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A S P E C T O S T E 6 R I C O S
D A P E S Q U I S A P A R T I C I P A N T E :
considera~oes s a b r e a s i g n i f i c a d o e
0p a p e I d a c i e n c i a n a p a r t i c i p a « : ; a o p o p u l a r *
Este artigo procura enfoca r teoricamente 0 significado e 0 pape!
da cicncia na pctrticira~iio popular.
Olema nao c novo. Stavenhagcn (J 97!) considerou-o em termos de teoria social e pratica social. Huynh (1979) abordou-o em termos de "desenvolvimcnto cndogeno", centrado 110 homcm e na participac;ao popular no dcscnvolvimcnto. A propria UNESCO assumiu a lidcran~a
• Tr'JJu,,:ilO de Ht:ito: FCITcira cia Costa. Esta
e
Ulna vers~o condcllsacla pclo CCI'D do artigo original ;)ub!icado pclo Setor de Ci2ncins Sociais e suas Aplicayoes.U N E S C O , Paris, 20 de junho d e 1Cl80. rd. 3274-ETD·31. O s grifos clevcm-se ao C C P D ,
neste campo. Alcm do mais, a Organizal,:ao Internacional do Trabalho, o Instituto de Pesquis3 das Na<;6es Unidas para 0 Desenvolvimento Social e a Comissao sobre a Participa~ao das Igrejas no Desenvolvi·
mento, do COlGcilio Mundial de Igrejas, tambcm estao trabalhando sobre o problema da participac;ao popular.
o
que se entende por p e s ( ju isa p a r lic ip a n /e ? Antes de tudo, nao se trata do tipo conservador de pesquisa planejado par Kurt Levin, ou as propostas respeitadas de reforma social e a campanha contra a pobreza nos ,H1OS 60. Refere-se, antes, a uma " p e s q u is Q d a a l'a o l'o lrad a p a r a a s n e cess ida de s 'b 6 s ic a s d o in d iv id u o " (Huynh, 1979) q lle r e s - p o n d e e s p e c idme nle a s n e c ess idade s d e p o p lI la r ; o e s q lle c o m p r e e n d c lI l o p e r a r io s , c mnzpo n es e s , a g r ic u ! ! o r e s e I n d io s - a s c la s s e s J I I a is c a r e llle : , n a s e s : r u lu r Q S' socia is c o n te m p o r ( ;ne a s - lev l1 n d o e m c O l/la s u a s a s p i- r a r ; o e s e p o te rucia r : dad e s d e w n he ce r e a g ir .£;
a m e /od o lo g ia q lle p r o - C llr a in c e n /il'mr 0 d c sen vo! v imellio aU/G n o m u (at~tocon.fiante) a p a r tir d a s b a s e s e I mw re la /h 'a in dep end e ru.:ia d~ e x te r io r , como c1efinic.la e explicada mais pormenorizadarnente acliantc neste artigo.Neste semido, podemos distinguir e articular uma voz e UITI k n o w -
h o w ate agora reprimiclos pcla prcdominancia da cicncia classica, cujos
ava[J~os hoje nos- prcocupam e seduzem. Dc fato,
hi
LIma fonte de sabcdoria e tracli~ao que, em sua aparente simpliciclade, nos ofercce as pistas e mesl110 as rcspostas para a crise social atua!. Iremos nos rcferir a essa fonte de sabedoria e tradi~ao como "cicncia popular" Oll "ciCllCi;]do homem cannum".
\
FUNDAMENTOS TEORICOS PARA A DISCUSSAb
Ern primeiro lugar, nao deveriamos fazer cia cicncia U I 1 1 fctiche, como se Fosse lima cnticlade cnm v iJ a pr6pria, capaz cle reger 0 ulli- n:rso e dc c1ctclminar a fOI 'I1 J: ! e 0 contexto dc nossa socicclacle, tantu prescote quan(iD futura. Tenhamos em mente que, longe de sa tao medonho agcnte, a c ier lc ia
e
a p e nas wn p r o d u lo c u ltu r a l d o il/ld e c to lw n w n o ( { lie. re:~sp"o -; de-a--~ ec es s /d a d e s c o [ e /iI J ( ! 5 : _ c ,o .& c ret( ls.- in c llls iv eiiq u e la s coJ/ Sider af.o es a r t ist ic a s , sob r e n a t u r a is ._~.. ex . r!acie n r if ic a ~_ - e tam? et ? 1._a os obje tiv os .c s p ecif ic os d e t e r m in a dos pd as cla sses socia is do-
. . .•.
m in a n t e s .~ll1 P :C if! .~ OS.!lis t 6 r ic o s p r ecisos . ./
Todos sabem que a ciencia e construida pela aplicac;:ao de regras, metodos e tecnicas sujeitas
a
certo tipo de racionalidade convencional- mente aceita por uma pequena comunidade constituida de mdividuos cham ados cientistas que, por serem humanos, estao, por isso mesmo, sujeitos a motivac;:oes, interesses, crenc;:as e superstic;oes, emoc;:6es e 111- terprctac;:oes de seu elesenvolvimento social, cultural e individual.C o ns eqiic llt e men te, m io
-~
pod e ha v e....r _. v a !ores- - a b. so!u{Qs no --c o n_. ._---
lze ci- menta cien t ifico por qc lc e s t e ir a v a r iar con fon lle as in tere sse s oh jet iv os d as class e s e flv o! l'icla s nil forma ~ d o e n a ~ c ~l/llI t la(I; O de cOf llz e cim e/~-; ;, -ou seja, na sua prodLH;ao. Nossa finalielade imecliata c exalllina~-;~t~- processo de produ<;50 do conhecimento cientifico em vez clo pr6prio produto final rcpresentado por objetos. artdatos, leis, princfpios, for- mulas, .teses, paradigmas ou clemonstra:;oc:i
Em segundo lugar, dcyer-sc-ia reconheccr que hoje a eOllluniclacle ocide,llal ele cicntistas lspeei:t1izados tende a l11onopolizar a eldini<Jio de cicncia e a elccidir 0 que e e 0 que niio e cientifico. Akm do rnais, csla comunid:ldc cicntirica ociclcnt:lI exerec lUlla nilida influl'ncia sobre a ll1:lnutell~';I() do .\f(,II I S qllo politico e econt1l11ico quc cerca 0 sistema industrial c capilali-;Ia elomin:lllte. Soh cssas condi<;l;cs. evidentc:mentc, a produ<;iio d~ c.~nhLC·ilncllto ncstc Ilivel acha-se oricntadarpara a pre-
scrva<;:jo c 0 forl:lk'cill1cnto do sistema.
