Acórdãos STA
Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo
Processo: 0168/17
Data do Acordão: 21-06-2017
Tribunal: 2 SECÇÃO
Relator: PEDRO DELGADO
Descritores: RECURSO
CONTRA-ORDENAÇÃO
NÃO ADMISSÃO DO RECURSO
Sumário:
I - Para além dos casos previstos no artigo 83.º do RGIT, é
admissível em casos justificados o recurso em processo de contra-ordenação tributário com base em fundamentos previstos no artigo 73.º Lei-Quadro das Contra-Ordenações, aplicável ex vi da alínea b) do artigo 3.º do RGIT,
designadamente “quando tal se afigure manifestamente
necessário à melhoria da aplicação do direito ou à promoção da uniformidade da jurisprudência” (cfr. o n.º 2 do artigo 73.º);
II – Não se afigura “manifestamente necessário à melhoria da aplicação do direito ou à promoção da uniformidade da
jurisprudência” o recurso de decisão que não tenha adoptado entendimento contrário ao sufragado na diversa jurisprudência assinalada pela Recorrente e que não constitua um erro
clamoroso que importe necessariamente corrigir, sob pena de
“afronta ao direito”.
Nº Convencional: JSTA000P22020 Nº do Documento: SA2201705210168 Data de Entrada: 16-02-2017
Recorrente: A..., LDA
Recorrido 1: MINISTÉRIO PÚBLICO E FAZENDA PÚBLICA
Votação: UNANIMIDADE
Aditamento:
Texto Integral
Texto Integral: Acordam na Secção de Contencioso Tributário do Supremo Tribunal Administrativo:
Vem a arguida A…………, Ldª, interpor recurso da sentença de fls. 92 e seguintes do TAF de Beja, que julgou improcedente o recurso
apresentado da decisão de aplicação de coima proferida pelo chefe do Serviço de Finanças de Estremoz, a qual condenou a arguida na coima de € 688,90 euros, pela prática de contra-ordenação prevista e punidas pelas disposições conjugadas dos artigos 98º, nº3, do CIRS, 94º, nº6, do CIRC e 26º, nº4, e 114º, nº2, e alínea a), do RGIT.
Termina as suas alegações de recurso, formulando as seguintes conclusões:
«1) Vem o presente recurso interposto da douta sentença que condenou a sociedade arguida;
2) O presente recurso é circunscrito à questão da violação do direito de defesa da sociedade arguida;
3) Em relação a esta questão, entende a Recorrente que o Tribunal “a quo” quanto ao exercício do direito de defesa da sociedade arguida em processo de contra ordenação, decidiu ao arrepio do entendimento perfilhado por toda a jurisprudência;
4) Nomeadamente, decidiu ao arrepio da jurisprudência emanada do Assento n.º 1/2003 de 28.11.2002, publicado no DR 21 Série I-A, de 2003.01.25;
5) É entendimento uniforme de toda a jurisprudência, que a ausência do arguido em relação à sua defesa, não é só a ausência física mas
também a ausência processual, no sentido da impossibilidade do exercício do direito de defesa;
6) A consequência de tal vício, é equiparável à ausência do arguido, nos casos em que a lei exige a respectiva comparência;
7) A ausência processual do arguido no sentido da impossibilidade do exercício do direito de defesa, conduz a que tais garantias, fiquem irremediavelmente prejudicadas;
8) O pleno exercício do direito de defesa no processo contra
ordenacional, tem hoje consagração constitucional no n.º 10 do Art.º32º da CRP e vem previsto no Art.º 71º do RGIT;
9) Tais garantias, consagradas constitucionalmente, só se tornam efectivas, tornando nulo, de forma insanável, o acto em que esses direitos não tenham sido respeitados;
10) Porém, entendimento diverso teve a Meritíssima juiz “à quo” na sentença recorrida, ao manter a decisão administrativa, sem que a sociedade arguida, em qualquer fase do processo, tivesse a
possibilidade de se defender e de apresentar as provas que julgasse pertinentes ao exercício do seu direito;
11) Tendo em conta a unidade do sistema jurídico e a aplicação
subsidiária do RGCO neste âmbito, por força da alínea b) do Art.º 3º do RGIT, a sociedade arguida tem legitimidade para recorrer nos recursos de processos de contra ordenação tributária, nos termos do n.º 2 do Art.º 73º do RGCO.
