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A espelunca : romance de actualidade

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Ie ne fay rien

sans

Gayeté

(Montaigne, Des livres)

Ex Libris

José M i n d l i n

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A ESPELUNCA

ROMANCE DE ACTUALIDÃDE

POR * * *

-KH*--

ir-PORTO ALEGRE E D I Ç Ã O DA F O L H A DA TAFVDE-1889

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O livro que ahi vâi não, está acabado. Considero-o mesmo como um estudo incom-pleto, apenas esboçado, que com o tempo ampliarei.

Foi escripto em oito dias, o que não apresento como attenuante para a sua cri-tica, caso alguém se lembra de lh'a fazer.

Escrevendo a Espelunca, tive dois ob-jectivos: vingar uma affronta atirada â so-ciedade pelo typo que é o protogonista da obra e discutir uma these de moral.

Os personagens que rodeiam o Luiz eu os ^tornei a esmo, pois não quiz, nem me foi possível estudar as demais creaturas que figuram no rapto por elle praticado.

Procurei dar enredo a este romance, obedecendo á lógica dos fáctos, chegando muito naturalmente, por inducção, a um des-fecho racional.

Sectário do determinismo em Jitteratura, único systemaque a escola naturalista aceita, que a prende nas suas regras, não me era permittido, a meu talante, phantasíar um des-enlace do drama pouco racional.

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Foi p que fiz — subordinei-me á es-cola.

Quem por ahi ousará contestar a pos-sibilidade dos incidentes que apresento? Quem terá a precisa ignorância para des-truir as ligeiras analyses psychologicas que fiz?

Bem conheço ò meio em que vivo e as 'difficuldades com que a Espelunca lutará

para ser aceita.

Isto pouco importa. Se . não pretendo degladiar-me pelo naturalismo que por um falso, preconceito é répellido ex-informata conscientia, se não tive em vista crear reputação de romancista, nem por isto deixo, de sentir uma intima satisfação concorrendo para anesthesiar a exagerada sensibilidade dos contemporâneos ante as producções do realismo.

E' questão de tempo, eKum dia a

jus-tiça da crítica será unanime "em attestar os grandes serviços prestados pela escola que rasga os velhos moldes românticos, despe as creaturas do convencionalismo da arte anachrònica e ás expõe nuas, com as feri-das cancerosas bem a descoberto, ainda que façam voltar o rosto dos espectadores eno-jados.

Convençam-se os leitores de que os tempos dos amores dos Montechi e Capu-lettí já se foram. Os Romeus de hoje não falam, em coto vias ás suas adoradas; cha-mam-se burguezmente Luiz, andam de ben-gala em vez de espadim, usam Clark' de

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tas de camurça.

Naquellas épocas tratavam o amante de — astro brilhante dó meu viver; hoje, a cousa materialisou-se mais, chamam-lhes — minha negra e meu peixão

Épocas diversas pedem formulas di-versas também. O Werther de Goethe se-ria vaiado hoje e o Manfredo de Byron met-tido em um hospício.

As paixões dos nossos tempos têm por, objectivo fazer filhos — as de outróra fazer idyllios.

Comprehenda-se isto e estaremos jus-tificados.

Dirão muitos que sou indecente em al-gumas paginas.

No que? pergunto eu.. Será porque falei a verdade, porque não ¥poetisei onde

havia uma monstruosidade? ' ;

E o que diriam se eu fizesse a apolo-gia da prostituição?

Pois não é meu dever apreciais calma e friamente, abjecta tal qual é ? '

Vamos, meus senhores, nada de parti-pris! Isto, a E$péktnca>, é uma these

me-dica, medicina moral, e eis tudo.

Pensem de mim p que bem lhes pare-cer os críticos.

Tenho bastante bom senso para não solicitar indulgência, porque quem não se quer arriscar que fique em casa.

Um dia, "não tardará muito, bem- des-envolvido o'assumpto, n'uma obra mais

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vo-— 8 vo-—

lumosa, terminarei o trabalho dos typos que abi esbocei.

Repito mais uma vez: Ninguém veja nos personagens da acção pessoas que vi-vam entre nós; afórá o pròtogonista, todos os demais são creações minhas.

E tenho dito.

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amigos e curiosos.

Estendido, o corpo, jà no esquife, aguardava o momento de ser conduzido á sepultura.

Quatro velas ardiam vagarosas nos castiçaes de prata, escorrendo a cera, ama-rellada, para cima da mesa onde pousava o cadáver, formando um emplastro duro na base e liquido na "superfície.

Um cheiro de dssinfectantes, água de Labarraque e phenol, invadia a athmosphera, tornando-a pesada e insupportavel.

A um canto mulheres, amigas da fa-mília, com as physionomias cançadas de uma noite não dormida, passada.a velar o morto, falavam em voz baixa, levantándo-se ora uma, ora outra, já para correr ao interior da casa, já para espivitar as velas, quando o pavío, muito longo, esbrazeado, deitava um fumo negro que empestava.

Os que chegavam traziam no rosto a expressão convencional das ceremonias fú-nebres, trocando abertos de mão silenciosos, murmurando em seguida, com

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Alguns mais curiosos chegavam-se ao esquife e levantavam o lenço que cobria a face do morto, e; depois de o examinaram com attenção, deixavam de novo cahir-lhe sobre o rosto contraindo a fina cambraia, afastando-se vagarosamente.

A' porta dà rua, pessoas que vinham para o enterro e não queriam entrar, espe-ravam o momento, umas fumando, outras conversando sobre o Soares, cujas virtudes, é talentos eram realçados, rendendo-lhe o preito da justiça que os mortos recebem sempre, uma e a mesma, tenham sido elles na vida bons ou máos.

Uma longa fila de carros estendia-se rua á fora, trepados os cocheiros nas boléas, rindo e falando em voz alta, estranhos ao caso, indifferentes á dôr alheia, mais occu-pados com a magreza dosanimaes, de cuja força duvidavam para galgar a lomba do cemitério.,

Das janellas pendiam cabeças de curio-sos, ávidos do espectacujò' de um prestito fúnebre.

Mulheres em desalinho, com os cabel-los não penteados, enroladas em chalés, apoiavam os cotovellos em travesseiros sobre as sacacjas, para melhor gozarem do triste desfilar do ^cortejo.

Por fim, dentro da sala houve um mo-vimento, J

Um parente da. casa deu o signal da partida e começaram os preparativos*

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fa-milia viesse render a derradeira homenagem ao ente querido de que se ia separar para sempre.

Scená commovente e desesperadora, á qual puzeram fim a intervenção consoladora dos amigos e a certeza da inutilidade àe. todas as explosões e revoltas contra a in-justiça do céo . . .

O caixão foi fechado e coberto de co-roas — flores artificiaes com que o mundo materialisa a saudade, corporificação dos

sentimentos que alastram as almas varadas pela perda de um pai, de um irmão, de um amigo!

Os mais dedicados, os que mais haviam privado com o Soares, tomaram das alças, e, por entre os gritos lancinantes da mulher e dos filhos, puzeram-se em marcha, encur-vados pelo peso do caixão, constrangidos nos seus movimentos, como se fossem cahir.

Na rua houve um reboliço de curiosir dade.

Das janellas, espectadores indiscretos contavam os carros, as coroas, lendo al-guns, em voz alta, as , inscripções das fitas roxas e pretas que pendiam dás capellas. E lá se foram, fazendo paradas con-stantes , substituindo-sa os conduetores do féretro, até que, chegados á praça, colloca-ram-no no coche fúnebre.

Depois, envolto o séquito em uma nu-vem de pó, bateu para o campo santo, ao trote iafgo da cavalhada magra, fustigada pelo chicote dos boleeiros.

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No emtanto, em casa a família estor-cia-se na desesperação da angustia sem nome daquella separação, eterna.

Cançadas da noite anterior, noite de vigília, as pessoas amigas se retiraram, abraçando ainda as de casa, ás quaes offe-reciam, na despedida commovida, uma phrase banal de consolação.

Era noite já.

Sós, a viuva e os dois filhos, anni-quillados, exhaustos, entregavam-se á me-ditação.

A mulher; coitada, entrevia o futuro denso, carregado, sombrio. '••)

Seus olhos pasmados voltavam-se do filho para a filha, demorando-se sobre esta.

Dir-se-ia que um presentimento me-donho torturava-lhe o coração, uma idéa cruel affligia-lhe a alma!

Bateram á porta; uma criada foi abrir e veio annunciar uma vista:

— E' o seu Luiz, disse a preta; man-do-o entrar?

A viuva sentio que uma commoção estranha se apoderava do seu todo.

Quiz falar, mas um soluço embargou-lhe a voz.

Desatou num pranto angüstioso, es-condendo a cabeça entre as mãos, nada dizendo.

A criada não sabia o que fazer. Estupefacta, se deixara ficar á espera. Por fim, como quem se resigna 9 mais uma píovação, a mulher ergueu a cabeça,

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fitou a filha e com voz quasi inintelligivel murmurou:

— Que entre!