P;:r;1 0 prnp'j\ilo :lcil1la, ns cicnlistas do sistema prefercm I;d;~r com objclo~;, cl:l<l,)s e ralos congrucntcs COI11os objctivos d,) ~lslcl11a capitalista, suprimindo Oll climinando outros objelivcs. que, se se tornas- SCI11 rckvantcs, uu ll1eSIl1O sc fossel11 repcnsados, ll10strariam altcrn.ati- V;IS contr:ldi!\)ri;IS, inconsislcl1ci:IS C fr;ICjuezas inercnlC5 ao sislema.
Lss<:s cladfls c nbj<:lOs inc()ngrucnlcs clo sislel1l:\ aprcselltalll, C0l110 outras, su,i prl\pria estrutura cognitiva. e podcI11 possuir uma Jinguagern e sintaxe ele express:!o proprias. Este problema est~ scnelo estuelado ern
profundidade pela semi6tica contemporanea. Como responde a outros.
interesses, esse conhecimento incongrucnte converge para urn nivel di-
fererlte de desenvolvimento e comunicac;ao que ielentificaremos agora
como a ciencia ou a cultura "emergente" ou "subversiva""
Isto nao significa que este nivel reprirnido au emergente seja anti- cientifico ou que se oponha ao proccsso de acumula~ao ell' conhecimen- to cientifico, tecl1ologico e artistico que VCll1 sendo urn processo cons- tante desde 0 surgimento dos hurnanoidcs. 1\0 entanto, e sle I Ilv e! reco-
nhe ce u m a d innen sao a/lt iga e l'iilid a d a a lil'irla de (ielllifica e cu lt u ra l
q ue ava nrOI / e cOllti11l/ a a a\'a /l~:ar para fo r a do s c an a is aca de rn icos i/ls-
r it llcionais e gOj,'emalllellta is e que, pelo cOlllr6rio , lem se conslitllido
em lu n fator m« est [ m u !o COJlst r L lt il'o, em cr ialt l'id ade e inol'a r ,:a o me smo dentr o da s instfwir oes esta bele cidas que lem s id a de s af iad as . (Nowotny eRose, 1979.)
EntendclllOI$ por cicncia popular - ou foiclore, conhecimento po- pular, sabedorial popular - 0 conhecimento empirico, au funclado no sensa comUIll, ,que tern sido uma caractl'ristica ancestral, cultural e iclcolog.ica clos ( PC se aeham na base c1a sociedadc. [ste tanhecimcnto Ihes tenl possibi'litado criar, trabalhar e interprctar. prcuominantcll1Cntc COIll os recursos naturais dirclos ofcrccielos ao homern.
Este conhecimento, folclnrc au sabedoria popular, nao c coclificaclo segundo os padriJes cia forma daillinantc e, por esta r<Jzao, 6 mel\ospre- zaelo COIllO se miio tivessc 0 clireito ele articul<Jr-se e cxpressar-sc em seus proprios telfIHOS, ~!as cste conheCImento popular talllbcm possui sua prclpria racironalidade e sua propria cstrulura de cZtusaliclade, islo c, pode-sc dcmOlllstrar que (em merito c validack ciciltifica pcr s e ..
[sIc falclore: l1luito naturalmeillc penl1anccc rJlra J" cstrutura cien- tifica formal c()n~slruida pcla minoria intclcctual do sistema dOlllinante, por reprcsentar "Ima infra<;:al) a SU;lS regr;IS. i\SSi111, por exemplo, os costuilles pr;ltic(ls de : 1In CLlfClIHkiro C:lllljJ\)Ij':;S S:I() in:\ceitavcis a um medico. E sua in:'lccitabi!idacJc provem do fato dc que ignoram c ultra- rassam os esqucm<1s inslitucionais clo medico.
Como foi sugerido acima, a cierlcia
e
urn processo total e cons- tante que atua em varios niveis e que se el'?ressa pOl' meio de grupos de pessoas que pertencem a diferentes classes sociais. A ciencia pode,~ porlanto, acrescentar e subtrair dados e objetos, enfatizar determinados aspectos e negligenciar outros; po de atribuir maior importancia a de- lerminados fatores e, finalmente, construir e destruir paradigmas verifi- caveis de conhecimento.
Em determinadas conjunturas hist6ricas, diversos conjuntos de co- nhecimentos, dados, fatos e fatores tornam-se articulados de acordo com os interesses de classes sociais que se introduzem na luta pelo poder social, polftico ou economico (~uhn, J 970:
181- J
87). ~C!rta_nto,·ha urn aparelho cicntifico construido para defender os interesses da / burguesia, e este
e
hoje 0 aparelho dominante em nivel local e geralnos paises ocidentais. Este
e
tambem 0 aparelho que limita 0 cresci-mento de {Jutras constiuC;6es cientfficas, como as que dizem respeito aos que se encontram na base da sociedade.
o
curso da hist6ria contemporanea parece trazer Ul1la mudanc;a nesse modele de submissao de c1asse. Mas essa revoluC;ao nao implica necessariamente 0 abandono de todo conhecimento que possibilitou a dominac;ao burguesa, como se deu anteriormente com a feudal. Pelo contrario, pode-se antecipar que as descobcrtas tecnol6gicas realizadas 13e!oscientistas burgueses podem ser benCficas para as classes proletarias e ajuda-Ias a fortalecer 0 seu poder, uma vez este alcanc;ado atraves da ac;3:o politica. Portanto, naoe
imperativo dcstruir 0 anterior parase empenh::u numa reconstr~c;ao de acordo co~ novos pIanos cienti- ficos revolucionarios.
Paradoxalmente, 0 triunfo atual da cicncia levou-a a arrancar a mascara de nClitraliclade - empunhada principalmentc pelos acadcmicos - e' 0 cJisfarcc de objctivicladc COIllquc se pretendc impressionar 0
grande publico.