12) Como resulta do entendimento dos Conselheiros Jorge Lopes de Sousa e Simas Santos em “Regime Geral das Infracções Tributárias anotado”, 4ª edição, 2010, em anotação ao Art.º 83º, página 562 e seguintes;
13) É aliás este o entendimento que a jurisprudência uniforme do STA tem acolhido quanto tal se afigure manifestamente necessário à
melhoria da aplicação do direito, como é o caso, a título de exemplo, do Acórdão do STA de 08.06.2011 no Proc.º 0420/11. Disponível em
www.dgsi.pt;
14) Bem assim, a recente jurisprudência do STA, de que são exemplos os doutos Acórdãos proferidos no Proc.º n.º 0137/15 de e no Proc.º n.º 070/15 de 09.09.2015, tendo ambos como relator o Conselheiro Aragão Seia. Disponíveis em www.dgsi.pt
15) E ainda o Acórdão do STA de 16.11.2005, no Proc.º n.º 0524/05, também disponível em www.dgsi.pt
16) Quanto à subida imediata do presente recurso, entende a sociedade arguida que, no regime previsto no Art.º 84º, do RGIT, complementado pelo RGCO, não é possível a execução das coimas e sanções acessórias antes do trânsito em julgado ou de se ter tornado definitiva a decisão administrativa que as aplicar;
17) Sendo esta a única interpretação que assegura a
constitucionalidade material do citado Art.º 84º, do RGIT, nos casos em que o recurso é interposto de decisão condenatória; Não sendo
necessário a prestação de garantia para que o mesmo recurso goze de efeito suspensivo da decisão recorrida - conforme se doutrinou no Acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul, de 15.11.2011, processo n.º 04847/11;
18) Entendimento perfilhado pelos Conselheiros Jorge Lopes de Sousa e Simas Santos em “Regime Geral das Infracções Tributárias anotado”, 4ª edição, 2010, em anotação ao Art.º 84º, página 582 e seguintes;
19) Entendeu o Adjunto do Chefe do Serviço de Finanças de Estremoz antes de proferir a decisão final que aplicou a coima, proferir um
despacho de rejeição liminar da respectiva Defesa Escrita apresentada pela ora Recorrente;
20) A ora Recorrente não se conformando com o despacho proferido pelo Adjunto do Chefe do Serviço de Finanças de Estremoz interpôs recurso nos termos do disposto no Art.º 80º do RGIT;
21) A Meritíssima juiz “à quo”, na sentença recorrida, ao manter a decisão administrativa, sem que a sociedade arguida, ora Recorrente, em qualquer fase do processo, tivesse a possibilidade de se defender e de apresentar provas violou o seu direito de defesa;
22) Abrindo assim a via do presente recurso interposto nos termos do n.º 2 do Art.º 73º do RGCO “ex vi” da alínea c) do Art.º 3º do RGIT;
23) Entende a Recorrente, que no caso “sub judice” e nos termos em que abundantemente se deixou alegado, é patente que foi proferida decisão contrária à jurisprudência que vem sendo seguida de forma reiterada e pacífica, quanto à questão do direito de defesa, quer pelo STA, quer pelo STJ, bem assim por todos os Tribunais superiores e pelo TAF de Beja nos processos nos processos n.º 191/14.3BEBJA, 193/14.OBEBJA, 194/14.8BEBJA, 445/14.9BESJA, 446/1 4.7BEBJA, 447/1 4.5BEBJA, 448/14.3BEBJA, 25/15.1 BEBJA, 27/1 5.8BEBJA, e 29/15.4BEBJA, todos patrocinados pelo signatário;
24) Como resulta do douto entendimento dos Conselheiros Jorge Lopes de Sousa e Simas Santos em matéria de direito sancionatório, não é compreensível a inexistência de uma válvula de segurança no sistema de alçadas que permita assegurar a realização da justiça nos casos em que se esteja perante uma manifesta violação do direito, sendo essa possibilidade uma exigência do direito de defesa constitucionalmente consagrado:
