UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
FACULDADE DE TECNOLOGIA
ALINE BOSSI PEREIRA DA SILVA
Avaliação contínua de acessibilidade para apoio às
evoluções de websites
ALINE BOSSI PEREIRA DA SILVA
Avaliação contínua de acessibilidade para apoio às
evoluções de websites
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas, para a obtenção do título de Mestra em Tecnologia, na área de Sistemas de Informação e Comunicação. Orientadora: Profa. Dra. Regina Lúcia de Oliveira Moraes
Co-Orientador: Prof. Dr. Celmar Guimarães da Silva
FOLHA DE APROVAÇÃO
Abaixo se apresentam os membros da comissão julgadora da sessão pública de defesa de dissertação para o Título de Mestra em Tecnologia na área de concentração de Sistemas de Informação e Comunicação, a que submeteu a (o) aluna (o) Aline Bossi Pereira da Silva, em 30 de novembro de 2017 na Faculdade de Tecnologia- FT/ UNICAMP, em Limeira/SP.
Prof. (a). Dr (a) Celmar Guimarães da Silva Presidente da Comissão Julgadora
Dr. Eduardo Hideki Tanaka Instituto de Pesquisa Eldorado
Prof. Dr. Paulo Sérgio Martins Pedro Faculdade de Tecnologia- FT/ UNICAMP
A Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no processo de vida acadêmica da aluna na Universidade.
AGRADECIMENTOS
Ao meu esposo e companheiro Marcos, que de forma especial е carinhosa me deu força е coragem, me apoiando incondicionalmente nos momentos de dificuldades e comemorando cada conquista.
Aos meus pais Odassir e Rafaela, pelo amor, incentivo е apoio incondicional. Pela eficiência em educar, me possibilitando conhecer o completo significado da palavra integridade e pela oportunidade de estudar e me desenvolver.
Aos meus orientadores Regina e Celmar, pela apoio, confiança, paciência, dedicação e ensinamentos que possibilitaram que eu realizasse este trabalho.
A esta universidade e todo seu corpo docente, além da direção e a administração, que realizam seu trabalho com tanto amor e dedicação, trabalhando incansavelmente para que nós, alunos, possamos contar com um ensino de extrema qualidade.
A todos que direta ou indiretamente fizeram parte da minha formação, о meu muito obrigado.
RESUMO
Regras de acessibilidade podem ser aplicadas a websites para que as informações por eles veiculadas sejam disponibilizadas para todos os usuários, mesmo que estes possuam alguma deficiência ou limitação. Atualmente, existem ferramentas que validam os elementos de acessibilidade de um website. Porém, estas validações, normalmente, são executadas apenas uma vez, ao término do desenvolvimento. No entanto, alterações cotidianas e inserções de conteúdos pelos usuários tendem a inserir falhas de acessibilidade no website. Essas falhas, se não validadas novamente por especialistas ou com apoio das ferramentas, farão com que o website deixe de atender os padrões atuais de acessibilidade, além de provocar uma regressão na qualidade do website.
Ciente desse problema, este trabalho teve como objetivo geral testar a hipótese de que a adoção de um processo contínuo de avaliação de acessibilidade de websites permite mantê-los acessíveis, apesar de manutenções e modificações feitas ao longo de sua existência.
Para o levantamento das regras de acessibilidade a serem consideradas, foi realizada uma pesquisa bibliográfica. Como prova de conceito, adaptou-se uma ferramenta de avaliação de acessibilidade automática para tornar sua avaliação contínua e para que fossem enviadas mensagens por e-mails, com relatórios de falhas, aos responsáveis pelo website. Além disso, foi aplicado um questionário envolvendo representantes oficiais de uma parte de websites envolvidos na pesquisa. As avaliações foram aplicadas em duas amostras, sendo que parte de cada amostra era formada por websites que já foram considerados acessíveis em alguma etapa de seu desenvolvimento. As avaliações buscaram identificar possíveis defeitos que impactassem negativamente a acessibilidade e que tivessem sido inseridos em manutenções feitas após a conclusão do website. Os resultados obtidos nas avaliações usando a ferramenta adaptada e em contatos posteriores com os responsáveis mostraram que há baixa adesão das regras de acessibilidade mesmo depois do envio constante das mensagens, aos responsáveis pelo website, sugerindo correções.
ABSTRACT
Accessibility rules can be applied to websites so that the information they convey is made available to all users, even if they have some disability or limitation. Currently, there are tools that test the accessibility elements of a website. Normally, the accessibility evaluation is done before deployment but there is a lack of accessibility maintenance after evolution. These faults, if not validated again by experts or with the support of the tools, will cause the website to be outside current accessibility standards, as well as to cause a regression in the quality of the website.
Aware of this problem, this work had as general objective to test the hypothesis that the adoption of a continuous process of validation of accessibility of websites allows to keep them accessible, despite maintenance and modifications made throughout its existence.
For the survey of accessibility rules to be considered, a bibliographical research was carried out. As proof of concept, an automatic accessibility assessment a tool was adapted to support developers on finding and fixing the accessibility faults. In addition, a questionnaire and direct contact was applied to make them aware of the regulation and the faults found in the websites under their responsibility. Even after our contact and constant messages sent by email suggesting how to fix the faults the adhesion was low. The tests were applied in two samples, and part of each sample contained websites that were already considered accessible at some stage of their development. The tests sought to identify possible defects that negatively impact the accessibility and that were inserted in maintenance done after completion of the website. The results obtained in the evaluations using the adapted tool and in later contacts with those responsible showed that there is a low adherence to the accessibility rules, even sending constant emails to the site managers suggesting corrections.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Ferramenta daSilva ... 42
Figura 2 - Validador VaMoLà ... 44
Figura 3 - Validador Tanaguru ... 45
Figura 4 - Validador AChecher ... 45
Figura 5 - Processo de avaliação contínua de acessibilidade ... 47
Figura 6 - Procedimento de organização da amostra 2 ... 55
Figura 7 - Fluxo de organização da amostra 1 ... 58
Figura 8 - Testes iniciais executados na segunda amostra ... 59
Figura 9 - Fluxo de contato com parte da Amostra 2 ... 60
Figura 10 - Gráfico das falhas apontadas na primeira amostra para o Grupo 1 ... 64
Figura 11 - Gráfico comparativo de falhas ... 68
Figura 12 - Respostas obtidas para a primeira pergunta do questionário ... 71
Figura 13 - Respostas obtidas na segunda pergunta do questionário ... 71
Figura 14 - Respostas obtidas na terceira pergunta do questionário ... 72
Figura 15 - Respostas obtidas na quarta pergunta do questionário ... 72
Figura 16 - Respostas obtidas na quinta pergunta do questionário ... 73
Figura 17 - Respostas obtidas na sexta pergunta do questionário ... 73
Figura 18 - Respostas obtidas na sétima pergunta do questionário ... 74