A ciencia nao pode escapar entre os artificios da epistemologia.
Permaneceu antes enredada nas vicissitudes da polftica tradiciona\. Q conceito de velidade deixa de ser uma qualidade fixa, sendo conciicio-
~~d'~ pOl' uma fun~ao de poder que formaliza e justifica 0 que
e
acei-tave\. E essa aceitac;ao
e
condicionada a vis6es concretas da sociedade poIit;ca e 'seu cksenvolvimenlo. POl' essa razao, ser um cientista hoje significa estar oompromissado com alguma coisa que afeta 0 presente e 0 futuro da hlumanidade. Portanto, a substancia da cicnciae
tanto ..qualitativa quanto cultural; nao e ap~nas uma mera quantifica<;ao csta- tislica mas a compreensao de realidades.
o
verdadeiilro e alivo cientista de hoje coloca-se questoes como:"Qual
e
0 tipo de conhecimento que queremos e precisamos?"; "A que se destina () conhecimento cientffico e quem dele se beneficiara?".Portanto, estc parece ser 0 momento apropriado para se examinar friamente os fatos e tentar melhor compreender a ciencia emergente e a cultura subversiva. Pode ser c0ll1puls6ria uma reordena<;iio da atuJ<;ao cientifica a fim de torn-'f-iautil
a
sociedade como um tod;.C~:,: ista ern mente,e
inewitavel levaI' em considera<;iio as necessidades das' gran- des maiorias humanas que sao vitimm do progresso desequilibrado da pr6pria cicncia.Corn relutfuDcia, e em virtude da amca<;a que acarretam para 0 sistema dominan!e, est<l-se dando hojc grande 3ten<;ao as necessidadcs das massas trabaUhadoras que sofrem a explorac;ao capitaiista.
,of.
prcciso, pois, aproximar-s;.'C das bases da saciedade naa apenas COIll0 objetivo de entendcr sua propria vCfsiio de sua ci<3ncia pratica e expressiio cultu- ral, mas tambcm para procurar formas de incorpor{l-Ias :15 ne1cessidadcs coletivas mais ge!fais, sem ocasionar a perda de sua identid,ilde e seuI ....
teor espedfico. Iremos nos rcfcrir a esse problema e a esse dilcma nas paginas""s~g~'i~t'es" no contexto tla mctodblogia especifica da pesquisa participante e da orientac;ao que cIa fomece a sells praticantes.
COrrll:Cl:11l0SeX<'lllIinancJo as contribui(,'ocs do conhecill1l:nto popular, ou fo!clore, a cicmcia do homem comum. Ela
e
0 conhecimento pratico, emplrico, que ao longo dos seculos tern possibilitado, enquanto meiosnaturais diretos, que as pessoas sobrevivam, criem, interpretem, produ- zam e trabalhem. Gramsci mostrou urn caminho quando reivindicou que existe nas classes trabalhadoras uma "filosofia espontanea" contida na linguagem (como urn complexo de conhecimentos e conceitos), no
senso comum e no sistema de cren<;as que, embora incoerente e disperso em nivel geral, tern valor na articula<;ao das praticas cotidianas (Grams- ci, 1976: 69-70).
De fato, basta recordar
0quanto esta "filosofia" e cultura popular tern feito pela civilizaryao, desde as produtos agricolas ate as pratic-~-s
medicinais e as ricas contribui<;6es artlsticas. Nao e raro encontrar-se pessoas cultas que delas se apropriam e transform am a conhecimento ou a tecnologia e a arte popular, fazendo com que se most rem como novas descobertas e modismos.
,f :a caso de artigos como
0 pon c h ode
Iii nas forma<;6es de cavalaria; de dan<;as como a
clI lI lbiaem seletos sal6es de baile; da arte primitiva na pintura e da narrativa de costumes populares. Muitos importantes inventos inecanicos foram projetados com
base na experiencia rural, como foi
0caso com muitas
'.jasinven<;6es de Franklin, McCormack, LeTourneau e os irmaos W'right. As interpre- tary6es newtonianas de Kant em sua
Critica da Raziio P I/r atrazem a marca dessa racionalidadc, que nao era senao a sensa comul11 de sua cpoca. Galileu transrnitiu ern seu
De motuuma teoria do movimento que era a expressao tccnica CIa opiniao comum que existia des de
0seculo XV (Mills, 1969: 111; Fayerabend, 1974: 63, 189).
. Dramaturgos como Shakespeare tiveram origem puramente popular, aSSlm como a representa<;ao de sUas tragcdias e comeclias. E os filmes de Chaplin ou a musica dos BeatJes nao teriam sido possfveis se nao estivessem enraizados no mundo clo homcm comum. Foucault encontra nesta dimensao popular elementos suficientes para a "hi~toria viva" que.
prop6e em sua arqueologia do saber (Foucault, 1970: 22-23). Por outro lado, Levi-Strauss aborda
0mesmo problema, embora com algum , preconceito, quando escrcve a respeito do "pensamento selvagem". Mui- tos antropologos admitem que nao ha "melhores coletorcs de dados que os proprios nativos" e que
0pape! clo cientista, nessas circunstflI1cias, cleve se limitar a seu registro
epublica<;ao (Radin, 1933: 70-71). Dc falo, recentes Il1Ol1ografias antropologicas
refletemessa tendcncia de representar diretamcnte a expericncia de grupos e indivfduos cia base social.
AlCm disso, pode ser valida a interpreta<;ao da hist6ria e da sociedade feita pelos camponeses e operarios, pois corrige a versao de- formada conticla em muitos manuais academicos, "de vez que surge das verdadeiras raiLes da classe trabalhadora, da m emoria de seus antigos informantes, de sua· pr6pria tradi<;ao oral e de seus momentos e clo- cumentos fam
ili.ares". Portanto, a hist6ria (e tambem alguns· outros elementos culturais) pode ser "criticamente recuperada" a fim de que possa ser colocada a serviryo das lutas e metas do hornem comum
(Fals Borda,
l!.978: 235).
Aceitando a premissa da ciencia ou fo\clore popular, podemos agora passar a abordar especificamente seis princfpios rnetodol6gicos da pesquisa participante.