O visitante era um rapaz joven ainda, de estatura abaixo da mediana, delgado de corpo, physionomia sem expressão, nariz aquilino um pouco arqueado, usando a barba raspada, bigode pequeno, mas bem negro.

Nos seus olhos havia uma certa viv,a-cidade ou inquietação, signal evidente de caracter inconstante e frivolo. Os cabellos, ligeiramente ondeados e já rareando, cahiam-lhe sobre a- fronte divididos em pastinhas muito gordurosas.

A toüette era pretenciosa. Dir-se-ia que procurava definir-se pela vestimenta, apertada, deixando sebresahir as suas fôrmas efeminadas, o que lhe dava um caracterís-tico de Ganimedes burguez, com celebridade nos gradís .das praças e jardins públicos.

E' certo que vestia roupa preta, mas esta, se bem que á moda, soffrera as modi-ficações do seu gosto apelintrado.

A gravata deixava soltas as duas extre-midades, pendentes por fora do croisé.

Sapatos de verniz, atados com fita de gorgurão, apertavam-lhe os pés.

Quando entrou na sala onde estava a família, parou á porta e fez uma mesura, esboçando-se nos seus lábios vermelhos um .sorriso convencional que lhe era familiar.

Dçpois, torcendo o corpo, movendo com todas as juntas ao mesmo tempo, veio dar

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um aperto de mão á viuva, á filha e ao Frederico, irmão desta.

Esperou; alguns instantes, constrangido com o silencio que se fizera á sua chegada. Olhou para todos os lados, esperando què dissessem alguma cousa, sentindo-se estúpido, incapaz de romper com aquelle gelo, arrependido já de ter vindo, não sa-bendo se era melhor bater em retirada, ficando naquillo, num aperto de mão silen-cioso.

— Foi ao cemitério, sr. Luiz? perguntou por fim a viuva.

— Fui; esteve muito bom, muita gente, discursos,< respondeu idiotamente, não pe-sando as palavras; imaginando., talvez que o muito bom qualificativo cahí%nos corações como um balsamo consòlador.

Pará elle foi um allivio sei interroga-do; podia por fim dizer ao que viera.

Também não esperou mais nada.

Tomando uns ares de protector, foi dizendo que em vida do Soares entretivera com elle relações da mais intima amizade e que o túmulo não era o limite da sua dedicação por aquelle a quem tanto devia, que tanto respeitara pela elevação de sen-timentos. Assim sendo,! vinha pôr o seu prestimo, fraco sem duvida, á disposição da família, assegurando que seria um grande prazer para elle se lhe pudesse ser útil.

Olhava, emquanto assim se exprimia, com insistência insolente para a Guilher-mina, filha do Soares.

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A viuva deixou que elle acabasse de falar para agradecer discretamente tanta bondade, Analisando por assegurar que se necessitasse de concurso tão generosamente offerecido, a elle recorreria.

Depois falou-se na moléstia do Soares, tão rápida e de tão fatal desfecho.

— Uma desgraça, uma desgraça, di-zia o Luiz, e repetia umas quantas bana-lidades a respeito, taes como a de que vaso ruim não quebra; que se o Soares fosse um máo homem talvez ainda vivesse; que, com a subida dos liberaes, muito pró-xima e quasi certa, lhe estava reservado um papel„ importante, a fortuna talvez,

— Que **<fijer que eu faça, observou a dona dà casa-, o inundo é isto mesmo. Não podemos responder pelo dia d'amánha.

— Foi do coração? perguntou o Luiz. —' Eu nem sei, respondeu a viuva; coração ou pulmões, o que é certo é que elle foi-se e que o nãò temos m a i s . . .

— Sim, sim; isto é que é o peor. Mas Deus é grande e o mundo também.

Imaginando que esta tirada fosse de effeito, o Luiz impertigou-se e lançou um olhar concupiscente á moça — coitada! bem longe - de adevinhar o que trazia no bojo aquelle offerecimento.

Na torre da Cathedral soaram dez ho-ras. Q sino grande começou a plangerme-lancolicamente o toque do silencio, enchendo as almas do pavor que aquelle dobre

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des-— 16 des-—

perta, lembrando o cemitério, a tumba, a morte!

Era tarde. O Luiz comprehendeu que devia retirar-se. De novo saracoteando, quebrando-se todo, despedio-se dos de casa e tomou o caminho da rua, já deserta.

Grossas nuvens negras cobriam o fir-mamento.

Uma tempestade de verão, dessas que caem de súbito, após longos calores de dias successivos, ameaçava desabar dentro de pouco tempo. O ar era abafadiço, quente. Nem uma ligeira aragem soprava. Tudo

era carrancudo, concentrado na natureza. O Luiz apressou o passo. Quando 'che-gou á casa, um trovão precedido de um relâmpago, que rasgou-o céo, de alto a baixo, estrugio, fazendo estremecer a cidade.

O rapaz, muito assustado, atrapalhado, àbrio a porta, e, tremulo, penetrou nos seus aposentos; fechando-a rapidamente so-bre si.

Do lado de dentro ficou como paraly-sado e um pavor supersticioso invadio-lhe a alma.

No fundo da consciência uma voz o accusava e dizia-lhe que naquelle rugir da Natureza havia uma prevenção para o seu futuro..

Teve medo, e foi deitar-se, presa de terríveis angustias.

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Eram 11 horas; tinham vindo da missa do trigesimo dia.

O tempo, o gfande cauterio para as chagas do coração, suspendera a sua obra, permittindo que a ceremonia religiosa abrisse de novo, por momentos, para mais um des-abafo, a ferida em via de cicatrisação.

E é isto o coração humano! A perda de um ente que nos é caro, surprendendo-nos subitamente, no meio do viver plácido e sereno, cava na alma um abysmo profundo e doloroso. O desespero quasi nos enlou-quece , e, nós primeiros instantes, a explo-são da dôr tira-nos a consciência da reali-dade, não se medindo a grandeza daquella perda irremediável que só a prostração con-seqüente deixa bem avaliar. A ferida não sécca de todo, não — ella apenas, tornan-do-se chronica, de ulcera viva, escancarada que era, se faz fistula sempre fechada, mas sempre latente.

Nós a sentimos, mas não é mais um corpo estranho, uma anomalia: faz parte da nossa alma, é um complemento seu.

E assim como na vida animal a incrus-tação de uma bala é aceita pelo organismo, lembrando a sua existência sob a acção de

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phenomenos atmosphericos, as balas da alma também nos fazem soffrer quando a acção de uma saudade, despertada ante uma liga-* ção de factos com o passado, vai agir sobre a chaga, esquecida talvez, mas que não se foi jamais.

Luta silenciosa travada entre o tempo e o facto,- aquelle ás vezes cede o lugar, e a saudade se" vem debruçar sobre as bordas do abysmo, soltando um grito que echôa na solidão que o ente am^do deixou em nossos corações.

Revive a dor com a repercussão daquelle brado e de novo as bordas da ferida se tin-gem de sangue.

A missa', pois, fôra*um supplicio para a' família do Soares.

A viuva, os filhos tinham dado livre curso ás lagrimas.

O templo, com o seu aspecto imponente, ferindo a imaginação, que sentia-se invadida pela musica'melancólica do Miserere, o cheiro do incenso, a solemnidade dos sacer-dotes, tudo concorria para despertar a re-cordação daquelle que julgavam no céo, tão longe delles, separados para sempre, até que um dia, por sua vez, a morte os viesse buscar.

No final, os amigos, muitos e muitos, vieram cumprir com um dever, testemunhar -ás suas condolências á família.

O Luiz acompanhoü-a á casa.

Quando chegaram á porta, convida-ram-no a entrar, que viesse almoçar. Não

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havia nada de especial, nem podiam cuidar disso, tão agoniados que andavam.

— Demais, acrescentou a viuva, somos gente pobre e não podemos sahir dos nos-sos limites.

O rapaz aceitou, dizendo que não era de ceremonias, que bem sabia das circum-stancias e que não reparava.

O almoço foi triste. Apenas o Luiz procurava distrahir a magoa geral, condu-zindo as attenções para outro ponto; mas a viuva, a d. Adelaide, como ella se cha-mava, voltava ás suas preoccupações, im-pressionada com o futuro, soltando umas

exclamações sentidas de medo e de lamento. — E esta menina, o que será delia? perguntou a viuva, indicando com a cabeça a Guilhermina. Agora que lhe falta quem a ampare, a proteçção do único amigo des-interessado que teve, do seu pai, — sim, do séu pai, que outra cousa não era elle, tanto, a amava; agora qual o seu futuro? Pobre como é, sem dote, quem a tomará por esposa?

— Ora, d. Adelaide, isto não é assim. Não desespere; ò mundo não é tão in-teresseiro que viva a correr atraz de dotes. A d. Guilhermina é bonita, oem educada, tem sentimentos muito nobres, é virtuosa e capaz de fazer a felicidade de um homem que busque no matrimônio um incentivo para as lutas da vida. Creia, d. Adelaide, acrescentou o Luiz, sua filha ha de casar e com quem saiba avaliar dos

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méritos que ella tem; eu juro que isto que digo é verdade.