25) Pelo que à luz dos invocados normativos e da mencionada
jurisprudência se justifica a emissão de pronúncia sobre a questão de direito suscitada no presente recurso, com vista a promover a sua uniformidade;
26) A decisão de aplicação da coima deveria ter sido tomada apenas e só, após a apreciação da defesa Escrita;
27) O nº 10 do artigo 32º da CRP é claro na afirmação de que o arguido em processo contra-ordenacional tem o direito de defesa, norma
directamente aplicável por dizer respeito a direitos fundamentais - Art.º 18º n.º 1 da CRP;
28) Essas violações concretizam-se numa nulidade, a prevista na alínea d) do nº 2 do artigo 120º do Código de Processo Penal e essa nulidade foi tempestivamente arguida pela recorrente;
29) Conforme emanado do Assento n.º 1/2003 de 28.11.2002,
publicado no DR 21 Série 1-A, de 2003-01-25, que fixou jurisprudência
nos seguintes termos:
“Quando, em cumprimento do disposto no artigo 50.º do regime geral das contra-ordenações, o órgão instrutor optar, no termo da instrução contra-ordenacional, pela audiência escrita do arguido, mas, na correspondente notificação, não lhe fornecer todos os elementos necessários para que este fique a conhecer a totalidade dos aspectos relevantes para a decisão, nas matérias de facto e de direito, o
processo ficará doravante afectado de nulidade, dependente de arguição, pelo interessado/notificado, no prazo de 10 dias após a notificação, perante a própria administração, ou judicialmente, no acto de impugnação da subsequente decisão/acusação administrativa.”.
30) As várias fases do processo contra ordenacional são reguladas pelo disposto no Decreto-Lei n.º 433/82, de 27 de Outubro, na redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º 244/95, de 14 de Setembro e pela Lei n.º 109/2001, de 24 de 24 de Dezembro;
31) A fase administrativa do processo contra ordenacional faz prevalecer os princípios próprios do direito administrativo;
32) Enquanto a sua fase judicial, faz prevalecer os princípios próprios do direito penal. (cfr. Ac da Relação do Porto de 09.02.2004, disponível no sítio http://www.dgsi.pt.;
33) Situando-se na fase administrativa, o prazo para apresentação de defesa, é disciplinado pelo Art.º 72º do Código de Procedimento
Administrativo (CPA), não tendo lugar a aplicação supletiva das regras processuais civis (cfr. Ac de Uniformização de Jurisprudência n.º 2/94 de 10/03/1994, Diário da República, I Série-A de 1994/05/07, que respeitando embora ao prazo para interposição de recurso, sufraga a doutrina por nós propugnada);
34) Nos termos do Art.º 72º do CPA, não se inclui na contagem, o dia em que ocorrer o evento a partir do qual o prazo começa a correr;
35) O prazo começa a correr, independentemente de quaisquer formalidades e suspende-se nos sábados, domingos e feriados;
36) Em consequência do que ficou dito, a defesa escrita apresentada nos presentes autos foi tempestivamente apresentada, nada impedindo a sua apreciação de mérito.»
2- Na primeira instância o Ministério Público apresentou contra- alegações que rematou com as seguintes conclusões:
«1º - O presente recurso foi interposto da douta sentença proferida em 8/07/2016, que julgou improcedente o recurso de impugnação judicial de fixação da coima à arguida, circunscreve-se à questão relativa à invocada violação do direito de defesa da arguida, por entender que foi proferida decisão de aplicação da coima sem que tivesse possibilidade de exercer esse direito e como foi mantida pela douta sentença, não teve a possibilidade de se defender e apresentar as provas em qualquer fase do processo.