No final
das anos60 e no inicio dos anos 70, um enxame de ardorosos cien\11stas sa.iu clas universiclades para sc "assimilar"
aoho- mem COI11um.
Emgeral, aqucle fenameno particular foi uma demons- tra<;ao de uma< basic a falta de respeito pela cuhura c filosofia do ho- mem comum .
Eram belTlI-intencionados mas se enganaram.
0que procuravam aqueles intclect\\lais, n.a epoca, consistia em tornarem-se capazes de exi- bir maos asperas e calejadas e pele tostada de sol como prova de herem
aprendido a li~ao de que
"0homem comum nunca se engana"~ Esta foi uma fraude: muito convenientemente dcscoberta pelos ativistas de- sorientados. Mas desta
vez ahomem comum nao agiu errado, quando destituiu aquele$ ativistas de autoridade por causa de sua falta de auten-
ticidade. Foranf:l vitimas de um extremo objetivismo que so poderia ser explicado c[)mo pequeno-burgues (M andel,
1972:51-61).
A li<;ao fo~i aprendida: de fato. nas lutas populares ha sempre urn espa<;o para os,
inte1cctuais,tecnicos e cientist2s como tais, sem que seja preciso que: se disfarcem como camponescs Oll operarios de origem.
Tem apenas, qille demonstrar honestamente seu
_com;:,rom~~so__::orn "
causa popular perseguida pOI' meio da contribui~ao especifica de__~l!.l !-
propria disciplina, sem negar completamente essas disciplinas.
Mesmo assim, esta importante abertura cientifica e politica foi quase sempre desperdi~ada pOI' intelectuais pessoalmente compromis- sados, quando aplicavam rigidamente em sua pesquisa algumas ideias preestabelecidas ou principios ideol6gicos.
A experiencia real cnsina que nao
C
sequel' sonvenicnte aplicar no campo essas ideias preestabelecidas, como em geral tem sido 0 caso de nucleos de lidcran<;a que pertencem a par,idos politicos raclicais.Este
c
um comportamento dogmatico cia pior f-specie. Sabe-se,c
claro,que 0 dogmatismo
e,
por defini<;ao, urn inimigo do metodo cientifico;pode tambem tornar-se um obstaculo para 0 avan~o na luta popular (Marx; 1971: 109).
Este tipo de critica
e
aplicaveJ ao col0:,ialismo intelectual de direi-ta assim como de esquerda, isto
e, a
tcndc.lcia a copiar tescs e imitarautores de paises dominantes sem levar em conta 0 meio cultural (Fun- da~ao Rosca, 1972: 72). Mas nao sigr.ifica necessaria mente que 0 pesquisador devcria agir contra sua pr6uria organiza~ao au ir contra seus Iicleres. Pelo conldirio, tcm sido UlT,plamcnte reconhecido 0 papel de media~3o dessas organiza~6es politi.:as entre a teoria e a pratica, clesde Luckacs. Conludo, saber se a t:-abalho de intelcetuais compro- missados com grupos cle base esta ou nao politicamente amparaclo c e cientificamcnte util dcpende cia capaciclaclc da propria organiza<;ao poli- tica em os assimilar c respcita-Ios, c0nfcrindo a toclos a autonomia que Ihes cabe.
POI' essas razoes, a procura cleU I;) a "cicncia prolet{lria" em si tcm sido contraprodutiva c inutil no que diz rcspcito
a
pesquisa participantc.Se 0 intelectual cngajado ou 0 nuclco clclicleran<;a se tornam dogmaticos em seu trabalho, podem estar forr~lando antes uma cicncia par a 0 POyO, como cIa sempre foi concehida nos circulos das classes dominantes c transmitida as massas cia mancira patcrnali5ta tradicional. Nao snia 11m incentivo para se ohter all produzir conhecimento genulno a partir dus grupos de. base, para que cles possam cntender mclhor os seus problemas e agir em defesa de seus intcresses (Fals Borda, 1978 :235).
Os pesquisadores participantes precisam partir da no<;ao de quc .~- cultura (ou a tradi<;ao) do campones ou cia operario nao
e
conservadora como frequentemente se supoe, mase
de fato realista e dinamica.Ha elementos positivos e negativos na cultura e na tradi<;ao cam- ponesa, com tcnclcncias para a mudan~a social e abertas as possibili- dades de transforma<;ao, tanto nO conhecimento, quanto na a<;30. Isto
e
eyidente. Senao, como poderiamos expticar tantas revo1tas camponesas que oeorreram L'lahistoria mundial?Em muitos casos, tern sido facil determinar algumas clas fontes e canais de aiiena<;ao que impedem a a<;50 camponesa; isto c, aquelcs que surgem do. difusao clos valores burgueses. Assim,_
c
possivel cqui-.librar 0 peso desses valores atienanles pOl' meio de iima restitui<;ao enri~I' quecida do conhecimento dos camponeses (especialmente cla hist6ria local e dos a~:ol1tecimentos hist6ricos) aos pr6prios camponeses. Este esfor<;odeveria leva-Ios a 10VOSniveis de consciencia politica. Dessa forma, seu senso comum poderia ser transformado de modo a se tornar mais sensivel a mudan~as radicais na socicdade e aos tipos nccessarios de a<;ao. Da mesma forma, a voz das bases populares, antes calacla ou reprimida, pode <Issimser ouvida em nivel geral.
Esse retOJrHClda cultura nao pode ser fcilO de qualqucr modo: deve ser sistematico c organizaclo, e selll arrogilncia intelcclual (Mao, 1968:
III, 119). Por isso, cssa tccnica d.:salienadora quc forma novo conhe-.
cimento a um nivel popular tcm sido chamada de "resliIUi<;ao sistema- tica". A cste rcspeito, podcm-se clcstacar quatro regras espccificas:
I . Co ml1l1Jica< ;iio dijerc llcial. Uma primeira regra dessa tccnica
c
restituir os matteriais historicos (e outros) de forma acleql1ada e adap- taclos cle acordo com 0 nivel cle clese;lvolvimento politico e educacional dos grupos de base que forneceram a informa<;:ao, ou com qucm 0 estudo foi reaiiz.::ado. Nao devcriam ser devolvidos adaptados apenas ao nivcl politico d;s nucleos de lidcran<;a que, via de regra, c mais aV3n<;ado. Por essa razio, os cstudos desenyolvidos sac publicados pri- meiramente rw ([[Ie se rode chamar de "Nivc1 1" de cUlf1llnicaC;ao. !stn, em bel',!!, 10m" ~l forma de historias em qU~IJrinh()\, b':,l1 ilu st r:;·. ! :)" ' .
simples. De~s,a mancira, os grupos populares 530 os primcirus a sc i'.ll',:l·
rar clos resultados da pesql1isa. A esses folhetos na forma de hist6rias
em quadrinh9s-acrescentam-se elementos como dispositivos audiovisuais;
s lid e s , grava~6es ou t a p e s , musica e representa~6es teatrais levadas por
grupos locais, e curta-metragens em que os atores sejam pessoas au- toctones.