A vitiva, porém, não attingia o objectivo, quê o Luiz tinha em vista. Na sua dôr, na sua modéstia, não ousava adevinhar o sen-tido occulto das palavras que o moço pro-nunciava, sublinhando-as intencionalmente.

A moça, essa, com mais penetração do que a mãi, mais ingênua também, espraia-va-se esperançosa num vôo para as regiões da phantasia, acalentando o sonho de um. dia — com os trajes de noiva, ser condu-zida ao altar por aquelle rapaz que tanta grandeza d'alma parecia; ter.

O, olhar do Luiz, magnétisando-a com o seu fogo, fel-a enrubecer duas* vezes e corresponder á insolencia da sua insistência, que. ella, a pobresinha, não comprehendia, com um erguer de olhos calmo, cheio de gratidão e amor.

Traiçoeiro sentimento inocul^va-sé no seu coração puro e ingênuo, como se ama aos vinte annós, pela primeira^ez, quando a virgindade d'alma habita fiá* virgindade do corpòv

Aos poucos o seu sonho tornava-se uma realidade; ella o vio tomando corpo, cres-cer, avolumar-se, á pseporção que ella fa-lava, mostrando a linha dos seus dentes brancos.

A ponta do seu pé encontrou o do ra-paz e instinctivamente ella recuou, rubra, como se fosse apanhada em falta.

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escravisar-se a um homem illusoriamente, antes que uma declaração franca, expressa, denunciasse a sinceridade dos seus intentos.

Comprehendeu isto, e, para fugir ao encanto que a prendia, ergueu-se e foi para

o seu quarto.

Tomando o retrato do pai, fitou-o lon-gamente, e depois, não se contendo mais, sentindo um soluço, subir-lhe do engulho á garganta, desabafou num pranto copioso, histérico. Mas, cousa estranha! não era um choro de tristeza somente o seu; uma ale-gria sem causa explicável misturava-se com a saudade. Na noite do seu infortúnio,bri-lhava o primeiro raio de uma estrella pro-missora, muito distante ainda, envolta num vèo azulado, mas lá estava, sim, lá estava, c[ue ella bem o via.

— Guilhermina! disse a voz da mãi chamando-a. , - . . . . "

A moça levantou-se e foi lavar o rosto' para disfarçar a commoção por que passara.

— Guilhermina! repetio lá da sala de jantar a d. Adelaide.

— Já vou, minha mãi; estou arrumando aqui o meu aposento.

Momentos depois, um pouco embara-çada, veio áe encontro da gente que ainda permanecia á mesa.

O Luiz queria despedir-se, por isso a chamavam. ;

Ao rapaz não escapou a impressão que produzío no espirito da moça^ Reconheceu com satisfação que lançára-lhe o inferno na

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alma, que o terreno estava lavrado, que a semente cahira na terra e que o fructo não tardaria em desabrochar viçoso, para elle o colher quando o momento opportuno se apresentasse.

— Cultivemos, cultivemos . . . pensava comsigo ao sair; emquanto a planta é nova, todos os cuidadqs são poucos. Evitemos a geada que mata, ás formigas que cortam os brotos ; ajudemos a obra da natureza, fa-cilitemos ás raizes o trabalho de se segu-rarem, para que não lhe arranquem num momento o amor que lhe implantei e que será a rédea por onde a segurarei para con-duzil-a até á espelunca!

E, sõrrindo-se, satisfeito, victorioso, sol-tando as baforadas de fumo do seu cigarro Maryland, foi andando pela rua.

Lá em cima, contente, em pleno brilho de verão, o sol So meio dia, ardente e po-deroso , enchia de luz o mundo com todas as suas grandezas, mas também com todas as suas infâmias.

Em toda a parte penetravam os seus raios, mas nem um, nem um só para acla-rar a alma daquella pobrevirgem, tão bella, tão honesta, tãõ pura, mas* tão ingênua...

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O Luiz vivia perseguido por aquella preoccupação constante da Guilhermina. A todo o momento tinha diante dos olhos a figura esbelta da moça, com a sua tez mo-rena; olho& muito negros e profundos, enci-mados por duas tiras de cabellos finíssimos côr de azeitona. A sua longa trança de fios pretos, cahindo-lhe sobre as costas, a arqueação do busto, a fôrma provocante das cadeiras, muito desenhadas sob a rou-pagem, a cadência dos seus movimentos, um ligeiro tremor das carnes, tudo isto enton-tecia o rapaz, arrastado por um desejo bes-tial de saciar os instinctos sobre a carnadura farta da moça.

Começou a amiudar as visitas á família, demorando-se pela noite á fora a conversar sobre cousas mil, banalidades, tolices, mas alcançando o que constituía o seu principal objectivo — a confiança de d. Adelaide.

Esta, dotada de extraordinária boa fé, natureza experimentada no infortúnio, mas que tivera os últimos annos tranquillos e doces, passados ao.lado de um homem que a erguera á altura do mais puro dos affe-ctos, aceitava o Luiz na intimidade do seu

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lar, confiando no respeito que a recordação do morto devia impor a todo aquelle que transpuzesse a soleira da porta de sua casa. Imaginava que ninguém ousaria macu-lar, nem por pensamentos, a santidade da-quelle lugar por onde passara um homem que fora a encarnação da honra e cuja energia bastava para envolver os seus num halo de respeito e consideração.

Se bem que partido para as regiões da morte, este mysterio impenetrável, diante do qual os mais temerários estacam, ainda assim, vivo como ella ó sentia no coração, süp-punha que a_ sua sombra protectora es-tivesse sempre ao lado dos seus, mantendo no mesmo pé o conceito em que eram tidos durante p seu viver.

Se algumas vezes a supposição de que o Luiz não nutria intentos honestos vinha agitar-lhe o espirito, combatia esta idéa sorrindo-se dos terrores injustificáveis que os excessos dos carinhos maternos iazem surgir.

E' certo que entregava-se a longas me-ditações, quebrando a cabeça com o fu-turo de Guilhermina, e nesses instantes, evo-cando o seu passado, tocava em pontos- do-lorosos que lá estavam bem fundos, repou-sando na estrada do tempo vivido como a vaza no leito de um rio.

Nas ,ocçasiões, pois, das revoluções da alma, elles vinham a tona, torturavam-lhe a consciência, despedaçavam-lhe o coração, mas baixavam de novo estes frangalhos, e

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o presente, a obra rehabilitadora de muitos annos, resurgia límpido e claro como a água de uma fonte crystallina.

E' bem cruel, quando se é mãi, ter uma pagina na vida que os filhos não podem lêr, que é preciso esconíèr-lhes, para que o berço onde nasceram não os faça enrubecer. E, no emtanto, d. Adelaide sentia-se pura, redimida, perdoada mesmo.

Mas se aquillo pudesse ser um empe-cilio para a felicidade de Guilhermina, se quizessem levar em linha de conta as faltas da mãi, esquecendo que uma existência de muitos annos fora consagrada á obra de sua rehabilitação?

Como a torturava aquella agonia da alma!

Pobre mulher!

De seu lado, Guilhermina sentia atear-se o fogo que accendera-lhe no peito o olhar do rapaz no dia da missa do pai. Para ella, era questão resolvida — o Luiz pedir-lhe-ía a mão.

A- moça, senhora de si, não transpunha os limites da conveniência, contida pelo in-stincto do pudor, confiando no tempo, sem precipitar os acontecimentos, cheia de es-peranças.

Quando ouvia os passos do Luiz no cor-redor da casa, violento choque annunciava-lhé que era elle, e, rubra, tremula, corria para sala a receber o eleito do sen amor.

Mas aquillo devia ter uma solução. D. Adelaide, zelosa do futuro da filha,

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comprehendeu que era do seu dever provo-, car uma explicação categórica ou obrigar p Luiz a espaçar as visitas, qtie, tão repetidas como eram, davam que falar ao publico.

Esteve alguns dias indecisa, faltando-lhe a coragem, não estando certa se obraria bem, mas, fazendo um esforço, abordou o rapaz e falou-lhe com franqueza.

Este, se bem que estivesse de sobre-aviso, esperando mais ou menos um ataque de d. Adelaide, não conteve a emoção quando a ouvio.