Figura 19 - Respostas obtidas na oitava pergunta do questionário ... 74
Figura 20 - Respostas obtidas na nona pergunta do questionário ... 75
Figura 21 - Respostas obtidas na décima pergunta do questionário ... 75
Figura 22 - Respostas obtidas na décima primeira pergunta do questionário ... 76
Figura 23 - Exemplo de relatório de acessibilidade gerado pela ferramenta AChecker ... 181
Figura F. 1 - Primeira tela de instalação da ferramenta AChecker...125
Figura F. 2 - Tela com termos de uso da licença ... 126
Figura F. 3 - Tela de configuração do banco de dados para o sistema ... 126
Figura F. 4 - Mensagem de confirmação das configurações ... 127
Figura F. 5 - Configuração do usuário Administrador do sistema ... 127
Figura F. 6 - Tela de configuração da pasta temporária do sistema ... 128
Figura F. 7 - Tela de confirmação de armazenamento das configurações ... 128
Figura F. 8 - Tela de finalização da instalação ... 129
Figura F. 10 - Tabelas criadas para a adaptação da ferramenta AChecker ... 131
Figura F. 11 - Banco de dados alterado para adaptação da ferramenta ... 133
Figura F. 12 - Método getMonitorsAuto ... 134
Figura F. 13 - Método getCountMonitorsAuto ... 135
Figura F. 14 - Método getAll ... 135
Figura F. 15 - Método getResultID ... 136
Figura F. 16 - Constantes programadas para a adaptação da ferramenta ... 137
Figura F. 17 - Codificação do mapeamento de privilégios ... 137
Figura F. 18 - Tela para criar um novo registro de monitoramento ... 138
Figura F. 19 - Tela para editar registro de monitoramento ... 139
Figura F. 20 - Condição para auxiliar no método de escrita de tela ... 139
Figura F. 21 - Codificação de manutenção dos registros ... 140
Figura F. 22 - Parte do código responsável por excluir um registro ... 141
Figura F. 23 - Tela para criar um registro de período ... 142
Figura F. 24 - Tela de listagem dos períodos cadastrado ... 142
Figura F. 25 - Tela de resultados de avaliações obtidas no monitoramento diário de um website ... 143
Figura F. 26 - Tela de relatório de acessibilidade com sugestões para correção de falhas de acessibilidade ... 144
Figura F. 27 - Pasta com temas criados para funcionalidade das páginas de monitoramento 145 Figura F. 28 - Tarefas cron configuradas no servidor testes automáticos de acessibilidade e backups de sistema ... 146
Figura F. 29 - Programação do cron ... 146
Figura F. 30 - Verificações realizadas para o funcionamento dos testes automáticos no arquivo automator.php ... 147
Figura G. 1 - Formulário de registro para acesso ao sistema...150
Figura G. 2 - Abas e funcionalidades disponíveis para o grupo "User" ... 151
Figura G. 3 - Abas e funcionalidades disponíveis para o grupo "Administrator" ... 151
Figura G. 4 - Agrupamento de resultados e problemas encontrados na avaliação de acessibilidade ... 153
Figura G. 5 - Exemplo de Know Problems com identificação e sugestão de correção ... 154
Figura G. 6 - Exemplo de Likely Problem com identificação e sugestão de correção ... 154
Figura G. 7 - Exemplo de Potential Problems com identificação e sugestão de correção ... 155
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Comparação entre ferramentas ... 43
Tabela 2 - Lista de websites cadastrados no buscador Clareou na categoria Governo ... 52
Tabela 3 - Lista de websites testados na ferramenta AChecker que não apresentaram falhas de ... 56
Tabela 4 - Lista de websites com indisponibilidade (apresentando erro 404) da amostra 1 .... 56
Tabela 5 - Lista de websites disponíveis testados na ferramenta AChecker ... 57
Tabela 6 - Registro de Falhas de Acessibilidade do Grupo 1 ... 63
Tabela 7 - Análise de falhas iniciais e finais dos websites do Grupo 1 ... 64
Tabela 8 - Análise de falhas iniciais e finais dos websites que não receberam avisos ... 65
Tabela 9 - Resultados obtidos nos experimentos com a amostra 1 ... 66
Tabela 10 - Quantidade de falhas no Grupo 1 ... 66
Tabela 11 - Quantidade de falhas no Grupo 2 ... 67
Tabela 12 - Quantidade de falhas no Grupo 3 ... 67
Tabela 13 - Estatísticas de falhas da segunda parte da amostra 2 ... 67
Tabela 14 - Estatísticas comparativas de falhas ... 68
Tabela A. 1 - Base de Dados pesquisadas...89
Tabela A. 2 - Resultados depois de aplicado o critério de exclusão considerando as palavras chaves no abstract. ... 89
Tabela A. 3 - Resultados depois de aplicado o critério de exclusão considerando as palavras chaves no título. ... 90
Tabela A. 4 - Resultados depois de aplicado o critério de exclusão considerando trabalhos publicados a partir de 2010. ... 90
Tabela A. 5 - Artigos Selecionados ... 91
Tabela C. 1 - Relação das Cidades do estado de São Paulo que foram foco dos testes pela segunda amostra...96
Tabela E. 1 - Cidades aleatoriamente selecionadas para o primeiro grupo da segunda amostra...115
Tabela E. 2 - Cidades aleatoriamente selecionadas para o segundo grupo da segunda amostra ... 118
Tabela E. 3 - Cidades aleatoriamente selecionadas para o terceiro grupo da segunda amostra ... 121
Tabela I. 1 - Comparativo de falhas de acessibilidade inicial e final Grupo 1 / Grupo 2 e Grupo 3 de websites testados ... 161 Tabela J. 1 - Comparativo de falhas de acessibilidade inicial e final de websites não avisados pelo sistema...170
LISTA DE APÊNDICES E ANEXOS
APÊNDICE A: Detalhamento do Processo de Revisão de Literatura ... 88
APÊNDICE B: Modelo de mensagem enviada aos responsáveis pelos websites ... 95
APÊNDICE C: Segunda amostra de dados ... 96
APÊNDICE D: Requisitos técnicos da ferramenta AChecker ... 114
APÊNDICE E: Amostra 2 separada em grupos para testes ... 115
APÊNDICE F: Processo de instalação de adaptação da ferramenta ... 125
APÊNDICE G: Funcionamento da ferramenta ... 148
APÊNDICE H: Questionário de acessibilidade ... 157
APÊNDICE I: Comparativo de falhas registradas nos experimentos ... 161
APÊNDICE J: Comparativo de falhas de acessibilidade ... 170
DICIONÁRIO
CSS – Tecnologia para configuração de estilo de páginas web.
E-MAG - Modelo de acessibilidade do governo eletrônico para o governo brasileiro.
FREE SOFTWARE - É um software que contém permissão para que qualquer pessoa
possa usar, copiar e distribuir, como adquirido ou modificado, gratuitamente ou por um custo. Mais especificamente, há a exigência de que o código fonte da aplicação esteja disponível.
HTML – Linguagem de marcação para desenvolvimento de páginas web.
JAVASCRIPT – Linguagem de programação baseada em script que adicionam ao website algumas características dinâmicas
OPEN SOURCE - Termo em inglês que significa código aberto. Isso diz respeito ao
código-fonte de um software, que pode ser adaptado para diferentes fins.
RIA - Rich Internet Applications, que são páginas com elementos que adicionam ao website algumas características dinâmicas.
W3C - World Wide Web Consortium é uma comunidade internacional que organiza as recomendações e o desenvolvimento da web.
WAI - Web Accessibility Initiative grupo responsável pela formação das diretrizes de acessibilidade WCAG.
WAI-ARIA - Accessible Rich Internet Applications, são elementos dinâmicos de uma página web.
WCAG - Web Content Accessibility Guidelines ou recomendações de acessibilidade web.
XHTML - É uma reformulação da linguagem de marcação HTML baseada em XML. XML - Linguagem de marcação recomendada pela W3C para a criação de documentos com dados organizados hierarquicamente.