2º - Não obstante o montante da coima aplicada e custas (€ 688,90 acrescida de custas de € 76,50) e não ter sido aplicada sanção acessória na decisão de aplicação da coima, o recurso poderá ser admitido nos termos do art. 73º, nº 2 do RGCO, caso assim for superiormente entendido;
3º - No âmbito do processo de contraordenação, o Serviço de Finanças notificou a arguida para exercer o direito de defesa, o que esta fez,
porém, não admitiu a mesma por extemporaneidade.
4º - A douta sentença manteve a decisão de aplicação da coima, considerando que a arguida fora notificada no processo de
contraordenação em 27/01/2016 para apresentação da defesa escrita e o prazo findava em 06/02/2016, pelo que a defesa ao ser remetida apenas em 10/02/2016, por correio registado, foi exercida
extemporaneamente
5º - Concordando-se com a douta sentença, dispõe o art. 70º do RGIT que no decurso do processo de contraordenação o arguido dispõe do prazo de 10 dias para apresentar defesa e juntar ao processo os
elementos probatórios que entender, fazendo-se o cômputo deste prazo nos termos do art. 138º do CPC, por força do preceituado no art. 104º do CPP conjugado com o nº 2 do art. 41º do RGCO, isto é,
seguidamente, sem qualquer suspensão em sábados, domingos e feriados, transferindo-se o seu termo para o primeiro dia útil seguinte nos casos em que termine em algum destes dias - neste sentido, cfr.
Jorge Lopes de Sousa e Manuel Simas Santos, in Regime Geral das Infrações Tributárias Anotado, Áreas Editora, 4a Ed., 2010, pág. 477, em anotação ao art. 70º.
6º - Termos em que a douta sentença recorrida não padece, a nosso ver, de qualquer vício ou inconstitucionalidade, por não se mostrarem violados quaisquer preceitos legais, devendo improceder o presente recurso.»
4. Neste Supremo Tribunal Administrativo o Exmº Magistrado do
Ministério Público emitiu douto parecer no sentido da não admissão do recurso, por considerar não se verificarem os requisitos do invocado artigo 73º, nº2, do RGCO, com base na seguinte fundamentação que, na parte relevante, se transcreve:
(….) Alega o Recorrente a este propósito que o tribunal “a quo” decidiu
“ao arrepio de toda a jurisprudência”, designadamente da jurisprudência fixada no assento nº 1/2003 de 28/11/2002. Entende o Recorrente que não lhe foi dada possibilidade de exercer o seu direito de defesa, o qual tem consagração constitucional no nº 10 do artigo 32º da Constituição da República.
Dispõe este último preceito legal que “nos processos de
contraordenação, bem como em quaisquer processos sancionatórios, são assegurados ao arguido os direitos de audiência e defesa”.
Por sua vez no Assento nº1/2003 (recurso nº 467/2002) fixado pelo acórdão do STJ de 16/10/2002, (publicado no D.R., I-série A de 25/01/2003),fixou-se a seguinte jurisprudência: «Quando, em cumprimento do disposto no artigo 50.º do regime geral das contra- ordenações, o órgão instrutor optar, no termo da instrução contra- ordenacional, pela audiência escrita do arguido, mas, na
correspondente notificação, não lhe fornecer todos os elementos necessários para que este fique a conhecera totalidade dos aspectos relevantes para a decisão, nas matérias de facto e de direito, o
processo ficará doravante afectado de nulidade, dependente de arguição, pelo interessado/notificado, no prazo de 10 dias após a notificação, perante a própria administração, ou, judicialmente, no acto de impugnação da subsequente decisão/acusação administrativa».
Decorre das alegações da Recorrente que o mesmo dissente da sentença recorrida por esta não ter considerado verificada a nulidade
da fase administrativa do processo de contraordenação por não ter sido apreciado o seu requerimento de defesa e de terem sido ouvidas
testemunhas por si arroladas, o que no seu entender põe em causa o exercício do seu direito de audiência e defesa.