Entao, em seguida, os mesmos textos sao publicados em urn nlvel mais elevadoe'de-U~ -~~d~-m~Ts--compTeto--para--os -~~ci~~s--de lide-' i-aii-~a
( " N fv e r 2").:
Finalmente, os mesmos temas -sa~ aborci~dos de- uma fo~~~--d~s~~itiva e tcorica mais geral, levando ern conta ~s:~s:on-=-_~' textos nacional e regional, destin ad a aos intelectuais envolvidos ("~ f -vel 3").
---_...
_-
Finalmente, nem tudo que for pesquisado podera ser publicavel se 0 pesquisador engajado levar em conta os objetivos pnlticos clas pes- soas envolvidas na a~ao, como se espera dele conforme os principios da pesquisa participante. Isto dependera de necessidades tMicas e do mau uso da informa~ao por parte claqueles idcntificados pelas pessoas em a~ao como seus inimigos.
2 . S i! n p licid a d e d e ~'Jm / ll/ ica{: iio. A segunda regra determina que
os resultados dos estudos sejam expressos numa linguagem acesslvel a todos. Isto exige um novo estilo de apresen-ia;;ao' dos materiak-CTef'l~- tlficos e pode levar a alguma experimenta;;ao na divulga;;ao de re- sultados de pesquisa a urn publico mais amplo (Fals Borda, 1979.)
3 . A/ llo- in v eslig a {:iio e C OI/I ro/ e . A terceira regra rcfcre-se ao con-
trole daiilvestiga;;ao pelos movimentos ou grupos de base e 0 estl- niuIo a auto-investiga~iio. Nessas circunstancias, I1enhum intelcctual.ou.
pesquisador pode determinar sozinho 0 que deve ser investigado, ma~
cleve chegar a uma decisao' apos consul tar as bases ou grupos popula~
res intfressados: Levam-se em considerac;ao as priorid,~des e nccess~- clades idos niovlmentos ou !tItas populares e nao somente as neceSSl- dades dos pesquisadores. Assim, soluciona-se nao apenas 0 problema de "para quem" este estudo c feito, mas tambcl11 0 da incorpora;;ao clo cientist<t ao meio em que ele deve atuar. Para essa finalidade tcm-se 'aclotado tecnicas dialogais e rompKlo 0 esquema assimctrico de objeto e sujeito da pesquisa. (Freire,' 1970.)
4. Pop lI !ariza{:c1 o le cn ic a . A quarta regra
c
reconhecer a genera-lidade d:.ls t(-clliGlS de pcsCJuisa mais simples e torna-las acesslveis a esscs grupos. Desse modo, cursos de metodologia .de pesquisa corrente
<io mi'nistrados aos nucleos de lideran;;a mais avan~ados, de modo
a capacita ...:jos a romper com su~.dependcncia frente aos, Jntelectuais e--a-realiz3lf facilmente sua propria pesquisa.
QuanQlo se faz um exame da aplica~ao dessas quatro regras em
I .
relac;ao comu as lutas camponesas e operarias em diversos palses, podc- se concluilf que 0 conhecimento da realidade tern sido consideravel- mente enrii-quecido com a r e s liw i{:iio s is tenuilic a . Por exemplo, telll sido pOSSIV,'el substituir os herois da cultura burguesa dominante pOl'
herois que perten;;am
a
luta popular. .o
cannpesinato tem conseguido equilibrar de algl1m modo a Jlic- na;;aoe m
(que tem vivido como parte de sua tradic;ao e pocle mantervivos movinnentos que, apesar da continua repressao, colocam em Xl:'
que govermos reacionarios, em determinados perlodos. t entao passIVe I ver como, por meio da edl1cac;ao polltica, 0 senso comum dos cam- poneses gr31dualmente adquire maior perspicacia e adota uma voz p[' ('1-
pria. Come'j;a a se tornal' "bom senso". Da-se
a
luz aql1i a uma no\;1 tradi;;ao ~ um nlvel mais elevado de conhecimento, pdltica e e/a/l vi tal.t clam que nem todo 0 processo pedag6gico e politico rcdll7.iu-sc a recuperatr criticamente a historia e rcstitui-b sistematicamcntc its bases camp'(Qoesas c operarias. Tarnbcm se da um fee e /b ack diaktico das bases para os intelectuais e'ngajados. Isto ~ parte importante do processo totl;al da procura e idcntificac;ao da cicncia do homern conlllnl.
. A n~ce:ssid~de de fe ed b ack dialctico conduz a uma difercncia<;,jo de papeis nlllltliamentc reconhecida. Conduz a implicac;ocs pdlticas do conceito de Gramsci do "intelectual organico", tema muito import ante
para 0 qual voltamos agora nossa aten;;ao.
Os intc:ilectuais compromissados corn a tuta popular em diversns palses tern l(entado formal' grupos de consulta ad ho c, constituidos de camponeses !ic!<")l1eos,trabalhadores e indios com vasta expericncia, com a finalidade de suplanlar os grupos dc' consulta formados pOl' <lcadc- micos e pro.]fcssorcs (a elite domin3ntc). (Fals Borda, 1978: 233.)