Com toda a delicadeza, evitando ferir a susceptibilidade do amigo da casa, des-culpando-se do procedimento que tinha, fez-lhe sentir os inconvenientes daquella assi-duidade, sem uma razão explicável para o publfco. Não havia em casa um homem, pois que o Frederico, irmão de Guilhermina, era um rapazola, sem o critério preciso para impôr-se como tal. A ella, portanto, como mãi, cumpria evitar a maledicencia que, nos boatos cochichados, circulava pela cidade. — D. Adelaide, respondeu o Luiz, com-prehendo o que a senhora quer dizer e sou o primeiro a louvar o interesse que mani-festa pelo bom nome de sua casa, e longe de mim a idéa de a censurar por isso. Fre-qüentando tão assiduamente sua família, era meu propósito conhecer o caracter de d. Guilhermina, estudal-a intimamente, afim de resolver-me a dar um passo que todo o ho-mem sensato reflecte antes de dar. Hoje que a convivência com sua filha me

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per-mittio aprecial-a sufficientemente, posso, certo de andar bem inspirado, solicitar-lhe a mão e prometter á senhora que consa-grarei todos os instantes da minha vida á sua felicidade.

O rapaz calou-se, aguardando a res-posta.

Uma emoção enorme embargou a. voz á viuva, que nada soube dizer. Attonita por momentos, deitou ao moço um olhar perscrutador. Depois, enchugando discreta lagrima que trahia o seu contentamento, perguntou:

— Pensou bem no que faz, sr. Luiz? — Pensei, respondeu o moço. E' uma aspiração que nutro ha muito e que meu coração approva.

— Mas olhe bem, tornou a mulher; Guilhermina é pobre, e, demais de-mais . . . o senhor bem sabe que eu sua mãi, no meu passado . . .

— Não continue, d. Adelaide, adevinho o que quer dizer e não permitto este sa-crificio. Vejo diante de mim a mãi de Gui-lhermina e mais nada. O muito amor que lhe consagra a senhora, os sentimentos que incutio-lhe valem mais aos meus olhos do que qualquer falta de que lhe accuse a con-sciência. Feliz serei se fôr bem aceito, em-quanto que uma recusa causar-me-ia o mais profundo desespero.

— Está bem, sr. Luiz, está bem; vou chamar minha filha.

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e voltou com Guilhermina. Esta, compre-hendendo desde logo do que se tratava, vinha muito vermelha, acanhada, mas bella como nunca.

— Minha filha,, disse d. Adelaide, o sr. Luiz pede tua mão. E' do teu gosto ?

A moça não respondeu. Baixon os olhos por instantes, para erguel-os depois, cheios de ternura, murmurando com uma voz que vinha do coração,, emquanto estendia, a mão espalmada ao rapaz:

— Obrigada. .

— Sr. Luiz, falou d. Adelaide, seria conveniente que por emquanto fosse guar-dada em segredo a combinação que acaba-mos de fazer. Não posso dizer a ultima palavra antes de ter uma deferencia para com os amigos do Soares, consultando-os sobre este projectado enlace. E' um dever a cumprir.

— Tem razão, minha senhora; approvo o seu procedimento. (

Depois ficaram a conversar, muito ale-gres, até ás 11 horas mais ou menos.

Quando o Luiz saio, Guilhermina, de-pois de abraçar muitas vezes a mãi, foi para o quarto deitar-se, custando muito a conciliar o somno, agitada como estava.

O rapazv dois passos adiante da casa da

família do Soares, encontrou um amigo que seguia a mesma direcção que elle tomara. — Então que ha de novo ? perguntou este.

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o passo, quasi a estourar numa gargalhada, foi andando com b companheiro seguro pelo. braço. •

— Vem, anda; tenho grossa novidade, mas não aqui.

Quebraram um becco, o do Poço, muito escuro e estreito. Enfiando-se ambos. ppr corredor nauseabundo, pararam no meio das trevas.

O miserável, então, segurando pelos hom-bros o amigo, numa explosão de hilaridade petrificou-o com esta phrase:

— Arrumei o pedido!

E, empurrando a porta, entraram. Estavam no alcoúce da Lucinda — na espelunca.

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A Lucinda tinha fama no becco. A sua celebridade corria de bocca em bocca entre os devassos de Porto Alegre, -que ali iam passar umas horas-de troça, de crápula vil e baixa.

Era horrível, asqueroso o espectaçulo das noites consumidas ao clarão de. uma lâmpada de kerosene, bebendo os convivas aguardente, salivando obscenidades, na dis-puta da gloria de deslumbrar com as ab-jecções praticadas.

Eram poucos, é certo, mas eram direitos, completos, quilotados por todos os vícios, babujando sobre a honra como cães famin-tos que vomitam nas sentinas as podridões que não digeriram na voracidade dos seus appetites.

A sala onde se reuniram era sinistra. O tecto ennegrecido cobria-se de têas de aranha e das paredas muito borradas des-ciam umas linhas negras de água suja, hu-midade constante do velho pardieiro arrui-nado.

Uma mesa de pinho, manchada de vi-nho e café, pegajosa; um velho armário bambo, esconço, sem portas, cheio de

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mu-lambos, copos e garrafas; cadeiras de todas as fôrmas, sem assento umas, outras sem o encosto e outras ainda com três pernas; uma grande arca de madeira coberta de couro já usado e esburacado; cortinas de chita desbotadas pelo tempo, cobertas de espessa camada de p ó : três quadros de La-fosse, muito amaretlecidos pelo tempo, em que mulheres em posições indolentes repre-sentavam a Ásia, a África e a America; um espelho muito grande e sem aço, car-comida a moldura: eis os moveis que atra-vancavam o espaço enfumarado onde aquel-les viciosos entregavam-se a libaçÕes bac-chicas.

Estreito corredor dava accesso para outro aposento, onde havia duas camas an-tigas muito sujas, com travesseiros, que ex-halavam o fétido concentrado dê muitos suores, e lençóes emplastrados.

Era ali que aquelles porcos consumma-vam os seus gozos carnaés, de cambulbada, aos pares, cynicamente, aviltando até a própria bestialidade.

Mulheres de baixa classe, farpellas de' voz rouca pelo abuso do álcool, desgrenha-das, cheias de piolhos, com longas tetas pendentes a Ualouçarem dentro aÊ saccos de chita com pretenções a paletots, eram recebidas "pela troça com vivas e urrhas,,

atiçando o fogo do enthusiasmo e incitando a todas as baixezas.

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cara^eristico, dando a medida exacta da gente que vinha ali.

A mais ^celebre era a Maria Mingáoj a rainha dos mngús, alta, bexigosa, des-dentada, mas conhecedora de uns palavrões que encantavam a sücia.

A Espirra-Cachaça disputava-lhe a primazia. Tinha uma queda especial pelo Luiz — paixa, como ella dizia, rebolando com os quadris. ,

A Rita-Batoqúe era outra freqüentadora,, que nunca faltava aos pagodes, não tendo rival num quebra puxado a sustância, nem nas fieiras em que, levantava a perna até o tecto, sobretudo quando dançava com o Luiz, e isto para metter figas na Espirra. E assim as outras, do mesmo calibre mais ou menos.

Naquçlhv noite ia alta " a orgia. A gente do costume lá estava a postos, t o -mando cachaça e Cerveja ordinária, comendo sardinhas cõm vinagre e cebolas.

E o Luiz, perguntou a Espirra, por onde andará aquella alma?

— • Sei lá, resmungou a Lucinda, a dona da espehmca.

O seu typo nada tinha de especial. Era alta, magra, muito magra. Sabiam quanto era atrevida,, e tanto bastava para que fosse respeitada nos seus domínios. Também de quando em vez ella gostava de mostrar a sua autoridade, e intervinha nas freqüentes questões que ali se davam, gritando:

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— Psiu! não quero bulha-aqui; não quero que pensem lá fora que isto é uma casa de Orates.

Os diapasões abaixavam-se e a crioula sentava-se á mesa, servindo-se do copo de qualquer dos convivas e mettendo sem cere-monia os dedos no prato do que lhe ficava mais perto.

Era meia noite quasi quando entraram o Luiz e o Leopoldo.

Foi um successo! Todos puzeram-se a berrar: — Viva o Lulú; Viva o Leopoldo! Estes, satisfeitos, abraçavam os

companhei-ros, beijavam as mulheres, pedindo em altos gritos: — Cerveja! Marca barbante! SograL

— Já pensava que você não vinha,, disse a Espirra. Por onde andou?

— Tive que fazer, respondeu o Luiz.. Negócios são negócios^ y"v

Propuzeram um vispora géràl*. f

Num abrir e fechar d'olhos limpou-se a mesa. A Mingáo foi buscar as collec-ções e o sacco das pedras.

— Queremos pinga! berrou o Leopoldo. Sem isso não se joga.

— Já vai, já vai, seu apressado, ata-lhou a Lucinda. Fique qatêto, que aqui não se morre de sede.

Travou-se uma discussão para saber quem cantaria primeiro. * Resolveu-se a difficuldade pela sorte, que indicou o Leopoldo. Este, muito cheio de si, passou a annunciar os números, fazendo pilhéria, dando-lhes apel-lidos que faziam rir a troça.

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Emquanto jogavam, os parceiros con-versavam. O Leopoldo contou ao visinho que o Lulú tratara casamento. A noticia correu a roda, e dahi a pouco começaram as indirectas, as chufas.