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS ... 8
LISTA DE TABELAS ... 10
LISTA DE APÊNDICES E ANEXOS ... 12
DICIONÁRIO ... 13
1. INTRODUÇÃO ... 16
1.1. OBJETIVOS ... 19
1.2. JUSTIFICATIVAS ... 19
1.3. CONTRIBUIÇÕES TÉCNICAS E SOCIAIS ... 21
1.4. ESTRUTURA DO TRABALHO ... 21
2. REFERENCIAL TEÓRICO ... 22
2.1. DEFICIÊNCIA ... 22
2.2. ACESSIBILIDADE ... 23
2.3. ACESSIBILIDADE NA WEB ... 23
2.4. RIA – RICH INTERNET APPLICATIONS ... 24
2.5. WCAG ... 25
2.6. e-MAG ... 27
2.7. RECOMENDAÇÕES ESPECÍFICAS ... 28
2.8. CONSIDERAÇÕES ... 29
3. TRABALHOS RELACIONADOS ... 30
3.1. ANÁLISE ESTATÍSTICA DE WEBSITES ACESSÍVEIS ... 30
3.2. FERRAMENTAS EDUCATIVAS ... 33
3.3. A EVOLUÇÃO DA WEB E A ACESSIBILIDADE ... 34
3.4. TÉCNICAS DE AVALIAÇÃO DE CHECKPOINTS DE ACESSIBILIDADE NA WEB 36 3.5. MONITORAMENTO DE ACESSIBILIDADE ... 39
3.6. COMPARAÇÕES ENTRE FERRAMENTAS ... 41
3.7. CONSIDERAÇÕES ... 46
4. METODOLOGIA DE PESQUISA ... 47
4.1. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO ... 48
4.2. ESCOLHA DA FERRAMENTA ... 49
4.3. PROCESSO E DEFINIÇÃO DAS AMOSTRAS PARA TESTES ... 50
4.3.1. PRIMEIRA AMOSTRA DE DADOS ... 51
4.4. VALIDAÇÃO DA HIPÓTESE DE PESQUISA ... 55
4.4.1. AVALIAÇÃO COM A PRIMEIRA AMOSTRA ... 55
4.4.2. AVALIAÇÕES COM A SEGUNDA AMOSTRA ... 58
4.4.2.1. QUESTIONÁRIO E CONTATO DIRETO ... 60
4.5. CONSIDERAÇÕES ... 61
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 62
5.1. RESULTADOS PRIMEIRA AMOSTRA ... 62
5.2. RESULTADOS SEGUNDA AMOSTRA ... 66
5.2.1. CONTATO DIRETO ... 68
5.2.1.1. WEBSITES CONTATADOS ... 69
5.2.1.2. WEBSITES NÃO CONTATADOS PRELIMINARMENTE ... 69
5.2.2. QUESTIONÁRIO ... 70
5.3. CONSIDERAÇÕES ... 77
6. CONCLUSÕES E TRABALHOS FUTUROS ... 78
REFERÊNCIAS ... 81
APÊNDICE A: Detalhamento do Processo de Revisão de Literatura ... 88
APÊNDICE B: Modelo de mensagem enviada aos responsáveis pelos websites ... 95
APÊNDICE C: Segunda amostra de dados ... 96
APÊNDICE D: Requisitos técnicos da ferramenta AChecker ... 114
APÊNDICE E: Amostra 2 separada em grupos para testes ... 115
APÊNDICE F: Processo de instalação de adaptação da ferramenta ... 125
APÊNDICE G: Funcionamento da ferramenta ... 148
APÊNDICE H: Questionário de acessibilidade ... 157
APÊNDICE I: Comparativo de falhas registradas nos experimentos ... 161
APÊNDICE J: Comparativo de falhas de acessibilidade ... 170
1.
INTRODUÇÃO
Acessibilidade é a possibilidade de todas as pessoas, independentemente de suas capacidades físico-motoras, perceptivas, culturais e sociais, usufruir dos benefícios de uma vida em sociedade; ou seja, é a possibilidade de participar de todas atividades, até as que incluem o uso de produtos, serviços e informação, com o mínimo possível de barreiras (Nicholl, 2001; NBR9050, 1994).
Barreiras de acessibilidade estão presentes em todos os contextos. Como exemplo, problemas encontrados nos ambientes físicos, em sua maioria, que estão ligados aos problemas arquitetônicos criando empecilhos para que todas as pessoas tenham acesso a lugares públicos com autonomia e segurança. Assim como os problemas físicos, existem as barreiras de acessibilidade tecnológicas. Um exemplo desse problema é a falta de disponibilidade de conteúdos para todos, independentemente de se possuir ou não alguma deficiência. Essa preocupação em projetar algo para todos é abordada pelo conceito de Design Universal. Segundo Story, Mueller e Mace (1998), através de Design Universal é possível projetar um produto ou um ambiente para atender a uma ampla gama de usuários, incluindo crianças, idosos, pessoas com deficiência e pessoas que sofreram lesões. O Design Universal versa sobre o projeto de algo para ser usável por todas as pessoas, respeitando a diversidade humana e promovendo a inclusão de todas as pessoas em todas as atividades da vida.
Como muitas atividades da sociedade contemporânea estão ligadas ao acesso à web, é de se esperar que os conceitos de Design Universal e de acessibilidade sejam aplicados a esse ambiente. Além de servir como meio de comunicação entre pessoas, o ambiente web promove também a autonomia para realização de serviços fundamentais do cotidiano, tais como o preenchimento de formulários, acesso a informações e notícias mundiais, entre outras atividades. Kirchner (2002) caracteriza a web como um importante meio de comunicação que promove a movimentação de informações rapidamente sem que as pessoas precisem se deslocar fisicamente. Considerando esses fatores, a falta de acessibilidade na web é, sem dúvida, uma importante barreira de acessibilidade.
Para Tanaka e Rocha (2011), especificamente para a web, a acessibilidade significa que as pessoas com deficiência possam percebê-la, compreendê-la, navegar por ela, interagir com ela e até mesmo contribuir com ela. Para Freire, Bittar e Fortes (2008), do ponto de vista técnico, a acessibilidade na web corresponde a tornar possível, a qualquer usuário, o entendimento e a
interação com um website, apesar de deficiências, diversidade de línguas ou restrições tecnológicas.
Ferreira, Chauvel e Ferreira (2007) afirmam que ao acessar uma página na web, um usuário com capacidade normal de visão usa um navegador web, que é um software que interpreta o código HTML e o exibe já formatado para o usuário. Já no acesso de uma pessoa com deficiência visual, a informação na Internet precisa ser complementada com uma tecnologia de apoio associada a outros programas, como por exemplo, os programas chamados de “sintetizadores de voz”.
Para contextualizar o tamanho do problema que se leva em conta ao se tratar acessibilidade, vale considerar o estudo de Oliveira (2012), em que há a indicação, segundo o Censo 20101, que no Brasil 23,9% (45,6 milhões de pessoas) da população possuía pelo menos uma das deficiências investigadas na pesquisa: visual, auditiva, motora e mental ou intelectual. Entre os estados brasileiros, a maior incidência da deficiência ocorreu nos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba, com taxas de 27,76% e 27,58%, respectivamente, bem acima da média nacional de 23,9%. As mais baixas ocorreram no Distrito Federal e no Estado de São Paulo, com 22,3% e 22,6%, respectivamente.
A metodologia da pesquisa do Censo 2010 considerou como deficientes aqueles que assinalaram como graus de severidade as opções “sim, grande dificuldade” ou “sim, não consegue de modo algum”. Segundo a mesma autora, a deficiência visual apresentou a maior ocorrência, contabilizando 18,6% dos entrevistados, sendo que 1,6% são totalmente cegas. Em segundo lugar está a deficiência motora, ocorrendo em 7% da população, contabilizando 1,62% que não consegue se locomover autonomamente. Em seguida, a deficiência auditiva, presente em 5,1% dos entrevistados e 1,4% apresentando deficiência mental ou intelectual. Em relação às regiões mais afetadas do país, a autora afirma que a região Nordeste teve a maior taxa de prevalência de pessoas com pelo menos uma das deficiências (26,3%), fazendo com que a
1 No Brasil a partir do Censo 2000, a metodologia de coleta de dados para o segmento
das pessoas com deficiência está de acordo com as orientações do Grupo de Washington sobre Estatísticas das Pessoas com Deficiência, que busca o conhecimento de todo o campo da deficiência e das barreiras que a sociedade impõe às pessoas com deficiência. No Censo de 2010 houve aprimoramentos que permitiram captar com maior precisão as características desse público (Oliveira, 2012).
autora concluísse que esses dados corroboram a tese de que a deficiência tem forte ligação com a pobreza.
Nesse aspecto social, criar páginas web acessíveis pode contribuir para romper barreiras de acesso a informação, facilitando a inclusão de uma parcela significativa da população e que possivelmente também enfrente restrições financeiras como um problema adicional.
É importante considerar que os benefícios de criar páginas acessíveis, segundo Luján-Mora, Navarrete e Peñafiel (2014), não são reconhecidos apenas pelos deficientes, mas também por usuários com limites de acesso e pessoas com deficiências temporárias. Isso ocorre, pois as especificações de acessibilidade tornam o website tecnicamente melhor desenvolvido, o que contribui para que o conteúdo seja melhor utilizado por todos. Completando esta ideia, Soares (2010) indica que a acessibilidade tem como princípio a flexibilidade para atender os variados tipos de necessidades, situações e preferências.