Sucede que essa falta de apreciação do requerimento de defesa teve por fundamento a sua extemporaneidade, a qual foi igualmente confirmada na sentença recorrida e cujo entendimento teve apoio na melhor doutrina.
Resulta, assim, que a questão que o tribunal “a quo” apreciou está relacionada com a forma de contagem do prazo de 10 dias para deduzir defesa, previsto no artigo 70º do RGIT e não propriamente com o
exercício desse direito. E pese embora a extemporaneidade do requerimento de dedução de defesa obste, em princípio, a esse exercício, as questões em causa são substancialmente diversas. Por outro lado a Recorrente não identificou quaisquer elementos dessa defesa que pela sua pertinência merecessem mesmo assim ser objecto de investigação oficiosa por parte do Serviço de Finanças. Aliás o facto de a Recorrente não oferecido qualquer prova no recurso que dirigiu ao tribunal tributário e interposto da decisão de aplicação de coima, é por si revelador dessa falta de pertinência.
Em face de todos os elementos expostos não vislumbramos que o tribunal “a quo” ao confirmar a decisão da autoridade administrativa de aplicação de coima tenha incorrido em erro grave e manifesto, seja no que respeita à interpretação das normas jurídicas aplicáveis, seja por o resultado da solução dada à causa se revelar materialmente injusto.
Desde logo porque não se alcança em que medida aqueles elementos probatórios podiam por em causa a verificação da infração imputada à arguida e aqui recorrente se os mesmos nem sequer foram arrolados no recurso dirigido ao tribunal tributário.
Por outro lado a sentença não conflitua com a doutrina do assento nº1/2003 do STJ invocada pela Recorrente, uma vez que foram levados ao conhecimento da Recorrente todos os elementos relevantes que foram tidos em consideração na decisão condenatória, motivo pelo qual a sua defesa não ficou prejudicada nesse âmbito.
Consideramos, assim, que não se mostram reunidos os pressupostos do recurso, ao abrigo do disposto no artigo 73.º nº 2, do Regime Geral das Contra Ordenações, aplicável subsidiariamente ao processo de contraordenação tributário.
Em face do exposto entendemos que o recurso não deve ser admitido.»
5. As partes foram notificadas do parecer do Exmº Magistrado do Ministério Público e nada vieram dizer sobre o mesmo.
6. O TAF de Beja deu como assente a seguinte matéria de facto:
A) Em 23/01/2016, foi levantado auto de notícia n.º
16990006846/2016, do qual resulta o seguinte:
B) Com base no auto de notícia identificado em A), o Serviço de Finanças de Estremoz instaurou, em 23/01/2016, o processo de contraordenação n.º 09062016060000000304 (cfr. fls. não numeradas do processo de contraordenação apenso);
C) Em 26/01/2016, foi remetido à Recorrente, via CTT, o ofício com o assunto «NOTIFICAÇÃO PARA APRESENTAÇÃO DE DEFESA OU PAGAMENTO ANTECIPADO DA COIMA (ART.º 70º, Nº 1 do REGIME GERAL DAS INFRAÇÔES TRIBITÁRIAS – RGIT» de cujo teor resulta o seguinte:
D) Em 27/01/2016, a Recorrente acedeu à caixa postal eletrónica do Via CTT (cfr. fls. 5 do processo de contraordenação apenso);
E) Em 10/02/2016, a Recorrente remeteu, por correio eletrónico, a defesa no âmbito do processo de contraordenação identificado na alínea B) supra (cfr. fls. 6 a 15 do processo de contraordenação apenso);
F) Em 12/02/2016, foi remetida, por correio registado, a defesa da Recorrente (cfr. fls. 16 a 26 do processo de contraordenação apenso);
G) Em 17/02/2016, foi lavrada informação no processo de
contraordenação melhor identificado na alínea B) supra do qual resulta o seguinte:
INFORMAÇÃO
Em 23-01-2016 foi instaurado o Processo de Contra-Ordenação n.º 09062016060000000304, com base no Auto de Noticia
