;

— criticar o comportamento das pessoas e tudo o que ocorre sem propor soluções;

— menosprezar as pessoas que o cercam;

— falar fluentemente sem dar oportunidade aos outros pacientes e profissionais;

— comportar-se inadequadamente ("acting o u t " ) ; — atrasar-se propositalmente, quando todos o esperam;

— tentar incluir outra pessoa na entrevista enfermeira-paciente, entrevista esta que está centrada nos problemas e não nos da outra pessoa ou então, de mostrar excessiva preocupação com os demais pa-cientes;

— procurar centrar o assunto da entrevista na pessoa da enfermeira; — manter os outros à distância, ou seja, impedir um relacionamento mais profundo com a enfermeira;

— fazer perguntas que deixam a enfermeira embaraçada;

— falar superficialmente, não permitindo ao profissional aprofun-dar-se no relacionamento terapêutico;

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— comentar dados pessoais de outros pacientes, insinuando que os obteve de elementos da equipe terapêutica;

— expressar auto-piedade.

Essa relação não engloba todas as manifestações de comportamento manipulativo e para identificá-lo basta, como afirma R I C H A R D S O N

(1981), analisarmos nossas reações e sentimentos em relação ao com-portamento do paciente e verificarmos se nos sentimos ameaçados por ele.

T E S C H E R (1964) e M c M O R R O W (1981) consideram que a pessoa que manipula utiliza os padrões de comportamento acima referidos para evitar maior proximidade com outras pessoas por receio de expor seus sentimentos ou necessidades reais. Isso traz, conseqüentemente, um certo isolamento que reforça sua desconfiança nas pessoas.

Uma vez manifestado o comportamento manipulativo, a enfermeira tem que se esforçar para compreender o significado da mensagem do paciente, qual é a real necessidade oculta pela que ele manifesta e avaliar o grau de consciência que o paciente tem de seu comportamento. Sempre que possível, deverá validar a sua interpretação do comporta-mento do paciente com outros membros da equipe. Após essa rápida análise do comportamento do paciente, em que são respeitadas as indi-vidualidades de cada situação e de cada paciente, a enfermeira deverá colocar limites ao comportamento do paciente.

O respeito à individualidade de cada situação e de cada paciente foi ressaltado aqui, pois há situações em que a enfermeira consciente-mente aceita ser testada ou manipulada, por acreditar que isto dimi-nuirá a ansiedade do paciente sem trazer prejuízos ao relacionamento enfermeira-paciente ou à própria pessoa do paciente. P o r exemplo, uma paciente muito ansiosa porque não conversava com seu médico há três dias, andava de um lado para outro e demonstrava irritação quando lhe dirigiam a palavra; de repente, elogiou a atuação da enfermeira e lhe pediu um cigarro extra. A enfermeira consciente de que estava sendo manipulada deu-lhe o cigarro e explicou-lhe porque estava transgredindo a rotina.

O importante é a enfermeira ter consciência de que esta ocorrendo o comportamento manipulativo, para não reagir emocionalmente quando perceber, tardiamente, que foi manipulada.

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comportamento esperado passe a integrar o comportamento global do paciente, a imposição do limite deixa de ser necessária ( A R A N T E S et alii, 1981).

Quando todos os elementos da equipe apresentam a mesma conduta em face do comportamento mapunilativo, a pessoa que o usa tenderá a aprender novos padrões de relacionamento interpessoal.

A o mesmo tempo que a enfermeira limita o comportamento do paciente, ela tem que favorecer o desenvolvimento de sua auto-estima. Segundo S U L L I V A N (1953), a não satisfação da necessidade de auto-estima é subjacente a todo comportamento manipulativo; a enfermeira deverá, portanto, valorizar as tentativas do paciente para mudar de comportamento e demonstrar-lhe que percebe suas tentativas de mu-dança.

De acordo com P A S Q U A L I et alii (1981), os modos pelos quais a enfermeira pode facilitar a aprendizagem de novos padrões de compor-tamento não manipulativos são:

— não reforçar qualquer manifestação de comportamento manipu-lativo (estabelecer limites);

— ajudar o paciente a perceber que com seu comportamento ele explora as outras pessoas;

— auxiliá-lo a perceber que a manipulação não é um modo efi-ciente para enfrentar problemas e nem para interagir com as outras pessoas;

— ajudá-lo a desenvolver alternativas construtivas e modos não manipulativos para solucionar seus problemas e satisfazer suas neces-sidades, levando-o à perpecpção de suas habilidade e capacidades;

— oferecer-lhe apoio quando manifesta padrões de comportamento não manipulativo;

— levá-lo a avaliar a efetividade de seu novo comportamento; — auxiliá-lo a perceber quando regride aos comportamentos ma-nipulativos.

Às vezes, o uso da manipulação destrutiva está tão enraizado no comportamento do paciente que se torna difícil, mas não impossível, mudá-lo. Tem-se que ter paciência, ter perseverança e acreditar que as medidas estabelecidas serão úteis para o paciente.

A enfermeira mais indicada para cuidar do paciente com compor-tamento manipulativo é aquela que não se sente ameaçada na sua segu-rança e que não toma essas manifestações como ofensa pessoal.

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é o próprio estado afetivo da enfermeira. Se ela estiver sentindo-se ansiosa, irritada e frustrada, a situação tem que ser avaliada.

Ser manipulada sem percebê-lo pode provocar sentimentos desagra-dáveis, às vezes com conseqüências desastrosas. Por este motivo é que iniciantes no processo de relacionamento terapêutico não devem assistir pacientes que manifestem comportamento manipulativo, principalmente quando são insinuantes, sarcásticos ou sedutores.

F U K U D A , I. M . K . ; A R A N T E S , E. C ; S T E F A N E L L I , M . C. Manipulation behavior and therapeutic relationship. Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, / 6 ( 1 ) : 6 7 - 7 4 , 1982.

The authors present a bibliographical review about concept and modalities of manipulative behavior and consider the importance of such manipulation in the therapeutic nurse-patient relationship.

They emphasize the importance of the nurse being aware of about the occurence of this behavior, list some patient's manifestations and comment them, giving especial attention to the therapeutic measures to be taken.

R E F E R Ê N C I A S B I B L I O G R Á F I C A S

A R A N T E S , E . C . e t a l i i E s t a b e l e c i m e n t o d e l i m i t e s c o m o m e d i d a t e r a p ê u t i c a d e r e l a c i o n a -n a m e -n t o e -n f e r m e i r a - p a c i e -n t e . B e v . E s c . E -n f . U S P , S ã o P a u l o , 1 5 ( 2 ) :155-60, a g o . 1981. B R I L L , , N . U t i l i z i n g s k i l l s , t e c h n i q u e s a n d t o o l s . I n : W o r k i n g w i t h p e o p l e . T h e

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