Tendo em vista os benefícios sociais e técnicos da adoção de aspectos de acessibilidade, deve-se questionar os motivos pelos quais, com frequência, esses aspectos não estão presentes nos websites. Profissionais especializados no desenvolvimento da web criam websites e garantem seu funcionamento ao longo das manutenções e do uso. Porém, a acessibilidade não é um assunto bem difundido entre os desenvolvedores. Isso é evidenciado nos estudos de Freire, Russo e Fortes (2008) que realizaram uma pesquisa exploratória por meio da aplicação de um questionário em que participaram desenvolvedores de plataformas web, resultando em 613 respostas válidas e envolveram os 27 estados do Brasil. Os resultados apontaram que somente 19,9% dos entrevistados consideram as regras de acessibilidade em seus websites, explicando o motivo de muitos websites ainda não contarem com funcionalidades adequadas para acesso a todos. Este problema pode estar relacionado à baixa abordagem do assunto durante o ensino ou à falta de sensibilidade para com as necessidades dos deficientes.
Há muitas formas para o desenvolvedor garantir que seu website seja acessível. Uma delas é o uso de ferramentas que validam algumas regras e auxiliam na identificação das falhas de acessibilidade considerando algumas recomendações específicas. A execução de testes usando as ferramentas colabora com os desenvolvedores e com especialistas em acessibilidade na identificação dos problemas, mas as regras de acessibilidade são consideradas de difícil entendimento por boa parte dos desenvolvedores visto que acessibilidade é algo que apenas especialistas que estão envolvidos, conseguem com eficácia encontrar defeitos e propor
soluções. Porém, Soares (2010) apresenta que esses testes normalmente são realizados apenas no término do desenvolvimento do projeto (fase de pré-publicação). No entanto, as alterações cotidianas e a inserção de conteúdos pelos usuários tendem a inserir falhas de acessibilidade no website que, se não forem novamente validadas com apoio das ferramentas, farão com que o website não mais respeite os padrões de acessibilidade.
1.1. OBJETIVOS
Considerando a importância da adoção de acessibilidade por websites, o objetivo geral deste trabalho é testar a hipótese de que a adoção de um processo contínuo de avaliação de acessibilidade de websites permite mantê-los acessíveis, apesar de manutenções e modificações feitas ao longo de sua existência.
O objetivo específico deste trabalho é definir um processo de avaliação contínua de acessibilidade e adaptá-lo a um software, habilitando-o a apoiar a melhoria da acessibilidade na web, servindo como uma ferramenta de auxílio aos desenvolvedores.
1.2. JUSTIFICATIVAS
Um possível motivo para a falta de acessibilidade dos websites é que os testes que identificam as falhas de acessibilidade são aplicados apenas por ocasião da conclusão do desenvolvimento do projeto. As manutenções evolutivas do website podem incluir novas falhas de acessibilidade e uma nova avaliação deve ser feita de forma constante para garantir que a acessibilidade continue atendendo os padrões exigidos.
Nesse sentido, muitos websites considerados acessíveis podem apresentar problemas caso sejam submetidos a novos testes de acessibilidade. É o caso estudado por Soares (2010), que avaliou a acessibilidade de 56 websites brasileiros de organizações públicas federais. Os websites escolhidos estavam listados no diretório nacional de acessibilidade do avaliador DaSilva (Acessibilidade Brasil, 2009), e possuíam um selo indicando o nível de acessibilidade atingido. Portanto, foram considerados acessíveis em alguma etapa do seu ciclo de desenvolvimento. Após análise, Soares (2010) concluiu que apenas 20% desses websites eram efetivamente acessíveis por ocasião da avaliação. Em relação aos 80% inacessíveis, o autor afirmou que os problemas foram inseridos nas manutenções evolutivas do website, as quais não passaram pela avaliação da acessibilidade. Assim, o autor considerou que as técnicas de acessibilidade não foram de fato incluídas no processo de criação e/ou manutenção de websites,
e aponta que ainda é necessário investir na capacitação e conscientização de gestores e desenvolvedores sobre a importância da acessibilidade. O autor descreve (Soares, 2010, p.4):
“O problema é que o selo em si não garante o acesso universal, pois a acessibilização (sic) deve sempre ser um processo contínuo e ininterrupto. Toda alteração no site deve ser feita cuidadosamente de modo a preservar o nível de acessibilidade já alcançado. A simples preocupação com acessibilidade no momento da confecção ou da reforma (redesign) de um site não garante sua manutenção durante as atualizações. Uma vez definidas a forma e a função do site, deve-se promover uma verificação constante e continuada de sua acessibilidade para evitar que modificações em seu conteúdo ou estrutura comprometam o projeto acessível inicial. ” (Soares, 2010, p.4).
Além de Soares (2010), Ferreira, Chauvel e Ferreira (2007) também indicaram que há dificuldade de manter um website, em constante atualização, acessível. Baseado na evidência apresentada nos trabalhos desses dois autores, surgiu a preocupação de se identificar os problemas de acessibilidade inseridos na manutenção de websites. Dessa forma, a motivação para esta pesquisa de mestrado foi a necessidade de se acompanhar a acessibilidade de um website durante as manutenções.
Além disso, este trabalho se justifica por beneficiar dois principais cenários. No primeiro, encontram-se os desenvolvedores de aplicações web e de websites, que conseguirão elaborar testes de acessibilidade contínuos em seus códigos mesmo não sendo especialistas em acessibilidade. O segundo cenário está relacionado a todos os usuários que acessam os websites, inclusive os usuários com deficiências que utilizam leitores de tela para ter acesso às informações com autonomia.
Vale notar que o uso de ferramentas automáticas não garante a alta cobertura das falhas de acessibilidade. Isso é evidenciado por Tanaka e Rocha (2011), que consideraram que essas ferramentas são necessárias para o auxílio na descoberta de problemas de acessibilidade, pois muitas recomendações não são atendidas automaticamente. Considerando isso, as ferramentas automáticas podem ser usadas como incentivo para os desenvolvedores entenderem as questões de acessibilidade, mas a cobertura completa dos aspectos de acessibilidade só pode ser alcançada com auxílio de especialistas.
Por fim, ainda com relação às justificativas deste trabalho, é importante considerar que ferramentas de testes usadas para monitorar a acessibilidade de websites foram alvo de estudo em alguns trabalhos (Abou-Zahra, 2006; Bühler et al.,2008 e Fong e Meng., 2009). Porém, de acordo com a revisão da literatura realizada no âmbito deste estudo, não foi encontrado nenhum
trabalho que definisse um processo de avaliação contínua, bem como nenhuma ferramenta que faça a avaliação contínua de acessibilidade de forma automática para garantir a melhoria da acessibilidade de websites.
1.3. CONTRIBUIÇÕES TÉCNICAS E SOCIAIS
As contribuições técnicas deste trabalho säo:
• a definição de um processo de avaliação contínua de acessibilidade;
• a adaptação de uma ferramenta open source de avaliação de acessibilidade;
• a apresentação de experimentos, cujos resultados permitem um entendimento da questão da acessibilidade em organizações publicas do território nacional.
Outras contribuições encontram-se no meio social, podendo citar:
• melhoria na qualidade do acesso aos websites por todos os usuários, incluindo aqueles com deficiências permanentes ou temporárias;
• a apresentação de evidências de que treinamentos sobre acessibilidade na formação de profissionais de computação são essenciais.
1.4. ESTRUTURA DO TRABALHO
Este trabalho está organizado em 6 capítulos, sendo este Capítulo 1 uma introdução sobre o tema do trabalho. O Capítulo 2 é dedicado à apresentação do Referencial Teórico, seguida pelos Trabalhos Relacionados, apresentados no Capítulo 3. A Metodologia de Pesquisa encontra-se detalhada no Capítulo 4. O Capítulo 5 apresenta e discute os resultados da execução dos experimentos descritos na metodologia de pesquisa. Nossas conclusões e trabalhos futuros são colocadas no Capítulo 6. Há vários apêndices que complementam o conteúdo dessa dissertação.
2.