— Então, seu moleque, já sei que vai entrar em massaãa, disse o Anastácio. Te-mos fazenãinha nova, *ein!

— Qual o que! respondeu o Luiz; não ha nada.

— Ora, eu bem sei; Olha: e levantou as mãos ontrelaçadas.

— B' casório? perguntou a Mingáo. — E', sim, atalhou.o Leopoldo; mas não é dos que o padre arranja. *

A Lucinda soltou uma gargalhada. — Casório assim eu comprehendo. Já me casei muitas vezes desta fôrma.

-— E que fasendão arranjou o bilontra, disse piscando o olho o Anastácio.

— Vamos! ponham isto em pratos lim-pos ! exclamou a Espirra. Nada de caixas encroaãas. Hão de vêr que é alguma pirúa, e estão com partes! Ha de valer menos do que isto — e deu uma palmada na nádega.

Todos estouraram numa gargalhada. — Pois lá vai a cousa, que é boa ás direitas, disse o Leopoldo. Ouçam.

Houve um movimento de attenção. Sus-penderam o jogo e escutaram.

O Leopoldo, depois de virar o conteúdo do copo, começou:

- r Este vivorio é bom ás direitas. E quem não tiver cuidado com elle, é

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engu-lido. Começou a arrastar a aza a uma franguinha, farejou-lhe a porta por muito tempo, por fim entrou; a velha collocou-o entre a espada e a parede e, no apuro, elle lascou um pedido de casamento. Agora é questão de tempo. Qualquer noite destas o pássaro bate o vôo, vem para aqui e quem arranja o casamento é a sia reveren-dissima Lucinda. Carne fresca, fresquinha! exclamou terminando.

Estas palavras foram recebidas com vi^ vas acclamações por todos os circumstantes, que acercaram-se do Luiz, felicitando-o pela audácia e astucia. E com isto davam-lhe palmadinhas nas costas.

Só a Espirra ficou silenciosa, deitando/' ao Luiz um olhar de desprezo.

— Canalha! sem vergonha! disse accen-tuando as palavras.

— Já estás com ciúmes, tã» cedo ? per-guntou o rapaz.

— Ciúmes ?! eu? ciúmes ?! O que pensas que sou ? Imaginas que por eu. estar nesta vida não tenho coração?

— O que é isto, sua Espirra? inter-rompeu o Leopoldo.

— Cale-se, seu sujo! tornou a mulher. Nem mais uma palavra ou parto-lhe a cuia com esta garrafa! Vocês sabem que eu não consinto nesta bandalheira. Se eu soubesse quem ella é, ia já prevenir a família, para evitar que seja seduzida uma pobre menina. Não ha tanta mulher perdida neste mundo ? Para que prostituir outras que podem ser

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felizes e virtuosas? Que canalha esta, no meio da qual eu vivo! Bem sei por que'pas-sei, para não desejar ás outras uma sorte igual. Mas ha remédio, e conto tudo, tudo da silva!

Estas palavras da Espirra, dietas num estado de exacerbação muito grande, pro-vocaram um conflicto medonho.

— Cala esta bocca amaldiçoada! ber-rava a Lucinda; não mettãs a colher no que não é da tua conta, broaca do inferno!

•— Rua com ella! exclamou a Mingáo. Rua! já para a rua!

0 Luiz, muito atrapalhado, muito sur-prezo com o incidente, ficou receioso e tra-tou de abrandar a fúria da outra, fazendo-se carinhoso.

— Isto é brinquedo, minha negra! Ja-mais pensei em tal cousa! foi pilhéria do Leopoldo. ,

Mas a Espirra já não era uma crea-tura humana, era uma fúria: espumava, es-bravejava, dava com os braços e as pernas para todos os lados.

Ouviram bater á porta da rua. Era uma patrulha que passava.

— Está ahi p que queriam I disse furi-bunda a Lucinda. Estou agora mettida em boas. Já o meu compadre Fraga disse que não me livro de assignar termo de bem viver na primeira em que eu cahir.

Os rapazes foram entender-se com a policia.

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Luiz. Não façam caso, nós somos todos gente limpa, vamos suspender o bródio.

— Pois é acabar de uma vez! observou amuado um cabo, senão varejo a casa.

A Lucinda poz toda a gente no olho da rua e fechou com estrondo a porta.

O Luiz e o Leopoldo separaram-se dos outros e foram andando.

— Você vio? disse o primeiro, quasi que nos entornaram o caldo.

— E' verdade.

— Pois nada de brincadeiras, senão lá se vai tudo quanto Martha fiou.

— Sim, sim; e o que vamos fazer? — Agora é por mãos á obra quanto antes, porque a cousa já me cheira a cha-musco. Nestes oito dias hei de acabar com tudo. E' preciso, no emtanto, ter cuidado com a Espirra.

— Ora! questão de cobres, observou o Leopoldo.

E foram descendo o becco, resoando seus passos no silencio da noite que ia alta.

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" V

Em casa de d. Adelaide começaram a tratar do casamento. A viuva mandou cha-mar o Roberto Vaz, velho amigo da casa, e que fora intimo do Soares. ExpozTlhe o pedido do Luiz e consultou-o a respeito.

— Pará quando é ? foi a primeira per-gunta que elle fez.

— Para daqui a um anno.

— E' muito tempo, observou elle. — Mas a menina não está % preparada e eu não posso num dia dar conta do en-xoval.

— Se é do seu gosto, se a menina tem amor ao rapaz e este seriamente pensa em casar, eu nada tenho a dizer; em todo o caso cumpre-me observar que a senhora deve ter muito cuidado e andar com cautela.

Era evidente que o Roberto tinha suas' duvidas, mas, bastante discreto para não comprometter a sua responsabilidade, achou mais sensato não avançar proposição alguma que decidisse do caso.

Outros companheiros do Soares, da mesma fôrma não iam muito longe, limi-tando-se a dar conselhos a d. Adelaide, que os escutava com interesse.

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Os noivos viviam felizes. A Guilher-mina, esta então estava radiante, não ca-bendo em si. A pobresinha pensava no seu Lulú a todo instante, conhecendo as horas em que elle passava pela frente da casa, sempre a tempo á janella para receber os bons dias, as boas tardes, ora um bouquet de flores, ora um chromo, emfim todas as bugigangas dos namorados. Aqnillò tudo ella guardava como amuletos preciosos, numa gaveta, escondido entre as suas camisas. E que ninguém tocasse no que Lulú lhe dera; sahia o diabo em casa.

A' noite elle vinha fazer serão com a família e sentava-se ao lado da mofa, da-va-lhe beliscões quando a mãi não* olhava para elles, por baixo da mesa tocava-lhe nos pés, estabelecendo-se entre ambos uma intimidade secreta que escapava á perspi-cácia de d. Adelaide.

A's vezes elle adiantava-se mais, dando apertões na noiva, quando esta lhe vinha abrir a porta, ao escurecer.

Um dia foi mais longe e arrumou um beijo em Guühermina.

Esta, muito envergonhada, zangou-se, mas elle explicou que entre noivos isso não era crime.

— Está bem, por hoje perdôo, mas não torne mais; depois de casadinhos, sim, disse ella com uma graça infantil adorável. A's vezes apparecia por lá o dr. Ma-galhães, velho gaiteiro, que dava o cava-quinho por conversas com moças'. Este

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começou a discorrer sobre o amor, e o Lulú, tomando desde logo o pulso do visitante, imaginou que era um homem de talento que ali estava, e entre ambos a discussão aca-lourou-se, interessando muito a Guilhermina,

que seguia os dois com curiosidade sem par. Quanta asneira, santo Deus, desperdi-çada numas duas horas!

NeSta noite, ao sahir, aproveitando, um momento em que d. Adeleide estava no in-terior , o rapaz abraçou yíolentamente a moça e deu-lhe uns quantos beijos, rápidos, ardentes, que incendiaram-lhe o coração.

Nãõresistio; apenas um sentimento de pudor fel-a dizer, com voz abafada:

— Deixa-me, deixa-me. . .

Num sabbado elle sahio cedo, dizendo que tinha de ir ao Club, que era director do mez e não podia faltar á reunião.

Guilhermina zangou-se, porque ella não indo elle não tinha que ir também.

— Mas é só por obrigação, meu amor; eu saio logo.

— Qual! eu sei. Os homens são assim. Você vai para lá e deixa-se ficar até alta noite, entretido com as outras, esquecendo-me a mim que aqui fico.

— Não, não penses isto de mim; pois posso eu estar em alguma parte que tua imagem não esteja cómmigo?

— Eu sei, eu sei..,..

— Olha, Guilhermina, escuta. Se eu não fosse director, lá não iria, e para prova eu ás honze horas passo por aqui; espera-me

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á janella, que baterei de mansinho e tu verlficarás.

— Não, isto não; é feio.

— Qual feio o que, menina; pois eu, teu noivo, posso pedir-te uma cousa que não seja correcta?

— Sim, mas o publico?

— Ora o publico.. este sabe que so-mos noivos.