nº16990006846/2016, levantado pela Direção de Serviços de Cobrança do IRS (DSIRS) da Autoridade Tributária e Aduaneira, sendo infrator o Sujeito Passivo A……… Lda. NIPC ………;
O levantamento do referido Auto de Notícia teve origem na falta de entrega dentro do prazo legal de imposto retido na fonte no montante de € 1.131,25, referente ao período 2015/10, cujo prazo para
cumprimento da obrigação terminou em 20-11-2015;
A infração acima referida é punível nos termos de artº114 nº2, 5º a), 24º n.º2 e 26º n.º4 do RGIT (Regime Geral das Infracções Tributarias);
Em 27-01-2016, foi o arguido notificado nos termos do nº1 do art.º 70.º do RGIT, para apresentar Defesa, efetuar o Pagamento Antecipado ou o Pagamento Voluntário da Coima, no prazo de 10 dias, o qual
terminaria a 08-02-2016;
Em 10-02-2016, via correio electrónico, veio o arguido, por intermédio de seu mandatário, Dr. .…………, apresentar Defesa nos termos do art.º 70.º do RGIT;
Face ao exposto, verifica-se que a Defesa no Processo de Contra- ordenação foi apresentada fora do prazo previsto no n.º 1 do art.º 70.º do RGIT, pelo que deverá ser rejeitada liminarmente, sendo indeferido o pedido por extemporaneidade, devendo o PCO n.º
09062016060000000304 prosseguir os seus trâmites.
É tudo quanto tenho a honra de informar.
À consideração superior.
Serviço de Finanças de Estremoz, 17 de Fevereiro de 2016 (cfr. fls. 28 do processo de contraordenação apenso);
H) Em 17/02/2016, o Chefe de Finanças Adjunto em regime de substituição lavrou despacho de concordância com a informação referida na alínea que antecede (cfr. fls. 27 do processo de contraordenação apenso);
I) Em 18/02/2016, foi comunicado à Recorrente a rejeição liminar da respetiva defesa, por despacho de 17/02/2016, do qual se juntou cópia (cfr. fls. 29 a 31 do processo de contraordenação apenso);
J) Em 12/02/2016, o Chefe do Serviço de Finanças de Odemira proferiu a decisão de fixação da coima, de cujo teor se extrai o seguinte.
K) Em 22/02/2016, foi remetido à Recorrente, por via CTT, o ofício com o assunto «NOTIFICAÇÃO DA DECISÃO DE APLICAÇÃO DA COIMA - PAGAMENTO OU RECURSO JUDICIAL», por meio do qual foi
comunicada a decisão de aplicação da coima e da qual consta o seguinte:
(cfr. fls. 35 e 36 do processo de contraordenação apenso);
L) Em 04/03/2016, a Recorrente teve acesso à caixa postal eletrónica do via CTT (cfr. fls. 36 do processo de contraordenação apenso);
M) Em 04/04/2016, deu entrada junto do Serviço de Finanças de Odemira a petição de recurso da decisão de aplicação de coima, remetida por correio eletrónico em 01/04/2016 (cfr.fls.4 dos autos);
7. Com dispensa de vistos dada a simplicidade da questão cumpre decidir.
8. Questão prévia da admissibilidade do recurso.
Como questão prévia importa decidir da admissibilidade do recurso, pois que este foi interposto de decisão proferida em processo cujo valor da coima é de € 688,90 euros acrescida de custas no valor de € 76,50 e o despacho de admissão do recurso proferido pelo tribunal “a quo” não vincula este Supremo Tribunal.
Vejamos então.
Estabelecem os números 1 e 2 do artigo 83.º do Regime Geral das Infracções Tributárias (RGIT) que o arguido e o Ministério Público podem recorrer da decisão do tribunal tributário de 1.ª instância para o Tribunal Central Administrativo, ou para a Secção de Contencioso Tributário do Supremo Tribunal Administrativo se o fundamento
exclusivo do recurso for matéria de Direito, excepto se o valor da coima aplicada não ultrapassar um quarto da alçada fixada para os tribunais judiciais de 1.ª instância e não for aplicada sanção acessória.