REFERENCIAL TEÓRICO
Este capítulo é dedicado aos assuntos que auxiliam o embasamento da pesquisa. A Seção 2.1 é dedicada às questões que envolvem a definição do termo deficiência; na Seção 2.2 discorre-se sobre os aspectos da acessibilidade e a Seção 2.3 define a acessibilidade na web. Aspectos de RIA (Rich Internet Applications), que são páginas com elementos que adicionam ao website algumas características dinâmicas, são abordados na Seção 2.4. Seguindo para a definição das recomendações de acessibilidade WCAG na Seção 2.5 e as recomendações e-MAG na Seção 2.6. As recomendações específicas para cada região são apresentadas na Seção 2.7. A Seção 2.8 sumariza os assuntos do capítulo.
2.1. DEFICIÊNCIA
Em relação ao uso do termo deficiência, Sassaki (2005) discutiu sobre qual é o termo correto - portador de deficiência, pessoa portadora de deficiência ou portador de necessidades especiais. Segundo o autor, não há um termo único, pois os termos são utilizados de acordo com os valores vigentes em cada época da sociedade, que evolui em seu relacionamento com as pessoas com algum tipo de deficiência.
O autor destacou que, no começo da história, usava-se o termo “os inválidos” e “os incapacitados”. Já de 1960 a 1980 surgiram três termos que focalizaram o tipo de deficiência (mental, física, entre outras) que foram: os defeituosos, os deficientes e os excepcionais. Entre 1981 a 1987 foi usado o termo “pessoas deficientes”. Em 2002, surge o termo “portadores de direitos especiais”, também referenciado pela sigla PoDE (que não teve valor para adoção).
Desde 1990 até hoje os movimentos mundiais definiram que o termo a ser usado seria “pessoas com deficiências”, termo adotado neste trabalho. Segundo Sassaki (2005), há sete princípios para o uso deste termo, dentre eles: não esconder ou camuflar as deficiências, mostrar a realidade e combater o neologismo que tenta diluir as deficiências. O autor conclui que a tendência é não usar o termo “portadores de deficiências”, visto que portar algo significa que o indivíduo pode passar a não portar, e isso não ocorre nos casos de deficiências, a menos que elas sejam temporárias.
2.2. ACESSIBILIDADE
Segundo a NBR 9050 (2015), a acessibilidade é a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para que todos possam utilizar com segurança e autonomia as edificações, os espaços, os mobiliários, os equipamentos urbanos e os elementos em geral. Completando essa ideia, a NBR 9050 (2015) definiu que acessível é todo espaço, edificação, mobiliário, equipamento urbano ou elemento que possa ser alcançado, acionado, utilizado e vivenciado por qualquer pessoa, inclusive aquelas com mobilidade reduzida. O termo acessível implica tanto acessibilidade física como de comunicação.
Segundo Bach et al. (2009), no Brasil, a acessibilidade só começou a fazer parte das políticas públicas a partir do ano 2000, com a promulgação das Leis Federais nº 10.048 e nº 10.098. A Lei nº 10.048, de 8 de novembro de 2000, trata do atendimento prioritário à acessibilidade das pessoas com deficiência aos meios de transporte e a outros serviços comunitários. Já a Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade às pessoas com deficiência. As duas Leis Federais foram regulamentadas em dezembro de 2004 com o Decreto nº 5.296. Dentre várias características da acessibilidade que são regulamentadas neste decreto, o Art. 47 define a obrigatoriedade da acessibilidade nos websites de administração pública para o uso das pessoas com deficiências, garantindo-lhes o pleno acesso às informações disponíveis.
2.3. ACESSIBILIDADE NA WEB
Segundo Cunningham (2012), acessibilidade na web se refere à disponibilidade, para todos os usuários, dos seus dados e funções, independentemente das dificuldades que esses usuários possam ter. Em suma, ninguém deve ser excluído do uso de um website por ter a necessidade de acesso à web de uma maneira diferente. Segundo a autora, algumas pessoas podem ter que usar um leitor de tela, por meio do qual o conteúdo de um website é lido. Outros podem contar com as legendas e transcrições para conteúdo de áudio. Além disso, algumas pessoas podem não ser capazes de usar um mouse, ou podem necessitar de um dispositivo adaptável que funciona apenas através do mouse. Há também os usuários que precisam substituir o estilo de um website, para torná-lo mais legível.
“A acessibilidade digital refere-se ao acesso aos recursos computacionais. A acessibilidade na web é a característica de permitir o acesso às informações e/ou serviços, em igualdade de condições, a qualquer hora, local, ambiente, dispositivo de acesso e por qualquer tipo de visitante, independentemente de sua capacidade motora, visual, auditiva, mental, computacional, cultural ou social. ” (Soares, 2010, p.5).
Bach et al. (2009) afirmaram que a expansão da Internet e a divulgação de informações e serviços do Governo na Internet, alinhados à atribuição do Governo de promover a inclusão social, influenciaram a decisão de se exigir que os websites do governo sejam acessíveis a toda população. Essa exigência contribui fortemente para a inclusão digital e social dos cidadãos.
Segundo Cunningham (2012), os principais beneficiados com a acessibilidade web são as pessoas com problemas de visão, audição ou limitações físicas. Essas pessoas conseguirão ter acesso a websites mesmo que eles possuam conteúdos complexos como tabelas e menus dinâmicos. No entanto, um website que é acessível para os deficientes, muitas vezes, torna-se mais fácil de se usar, sejam seus usuários deficientes ou não.
Além disso, a autora destacou que algumas pessoas passam por deficiências temporárias, como por exemplo, quando se quebra o braço e tem-se dificuldade em usar o
mouse. Outro exemplo ocorre quando um usuário do website esquece seus óculos e precisa que
as fontes da página sejam ampliadas. Assim, a autora pontuou que todos podem se beneficiar com a acessibilidade. Considerando isso, a acessibilidade deve ser incluída no processo de desenvolvimento das páginas para que elas sejam significantemente melhor desenvolvidas, o que reflete em um possível melhor acesso para todos os usuários.
Atualmente, páginas bem desenvolvidas contam com diversas tecnologias que auxiliam na criação de páginas dinâmicas de conteúdo. Essas tecnologias são chamadas de RIA (Rich
Internet Applications) e serão descritas na seção seguinte.
2.4. RIA – RICH INTERNET APPLICATIONS
Além da evolução das recomendações de acessibilidade, os elementos que compõem uma página web passaram a contar com tecnologias que auxiliam na interatividade das páginas e na dinâmica dos conteúdos. Estas tecnologias, tais como CSS, Flash, XHTML, XML e Javascript, são consideradas RIA (Rich Internet Applications) e adicionam ao website algumas características dinâmicas, permitindo que algumas ações do usuário na página façam com que o conteúdo do website se altere.
Abu Doush et al. (2013) afirmaram que, normalmente, as ferramentas automáticas de avaliação verificam apenas páginas estáticas e que, atualmente, há uma crescente necessidade para verificar a acessibilidade dos conteúdos dinâmicos também de forma automática.
A avaliação da acessibilidade para os conteúdos dinâmicos, segundo o W3C (2014), pode se apoiar nas recomendações WAI-ARIA (Accessible Rich Internet Applications). W3C (2008) afirma ainda que, com estas recomendações, os desenvolvedores podem criar aplicações web avançadas de forma acessível e utilizável por pessoas com deficiências. Efetivamente, as recomendações estabelecidas no WAI-ARIA buscam entender o significado das interações de um website. Para isso, essas recomendações ajudam muito em aplicações nas quais a informação é disponibilizada em partes, ou ainda naquelas em que parte da informação está condicionada a uma ação do usuário (por exemplo, um clique).
Para verificar a acessibilidade na web, além da recomendação WAI-ARIA, é possível usar outras recomendações de acessibilidade; essas recomendações estão descritas nas próximas seções.
2.5. WCAG
Entre as organizações e grupos de pesquisa que promovem a acessibilidade na web está o WAI (Web Accessibility Initiative), responsável pela formação das diretrizes de acessibilidade WCAG (Web Content Accessibility Guidelines). Esse grupo faz parte do grupo de pesquisa do W3C que foi fundado em 1994 e, segundo Flor (2009), é composto por diferentes organizações espalhadas pelo mundo. A autora explica que os membros da W3C trabalham em conjunto para desenvolverem tecnologias para a web, considerando sua universalidade, de forma que o mundo tenha a possibilidade de estabelecer comunicações e relações comerciais com outras pessoas, de qualquer website, a qualquer momento e a partir de diferentes dispositivos.