Embora esses gflljJOS lid h o c nao tenham conseguido ate agora res- ponder tota\;;-nente
a
discussiio cientifica em si, elcs contribuiram p;\ra aspectos prat'iicos c polfticos do trabalho de campo. No momento, entre colaboradores, atinge-se urn determinado nivel razo3vcl de cliscussao1'1;Ii
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,1cientifica sobre 0 que se faz no campo. Ne~t~ nivel se faz tambem uma importante articula~ao teorica: do partic~iar para 0 geral, e do regi·~-:':
, naI para 0 nacional, de modo que se pode formar uma visao integrada de todo 0 conhecimento.
Esta discussao entre colaboradores e cnriquecida pela prMica no campo, pelo cant acto com grupos de base e seus problemas concretos e pelas opinioes e conceitos dos nucleos de lideran~a, camponeses e operarios, dos grupos de consulta a d ho c. Tern se dado uma contri- buiC;ao intelectual decisiva da parte desses nucleos, expressa nas reivin- dicac;oes de cIareza e precisao na exposi~ao teorica; observac;oes sobre a aplicabilidade da teoria no contexto imediato; descric;ao vfvida e fiel dos processos sociais locais; explicac;oes de estratcgias e taticas nas lutas regionais; inforrna~oes sobre as rnotivac;oes do comportamento individual e coletivo nao perceptiveis pelas pessoas estranhas ao meio;
elementos especiais da cultura rural, tais como herbologia e mitos;
termos e linguagem ~tilizados na agricultura, cac;a e pesca; e princfpios tecnlC(J$ para 0 uso de instrumentos agricolas.
Tudo isto e informa~ao direta e valida sobre ·um kno w- ho w· que tern enriquecido as analises subseqiientes realizadas a urn nivel cienti- fico mais geral, pela comunidade intelectual engajada. P_~d~ have~ ~Ir1.1a convicc;ao de que a tradi~ao popular - seu conhecimento empirico e pratico - pode encontrar urn lugar de destaque no dcsenvolvin;~~l~_
da ciencia como Urn processo humano constante e total, e de que aO voz do horn em comum, antes calada, pode adquirir uma nova ressonancia.
9_s agentcs deste processo dialctico, inclusive os camponeses e .operarios treinfldos para uso dessas tccnicas, podem ser considerados
intefectuais org1anicos. Suas fontes de estfmulo e k now-11 Ow sao simul- taneamente populares, folcloricas e cientificas. Tambcm podem scr cha- mados de "rninoria organica"
COllseqiiellternente, uma das princirais responsabiliclaJcs c10s pcs- quisaclores (intclcctuais organicos)
e
articular 0 conhecimento concrelo COIll0 conhecimento geral, 0 regional corn 0 nacional,_?- formar;ao so- cial corn 0 modo de produC;ao e, vice-versa, observar no campa asaplicac;oes cOllcretas dos principios, diretrizes e tarefas. A fim de garantir a· eficiencia dessa articula~ao, tem-se adotado urn ritmo especifico no tempo e no espa~o, que vai da ac;ao
a
reflexao, e da refJexaoa
ac;ao, em um novo nivel de pnltica. Contudo, este procedimento reconhece a importancia de se manter uma sincronizac;ao permanente de reflexao e ac;ao no trabalho de campo, como urn ato de permanente equilibrio in- telectual.o
conhecimento cntao se move como Uma espiral continua em que o pesquisador vai das tarefas mais simples para as mais complexas e do conhecido para 0 desconhecido, em cantato permanente com as bases sociais. Das bases, os conhecimentos sao recebidos e processados; a in- formaC;ao e sintetizada em primeiro nlvel; e a reflexao se da em um nivel mais geral e valida. Em seguida, os dados sac restituidos as bases de uma forma mais consistente e ordenada; estudam-se as conseqiiencias desta restitui<;ao; e assim por diante, indefinidamente, mas de maneira equilibrada, ldeterminada pela propria luta e por suas necessi(i Ides.Podem-se resumir ern duas idcias as condic;oes minimas para 0 de- senvolvimcnto desse ritma e equilibrio e para 0 feedh ack cultural das bases para a minoria organica.
I. A die que a tarefa cientifica pocle ser realizada mcsmo nas situac;oes mais insatisfatorias e primitivas com 0 usa dos recursos locais, e de que, na verdadc, a modestia no manuseio do aparelho cientifico e nas concepc;oes tccnicas e a principal maneira de se realizar as tarcfas necessarias no nivel atual de descnvolvimento na maiaria dos locais.
Isto nao signFfica que, devido a sua modestia, este tipo de esforc;o cien- tifico seja de segunda- cIasse ou de que lile falte ambi<;ao.
2. A de' que a pesquisc.dor deveria: ( a ) abandonar a traclicional arrogancia do erudito, aprendcr a ouvir discursos concebiclos em difc- rentes sintaxes; culturais, c adotar a hurnildade dos que realmente quc-.
rem aprcnder e c1escohrir; (b) romper com a assimetria das rc1ac;()cs sociais geralrncnle impostas entre 0 entrevislador C 0 entrevistaclo; C (c) incarporar pessoas das bases sociais como indivfduos ativos e pen- sante;-n~~~~si~r~os
de
pesquisa.Portanto, a "ciencia modesta" e as tecnicas dialogais ou de partlcl- pa<;ao constituem referencias quase compuls6rias para todo e'sfor<;o que procure estimular a ciencia popular, ou para se aprender com a sabe- -doria e a cultura popular, ampliando este conhecimento ate urn nlve!
mais geral. isto e do que trata a pesquisa participante, com 0 apoio necessario das ciencias emergentes e subversivas.
Baseados nos princfpios articulados aeima, 0 autor apresenta tres _~;{e_IT1pI()sconcretos de pesquisa participante em que esteve pessoalmente
envolvido. (Por motivos de espa<;o, apenas dois casos serao-apresen- tados aqui.)
Durante 0 seculo XIX, 0 governo colombiano impos uma politica de distribuir reservas com direitos e titulos de posse, sem delimitac,:ao de partes par herdeiros, entre seus ocupantes indigenas. N a pratica, este gesto permitiu que nao Indios obtivessern essa terra, como aconte- ceu em diversas partes do paIs. Mas na provIncia sulina de Cauca muitos descendentes das tribos de Paez e Guambiano combateram com exitoesta politica ate 0 seculo XX, quando ocorreu uma intervenc,:ao religiosa.