A razão de ser desta regra é evitar que o tribunal superior seja colocado em situação de resolver inúmeros casos de pouca importância, com prejuízo da sua disponibilidade para a apreciação de outros casos de maior relevo.
Admite-se, contudo, que em casos justificados se receba o recurso com
base em fundamentos previstos no artigo 73.º Lei-Quadro das Contra- Ordenações (LQC), aplicável ex vi da alínea b) do artigo 3.º do RGIT, designadamente quando tal se afigure manifestamente necessário à melhoria da aplicação do direito ou à promoção da uniformidade da jurisprudência (cfr. o n.º 2 do artigo 73.º da LQC).
No caso dos autos não foi aplicada qualquer sanção acessória e foi fixada pelo Chefe do Serviço de Finanças uma coima no valor de € 688,90, acrescida de custas, ou seja claramente inferior a um quarto da alçada estabelecida para os tribunais judiciais de 1.ª instância ou seja 1250,00 euros – cfr. art.º 44, nº 1 da Lei 62/2013 de 26/08.
A recorrente alega como fundamento da admissibilidade do recurso a promoção da uniformidade da jurisprudência, invocando na conclusão 23ª diversa jurisprudência que, alegadamente estará em oposição com a decisão recorrida (cfr. o requerimento de interposição do recurso e respectivas alegações a fls. 115 e segs.).
Afigura-se-nos, porém, que, no caso subjudice não se verificam os referidos pressupostos do artº 73º, nº 2 da LQC pelo que o presente recurso não preenche os requisitos legais para ser submetido à apreciação deste Supremo Tribunal Administrativo.
Com efeito e como tem sido sublinhado pela jurisprudência desta Secção de Contencioso Tributário, “A expressão «melhoria da aplicação do direito» usada naquele artº. 73.º, n.º 2, do RGCO deve interpretar-se como abrangendo todas as situações em que há «erros claros na decisão judicial», situações essas em que, «à face de
entendimento jurisprudencial amplamente adoptado, repugne manter na ordem jurídica a decisão recorrida, por ela constituir uma afronta ao direito” - cfr. Acórdãos do Supremo Tribunal Administrativo de 25 de Março de 2009, rec. n.º 106/06, de 20-6-2007, recurso n.º 411/07, de 08.06.2011, recurso 420/11, de 07.11.2012, recurso 704/12, de
29.10.2016, recurso 298/16 e de 03.11.2016, recurso 1017/16, todos in www.dgsi.pt.
A possibilidade de recurso com esta amplitude, assegurada pelo n.º 2 do art. 73º RGCO, tem essencialmente em vista assegurar eficazmente os direitos do arguido, constitucionalmente consagrados, permitindo o controle jurisdicional dos casos em que haja erros claros na decisão judicial ou seja comprovadamente duvidosa a solução jurídica adoptada - cf. nesse sentido, para além da jurisprudência citada, Jorge de Sousa e Simas Santos (in RGIT Anotado, 2ª edição, pág. 506) e os acórdãos do STA de 18/06/2003, proc. nº 0503/03, de 17/01/2007, proc. nº 01 124/06, de 20/06/2007, proc. 0411/07, e de 05/02/2014, proc. nº 01071/13, referidos no parecer do Exmº Magistrado do Ministério Público.
Mas não é seguramente essa a situação em causa no caso subjudice.
Em primeiro lugar não se nos afigura que a decisão recorrida que tenha adoptado entendimento contrário ao sufragado na diversa
jurisprudência assinalada pela Recorrente, nomeadamente o
Assento nº1/200,
ou que constitua um erro clamoroso que importenecessariamente corrigir, sob pena de “afronta ao direito”.