Em maio de 1999 foi publicado um conjunto de recomendações, a WCAG 1.0 (Web
Content Accessibility Guidelines). Em 2008, o W3C atualizou essas recomendações com a
criação da WCAG 2.0, cuja finalidade é tornar o conteúdo da web mais acessível. Sendo assim, é recomendado que as políticas de acessibilidade na web referenciem a WCAG 2.0.
Alguns autores (Tanaka e Rocha, 2011; Mbipom e Harper, 2009; Reid e Snow-Weaver, 2008) concordaram que as recomendações WCAG 1.0 possuíam alguns problemas, entre eles, a baixa cobertura dos pontos de acessibilidade quando executadas de forma automática. Reid e
Snow-Weaver (2008) descreveram alguns problemas encontrados nas WCAG 1.0 e dentre eles destacaram que algumas regras das WCAG 1.0 eram subjetivas, o que dificultava o entendimento de suas recomendações.
Aizpurua et al. (2009) afirmaram que o grupo WAI desenvolveu a versão WCAG 2.0 com o intuito de superar algumas das limitações das WCAG 1.0. Além disso, a versão 2.0 também atende às novas tecnologias que compõem a web, é mais compreensível e facilita os testes automáticos. O W3C iniciou o desenvolvimento das WCAG 2.0 em 2000 e finalizou em 2008. O principal objetivo desta nova versão era descrever os requisitos de acessibilidade em diversas linguagens (por exemplo, CSS, SVG, XML e PDF). As recomendações da WCAG 2.0, segundo o W3C (2008), possuem camadas de orientação, incluindo princípios globais, diretrizes gerais, critérios de sucesso testáveis, além de um rico conjunto de técnicas sugeridas, bem como falhas comuns documentadas com exemplos.
Em relação à organização, assim como as WCAG 1.0, a nova versão é organizada em três níveis chamados A, AA e AAA. O nível A inclui recomendações que são essenciais para a acessibilidade. O nível AA inclui recomendações que removem barreiras significantes de acessibilidade e o nível AAA inclui recomendações que, se satisfeitas, melhorarão a acessibilidade do projeto avaliado.
A transição das recomendações também influenciou as ferramentas de avaliação automáticas. Aizpurua et al. (2009) pesquisaram sobre a possibilidade da reutilização das ferramentas existentes a fim de fazer a sua transição das WCAG 1.0 para WCAG 2.0 de uma maneira fácil. O estudo enfatizou a importância de uma ferramenta de avaliação de acessibilidade ser flexível, pois, dessa forma, a possibilidade de aproveitamento de ferramentas existentes na avaliação de diversas recomendações é maior. Para uma prova de conceito foi selecionado um framework de avaliação flexível, a EvalAccess, desenvolvida por Vanderdonckt (1999), capaz de avaliar diferentes conjuntos de diretrizes. Em seguida, os autores registraram o comportamento do framework no processo de transição das regras. Segundo os resultados, foi considerado que o framework pode ser utilizado para a transição das WCAG 1.0 para WCAG 2.0, uma vez que quase 55% dos testes automáticos e apenas 16% dos testes semiautomáticos, que estavam anteriormente identificados, puderam ser redefinidos.
Em relação à cobertura dos testes, quando as recomendações são submetidas a ferramentas automáticas, Mayumi et al. (2011) afirmam que menos de 25% das recomendações
WCAG 1.0 podem ser verificadas automaticamente, o que faz com que a verificação humana seja necessária. Já Vigo, Brown e Conway (2013) indicaram que as recomendações WCAG 2.0 cobrem 53% dos problemas de acessibilidade quando testados por ferramentas automáticas. Embora tenha um percentual maior, a versão atual dessas recomendações também não apresenta uma boa cobertura quando testadas por ferramentas automáticas, como acontece quando analisadas por especialistas de acessibilidade.
W3C (2008) definiu ainda que os princípios que constituem a base da acessibilidade na web são relacionados a prover conteúdo perceptível, operável, compreensível e robusto. Há 12 recomendações que compõem, em conjunto, os quatro princípios citados. Para cada recomendação há alguns critérios de sucesso associados, que descrevem como a recomendação deve ser atendida. Cada critério de sucesso é escrito como uma declaração que é considerada verdadeira ou falsa durante o teste do conteúdo. Alguns dos critérios podem ser testados automaticamente, usando software de validação, enquanto outros exigem uma análise de especialista para que o teste seja completo.
2.6. e-MAG
Tangarife e Mont’Alvão (2005) relataram que o modelo de acessibilidade do governo eletrônico para o governo brasileiro (e-MAG) foi criado pelo Departamento de Governo Eletrônico em parceria com a ONG Acessibilidade Brasil para atender ao Decreto 5296/2004 que regulamenta a Lei 10.048/2000 e 10.098/2000. O objetivo das recomendações estabelecidas no e-MAG é a acessibilidade adequar-se à realidade do Brasil. Com este modelo, surgiu também a cartilha técnica que sugere o que deve ser feito nas páginas para que sejam acessíveis.
Segundo o documento oficial, o e-MAG encontra-se na versão 3.0. Essa versão foi embasada na versão anterior, apoiando-se na WCAG 2.0, tendo sido lançada em dezembro de 2008 considerando as novas pesquisas na área de acessibilidade web. Apesar de usar a WCAG como referência, o e-MAG 3.0 foi desenvolvido para as necessidades locais, visando atender as prioridades brasileiras e mantendo-se alinhado ao que existe de mais atual neste segmento.
A versão 3.0 do e-MAG é apresentada em apenas um documento, não havendo separação entre visão técnica e visão do cidadão. Nesta versão não há definição dos níveis de prioridade A, AA e AAA, visto que o padrão é voltado às páginas do Governo, não sendo permitido exceções com relação ao cumprimento das recomendações. Além disso, no e-MAG 3.0 foi incluída a seção chamada “Padronização de acessibilidade nas páginas do governo
federal”, com o intuito de padronizar elementos de acessibilidade que devem existir em todos os websites e portais do governo.
Mesmo com o prazo de até doze meses a contar da data de publicação do Decreto nº 5.296, grande parte dos websites governamentais ainda não atendem a aspectos de acessibilidade. Isso é evidenciado na pesquisa de Freire, Russo e Fortes (2008), que apontaram que poucos websites governamentais dos municípios brasileiros foram encontrados em condições favoráveis a atender acessos por deficientes.
2.7. RECOMENDAÇÕES ESPECÍFICAS
Assim como as recomendações estabelecidas para o Brasil no e-MAG, existem outras recomendações adaptadas para cada localidade. Nos Estados Unidos as recomendações específicas são reunidas na Section 5082. Essas recomendações surgiram em 1998 e desde então todos os websites criados para o governo dos Estados Unidos têm obrigatoriedade de serem acessíveis. A Section 508 tem o intuito de incluir qualquer pessoa com deficiência, mas seu foco principal não é atender apenas pessoas com deficiências visuais, auditivas, mas também aquelas com deficiências físicas (Cunningham, 2012).
Segundo Flor (2009), um outro modelo com recomendações de acessibilidade é o
PAS-78 (Publicy Available Specification), desenvolvido no Reino Unido por meio da colaboração
de algumas instituições, como o BSI (British Standards Institution), Human Ability and
Accessibility Center – IBM, a ONG Abilitynet e o RNIB (Royal National Institute of the Blind).
Segundo Cunningham (2012), além de apresentar características de pessoas com algum tipo de deficiência, esse modelo estabelece políticas de acessibilidade para a web, também partindo das orientações da WCAG 2.0.
Há também as recomendações BITV (Barrier-free Information Technologies Act), criadas na Alemanha, mas baseadas nas recomendações WCAG 2.0. Segundo Flor (2009), as recomendações BITV são pontuais na identificação de problemas, assinalando exatamente o que deve ser modificado e demonstrando técnicas aplicáveis à resolução desses problemas, tal como o WCAG.