Vma das reservas localizadas nao muilo distantes de Popayan (a capital cia provincia) incbmodava a arceb;spo local
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precisava de espac;o para construir umIseminario. Apos fazer acordos - ilegalmcnte - com 0 conselho indigena ~ c a b ild o ) separou-se um lote de terra da melhor parte da rcserva, onde a nova construc;ao foi erguida. Mais tarde, lotes adjacentes foram acrescentados ao original, de modo que, apos umas poucas dccadas, quase toda a reserva foi tragada pela ar- qui diocese. A aliena<;ao resu]tantc [oi tamanha que a comunidade quase esqueceu como se fizera a aquisi<;ao ilegal.Quando a pressao
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terra turnou-se aguda nos an0570,
os Ifderes indlgenas locais organizaram-se pela; primeira vez num conse- lho de defesa coletiva chamado CRIC (Consejo Regional Incligena delCauca), que ainda e atuante na reglao e em outras partes da Colombia.
Tendo criado Iiga<;6es corn cientistas sociais engajados, 0 CRIC come-
C;Oll a examinar a questao desta reserva especifica assim como de mui- tas outras que foram perdidas para poderosas familias de Cauca.
I nicialmente foram empregadas tccnicas de entrevista com informan- tes velhos e isla levou as pesquisadores aos tabe1ioes em Popayan, on de estao guardados documentos e escrituras. Apos uma intensa procura, foram apresentados, documentos legais pertinentes e registrados com as tecnicas paleograficas tradicionais, demonstrando a ilegalidade da pro- priedade arquridiocesana na dita reserva. Isto pode ser visto como uma recupera<;ao critica de uma porc,:ao da historia local que fora ocultada e ignorada peJos historiadores academicos, mas que pode entao ser retomada pelos pr6prios atores hisloricos da comunidade local.
Armados com esta informa<;ao hist6fica por meio da restitui<;ao sistematica ja descrita, 0 CRIC organizou uma campanha para reaver a terra perdida. 0 arcebispo, apoiado pelo r:sto dos grandes proprie- tarios de Popayan (qu~ naturalmente tambcm se sentiam amea~ados), resistiu com a pollcia c tropas do exercito. Em decorrcncia da violcncia, foram mortos alguns Iideres indigcnas. A situa~ao logo ganhou atenc,:ao nacional e intemacional quando os lideres do CRIC enviaram urn tele- grama ao papa Paulo VI queixando-se do arcebispo e enfatizaneJo a justic,:a de sua c;}Usa, tudo em conformidade com a bula papal entao recentemcnte promulgada, P O {Jlllor lllll P r ogr e ssio. 0 papa interveio atra-
yeS de seu n(mcio em Bogota. 0 arceb:spo de Popayan teve de ceder e finalmente abriu mao da terra e das construc;6es. Foi uma grave denota para os intcresscs latifundiarios na area e os proprietarios logo revidaram cOin maior violcncia. Os indios nao devolveram a terra.
Eles ainda estao la apesar do terror c da marte cad a vez maior que Ihes trouxe 0 Exercito colomhiano a servi<;o da aristocracia local.
As organizav5cs poHlicilS Ila Colombia relegc,rarn por decaclas a cultura popular e 0 conhecimento do homem comum a urn segundo plano em seus pmgramas. Esses elementos eram vistas como fatores de alienac;ao e desorientac;:ao politica entre as massas.
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medida que avan<;ava a luta pela terra, muitos militantes com talentos artisticos come<;aram a contribuira
sua maneira, com resultados construtivos imprevistos, a mcbilizar pessoas. Isto exigiu uma rapida aprecia<;iio do ponto de vista dos pesquisadores que, ap6s examinarem as circunstancias locais, concluiram que uma transforma;ao da musica e das can<;6es populares locais - 0 va llen a to - tinha urn forte potencial de protesto.0
homem comum nao apenas dan<;ava ao ritmo dessa musica mas tambcm participava de audi<;6es em que as letras das can<;6es eram de dccisiva importancia.Urn grupo de mllsicos de protesto surgiu rapidamente do meio campones, armados com acorde6es, tambores e chocalhos, Come<;aram a criar suas pr6pri:ls can<;6es base:ldos na luta pela t~rra, com resultados extremamente bons. Uma dessas canc;6es de prot~sto (UEI indio sinua- no") foi gravada em urn estudio na cidade e tornou-se urn sucesso nacional em 1974. Uma outra, tambern urn sucesso, foi proibida pela polfcia (os mesmos oficiais que costurnavarn destruir os folhetos sobre Juana Julia, quando conseguiam encontra-Iosi.
Mas 0 impacto politico que este trabalho exerceu sobre 0 fron t cultural foi mais importanle: as concentra<;6es de massa tornaram-se rnais vivas e contavam com rnaior participac;ao, e as pessoas cantavam as mensagens das can<;6es em toda parte, alcanc;ando um efeito Jl1ultipli- cador de conscientizaC;ao. Urn dos melhores acordeonistas de protesto tornou-se tao popular que foi encorajado a unir seu talento artistico a uma fiorescente carreira politica no movimento campones. No fim, de urn si~1ples projeto de pesquisa, deu-se maior reconhecimento aos as- pectos culturais da ac;30 politica.
o que deve ser entao inicialmente extraido dessas considerac;6es?
Vimos a nccessidadc de se manter uma postura critica com rcla<;ao a ciE-;~ia cl<lssica e as conceitua<;6es correfltes._d_o que
e
a ciencia, c1oque.f~zem os cic!ltistas, C 0 que sao sellS compr0l1lissos cticos, caso quei- ramos llIelhor enteneler a natureza dos processos de desenvolvimcnto hojc, principal mente em paises do Tereeiro Mundo. Alem e1isso, afirmarnos a necessidacle de se descobrir a cstrutllracientifica intrinseca do conhe-
P E S Q U I S A P A R T I C I P A N T E 5 9
-/
1/cirnento popl,ular. das regras do k n o w - h o w popular e do senso comum enq~ant~ _~I_~mentos para alcan~ar as metas de uma sociedade mclhor e'-urn mund@ mais justo. Esbo~ou-se um_a rnetodologia conseqiiente de particip~~~?_ ~~__.P~s.qu~sa pdo e c0rTl 0 homem com urn, apresentando vari·os··princiiiPio~ e. regras de orientaC;iio deduzidas da experiencia real no campo.