— Está bem; eu virei verificar; mas... não, não vás ao baile!

— Vou, vou sim, que não tenho remédio. — Então vai!

Dizendo isto, ella fez um gesto de despeito. — Creança! disse o Luiz; não comeces assim. Eu te quero muito, muito. Se vou ao Club é porque preciso.

Reconciliaram-se e ella prometteu que ás onze viria á janella vêr se elle passava ou não.

— Ah! se não vieres, ameaçou ella, está tudo acabado.

—• Doidinha, disse o rapaz, e bateu-lhe com carinho no rosto, espiando se a d. Adelaide não apparecia.

A's dez horas todos se foram deitar em casa. Meia hora depois a Guilhermina, erguendo-se de mansinho, vestida como se deitara, poz-se a escutar se ainda havia gente acordada. A respiração regular que vinha do aposento de sua mãi tranquilisou-a. A's apalpadellas, cautelosamente, foi an-dando, parando cada vez que sentia o solo estalar sob os seus pés.

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Chegou á sala, tremula, encostou-se á janella fechada com o ferrolho, tendo tido o cuidado de illudir a mãi, não arreiando a vidraça para não ter de erguel-a, o que poderia despertar alguém. Levantou o fer-rolho com precaução e espiou para a rua. Nada! Um cachorro vagabundo acuava na esquina um preto coberto de andrajos. Teve medo e fugio com o coxpb para dentro. Um instante após ouvio passos. Pensou que era o Luiz e espreitou de novo. Era um transeunte retárdatario que farejou uma aventura no ar mysterioso com que/ a moça chegava á janella.

— Temos lingüiça!" jiüsse elle conti-nuando o seu caminho»^

Guilhermina teve vontade de' chamar-lhe idiota.

— Não, agora eu espero que elle bata; cerro a janella efico de dentro, pensou ella. Onze horas bataram na torre da matriz. — Não pôde tardar, disse comsigo. Passou alguém; não era. De novo ou-vio passadas ao longe, na calçada. Appro-ximou se o ruido, estava diante da janella... continuava. não era elle.

De novo a mesma historia, os mesmos passos, mas ainda não.

— Que diabo, pensou ella, elle não virá. Afinal... eil-ó... batem á janella... é, é o Lulú.

— Então, disse elle, com voz suffocada, enrolado na capa, com o chapéo cahido

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— Estou á tua espera ha uma hora. Beijou-lhe as mãos o rapaz e quiz que ella abaixasse o rosto.

— Nfão, não, murmurou ella baixinho; não, isto nunca; deixa-me, já te vi, vou para dentro.

— Escuta.

— O que? disse ella voltando. — Espera um instante.

— Não, não me compremettas.

E sem esperar mais nada fechou a janella e tornou ao seu aposento.

Dormio mal e no dia seguinte. acordou com os olhos inflamados.

O Lulú foi para casa. Os seus com-panheiros de republica dormiam a somno solto. Achou estúpido aquillo e teve vontade , de ir á espelunca da Lucinda. Mudou de idéa, ficou em casa; os seus companheiros que passassem sem elle aquella noite; no dia seguinte lá iria.

Despio-se, accendeu um cigarro, deitou-se e ficou pensativo.

— Se eu pudesse contar com estes ra-pazes, pensou olhando para os outros que dormiam.

Mas repellio esta idéa porque bem sabja que elles eram bastante honestos para nao se envolf erem em semelhante patifaria.

— Segura* ella está; hoje cahio na es-parrella e mais dia menos dia está na rua — murmurava entre dentes.

Depois soprou a vela e virou-se para o lado da parede.

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Pela manhã, como de ordinário, se bem que fosse domingo, passou pela casa de Guilhermina. Avistoura de longe, mas cer-rou a carranca para parecer incommodado.

— O que é isto? o que temos de novo? que cara é esta ? perguntou a moça quando, elle se approximou.

— Estou massado com a senhora, res-pondeu elle.

— Por que ?

— Porque vejo que não tenho a sua confiança.

— Como?

— Fugio-me a noite passada, temendo de certo alguma cousa.

-7- Não, foi para guardar as conve-niências.

— Obrigado pela lição; até á vista. Fingio que se retirava.

— Vença cá, seu homem brabo. — O que é?

— Olhe, você duvida de mim, do meu affecto?

— Estou quasi duvidando.

— Pois bem, peça o que quizer que eu farei, mas não se queixe de mim se hou-ver falatorio.

— Não; nem estes falatorios tão temi-dos hão de apparecer.

— Pois bem, que prova quer que lhe dê do meu amor?

— Quero que, logo, á mesma hora de hontem, venha dar-me boa noite.

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— Ah! temos mas.

— Não, não, atalhou Guilhermina; eu virei, virei, mas á tarde você nos venha vêr.

— Não posso, vou trabalhar no es-criptorio até tarde, que estamos dando ba-lanço.

— Sempre desculpas; você anda ar-redio.

— Outra historia; não sei mais que fazer.

—• Não, isto é brinquedo; eu creio em ti e não discuto mais.

— Então ás onze? — A's onze!

O Lulú seguio para o Continental. Tinha certeza do successo dos seus planos.

— E' cousa que está por pouco... por dias. E afagava já a esperança do gozo tão almejado, que via chegar a passos largos.

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Y I

Os encontros á janella a horas tardias foram se repetindo com freqüência tal, que por fim aquillo era invariável, todas as nou-tes, mesmo quando chovia, não sendo des-percebido aos transeuntes aquelle vulto, co-, lado á parede, de guarda-chuva aberto, em colloquio com uma mulher.

Isto é assim mesmo.

Vencida a primeira resisteneia do pudor, o que se nos afigurava uma incorrecção é aceito aos poucos e por fim a repetição do mesmo acto torna este" aos nossos olhos uma cousa naturalissima.

Como não echôa mais no nosso foro intimo a voz exprobradora que a primeira vez nos admoestou, como não vai no que fazemos um intuito conscientemente desho-nesto, julgamo-nos na pratica de uma acção licita e acima da critica do mundo.

E' o que se dava com Guilhermina. O diabo não era tão feio como lhe parecera, e se bem que com medo de ser surprehendida pela mãi nas horas das entrevistas secretas, nem por isso se julgava merecedora de

cen-suras.

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repa-raria. pois, com o subsequente matrimônio

estes actos que não tinham conseqüências sérias. E' verdade que elle a beijava mais do que nunca e que se atrevia mesmo a ir mais longe, sem comtudo ousar ainda pedir-a supedir-a posse completpedir-a. Mpedir-as o que tinhpedir-a isto ? Èíla própria dava já os seus beijinhos e sentia um gozo tão profundo, um espre-guiçamento tão dolente quando o rapaz a aconchegava ao seu peito, que quasi

des-fallecia.

Uma vez elle chegou a propor um pas-seio, uma volta de carro, que a noite estava tao bella e ninguém saberia de côusa al-guma.

Ella repellio a proposta um pouco as-peramente.

— Pois que, você mesmo quer isto ? — Estou brincando, disse elle confun-dido.

Entretanto um dia cahio o raio em casa. O Roberto Vaz, informado dos rendes-vous, tirou-se dos seus cuidados, foi á casa da viuva e pol-a ao corrente de tudo.

Isto foi o diabo. D. Adelaide revolu-cionou céos e terras, cahio em cima de

Guilhermina, desandou-lhe uma descompo-nenda sem nome, que a fez chorar amar-guras.

A' noite, quando o noivo veio fazer a visita do costume, passou por uma decepção tremenda.

A moça não o recebeu á porta como de ordinário, mas foi a mãi quem o

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intro-— 48 intro-—

duzio, mostrando na expressão do seu rosto; que andava marosca no ar.

— Sente-se, disse d. Adelaide, com gesto despachado.

O .rapaz, muito embaraçado, deixou cahir o çhapéo, atrapalhóu-se todo e muito encalistrado esperou.

— Meu caro, disse a mulher, ponha-mos os pontos nos iii. O senhor é noivo de minha filha, mas não é seu esposo ainda e portanto tem de respeitar a distincção entre uma e outra cousa. Amanhã ou de-r pois uma razão inesperada ou um impre-; visto qualquer rompe a, combinação e não me convém que a Guilhermina saia desta historia com a reputação arranhada. Sei do que ós senhores fazem alta noite e toda a cidade o sabe também. Isto não me serve e é um abuso de confiança de que < não o julgava capaz. O remédio deve ser

enér-gico e cumpre cortar o mal pela raiz. O casamento é daqui ha alguns mezes; já vendi a minha casa para preparar a noiva; pois até lá o senhor será mais conveniente, virá á nossa casa três vezes na semana, demorando-se quando muito duas horas, e isto de segredínhos á janella, sem minha sciencia e com o conhecimento de toda a gente, nem por sonhos torne a fazer, senão eu viro1 tudç de pernas para o ar.

O Luizí titubeou uma desculpa, mas a mulher cortou a conversa.