Na Itália, a Lei Federal Nº 9, de Janeiro de 2014, protege o direito de cada pessoa para acessar todas as fontes de informação e serviços independentes de deficiência. Essa Lei também é conhecida por Stanca Act, como homenagem ao Ministro de Tecnologia, Lucio Stanca, que auxiliou no desenvolvimento da Lei. Como definição, a Lei esclarece e amplia os direitos das pessoas com deficiência para acessar os serviços públicos através da Internet, de acordo com os princípios de igualdade estabelecidas no Artigo 3 da Constituição italiana. A Stanca Act se aplica a todas as organizações ligadas direta ou indiretamente ao setor público (SSB_BART, 2015).
Na França, a Lei Federal Nº 102 de 2005 indica que há direitos e oportunidades iguais para todas as pessoas. Especificamente, o Artigo 47 foi adicionado a essa Lei em 1 de fevereiro de 2005 para garantir, às pessoas com deficiências, os direitos na participação e cidadania. Esse artigo destina-se aos serviços de comunicação pública e serviços on-line do Estado, autoridades locais e instituições.
2.8. CONSIDERAÇÕES
Este capítulo apresentou trabalhos que contextualizam a acessibilidade e apresentam conceitos e técnicas diretamente relacionados ao assunto. As definições para o termo acessibilidade e seus aspectos foram apresentadas, seguindo para a definição da acessibilidade no ambiente web. Uma abordagem conceitual foi feita para as páginas da web que possuem elementos dinâmicos. Além disso, o capítulo abordou a definição das recomendações WCAG, e-MAG e também as recomendações específicas de alguns países. O próximo capítulo será dedicado a expor os trabalhos relacionados que compõem o tema e auxiliam na formulação da pesquisa.
3.
TRABALHOS RELACIONADOS
A atual literatura apresenta diversos trabalhos relacionados ao estudo da acessibilidade de websites, incluindo entre eles alguns autores que estudaram técnicas e ferramentas para avaliação de websites e técnicas flexíveis de avaliação, tanto dos tipos de deficiências quando das recomendações que conduzem a avaliação da acessibilidade. Além disso, alguns autores se preocuparam com o ciclo de vida de um website e citam a necessidade de os testes de acessibilidade serem inseridos em todas as etapas de desenvolvimento.
Neste capítulo, a Seção 3.1 reúne trabalhos que analisam as estatísticas de websites acessíveis perante as recomendações regionais ou globais de acessibilidade web. A Seção 3.2 apresenta ferramentas educativas criadas a parir da preocupação em propagar o ensino da acessibilidade. A Seção 3.3 apresenta a evolução da web em relação a acessibilidade. A Seção 3.4 reúne as principais técnicas de avaliação e checkpoints de acessibilidade em websites. A Seção 3.5 apresenta trabalhos que relatam a necessidade do monitoramento de acessibilidade em websites e a Seção 3.6 apresenta ferramentas disponíveis para avaliação de acessibilidade em websites e compara suas principais características. A Seção 3.7 sumariza os assuntos do capítulo.
3.1. ANÁLISE ESTATÍSTICA DE WEBSITES ACESSÍVEIS
Alguns estudos buscaram mensurar os websites que atendem as recomendações de acessibilidade web, sejam elas regionais ou globais. Em uma análise geral, sem especificação de um nicho de website, Santana e Paula (2013) fizeram testes de acessibilidade em duas amostras de websites: uma com a seleção de 1000 websites obtidos através de um website3 que
apresenta um ranking de websites de acordo com sua popularidade, e outra amostra com a seleção de 1000 websites escolhidos de forma aleatória. Para os testes foram considerados a ferramenta automática Selenium IDE (2013), instalada como um plugin no Mozilla Firefox versão 17, e a ferramenta AChecker (2011), ambas considerando as WCAG 2.0 no nível de conformidade A (mínimo). Da amostra de websites aleatórios avaliados, 14,89% (cerca de 148 websites) são considerados acessíveis; já na amostra com websites populares, apenas 4,34% (cerca de 43 websites) são considerados acessíveis. Comparando os resultados, os autores acreditam na hipótese de que há mais não conformidades de acessibilidade nos websites
populares, pois eles possuem conteúdos dinâmicos e a constante mudança pode aumentar os problemas de acessibilidade.
Especificando um nicho de conteúdo do website, alguns autores estudaram a conformidade da acessibilidade em websites com conteúdo público, visto que websites governamentais devem, por lei, serem desenvolvidos de acordo com as regras de acessibilidade. Ferreira, Chauvel e Ferreira (2007) realizaram um estudo sobre a acessibilidade na Web de organizações públicas ou de interesse público do Brasil. Os estudos buscaram avaliar o processo de acessibilidade dos websites das organizações afetadas pelo Decreto nº 5.296/ 2004 e verificar o grau de aderência dessas organizações às diretrizes de acessibilidade. Para a análise, foi projetado um software para percorrer a Internet e avaliar a conformidade dos websites com as diretrizes de acessibilidade. Os testes foram conduzidos por três vezes para verificar a adequação às diretrizes de acessibilidade do W3C (WCAG) e do governo brasileiro (e-MAG). Mesmo após 4 meses da determinação do Decreto, apenas 22 websites dos 351 websites avaliados estavam em conformidade. Os autores perceberam que houve uma diminuição no número de websites em conformidade com as diretrizes de acessibilidade, o que pode ser creditado à dificuldade de manter um website ao mesmo tempo acessível e em constante atualização.
Freire, Bittar e Fortes (2008) realizaram um levantamento dos websites dos municípios brasileiros para submetê-los a um conjunto de métricas selecionadas pelos autores. Para realizar o rastreamento dos websites, os autores contaram com a ferramenta E-GOVmeter (2005). A avaliação considerou a página inicial e as páginas secundárias do website (páginas que estão ligadas por hiperlinks), sendo que 26.250 páginas foram avaliadas em todo o processo. Dos 5.551 municípios brasileiros, apenas 1.980 possuíam serviços públicos em websites (37,67%). Foram realizados dois estudos de caso com a avaliação de ambientes web de governos estaduais e municipais com base nessas métricas. As métricas usadas na pesquisa foram obtidas pelos recursos automáticos da ferramenta Hera e a recomendação de acessibilidade WCAG 1.0 foram considerados na avaliação automática. Os resultados apresentaram dados interessantes sobre a acessibilidade nos ambientes avaliados, bem como apontaram a falta do cumprimento das determinações da legislação brasileira para acessibilidade. Além disso, esses estudos de caso também foram importantes para verificar a eficácia do uso de métricas para avaliação de grandes quantidades de dados. Os autores consideraram que ainda há muito a ser feito pela acessibilidade dos websites dos municípios brasileiros, uma vez que poucos websites foram encontrados em condições favoráveis a atender acessos por deficientes.
Assim como o Brasil, outros países também possuem baixos índices de uso da acessibilidade no desenvolvimento dos portais governamentais. Shah e Shakya (2007) apresentaram a avaliação de 27 websites governamentais do Nepal. A avaliação foi feita utilizando a ferramenta Bobby (2015), que é baseada nas recomendações da WCAG 1.0. Os autores concluíram que o Nepal ainda precisa se preocupar muito com a acessibilidade, pois, no ano da pesquisa (2006), o número de websites em conformidade com as recomendações foi tido como muito baixo (apenas 11,1%).
Luján-Mora, Navarrete e Peñafiel (2014) também abordaram a falta de acessibilidade nos websites governamentais e indicam que nem sempre estes websites estão prontos para prover serviços às pessoas com deficiência. Esses autores avaliaram a acessibilidade de um grupo de websites de governo eletrônico de todos os países da América do Sul e Espanha. Três websites oficiais de cada país foram analisados: o Governo, o Parlamento e os websites do Senado. A avaliação foi realizada usando cinco ferramentas automáticas de avaliação (AChecker (Inclusive Design Institute, 2011); eXaminator (Benavídez, 2005); TAW (CTIC, 2015); Total Validator (2015) e WAVE (WebAIM, 2001)). Com base nos resultados obtidos, observou-se que todos os websites avaliados apresentaram algum problema de acessibilidade. O pior resultado foi encontrado nos websites dos Parlamentos da Argentina e da Venezuela. Os melhores resultados encontrados foram no Parlamento Brasileiro e no Governo da Guiana.