A nccc5sidacle de continuar a experimentar e aprender ao longo dcssas direc;o}es ernergentes
e
uma conclusao 6bvia. Nao parece que esUlse formando urn novo paradigma cientifico para substitllir qualquer lIm ja existente, atravcs da pesquisa participante. No ental1to, P.o.cI~!!1_o~
nos aproxim:ar de urn tipo de brecha metodo16gica se os pesquisadores engajados se1gllirem as efeitos dinamicos do rompimento da diade su- jeito-objeto que esta metodologia exige como uma de suas caracteristicas basicas. S~()' muito evidentes as potencialidades de se obter urn novo conheciment® solido a partir do estabelecimento, na pesquisa de uma relac;ao rnais, proveitosa sujeito-sujeito, isto e, uma complcta intcgra::;iio e participac;a\o dos que sofrem a experiencia da pcsquisa. Nada senno novas intuic;6Jes podem surgir de sse curso. Isto e igualmente importante como uma p10stura pratica, na medida que as politicas de participa:;iio tornam-se mais sensiveis as necessidacles rcais das bases sociais e ro111- pem com as .e1a;,;6es verticais c paternalistas tradicionais.
Mais es,;pecificamente, sac propostas duas areas para futura 111- vestigac;ao:
A P R OCURA D E D IM E N S O ES S O CI O·P O L l T I CA S : OS V AL ORE S; E SSENC IAIS DAS P E SSO A S
Os valones essenciais podem ser comparados
a
seiva de uma arvoreou a semente de uma fruta. Os valores essenciais sao arraigados na visao de mlll1\do au na filosofia de vida. Surgem de crenr;a no sobrena- tural e no exctracientifico. As guerras no passado foram travadas em sell interesse. MilOS foram criaclos ou dcstruidos corn des. Idcologias, utopias e mOlvilllcntos sociais smgirarn Oll des;JparCCeralll com des.
Esses valores fjzerarn do hornem 0 que ele
e
e deram it hist6ria seu senticlo e direw;ao teleol6gicas.Portanto a racionalidade dos valores essenciais pareceria irracional
"
se Ihe aplicassemos os criterios cartesianos que foram inculcados nas universidades e academias, sobre os quais se constmiu a ideia dominan- te e contempof<lnea de Ciencia. Mas de fa to tratamos aqui de uma constru~ao racional diversa,. que possui linguagem e sintaxe propr.i<is"-
'. _.- ~
A fim de alcan<;ar e compreender os valores desta natureza Jacional popular, e necessario s~perar os obstaculos cognitivos domina~t~;'-
e.
adotar atitudes origin ad as da essencia das experiencias de vida J v i.v e n - .
d a le s ) ." Estas atitudes deverimn ser tao extracientfficas quanto as que
pertcncem aos grupos populares. E osativistas deveriam procurar do- minar duas ou mais linguagens cientfficas ou diferentcs nfveis de comu- nica~iio simultaneamente para realizar os sellS objetivos.
Podemos articular 0 conhecimento teorico e a praxis numa base per- manente?
Poderia haver muitas vantagens num plano educacional como esse.
As falsas divisoes estabelecidas entre as cicncias humanas dcv'eriam desa- parecer (os bem conhecidos departamentos, as especializar;6es estritas e as aeadcmias). Sabe-se que os problemas sociais eontemporfmeos mais importantes - como a pobreza, a fame, a destrui~ao ecologica, a explo- ra<;ao e a violencia - exigem, para expJica~ao e solu<;ao, nfveis com- plexos de analise que ultrapassam qualquer area especializada. Nessas condi<;6es, surgiriam novas campos de a~ao tccnica e cientffica ligados ar··prementes necessidades comunitarias; dcixariam de ser eondieiona-
n o s·
a servir aos iotcresses de uma burguesia avareota e exccssivamenterica. E enUio surgiriam organiza<;oes, parametros e a~6es que seriam mais democraticas, participantes e pluralistas, de modo que seriam sepultadas a ditadura de organism os dogmaticos e a amea~a de grupos facistas.
Dessa fom{a, poderfamos ver mais c1aramente como 0 hornem co- mum poderia d-ticular a sua propria cicncia e os seus conhecimentos como urn recurso vital para a defesa de sua ideotidade, para a prote~ao de seus interesscs e para a preserva<;ao de valores essenciais, como sinais de progresso ria desenvolvimento soc:al geral. Seria urmr cicncia enUio elevada ao nfve] cIa sabecloria.
Dissemos quc os principais desafios ncste campo surgem do intcr- cambia direto tcoria-c-pratica com as massas. Esses desafios origi'na[~- se da urgcncia de sc tcr uma cicncia do homem crftiea e iotegrada que seja tanto modesta quanta realista. Esses c1esafios nao provem de Ull1 di::J.logo fcchado cntre Illembros de uma eliteeientffica sofisticada que usa vendas prafissionais e filosOficas, e que
e
"sabia" 0 bastaote para detcrminar atc 0 scxo dos aojos.A potencialidaclc cIa pesquisa partlclpante esta precisamente no seu deslocamcnto proposital das universidacles para 0 campo concreto da realidacle. Eslc tipo de pcsquisa modifica basicamente a estrutLlra academica clJssica na I11cdida ern que red LIZas diferen<;as entre objeto e sujeito de estuda. Ela indllz os eruditos a destcr das lorres de marfim case sujeitarel11 ao jUlzo das comunidades eml que vive~ e trabalharn, em vez de fazercf11 Jvalia<;6es cle doutores e catedraticos.
Poderia ser v,llido visualizar novos tipos de laborat6rios poplilares hoje, dispersos pcbs ciclades e 00 campo, ern fabricas e fazenclas, esti- mlilados par SClISproprios problemas, com a finaliclade de formar tcc- nicos de nfvcl intcrIlledi;lrio qlle fossem orgfmicos com as classes tra- balhadoras e slias mg,lniz;IC,'()es'!
Podcfllos conceDer as ullivcrsidadcs crn diaspora de modo que possarn ser julgadas c consideradas mais com rcla~ao a sellS cfeitos sociais abrangentes sabre a saciedade do que quanta a seus meios ffsicos?
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