Resulta do Assento nº1/2003 (recurso nº 467/2002) fixado pelo acórdão
do STJ de 16/10/2002, (publicado no D.R., I-série A de 25/01/2003), fixou-se a seguinte jurisprudência: «Quando, em cumprimento do disposto no artigo 50.º do regime geral das contra-ordenações, o órgão instrutor optar, no termo da instrução contra-ordenacional, pela
audiência escrita do arguido, mas, na correspondente notificação, não lhe fornecer todos os elementos necessários para que este fique a conhecer a totalidade dos aspectos relevantes para a decisão, nas matérias de facto e de direito, o processo ficará doravante afectado de nulidade, dependente de arguição, pelo interessado/notificado, no prazo de 10 dias após a notificação, perante a própria administração, ou, judicialmente, no acto de impugnação da subsequente
decisão/acusação administrativa».
No caso vertente a recorrente alega que a sentença recorrida, ao manter a decisão administrativa, sem que a sociedade arguida, em qualquer fase do processo, tivesse a possibilidade de se defender e de apresentar provas, violou o seu direito de defesa.
Todavia não é essa a realidade que se surpreende dos autos.
Com efeito a decisão recorrida considerou que a Recorrente fora notificada para exercer o respectivo direito de defesa em 27/01/2016 (alínea D) do probatório), motivo pelo qual o prazo de dez dias para apresentação de defesa findava em 06/02/2015 (sábado), transferindo- se para o primeiro dia útil seguinte, ou seja, 08/02/2016.
No prosseguimento de tal discurso argumentativo, ponderou a sentença que o referido prazo de dez dias se conta em conformidade com o preceituado no artigo 138º do Código de Processo Civil, por remissão do artigo 104.º do Código de Processo Penal e artigo 41.º, n.º 2 do RGCO, invocando, em reforço desta posição, o entendimento doutrinal expresso no Regime Geral das Infracções Tributárias Anotado, Áreas Editora, 4.ª Edição, 2010), de JORGE LOPES DE SOUSA e MANUEL SIMAS SANTOS.
Por isso concluiu-se na sentença que, ao ser remetida a defesa, por correio registado, apenas em 10/02/2016 (alínea E) do probatório), não merecia censura a decisão da autoridade tributária que considerou que a mesma foi exercida extemporaneamente.
Resulta assim do exposto que não está em causa o exercício do direito de defesa, que foi concedido à recorrente, mas sim questão
substancialmente diferente, decorrente do facto de, tendo sido
notificada para apresentar defesa escrita, não ter exercido esse direito tempestivamente.
Por outro lado como bem assinala o Ministério Público neste Supremo Tribunal Administrativo, a Recorrente não identificou quaisquer
elementos dessa defesa que pela sua pertinência merecessem mesmo assim ser objecto de investigação oficiosa por parte do Serviço de Finanças.
Acresce dizer, que a sentença não conflitua com a doutrina do assento
nº1/2003 do STJ invocada pela Recorrente, uma vez que foram levados ao conhecimento da Recorrente todos os elementos relevantes que foram tidos em consideração na decisão condenatória, motivo pelo qual a sua defesa não ficou prejudicada nesse âmbito.
Em suma a decisão recorrida, podendo ser objecto de controvérsia jurídica, não consubstancia qualquer erro clamoroso que importe necessariamente corrigir, sob pena de “afronta ao direito”.
E não resulta também que dela emane, de alguma forma, em relação à questão do exercício do direito de defesa, entendimento contrário à jurisprudência quer do Supremo Tribunal Administrativo quer do
Supremo Tribunal de Justiça, designadamente a resultante do assento nº 1/2003 de 28/11/2002.
Haverá, pois, de se concluir que não está demonstrado que o conhecimento do presente recurso seja manifestamente necessário para a melhoria da aplicação do direito e para a promoção da uniformidade da jurisprudência, único fundamento invocado pela recorrente para sustentar a sua admissibilidade ao abrigo do artº. 73.º, n.º 2, da LQC, pelo que, não se verificam, in casu, os requisitos de que depende a sua aceitação.
9- Decisão
Termos em que, face ao exposto, acordam os juízes da Secção de Contencioso Tributário do Supremo Tribunal Administrativo em não admitir o recurso.
Custas pela recorrente.