Al-Soud e Nakata (2010) avaliaram, em termos de acessibilidade, usabilidade, transparência e agilidade, 30 websites governamentais da Jordânia. O foco das avaliações foram as requisições dos cidadãos. A amostra de websites selecionados foi composta por vinte e três ministérios (todos os ministérios na Jordânia que têm websites on-line), o website oficial do governo eletrônico4 e seis instituições governamentais e departamentos. Para a pesquisa, os autores fizeram uma combinação de métodos (automáticos e manuais) que foram divididos em: teste de acessibilidade automática usando a ferramenta SortSite 3.0 (POWERMAPPER SOFTWARE, 2007) com as recomendações WCAG 1.0; testes manuais de usabilidade e transparência e testes manuais de requisições de informações públicas por e-mail. Como resultado, os autores concluíram que a maioria dos websites ainda está nos primeiros estágios de desenvolvimento da acessibilidade. Os testes de usabilidade e transparência revelaram pouca preocupação dos websites com as expectativas e necessidades dos cidadãos, pela ausência de vários recursos que facilitam o processo de interação dos usuários. Constatada a baixa adesão
às regras de acessibilidade em websites, uma provável justificativa estaria relacionada à falta de preparo dos envolvidos no projeto.
Freire, Russo e Fortes (2008), como apontado na introdução, realizaram uma pesquisa exploratória através da aplicação de um questionário que resultou em 613 respostas válidas e envolveu os 27 estados do Brasil. Os resultados apontam que somente 19,9% dos entrevistados consideram as regras de acessibilidade em seus projetos. Para justificar a baixa adesão às técnicas de acessibilidade no desenvolvimento de projetos no Brasil, os autores indicaram falta de preparo e falta de informações dos desenvolvedores e de todos os envolvidos na criação de um website, desde as etapas de concepção da ideia até as etapas de testes. Esta justificativa também está presente nos estudos de Santana e Paula (2013), que concluíram que há entre 85% a 95% de websites com problemas de acessibilidade e indicaram que as equipes de desenvolvimento não estão preparadas para questões de acessibilidade. Considerando a observação desses autores, investigou-se ferramentas educativas que possam apoiar o processo de aprendizagem com foco na acessibilidade, o que é assunto da próxima seção.
3.2. FERRAMENTAS EDUCATIVAS
Alguns autores buscaram desenvolver ferramentas educativas para auxiliar no processo de ensino, visto que durante a formação dos profissionais há pouca propagação da importância do uso das regras de acessibilidade em websites. Al-Khalifa e Al-Khalifa (2011) criaram uma ferramenta de ensino que ajuda os instrutores a produzir exemplos modulares de páginas com problemas de acessibilidade para avaliação de estudantes. A ferramenta, chamada AEG (Accessibility Example Generator), cria páginas web inserindo alguns problemas baseados em falhas comuns indicadas nas recomendações WCAG 2.0. Com o uso desta ferramenta, é possível que os estudantes adquiram experiência com a correção de problemas de acessibilidade semelhantes aos que podem ocorrer na atuação profissional.
Também para auxiliar os estudantes, Bailey e Pearson (2010) relataram o desenvolvimento de uma ferramenta de controle e administração de conhecimento sobre acessibilidade chamada AEA (Accessibility Evaluation Assistant). Esta ferramenta ajuda os estudantes nas interpretações dos problemas indicados no guia de acessibilidade (WCAG) criado pelo W3C. O intuito é que, mesmo sem contato direto com profissionais experientes ou contato com pessoas com limitações de acessibilidade, os estudantes consigam entender os requisitos estabelecidos nas recomendações de acessibilidade durante a avaliação. A grande
vantagem da ferramenta desenvolvida pelos autores é a possibilidade de simular um público alvo para a avaliação, definindo o tipo de deficiência a ser avaliada. Este estudo também enfatizou a baixa propagação da importância da acessibilidade no meio estudantil, resultando em poucos profissionais preparados para o desenvolvimento de páginas acessíveis para a web. Após o estudo da criação desta ferramenta, Bailey e Pearson (2011) submeteram a AEA a testes com 38 estudantes de um curso de ciência da computação, para verificar se o método utilizado é adequado e se há eficácia da ferramenta para apoiar o aprendizado. Com os resultados, os autores reforçaram a hipótese de que há problemas de acessibilidade nos websites por falta de conhecimento, pois poucos desenvolvedores demonstraram experiência suficiente para entender a importância da acessibilidade e de refletir as recomendações nos websites. Uma provável solução proposta pelos autores é fazer com que estudantes entendam os problemas vivenciando o mundo real e suas diversidades.
A partir dos pontos indicados, considera-se que as ferramentas de avaliação da acessibilidade precisam indicar as possíveis formas para resolver a falha de acessibilidade encontrada, visto que quem submete o website aos testes nem sempre tem conhecimentos suficientes para entender e corrigir a falha.
A próxima seção discute a evolução da web que, atualmente, habilita usuários a inserir conteúdos nos websites sob sua responsabilidade, o que pode comprometer a acessibilidade originalmente adquirida. Além disso, a próxima seção destaca que a evolução da web pode refletir na evolução das ferramentas de avaliação de acessibilidade.
3.3. A EVOLUÇÃO DA WEB E A ACESSIBILIDADE
A evolução das recomendações WCAG está relacionada à evolução dos usuários da web, que passaram a ser ativos no desenvolvimento de conteúdos. Este assunto foi abordado por Moreno, Martinez e Ruiz (2008), que discutiram a relação da evolução das recomendações WCAG 1.0 para as WCAG 2.0 para acomodar a evolução dos usuários e da web. Esta evolução refere-se ao fato de usuários utilizaram editores e CMS (Content Management Systems), que são ferramentas para criar e manter conteúdos na web através de leiautes práticos e intuitivos. A partir disso, os problemas de acessibilidade deixaram de ser inseridos apenas pelos desenvolvedores. Os autores destacaram que uma solução para controlar a inserção de problemas de acessibilidade pelos usuários foi controlar as ações durante a edição de conteúdo. Para isso, foi necessário criar alguns modelos associados a templates a serem usados nos
editores. Assim, o conteúdo sempre será criado seguindo uma estrutura semântica de acordo com as recomendações WCAG. Os autores destacaram o desenvolvimento da solução para a necessidade de manutenção de conteúdos acessíveis durante todo o ciclo de vida de um website ou aplicação.
Algumas ferramentas de avaliação de acessibilidade evoluíram para ser flexíveis, possibilitando uma avaliação personalizada para cada tipo de deficiência. Essa preocupação foi apresentada no estudo de Bailey e Pearson (2011) e também foi considerada uma característica relevante para o trabalho de Oikonomou, Kaklanis e Votis (2011). Estes apresentaram uma metodologia de avaliação de acessibilidade baseada nas WCAG 2.0 que permitiu a seleção de perfis de deficiência e também o tipo de dispositivo e tecnologia que acessará o conteúdo. Segundo os autores, as ferramentas já existentes não são flexíveis para avaliar recomendações específicas para cada deficiência, o que justificaria o estudo.
Leporini, Paternò e Scorcia (2006) discutiram a flexibilidade das ferramentas para a configuração de recomendações diferentes na avaliação. Segundo os autores, as ferramentas não apresentaram flexibilidade na avaliação em relação às recomendações, que podem ser internacionais ou locais. A ferramenta proposta pelos autores foi chamada de MAGENTA (Multi-Analysis of Guidelines by an ENhanced Tool for Accessibility) e foi criada para ajudar os desenvolvedores na manipulação de páginas. Em relação ao funcionamento, a ferramenta recebe as instruções das recomendações reescritas em linguagem baseada em XML e, então, passa a acessar e manipular as regras em questão. Além disso, as modificações futuras nas recomendações não exigem alterações em nível de sistema, pois apenas alterando o XML as recomendações já são alteradas e inseridas no sistema. Este ponto é destacado também por Aizpurua et al. (2009) que consideraram interessantes as ferramentas flexíveis que não incorporam as recomendações de acessibilidade à lógica, e destacaram que a evolução das recomendações WCAG tornou-se viável para ferramentas com essas características.
Com a evolução da web e da acessibilidade, algumas técnicas de avaliação de acessibilidade web foram desenvolvidas e serão discutidas na próxima seção.