— A Guilhermina hoje está doente e eu tenho que fazer. Venha outro dia. E

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foi se levantando para o moço tomar o ca-minho da rua.

Fulo, quasi estourando de raiva e de des-peito, nem se despedio, jurando vingar-se.

Acalmou, porém, a fúria e vio que era preciso ser prudente e que talvez o inci-dente viesse auxiliar os seus planos. Foi para casa e começou a meditar.

Por fim esereveu uma carta muito longa, cheia de lamúrias, dizendo-se victima da crueldade de uma mãi sem entranhas, como era d. Adelaide, e protestava não tornar a pôr os pés em casa da noiva. Não rompia porque acima de tudo estava o seu amor, mas havia de tirar vingança. Propunha, pois, que se correspondessem até ulterior deliberação. Ia apressar o casamento e quanto antes havia de acabar com o jugo de d. Adelaide.

A carta, como sempre, chegou facil-mente ao seu destino, confiada á ganância de uma criada mais careira do que o cor-reio, pois cobrava um mil réis de sello.

A moça tentou, nas respostas que lhe enviou, dissuadil-o do seu propósito de con-tinuar cortado com a mãi. Dizia que aquillo não tinha importância, que era cousa incon-veniente para ambos.

Elle, porém, fazendo-se forte, respondia que nunca, que seu amor próprio fora ferido e que não era habito seu perdoar taes offensas.

E assim passaram-se dias, uma semana, duas.

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D. Adelaide não julgava as cousas ter-minadas, se bem que a ausência de Luiz a preoccupasse. Levava ainda assim o factó.5

á conta dfe um capricho, achando natural que elle se sentisse com o raspe. "

Para ella o casamento se faria, nãp tinha que duvidar, era questão de tempo?. Apressava o enxoval, trabalhando em sua companhia duas amigas, que vinham bainhar a roupa branca da moça, as camisas de linho, as saias de morim,. do melhor que o Felizardo tinha, especialista nestas cousas. As batas bordadas de linhó italiano que tinham encontrado no Dapello eram o en-canto das costureiras.

D. Miloca dizia que havia de copiar os bordados, para fazer-concurrencia aos cafca-manos. A d. Chiquinha gostava muito de amaciar com a, mão as meias de seda que o Amaro empurrara^bem carinhas, mas que eram sem rival.

, — Ora qual! dizia a d. Miloca, o Chico do Confiança tem disto, e muito bom, que vende quasi de graça.

— Eu vou hoje lá, disse d. Adelaide; vou ver uns roupões de que tanto me falou hontem a Emilia.

E nisto passavam o tempo, emquanto o trabalho ia a galope.

A noiva ás vezes chegava ao lugar onde trabalhavam, pegava em tudo, dava a sua «opinião, mas não era capaz de ajudar.

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dizia ella; é de máo agouro a noiva tra-balhar no enxoval.

— Para quando é? d. Adelaide, per-guntou a d. Miloca.

— Não sei bem, mas creio que lá para setembro acabo com isto. O bobo anda zangado, não tem vindo, mas se não voltar nestes oito dias, irei buscal-o.

— Deixe, deixe, não se incommode; eu sei o que são estes arrufos, observava a d. Chiquinha, velha solteirona, que contara mais de uma aventura amorosa na sua exis-tência, mas nenhuma com resultados prá-ticos.

— Ah! eu não me afflijo, mesmo por-que— respondeu a mãi abaixando-se para não ser ouvida— elles, estou bem certa,

an-dam de cartinhas para lá e para cá. — Ora .. . ora . . . tornou d. Chiquinha, para o que foi que se inventou o papel se-não para os namorados falarem sem ser ouvidos.

Nesse dia uma carta, trazida com todas as cautelas pela crioula, poz em "alvoroço o coração da moça. Era urgente, cheia de phrases curtas, tresandando a mysterio, muito lacônica, como se fosáe escripta sob a pres-são de um perigo imminente, uma ameaça de transtornar todos os planos.

Era assim concebida.

«Guilhermina, «Novidade terrível; tudo ameaçado. Não imaginas como estou atordoado. Grande

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perigo sobre nossas cabeças. E' uma des-graça. Como te poderei falar, sem que tua, mãi saiba? Vê se descobres um meio. E' preciso que antes das oito horas te faça sabedora de séria occurrencia. Rondarei immediações de tua casa á espreita de mo-mento favorável. Confia em mim. Sou teu noivo vivo ainda, mas que morrerá se não te falar hoje.

«Todo teu,

LULU.» Quando Guilhermina acabou a leitura da missiva sentio uma oppressão no peito. Teve um presentimento. 'Torturou o espir rito buscando uma dècifração para aquelle enygma. O que seria? Que desgraça os ameaçava? Não sabia o que fazer. Nervosa, tomou de um papel e escreveu com mão tremula esta resposta: «Sou tua noiva para a vida e para a morte. — G.»(

Capeou o recado e remetteu-o pela criada.

Depois, muito atordoada, apprehensiva, foi para o piano, para disfarçar a sua agi-tação e não atear as suspeitas da mãi.

Não podia tocar. Ensaiou vários tre-chos, mas todos saiam errados. Fechou o instrumento e foi para o seu quarto.

Deitou-se á hora do jantar, accusou uma dor de dente para não vir a mesa.

Esperou a noite com anciedadé, não sabendo o que lhe trariam as trWas quando encobrissem a terra.

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A noite descia do céo lentamente: a luz crepuscular enchia de uma claridade mortiça as ruas. Lufadas de vento frio e cortante fustigavam o rosto dos transeuntes. Nas lojas e officinas começavam a accender as luzes. Os patrões vinham para as por-tas e apoiando-se aos portaes distraiam o olhar pela rua "afora. A's janellas moças faziam o chüo, conversando em voz alta.

O Luiz passou apressado em direcÇão ao escriptorio.

Deitou um olhar de soslaio para a casa da noiva. Deu com d. Adelaide á janella e fez um ligeiro comprimento.

Achou de bom agouro não ver a noiva. — Está assustada, pensou.

Entrou em casa esfregando as mãos. Era evidente que elle tinha uma preoccupa-ção, que interessava-se por alguma cousa.

Conversou, fumou, não contendo a sua agitação, indo a todo instante para a porta, consultando o tempo, d relógio.

Ninguém dava pelo motivo de sua in-quietação.

— Tens o diabo no corpo hoje, obser-vou alguém.

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— Eu? . . . Onde é que viste isto ? . . —) Não socegas . . .

— Qual í . . . Isto é frio.

Sete horas bateram na pêndula do Felauer. — Homem, disse elle, tenho que dar um pulo á casa de um sujeito; volto já.

Depois, tornando atraz, disse:

— Estou com um pouco, de dôr de cabeça; se não voltar até ás 9 horas é por-que vou dormir.

— O quê tens, te sentes mal ? — Não; cousa ligeira; não é nada. Enrolado na sua capa. desceu até áV praça Conde d'Eu. Parou um instante e ficou impaciente a, olhar para todos os la-dos, como quem procura alguma cotisa.

— Que espiga! murmurou entre dentes... Já são sete horas e o diabo não vem.

Nisto apontou, vindo do Caminho Novo, um carro fechado.

— Afinal! disse.

E avançou ao encontro do *vehicúlo. Quando chegou á íalay ordenou ao co-cheiro que se fosse postar á esquina da rua da Alegria, voltado para o lado da Miseri-, cordià.

— E faça 0 que. ensinei, ouvio? — Não tem nada! respondeu p có-cljeiro. Conheço do' meu officio,''" esteja descançado/

— Olhe lá . .

— Não tenha medo.

Separaram-se,, o carro subindo a rua e elle tomando pelo; becco,do Rosário.

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Foi andando pela rua do mesmo nome, voltou á direita pela do Riachuelo e desceu a de Bragança.

Vio que eram sete e meia. Entrou na Gruta Becreativa. Pedio um cognac e to-mou-o de um gole, ao balcão mesmo.

Chegou á porta, mas tornou a entrar immediatamente.

Serviram-lhe segundo cálice.

Pagour percorreu com os olhos as

pa-redes, distraindo.

Foi á porta de novo. Vio á janella da casa de d. Adelaide uma cabeça.

Era a de Guilhermina.

Fez um signal; a moça chamou-o com a mão.

Enrolou-se na capa e veio a passos rápidos.

— Chega á porta, Guilhermina, disse com voz tremula e rápida, chega á porta.

• A moça, muito espantada, olhou para dentro, para assegurar-se de que a mãi os não via, e veio ao corredor.

Elle a segurou pela mão e muito ner-voso puchou-a para a porta, dizendo:

— Escuta, pelo amor de Deus, vem, não resistas, é para a nossa felicidade. v e m . . . é aqui perto pertinho... uma cousa grave .. vem . . . vem . . .

A moça quiz recuar. Instinctivamente estacou. Mas a agitação do rapaz, o seu amor, o receio de ser surprendida, o con-curso destes três sentimentos fizeram-na andar sem consciência do que fazia. Só,

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então vio que a sua vontade desapparecêra e que, escrava do seu amor, não sabia lutar com a paixão que a devorava. Luiz a go-vernava, a arrastava a seu, bel prazer.'

Chamando a capa para cima da cabeça, saltou para a rua e acompanhou o rapaz.

— Para bnde vamos? •' — E' aqui.. aqui. respondeu elle

apressando o passo.

A' esquina estava o carro. Antes que ella tivesse tempo de discutir o que fazia, o moço a empurrou para dentro e entrando em seguida fechou a portinhola.

O cocheiro fustigou, os animaes, que, num arranco vigoroso, puzeram em movi-mento o vehiculo. Só então Guilhermina teve idéa exacta do que se passava. t.«,

— Lulú!.,, gritou a infeliz. t. •*'-< — Não grites,, pelo amor de Deus, fa-lou elle, tapando-lhe a bocca. E' o teu noivo que está aqui; nada temas.

— O que estás fazendo, para, onde va-mos . . . e minha mãi ?

— Não fales, não tenhas medo.

E o carro voava sobre as pedras da calçada, estremecendo os vidros das portinholasj que com o ruido abafaram as vozes.

De repente pararam. Saltemos, disse elle.

— Onde , vamos ? . . . Quero tornar á casa . . . não faças isto.

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A moça obedeceu. Vio que estava na rua do Riachuelo, quasi no becco do Poço.

O carro continuou e elles metteram-se no becco. Ella, muito nervosa, nada dizia. A uma porta uma preta quando os vio sumio-se para o interior.

Eram esperados. Num instante entra-vam pelo corredor escuro, nauseabundo, da espelunca da Lucinda.

Guilhermina sentio que fechavam a porta e as janellas.

Da rua chegava-lhe aos ouvidos uma canção obscena, que sabia de uma voz muito rouca, voz de mulher bebeda que distrahia as magnas cantando:

<Moça bella, virgem formosa, «O teu amor dá-me, querida, «Em meu peito esta paixão

«Me despedaça o

coração.-Era a Espirra, coitada, que á porta da rua" cantarolava e que os não vira entrar.

No immundo quarto onde o rebutalho da prostituição, o lixo da sentina vinha es-coar-se, foi que a virgindade de Guilhermina recebeu a primeira affronta.

Nem a infâmia do lugar, nem a recor-dação das scenas hediondas do passado actuaram bastante fortemente sobre o Luiz para poupar á desgraçada aquella humilha-ção sem par.

Entrava a infeliz no caminho do vicio pela porta estreita de um alcouce, onde as

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outras acabavam quando 0 viço da moci-, dade, o colorido das faces desappareciam 'invadidos pela syphilis. Ella não tinhamais

que descer, dalli tudo era subir. Cahira de um salto, enterrára-se no lodo até á ca-beça e nelle patinharia antes de tornar á tona. O corpo não se prostituía somente, não se polluia pura e simplesmente, mas aviltava-se, descia á ultima degradação, arrastado inconscientemente por um amor purp, ideal, grandioso.

Elle fez de alcova nupcial o alcoúce da Lucinda; em troca do altar, a espelunca, a cupola branca e sedosa do leite de noi-vado substituído pelo, tecto asqueroso e ne-gro do pardieiro! E, ironia cruel da sorte! os afagos e carinhos do esposo amado, cheio de ternura, tímido, infantil, diante do seu pudor de donzella, tantag. vezes sonhados, o que eram?

A besta com todos os instinctos soltos a segural-a pelo braço, 'vigorosamente?* bru-talmente, arrastando-a para a cama1' antiga,

de lençoes emplastrados, onde horas áàtes a Mingáo ganhara o pão de cada dia.

Resistio, gritou!

Embalde! Ninguém acudio.

Com os olhos esbugalhados, excitado ao ultimo ponto, convulsionada -a face numa contracçãor epiléptica de sensualidade, sem dizer uma palavra, rasgando-lhe as vestes, debruçandq-sé sobre ella, suffocando-a com o seu hálito de fogo, roncando como um agonisante, magbando-a com as pencas,

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pren-dendo-lhe os braços com os dedos que eram como as antenas de um polvo, suffocou-lhe num beijo quasi mordedura o grito ultimo da virgindade que lhe arrancava num ím-peto de louco, para rolar exhausto sobre o solo, no meio dos escarros e das pontas de cigarro do amante da Mingáo!

Estava consummado o crime. Guilher-mina não era mais donzella.

A pobre moça não se movia. Um tor-por sem nome a immobilisára. Dir-se-ia petrificada ante aquella ignominia.

O rapaz ergueu-se e veio dar-lhe um beijo. Ella nada disse. Fria, hirta pelo soffrer, era como uma morta. Elle pensara que tocara num cadáver.

— Guilhermina! chamou. A moça não "respondeu.

— Guühernúha! Guilhermina!

Ella pareceu despertar. , Ergueu o corpo, apoiando-se nas mãos. Elle sentou-se a seu lado, passou-lhe a mão pela cintura.

— Gnn^ermina, meu amor, minha vida! murmurou.

Só então ella pareceu comprehender o

que se passava. 'Attonita, olhou em torno

de si e, de súbito, escondendo a cabeça no seio do rapaz, rompeu num pranto, meu Deus, que pranto, longo, soluçante, vindo das profundezas do coração.

«— Luiz," o que fizeste!.. Foi só o que disse.

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• V I I I

Em casa de d. Adelaide não deram pela falta de Guilhermina senão por volta das 9 horas.

Ainãi, indo ao quarto da filha, que não(

viera á mesa e não a encontrando alli, cha-mou por ella. Buscou pela casa toda, mas foram infructiferas as suas pesquizas.

Assustou-se, foi á sala, olhou para a rua, perguntou a uma visinha se não vira Guilhermina.

Ainda assim tentou conservar a pre-sença de' espiritei Os vagos receios que começavam a agitar-lhe o coração ella os combateu, confiando no bôm sensp da moça, na sua virtude, nos elevados sentimentos que sempre manifestara.

Meia hora passou-se assim. Era in-suppprtavel aquella duvida, cumpria quanto; antes tomar uma resolução. Por fim o grito tão contido, a explosão da ternura echoou vibrante nos ângulos da habitação e d. Ade-laide, no auge do desespero, feita a luz em seu cérebro, cambaleou, ergueu as mãos para o ar, como quem busca um ponto de apoio, e cahio pesada, como morta, sobre o assoalho. De todos os lados accudia gente,

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emquanto que Frederico, o irmão, informado do que se passava, corria para a rua a dar as providencias necessárias.

Foi chamar dois amigos de casa que, presurosos, vieram ao encontro da viuva desolada.

Já tornada a si, d. Adelaide estor-cia-se num desespero sem nome, bradando:

— Minha filha! minha filha!... Que era obra do Lulú ninguém poz em duvida e p mais acertado era quanto antes ir ao seu encalço. Não se podia de certo saber a que horas a moça desapparecêra, mas todos acreditavam que não podia ter sido ha muito.

Eram mais de dez horas quando puze-ram-se em marcha. Os dois amigos, fare-jando a origem do rapto, foram á republica do Lulú.

Com pasmo enorme deram com elle sen-tado á mesa, jogando o solo com dois com-panheiros, emquanto que um terceiro, dei-tado sobre um canapé, lia na Federação o assombroso numero de adhefões republi-canas, signal evidente da derrota liberar em toda a linha, na batalha que se feriria, na manhã seguinte.

O Luiz apparentava grande calma e tivera a prudência de não confiar aos ami-gos o crime monstruoso que praticara.

Elle assim obrava para ter três vozes convencidas em seu favor, certo como es-tava de que o viriam chamar a contas.

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d. Adelaide não causou estranheza aos mo-ços da republica.

Influencias que eram no partido liberal e o facto de ser o Luiz mesario, pareceu-lhes sufficiente para explicar aquella visita fora de horas, tanto mais que pediram ao noivo de Guilhermina uma palavra em par-ticular.

No instante após voltaram á sala e o Lulú prevenio que sahia.

— Onde.vais? perguntou o Anastácio;

que era de casa. !

— Não é de tua conta, respondeu um dos recém-chegados, dissimulando; vocês são conservadores e isto é negocio político.

Satisfazia a explicação.

Sahiram os três e foram para a casa de d. Adelaide./ Na conversa que haviam tido em segredo o Luiz fora - inteirado do rapto da moça.

A sua physionomia,trahio-o. Era pre-ciso pol-o em frente da viuva para susten-tar a sua innocencia.

*-O que passou-se*lá hão se descreve. Como, uma leôa,á mãi atirou-se a elle. — Quero a minha filha, miserável, la-' drão! Vai buscal-a, seductor infame, cana-lha, sem vergonha!

— Mas eu não sei de nada, respondeu elle, muito branco, tremulo, balbuciando o que dizia.

— Mentes! gritou d. Adelaide, ,e, su-blime na sua fúria de mãi, altiva,

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